Peritendinite: o que é, quais são as causas e tratamento
Peritendinite é a inflamação do tecido que envolve o tendão, em geral por atrito e sobrecarga. Difere da tendinite e da tendinose porque a alteração está no envoltório, o que muda exame e tratamento.
- Peritendinite é a inflamação do envoltório fino, o peritendão ou a bainha sinovial, ao redor do tendão, provocada por atrito e uso repetitivo. Costuma ser benigna e melhora sem cirurgia. Se a palavra veio num laudo, a seção Peritendinite no laudo explica cada termo.
- O sinal mais característico é a crepitação, uma sensação de roçar ou ranger sob os dedos quando o tendão se move, somada a dor e inchaço localizados ao longo do seu trajeto.
- O que fazer hoje: diminua o gesto que dói sem parar tudo, faça gelo por 15 a 20 minutos, 3 a 4 vezes ao dia, e mantenha o que não dói. Se não melhorar em 2 semanas, marque uma avaliação. Vá ao pronto-socorro no mesmo dia se houve estalo com perda de força ou se vier febre com vermelhidão.
- O tratamento é conservador: modificação de carga e repouso relativo, reabilitação progressiva, e recursos como ondas de choque, laser e, em casos selecionados, infiltração; a cirurgia é exceção.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
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O que é peritendinite
A peritendinite é a inflamação do tecido que circunda o tendão. Esse envoltório, chamado de peritendão (ou paratendão), e, em algumas regiões, uma verdadeira bainha sinovial, existe para reduzir o atrito enquanto o tendão desliza a cada movimento. Quando o deslizamento se torna excessivo ou áspero, esse tecido inflama, incha e passa a roçar de forma dolorosa.
O tendão é o cabo de colágeno que liga o músculo ao osso. Ao seu redor existe o peritendão, uma fina camada de tecido conjuntivo frouxo, bem vascularizada e rica em terminações nervosas. Em locais onde o tendão muda de direção ou passa por um túnel apertado, como no punho e no tornozelo, há ainda uma bainha sinovial, um tubo de revestimento que produz líquido lubrificante.
A peritendinite afeta essas estruturas externas. Quando o problema está dentro da substância do tendão, o nome muda: falamos em tendinite (com inflamação) ou, mais corretamente na maioria dos casos crônicos, em tendinose (degeneração das fibras, com pouca inflamação).
O peritendão é altamente inervado e vascularizado, por isso a peritendinite tende a doer de forma aguda, inchar e produzir o sinal de atrito. Já o corpo do tendão é pobre em vasos e nervos, e a tendinose costuma evoluir de modo mais arrastado, com dor que aparece sobretudo no início da atividade. Em muitos quadros de sobrecarga, as duas coisas coexistem, o que se chama de tendinopatia com peritendinite (peritendinopatia, termo comum em laudos, aponta alteração do envoltório), e o tratamento precisa contemplar os dois componentes.
“Peritendinite e tendinite são a mesma coisa, só nomes diferentes para a dor no tendão.”
São camadas diferentes. A peritendinite inflama o tecido que envolve o tendão e costuma dar crepitação e inchaço; a tendinite ou tendinose afeta o corpo do tendão. A conduta muda conforme o que predomina.

Causas: sobrecarga e atrito
A peritendinite é, na essência, uma lesão por sobrecarga. Ela aparece quando a demanda mecânica sobre o conjunto tendão-envoltório supera, de forma repetida, a capacidade de o tecido se recuperar entre os esforços. O gatilho clássico é o erro de treino ou de carga: aumentar de forma abrupta volume, intensidade ou frequência de uma atividade, retomar o esporte depois de uma pausa longa, trocar de calçado ou de terreno, ou iniciar uma tarefa de trabalho nova e repetitiva.
O mecanismo dominante é o atrito. Cada vez que o tendão desliza dentro do seu envoltório, há um leve roçar. Em condições normais, o líquido lubrificante e a superfície lisa absorvem esse movimento.
