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Quadril · Osso e articulação

Necrose da cabeça do fêmur (osteonecrose)

A necrose da cabeça do fêmur, ou osteonecrose, é a morte de parte do osso do quadril por falta de irrigação. Sem sangue o osso enfraquece e pode colapsar, com dor na virilha. O diagnóstico precoce amplia o tratamento.

Resposta direta
  • A necrose óssea da cabeça do fêmur é a morte do tecido ósseo por falta de circulação; quando o osso enfraquecido cede, a cabeça do fêmur necrosada colapsa e a articulação se deteriora.
  • O sintoma mais comum é dor na virilha que piora ao apoiar o peso e ao caminhar; pode haver dor mesmo em repouso e à noite nas fases mais avançadas.
  • O tratamento depende do estágio (classificação de Ficat). Antes do colapso, há opções de preservar a cabeça do fêmur, incluindo cirurgia precoce; após o colapso, costuma-se discutir prótese (artroplastia). A decisão sobre operar é do ortopedista.
  • A clínica de dor atua de forma adjuvante: controlar a dor, manter a mobilidade e conduzir a reabilitação antes e depois da cirurgia. O tratamento que reverte o quadro é estrutural, conduzido pelo ortopedista.
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O que é a necrose da cabeça do fêmur

A necrose da cabeça do fêmur (também chamada de osteonecrose ou necrose avascular) é a morte de uma área do osso na parte superior do fêmur, a cabeça que se encaixa na bacia para formar o quadril. A causa imediata é sempre a mesma: o osso deixou de receber sangue suficiente para se manter vivo.

A cabeça do fêmur tem uma circulação peculiar e vulnerável. O sangue chega por poucos vasos, que entram por uma região estreita do colo femoral. Quando esse fluxo é interrompido ou reduzido, as células ósseas e da medula morrem em poucas horas a dias. No início, a forma do osso ainda está preservada e nada aparece por fora.

Com o tempo, porém, o osso morto perde resistência mecânica. Sob a carga do peso do corpo, a superfície articular pode ceder e formar um degrau, um afundamento que chamamos de colapso subcondral. É a partir daí que a articulação se deteriora rapidamente e evolui para artrose secundária.

Vale distinguir alguns termos que os pacientes encontram em laudos e buscas. “Cabeça do fêmur necrosada” e “cabeça do fêmur com necrose” descrevem o osso morto pela falta de irrigação. “Cabeça do fêmur gasta” ou “desgaste da cabeça do fêmur” são expressões populares que costumam se referir ao estágio mais avançado, quando já há perda de cartilagem e deformidade, próximo da artrose. São fases de um mesmo processo, e diferenciá-las importa porque o tratamento muda conforme o estágio. A osteonecrose afeta com mais frequência adultos entre 30 e 50 anos, muitas vezes em ambos os quadris, e é uma causa relevante de necessidade de prótese de quadril em pessoas jovens.

Mito

“Necrose óssea quer dizer que o osso está morrendo para sempre e o quadril não tem mais jeito.”

Fato

Necrose é morte de uma área de osso por falta de irrigação. Quando descoberta cedo, antes do colapso da superfície, há tratamentos que buscam preservar a cabeça do fêmur. Mesmo nas fases avançadas, a artroplastia (prótese) costuma devolver função e aliviar a dor. O essencial é diagnosticar e estadiar logo.

Fisioterapeuta orientando exercício de perna com aro de pilates em paciente deitada
Reabilitação na clínica Exercício de fortalecimento com aro de pilates na fisioterapia

Por que a cabeça do fêmur necrosa

As causas se dividem em dois grupos. Há a osteonecrose traumática, em que uma fratura do colo do fêmur ou uma luxação do quadril rompe ou estrangula os vasos que irrigam a cabeça femoral. E há a osteonecrose não traumática, em que o fluxo de sangue é comprometido sem uma lesão direta, por fatores que afetam a microcirculação do osso.

Entre as causas não traumáticas, duas se destacam pela frequência. O uso de corticoides em doses altas ou por tempo prolongado, frequentemente no tratamento de doenças reumatológicas, autoimunes ou após transplantes, é um dos principais fatores. O consumo excessivo e crônico de álcool é o outro. Acredita-se que ambos atuem favorecendo o acúmulo de gordura dentro do osso e a obstrução de pequenos vasos, reduzindo a irrigação local.

