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Cefaleia e enxaqueca · Medicação

Naproxeno para enxaqueca: serve para dor de cabeça?

Sim, o naproxeno serve para a crise de enxaqueca leve a moderada, isolado ou com um triptano. Não é remédio de prevenção, e o uso frequente pode cronificar a dor de cabeça.

Resposta direta
  • Naproxeno é um anti-inflamatório que serve para a crise de enxaqueca e de dor de cabeça leve a moderada. Funciona como abortivo, para cortar a dor instalada, não como remédio preventivo de uso contínuo.
  • Costuma ser mais eficaz quando tomado cedo na crise e, nos quadros mais intensos, combinado com um triptano. A combinação naproxeno mais sumatriptano tende a controlar mais crises do que cada um isolado.
  • Tem riscos a respeitar: gástrico, renal e cardiovascular. E há um limite de dias por mês: usar analgésico em excesso pode gerar cefaleia por uso excessivo de medicação e cronificar a enxaqueca.
  • Quem tem crises frequentes precisa de um plano de prevenção, além do comprimido usado na crise: profilaxia e tratamento não medicamentoso com boa evidência, como a acupuntura.
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Avaliação clínica

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Naproxeno serve para enxaqueca e dor de cabeça?

Ilustração editorial de uma figura humana em azul saltando entre formas geométricas coloridas, com comprimidos e cápsulas dispersos pela composição.
O alívio da crise de enxaqueca depende de tomar o medicamento certo no início dos sintomas.

Serve, sim, mas com um papel bem delimitado: o naproxeno é usado para tratar a crise de enxaqueca ou de cefaleia, e não para preveni-la. É um anti-inflamatório não esteroidal de meia-vida longa, o que ajuda a sustentar o efeito ao longo de uma crise que costuma durar horas.

Na prática clínica, o naproxeno entra como medicação abortiva (também chamada sintomática ou de crise): aquela que se toma quando a dor já começou, com o objetivo de interrompê-la. Está entre os anti-inflamatórios com evidência consistente no tratamento da crise de enxaqueca, ao lado do ibuprofeno e de outros anti-inflamatórios. Para a enxaqueca leve a moderada, um anti-inflamatório bem usado resolve boa parte das crises. Para as crises mais fortes, costuma-se recorrer aos triptanos, isolados ou em combinação com o naproxeno.

É importante separar dois conceitos que confundem muita gente. Tratamento da crise é diferente de tratamento profilático. O comprimido que você toma quando a cabeça já está doendo alivia aquela crise, mas não reduz quantas crises você terá no mês seguinte.

Quem sofre com enxaqueca frequente precisa, além do abortivo, de uma estratégia de prevenção, detalhada mais adiante. O erro comum, e perigoso, é tentar controlar uma enxaqueca frequente apenas tomando cada vez mais analgésico.

Em uma frase

O naproxeno é um bom remédio para a crise de enxaqueca leve a moderada, mas não é remédio de prevenção. Se você precisa dele muitas vezes por mês, o problema não é a dose, é a falta de um plano de tratamento da enxaqueca.

Vista superior do átrio da clínica com ripas verticais de madeira e passarela central
Nossa estrutura Vista superior do átrio em vários pavimentos, com ripas verticais de madeira.

Como o naproxeno age na enxaqueca

A enxaqueca não é uma dor de cabeça comum. É um distúrbio neurológico em que, durante a crise, ocorre ativação do sistema trigeminovascular: terminações do nervo trigêmeo ao redor dos vasos das meninges liberam neuropeptídeos inflamatórios, com destaque para o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), gerando o que se chama de inflamação neurogênica estéril, vasodilatação e sensibilização das vias da dor. É essa cascata que produz a dor pulsátil característica.

O naproxeno, como todo anti-inflamatório, atua inibindo as enzimas ciclo-oxigenase (COX-1 e COX-2) e, com isso, a produção de prostaglandinas, mediadores centrais da inflamação e da sensibilização dos nociceptores. Ao reduzir as prostaglandinas no foco da inflamação neurogênica perivascular, o naproxeno diminui a sensibilização periférica e ajuda a abortar a crise. Não age sobre o CGRP diretamente, como fazem os triptanos e as medicações mais novas, mas ataca um elo paralelo e relevante da mesma cascata. Por isso a combinação de um anti-inflamatório com um triptano faz sentido fisiológico: são dois mecanismos complementares agindo sobre a mesma crise.