Sob uso excessivo, a fricção repetida irrita o peritendão e a bainha, que respondem com inflamação, edema e, às vezes, depósito de fibrina, uma película pegajosa que torna o deslizamento ainda mais áspero, fechando um ciclo de atrito e dor. Alguns fatores favorecem esse processo:
- Gestos repetitivos. Movimentos cíclicos no esporte ou no trabalho, especialmente os que combinam força e velocidade no mesmo padrão.
- Aumento súbito de carga. Saltar etapas na progressão de treino é o erro mais comum por trás do quadro.
- Fatores anatômicos e biomecânicos. Desalinhamentos, encurtamentos, fraqueza muscular e calçado inadequado aumentam a fricção local.
- Fatores intrínsecos. Idade, alterações metabólicas e, em alguns casos, doenças reumáticas, como a artrite reumatoide, predispõem o tecido a inflamar.
Há ainda formas relacionadas a doenças reumatológicas e à sobrecarga em torno de grandes articulações. A inflamação do tecido peritendíneo e das bursas vizinhas explica por que sítios como o quadril e o joelho entram com frequência nas buscas: nessas regiões, vários tendões potentes deslizam sobre proeminências ósseas e bursas, terreno propício ao atrito.
Na prática, a pergunta-chave da consulta é “o que mudou nas últimas semanas?”. Quase sempre há um aumento de carga, um gesto novo ou uma troca de hábito por trás da peritendinite.
Sítios mais comuns

A peritendinite pode surgir em qualquer tendão revestido por peritendão ou bainha, mas concentra-se em alguns pontos de atrito previsíveis. Conhecer os sítios típicos ajuda a reconhecer o quadro e a entender a queixa.
Peritendinite do Aquiles
O sítio mais clássico. A dor e o inchaço ficam ao longo do tendão calcâneo, com crepitação ao mover o pé. Comum em corredores que aumentam a quilometragem.
Peritendinite / tenossinovite
Inflama a bainha dos tendões extensores do punho e do polegar, como na síndrome de De Quervain. Atrito ao agarrar, digitar ou torcer.
Peritendinite do quadril
Os tendões dos glúteos médio e mínimo e o trato iliotibial deslizam sobre o trocânter maior do fêmur. Quando a inflamação fica perto de onde o tendão se prende no osso, o laudo fala em peritendinite insercional. O atrito inflama o tecido peritendíneo e a bursa, com dor na lateral do quadril que piora ao deitar sobre o lado e ao subir escada.
Peritendinite do joelho
Envolve sobretudo os tendões da pata de ganso (anserina), na face interna abaixo do joelho, o semimembranoso, atrás e por dentro, e o trato iliotibial, na face externa. Dor localizada, piora ao correr, agachar e descer escada.
A peritendinite do quadril costuma ser confundida com problema “na articulação”, mas a dor verdadeiramente articular é mais profunda e localizada na virilha; a dor peritendínea fica na lateral, sobre a proeminência óssea, e piora à pressão e ao apoiar o lado. A peritendinite do joelho, por sua vez, dói num ponto preciso da margem do joelho, por fora da articulação, o que ajuda a separá-la de causas intra-articulares. Em ambos os casos, a abordagem dialoga com o que detalhamos no guia de dor no quadril, já que a vizinhança de tendões e bursas é a regra nessas regiões. Quando a dor da face interna do joelho vem da bursa da pata de ganso, veja bursite anserina.
No membro superior, o quadro se sobrepõe ao espectro das lesões por esforço repetitivo. Quando a inflamação atinge a bainha dos tendões do antebraço, o atrito ao agarrar e torcer é o protagonista; o tema é aprofundado nas páginas sobre tendinite no antebraço e tendinite no pulso, condições próximas e que muitas vezes andam juntas com a peritendinite. No dorso do antebraço, alguns centímetros acima do punho, a forma que range ao mexer o polegar é a síndrome da intersecção, explicada na página do antebraço. No ombro, o achado de laudo mais comum é a tendinopatia do supraespinhal.