Outros fatores reconhecidos incluem doenças que alteram o sangue e a coagulação, como a anemia falciforme e estados de hipercoagulabilidade; o lúpus e outras doenças autoimunes; a doença descompressiva dos mergulhadores; a radioterapia na região; e algumas condições que afetam o metabolismo. Em parte dos casos, mesmo após investigação, não se encontra um fator claro: é a osteonecrose idiopática.

Identificar o fator de risco tem valor prático. Quando há corticoide em uso, por exemplo, a conduta é alinhada com o médico que o prescreveu, para usar a menor dose eficaz; quando há álcool, a redução do consumo faz parte do cuidado; e a presença de fatores sistêmicos (doença reumatológica, distúrbio de coagulação) reforça a necessidade de acompanhamento com o especialista da causa de base, em paralelo ao cuidado ortopédico.

Trauma

Fratura do colo do fêmur ou luxação do quadril que rompe os vasos da cabeça femoral.

Corticoide

Doses altas ou uso prolongado; um dos principais fatores não traumáticos.

Álcool

Consumo crônico e excessivo, associado à obstrução de pequenos vasos do osso.

Doenças do sangue

Anemia falciforme e estados de hipercoagulabilidade que comprometem a circulação.

Autoimunes

Lúpus e outras condições, muitas vezes somadas ao uso de corticoide.

Idiopática

Parte dos casos não tem um fator identificável mesmo após investigação.

Sintomas: como reconhecer a cabeça do fêmur necrosada

No começo, a osteonecrose costuma ser silenciosa. O osso já está morrendo, mas a forma da cabeça do fêmur ainda está preservada e não há dor. Por isso, em pessoas com fatores de risco conhecidos (por exemplo, em uso de corticoide em dose alta), vale manter atenção, já que a doença pode acometer os dois lados antes de qualquer sintoma.

Quando a dor aparece, o padrão tem características reconhecíveis. A queixa principal costuma ser dor na virilha, que pode irradiar para a face interna da coxa, para a nádega ou para o joelho. Tipicamente, a dor piora ao apoiar o peso sobre a perna, ao caminhar e ao subir escadas, e melhora ao sentar ou deitar.

Com a progressão e o colapso da cabeça do fêmur, a dor tende a se tornar mais intensa e constante, podendo ocorrer em repouso e à noite, e surgem limitação para girar o quadril, claudicação (mancar) e a sensação de quadril “travado”. Esse padrão de dor de quadril, com origem na virilha, é o mesmo que diferenciamos de outras causas no guia geral de dor no quadril.

Sinais de alerta · avaliação sem demora

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  • Dor na virilha que piora ao apoiar o peso e ao caminhar, sobretudo se você usa ou usou corticoide em dose alta, tem doença reumatológica ou faz uso intenso de álcool.
  • Dor de quadril que passa a doer em repouso ou que acorda você à noite.
  • Piora rápida da dor com sensação de “afundamento”, instabilidade ou bloqueio do movimento do quadril, que pode indicar colapso da cabeça do fêmur.
  • Dor de quadril após trauma importante, ou em pessoa imunossuprimida.
  • Febre, perda de peso sem explicação ou história de câncer associadas à dor óssea, que pedem investigação de outras causas.

A confirmação diagnóstica é feita por imagem. A radiografia pode estar normal nas fases iniciais e por isso o exame de escolha para o diagnóstico precoce é a ressonância magnética, que detecta a necrose antes de qualquer alteração visível no raio-X. A imagem também serve para estadiar a doença, o que orienta diretamente o tratamento.

Da prática clínica

Há um padrão que aprendi a respeitar: o adulto jovem, na faixa dos 30 aos 50 anos, com dor profunda na virilha que não se comporta como uma dor mecânica comum. Não é a dor lateral da bursite nem a fisgada que some quando a pessoa para; é uma dor mais constante, que incomoda ao apoiar o peso e às vezes à noite, em alguém sem o desgaste de idade que explicaria uma artrose. Nesses casos, a pergunta que muda a conversa é sobre corticoide e álcool: pulsos de corticoide por lúpus, asma grave ou pós-transplante, ou consumo crônico de álcool que o paciente raramente associa ao quadril. Quando essa história aparece junto da dor de virilha, eu trato como osteonecrose até prova em contrário e encaminho para ressonância e ortopedia, sem deixar o tempo correr.

