CENTRO DE TRATAMENTO DE DOR: Acupuntura Médica, Ondas de Choque, Fisiatria e Fisioterapia.

Agendar avaliação
Saúde do idoso · Apetite e função

Hiporexia: falta de apetite em idosos, o que é e como combater

Hiporexia é a redução do apetite no idoso, sintoma comum e multifatorial, não doença isolada. Veja a neurobiologia da anorexia do envelhecimento, as causas tratáveis, como rastrear risco nutricional e sarcopenia, e onde a medicina da dor entra.

Resposta direta
  • Hiporexia é a diminuição do apetite. No idoso, costuma ser multifatorial: doenças crônicas, efeito de medicamentos, problemas na boca e nos dentes, depressão, isolamento e a própria dor persistente reduzem a vontade de comer.
  • É diferente de anorexia (ausência completa de apetite) e costuma vir acompanhada de astenia (fraqueza, cansaço) e inapetência. A perda de peso e de massa muscular que pode resultar dela é um sinal de alerta.
  • A investigação e o manejo principais são geriátricos e nutricionais. O papel da medicina da dor, quando há dor crônica ou sarcopenia associadas, é tratar esses fatores que pioram apetite e função, sempre dentro de uma equipe.
4,9Google5,0Doctoralia

40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação médica

Agende uma avaliação com a nossa equipe médica. Diagnóstico e tratamento especializado, em São Paulo.

O que é hiporexia

Hiporexia significa, ao pé da letra, apetite reduzido. É a queda persistente da vontade de comer, com diminuição da quantidade ingerida ao longo do dia. No idoso, raramente tem uma só causa: ela costuma ser o resultado de vários fatores somados sobre uma redução fisiológica do apetite já presente, e é por isso que tratá-la exige primeiro entender o que a sustenta.

Parte da queda do apetite com a idade é fisiológica e tem nome: a anorexia do envelhecimento (anorexia of aging), descrita por Morley e Silver no início dos anos 1990. Ela combina mecanismos identificáveis. No estômago, o relaxamento adaptativo do fundo gástrico, mediado por óxido nítrico, fica reduzido, de modo que o alimento se acumula mais cedo no antro e dispara saciedade precoce; o esvaziamento gástrico também desacelera. No eixo hormonal, a colecistocinina (CCK), hormônio de saciedade liberado pelo duodeno diante de gordura e proteína, tem ação prolongada e sensibilidade aumentada no idoso, enquanto a resposta da grelina (o principal hormônio orexígeno, da fome) se mostra atenuada.

A leptina, hormônio anorexígeno do tecido adiposo, tende a estar relativamente elevada nos homens pela queda da testosterona. Some-se a isso a perda de acuidade do olfato e do paladar (hiposmia e hipogeusia), que reduz o prazer e o estímulo sensorial da comida.

Esse pano de fundo é fisiológico. O problema clínico aparece quando, sobre ele, incidem doenças, medicamentos, dor e questões emocionais, e a ingestão cai a ponto de comprometer peso, força e função. Um mecanismo central nesse salto é a inflamação crônica de baixo grau (“inflammaging”): citocinas pró-inflamatórias como TNF-alfa, interleucina-1 (IL-1) e interleucina-6 (IL-6) agem no hipotálamo suprimindo o apetite, ao mesmo tempo em que aceleram o catabolismo muscular. É a mesma via que liga a hiporexia à sarcopenia e, em doenças graves, à caquexia.

A distinção importa porque muda a conduta. Uma leve redução do apetite, sem perda de peso e sem repercussão na disposição, pode ser apenas a anorexia do envelhecimento. Já a hiporexia que leva à perda de peso involuntária, à fraqueza progressiva e ao emagrecimento da musculatura é um sinal clínico que pede investigação, e nunca deve ser encarada como algo natural da idade que se resolve sozinho.

Mito

“Idoso come pouco mesmo, é da idade. Não tem o que fazer e não precisa investigar.”