Sintomas e como diferenciar
O sintoma que mais distingue a peritendinite é a crepitação: uma sensação de roçar, ranger ou “neve sendo apertada” que se percebe com os dedos sobre o tendão enquanto ele se move. Ela traduz o deslizamento áspero do tendão dentro do envoltório inflamado e, quando presente, é uma pista forte de que o problema está na bainha.
Os demais sintomas costumam ser bem localizados ao longo do trajeto do tendão: dor ao movimento que melhora com o repouso, inchaço fusiforme (em forma de fuso, acompanhando o tendão), calor e sensibilidade à palpação. A dor tende a ser mais intensa no movimento ativo e quando o tendão é alongado ou contraído contra resistência. Diferentemente da tendinose, que dói sobretudo no aquecimento e melhora durante a atividade, a peritendinite aguda dói de forma mais constante e proporcional ao uso.
| Aspecto | Peritendinite | Tendinite (aguda) | Tendinose (crônica) |
|---|---|---|---|
| Onde está a lesão | Peritendão / bainha ao redor do tendão | Substância do tendão, com inflamação | Substância do tendão, com degeneração |
| Mecanismo | Atrito e fricção do deslizamento | Sobrecarga aguda recente | Sobrecarga repetida ao longo de meses |
| Sinal característico | Crepitação ao movimento, inchaço fusiforme | Dor e edema agudos no tendão | Espessamento e nódulo, pouca inflamação |
| Padrão da dor | Constante, proporcional ao uso | Aguda, intensa, recente | Pior no início do exercício, alivia ao aquecer |
| Tempo de evolução | Dias a poucas semanas | Dias | Semanas a meses |
É comum, na vida real, que essas categorias se misturem. Um tendão de Aquiles sobrecarregado pode ter, ao mesmo tempo, crepitação do peritendão e espessamento degenerativo do corpo do tendão. Por isso o rótulo importa menos do que identificar qual componente predomina, porque é ele que orienta a dosagem da carga e a escolha dos recursos de reabilitação.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico da peritendinite é, antes de tudo, clínico: a história costuma trazer o aumento recente de carga ou o gesto repetitivo, e o exame físico localiza a estrutura. Os achados abaixo, somados, sustentam o diagnóstico no consultório.
A imagem entra para tirar dúvida e afastar outras lesões. A lógica de quando pedir e como interpretar:
Pergunta-chave
A clínica deixa dúvida ou é preciso afastar outra lesão?
Diagnóstico clínico: história compatível e exame físico característico bastam para iniciar a conduta.
Ultrassonografia é o exame mais útil, por ser dinâmico: mostra o líquido e o espessamento ao redor do tendão, avalia a integridade das fibras e observa o deslizamento em tempo real. A ressonância magnética fica reservada a casos selecionados, para detalhar a substância do tendão e afastar outras lesões.
Como ler a imagem
A imagem muda a conduta?
A imagem deve ser interpretada junto da história e do exame: achados de desgaste são frequentes mesmo em pessoas sem dor, e tratar a imagem isolada leva a condutas desnecessárias.
Diferenciais a afastar: fratura por estresse, artrite inflamatória (como a reumatoide), bursite isolada e dor referida da articulação vizinha.
Como avaliamos aqui
Na consulta, o fisiatra apalpa o trajeto do tendão enquanto você mexe a articulação, para sentir a crepitação, e testa o tendão ao alongar e contra resistência. Compara com o outro lado e procura falha no tendão ou perda de força, que mudam o caminho. Se você trouxe um laudo, ele é lido junto com o exame. Na maioria das vezes, o plano sai na mesma consulta, sem exame novo.