O que mais surpreende quem chega ao consultório é descobrir que o raio-X “normal” não tranquiliza: a ressonância pode mostrar a necrose meses antes, e é nessa janela silenciosa que ainda existe a chance de preservar o quadril. Outra surpresa frequente é entender que agulha, laser ou fisioterapia não revertem osso morto: eles aliviam a dor e mantêm a função, mas a decisão que importa, a de operar cedo para salvar a cabeça do fêmur, é do ortopedista, e adiá-la é o erro mais caro.

Estadiamento de Ficat: o colapso muda tudo

Radiografia da bacia em incidência ântero-posterior mostrando os dois quadris, com as cabeças femorais, o colo do fêmur e os acetábulos.
O raio-X de bacia é o primeiro exame no estadiamento e revela achatamento e colapso da cabeça femoral nas fases avançadas.

O tratamento da osteonecrose gira em torno de uma pergunta central: a cabeça do fêmur já colapsou ou ainda está íntegra? A classificação de Ficat e Arlet organiza a doença em estágios justamente em torno desse divisor. Conhecer o estágio ajuda a entender por que duas pessoas com “necrose óssea” podem receber condutas tão diferentes.

Estadiamento de Ficat e Arlet (visão geral)
EstágioO que acontece com o ossoFoco do tratamento
Estágio 0Sem sintomas e com raio-X normal; necrose só suspeitada (por exemplo, no outro quadril já acometido)Vigilância; controlar fatores de risco
Estágio IDor pode estar presente; raio-X normal, alteração só na ressonânciaFase em que se busca preservar a cabeça do fêmur (inclui cirurgia precoce)
Estágio IIAlterações ósseas no raio-X (áreas mais densas e mais claras), mas a forma da cabeça ainda está preservada, sem colapsoAinda há opções de preservação; janela de decisão importante
Estágio IIIColapso subcondral: a superfície da cabeça do fêmur afunda e perde a forma esféricaArticulação já comprometida; costuma-se discutir prótese
Estágio IVArtrose secundária: perda de cartilagem e deformidade também da baciaArtroplastia (prótese) é a conduta habitual

A leitura prática é direta. Antes do colapso (estágios I e II), o objetivo é tentar salvar a cabeça do fêmur, e o tempo joga a favor de quem chega cedo. Depois do colapso (estágios III e IV), a superfície articular já está deformada e o foco passa a ser tratar a articulação doente, com a prótese de quadril como opção mais consolidada para devolver função e aliviar a dor. Por isso insistimos no diagnóstico precoce: a fase em que a doença é descoberta define quais portas ainda estão abertas. O estadiamento e a decisão cirúrgica são conduzidos pelo ortopedista, idealmente um especialista em quadril.

Em uma frase

O colapso da cabeça do fêmur é a linha que separa “tentar preservar o osso” de “tratar a articulação já danificada”. É por isso que dor de quadril com fator de risco para osteonecrose merece ressonância e avaliação ortopédica sem adiar.

A janela tem prazo

O ponto que decide o desfecho é o tempo: existe uma janela, e ela tem prazo. Enquanto a cabeça do fêmur ainda está esférica (Ficat I e II), uma cirurgia de menor porte como a descompressão do núcleo pode aliviar a pressão, estimular a revascularização e, em lesões pequenas, salvar a articulação. Quando a superfície afunda (Ficat III), essa porta se fecha e o caminho passa a ser a prótese. O intervalo de tempo é estreito: a ressonância enxerga a necrose meses antes de o raio-X mostrar qualquer coisa, e o colapso costuma acontecer dentro de meses a poucos anos do início, muitas vezes sem aviso. A doença é bilateral em boa parte dos casos e frequentemente silenciosa no segundo quadril. O fator decisivo não é a necrose em si, é a demora: confiar num raio-X normal, esperar a dor “passar” ou peregrinar por agulhas e fisioterapia antes de uma ressonância são as formas mais comuns de perder a janela em que o quadril ainda podia ser preservado.

Tratamento: o que é cirúrgico e onde entra a clínica de dor

A osteonecrose da cabeça do fêmur é, na essência, um problema estrutural do osso, e o seu tratamento decisivo, sobretudo após o colapso, é cirúrgico e conduzido pelo ortopedista. Não existe medicação, agulha ou aparelho que faça o osso necrosado voltar a viver ou que recomponha uma cabeça do fêmur que já afundou. A clínica de dor e reabilitação tem um papel adjuvante e complementar, importante e bem definido: controlar a dor, preservar a mobilidade e a força, e conduzir a reabilitação antes e depois da cirurgia. A dor da osteonecrose é real e muitas vezes intensa, e cada recurso tem um lugar definido no plano.

