Remédios para dor de cabeça: quais são os principais e como funcionam
A escolha do remédio para dor de cabeça depende do tipo de cefaleia e de tratar a crise ou preveni-la.
- Não existe um único melhor remédio para dor de cabeça: o que serve depende do tipo (tensional, enxaqueca ou cervicogênica) e de você precisar abortar a crise ou preveni-la.
- Na crise, os mais usados são analgésicos simples (paracetamol, dipirona) e anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno); na enxaqueca moderada a intensa entram os triptanos, com cautela cardiovascular.
- Quem tem crises frequentes precisa de profilaxia (amitriptilina, propranolol, topiramato, candesartana), e não de mais analgésico, pelo risco de cefaleia por uso excessivo.
- Os nomes vão pelo princípio ativo. A dose, a duração e o ajuste de qualquer um desses fármacos são decisões do médico assistente.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O remédio certo começa pelo tipo de dor de cabeça
A pergunta “qual remédio para dor de cabeça?” só tem resposta depois de outra: que tipo de cefaleia é esta? Tensional, enxaqueca e cervicogênica respondem a remédios diferentes, e tratar todas como se fossem a mesma coisa é a causa mais comum de tratamento que não funciona.
Na prática clínica, três padrões cobrem a grande maioria das dores de cabeça primárias que chegam ao consultório. A cefaleia tensional costuma ser um aperto em faixa, dos dois lados, de intensidade leve a moderada, sem náusea importante e sem piora marcante com a atividade. A enxaqueca tende a ser pulsátil, com frequência de um lado só, de intensidade moderada a forte, acompanhada de náusea e de sensibilidade à luz e ao som, e piora ao subir escadas ou fazer esforço. A cefaleia cervicogênica nasce no pescoço ou na nuca e sobe para a cabeça, em geral de um lado, reproduzindo-se com a postura e o movimento cervical; é tratada em profundidade na nossa página sobre dor de cabeça na nuca.
Essa separação não é acadêmica: ela define a classe de remédio. Uma cefaleia tensional ocasional responde a um analgésico simples; uma enxaqueca de intensidade moderada com frequência precisa de um triptano para ceder; e uma dor de origem cervical pode não responder bem a nenhum analgésico isolado, porque o problema está na musculatura e nas articulações do pescoço, e não em uma via que o comprimido alcança. Por isso o primeiro passo de qualquer tratamento medicamentoso bem feito é o diagnóstico do tipo de cefaleia, e não a escolha do comprimido.
| Tipo de cefaleia | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Tensional | Aperto em faixa, dos dois lados, leve a moderada | Sem náusea importante; não piora muito com esforço físico |
| Enxaqueca | Pulsátil, em geral de um lado, moderada a forte | Náusea, sensibilidade à luz e ao som; piora com atividade |
| Cervicogênica | Começa na nuca e sobe para a cabeça, de um lado | Reproduz com a postura e o movimento do pescoço |
Muita gente que se diz “alérgica a todo remédio de dor de cabeça” na verdade tem enxaqueca tratada com analgésico simples, que é insuficiente, ou tem cefaleia por uso excessivo desses mesmos analgésicos. O problema raramente é o organismo: é o par errado entre o tipo de cefaleia e a classe de medicação.

Abortivo x profilaxia: duas lógicas diferentes

Os remédios para dor de cabeça se dividem em dois grandes papéis, e confundi-los é um erro caro. O tratamento abortivo (ou sintomático) é usado durante a crise, para fazer a dor passar; deve agir rápido e ser usado em poucos dias por mês. O tratamento profilático é tomado todos os dias, mesmo sem dor, com o objetivo de reduzir a frequência e a intensidade das crises ao longo de semanas. São arsenais distintos, com remédios distintos.
Faz a dor passar
Analgésicos simples, anti-inflamatórios, triptanos e antieméticos. Age em horas, mas tem teto de dias por mês para não virar gatilho de mais dor.
Reduz a frequência
Amitriptilina, nortriptilina, propranolol, topiramato, candesartana. Tomado diariamente; o efeito aparece ao longo de semanas, não na primeira dose.
