Bloqueio de Fischer: dessensibilização segmentar da coluna
Infiltração de anestésico local nos músculos paraespinhais de um segmento da coluna que ficou hipersensível. O alvo é o segmento inteiro — pele, músculo e ligamento — e o efeito que se busca é a queda da hiperalgesia, medida por algometria antes e depois.
- O bloqueio de Fischer é a infiltração de anestésico local nos tecidos paraespinhais de um segmento da coluna — a musculatura paravertebral e os ligamentos supraespinhoso e interespinhoso daquele nível. Recebe esse nome por causa de Andrew A. Fischer, fisiatra que descreveu a técnica e o quadro que ela trata, a sensibilização espinhal segmentar.
- O objetivo é dessensibilizar o segmento. Quando um nível da coluna recebe estímulo doloroso de forma sustentada, o corno posterior daquele segmento fica hiperexcitável, e a hipersensibilidade aparece nos três tecidos que compartilham o mesmo nível: pele (dermátomo), músculo (miótomo) e inserções ósseas e ligamentares (esclerótomo). O bloqueio interrompe essa entrada.
- É um procedimento diferente do bloqueio facetário. O bloqueio facetário mira a articulação facetária e seus ramos mediais, com agulha profunda e guiada por imagem. O bloqueio de Fischer é superficial, mira a musculatura e os ligamentos paraespinhais, e trata um território segmentar inteiro. Confundir os dois muda a indicação e a técnica.
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O que é o bloqueio de Fischer
O bloqueio de Fischer, ou bloqueio anestésico paraespinhal, deposita uma pequena quantidade de anestésico local sem vasoconstritor nos tecidos moles ao lado dos processos espinhosos, no nível da coluna que se mostrou sensibilizado ao exame. Não é uma injeção dentro de uma articulação nem junto a um nervo periférico nomeado: o alvo é o território do ramo dorsal do nervo espinhal daquele segmento — a musculatura paravertebral, os ligamentos supraespinhoso e interespinhoso e a pele que ele inerva.
A técnica vem do trabalho de Andrew A. Fischer, fisiatra do Veterans Administration Medical Center e do Mount Sinai, em Nova York, que nos anos 1980 desenvolveu a algometria de pressão como instrumento de medida da dor miofascial e, a partir dela, descreveu o conceito de sensibilização espinhal segmentar. No Brasil, a técnica foi desenvolvida e estudada no Hospital das Clínicas da FMUSP, onde foi submetida ao maior ensaio clínico já publicado sobre ela.
A sensibilização espinhal segmentar
Um segmento da medula recebe informação de estruturas que, no corpo adulto, ficam distantes umas das outras, mas que na origem embriológica pertenciam ao mesmo bloco. Quando uma dessas estruturas envia estímulo nociceptivo de forma persistente — um disco degenerado, uma faceta com artrose, uma articulação do joelho, uma víscera —, os neurônios do corno posterior daquele nível reduzem seu limiar de disparo e passam a responder de forma exagerada a estímulos que antes eram indolores.
O achado clínico que decorre disso é característico: a hipersensibilidade não fica restrita à estrutura lesada. Ela aparece, em faixa, nos três tecidos daquele segmento.
A pele do segmento
Hiperalgesia e alodínia em faixa. O teste do rolamento de pele — pinçar e rolar a prega cutânea entre polegar e indicador — dói de forma desproporcional do lado afetado, e a pele frequentemente fica espessada e aderida.
Os músculos do segmento
Bandas tensas e pontos-gatilho na musculatura paravertebral e nos músculos inervados por aquele nível. É aqui que a sensibilização segmentar e a síndrome dolorosa miofascial se encontram.
Ligamentos e inserções
Dor à palpação dos ligamentos supraespinhoso e interespinhoso e das inserções tendíneas e periosteais do segmento — um achado que costuma passar despercebido no exame de rotina.
O trabalho brasileiro que melhor documentou esse padrão avaliou 62 mulheres com artrose de joelho refratária, já indicadas para artroplastia total, comparadas a 22 controles pareados por idade. O limiar de dor à pressão estava significativamente reduzido em todas as estruturas examinadas — não apenas ao redor do joelho, mas nos dermátomos do membro inferior, nos ligamentos supraespinhosos de L1 a L5, nas áreas sacrais L5-S1 e S1-S2 e em músculos distantes, como o quadrado lombar e o ilíaco. Quanto menor o limiar, maior a intensidade da dor, maior a incapacidade e pior a qualidade de vida.