Quando o músculo que puxa o tendão tem ponto-gatilho, o agulhamento pode começar no mesmo dia; ondas de choque, laser de alta intensidade e, nos casos que não cedem, a infiltração ao redor do tendão são feitos na clínica, e a reabilitação é conduzida pelo fisioterapeuta da equipe, um paciente por sala. O plano é revisto em 3 a 6 semanas.
Peritendinite no laudo: o que significa
Muita gente encontra a palavra num laudo de ultrassom ou de ressonância. O laudo descreve o que a imagem mostra; quem decide se aquilo explica a sua dor é o exame do ponto que dói. Os termos mais comuns:
| Termo no laudo | O que quer dizer | O que muda |
|---|---|---|
| Peritendinite, sinais de peritendinite ou peritendinopatia | O envoltório do tendão está inflamado: mais espesso, com líquido ou com mais fluxo de sangue ao Doppler (modo do ultrassom que mostra o fluxo). | Fase inflamatória: reduzir o atrito por 1 a 2 semanas antes de voltar a fortalecer. |
| Edema ou líquido peritendíneo | Inchaço ou líquido em volta do tendão. Uma lâmina fina pode aparecer em pessoas sem dor. | Conta quando coincide com o ponto que dói e com a crepitação. |
| Ausência de líquido peritendíneo | Não há líquido em volta do tendão. É um achado normal. | Torna menos provável a inflamação ativa do envoltório, sem excluir: ele pode estar espessado sem líquido. O corpo do tendão é descrito em outra linha do laudo. |
| Tendinopatia com peritendinite | O corpo do tendão tem alteração de sobrecarga e o envoltório também está inflamado. | O plano junta as duas fases: acalmar o envoltório e depois carga progressiva no tendão. |
| Peritendinite insercional | A inflamação fica perto de onde o tendão se prende no osso, como os glúteos médio e mínimo no quadril ou o Aquiles no calcanhar. | Na fase de dor, evitar o que aperta o tendão contra o osso. No quadril: deitar sobre o lado que dói e cruzar as pernas. No calcanhar: alongar a panturrilha na borda do degrau e calçado que aperta atrás do calcanhar. |
| Paratenonite, tenossinovite | Paratendão é o envoltório onde não há bainha, como no Aquiles; paratenonite é a inflamação dele. Tenossinovite é a inflamação da bainha sinovial, que existe no punho e nos tendões que contornam o tornozelo. | A lógica do tratamento é a mesma. |
Leve o laudo à consulta. O médico compara o achado com o ponto que dói e com o teste do tendão contra resistência. Mais sobre como ler exames em exames e laudos.
Tratamento: o caminho não cirúrgico
O tratamento da peritendinite é conservador. A base é tirar a estrutura do excesso de atrito e devolver-lhe, de forma gradual, a capacidade de tolerar carga; os demais recursos somam-se a esse eixo para controlar a dor e acelerar a recuperação do tecido. A grande maioria dos casos resolve sem cirurgia, e a meta é reduzir a dor a um nível que não limite a rotina e recuperar a função do tendão. O caminho tem quatro degraus, e só se sobe quando o anterior não respondeu no prazo.
Casa e ajuste de carga · semana 1 a 2
Reduzir o gesto que provoca o atrito, sem imobilizar; manter ativo o que não dói enquanto o envoltório acalma. Gelo por 15 a 20 minutos, 3 a 4 vezes ao dia, e anti-inflamatório por poucos dias, se o médico indicar. Suba de degrau se a dor não cair em 2 semanas.
Reabilitação progressiva do tendão · 4 a 8 semanas
Carga controlada e fortalecimento que reorganizam o colágeno e elevam de novo a tolerância ao esforço; é o eixo do plano. Fisioterapia 1 a 2 vezes por semana e exercício em casa; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar. Suba se, depois de 4 a 8 semanas, a dor ainda limita o esforço.