A regra prática que orienta a decisão: quem tem crises raras precisa de um bom abortivo. Quem passa a ter crises frequentes (em enxaqueca, costuma-se discutir profilaxia a partir de cerca de 4 dias de dor por mês, ou antes disso quando as crises são incapacitantes) precisa de profilaxia. Continuar tomando cada vez mais analgésico em vez de iniciar a profilaxia é o caminho mais comum para a cefaleia por uso excessivo de analgésico, que detalho na seção «Cefaleia por uso excessivo de analgésico».
| Tipo de cefaleia | Abortivo | Profilaxia |
|---|---|---|
| Tensional | Paracetamol, dipirona, ibuprofeno ou naproxeno por períodos curtos | Amitriptilina em dose baixa quando frequente; manejo do estresse e do pescoço |
| Enxaqueca | Anti-inflamatório (ibuprofeno, naproxeno) na crise leve; triptano na moderada a forte; antiemético adjuvante | Propranolol, amitriptilina, topiramato ou candesartana, conforme o perfil e as comorbidades |
| Cervicogênica | Analgésico simples ou anti-inflamatório com benefício parcial | Tratamento do pescoço (reabilitação, agulhamento, bloqueio); medicação tem papel adjuvante |
Repare que, na cervicogênica, a coluna de profilaxia não é um comprimido: é o tratamento da causa no pescoço. Esse é justamente o ponto em que a clínica da dor agrega mais, porque o problema não se resolve só na farmácia.
Analgésicos simples e anti-inflamatórios
São a primeira linha para a maioria das crises de dor de cabeça leves a moderadas, em especial a tensional e a enxaqueca de menor intensidade. Funcionam melhor quando tomados cedo na crise, ainda no início da dor, e em poucos dias por mês.
Paracetamol (acetaminofeno)
- Mecanismo
- analgésico e antitérmico de ação predominantemente central, com efeito anti-inflamatório fraco.
- Evidência e uso
- opção razoável para cefaleia tensional e para crises leves de enxaqueca, com a vantagem de ser bem tolerado no estômago.
- O que esperar
- alívio em cerca de 30 a 60 minutos quando a dor ainda é leve.
- Segurança
- o ponto crítico é a dose total diária e a função do fígado; o paracetamol é hepatotóxico em excesso e está em vários medicamentos combinados, o que facilita a soma sem perceber. Não associar a bebida alcoólica em excesso.
Dipirona (metamizol)
- Mecanismo
- analgésico e antitérmico de ação central e periférica, muito usado no Brasil.
- Uso
- eficaz em cefaleia tensional e em crises de enxaqueca leves a moderadas.
- O que esperar
- início de alívio em torno de 30 a 60 minutos.
- Segurança
- a preocupação clássica é o risco raro de agranulocitose (queda acentuada de um tipo de glóbulo branco); febre com dor de garganta durante o uso pede avaliação. Pode causar queda de pressão se administrada rápido por via venosa.
Anti-inflamatórios: ibuprofeno e naproxeno
- Mecanismo
- inibem a enzima ciclo-oxigenase (COX) e reduzem a produção de prostaglandinas, mediadores da dor e da inflamação.
- Evidência
- o ibuprofeno tem boa evidência na crise de enxaqueca e na tensional; o naproxeno, por ter ação mais prolongada, é útil em crises arrastadas e em alguns esquemas de enxaqueca. Tratamos o tema em detalhe nas páginas sobre enxaqueca e no guia de remédios para dor.
- O que esperar
- alívio em cerca de 30 a 60 minutos, melhor quanto mais cedo na crise.
- Segurança
- os anti-inflamatórios pesam no estômago (risco de gastrite e úlcera), nos rins e na pressão arterial, e devem ser usados com cautela em quem tem doença renal, hipertensão mal controlada, histórico de úlcera ou idade avançada. São, junto com os analgésicos simples, os principais envolvidos na cefaleia por uso excessivo quando tomados em excesso de dias por mês.
Cuidado com os “compostos” para dor de cabeça
- Muitas combinações de farmácia juntam um analgésico, cafeína e, às vezes, um derivado. A cafeína potencializa o efeito, mas também é um gatilho importante de cefaleia por uso excessivo quando o uso é frequente.
- O butilbrometo de escopolamina (presente em produtos para cólica) é um antiespasmódico para dor visceral; não é um remédio próprio para dor de cabeça e não trata enxaqueca ou cefaleia tensional.