Uma artrose de joelho que dói muito mais do que o desgaste radiográfico explica, e que vem acompanhada de limiares de pressão baixos na coluna lombar e nos dermátomos de L1 a S2, não é apenas um problema local da articulação. Tratar só o joelho, nesse cenário, trata uma parte do quadro. É essa leitura — a de que o segmento espinhal correspondente também está envolvido — que justifica somar a dessensibilização paraespinhal ao tratamento da estrutura lesada.
Como se identifica o segmento sensibilizado
A indicação do bloqueio nasce do exame físico, e é um exame conduzido por segmento, não por região dolorosa. O que se procura é a concordância entre os três tecidos de um mesmo nível.
- Algometria de pressão. O limiar de dor à pressão é medido em kgf/cm² com algômetro sobre pontos padronizados — paravertebrais, ligamentos supraespinhosos, ventres musculares e inserções. Fischer estabeleceu os valores normais e o critério de anormalidade: uma diferença acima de 2 kg entre um lado e o outro indica sensibilidade patológica. É a medida que permite comparar o antes e o depois de forma objetiva.
- Rolamento de pele e dermografismo. A prega cutânea do segmento afetado é dolorosa ao ser pinçada e rolada, e a linha traçada sobre a pele produz resposta vasomotora exagerada e prolongada — sinal de hiperatividade simpática segmentar.
- Palpação da banda tensa. A musculatura paravertebral do nível é percorrida entre polegar e indicador em busca da banda tensa e do ponto que reproduz a dor habitual do paciente. É esse ponto, e não uma referência anatômica fixa, que define onde a agulha entra.
- Palpação dos ligamentos interespinhosos. A pressão sobre o espaço entre dois processos espinhosos consecutivos localiza o nível sensibilizado com precisão maior do que a queixa do paciente costuma oferecer.
- Mapeamento do território. A distribuição da hiperalgesia é mapeada em faixa para confirmar que corresponde a um segmento, e não ao trajeto de um nervo periférico ou de uma raiz comprimida — distinção que separa a sensibilização segmentar da radiculopatia.
Por que anestesiar o paraespinhal alivia
O anestésico local bloqueia canais de sódio e interrompe a condução nas fibras finas que chegam ao corno posterior por aquele segmento. Enquanto a condução está interrompida, o neurônio de segunda ordem deixa de receber o bombardeio que o mantinha hiperexcitável. A hipótese que sustenta a técnica é que essa janela permite ao segmento retornar a um limiar mais próximo do normal — e que o ganho persiste depois que o anestésico já foi metabolizado.
O ensaio do HC-FMUSP testou exatamente isso. Além dos desfechos de dor, mediu o limiar de dor à pressão imediatamente após o tratamento: apenas o grupo que recebeu o bloqueio ativo apresentou aumento significativo do limiar em todos os segmentos avaliados. Os grupos sham e tratamento padrão não alcançaram significância nessa medida. A hiperalgesia — o marcador da sensibilização — respondeu ao procedimento, e não à expectativa de receber uma injeção.
Um segundo achado, vindo do agulhamento seco, aponta na mesma direção. O ensaio duplo-cego conduzido no Centro de Dor do HC-FMUSP com 41 pacientes com dor crônica no ombro mostrou que a sessão ativa reduziu a dor de 6,30 para 2,40 na escala numérica, com efeito que apareceu no segundo dia e se manteve até o sétimo, e — o ponto relevante aqui — reduziu a área de hiperalgesia mecânica apenas no grupo ativo. Intervir sobre o tecido sensibilizado encolhe o território hipersensível, o que é a expressão clínica da dessensibilização.
Como o procedimento é feito
É um procedimento de consultório, com o paciente em decúbito ventral, sem sedação e sem anestesia geral. Os parâmetros descritos a seguir são os do protocolo empregado no ensaio clínico do HC-FMUSP.