Fato

Parte da queda do apetite é fisiológica, mas a hiporexia que vem com perda de peso e fraqueza tem causas tratáveis (remédios, dor, boca, humor, doenças) e merece avaliação. Tratar os fatores costuma melhorar a ingestão e a função.

Sala de procedimentos a laser com equipamento, maca e bancada de insumos
Nossa estrutura Sala de procedimentos com equipamento de laser e maca para tratamentos.

Hiporexia, anorexia, astenia e inapetência: a diferença

Esses termos aparecem juntos em laudos e prontuários e geram confusão. Eles descrevem coisas próximas, mas não iguais, e separá-los ajuda a entender o que o médico está observando.

Termos próximos e o que cada um descreve
TermoO que significaObservação
HiporexiaApetite reduzido, vontade de comer diminuída, mas presenteHá ingestão, porém menor que o necessário
AnorexiaAusência ou perda quase completa do apetiteÉ um sintoma; não confundir com anorexia nervosa, que é um transtorno alimentar
InapetênciaFalta de apetite, usada como sinônimo prático de hiporexia/anorexia leveTermo do dia a dia para a vontade de comer reduzida
AsteniaFraqueza, cansaço e falta de energia, físico e mentalNão é falta de apetite; costuma andar junto e agravar o quadro
CaquexiaPerda intensa de peso e músculo ligada a doença crônica graveEstágio avançado; combina baixa ingestão com inflamação e catabolismo

Na prática, a dupla mais frequente é justamente astenia e hiporexia: o idoso relata que come pouco e que se sente fraco e sem disposição. A combinação de astenia e inapetência aponta para um corpo sob estresse, seja por doença, dor, depressão ou efeito de medicação. Quando a hiporexia evolui para perda importante de peso e massa muscular num contexto de doença crônica, fala-se em caquexia: ao contrário da simples baixa ingestão, ela é movida por inflamação e catabolismo (mediados por TNF-alfa, IL-1 e IL-6) e não se corrige só com mais comida, exigindo abordagem da doença de base. A sarcopenia, por sua vez, é a perda de músculo do envelhecimento, que pode existir mesmo sem doença grave.

Em uma frase

Hiporexia é comer menos por menos apetite; anorexia é não ter apetite; astenia é a fraqueza que costuma acompanhar. O que importa clinicamente é a repercussão: perda de peso, de força e de função.

Sobre o CID (Classificação Internacional de Doenças): a anorexia como sintoma, isto é, a perda de apetite, é codificada em R63.0, no capítulo dos sinais e sintomas gerais, ao lado da perda de peso anormal (R63.4) e da dificuldade de ingestão (R63.3). É um código de sintoma, não de doença, e serve para registrar o achado enquanto a causa de base é investigada. Por isso o CID, sozinho, não define tratamento: ele sinaliza o problema; a conduta vem da causa encontrada.

Por que o idoso perde o apetite: causas multifatoriais

A hiporexia no idoso quase nunca tem uma explicação única. O mais comum é que vários fatores atuem ao mesmo tempo, cada um empurrando o apetite um pouco para baixo. Na geriatria, um roteiro consagrado para não deixar causa passar é o mnemônico “Meals on Wheels”, de Morley, que lista causas reversíveis de perda de peso no idoso: efeito de Medicamentos, problemas Emocionais (depressão), Anorexia tardia e paranoia, Lata (disfunção tardia, alcoolismo), problemas de deglutição (Swallowing), fatores orais e de língua, e assim por diante. Na prática, os fatores se agrupam em quatro grandes eixos.

Clínicas

Doenças e seus efeitos

Insuficiência cardíaca, DPOC, doença renal ou hepática crônica, neoplasias, hipertireoidismo ou hipotireoidismo, infecção crônica e constipação reduzem o apetite. Várias delas o fazem pela mesma via inflamatória (TNF-alfa, IL-1, IL-6) que liga hiporexia a sarcopenia e caquexia.

Medicamentosas

Polifarmácia e Beers

Digoxina (mesmo em nível terapêutico), metformina, opioides, ISRS, ferro oral, antibióticos e anticolinérgicos cortam o apetite, enjoam ou secam a boca. Os critérios de Beers (AGS) listam fármacos potencialmente inapropriados no idoso; quanto maior a lista, maior o risco.