- Somar vários produtos “para dor de cabeça” sem orientação é a forma mais comum de exceder doses de paracetamol ou de anti-inflamatório sem perceber.
Triptanos e antieméticos: a crise de enxaqueca
Quando a crise de enxaqueca é moderada a forte, ou quando os analgésicos e anti-inflamatórios não dão conta, entram os triptanos, a classe abortiva específica da enxaqueca. Eles não servem para qualquer dor de cabeça: são desenhados para o mecanismo da enxaqueca.
Triptanos (sumatriptano, naratriptano, rizatriptano, zolmitriptano)
- Mecanismo
- são agonistas dos receptores de serotonina 5-HT1B e 5-HT1D. Promovem vasoconstrição de vasos cranianos dilatados e, sobretudo, inibem a liberação de neuropeptídeos inflamatórios (como o CGRP) e a transmissão da dor na via trigeminal.
- Evidência
- são a primeira linha abortiva específica para a enxaqueca moderada a forte, com eficácia bem estabelecida.
- O que esperar
- alívio em torno de 30 minutos a 2 horas; funcionam melhor tomados no início da crise. Alguns têm início mais rápido e duração mais curta, outros agem mais devagar e por mais tempo, o que ajuda o médico a escolher conforme o padrão das crises.
- Limite de uso
- não devem ser usados em muitos dias por mês, sob risco de cefaleia por uso excessivo.
Triptanos exigem avaliação do risco cardiovascular
- Por causarem vasoconstrição, são contraindicados em quem tem doença coronariana, infarto prévio, angina, doença cerebrovascular (AVC ou ataque isquêmico transitório), doença vascular periférica e hipertensão não controlada.
- Devem ser avaliados com cautela em pessoas com múltiplos fatores de risco cardiovascular (idade, tabagismo, diabetes, colesterol alto, histórico familiar).
- Não se associam a outro triptano nem a derivados do ergot (ergotamina) no mesmo período. A combinação com certos antidepressivos exige atenção pelo risco de síndrome serotoninérgica.
- Por tudo isso, triptano é medicação de prescrição: a avaliação do risco é individual e cabe ao médico.
Antieméticos adjuvantes (metoclopramida, bromoprida)
- Mecanismo
- bloqueiam receptores de dopamina, reduzindo náusea e vômito; além disso, melhoram o esvaziamento do estômago, o que favorece a absorção do analgésico tomado por via oral.
- Uso
- a náusea é parte da enxaqueca e atrapalha tanto o conforto quanto a absorção do abortivo; por isso o antiemético entra como adjuvante, não como tratamento isolado da dor.
- O que esperar
- alívio da náusea e, indiretamente, melhor resposta ao analgésico.
- Segurança
- podem causar sonolência e, mais raramente, sintomas motores (inquietação, contraturas); o uso é pontual e orientado.
Vale registrar que a enxaqueca ganhou nos últimos anos terapias mais novas e específicas, como os anticorpos contra o CGRP e os bloqueadores do seu receptor, usados sobretudo na prevenção de casos selecionados. São opções de prescrição especializada e fogem do escopo da automedicação; o ponto aqui é que existe muito além do analgésico de balcão quando a enxaqueca é frequente.
Profiláticos: os remédios que previnem as crises
Quando as crises são frequentes ou muito incapacitantes, o foco muda do abortivo para a profilaxia: um remédio tomado todos os dias para reduzir a frequência e a intensidade ao longo de semanas. Um detalhe que confunde muitos pacientes: vários profiláticos da enxaqueca foram criados para outra finalidade (depressão, pressão alta, epilepsia) e são usados aqui em outra lógica e, em geral, em doses menores. Eles não são “tarja preta de cabeça”; são ferramentas de neuromodulação da dor.
Amitriptilina e nortriptilina (antidepressivos tricíclicos)
- Mecanismo
- aumentam a disponibilidade de serotonina e noradrenalina nas vias que modulam a dor e melhoram o sono; o efeito analgésico é independente do antidepressivo e ocorre em dose mais baixa.
- Evidência e uso
- são a base da profilaxia da cefaleia tensional crônica e uma boa opção na enxaqueca, em especial quando há insônia ou dor cervical associada.