Antes: definição do nível
O exame localiza o segmento sensibilizado e a banda tensa é identificada por palpação entre polegar e indicador. A algometria registra o limiar de pressão nos pontos que serão reavaliados depois. A pele é preparada com antissepsia.
Durante: a infiltração paraespinhal
Com agulha descartável de 27G e 3,7 cm, aproximadamente 3 mL de lidocaína a 1% são infundidos de forma difusa nos tecidos paraespinhais do nível, a uma profundidade em torno de 3 a 3,5 cm. A infusão acompanha o trajeto da agulha, e não se concentra num único ponto. Quando o ligamento interespinhoso está sensibilizado, ele também é abordado.
Depois: aferição imediata
O limiar de pressão é remedido nos mesmos pontos. A elevação do limiar logo após a infiltração é o sinal de que o segmento respondeu, e orienta a continuidade da série.
A série
O protocolo estudado empregou uma aplicação por semana, durante três semanas consecutivas, sempre associada a analgesia e a exercícios. O bloqueio isolado não foi testado, e não é assim que se usa na prática.
A agulha é curta e o plano é superficial: a infiltração fica na musculatura paravertebral, sem atravessar a lâmina nem alcançar o espaço epidural ou o forame. É isso que dispensa fluoroscopia e torna o procedimento rápido, e é também o que limita seu alcance — o bloqueio de Fischer não chega a estruturas profundas da coluna.
O que a evidência mostra
O estudo de referência é um ensaio randomizado, controlado com sham, com 378 pacientes com lombalgia crônica inespecífica, conduzido no Instituto de Ortopedia e Traumatologia e no IMREA do HC-FMUSP e publicado no The Journal of Pain em 2016. Três grupos: bloqueio paraespinhal com lidocaína associado a analgésicos e exercícios (n=126); bloqueio sham associado a analgésicos e exercícios (n=125); e analgésicos e exercícios isolados (n=127). O avaliador dos desfechos era cego.
| Desfecho | Bloqueio ativo | Bloqueio sham | Tratamento padrão |
|---|---|---|---|
| Respondedores ao fim do tratamento | 71,4% (90/126) | 55,6% (70/125) | 53,9% (68/127) |
| Respondedores em 3 meses | 56,3% (71/126) | 49,6% (62/125) | 40,1% (51/127) |
| Dor média, do início ao fim do tratamento | 7,1 → 3,9 | 7,0 → 4,9 | 7,0 → 4,6 |
| Limiar de dor à pressão | Aumento significativo em todos os segmentos | Sem significância | Sem significância |
As diferenças entre os três grupos foram significativas ao fim do tratamento e mantiveram-se aos três meses. A capacidade funcional, medida por questionário de capacidade funcional, foi significativamente melhor no grupo do bloqueio ativo do que nos outros dois.
Dois pontos qualificam esses números. O primeiro é que o grupo sham também melhorou bastante — 55,6% de respondedores. O ganho atribuível ao bloqueio em si é a diferença sobre o tratamento padrão, cerca de 17 pontos percentuais ao fim do tratamento e 16 pontos aos três meses, ou seja, a cada seis pacientes tratados, um responde a mais do que responderia só com analgesia e exercício.
É um benefício real e mensurável, de tamanho moderado. A segunda é que o efeito sobre o limiar de pressão separou-se claramente do sham, o que sustenta o mecanismo proposto e distingue o resultado de uma resposta puramente expectante.
Uma coorte posterior do IMREA, com 96 idosos com artrose de joelho, incorporou os bloqueios paraespinhais a um programa que também incluía ondas de choque focais e estimulação elétrica funcional. Houve ganho funcional no Timed Up and Go e no teste de caminhada de 6 minutos, redução de dor em todos os domínios avaliados e elevação do limiar de pressão em pontos específicos — acima da patela, nos tendões patelares, no dermátomo de S2 e em L1-L2. Por ser coorte aberta, sustenta a plausibilidade do uso combinado, não a eficácia isolada do bloqueio.
Há ainda um dado que ajuda a posicionar a técnica frente aos bloqueios articulares. Um estudo com 75 pacientes com lombalgia não radicular comparou técnicas de injeção diagnóstica e encontrou maior incidência de alívio entre os que receberam anestésico local na musculatura do que entre os que receberam soro fisiológico no trajeto e anestésico na faceta ou no ramo medial. A conclusão dos autores foi que o bloqueio facetário pode gerar resultados falso-positivos dependendo da técnica usada, porque o anestésico depositado no caminho anestesia músculo sensibilizado. O componente paraespinhal, quando existe, precisa ser reconhecido — ou será atribuído à faceta.