ReabilitaçãoProcedimentos para a dorMedicamentos · causa de base

Descarga protegida e mobilidade

Bengala ou muletas para reduzir o peso sobre o quadril e manter a amplitude, conforme a carga liberada pelo cirurgião.

ModeradaSuporte / sintoma

Reabilitação peri-operatória

Fortalecer glúteos, abdutores e tronco antes da cirurgia e recuperar marcha e função depois dela.

FortePré e pós-op

Acupuntura e eletroacupuntura

Modula a dor periarticular e referida (glúteos, adutores, quadrado lombar), não a dor óssea profunda do colapso.

ModeradaSessões caso a caso

Agulhamento seco e infiltração

Trata pontos-gatilho e tensão miofascial de quem mancou por meses; conforto e marcha por dias a semanas.

Bloqueios e neuromodulação

Bloqueios anestésicos (por vezes com corticoide) e PENS para componentes neuropáticos ou miofasciais selecionados.

LimitadaCasos selecionados

Laser e ondas de choque

Adjuvantes para dor de partes moles ao redor do quadril; sem base para tratar a necrose óssea em si.

LimitadaPartes moles

Mesoterapia

Microinjeções intradérmicas para dor miofascial localizada associada; uso seletivo, não atua sobre o osso.

LimitadaSeletivo

Toxina botulínica

Reservada a espasmo e dor miofascial periarticular refratários; não é primeira linha nem trata a osteonecrose.

LimitadaRefratário

Medicação para a dor

Analgésicos e anti-inflamatórios por períodos curtos; adjuvantes neuropáticos quando há sensibilização.

ModeradaTempo limitado

Cuidado da causa de base

Ajuste do corticoide com o prescritor, redução do álcool e manejo das doenças reumatológicas ou de coagulação.

ForteEm paralelo

As opções estruturais dependem do estágio. Antes do colapso, procedimentos que buscam preservar a cabeça do fêmur incluem a descompressão do núcleo, por vezes combinada a enxertos ósseos ou a osteotomias; após o colapso (estágios III e IV), a artroplastia total do quadril é a conduta mais consolidada. A indicação, a técnica e o momento da cirurgia são definidos pelo ortopedista especialista em quadril, com base no estágio, na idade e nas comorbidades (detalhe na seção de tratamento cirúrgico). O cuidado adjuvante segue uma ordem prática:

Base · sempredo diagnóstico em diante
Descarga protegidaMobilidade e forçaAjuste da causa de base
Controle da dorse a dor limita a reabilitação
Medicação multimodalAcupunturaAgulhamento seco
Dor refratáriacomponente miofascial persistente
Bloqueios / PENSToxina botulínicaLaser · mesoterapia

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é
Aplicação médica de agulhas, com ou sem corrente de baixa frequência, com meta estreita: tratar a dor que acompanha a osteonecrose, não a osteonecrose.
Mecanismo
Ativa vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial), libera opioides endógenos e modula o corno dorsal da medula; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas.
Indicações
Componente periarticular e referido (musculatura glútea, adutores, quadrado lombar) e a dor por sobrecarga do lado contralateral em quem mancou por meses.
O que esperar
Número de sessões e frequência caso a caso; a continuidade depende de ganho mensurável de dor e de marcha. Sem resposta objetiva, não se insiste, e o foco volta à avaliação ortopédica.
Limitações
Não age sobre a dor óssea profunda do colapso, que responde mal a qualquer estímulo externo. É oferecida como conforto e suporte à reabilitação, jamais como alternativa à cirurgia indicada.

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

O que é
Agulha inserida no ponto-gatilho (seco) ou injeção de anestésico local (infiltração) na musculatura sobrecarregada de quem passou a mancar.
Mecanismo
No agulhamento seco, a agulha provoca a resposta de contração local e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, com efeito analgésico local e segmentar; na infiltração, o anestésico interrompe o ciclo dor-espasmo-dor.
Indicações
Pontos-gatilho e tensão em glúteos, tensor da fáscia lata, adutores e quadrado lombar. Separa o que é miofascial e tratável agora do que é dor óssea e exige o ortopedista.
O que esperar
Ganho de conforto e de marcha por dias a poucas semanas.
Limitações
Sem qualquer ação sobre a cabeça do fêmur necrosada e sem deslocar o relógio do estadiamento.