Psiquiátricas

Humor e cognição

A depressão é a causa tratável mais subdiagnosticada de perda de apetite e de peso no idoso; pode ser rastreada com a Escala de Depressão Geriátrica (GDS). Ansiedade, luto, isolamento e demência (que altera reconhecimento de fome e saciedade) também reduzem a ingestão.

Odontológicas

Boca e deglutição

Próteses mal adaptadas, edentulismo, candidíase oral, e xerostomia (boca seca) por anticolinérgicos, diuréticos e antidepressivos reduzem a mastigação e o paladar. A disfagia (orofaríngea ou esofágica) faz a pessoa evitar consistências e comer cada vez menos.

A esses quatro grandes grupos somam-se fatores sociais e funcionais que pesam muito na prática: morar sozinho e cozinhar para uma pessoa só, restrição financeira, dietas terapêuticas restritivas mantidas além do necessário (hipossódica, sem açúcar), limitação para fazer compras e preparar a comida, e a própria dificuldade de levar o alimento à boca por dor ou fraqueza nas mãos e nos braços. O apetite, no idoso, é tanto biológico quanto social.

4 eixos
Clínico, medicamentoso, psíquico, odontológico
<5% / 6m
Perda de peso involuntária que pesa no GLIM
R63.0
CID do sintoma anorexia/perda de apetite
MNA
Rastreio de risco nutricional validado no idoso

Rastrear de forma objetiva ajuda a não banalizar o quadro. Para o estado nutricional, a Mini Nutritional Assessment (MNA) e sua versão curta (MNA-SF, de seis itens) classificam o idoso em risco ou em desnutrição (na MNA-SF, 8 a 11 pontos indicam risco; 0 a 7, desnutrição). O diagnóstico de desnutrição pode ser firmado pelos critérios GLIM (Global Leadership Initiative on Malnutrition), que exigem ao menos um critério fenotípico (perda de peso, baixo IMC ou redução de massa muscular) e um etiológico (baixa ingestão/absorção ou inflamação).

Vale lembrar que albumina e pré-albumina são reagentes de fase aguda negativos: caem na inflamação e não servem como marcadores isolados de desnutrição. Quando há suspeita de sarcopenia associada, o rastreio começa pelo questionário SARC-F e segue com a força de preensão e a velocidade de marcha.

Por ser multifatorial, a hiporexia raramente se resolve com uma única medida, como simplesmente “abrir o apetite” com um remédio. O caminho que funciona é identificar e corrigir, um a um, os fatores presentes: revisar a lista de medicamentos à luz dos critérios de Beers, tratar a doença de base, cuidar da boca e da deglutição, abordar a depressão, ajustar a alimentação e o ambiente. É um trabalho de equipe, e o protagonismo é da avaliação geriátrica e nutricional.

Onde a dor crônica e a sarcopenia entram

Grupo de idosos deitados em colchonetes fazendo exercícios de fortalecimento com as pernas elevadas em uma sala de aula
Manter força muscular ajuda a frear a sarcopenia que costuma andar junto com a perda de apetite

Há um eixo específico em que a medicina da dor tem o que oferecer, sempre dentro da equipe: a relação entre dor crônica, perda de músculo e apetite. Quem convive com dor persistente, seja lombar, articular ou difusa, tende a comer menos por vários motivos somados. A dor reduz o apetite de forma direta, atrapalha o preparo e a própria mastigação quando envolve mandíbula ou articulações, prejudica o sono e o humor, e leva a um uso prolongado de analgésicos que, por sua vez, podem enjoar e prender o intestino. O resultado é um corpo que se alimenta menos e se move menos.

Comer menos e mover-se menos aceleram a sarcopenia, a perda de massa e de força muscular que acompanha o envelhecimento. E a sarcopenia fecha um círculo perverso: menos músculo significa menos força para cozinhar, mastigar e até sentar-se à mesa com disposição, mais cansaço (astenia) e mais dor, o que reduz ainda mais o apetite e o movimento. Hiporexia, sarcopenia e dor crônica costumam se retroalimentar, e atacar um vértice ajuda os outros.