Em quais quadros costuma ser indicado
Lombalgia crônica inespecífica
A indicação com melhor sustentação. Dor lombar persistente sem causa estrutural que explique a intensidade, com hiperalgesia paravertebral e limiares de pressão reduzidos ao exame segmentar. É a população do ensaio de 378 pacientes.
Dor miofascial com componente segmentar
Quando os pontos-gatilho recidivam sempre nos mesmos músculos de um mesmo miótomo e o tratamento local resolve por pouco tempo, a sensibilização do segmento costuma ser o que sustenta a recidiva.
Artrose de joelho ou de quadril com dor desproporcional
Dor que excede o que o desgaste radiográfico explica, acompanhada de limiares baixos nos dermátomos e ligamentos lombossacrais. Aqui o bloqueio entra somado ao tratamento da articulação.
Cervicalgia e dorsalgia com hiperalgesia em faixa
Dor axial cervical ou torácica com rolamento de pele doloroso e ligamentos interespinhosos sensíveis no mesmo nível, sem sinais de compressão radicular.
O denominador comum é a dor axial persistente com hiperalgesia distribuída em faixa segmentar, em paciente que já passou por reabilitação e analgesia sem controle suficiente. Dor com trajeto radicular definido, déficit motor, alteração de reflexo ou sinais de mielopatia pedem outra investigação e outra conduta.
O bloqueio dentro do plano de tratamento
No ensaio clínico, o bloqueio nunca foi administrado sozinho: os três braços receberam analgesia e exercícios, e o que variou foi a adição do bloqueio ativo ou do sham. Essa é também a forma de usá-lo na prática. O bloqueio abre uma janela de menor sensibilização; o que se faz dentro dessa janela determina quanto do ganho permanece. As modalidades abaixo são as que compõem esse plano.
Bloqueio paraespinhal de Fischer
- O que é
- Infiltração difusa de anestésico local nos tecidos paraespinhais do segmento sensibilizado: musculatura paravertebral, ligamento supraespinhoso e ligamento interespinhoso.
- Mecanismo
- Bloqueio dos canais de sódio nas fibras finas do ramo dorsal, interrompendo a entrada nociceptiva sustentada no corno posterior daquele segmento e reduzindo sua hiperexcitabilidade.
- Evidência
- Ensaio randomizado com sham, 378 pacientes com lombalgia crônica (HC-FMUSP, J Pain 2016): 71,4% de respondedores contra 53,9% no tratamento padrão, com efeito mantido aos 3 meses e elevação do limiar de pressão exclusiva do grupo ativo.
- Como é feito
- Agulha 27G de 3,7 cm, cerca de 3 mL de lidocaína a 1% sem vasoconstritor, profundidade de 3 a 3,5 cm, guiada pela palpação da banda tensa. Poucos minutos por nível, sem sedação.
- O que esperar
- Série de 3 aplicações semanais; queda do limiar de dor perceptível já na aferição imediata; ganho funcional avaliado ao fim da série e aos 3 meses.
- Limitações
- Ganho moderado sobre o tratamento padrão (cerca de 1 a cada 6 pessoas). Não alcança estruturas profundas da coluna, e não substitui o tratamento da lesão que alimenta a sensibilização. Cerca de 4 em cada 10 pacientes não respondem.
Agulhamento seco e infiltração dos pontos-gatilho do segmento
- O que é
- Inserção de agulha nos pontos-gatilho ativos dos músculos do miótomo comprometido, com ou sem anestésico, buscando a resposta de contração local da banda tensa.
- Mecanismo
- Desorganização mecânica da banda tensa e redução da entrada nociceptiva vinda do músculo — a mesma via que mantém o segmento sensibilizado. Complementa o bloqueio ao tratar o componente muscular que ele não alcança em profundidade.
- Evidência
- Ensaio duplo-cego controlado com sham do Centro de Dor do HC-FMUSP em dor crônica de ombro (Pain Reports 2021): dor de 6,30 para 2,40, alívio significativo em cerca de 1 a cada 2 pessoas, e redução da área de hiperalgesia mecânica apenas no grupo ativo.