A meia-vida longa do naproxeno (em torno de 12 a 17 horas) é uma vantagem na enxaqueca, cujas crises podem se arrastar e ter recorrência da dor no mesmo dia. Um anti-inflamatório de ação mais prolongada tende a cobrir melhor esse intervalo do que analgésicos de ação curta, reduzindo a chance de a dor voltar poucas horas depois.

Meia-vida longa: vantagem na enxaqueca menstrual, armadilha no uso frequente

A mesma meia-vida longa que faz do naproxeno um anti-inflamatório bem adaptado às crises arrastadas é o que o torna, entre os anti-inflamatórios, um dos mais lógicos para a janela previsível da enxaqueca menstrual: como se sabe de antemão quando a crise tende a chegar, um anti-inflamatório de ação prolongada pode ser usado de forma programada, em um curto bloco de dias ao redor da menstruação, como mini-profilaxia de curto prazo, em vez de servir apenas de resgate depois que a dor instala. Mas essa mesma facilidade esconde a contrapartida que quase ninguém explica: tomada com frequência demais, qualquer medicação de crise pode inverter de papel e passar a causar dor de cabeça (a cefaleia por uso excessivo de medicação). O naproxeno não é exceção. A virtude e a armadilha moram na mesma molécula, e o que separa as duas é o número de dias de uso por mês.

Dose, momento e quando ele ajuda

Comprimidos ovais alaranjados espalhados sobre tecido cinza ao lado de um frasco branco aberto.
A dose do naproxeno deve respeitar o intervalo e a quantidade indicados para evitar efeitos adversos.

Duas regras valem mais do que a dose exata. A primeira: tome cedo. O anti-inflamatório é muito mais eficaz quando ingerido no início da crise, enquanto a dor ainda é leve e antes que a sensibilização central se instale.

Esperar a dor ficar forte para medicar reduz a chance de cortá-la. A segunda: dose adequada de uma vez, e não o hábito de ir tomando meio comprimido a cada hora, que só aumenta a exposição ao remédio sem o benefício de cortar a crise.

As apresentações do naproxeno em comprimido costumam variar entre 250 mg, 500 mg e 550 mg (esta na forma de naproxeno sódico, de absorção um pouco mais rápida). No tratamento da crise de enxaqueca, em geral se emprega uma dose inicial maior, com possibilidade de uma dose adicional ao longo do dia conforme orientação médica, sempre respeitando a dose máxima diária e os intervalos. A definição da dose, da formulação e da duração é individual e deve ser feita pelo médico, que pesa idade, peso, função renal, histórico gástrico e outros remédios em uso.

Cedo
Tomar no início da crise, com dor ainda leve
Anti-inflamatório
Classe do naproxeno: anti-inflamatório não esteroidal
12 a 17h
Meia-vida longa, cobre crises arrastadas
≤2d
Dias de analgésico por semana, como teto de segurança

O naproxeno tende a ajudar bem nestes cenários: crise de intensidade leve a moderada; pessoa que prefere ou precisa evitar triptano (por contraindicação cardiovascular, por exemplo); enxaqueca menstrual, em que a relação com as prostaglandinas costuma tornar os anti-inflamatórios particularmente úteis; e como parceiro do triptano nas crises fortes, em que a combinação supera cada medicamento isolado e reduz a recorrência da dor. Já tende a ajudar pouco quando a crise é intensa desde o início, quando há vômitos que impedem o comprimido de ser absorvido, ou quando as crises são tão frequentes que o problema deixou de ser a crise isolada e passou a ser a falta de profilaxia.

Naproxeno: quando tende a ajudar e quando não é a melhor escolha
SituaçãoPapel do naproxenoObservação clínica
Crise leve a moderadaBoa opção de primeira linhaMais eficaz se tomado cedo, em dose adequada
Crise intensaAdjuvante do triptanoCombinação naproxeno + triptano supera cada um isolado
Enxaqueca menstrualCostuma responder bemComponente de prostaglandinas favorece os anti-inflamatórios
Náusea e vômito intensosLimitado por via oralPode exigir via alternativa ou antiemético associado
Crises frequentes (vários dias/mês)Insuficiente isoladoSinaliza necessidade de profilaxia; risco de uso excessivo

Segurança: riscos gástrico, renal e cardiovascular

Por ser vendido sem grande cerimônia, o naproxeno passa a impressão de ser inofensivo, e não é. Como todo anti-inflamatório, tem efeitos adversos relevantes, sobretudo com uso frequente ou em pessoas com fatores de risco. Vale conhecê-los para usar com critério e saber quando o anti-inflamatório não é uma boa escolha para você.

