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Olho seco · Diagnóstico, tratamento e quando pensar em Sjögren

Síndrome do olho seco: causas, diagnóstico, tratamento e quando pensar em Sjögren

A síndrome do olho seco é uma doença multifatorial da superfície ocular definida pela perda da homeostase do filme lacrimal, com hiperosmolaridade e inflamação como motores.

Resposta direta
  • Olho seco é uma doença da superfície ocular em que o filme lacrimal perde estabilidade. Pela definição do DEWS II (2017), a hiperosmolaridade da lágrima e a inflamação da superfície são os mecanismos centrais, que se retroalimentam num ciclo vicioso. O diagnóstico e o tratamento do olho são do oftalmologista.
  • Há dois grandes mecanismos, em geral sobrepostos: deficiência aquosa (a glândula lacrimal produz lágrima de menos, típico do Sjögren) e evaporativo, o mais comum, por disfunção das glândulas de Meibômio (DGM), agravado por piscar pouco diante de telas.
  • O tratamento é escalonado e dirigido ao mecanismo: lágrimas artificiais sem conservantes, higiene palpebral com compressas mornas para a DGM, anti-inflamatórios tópicos (ciclosporina, lifitegraste, corticoide em curso curto), ômega-3, oclusão dos pontos lacrimais e tratamento da blefarite. Tudo conduzido pelo oftalmologista.
  • Quando o olho seco vem com boca seca persistente, dor articular e muscular difusa, rigidez e fadiga, pense em síndrome de Sjögren e encaminhe à reumatologia. O olho a clínica de dor não trata; o que maneja é a dor musculoesquelética associada, em plano multimodal, ao lado de reumatologia e oftalmologia.
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O que é a síndrome do olho seco

A síndrome do olho seco, ou doença do olho seco, é uma doença multifatorial da superfície ocular. O consenso internacional TFOS DEWS II (2017) a define pela perda da homeostase do filme lacrimal, acompanhada de sintomas oculares, em que a instabilidade e a hiperosmolaridade do filme, a inflamação e o dano da superfície e anormalidades neurossensoriais têm papéis etiológicos.

O filme lacrimal não é só água. É uma estrutura de três componentes que trabalham juntos: uma camada lipídica externa, produzida pelas glândulas de Meibômio na borda da pálpebra, que reduz a evaporação; uma fase aquosa, produzida pela glândula lacrimal principal e pelas glândulas acessórias, que carrega oxigênio, eletrólitos e proteínas; e uma camada de mucina, secretada pelas células caliciformes da conjuntiva, que faz a lágrima molhar e aderir ao epitélio. Quando qualquer um desses componentes falha, o filme se rompe rápido entre as piscadas e a superfície fica exposta.

Por isso a doença é classificada em dois grandes mecanismos, que com frequência coexistem. No olho seco por deficiência aquosa, a glândula lacrimal produz lágrima de menos; é a forma associada à síndrome de Sjögren e a outras causas de hipofunção lacrimal. No olho seco evaporativo, que responde pela maioria dos casos, a produção pode ser normal, mas a lágrima evapora rápido demais, em geral por disfunção das glândulas de Meibômio (DGM), em que o óleo (meibum) fica espesso e obstrui os orifícios na borda palpebral. Identificar qual mecanismo predomina orienta o tratamento.

O ciclo vicioso que perpetua a doença

O DEWS II descreve o olho seco como um ciclo que se retroalimenta. A redução ou a má qualidade da lágrima eleva a osmolaridade do filme (hiperosmolaridade). A lágrima hiperosmolar ativa vias inflamatórias no epitélio (cascatas de MAP-quinases e NF-κB, com liberação de citocinas e metaloproteinases). A inflamação resultante danifica o epitélio da córnea e da conjuntiva e reduz as células caliciformes, o que diminui a mucina e desestabiliza ainda mais o filme lacrimal. Um filme instável volta a elevar a osmolaridade, e o ciclo se fecha. Boa parte do tratamento atua justamente em quebrar esse círculo, sobretudo o componente inflamatório.