O círculo dor-apetite-músculo e onde intervir
Elo do círculoComo agrava o apetiteOnde a medicina da dor ajuda
Dor crônica persistenteSuprime o apetite, piora sono e humor, dificulta comerControle multimodal da dor, reduzindo a necessidade de analgésicos que enjoam
Sarcopenia (perda de músculo)Menos força para cozinhar e mastigar, mais cansaço e dependênciaReabilitação e exercício resistido orientado, base do tratamento da sarcopenia
InatividadeReduz o gasto e a fome, agrava a perda muscularRetomada gradual do movimento dentro de um limite de dor tolerável
Medicação para dor (uso prolongado)Opioides e outros causam náusea e constipação, que cortam o apetiteRevisão e racionalização da medicação, em conjunto com a equipe

A clínica de dor não trata a hiporexia em si, que é um sintoma de avaliação geriátrica e nutricional. O que a medicina da dor faz é tratar a dor crônica e contribuir no manejo da sarcopenia, dois fatores que, quando presentes, pioram o apetite e a função. Quando a hiporexia não tem relação com dor, ou quando há perda de peso significativa, o passo certo é a avaliação com geriatra e nutricionista, e a clínica encaminha para esse cuidado. Aprofundamos a abordagem desses elos nas páginas sobre dor no idoso e sarcopenia.

Sinais de alerta: quando procurar avaliação sem demora

Homem idoso de cabelos grisalhos com a mao apoiada na testa demonstrando desconforto, cercado por outras pessoas
Apatia, dor e desânimo persistentes em um idoso são sinais de alerta que pedem avaliação medica

A perda de apetite no idoso nunca deve ser banalizada como “coisa da idade”. Alguns sinais indicam que a avaliação não pode esperar, porque a hiporexia pode ser a ponta de uma doença que precisa de diagnóstico. Procure atendimento médico se notar qualquer um destes:

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação médica se houver

  • Perda de peso involuntária e significativa (em geral, mais de 5% do peso em 6 a 12 meses, ou roupas que ficaram visivelmente largas).
  • Recusa quase completa de alimentos e líquidos, ou sinais de desidratação (boca seca, urina escura, confusão).
  • Dificuldade ou dor para engolir, engasgos frequentes, tosse durante as refeições (sugerem disfagia).
  • Tristeza persistente, perda de interesse, isolamento, ideias de morte ou de não querer mais viver.
  • Febre, suor noturno, dor que não passa, vômitos ou sangramento, que apontam para doença a investigar.
  • Queda rápida da força e da disposição, com mais quedas, fraqueza para levantar da cadeira ou subir escada.

Cada item aponta para uma hipótese: a perda de peso involuntária pede investigação de doença orgânica, incluindo câncer, infecção e disfunção de tireoide; a recusa de líquidos com confusão sinaliza desidratação, comum e perigosa no idoso; a disfagia eleva o risco de engasgo e pneumonia; o quadro depressivo é tratável e frequentemente subdiagnosticado. Se houver pensamentos de morte ou sofrimento emocional intenso, a ajuda é imediata, e o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo telefone 188, 24 horas, de forma gratuita e sigilosa.

Como combater a hiporexia: a abordagem que funciona

Casal de idosos visto de costas caminhando de mãos dadas por um corredor de uma instituição de cuidado
Acompanhamento próximo e rotina assistida sustentam o ganho de peso e a recuperação do apetite

Combater a hiporexia no idoso é, antes de tudo, encontrar e tratar as causas. Estimular o apetite com remédio vem por último, e em muitos casos nem chega a ser preciso. O manejo é conduzido por geriatria e nutrição, com apoio de outras especialidades conforme o que a avaliação encontra. A medicina da dor entra como parte dessa equipe quando há dor crônica ou sarcopenia pesando sobre o quadro. A ordem das prioridades costuma ser esta.