O risco gastrointestinal é o mais conhecido: ao inibir a COX-1, o naproxeno reduz a proteção da mucosa do estômago e pode causar gastrite, dispepsia, úlcera e sangramento digestivo. Tomar com alimento ajuda no desconforto, mas não elimina o risco de lesão. Pessoas com história de úlcera, idosos e quem usa corticoide ou anticoagulante estão mais expostos, e às vezes precisam de um protetor gástrico junto, sempre com avaliação médica.

O risco renal vem da inibição das prostaglandinas que mantêm o fluxo sanguíneo dos rins. Em quem já tem função renal reduzida, está desidratado ou usa certos remédios para pressão e diuréticos, o anti-inflamatório pode precipitar piora da função renal. Por isso o naproxeno é evitado ou usado com muita cautela em doença renal crônica.

O risco cardiovascular existe para a classe dos anti-inflamatórios, com aumento, em graus variáveis, de eventos como infarto e AVC, sobretudo com doses altas e uso prolongado. O naproxeno é, entre os anti-inflamatórios, um dos de perfil cardiovascular mais favorável, mas isso não o torna isento: em quem tem doença cardiovascular ou hipertensão mal controlada, o uso pede cautela e orientação. Os anti-inflamatórios também podem elevar a pressão arterial e reduzir o efeito de alguns anti-hipertensivos.

Atenção · não use por conta própria nestes casos

Procure orientação antes de usar naproxeno se houver

  • História de úlcera, gastrite grave, sangramento digestivo, ou uso de anticoagulante ou corticoide.
  • Doença renal crônica, desidratação, ou uso de diuréticos e remédios para pressão.
  • Doença cardiovascular, insuficiência cardíaca ou hipertensão mal controlada.
  • Gravidez (especialmente o terceiro trimestre) ou amamentação, asma por intolerância a anti-inflamatórios.
  • Uso de outro anti-inflamatório ao mesmo tempo (não some anti-inflamatórios) ou alergia conhecida a anti-inflamatórios.

Há ainda a sobreposição: tomar mais de um anti-inflamatório ao mesmo tempo, ou somar o naproxeno a ácido acetilsalicílico, multiplica o risco gástrico sem ganho de eficácia. E qualquer dor de cabeça que muda de padrão, que é a pior da vida e de início súbito, ou que vem com febre, déficit neurológico ou após trauma exige avaliação, e não mais um comprimido. Esses sinais apontam para uma cefaleia secundária, que precisa de investigação.

O alerta da cefaleia por uso excessivo de analgésico

Este é o ponto mais importante de toda esta página, e o mais ignorado por quem trata a própria enxaqueca só com comprimido. Usar analgésico em excesso para dor de cabeça pode causar mais dor de cabeça. O quadro tem nome: cefaleia por uso excessivo de medicação (MOH). É uma das principais causas de transformação de uma enxaqueca episódica em uma enxaqueca crônica, com dor em quase todos os dias.

O mecanismo é uma armadilha. A pessoa tem crises, toma o remédio, alivia, mas, à medida que o uso se torna frequente, o cérebro reage com sensibilização das vias da dor e queda do limiar para novas crises. As dores ficam mais frequentes, a pessoa toma mais remédio, e instala-se um ciclo que se autoalimenta.

O tratamento da MOH passa, em geral, por retirar o analgésico em excesso e introduzir uma profilaxia adequada, sob orientação. Tratamos esse cenário com mais profundidade no texto sobre cefaleia por uso excessivo de medicamentos.

Por isso existe um limite prático de dias de medicação por mês, e não de comprimidos por crise. Para analgésicos simples e anti-inflamatórios como o naproxeno, o alerta acende a partir de cerca de 15 dias de uso por mês; para triptanos, opioides e combinações com cafeína, o limite é mais baixo, por volta de 10 dias por mês. Uma régua de bolso mais segura, que costumo orientar, é não passar de 2 a 3 dias de medicação de crise por semana. Ultrapassar esse patamar de forma habitual é o sinal mais claro de que falta uma estratégia de prevenção.