Um detalhe que confunde muita gente: o olho seco pode lacrimejar. Quando a superfície fica irritada, o olho dispara lágrima reflexa, aquosa e de baixa qualidade, que não estabiliza o filme. A pessoa relata “olho lacrimejando” e, ainda assim, o diagnóstico é de olho seco. No laudo oftalmológico, o quadro pode aparecer como ceratoconjuntivite seca; o código CID-10 H04.1 corresponde a outros transtornos da glândula lacrimal (síndrome do olho seco), e o H57.1 corresponde a dor ocular, um sintoma que às vezes acompanha o quadro.

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Sintomas e causas comuns

Close de um olho humano com a esclera intensamente avermelhada e irritada, vasos sanguíneos visíveis na superfície ocular.
A vermelhidão e a irritação da superfície ocular estão entre os sinais mais comuns do olho seco.

Os sintomas tendem a piorar ao fim do dia, em ambientes secos ou com ar-condicionado, e durante tarefas que reduzem a frequência de piscar, como ler, dirigir e usar computador ou celular. O incômodo costuma ser dos dois olhos. É comum a queixa não acompanhar os achados: pacientes com pouca alteração na superfície podem ter sintomas intensos, e o contrário também ocorre, sobretudo quando há perda de sensibilidade corneana.

  • Sensação de areia. Corpo estranho ou aspereza, como se houvesse um cílio no olho.
  • Ardência e vermelhidão. Queimação que piora com vento, telas e ar-condicionado.
  • Visão que embaça e melhora ao piscar. A nitidez oscila porque o filme lacrimal se rompe entre as piscadas.
  • Lacrimejamento paradoxal. O olho irritado lacrimeja, mas a lágrima reflexa não resolve a secura.
  • Fadiga ocular e sensibilidade à luz. Cansaço ao ler e desconforto com claridade.

As causas mais frequentes na população geral não têm nada de autoimune. O uso prolongado de telas derruba a frequência de piscar, em torno de um terço do habitual, e favorece piscadas incompletas, sendo hoje um dos maiores responsáveis pelo olho seco evaporativo. A idade reduz a produção lacrimal, e a queda de estrogênio na menopausa, somada à disfunção das glândulas de Meibômio, torna o quadro mais comum em mulheres. Fatores ambientais como ar-condicionado, vento, baixa umidade, altitude e fumaça aceleram a evaporação. O uso de lentes de contato, a blefarite crônica e cirurgias oculares prévias, como a refrativa (LASIK), que secciona nervos corneanos, também contribuem.

Vários medicamentos reduzem a lágrima como efeito adverso: anti-histamínicos, descongestionantes, alguns anti-hipertensivos (diuréticos, betabloqueadores), antidepressivos com ação anticolinérgica e isotretinoína para acne, que atrofia transitoriamente as glândulas de Meibômio. Essa relação interessa diretamente à dor crônica: parte dos fármacos usados na dor neuropática, como os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), tem efeito anticolinérgico e pode causar ou piorar a boca e o olho secos. É uma das razões pelas quais a prescrição para dor é individualizada, com dose, duração e efeitos adversos pesados pelo médico assistente.

Mito

“Meu olho lacrimeja o tempo todo, então não pode ser olho seco.”

Fato

O olho seco frequentemente lacrimeja. A superfície irritada dispara lágrima reflexa de baixa qualidade, que não estabiliza o filme lacrimal. Lacrimejamento e olho seco convivem no mesmo quadro.

Como o oftalmologista diagnostica

O diagnóstico do olho seco e a definição do seu mecanismo são feitos pelo oftalmologista, que combina a história, questionários de sintomas e um conjunto de testes da superfície ocular. É o resultado desses exames que separa o olho seco evaporativo do deficiente em lágrima, e é isso que orienta o tratamento.