Recursos na clínica, somados ao exercício
Ondas de choque quando já há tendinopatia junto ou a dor passa de 6 semanas; laser de alta intensidade para baixar a dor e avançar mais cedo na carga; agulhamento seco nos pontos tensos do músculo que puxa o tendão (panturrilha no Aquiles, antebraço no punho, glúteo médio no quadril), para a reabilitação avançar; pode começar no dia da consulta. Reavaliação em 3 a 6 semanas.
Sem a resposta esperada · 3 a 6 meses
Revê-se o diagnóstico e a adesão. Em casos refratários, infiltração, feita na clínica: medicação depositada ao redor do tendão, nunca dentro da substância tendínea. A cirurgia só entra depois de 3 a 6 meses de reabilitação bem conduzida.
Ondas de choque
- O que é
- Ondas acústicas de alta energia aplicadas sobre o tecido peritendíneo, em ciclo de cerca de 3 a 5 sessões semanais.
- Mecanismo
- O impulso mecânico estimula o tendão e o envoltório a se reparar e diminui a dor, ajudando a quebrar o ciclo de dor e atrito.
- Quando entra
- Quando a peritendinite se arrasta além de 6 semanas ou o laudo já mostra alteração no corpo do tendão. Na fase bem inflamada, primeiro se acalma o envoltório.
- Evidência
- Forte Boa evidência justamente para tendinopatias, incluindo a aquileia, a patelar e a calcária do ombro, e para condições associadas como a fascite plantar.
- O que esperar
- Melhora ao longo de semanas. É um dos recursos mais úteis para a peritendinite do Aquiles, detalhada na página sobre ondas de choque no tendão de Aquiles.
- Limitações
- Há desconforto durante a aplicação e contraindicações específicas, como aplicar sobre área de trombose. Entra somada à reabilitação.
Infiltração ao redor do tendão: quando indicada
- O que é
- Em quadros que não respondem ao plano de base, a infiltração ao redor do tendão pode ser considerada, para depositar a medicação no espaço peritendíneo, e não dentro da substância do tendão.
- Objetivo
- Controlar a inflamação do envoltório e abrir uma janela para avançar a reabilitação.
- Evidência
- Limitada Recurso pontual, de indicação criteriosa e jamais como primeira medida.
- Limitações
- O corticoide é usado com parcimônia e nunca injetado dentro de tendões que sustentam carga, como o Aquiles, pelo risco de fragilização e ruptura.
No consultório, a peritendinite costuma ter uma assinatura ao toque que poupa exames: o inchaço fusiforme acompanha o trajeto do tendão e, ao pedir que a pessoa mova a articulação com meus dedos sobre ele, sente-se a crepitação, aquele roçar fino, que aponta para o envoltório. É um achado que tranquiliza, porque costuma significar quadro mais superficial e mais responsivo.
O ponto que mais muda a conduta é o tempo de evolução. Um peritendão irritado há poucos dias tem comportamento inflamatório de verdade, e aí um repouso relativo curto somado a um anti-inflamatório por poucos dias rende muito; o mesmo plano aplicado a uma tendinopatia de meses costuma frustrar, porque ali o problema já é de carga. Por isso o plano inicial da peritendinite recente difere do da tendinopatia crônica, ainda que ambos terminem na mesma reabilitação de carga.
O arco que descrevo aos pacientes é repouso relativo primeiro, carga depois: aliviar o atrito por uma ou duas semanas e, assim que a dor cede, reintroduzir carga de forma graduada. O que mais surpreende quem chega é justamente isto, que o repouso tem prazo e que parar por completo atrapalha; o tendão precisa voltar a ser solicitado para reorganizar o colágeno.