Limite de dias de medicação por mês (sinal de alerta para uso excessivo)
Tipo de medicação de criseLimite de alertaPor quê
Anti-inflamatórios (naproxeno, ibuprofeno) e analgésicos simplesA partir de ~15 dias/mêsUso frequente cronifica a dor
TriptanosA partir de ~10 dias/mêsMaior potencial de cronificação
Combinações com cafeína, opioides, ergotamínicosA partir de ~10 dias/mêsRisco mais alto de uso excessivo
Régua prática geralAté 2 a 3 dias/semanaAcima disso, considerar profilaxia
A pergunta-chave

Quantos dias por mês você toma remédio para dor de cabeça? Se a resposta passa de 8 a 10 dias, o caminho não é trocar de analgésico, é montar um plano de tratamento da enxaqueca. Mais comprimido, nesse ponto, alimenta o problema.

Assista: Enxaqueca dá tontura? Enxaqueca dá náuseas? Quando me preocupar?

O tratamento completo da enxaqueca, além do comprimido da crise

O naproxeno trata a crise. Tratar a enxaqueca é outra coisa, e mais ampla. Um plano bem feito tem dois eixos que se complementam: o tratamento abortivo, para cortar a crise quando ela vem, e o tratamento profilático, para reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises ao longo do tempo.

Em volta desses dois eixos, há um arsenal não medicamentoso com evidência real, que diminui a dependência de remédios e ataca a enxaqueca por vias diferentes. A meta é reduzir a carga da doença a um patamar que devolva qualidade de vida.

Abortivo e profilaxia: a divisão que muda tudo

O abortivo é a medicação da crise: anti-inflamatórios como o naproxeno, triptanos (sumatriptano, rizatriptano, entre outros), antieméticos para a náusea e, quando indicado, combinações. A regra é usar cedo, em dose adequada, e respeitar o teto de dias por mês.

A profilaxia entra quando as crises são frequentes (em geral a partir de quatro ou mais por mês), muito incapacitantes, ou quando o abortivo já está sendo usado em excesso. É um tratamento de uso contínuo, por meses, com remédios de classes que nada têm a ver com analgésicos: betabloqueadores (propranolol), antidepressivos tricíclicos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina), anticonvulsivantes (topiramato) e, em casos selecionados, os anticorpos anti-CGRP. A escolha é individual, guiada pelas comorbidades de cada pessoa.

Detalhamos duas dessas opções nos textos sobre propranolol para enxaqueca e nortriptilina (Pamelor) para enxaqueca. A profilaxia leva semanas para mostrar efeito e exige paciência: o erro comum é abandoná-la antes de dar tempo de funcionar.

Tratamento da crise (abortivo) versus prevenção (profilaxia)
AspectoAbortivo (crise)Profilaxia (prevenção)
Quando se usaQuando a dor já começouTodos os dias, por meses, fora das crises
ObjetivoCortar aquela criseReduzir frequência e intensidade das crises
ExemplosNaproxeno, triptanos, antieméticosPropranolol, amitriptilina, topiramato, anti-CGRP
Limite de usoDias por mês (risco de cronificar)Uso contínuo, sem o risco de uso excessivo

Hábitos e gatilhos

Sono regular, hidratação, refeições sem grandes jejuns, manejo do estresse e identificação de gatilhos. Base de qualquer plano.

Tratamento da crise

Abortivo bem usado e cedo: anti-inflamatório como o naproxeno, triptano ou a combinação, respeitando o teto de dias por mês.

Profilaxia e terapias não medicamentosas

Para crises frequentes: medicação preventiva contínua somada a acupuntura, eletroacupuntura e reabilitação cervical.

Casos refratários

Enxaqueca crônica que não responde: toxina botulínica pelo protocolo específico e anticorpos anti-CGRP, em avaliação especializada.