A avaliação costuma começar por um questionário de sintomas padronizado (por exemplo, o OSDI), que quantifica o desconforto e o impacto nas atividades. Em seguida vêm os testes objetivos, em uma ordem que vai do menos ao mais invasivo, já que pingar colírios e tocar a superfície altera os exames seguintes.

  • Tempo de ruptura do filme lacrimal (TBUT). Mede em quantos segundos o filme se rompe após a piscada. Valores abaixo de cerca de 10 segundos sugerem instabilidade; abaixo de 5 segundos é claramente alterado. Versões sem corante (TBUT não invasivo) evitam interferência.
  • Osmolaridade lacrimal. Mede a concentração de sais na lágrima. Valores elevados, em geral acima de cerca de 308 mOsm/L, ou uma diferença grande entre os dois olhos, indicam a hiperosmolaridade central da doença.
  • Coloração da superfície. Com fluoresceína cora-se o epitélio danificado da córnea; com verde de lissamina ou rosa-bengala, as células sofridas da conjuntiva. O padrão e a intensidade da coloração graduam o dano epitelial.
  • Teste de Schirmer. Uma tira de papel no fórnice inferior mede o volume de lágrima produzido em 5 minutos. Valores baixos (em geral abaixo de 5 a 10 mm) apontam para o componente de deficiência aquosa, o mais associado ao Sjögren.
  • Avaliação das pálpebras e meibografia. O exame da borda palpebral e a expressão das glândulas avaliam a qualidade do meibum; a meibografia, por infravermelho, fotografa a arquitetura das glândulas de Meibômio e mostra atrofia e perda glandular, a marca do olho seco evaporativo.

Não há um único exame que feche o diagnóstico. O oftalmologista cruza sintomas com pelo menos um marcador objetivo de homeostase alterada (TBUT curto, osmolaridade elevada ou coloração positiva) e usa Schirmer e meibografia para definir o subtipo. Essa distinção é o que decide, por exemplo, entre investir em compressas mornas e higiene palpebral (evaporativo) ou em reter a lágrima com tampões e estimular a produção (deficiência aquosa).

Tratamento da superfície ocular, passo a passo

Mão posicionando uma agulha fina de acupuntura na pele próxima à orelha e à face de uma pessoa deitada.
A acupuntura é um dos recursos que pode complementar o tratamento dos sintomas do olho seco.

O tratamento do olho seco é escalonado e dirigido ao mecanismo, e é conduzido pelo oftalmologista. O DEWS II organiza as medidas em degraus: começa-se por educação, ajuste de ambiente e lágrimas artificiais; sobe-se para anti-inflamatórios tópicos, tratamento da disfunção das glândulas de Meibômio e oclusão dos pontos lacrimais; e, em casos graves e refratários, recorre-se a soro autólogo, lentes esclerais e outros recursos. A clínica de dor não trata o olho seco; as modalidades que compõem esse cuidado seguem abaixo, cada uma com seu mecanismo, evidência e limites.

A lógica que costura todas as etapas é a do ciclo vicioso: repor volume e estabilidade (lágrimas), reduzir a evaporação (glândulas de Meibômio), conter a inflamação (anti-inflamatórios) e preservar a lágrima na superfície (oclusão punctal). Por isso o plano é frequentemente combinado, e não uma medida isolada.

Lágrimas artificiais sem conservantes

O que é
Colírios lubrificantes que repõem volume e estabilizam o filme lacrimal. Há versões mais fluidas, para uso diurno frequente, e formulações em gel ou pomada, mais espessas e duradouras, úteis à noite. Muitas contêm agentes como hialuronato de sódio ou carmelose.
Mecanismo
Aumentam o volume aquoso, diluem a hiperosmolaridade da lágrima e prolongam o tempo de contato com a superfície, reduzindo o atrito e protegendo o epitélio. Não tratam a causa; dão suporte ao filme enquanto o mecanismo de base é abordado.
Evidência
São a base do alívio sintomático no olho seco leve a moderado, com benefício consistente sobre sintomas e sinais. As formulações sem conservantes têm evidência de menor toxicidade epitelial no uso frequente.
O que esperar
Alívio rápido, porém transitório, exigindo reaplicação ao longo do dia. Não modificam o curso da doença; mantêm o conforto e a superfície enquanto os demais degraus agem.
Indicações
Praticamente todos os casos, isoladas no olho seco leve e como base nos demais. Quem usa o colírio mais de quatro a seis vezes ao dia costuma se beneficiar das versões sem conservantes.
Limitações
Conservantes como o cloreto de benzalcônio podem irritar e agravar a superfície no uso crônico. A escolha entre gel e fluido, a composição e a frequência são definidas na consulta oftalmológica.