- O que esperar
- o benefício aparece em algumas semanas, não na primeira dose.
- Segurança
- boca seca, sonolência, prisão de ventre e ganho de peso são comuns; a nortriptilina costuma ser mais bem tolerada quanto à sedação. Exigem cautela em arritmias e em idosos. Tratamos a amitriptilina e a nortriptilina em detalhe em conteúdos próprios.
Propranolol (betabloqueador)
- Mecanismo
- bloqueia receptores beta-adrenérgicos; o efeito profilático na enxaqueca envolve a redução da excitabilidade e da resposta vascular, ainda que não totalmente esclarecido.
- Evidência
- é um dos profiláticos de enxaqueca com melhor evidência e dos mais usados como primeira linha.
- O que esperar
- redução gradual da frequência ao longo de semanas.
- Segurança
- pode baixar a pressão e a frequência cardíaca, causar cansaço e piorar quadros de asma; merece cautela em diabéticos e é evitado em alguns casos de bradicardia. Útil quando há também ansiedade ou pressão alta associadas.
Topiramato (anticonvulsivante)
- Mecanismo
- estabiliza a excitabilidade neuronal por múltiplas vias (canais iônicos, ação sobre GABA e glutamato).
- Evidência
- profilático de enxaqueca com boa evidência, incluindo a enxaqueca crônica.
- O que esperar
- efeito ao longo de semanas, com titulação lenta da dose.
- Segurança
- formigamento nas mãos e nos pés, alteração do paladar (em especial de bebidas gaseificadas), dificuldade de concentração e perda de peso são frequentes. Ponto importante: pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais e é contraindicado na gravidez pelo risco de malformações, o que exige conversa específica com mulheres em idade fértil.
Candesartana (bloqueador do receptor da angiotensina)
- Mecanismo
- é um anti-hipertensivo que bloqueia o receptor de angiotensina II; o mecanismo do efeito na enxaqueca não é totalmente conhecido, mas a eficácia profilática foi demonstrada em estudos.
- Uso
- alternativa bem tolerada, útil quando os betabloqueadores não são desejáveis ou quando há hipertensão associada.
- O que esperar
- redução de frequência ao longo de semanas.
- Segurança
- pode baixar a pressão e alterar a função renal e o potássio; é contraindicada na gravidez.
Profilaxia se julga depois de um tempo adequado de uso
Um profilático só pode ser considerado ineficaz após algumas semanas em dose adequada. Trocar cedo demais, ou parar ao primeiro efeito colateral leve, é uma causa frequente de “nada funciona”. O ajuste é progressivo e acompanhado pelo médico.
Cefaleia por uso excessivo de analgésico
Este é o alerta mais importante de toda a página. A cefaleia por uso excessivo de analgésico (também chamada de cefaleia por rebote) é uma dor de cabeça que piora justamente por causa do remédio tomado para aliviá-la. É uma das causas mais comuns de dor de cabeça que se torna diária e que não responde a nada, e quase sempre passa despercebida por quem a vive.
O mecanismo é um ciclo vicioso: o uso muito frequente de abortivos altera a forma como o cérebro processa a dor, baixando o limiar e tornando as crises mais frequentes; com mais crises, a pessoa toma mais remédio, o que perpetua o problema. Por definição, ela ocorre em quem já tinha uma cefaleia primária (em geral enxaqueca ou tensional) e passou a usar abortivos em excesso de dias por mês.
O que conta como “uso excessivo”
- Triptanos, ergotamínicos, opioides e analgésicos combinados (com cafeína): uso em 10 ou mais dias por mês, por mais de 3 meses.
- Analgésicos simples isolados (paracetamol, dipirona) e anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno): uso em 15 ou mais dias por mês, por mais de 3 meses.
- Uma regra prática segura: usar abortivo em mais de 2 dias por semana, de forma sustentada, já acende o sinal amarelo.
- O tratamento envolve, sob orientação, reduzir ou suspender o abortivo em excesso e, em paralelo, iniciar uma profilaxia adequada. Fazer isso sozinho pode piorar a dor temporariamente; precisa de acompanhamento.
“Se a dor de cabeça voltou, é só tomar mais um analgésico, eles são inofensivos.”