A separação que nunca relativizo é com a ruptura. Crepitação e dor com inchaço fusiforme falam a favor de peritendinite; um estalo no esforço, uma falha palpável no tendão ou perda súbita de força mudam o roteiro na hora e levam ao exame de imagem e à avaliação do ortopedista, porque aí não se trata mais de envoltório.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa é a coluna vertebral do tratamento da peritendinite, e é também o componente que mais sustenta o resultado depois que a dor cede. O raciocínio é mecânico: como o motor da lesão é o atrito repetido entre o tendão e o seu envoltório, a recuperação depende de retirar o tecido do excesso de carga e, em seguida, devolver-lhe tolerância ao esforço de forma graduada. O exercício terapêutico é a única ferramenta capaz de reorganizar o colágeno e elevar de novo o limiar de carga do conjunto tendão-peritendão.
Repouso relativo e modificação de carga
Ajuste da dose mecânica, sem imobilizar a articulação: baixar a frequência e a amplitude do deslizamento doloroso interrompe o ciclo de fricção, edema e depósito de fibrina. Na prática, diminuir a quilometragem, trocar o terreno, ajustar a tarefa repetitiva ou corrigir o calçado. Alívio da dor de uso já nas primeiras uma a duas semanas, ainda sem ganho de força. O repouso absoluto é contraproducente: o tendão imobilizado perde capacidade de carga.
Exercício excêntrico e fortalecimento progressivo
Carga progressiva, com destaque para os exercícios excêntricos: o músculo gera força enquanto se alonga (descer lentamente o calcanhar na borda de um degrau para o Aquiles). A tensão controlada estimula as células do tendão a sintetizar e realinhar colágeno e melhora o deslizamento peritendíneo. Enquanto a dor ainda é alta, começa-se pela isometria: segurar a contração parado por 30 a 45 segundos, 3 a 5 vezes, 1 a 2 vezes ao dia. Depois, o excêntrico em 2 a 3 séries de 10 a 15 repetições, 1 a 2 vezes ao dia. Na forma insercional do Aquiles, o calcanhar desce só até o chão, sem passar da borda do degrau. Avançar a carga rápido demais reacende o atrito: dor de até 3 em 10 durante o exercício, que passa até a manhã seguinte, é aceitável. O fisioterapeuta ajusta a carga na consulta.
Fisioterapia na clínica
Reabilitação ativa individualizada com o fisioterapeuta da clínica, um paciente por sala, 1 a 2 vezes por semana, que organiza todo o programa de carga, mobilidade e controle motor e corrige a cadeia que sobrecarregava a estrutura. A terapia manual entra como complemento. Calor, eletroterapia e massagem, usados sozinhos, aliviam por pouco tempo.
Reeducação postural global (RPG) e alongamento
Trabalha as cadeias musculares em posturas mantidas; ao reequilibrar encurtamentos, reduz a tensão que aumentava o atrito sobre o tendão. O alongamento direcionado devolve amplitude ao grupo tensionado, mas alongar de forma agressiva um tendão irritado pode aumentar o sintoma.
Pilates clínico e controle motor
Exercício de controle motor com foco em estabilização e qualidade de movimento, que distribui a carga, reduzindo picos de tensão sobre o tendão. Útil sobretudo na transição entre a fase de fortalecimento e o retorno à atividade.
Correção de carga, técnica e calçado
Corrige o fator que gerou a sobrecarga: rever a progressão de treino (volume, intensidade e frequência), ajustar a técnica do gesto, avaliar calçado e superfície e considerar adaptações ergonômicas. Transforma o tratamento em prevenção: sem ela, o tendão volta a roçar assim que a carga sobe. A reabilitação é mantida mesmo após o alívio, para reduzir a recorrência.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Na peritendinite, a cirurgia é exceção. A grande maioria dos casos resolve com o tratamento conservador, e a indicação cirúrgica fica reservada a quadros que não respondem a um programa bem conduzido de carga progressiva ao longo de meses.
Conservador · 1ª escolha
Plano não cirúrgico
- Resolve a grande maioria dos casos de peritendinite.
- Repouso relativo, reabilitação de carga progressiva e recursos em clínica (ondas de choque, laser, agulhamento).