Higiene palpebral e compressas mornas para a disfunção de Meibômio

O que é
Compressas mornas sobre as pálpebras fechadas, seguidas de massagem e limpeza suave da borda dos cílios. É a medida central do olho seco evaporativo por disfunção das glândulas de Meibômio (DGM) e da blefarite associada.
Mecanismo
O calor (em torno de 40 a 45 °C) liquefaz o meibum espesso que obstrui os orifícios das glândulas; a massagem ajuda a expressá-lo; a limpeza remove debris e reduz a carga bacteriana e a inflamação da margem palpebral. O resultado é uma camada lipídica de melhor qualidade, que reduz a evaporação.
Evidência
Recomendada como primeira linha na DGM, com benefício sobre sintomas e estabilidade do filme. A constância importa mais do que a intensidade; é uma medida de manutenção. Procedimentos em consultório (luz pulsada, expressão térmica) são opções para casos selecionados, indicados pelo oftalmologista.
O que esperar
Melhora gradual ao longo de semanas, dependente da regularidade. Costuma ser combinada com lágrimas artificiais e, quando há blefarite ativa, com tratamento dirigido.
Indicações
Olho seco evaporativo, DGM, blefarite anterior e posterior. Útil também em quem passa muitas horas em telas, onde a DGM é frequente.
Limitações
Exige técnica e constância; calor excessivo pode lesar a pele fina da pálpebra. Sozinha pode não bastar nos casos moderados a graves, que somam anti-inflamatórios.

Anti-inflamatórios tópicos: ciclosporina, lifitegraste e corticoide

O que é
Colírios que atuam sobre o componente inflamatório do ciclo vicioso. As opções incluem a ciclosporina tópica, o lifitegraste e, para resgate em crises, um corticoide tópico em curso curto. A prescrição é exclusiva do oftalmologista.
Mecanismo
A ciclosporina inibe a calcineurina e a ativação de linfócitos T, reduzindo a inflamação crônica da superfície e permitindo a recuperação das células caliciformes e da produção lacrimal. O lifitegraste bloqueia a interação LFA-1/ICAM-1, freando o recrutamento de células T. O corticoide reduz a inflamação de forma ampla e rápida, servindo de ponte até as outras medidas agirem.
Evidência
Ciclosporina e lifitegraste têm ensaios controlados que sustentam o uso no olho seco moderado a grave com componente inflamatório, incluindo o associado ao Sjögren, com melhora de sinais e sintomas. O corticoide tem efeito rápido demonstrado, reservado a ciclos curtos.
O que esperar
A ciclosporina tem início lento: o benefício costuma aparecer após semanas a alguns meses de uso contínuo, e pode haver ardência transitória no começo. O corticoide age em dias, mas não é para uso prolongado.
Indicações
Olho seco moderado a grave, ceratoconjuntivite seca do Sjögren e casos com inflamação evidente que não respondem só a lágrimas e higiene palpebral.
Limitações
O corticoide tópico, em uso prolongado, eleva a pressão intraocular e favorece catarata e infecções, por isso exige monitorização e tempo limitado. A ciclosporina pode arder no início.