O uso frequente de analgésicos pode, ele próprio, transformar uma dor de cabeça ocasional em diária. A solução costuma ser menos abortivo e uma profilaxia bem indicada, não mais comprimidos.
Por isso a contagem de dias importa tanto. Pedimos a quem tem dor de cabeça frequente que anote, num diário simples, quantos dias por mês sente dor e quantos dias toma algum remédio. Esse número, sozinho, muitas vezes muda todo o tratamento, porque revela um uso excessivo que a pessoa não havia percebido.
O lugar do remédio dentro do tratamento
O remédio é uma parte do tratamento da dor de cabeça, e não o tratamento inteiro. Em quem tem crises raras, o abortivo correto resolve; em quem tem crises frequentes, a profilaxia ocupa o centro. Mas, mesmo com a medicação bem ajustada, a enxaqueca, a cefaleia tensional e a cervicogênica costumam ter um componente de gatilhos, de musculatura e de neuromodulação da dor que o comprimido não alcança sozinho. Por isso, na prática de uma clínica de dor, a medicação entra dentro de um plano mais amplo, e não como única peça.
Esse plano é multimodal, individualizado e dirigido à causa. Ele parte do diagnóstico do tipo de cefaleia e de um diário de dias de dor e de uso de abortivo, soma medidas de base como sono regular, refeições sem grandes jejuns, hidratação e manejo dos gatilhos, e reserva técnicas e procedimentos não medicamentosos para os casos em que o quadro pede, sempre com avaliação médica antes. O detalhe importante para esta página é que essas opções existem e têm papel real, mas a escolha de quais usar, em que ordem e por quanto tempo varia muito de um paciente para outro, e é uma decisão clínica, não um catálogo a ser percorrido.
O ganho prático de tratar a causa, e não apenas a crise, é direto: quando a frequência das crises cai, a pessoa precisa de menos abortivo, o que ao mesmo tempo alivia a dor e protege contra a cefaleia por uso excessivo de analgésico. Esse é o sentido de um plano individualizado, em que cada parte reduz a dependência da outra, e é também o motivo pelo qual a dor de cabeça frequente merece avaliação, e não apenas mais um comprimido.
Como o foco desta página é a medicação, o plano completo de tratamento, com as opções não medicamentosas e os procedimentos descritos em detalhe, é apresentado na nossa página sobre enxaqueca: o que é, causas e tratamentos, e, quando a origem está no pescoço, na página sobre dor de cabeça na nuca.
A queixa que mais ouço não é “minha dor de cabeça é forte”, e sim “o remédio que sempre funcionou parou de fazer efeito”. Quando peço para contar os dias, quase sempre o quadro se repete: a pessoa passou a tomar o abortivo, ou o composto com cafeína, em três, quatro, cinco dias por semana. Não é o remédio que enfraqueceu; é o uso que virou frequente demais e converteu a dor episódica em diária. A conversa difícil é explicar que o caminho pode ser tomar menos, e não algo mais forte.
Por isso, na prática, limitar os dias de abortivo é em si um tratamento, e não uma restrição arbitrária. Combino com o paciente um teto de dias por semana e, em paralelo, começo uma profilaxia, para que ele não fique desamparado na crise enquanto reduz o consumo. Tento desfazer também o par errado mais comum: a enxaqueca tratada anos a fio com analgésico simples, que nunca foi suficiente, e que poderia ter cedido a um abortivo da classe certa usado cedo.
Sinais de alerta: quando a dor de cabeça não é “só” dor de cabeça
A maioria das dores de cabeça é primária e benigna. Alguns sinais, porém, levantam a hipótese de cefaleia secundária (causada por outra doença) e pedem avaliação sem demora, antes de qualquer automedicação.
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor de cabeça súbita e explosiva, a pior da vida, que atinge o pico em segundos a minutos.
- Febre, rigidez de nuca ou confusão mental associadas.
- Déficit neurológico: fraqueza, alteração da fala, da visão ou do equilíbrio.
- Dor que começa após os 50 anos, ou que muda de padrão de forma importante.
- Dor que piora de forma progressiva, ou que acorda a pessoa à noite, ou que piora ao tossir e fazer esforço.