- Infiltração peritendínea apenas em casos refratários.
- É o trabalho da nossa clínica: tratamento da dor sem cirurgia.
Cirúrgico · exceção
Debridamento e liberação do envoltório
- Considerado só após falha de 3 a 6 meses de reabilitação consistente sem melhora aceitável, ou complicação como ruptura tendínea associada.
- Debridamento do tecido peritendíneo doente e liberação da bainha ou do paratendão aderido, removendo o tecido fibrótico; tratamento da tendinose associada quando presente.
- Proteção inicial seguida de reabilitação progressiva; retorno ao esforço ao longo de meses.
- Não realizada em nossa clínica: encaminhamento ao cirurgião ortopédico.
- Quando considerar
- Falha de 3 a 6 meses de reabilitação bem conduzida, ou complicação como ruptura associada.
- Procedimentos
- Debridamento do peritendão doente e liberação da bainha ou do paratendão aderido; tratamento da tendinose associada quando presente.
- O que esperar
- Proteção inicial seguida de reabilitação progressiva; retorno ao esforço ao longo de meses, dependente da fisioterapia pós-operatória.
- Limitações
- Indicação criteriosa; não dispensa a reabilitação, que segue sendo decisiva para o resultado.
Antes de cogitar uma operação, o caminho é garantir que a reabilitação foi conduzida com a dose e o tempo corretos, porque a falha aparente muitas vezes é, na verdade, um programa interrompido cedo demais ou mal progredido.
Tratamento medicamentoso
O papel da medicação na peritendinite é adjuvante e de curta duração. Ela ajuda a controlar a fase mais dolorosa e a abrir espaço para a reabilitação, mas não corrige a causa mecânica nem substitui o ajuste de carga e o exercício. Toda prescrição, com escolha do fármaco, dose e duração, cabe ao médico, que pondera efeitos adversos e comorbidades. Riscos e cuidados de cada classe estão no guia de remédios para dor.
| Classe | Quando usada | Evidência | O que esperar e limitações |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) | Períodos curtos na fase aguda, sobretudo quando o componente inflamatório do peritendão é evidente (atrito, calor, inchaço). Inibem a ciclo-oxigenase e reduzem prostaglandinas. | Moderada | Reduzem inflamação e dor do envoltório. Risco gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em uso prolongado, idosos e comorbidades; uso o mais breve possível. Há preocupação teórica de interferência na cicatrização do tendão. |
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Controle da dor quando se quer evitar ou reduzir os anti-inflamatórios, ou como complemento. | Moderada | Analgesia de ação central, efeito anti-inflamatório desprezível, mais seguros do ponto de vista gastrointestinal. Aliviam o sintoma sem agir sobre a mecânica da lesão; a dose respeita os limites de cada fármaco. |
| Anti-inflamatórios tópicos | Alternativa em sítios superficiais, com menor exposição sistêmica. | Limitada | Menor exposição sistêmica que a via oral. Aliviam o sintoma local sem corrigir a causa mecânica. |
Infiltração de corticoide: a cautela essencial
- O que é
- Quando uma infiltração é considerada em casos refratários, a medicação é depositada no espaço peritendíneo, ao redor do tendão e não dentro dele, e de forma pontual.
- Indicação
- Recurso criterioso, raro e sempre subordinado ao plano de reabilitação.
- Limitações
- Deve-se evitar a infiltração de corticoide dentro da substância do tendão que sustenta carga, como o Aquiles, pelo risco de fragilização e de ruptura. O corticoide dentro do tendão pode transformar um quadro de envoltório, que é benigno, em uma lesão estrutural grave.
Quando procurar avaliação
A peritendinite é, na grande maioria das vezes, um quadro benigno que responde ao tratamento conservador. Ainda assim, alguns sinais apontam para ruptura do tendão, infecção, trombose ou doença reumática e mudam a conduta.