Ômega-3 e ajuste alimentar

O que é
Suplementação de ácidos graxos ômega-3 e atenção à dieta, propostos como adjuvantes, sobretudo no olho seco evaporativo e na DGM.
Mecanismo
Postula-se um efeito anti-inflamatório sistêmico e uma melhora na composição do meibum, com lágrima menos sujeita à evaporação. É um mecanismo plausível, ainda em definição quanto à magnitude.
Evidência
Resultados heterogêneos: alguns estudos sugerem benefício discreto sobre sintomas e estabilidade do filme, enquanto ensaios maiores não confirmaram efeito consistente. Posiciona-se como adjuvante, não como tratamento isolado.
O que esperar
Eventual melhora discreta após semanas a meses, variável entre pacientes. Não substitui lágrimas, higiene palpebral nem anti-inflamatórios quando indicados.
Indicações
Adjuvante no olho seco evaporativo e na DGM, a critério do oftalmologista, considerando o perfil de cada pessoa.
Limitações
Benefício incerto e modesto; interações e contraindicações (por exemplo, anticoagulação) devem ser avaliadas. Suplemento não é isento de riscos nem de custo.

Oclusão dos pontos lacrimais com tampões punctais

O que é
Pequenos dispositivos (tampões ou plugs) inseridos nos pontos lacrimais para reduzir a drenagem da lágrima. Existem versões temporárias, reabsorvíveis, e permanentes, de silicone. É o procedimento por trás do termo genérico “cirurgia de olho seco”.
Mecanismo
Ao bloquear a saída da lágrima pela via lacrimal, aumentam o volume e o tempo de permanência do filme sobre a superfície. Beneficiam sobretudo o olho seco por deficiência aquosa, em que falta lágrima.
Evidência
Indicação consolidada no olho seco aquodeficiente moderado a grave que não responde às medidas iniciais, com melhora de sintomas e da superfície. Em geral, controla-se a inflamação antes de ocluir.
O que esperar
Procedimento ambulatorial, rápido e reversível no caso dos tampões removíveis. O efeito é imediato sobre o volume lacrimal; ajusta-se conforme a resposta.
Indicações
Deficiência aquosa, incluindo a do Sjögren, refratária a lágrimas e anti-inflamatórios. Decisão sempre oftalmológica e individualizada.
Limitações
Pode causar lacrimejamento excessivo, extrusão do tampão ou, raramente, infecção (canaliculite). Reter lágrima inflamada sem tratar a inflamação pode ser contraproducente.

Tratamento da blefarite e da disfunção de Meibômio

O que é
Abordagem dirigida à inflamação crônica da margem palpebral (blefarite) e à DGM, que com frequência são a raiz do olho seco evaporativo. Soma higiene palpebral a recursos específicos prescritos pelo oftalmologista.
Mecanismo
Além das compressas e da limpeza, antibióticos com efeito anti-inflamatório, como a azitromicina tópica ou a doxiciclina oral em baixa dose, modulam a inflamação e melhoram a secreção das glândulas de Meibômio (a doxiciclina por ação sobre metaloproteinases e lipases bacterianas, não como antibiótico clássico).
Evidência
A doxiciclina em baixa dose e a azitromicina tópica têm suporte na DGM e na rosácea ocular; procedimentos em consultório (luz intensa pulsada, expressão térmica) são opções para casos selecionados, com evidência crescente, porém ainda heterogênea.
O que esperar
Melhora ao longo de semanas, dependente da adesão. A DGM é crônica e tende a exigir manutenção, não um tratamento pontual.
Indicações
Olho seco evaporativo com blefarite ou DGM, rosácea ocular. É a peça que faltava quando lágrimas e anti-inflamatórios não resolvem.
Limitações
A doxiciclina tem contraindicações (gestação, crianças) e efeitos como fotossensibilidade; a azitromicina pode arder. A escolha e a duração são do oftalmologista.