- Dor após trauma na cabeça, ou em quem tem câncer, imunossupressão ou está gestante.
Na ausência desses sinais, a dor de cabeça costuma ser primária e o tratamento segue a lógica deste guia. A presença de qualquer item acima muda a urgência e o tipo de investigação, e o remédio de balcão pode mascarar um quadro que precisa de outra conduta. Na dúvida, a avaliação vem antes do comprimido.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Qual é o melhor remédio para dor de cabeça?
Não há um único melhor. Para a cefaleia tensional e crises leves, analgésicos simples (paracetamol, dipirona) ou anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno) costumam bastar. Para a enxaqueca moderada a forte, os triptanos são a opção específica. Se as crises são frequentes, o caminho é a profilaxia, e não mais analgésico. A escolha depende do tipo de cefaleia e do seu histórico, e cabe ao médico.
Naproxeno e ibuprofeno servem para enxaqueca?
Sim, anti-inflamatórios como ibuprofeno e naproxeno têm boa evidência na crise de enxaqueca, em especial nas de intensidade leve a moderada e tomados cedo. Em crises mais fortes, ou quando não respondem, entra o triptano. Detalhamos a enxaqueca em página própria.
Buscopan (butilbrometo de escopolamina) serve para dor de cabeça?
O butilbrometo de escopolamina é um antiespasmódico indicado para cólicas e dor visceral (intestino, vias urinárias), não para dor de cabeça. Ele não trata enxaqueca nem cefaleia tensional. Para dor de cabeça, as classes adequadas são os analgésicos, os anti-inflamatórios e, na enxaqueca, os triptanos, sempre sob orientação.
Tomo analgésico quase todo dia para dor de cabeça. Tem problema?
Sim, e é um problema comum. O uso frequente de abortivos pode causar cefaleia por uso excessivo, em que o próprio remédio passa a perpetuar a dor. Como referência, analgésicos simples em 15 ou mais dias por mês, ou triptanos e combinados em 10 ou mais dias por mês, por mais de 3 meses, configuram uso excessivo. Procure avaliação: o tratamento costuma ser reduzir o abortivo e iniciar uma profilaxia, com acompanhamento.
Posso tomar dois remédios diferentes para dor de cabeça juntos?
Algumas combinações são intencionais e feitas pelo médico (por exemplo, um anti-inflamatório com um antiemético na enxaqueca). Mas somar produtos por conta própria é arriscado: você pode exceder a dose de paracetamol ou de anti-inflamatório sem perceber, ou combinar um triptano com algo contraindicado.
Os remédios de prevenção da enxaqueca causam dependência?
Os profiláticos usuais (amitriptilina, nortriptilina, propranolol, topiramato, candesartana) não causam dependência no sentido de vício. Eles são tomados por um período para reduzir a frequência das crises e depois podem ser reduzidos de forma planejada pelo médico. Os que merecem mais cautela quanto a tolerância e dependência são os opioides, que não são primeira linha para dor de cabeça.
Quanto tempo o remédio de prevenção demora para fazer efeito?
Em geral algumas semanas, com aumento gradual da dose. Por isso um profilático não deve ser considerado ineficaz cedo demais. Parar ao primeiro efeito colateral leve, sem conversar com o médico, é uma causa frequente de tratamento que parece “não funcionar”.
Dá para tratar dor de cabeça sem remédio?
Em parte, sim, e essa é uma frente importante. Existem opções não medicamentosas e procedimentos com papel real na prevenção das crises, sobretudo na enxaqueca, na cefaleia tensional e na cervicogênica, e que costumam reduzir a necessidade de analgésico. Quais se aplicam ao seu caso é uma decisão individualizada, detalhada na nossa página sobre enxaqueca. O remédio entra como parte do plano, e não como única solução.
Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Os nomes aqui são por princípio ativo e nenhuma dose é citada de propósito: a escolha da classe, a dose, a duração e, sobretudo, o número de dias por mês em que um abortivo pode ser usado são decisões individualizadas, que dependem do tipo de cefaleia, das comorbidades e das interações, e cabem ao médico. A redução de um abortivo em uso excessivo e o início de uma profilaxia devem ser conduzidos com acompanhamento, porque feitos sozinhos podem piorar a dor de forma transitória.