- O que esperar
- Efeito que começa por volta do segundo dia e se mantém ao menos até o sétimo após uma única sessão; na prática, sessões repetidas ao longo da série.
- Indicações
- Pontos-gatilho ativos e reprodutíveis nos músculos do segmento, sobretudo quando recidivam no mesmo miótomo.
- Limitações
- Dor local por um a dois dias é comum. Sem correção do que sobrecarrega o segmento, os pontos-gatilho retornam.
Cinesioterapia e controle motor do segmento
- O que é
- Programa de exercícios dirigido ao segmento tratado: ativação dos multífidos e do transverso do abdome no caso lombar, controle escapular e flexores profundos do pescoço no caso cervical, com progressão de carga.
- Mecanismo
- Restaura o controle segmentar e distribui a carga que vinha se concentrando naquele nível, reduzindo o estímulo que realimenta a sensibilização. É o que converte a janela aberta pelo bloqueio em ganho estável.
- Evidência
- Integrou os três braços do ensaio de 378 pacientes — inclusive o grupo de tratamento padrão, que teve 53,9% de respondedores apenas com analgesia e exercício.
- O que esperar
- Ganho progressivo ao longo de semanas, com melhora de função antes da abolição completa da dor.
- Indicações
- Todos os casos. É a base sobre a qual o procedimento é somado.
- Limitações
- Quando a hiperalgesia paravertebral é intensa, o exercício se torna pouco tolerável — a razão pela qual o bloqueio precede e viabiliza a progressão.
Neuromodulação: PENS e eletroacupuntura
- O que é
- Estimulação elétrica aplicada por agulhas inseridas na musculatura paravertebral do segmento (PENS) ou por eletroacupuntura em pontos correspondentes ao nível tratado.
- Mecanismo
- Estimulação de fibras de grosso calibre que inibem a transmissão no corno posterior e recrutamento de vias inibitórias descendentes — atuando sobre o mesmo segmento por via não farmacológica.
- Evidência
- Evidência moderada em dor lombar crônica e dor miofascial, com efeito de curta a média duração e necessidade de sessões repetidas.
- O que esperar
- Sessões semanais, com resposta avaliada ao longo de 4 a 8 aplicações.
- Indicações
- Manutenção entre as aplicações do bloqueio, e alternativa quando há restrição ao anestésico local.
- Limitações
- Efeito transitório quando aplicada isoladamente. Requer cautela em portadores de marca-passo.
Medicamentos que atuam sobre a sensibilização
- O que é
- Fármacos moduladores da transmissão no corno posterior: antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina), duais (duloxetina) e ligantes da subunidade α2δ dos canais de cálcio (gabapentina, pregabalina).
- Mecanismo
- Reforço das vias inibitórias descendentes noradrenérgicas e serotoninérgicas e redução da liberação de neurotransmissores excitatórios no neurônio de segunda ordem.
- Evidência
- Bem estabelecida em dor com componente de sensibilização; menor em dor axial puramente mecânica. A escolha depende do perfil de sintomas e das comorbidades.
- O que esperar
- Titulação ao longo de semanas, com avaliação de resposta em 4 a 6 semanas na dose alvo.
- Indicações
- Hiperalgesia difusa, alodínia, sono fragmentado e dor que persiste apesar da abordagem local.
- Limitações
- Sonolência, boca seca, tontura, ganho de peso e edema limitam a dose em parte dos pacientes, sobretudo nos idosos. Exigem prescrição e acompanhamento.
Segurança e situações que pedem cautela
No ensaio de 378 pacientes, a frequência de eventos adversos não diferiu entre os três grupos. No braço do bloqueio ativo, ao longo de todas as aplicações, foram registrados um episódio de síncope vasovagal, resolvido com 40 minutos de repouso, dois hematomas locais, dois casos de dor no local da injeção, um caso de piora da dor e um episódio de elevação pressórica. Não houve infecção, lesão neurológica nem evento grave.
Situações que pedem avaliação antes do bloqueio
- Uso de anticoagulantes ou distúrbios de coagulação, pelo risco de hematoma na musculatura paravertebral.