Bloqueios, neuromodulação e demais procedimentos

O que é
Bloqueios anestésicos de estruturas que geram dor ao redor do quadril (por vezes com corticoide); neuromodulação (PENS) para componentes neuropáticos ou miofasciais; e, em casos selecionados, laser de alta intensidade, ondas de choque, mesoterapia e toxina botulínica.
Mecanismo
O bloqueio reduz temporariamente a dor e abre janela para a reabilitação; o laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação; as ondas de choque têm benefício mais estabelecido em tendinopatias e dor miofascial; a toxina tipo A bloqueia a acetilcolina na junção neuromuscular e reduz neuropeptídeos nociceptivos.
O que esperar
Alívio do bloqueio costuma durar de dias a semanas. Os demais recursos são pontuais e adjuvantes, voltados a um componente de dor de partes moles periarticular.
Limitações
Na osteonecrose da cabeça do fêmur, a evidência de laser, ondas de choque e mesoterapia é limitada e heterogênea; nenhum desses recursos altera a evolução estrutural. Ao mascarar a dor, um bloqueio nunca pode virar motivo para adiar a avaliação ou a cirurgia que o ortopedista indicou.

A medicação tem papel adjuvante: analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos, escalonamento cauteloso na dor intensa e, quando há componente neuropático, antidepressivos em dose baixa ou gabapentinoides, sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico. Nenhuma medicação reverte a necrose. A escolha do fármaco e a dose são decisão do médico assistente; a abordagem está detalhada no guia de remédios para dor e na seção de tratamento medicamentoso.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

A reabilitação física tem um papel bem delimitado na osteonecrose da cabeça do fêmur: ela não regenera o osso necrosado nem detém a progressão para o colapso, mas é o que mantém a articulação móvel, protege a musculatura que estabiliza o quadril e prepara o paciente para a cirurgia e a recuperação depois dela. Nas fases iniciais, o exercício controla sintomas e condicionamento sem alterar o curso estrutural da doença. As abordagens são conduzidas na clínica, individualizadas, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal e subordinadas à orientação do ortopedista sobre o quanto de carga é permitido em cada fase.

Dois princípios organizam o trabalho. O primeiro é a proteção e a descarga de carga: enquanto a cabeça do fêmur está enfraquecida ou no período peri-operatório, reduz-se a sobrecarga com bengala ou muletas, conforme a carga liberada pelo cirurgião, evitando tanto o impacto que acelera o afundamento quanto o repouso absoluto, que enfraquece a musculatura. O segundo é a manutenção da mobilidade e da força dentro de limites seguros, para que o paciente chegue a uma eventual cirurgia em melhores condições e recupere a marcha com mais rapidez. A escolha das técnicas e a progressão dependem do estágio de Ficat, dos sintomas e da resposta de cada pessoa.

Proteção e descarga de carga

Uso de bengala ou muletas e regulação consciente do peso sobre o quadril acometido: transfere a carga para o membro superior ou o lado contralateral, reduzindo a tensão sobre a zona de osso enfraquecido e a dor ao apoiar o peso. Alivia o sintoma mecânico, mas o repouso e o alívio de carga isolados não impedem o colapso nem alteram a evolução natural, sobretudo em lesões maiores. O grau de descarga é definido pelo ortopedista.

ModeradaSuporte mecânico

Cinesioterapia e fortalecimento dirigido

Exercício terapêutico individualizado focado nos abdutores do quadril (glúteo médio e mínimo), no glúteo máximo e na cadeia do tronco, melhorando o controle pélvico e a marcha; nas fases iniciais prioriza-se cadeia fechada com carga parcial e baixo impacto, evitando o estresse axial. É a base do cuidado conservador, com o melhor perfil de segurança; resposta gradual ao longo de semanas. Exercício mal dosado ou de impacto na fase de fragilidade pode aumentar a dor.

ForteEixo do cuidado

Reeducação Postural Global (RPG)

Método que trabalha o corpo por cadeias musculares, com contração isométrica em posição alongada e controle respiratório, para reequilibrar a tensão das cadeias ao redor do quadril e da pelve, com frequência encurtadas em quem mancou por meses. Benefício sobre dor e flexibilidade comparável ao de outros programas de exercício, sem superioridade demonstrada. Não atua sobre a necrose e as posturas precisam ser dosadas para não sobrecarregar o quadril acometido.