Acupuntura e eletroacupuntura: a evidência mais forte do arsenal não medicamentoso

Entre os tratamentos não medicamentosos da enxaqueca, a acupuntura é o de evidência mais robusta, e é justamente o eixo que mais reduz quantos dias por mês a pessoa precisa recorrer ao naproxeno ou a um triptano. O mecanismo passa por modulação das vias da dor no corno dorsal e no tronco encefálico (teoria da comporta), ativação de vias inibitórias descendentes a partir da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostral ventromedial, e liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides. Há também efeito sobre a excitabilidade cortical e sobre a modulação autonômica, ambos relevantes na fisiologia da enxaqueca. Revisões sistemáticas mostram que a acupuntura reduz a frequência das crises de enxaqueca, com benefício comparável ao de medicações profiláticas em parte dos estudos e com perfil de efeitos adversos muito favorável; por isso é recomendada por diretrizes como a do NICE em contextos selecionados.

O que esperar é diferente do que se espera de um comprimido de crise: a acupuntura é tratamento preventivo, e o efeito se constrói ao longo de algumas semanas de sessões reavaliadas pelo diário de crises, não na primeira agulha. Quem chega esperando o alívio imediato do naproxeno costuma se frustrar nas primeiras visitas; quem mede a frequência das crises ao longo de um ciclo é que percebe o ganho. É uma opção especialmente valiosa em três cenários ligados a este texto: para quem já bateu no teto de dias de analgésico por mês, para quem instalou cefaleia por uso excessivo de medicação e precisa retirar o anti-inflamatório sem ficar sem nada, e para quem tem contraindicação cardiovascular ao triptano e gástrica ou renal ao naproxeno, justamente o perfil que mais fica sem boa opção farmacológica de crise. Na clínica, examina-se o componente cervical do pescoço antes de agulhar e ajusta-se o plano à luz do que o diário mostra.

Revisão sistemática · enxaquecaEvidência consistente

Acupuntura reduz a frequência das crises de enxaqueca

Revisões sistemáticas indicam que a acupuntura reduz a frequência das crises na enxaqueca episódica, com efeito que pode se comparar ao de profilaxias medicamentosas em parte dos estudos e com baixa taxa de efeitos adversos. O desfecho relevante aqui não é apagar uma crise pontual, e sim diminuir quantas crises (e quantos comprimidos) a pessoa terá no mês, exatamente onde o naproxeno isolado não atua.

Ver referências →

Agulhamento seco de pontos-gatilho e reabilitação cervical

Boa parte das pessoas com enxaqueca tem, somado, um forte componente cervical e miofascial: pontos-gatilho na musculatura suboccipital, no trapézio superior e no elevador da escápula que referem dor para a cabeça e participam da deflagração das crises. Faz sentido fisiológico: os aferentes da coluna cervical alta (C1 a C3) convergem com o nervo trigêmeo no núcleo trigêmino-cervical, no tronco encefálico, de modo que a entrada de dor pelo pescoço alimenta o mesmo circuito da enxaqueca. Tratar esse componente costuma reduzir a frequência e a intensidade das crises.

No agulhamento seco, uma agulha fina é inserida diretamente na banda tensa do ponto-gatilho suboccipital ou do trapézio superior; quando a agulha encontra o ponto, costuma surgir uma contração visível e involuntária do feixe muscular, a resposta de contração local, sinal de que se atingiu o alvo. Essa resposta reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a concentração local de substâncias álgicas, baixando a aferência nociceptiva que, pela via cervicotrigeminal, alimenta a crise de enxaqueca. Ao contrário do naproxeno, que age na cascata química da crise instalada, aqui se trata a fonte muscular que dispara e perpetua as dores; por isso o objetivo não é cortar a crise de hoje, e sim reduzir a frequência ao longo das semanas. O efeito sobre o ponto pode aparecer já na sessão ou ao longo dos dias seguintes, com dor leve no local por um a dois dias.

A reabilitação cervical dá sustentação ao resultado: ativação dos flexores profundos do pescoço, estabilização escapulotorácica, fortalecimento progressivo e correção de fatores posturais (a cabeça projetada à frente nas horas de tela é um vilão clássico), com terapia manual como adjuvante. Essa relação entre pescoço e dor de cabeça é o tema do nosso texto sobre como a dor no pescoço causa dor de cabeça.