A falta de apetite no idoso é multifatorial

No idoso, a falta de apetite costuma ser, ao mesmo tempo, sintoma de várias coisas tratáveis somadas, em geral remédio, humor, boca e, quando há, dor. Buscar o suplemento sem antes procurar e corrigir os fatores que sustentam o quadro erra o alvo: o aporte extra ajuda na margem, mas o apetite só destrava quando se retira o medicamento que enjoa, se trata a depressão, se conserta a prótese e se controla a dor. Achar e somar as causas é o que muda o resultado.

Identificar e corrigir as causas

Revisar a medicação pelos critérios de Beers (retirar o não essencial que enjoa ou seca a boca), tratar a doença de base, cuidar de boca, próteses e disfagia, e rastrear e tratar a depressão (GDS). É o passo de maior impacto e, com frequência, o que dispensa qualquer “orexígeno”.

Intervenção nutricional dirigida

Aporte calórico e, sobretudo, proteico com meta por peso, fracionamento das refeições, enriquecimento dos pratos e suplemento oral (ONS) quando a comida não basta. Conduzida por nutricionista. Detalhada no H3 abaixo.

Ambiente e companhia

Comer acompanhado, em horários regulares, com apoio para compras e preparo. O isolamento reduz a ingestão; a refeição compartilhada melhora o apetite e a quantidade ingerida.

Tratar dor e recuperar músculo

Quando há dor crônica e sarcopenia, controlá-las melhora apetite, sono e função. Aqui entra, em conjunto, a medicina da dor e a reabilitação com exercício resistido.

Intervenção nutricional dirigida

  • O que é: conjunto de estratégias conduzidas por nutricionista para recuperar ingestão calórica e proteica sem depender do apetite espontâneo. É a intervenção de primeira linha na anorexia do envelhecimento, junto à correção das causas.
  • Mecanismo: contorna a saciedade precoce com refeições menores e mais frequentes (5 a 6 ao dia), prioriza alimentos de alta densidade energética (azeite, ovos, laticínios integrais) e protege a massa muscular com proteína concentrada por refeição. A distribuição de cerca de 25 a 30 g de proteína por refeição, rica em leucina, busca ultrapassar o limiar anabólico que, no idoso, está elevado (resistência anabólica).
  • Evidência e metas: diretrizes do grupo PROT-AGE e da ESPEN recomendam, no idoso, ingestão proteica de 1,0 a 1,2 g/kg/dia, subindo para 1,2 a 1,5 g/kg/dia na presença de doença aguda ou sarcopenia (acima das 0,8 g/kg/dia do adulto jovem). Suplementos nutricionais orais (ONS), sobretudo os hiperproteicos, mostram redução de complicações e de mortalidade em idosos desnutridos em metanálises; o HMB (beta-hidroxi-beta-metilbutirato) tem dados favoráveis, porém ainda heterogêneos, sobre preservação de massa magra.
  • O que esperar: a ingestão e o peso costumam responder ao longo de semanas; ganho de força e função são mais lentos e dependem de associar exercício. Atenção à hidratação, porque a sede também diminui com a idade.
  • Indicações: qualquer idoso com hiporexia e risco nutricional na MNA, perda de peso involuntária ou ingestão estimada abaixo da meta proteica.
  • Limitações e cautelas: em desnutrição grave, a reintrodução calórica exige vigilância para síndrome de realimentação (queda de fósforo, potássio e magnésio); dietas restritivas (hipossódica, para diabetes) devem ser liberalizadas quando a prioridade passa a ser comer; a textura é ajustada na disfagia, idealmente com fonoaudiologia.