ModeradaCadeias musculares

Pilates clínico

Exercícios de controle, estabilização e respiração no solo ou em aparelhos com molas. Permite trabalhar a força em cadeia fechada com carga parcial, útil para fortalecer sem aplicar todo o peso sobre a cabeça do fêmur, ajustando-se às restrições de carga das fases iniciais e do peri-operatório. Reduz dor e melhora função com efeito semelhante a outras formas de exercício. Exige supervisão; impacto ou amplitude extrema mal dosados podem agravar a dor.

ModeradaCarga parcial

Hidroterapia

Exercício em piscina aquecida: o empuxo da água diminui a carga axial sobre o quadril, permitindo mobilizar, fortalecer e treinar a marcha com descarga parcial de peso e baixo impacto sobre a área necrosada. Benefício reconhecido sobre dor e função, com boa tolerância, especialmente útil quando a carga em solo é dolorosa ou restrita. Efeito de magnitude moderada; complementa, não substitui, o fortalecimento em solo, e depende de estrutura adequada.

ModeradaDescarga aquática

Terapia manual

Mobilização articular e de tecidos moles ao redor do quadril, como adjuvante para reduzir a dor e facilitar o exercício, não como tratamento isolado. Produz analgesia por mecanismos segmentares e descendentes e melhora transitoriamente a tolerância ao movimento, abrindo janela para a reabilitação ativa. Efeito de curta duração quando usada sozinha; sem ação sobre a cabeça do fêmur necrosada e contraindicada diante de sinais de alerta que pedem avaliação médica prioritária.

LimitadaComplemento

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

Diferentemente da maioria dos quadros que tratamos, na osteonecrose da cabeça do fêmur a cirurgia não é a exceção, e sim, com frequência, o tratamento central e decisivo da doença. Nenhuma medicação, agulha ou aparelho faz o osso necrosado voltar a viver nem recompõe uma cabeça femoral que já afundou. Estas opções cirúrgicas não são realizadas em nossa clínica; o encaminhamento é ao ortopedista especialista em quadril, e a seção abaixo descreve o quadro completo e o momento de procurá-las. A escolha do procedimento depende, acima de tudo, do estágio de Ficat — de a cabeça do fêmur estar antes ou depois do colapso — além da idade, do tamanho e da localização da lesão e das comorbidades.

Antes do colapso · preservar a cabeça (Ficat I–II)

Técnicas de preservação

  • Descompressão do núcleo: perfurações no colo e na cabeça que reduzem a pressão dentro do osso e estimulam a revascularização; procedimento de menor porte, busca aliviar a dor e adiar ou evitar a prótese, com resultado melhor quanto mais precoce e menor a lesão.
  • Enxerto ósseo (vascularizado ou não): preenche a área necrosada e dá suporte estrutural; o vascularizado (por exemplo, da fíbula) traz aporte de sangue. Cirurgia maior, recuperação prolongada e resultados variáveis conforme a seleção.
  • Osteotomia femoral: reorienta a cabeça para retirar a área doente da zona de maior carga; pode adiar a prótese, mas é tecnicamente exigente e de indicação restrita.
  • Funcionam melhor cedo, em lesões menores; perdem eficácia à medida que a doença avança.
VS

Depois do colapso · tratar a articulação (Ficat III–IV)

Artroplastia total do quadril (prótese)

  • Substitui a articulação danificada; opção mais consolidada para aliviar a dor e devolver função, com bons resultados mesmo em pessoas jovens.
  • Indicada nas fases avançadas, após o colapso e com artrose secundária, ou na dor incapacitante refratária.
  • Cirurgia de grande porte, com reabilitação de meses e riscos próprios: infecção, trombose, luxação e necessidade de revisão ao longo dos anos.
  • Em pessoas jovens, há a perspectiva de uma futura revisão ao longo da vida.

A leitura prática é direta: as técnicas de preservação dependem muito do estágio e do tamanho da lesão, o que reforça o valor do diagnóstico precoce por ressonância; a artroplastia é um procedimento bem estabelecido que melhora de forma consistente a dor e a função após o colapso. A decisão é compartilhada e individualizada, e o momento de operar é tão importante quanto a técnica escolhida. O detalhamento da técnica, dos riscos e da recuperação cabe ao cirurgião que conduzirá o caso.