Toxina botulínica na enxaqueca crônica

Para a enxaqueca crônica (definida como dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses, com características de enxaqueca em pelo menos oito desses dias), a toxina botulínica tipo A tem evidência consolidada, aplicada pelo protocolo PREEMPT, com pontos de injeção padronizados na cabeça e no pescoço. O mecanismo vai além do relaxamento muscular: a toxina bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos, como o CGRP, a substância P e o glutamato, com efeito antinociceptivo sobre as terminações do trigêmeo. O que esperar: início do efeito em cerca de 2 a 4 semanas, duração em torno de 3 a 4 meses e benefício cumulativo ao longo de ciclos repetidos. É um tratamento para a forma crônica e refratária, não para a enxaqueca episódica comum, e a indicação, a escolha do produto e as doses cabem ao médico.

Nenhuma dessas modalidades substitui as demais. O plano é multimodal e individualizado. Hábitos e manejo de gatilhos são a base; o abortivo trata a crise; a profilaxia (medicamentosa e não medicamentosa) reduz a frequência; e os recursos para casos refratários entram quando o quadro não responde ao tratamento inicial bem conduzido. A acupuntura, a reabilitação cervical e o agulhamento somam-se a esse conjunto, em vez de competir com ele, e são particularmente úteis para reduzir a quantidade de analgésico que a pessoa precisa tomar.

Da prática clínica

O erro de momento é mais comum que o erro de dose. A maioria das pessoas que dizem que “o naproxeno não funciona” na verdade o toma tarde, quando a dor já está forte e a sensibilização instalada. Orientadas a tomar a dose adequada logo no primeiro sinal, e de uma vez, em vez de fracionar, muitas mudam de opinião sobre o mesmo remédio.

Na enxaqueca menstrual, a meia-vida longa rende. Para quem tem crises ancoradas no ciclo, usar o naproxeno em um bloco curto de dias na janela previsível da menstruação costuma render mais do que esperar a crise chegar para então correr atrás dela. É uso de curto prazo e datado, sempre desenhado com o médico.

A armadilha não avisa. Quem instala cefaleia por uso excessivo de medicação raramente percebe: a dor vai ficando mais frequente, a pessoa toma mais comprimido, e a conta de dias por mês passa despercebida porque cada dose “resolveu”. A pergunta que reorienta a consulta nunca é qual analgésico, e sim em quantos dias do mês.

Quando o anti-inflamatório falha de forma repetida, o caminho é escalar, não insistir. Se o naproxeno bem tomado não corta crises moderadas a fortes em tentativas sucessivas, o passo seguinte costuma ser um triptano, isolado ou combinado ao próprio naproxeno, e não dobrar a aposta no anti-inflamatório. O que mais surpreende quem chega é descobrir que tomar menos remédio de crise, com um plano de prevenção por trás, costuma doer menos do que tomar mais.

Semana 1 a 2

Mapear e organizar

Diário de crises (frequência, gatilhos, quantos dias toma remédio), ajuste de sono, hidratação e rotina, e revisão do uso de analgésicos.

Semana 3 a 8

Estruturar o tratamento

Abortivo bem definido e, se as crises forem frequentes, início de profilaxia e do ciclo de acupuntura ou reabilitação cervical.

Após 2 a 3 meses

Reavaliar por metas

Comparar frequência e intensidade das crises com o diário; ajustar a profilaxia e, na enxaqueca crônica refratária, considerar toxina botulínica ou anti-CGRP.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Naproxeno serve para dor de cabeça e enxaqueca?

Sim. O naproxeno é um anti-inflamatório usado para tratar a crise de dor de cabeça e de enxaqueca de intensidade leve a moderada. Ele alivia a crise instalada, mas não previne novas crises. É mais eficaz quando tomado cedo, no início da dor, e nos quadros fortes costuma ser combinado com um triptano. Não deve ser usado todos os dias, pelo risco de cefaleia por uso excessivo de medicação.

Naproxeno é bom para enxaqueca forte?

Para a crise intensa, o naproxeno sozinho costuma ser insuficiente. Nesses casos, ele tende a ser mais útil em combinação com um triptano, porque os dois atuam por mecanismos diferentes e complementares sobre a mesma crise, com melhor controle da dor e menos recorrência. A escolha entre anti-inflamatório, triptano ou a combinação depende do seu quadro e deve ser orientada pelo médico.

Quantas vezes por mês posso tomar naproxeno para dor de cabeça?