Estimulantes do apetite (orexígenos): papel limitado e off-label

  • O que é: fármacos usados para tentar aumentar o apetite quando a nutrição dirigida e a correção de causas não bastam. No idoso, têm papel restrito e a maioria é de uso off-label (fora da indicação formal em bula para essa finalidade).
  • Mecanismo (por classe): a mirtazapina é um antidepressivo cujo bloqueio de receptores 5-HT2C e H1 aumenta apetite e melhora o sono, sendo a opção preferida quando coexiste depressão; o acetato de megestrol é um progestágeno que estimula apetite e ganho de peso, mas sobretudo de massa gorda; os canabinoides (como o dronabinol) atuam em receptores CB1. A ciproeptadina, anti-histamínico orexígeno, é desencorajada no idoso por efeito anticolinérgico.
  • Evidência: o benefício sobre o apetite é, em geral, modesto e o ganho de peso costuma ser de gordura, não de músculo; faltam dados consistentes de melhora funcional ou de sobrevida que justifiquem uso amplo.
  • Limitações e riscos (decisivos no idoso): o acetato de megestrol aumenta o risco de tromboembolismo venoso e pode causar supressão adrenal, e por isso consta entre os medicamentos potencialmente inapropriados nos critérios de Beers; a mirtazapina pode causar sedação e tontura; os canabinoides, tontura e alteração cognitiva. A indicação, quando existe, é decisão do geriatra após pesar danos e benefícios.

Reabilitação e exercício resistido: a base contra a sarcopenia

É a intervenção com melhor evidência para a perda de massa e de força no idoso, e o ponto em que a recuperação da função se traduz, muitas vezes, em melhora do apetite. A sarcopenia é definida pelo consenso europeu EWGSOP2 (2019) pela combinação de baixa força muscular (rastreada pela força de preensão e pelo teste de levantar da cadeira) com baixa quantidade ou qualidade de músculo, e a gravidade é confirmada pelo desempenho físico, como a velocidade de marcha (corte usual de 0,8 m/s).

O exercício resistido progressivo (treino de força com carga ajustada) é o estímulo mais eficaz: combate a resistência anabólica do músculo idoso ao aumentar a sensibilidade da síntese proteica muscular ao aporte de proteína e de leucina, sobretudo quando o nutriente é ofertado próximo ao treino. Ganhar força reduz o cansaço, devolve autonomia para cozinhar e comer, e o próprio gasto energético do movimento ajuda a abrir a fome. Na clínica, a reabilitação é individualizada e supervisionada, com progressão lenta e segura, respeitando o limite de dor e as comorbidades.

A resposta aparece ao longo de semanas e o programa é mantido para preservar o ganho. Veja a página sobre fisioterapia motora para idosos.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

No idoso com dor crônica que pesa sobre o apetite, a acupuntura médica entra como adjuvante para modular a dor, nunca como recurso para “abrir a fome”. Atua por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (teoria da comporta), pela ativação de vias inibitórias descendentes a partir da substância cinzenta periaquedutal e da medula rostroventral, e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a estimulação de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides. O elo com a alimentação é indireto: ao reduzir a intensidade da dor e melhorar o sono, ela diminui a necessidade de opioides e anti-inflamatórios que enjoam e prendem o intestino, e um idoso que dorme melhor e sente menos dor à mesa tende a comer um pouco mais.

Por ser uma população frágil, vale conhecer os cuidados próprios da idade: pele fina e uso frequente de anticoagulantes pedem agulhamento mais superficial e atenção a hematomas, e a sessão é encurtada quando há cansaço ou hipotensão postural. O número de sessões e o intervalo são definidos caso a caso pelo médico, conforme a dor responde e a tolerância do paciente, e o plano é reavaliado em consulta antes de ser mantido ou ajustado.

Manejo farmacológico da dor: poupar o que tira o apetite

No campo da dor, a lógica no idoso com hiporexia é dupla: controlar a dor e, ao mesmo tempo, evitar medicações que enjoam, prendem o intestino ou sedam. Prefere-se um controle multimodal com paracetamol por períodos curtos como base, reservando anti-inflamatórios não esteroidais a usos pontuais pelo risco renal, gástrico e cardiovascular nessa faixa etária. Os opioides, quando inevitáveis, exigem profilaxia de constipação e atenção à náusea, dois efeitos que reduzem diretamente a ingestão.