Além da cirurgia, o cuidado completo envolve outros serviços. O tratamento da causa de base é conduzido pelo especialista pertinente: o ajuste do corticoide com o médico que o prescreveu, o acompanhamento de doenças reumatológicas e autoimunes com o reumatologista, a investigação de distúrbios da coagulação ou da anemia falciforme com o hematologista, e o suporte para a redução do consumo de álcool quando esse é o fator. Atuar sobre a causa não reverte a necrose já instalada, mas pode reduzir o risco no quadril contralateral e em novos focos. O papel do nosso cuidado é reconhecer o momento de encaminhar, explicar o que cada caminho oferece e manter o controle da dor e a reabilitação como eixo antes e depois de qualquer procedimento.

Tratamento medicamentoso

A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na osteonecrose da cabeça do fêmur: ajuda a controlar a dor para que a reabilitação avance e o paciente atravesse o período até a cirurgia, mas não reverte a necrose nem dispensa o tratamento estrutural conduzido pelo ortopedista. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.

Classes medicamentosas na osteonecrose da cabeça do fêmur
ClassePara quêEvidênciaO que esperar / cuidados
Analgésicos simples (paracetamol, dipirona)Dor leve a moderada; alternativa para quem tem contraindicação aos anti-inflamatóriosModeradaPerfil de segurança favorável dentro da dose recomendada; atenção à dose total diária e à função hepática no caso do paracetamol
Anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) — ibuprofeno, naproxeno, diclofenacoDor com componente inflamatório, sobretudo nas fases de sinovite reativaModeradaCiclos curtos; cautela pelos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, com atenção redobrada em idosos e comorbidades
Adjuvantes para dor crônica ou neuropática — antidepressivos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) e gabapentinoides (gabapentina, pregabalina)Quando a dor se cronifica ou há componente de sensibilizaçãoModeradaOs antidepressivos modulam vias inibitórias descendentes; exigem titulação, reavaliação e atenção a sonolência, náusea e interações
Bisfosfonatos (por exemplo, alendronato)Proposta de retardar o colapso da cabeça do fêmurLimitadaEvidência limitada e controversa, com ensaios heterogêneos sem benefício consistente; não é tratamento padrão, e a eventual indicação é individual e criteriosa, a cargo do médico

O controle da dor não se faz só com comprimidos: recursos como a acupuntura, o agulhamento seco e os bloqueios atuam para reduzir a dor e a necessidade de analgésicos fortes, dentro de um plano multimodal. O pilar do tratamento medicamentoso na osteonecrose é tratar a causa de base em parceria com o especialista pertinente: ajustar para a menor dose eficaz, ou substituir quando possível, o corticoide com o médico que o prescreveu; apoiar a redução do consumo de álcool; e manejar doenças reumatológicas, da coagulação ou da anemia falciforme com o respectivo especialista. Nenhuma medicação isolada resolve a necrose, e a melhor estratégia combina o controle criterioso da dor, o cuidado da causa e o tratamento estrutural definido pelo ortopedista. Para entender as classes e os cuidados, veja o nosso guia de remédios para dor.

Outras causas de dor de quadril e prognóstico

Nem toda dor na virilha é osteonecrose. Várias condições causam dor de quadril com padrões semelhantes, e diferenciá-las é parte da avaliação, porque o tratamento muda. A osteonecrose se distingue, sobretudo, pelo perfil de fatores de risco (corticoide, álcool, doença reumatológica) e por uma dor que piora ao apoiar o peso, confirmada pela ressonância.

Causas de dor de quadril e como se diferenciam
CondiçãoPadrão típicoPista que diferencia
Osteonecrose (necrose avascular)Dor na virilha que piora ao apoiar o peso; pode doer em repouso nas fases avançadasFatores de risco (corticoide, álcool, doenças do sangue); ressonância altera antes do raio-X
Artrose do quadril (coxartrose)Dor na virilha e rigidez, pior ao iniciar o movimentoMais comum em idade avançada; raio-X mostra redução do espaço articular e osteófitos
Bursite trocantéricaDor na lateral do quadril, ao deitar sobre o lado e ao subir escadasDor à palpação do trocânter (saliência lateral), não na virilha; não piora claramente com a carga axial
Impacto femoroacetabularDor na virilha ao flexionar e girar o quadril, comum em jovens ativosDor em posições de flexão profunda; manobras específicas de impacto positivas
Dor referida da coluna lombarDor na nádega e na coxa, por vezes com formigamentoOrigem na coluna; sintomas no trajeto de uma raiz nervosa, não na virilha pura

A evolução da osteonecrose depende do estágio em que é descoberta, do tamanho e da localização da área necrosada e da causa. Lesões pequenas, fora da zona de carga e diagnosticadas antes do colapso, têm melhor perspectiva de preservação. A presença de colapso costuma indicar progressão para artrose e, com frequência, necessidade de prótese.