Não há um número fixo de comprimidos, e sim um limite de dias de medicação por mês. Para anti-inflamatórios e analgésicos simples, o alerta para cefaleia por uso excessivo acende a partir de cerca de 15 dias por mês; uma régua prática mais segura é não passar de 2 a 3 dias de medicação de crise por semana. Quem precisa de remédio para dor de cabeça em muitos dias do mês deve procurar avaliação para iniciar um tratamento preventivo.

Posso tomar naproxeno com sumatriptano?

A combinação de um anti-inflamatório como o naproxeno com um triptano é uma estratégia reconhecida para crises de enxaqueca mais intensas, e tende a controlar mais crises do que cada um isolado. Mas a indicação, a dose e as contraindicações (sobretudo cardiovasculares para o triptano) precisam ser avaliadas por um médico.

Naproxeno ou ibuprofeno para enxaqueca, qual é melhor?

Ambos são anti-inflamatórios com evidência na crise de enxaqueca. O naproxeno tem meia-vida mais longa, o que pode ajudar em crises arrastadas ou com recorrência da dor; o ibuprofeno tem ação mais rápida e meia-vida curta. A melhor escolha depende do padrão das suas crises, da tolerância e das comorbidades. Veja também o nosso texto sobre ibuprofeno para enxaqueca.

Naproxeno corta a crise ou previne a enxaqueca?

Corta a crise. O naproxeno é uma medicação abortiva: trata a dor que já começou. Ele não tem papel de profilaxia, isto é, não reduz quantas crises você terá. A prevenção da enxaqueca usa outras classes de remédio (como propranolol, amitriptilina ou topiramato) e tratamentos não medicamentosos, como a acupuntura, sempre com indicação individual.

Qual a dose de naproxeno 500 mg para enxaqueca?

O naproxeno existe em apresentações de 250 mg, 500 mg e 550 mg (naproxeno sódico). Na crise de enxaqueca costuma-se empregar uma dose inicial maior tomada cedo, de uma vez, com possibilidade de uma dose adicional ao longo do dia conforme orientação, sempre respeitando a dose máxima diária. O esquema exato depende de idade, peso, função renal e histórico gástrico, por isso a dose deve ser definida pelo médico.

Quanto tempo o naproxeno leva para agir na dor de cabeça?

O alívio costuma começar dentro da primeira hora após a tomada, variando conforme a formulação (o naproxeno sódico tende a ser absorvido um pouco mais rápido), o estômago estar ou não vazio e o quanto a crise já avançou. Por isso a regra mais importante é tomar cedo, com a dor ainda leve: esperar a dor ficar forte reduz a chance de cortá-la. A vantagem do naproxeno é a meia-vida longa, que ajuda a sustentar o efeito ao longo de uma crise arrastada.

Naproxeno é melhor que dipirona ou paracetamol para enxaqueca?

São coisas diferentes. O naproxeno é um anti-inflamatório, que age na inflamação neurogênica da crise; a dipirona e o paracetamol são analgésicos simples, sem o mesmo efeito anti-inflamatório. Nas crises leves a moderadas, um anti-inflamatório bem usado costuma ter desempenho consistente, mas o analgésico simples pode ser preferido em quem tem contraindicação a anti-inflamatórios (risco gástrico, renal ou cardiovascular). A escolha é individual e deve ser orientada pelo médico.

Prof. Dr. Hong Jin Pai
Sobre o autor
Prof. Dr. Hong Jin Pai
CRM-SP 36.399RQE 29.862

Médico com atuação em Acupuntura Médica, dor, ensino clínico e formação médica continuada. Diretor técnico da Clínica Dr. Hong Jin Pai.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Law S, Derry S, Moore RA. Naproxeno com ou sem antiemético para crises agudas de enxaqueca em adultos (revisão Cochrane). Cochrane Database Syst Rev. 2013;(10):CD009455. acessar
  2. Marmura MJ, Silberstein SD, Schwedt TJ. The acute treatment of migraine in adults: the American Headache Society evidence assessment of migraine pharmacotherapies. Headache. 2015;55(1):3-20. acessar
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A escolha entre tratar só a crise ou também prevenir a enxaqueca é uma decisão individualizada, tomada com quem acompanha o seu caso.

Equipe médica · Jardim Paulista · 40+ anos

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