Acupuntura como adjuvante de evidência limitada

O que é
A acupuntura tem sido estudada como terapia complementar para os sintomas do olho seco, em geral somada ao tratamento oftalmológico convencional, nunca em substituição a ele.
Mecanismo
Postula-se modulação da inflamação e da secreção lacrimal e efeito sobre a regulação autonômica da glândula lacrimal, além da analgesia geral pela ativação de vias inibitórias descendentes. O mecanismo específico no olho seco permanece em investigação e não está estabelecido.
Evidência
Revisões sistemáticas descrevem possível melhora de sintomas e de alguns parâmetros, como o TBUT, em comparação com lágrimas artificiais, mas com estudos de qualidade metodológica limitada e resultados heterogêneos. A evidência é ainda fraca e não a sustenta como terapia central do olho seco.
O que esperar
Eventual alívio sintomático em alguns pacientes, ao longo de um ciclo de sessões, sem efeito demonstrado sobre a doença de base.
Indicações
Adjuvante possível em quem busca complementar o tratamento oftalmológico, especialmente quando há também dor ou tensão associadas. Sempre como complemento.
Limitações
Evidência limitada; desconforto ou equimose no local; cautela com anticoagulação. Não substitui o cuidado oftalmológico nem o tratamento da causa.

Em casos graves e refratários, o oftalmologista dispõe ainda de recursos como o soro autólogo (colírio feito do próprio sangue, rico em fatores de crescimento), lentes de contato esclerais, que mantêm um reservatório de líquido sobre a córnea, e o tratamento de doenças da superfície associadas. Essas medidas são indicadas caso a caso. O olho seco se trata por degraus, com o especialista: o objetivo é estabilizar o filme e controlar a inflamação de uma condição crônica.

Quando o olho seco é parte da síndrome de Sjögren

Aqui está o elo que justifica falar de olho seco em uma clínica de dor. A síndrome de Sjögren é uma doença autoimune em que o sistema imunológico ataca as glândulas exócrinas, sobretudo as lacrimais e as salivares. O resultado clássico é a combinação de olho seco (do tipo deficiência aquosa) e boca seca (xerostomia), a chamada síndrome seca, ou sicca. Pode ser primária (isolada) ou secundária, associada a outras doenças autoimunes como a artrite reumatoide e o lúpus.

O ponto que costuma passar despercebido é que Sjögren não é só secura. É uma doença sistêmica que, com frequência, cursa com dor musculoesquelética difusa, dor e rigidez articular, e fadiga intensa. Muitos pacientes procuram primeiro o oftalmologista pelo olho seco, ou o dentista pela boca seca e cáries, sem que ninguém conecte esses sintomas à dor no corpo que sentem em paralelo. A demora até o diagnóstico, na prática clínica, costuma ser de anos.

Esse atraso tem consequência direta no controle da dor. Por isso a regra prática é simples e vale repetir: diante de olho seco somado a boca seca e dor articular ou muscular difusa, com ou sem fadiga, pense em Sjögren e encaminhe à reumatologia. A investigação segue os critérios de classificação ACR/EULAR 2016, que valorizam os autoanticorpos anti-Ro/SSA, a coloração da superfície ocular, o teste de Schirmer, o fluxo salivar e a biópsia de glândula salivar menor (com a contagem de focos linfocitários, o focus score). É o reumatologista quem conduz o diagnóstico e o tratamento da doença de base.

Convém também separar dois quadros que se confundem e aparecem juntos nas buscas. A pergunta sobre “artrite reumatoide nos olhos” tem resposta afirmativa: a própria artrite reumatoide pode cursar com olho seco (como Sjögren secundário) e com inflamações oculares específicas, como a esclerite. São doenças aparentadas, ambas reumatológicas, e ambas podem ter o olho seco entre as suas manifestações.