O desfecho varia com esses fatores e não há medicação que reverta o osso necrosado fora do tratamento estrutural. O diagnóstico precoce amplia as opções, e a dor pode ser tratada e a função preservada ao longo de todo o percurso.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

O que é necrose óssea da cabeça do fêmur?

É a morte de uma área do osso na cabeça do fêmur (a parte superior do osso da coxa, que forma o quadril) por interrupção do seu suprimento de sangue. Sem irrigação, o osso enfraquece e pode colapsar, levando à deterioração da articulação. Também é chamada de osteonecrose ou necrose avascular.

Quais os sintomas da cabeça do fêmur necrosada?

No início pode não haver sintoma nenhum. Quando surge, o sintoma mais comum é dor na virilha que piora ao apoiar o peso e ao caminhar, podendo irradiar para a coxa, a nádega ou o joelho. Nas fases mais avançadas, a dor pode ocorrer em repouso e à noite, com limitação para mover o quadril e claudicação. O diagnóstico precoce costuma ser feito por ressonância magnética.

Cabeça do fêmur gasta ou desgaste é a mesma coisa que necrose?

São termos relacionados, mas não idênticos. “Cabeça do fêmur necrosada” ou “com necrose” descreve o osso morto pela falta de irrigação. “Cabeça do fêmur gasta” ou “desgaste” são expressões populares que costumam apontar para a fase avançada, quando já há perda de cartilagem e deformidade (artrose secundária), que pode ser consequência da necrose ou de outras causas como a artrose do quadril. O exame de imagem esclarece de qual fase se trata.

Necrose da cabeça do fêmur tem cura sem cirurgia?

Não há como garantir cura, e a abordagem depende do estágio. Quando a necrose é descoberta cedo, antes do colapso, existem procedimentos que buscam preservar a cabeça do fêmur, alguns cirúrgicos e menos invasivos. Após o colapso, costuma ser necessária a prótese de quadril. Não existe medicação, agulha ou aparelho que reverta o osso necrosado. A decisão sobre operar é do ortopedista, e a clínica de dor atua de forma adjuvante no alívio e na reabilitação.

Quando a osteonecrose precisa de cirurgia?

A indicação cirúrgica depende do estágio (classificação de Ficat), do tamanho da lesão e dos sintomas, e é definida pelo ortopedista. Em geral, antes do colapso pode-se considerar a descompressão do núcleo e outras técnicas de preservação; após o colapso e com artrose secundária, a artroplastia (prótese) é a conduta mais consolidada. Dor intensa que não melhora e sinais de colapso reforçam a necessidade de avaliação cirúrgica sem adiar.

Como a acupuntura e a fisioterapia ajudam na necrose do fêmur?

De forma adjuvante. Acupuntura, eletroacupuntura e agulhamento seco ajudam a controlar a dor e a dor miofascial associada, reduzindo a necessidade de medicação. A reabilitação mantém a mobilidade, fortalece a musculatura do quadril e prepara para a cirurgia, além de conduzir a recuperação depois dela. Esses recursos não revertem a necrose nem substituem a avaliação e o tratamento do ortopedista.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Mont MA, Cherian JJ, Sierra RJ, Jones LC, Lieberman JR. Nontraumatic osteonecrosis of the femoral head: where do we stand today? A ten-year update. J Bone Joint Surg Am. 2015;97(19):1604-27.
  2. Ficat RP. Idiopathic bone necrosis of the femoral head: early diagnosis and treatment. J Bone Joint Surg Br. 1985;67(1):3-9.
  3. Zalavras CG, Lieberman JR. Osteonecrosis of the femoral head: evaluation and treatment. J Am Acad Orthop Surg. 2014;22(7):455-64.
  4. Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas para publicidade e conteúdo médico. Conteúdo com finalidade educativa; não dispensa avaliação médica individual.
Atualizado em 2 jun 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A necrose da cabeça do fêmur é uma doença ortopédica que pode exigir cirurgia, e o estadiamento e a decisão de operar cabem ao ortopedista, idealmente especialista em quadril; diante de dor de virilha com fator de risco, a avaliação não deve ser adiada. O controle da dor e a reabilitação na clínica são adjuvantes e o plano é individualizado conforme o estágio de Ficat e a carga liberada pelo cirurgião.

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