Na dor crônica ou neuropática, antidepressivos em dose baixa podem ter dupla função. Um tricíclico como a amitriptilina ou a nortriptilina ajuda na dor e no sono, mas seu efeito anticolinérgico (boca seca, constipação, retenção urinária) e o risco de queda e confusão pesam no idoso, e ele consta nos critérios de Beers; a duloxetina (um inibidor de recaptação de serotonina e noradrenalina) costuma ser mais bem tolerada. Os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) servem ao componente neuropático, com cautela pela sedação, tontura e necessidade de ajuste à função renal. A escolha pondera interações, função renal e hepática e o risco de queda, e é definida pelo médico assistente.

Primeiras semanas

Avaliar e corrigir

Revisão de medicamentos, exame da boca, rastreio de depressão, ajuste nutricional inicial e controle da dor que limita o comer.

Semanas seguintes

Reabilitar e nutrir

Exercício resistido progressivo, aporte de proteína, refeições enriquecidas e acompanhadas; a dor costuma ceder e a força a melhorar.

Reavaliação

Medir e ajustar

Acompanhar peso, força (preensão e levantar da cadeira) e ingestão; sem a resposta esperada, ampliar a investigação com a equipe.

Medimos a evolução do peso, a força de preensão manual, o tempo para levantar da cadeira e a estimativa da ingestão alimentar e proteica. A meta vai além de “fazer comer mais”: é estabilizar e recuperar peso e força, controlar a dor e devolver autonomia. Se em algumas semanas o peso segue caindo ou a força não responde, a equipe reabre a investigação, procura a causa que passou despercebida (uma doença ainda oculta, um medicamento que continua enjoando, uma depressão mal tratada) e refaz o plano a partir dela.

Da prática clínica · observações para discussão em consulta

Alguns padrões que aparecem no atendimento de idosos com dor, mais úteis quando confirmados no caso de cada pessoa do que tomados como regra. O idoso que come pouco quase nunca tem um motivo só: chega comendo menos por uma soma de coisas ao mesmo tempo, a dor que tira a vontade, a tristeza de comer sozinho, o remédio que enjoa e a prótese que machuca, e ninguém tinha juntado os pontos. Por isso “forçar a comer” costuma piorar: a refeição vira fonte de tensão e cobrança, a pessoa come ainda menos e a família se desgasta. O caminho que dá certo é o contrário, tirar os obstáculos um a um, e o que mais chama atenção é ver o apetite voltar quando se controla a dor e se trata a depressão, sem nenhum “abridor de apetite”. O sinal que a família costuma subestimar é a roupa ficando larga e a perda de força para levantar da cadeira: quando aparece, a investigação não pode esperar, porque a perda de peso e de músculo no idoso abre a porta para mais quedas, internações e fragilidade. E o que mais surpreende quem acompanha é descobrir que a falta de apetite era um sintoma, não a doença, e que o ganho real vem de achar o que estava por trás dele.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre anorexia e hiporexia?

Hiporexia é o apetite reduzido: a pessoa ainda tem vontade de comer, mas menor que o necessário e come pouco. Anorexia, como sintoma, é a ausência ou perda quase completa do apetite. Não confunda essa anorexia-sintoma com a anorexia nervosa, que é um transtorno alimentar diferente. Inapetência é usada no dia a dia como sinônimo de apetite reduzido.

O que significa astenia e hiporexia juntas?

Astenia é fraqueza, cansaço e falta de energia; hiporexia é apetite reduzido. Quando aparecem juntas (astenia e hiporexia, ou astenia e inapetência), costumam indicar um corpo sob estresse, por doença, dor crônica, depressão ou efeito de medicamentos. É uma combinação que merece avaliação, sobretudo no idoso e quando há perda de peso.

Qual é o CID da hiporexia?

A perda de apetite (anorexia como sintoma) é codificada como R63.0, no capítulo de sinais e sintomas. A perda de peso anormal é R63.4 e a dificuldade de ingestão, R63.3. São códigos de sintoma, usados para registrar o achado enquanto a causa é investigada; o CID não define, por si só, o tratamento.

Hiporexia no idoso é sempre algo grave?