Olho seco comum × olho seco do Sjögren
AspectoOlho seco comumOlho seco no Sjögren
Mecanismo predominanteEm geral evaporativo (disfunção de Meibômio)Deficiência aquosa (glândula lacrimal hipofuncionante)
Boca seca associadaEm geral ausente ou levePresente e persistente (xerostomia, cáries, dificuldade de engolir seco)
Dor no corpoNão faz parte do quadroDor articular e muscular difusa, rigidez, fadiga marcante
Exames que ajudamTBUT, osmolaridade, meibografia (oftalmologia)Schirmer baixo, anti-Ro/SSA, biópsia de glândula salivar (reumatologia)
Quem conduzOftalmologiaReumatologia (doença) + oftalmologia (olho) + dor (sintoma doloroso)

Uma observação sobre um sintoma que costuma assustar e levar à busca isolada: o tremor ou pulsar no canto do olho, em uma pálpebra só (a mioquimia palpebral), quase sempre é benigno e ligado a cansaço, falta de sono, excesso de cafeína e estresse. Não é, em regra, sinal de Sjögren nem de doença neurológica grave, embora a irritação do olho seco possa contribuir. Some-se à dor do quadro como mais um lembrete de que sono, estresse e sobrecarga muscular andam juntos.

Sinais de alerta · quando não é só olho seco

O olho seco isolado é, em geral, um incômodo crônico e benigno. Alguns sinais, porém, indicam que o quadro extrapola a superfície do olho e merece avaliação sem demora, seja pela oftalmologia, seja pela reumatologia:

Sinais de alerta · procure avaliação

Não trate como simples olho seco se houver

  • Boca seca persistente associada ao olho seco, com cáries de repetição ou dificuldade de engolir alimentos secos.
  • Dor articular ou muscular difusa, rigidez matinal e fadiga importante junto com a secura.
  • Aumento de volume das glândulas salivares (parótidas), abaixo das orelhas ou no ângulo da mandíbula.
  • Dor ocular intensa, vermelhidão importante, perda de visão ou sensibilidade extrema à luz, que pedem o oftalmologista com urgência.
  • Secura associada a febre, emagrecimento, manchas na pele, dormência ou formigamento (possível componente neuropático).

Cada item muda a rota. Olho seco com dor ocular intensa ou queda de visão é uma questão oftalmológica que não espera. Olho seco com boca seca e dor no corpo aponta para Sjögren e pede a reumatologia. Quando há dor difusa, rigidez e fadiga predominando, vale conhecer também o diagnóstico diferencial com a fibromialgia, que partilha vários desses sintomas e às vezes coexiste com doenças autoimunes.

O que a clínica de dor trata: a dor associada, não o olho

A clínica de dor não trata o olho seco. O olho fica com a oftalmologia e a doença de base, com a reumatologia. O papel da equipe de dor é específico e complementar: manejar a dor musculoesquelética e neuropática que acompanha o Sjögren e outras doenças reumatológicas, dentro de um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico, sempre articulado com o reumatologista que conduz a doença.

A base desse manejo é o exercício; as demais técnicas se somam conforme a apresentação e a resposta. O exercício aeróbico de baixo impacto e o fortalecimento progressivo, bem dosados, reduzem a dor difusa, melhoram a fadiga e o sono e recuperam função, com progressão lenta e supervisionada que respeita os dias de maior atividade da doença. Quando há componente miofascial somando dor regional, o agulhamento seco dos pontos-gatilho provoca a resposta de contração local e reduz a atividade da placa motora, com efeito analgésico local e segmentar; pontos resistentes podem receber infiltração com anestésico. A acupuntura médica, por mecanismos segmentares e de modulação descendente, é útil quando se quer reduzir a carga de medicação, algo desejável em quem já é sensível a efeitos anticolinérgicos por causa da secura.

No componente de dor crônica ou neuropática, podem-se considerar antidepressivos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina ou duloxetina) e gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico. Há aqui uma sutileza relevante para o olho seco: os tricíclicos têm efeito anticolinérgico e podem agravar a secura ocular e bucal. Em pacientes com Sjögren, isso pesa na escolha, podendo favorecer outras classes ou doses menores.

A medicação para a doença de base, anti-inflamatórios e imunomoduladores, fica integralmente a cargo do reumatologista. A equipe de dor não substitui essa conduta; soma-se a ela.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Quais os sintomas e as causas da síndrome do olho seco?