Marque o que você sente
- Estalo durante o esforço, com perda súbita de força ou uma falha que se sente no tendão (possível ruptura).
- Incapacidade de apoiar o pé ou de mover a articulação após o início da dor.
- Vermelhidão intensa, calor e febre (possível infecção).
- Panturrilha inchada, quente e dolorida de um lado só, sobretudo após viagem longa, cirurgia, gesso ou uso de anticoncepcional (suspeita de trombose).
- Roçar ou ranger ao mexer o tendão, com inchaço ao longo dele.
- Dor que não melhorou após 2 semanas com o gesto reduzido.
- Dor que piora de forma progressiva, semana a semana.
- Inchaço de várias articulações ao mesmo tempo, ou rigidez de manhã por mais de 30 minutos.
Nada marcado? Siga as medidas de casa e o ajuste de carga por 1 a 2 semanas; sem melhora em 2 semanas, marque uma avaliação.
Marcou um ou dois? Se a dor já passou de 2 semanas sem melhorar ou piora semana a semana, marque consulta. Se é recente, reduza o gesto, faça gelo e marque se não cair em 2 semanas. Com várias articulações inchadas ou rigidez longa de manhã, marque já, para afastar doença reumática.
Marcou item em destaque? Pronto-socorro hoje; se a panturrilha inchada vier com falta de ar ou dor no peito, ligue 192. Três ou mais dos outros? Consulta nesta semana.
Na ausência desses sinais, a peritendinite costuma responder bem ao plano não cirúrgico ao longo de algumas semanas. A trombose da perna é explicada em dor na panturrilha.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

Perguntas frequentes
Qual a diferença entre peritendinite e tendinite?
A peritendinite inflama o tecido que envolve o tendão (o peritendão ou a bainha), enquanto a tendinite afeta o corpo do tendão. A peritendinite costuma dar crepitação, aquela sensação de roçar ao movimento, e inchaço ao longo do tendão. Na prática, os dois quadros podem coexistir, e o tratamento se ajusta conforme o que predomina.
O que é peritendinite no quadril?
É a inflamação do tecido ao redor dos tendões dos glúteos médio e mínimo e do trato iliotibial, que deslizam sobre o trocânter maior do fêmur, na lateral do quadril. A dor fica sobre essa proeminência óssea, piora ao deitar sobre o lado e ao subir escada, e costuma vir junto de inflamação da bursa vizinha. Veja mais no guia de dor no quadril.
O que é peritendinite no joelho?
Envolve sobretudo os tendões da pata de ganso, na face interna abaixo do joelho, e o trato iliotibial, na face externa. A dor fica num ponto da margem do joelho, por fora da articulação, e piora ao correr, agachar e descer escada. Por ser superficial e bem localizada, ajuda a diferenciá-la de causas dentro da articulação.
O que é a crepitação que sinto no tendão?
É a sensação de roçar, ranger ou de “neve apertada” que se percebe com os dedos quando o tendão se move. Ela traduz o deslizamento áspero do tendão dentro de um envoltório inflamado e é uma pista característica de peritendinite. Quando presente, sugere que o problema está na bainha.
Quanto tempo leva para a peritendinite melhorar?
Depende do sítio e do tempo de evolução. A peritendinite recente costuma melhorar em 1 a 2 semanas de ajuste de carga; quando já há tendinopatia junto, a recuperação leva de 6 a 12 semanas de reabilitação consistente. A recuperação do tendão exige paciência com a progressão de carga, porque retomar o esforço cedo demais reacende o atrito. O plano é reavaliado conforme a resposta.
Preciso parar totalmente a atividade?
Em geral, não. O ideal é o repouso relativo: reduzir ou ajustar o gesto que provoca a dor, mantendo as atividades que não doem. O repouso absoluto enfraquece o tendão e atrasa a recuperação. O fisioterapeuta ajuda a dosar a carga e a reintroduzir o esforço de forma segura.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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