Nem sempre, mas não deve ser ignorada. Parte da queda do apetite é fisiológica do envelhecimento. Torna-se preocupante quando há perda de peso involuntária, fraqueza progressiva ou recusa de alimentos e líquidos. Nesses casos, a avaliação geriátrica e nutricional é necessária para encontrar e tratar as causas.

Como o médico mede o risco nutricional do idoso?

Com instrumentos validados, e não só “no olho”. A Mini Nutritional Assessment (MNA) e sua versão curta (MNA-SF) classificam o idoso em estado normal, em risco ou em desnutrição. O diagnóstico de desnutrição pode ser firmado pelos critérios GLIM, que combinam um critério fenotípico (perda de peso, baixo IMC ou pouca massa muscular) com um etiológico (baixa ingestão ou inflamação). Albumina baixa, por si só, não significa desnutrição, pois ela cai também na inflamação. Havendo suspeita de perda muscular, usa-se o questionário SARC-F com a força de preensão e a velocidade de marcha.

A dor crônica pode causar falta de apetite?

Sim. A dor persistente reduz o apetite de forma direta, piora o sono e o humor, dificulta mastigar e cozinhar, e leva ao uso prolongado de analgésicos que podem enjoar e prender o intestino. Controlar a dor, dentro de um plano multimodal e em equipe, tende a melhorar o apetite e a disposição, sem ser um tratamento direto da hiporexia.

Existe remédio para abrir o apetite do idoso?

Não há um remédio que resolva a hiporexia de forma isolada e segura. Os estimulantes do apetite (orexígenos) têm benefício modesto e riscos no idoso: a mirtazapina é a opção preferida quando há depressão associada, enquanto o acetato de megestrol aumenta o risco de trombose e consta nos critérios de Beers. Quase todos são de uso off-label, e a indicação é decisão do geriatra. O que mais ajuda é tratar as causas (medicamentos, doenças, boca, depressão), ajustar a nutrição com meta proteica e, havendo dor e perda de músculo, controlá-las.

A clínica trata a hiporexia?

A hiporexia em si é de avaliação e manejo geriátrico e nutricional, para onde encaminhamos. O papel da medicina da dor é tratar a dor crônica e contribuir no manejo da sarcopenia quando esses fatores estão pesando sobre o apetite e a função, sempre como parte de uma equipe.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

Ver a biblioteca científica completa
Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Morley JE. Anorexia of aging: a true geriatric syndrome. J Nutr Health Aging. 2012;16(5):422-5.
  2. 2023 American Geriatrics Society Beers Criteria Update Expert Panel. American Geriatrics Society 2023 updated AGS Beers Criteria for potentially inappropriate medication use in older adults. J Am Geriatr Soc. 2023;71(7):2052-81.
  3. Cruz-Jentoft AJ, et al. Sarcopenia: revised European consensus on definition and diagnosis (EWGSOP2). Age Ageing. 2019;48(1):16-31.
  4. Bauer J, et al. Evidence-based recommendations for optimal dietary protein intake in older people: the PROT-AGE Study Group. J Am Med Dir Assoc. 2013;14(8):542-59.
  5. Cederholm T, et al. GLIM criteria for the diagnosis of malnutrition: a consensus report from the global clinical nutrition community. Clin Nutr. 2019;38(1):1-9.
Atualizado em 2 jun 2026 Leitura 12 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Como a hiporexia no idoso quase sempre nasce de várias causas somadas, encontrá-las e tratá-las exige exame e história de cada pessoa, idealmente com geriatra e nutricionista; por isso a conduta descrita aqui é geral e precisa ser individualizada em consulta. A revisão ou a troca de qualquer medicamento, inclusive os que tiram o apetite, cabe exclusivamente ao médico assistente.

Equipe médica · Jardim Paulista · 40+ anos

Centro de Tratamento de Dor, Fisiatria e Acupuntura Médica.

Quatro décadas de medicina da dor não cirúrgica, tudo em um só endereço:

Na mídia Globo Folha de S.Paulo Estadão UOL Band SBT IstoÉ ESPN Vogue Marie Claire TV Gazeta