Os sintomas são sensação de areia, ardência, vermelhidão, visão que embaça e melhora ao piscar e, às vezes, lacrimejamento paradoxal. As causas mais comuns são uso de telas, idade, ambiente seco, ar-condicionado, lentes de contato, disfunção das glândulas de Meibômio e medicamentos. O diagnóstico e o tratamento da superfície ocular são feitos pelo oftalmologista.

Como o oftalmologista diagnostica o olho seco?

Combina questionários de sintomas com testes objetivos: o tempo de ruptura do filme lacrimal (TBUT), a osmolaridade da lágrima, a coloração da superfície com fluoresceína e verde de lissamina, o teste de Schirmer e a meibografia das glândulas de Meibômio. O conjunto define se o olho seco é evaporativo ou por deficiência aquosa, o que orienta o tratamento.

Olho seco pode ser sinal de doença autoimune como Sjögren?

Pode. Quando o olho seco vem acompanhado de boca seca persistente, dor articular e muscular difusa, rigidez e fadiga, ele pode fazer parte da síndrome de Sjögren, uma doença autoimune. Nesse caso, o encaminhamento à reumatologia é fundamental para o diagnóstico e o tratamento da doença de base.

A artrite reumatoide pode afetar os olhos?

Sim. A artrite reumatoide pode cursar com olho seco, na forma de Sjögren secundário, e com inflamações oculares específicas, como a esclerite. Olho seco e dor articular juntos merecem avaliação reumatológica. A artrite reumatoide e o Sjögren são doenças aparentadas. Veja também a página sobre dor nas articulações.

Qual colírio usar para olho seco, em gel ou mais fluido?

As lágrimas artificiais mais fluidas servem para uso ao longo do dia; as formulações em gel ou pomada são mais espessas e duradouras, úteis à noite. Quem usa o colírio muitas vezes ao dia costuma se beneficiar de versões sem conservantes, que agridem menos a superfície. A escolha e a frequência são definidas pelo oftalmologista.

Existe cirurgia para olho seco?

O procedimento mais comum é a oclusão dos pontos lacrimais com tampões (plugs), que retêm a lágrima na superfície, indicado pelo oftalmologista no olho seco por deficiência aquosa que não responde às medidas iniciais. Há versões temporárias e permanentes. A decisão é sempre oftalmológica e individualizada, após avaliação da gravidade e do mecanismo do seu olho seco.

O canto do olho fica tremendo, é sinal de Sjögren?

Em geral, não. O tremor ou pulsar em uma pálpebra, chamado mioquimia palpebral, quase sempre é benigno e ligado a cansaço, falta de sono, excesso de cafeína e estresse, e costuma passar sozinho. A irritação do olho seco pode contribuir. Persistindo por semanas, espalhando-se pela face ou com outros sintomas, vale uma avaliação médica.

A clínica de dor trata o olho seco?

Não. O olho seco é tratado pela oftalmologia, e a doença autoimune de base, pela reumatologia. A clínica de dor maneja a dor musculoesquelética e neuropática associada a quadros como o Sjögren, dentro de um plano multimodal, em parceria com esses especialistas. O olho seco em si fica com a oftalmologia.

Prof. Dr. Hong Jin Pai
Sobre o autor
Prof. Dr. Hong Jin Pai
CRM-SP 36.399RQE 29.862

Médico com atuação em Acupuntura Médica, dor, ensino clínico e formação médica continuada. Diretor técnico da Clínica Dr. Hong Jin Pai.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Craig JP, Nichols KK, Akpek EK, et al. TFOS DEWS II Definition and Classification Report. Ocul Surf. 2017;15(3):276 a 283. doi:10.1016/j.jtos.2017.05.008 acessar
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Atualizado em 4 jun 2026 Leitura 13 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. O olho seco deve ser avaliado e tratado por oftalmologista e, quando há suspeita de doença autoimune, por reumatologista.

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