- Infecção ativa na pele do local ou infecção sistêmica.
- Alergia conhecida a anestésicos locais do grupo amida.
- Dor com trajeto radicular, déficit motor, alteração de reflexos ou sinais de mielopatia — que pedem investigação antes de qualquer procedimento.
- Febre, perda de peso não explicada, história de câncer ou trauma recente associados à dor axial.
O que esperar, semana a semana
Elevação do limiar de pressão
A remedida com algômetro nos mesmos pontos mostra, quando o segmento respondeu, elevação do limiar de dor. É o sinal objetivo imediato, medido antes que qualquer expectativa de melhora possa influenciar o relato.
Dor local no ponto da agulha
Sensibilidade paravertebral leve é esperada e cede com aplicação de gelo. Não indica que o procedimento falhou.
Fim da série e primeira avaliação
Concluídas as três aplicações semanais, a dor e a capacidade funcional são reavaliadas. No ensaio, foi neste ponto que 71,4% dos pacientes haviam reduzido a dor em pelo menos 30%.
Avaliação da durabilidade
Parte do ganho se mantém: 56,3% permaneciam respondedores nesse prazo. A comparação com a avaliação do fim da série define se a série é repetida, se o plano é ajustado ou se a hipótese diagnóstica precisa ser revista.
Bloqueio de Fischer e bloqueio facetário: alvos diferentes
Os dois procedimentos tratam dor axial da coluna e são frequentemente confundidos, inclusive em material de divulgação. São técnicas distintas, com alvo, profundidade, indicação e desdobramento diferentes.
| Bloqueio de Fischer (paraespinhal) | Bloqueio facetário | |
|---|---|---|
| Alvo | Musculatura paravertebral e ligamentos supraespinhoso e interespinhoso do segmento | Articulação facetária ou os ramos mediais que a inervam |
| Profundidade | Superficial, 3 a 3,5 cm | Profunda, até a articulação ou o processo transverso |
| Orientação | Palpação da banda tensa e do ligamento sensibilizado | Ultrassom ou fluoroscopia |
| O que trata | A sensibilização do segmento como um todo | A dor gerada por uma articulação específica |
| Papel diagnóstico | Mede a resposta da hiperalgesia por algometria | Confirma a faceta como geradora da dor |
| Passo seguinte quando funciona mas dura pouco | Repetir a série e intensificar a reabilitação do segmento | Radiofrequência do ramo medial |
Os dois podem coexistir no mesmo paciente, e é comum que coexistam. Uma faceta com artrose alimenta a sensibilização do seu segmento, e o segmento sensibilizado amplifica a dor que a faceta gera. O estudo sobre técnicas de injeção diagnóstica citado acima mostra por que a ordem importa: quando o componente paraespinhal não é reconhecido, o alívio obtido com anestésico depositado no trajeto pode ser creditado à faceta e levar a uma indicação de radiofrequência que não se sustenta.
Como o procedimento é conduzido na clínica
Na Clínica Dr. Hong Jin Pai, o bloqueio de Fischer é realizado pelos médicos Dr. Marcus Yu Bin Pai (CRM-SP 158.074 · RQE 65.523) e Dr. Andrew Park (CRM-SP 157.730 · RQE 102.227), ambos especialistas em Medicina Física e Reabilitação com área de atuação em Dor. A avaliação que define a indicação inclui o exame segmentar descrito acima e a algometria de pressão, cujos valores são registrados para comparação ao longo da série.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
O bloqueio de Fischer é o mesmo que o bloqueio facetário?
Não. O bloqueio de Fischer infiltra anestésico nos tecidos paraespinhais — músculo paravertebral e ligamentos supraespinhoso e interespinhoso — a cerca de 3 a 3,5 cm de profundidade, guiado pela palpação da banda tensa, e trata a sensibilização de um segmento inteiro. O bloqueio facetário alcança a articulação facetária ou os ramos mediais que a inervam, é profundo, exige orientação por ultrassom ou fluoroscopia e trata a dor de uma articulação específica. Os nomes se confundem porque ambos tratam dor axial da coluna, mas a indicação, a técnica e o passo seguinte são diferentes.
Quem realiza o bloqueio de Fischer na clínica?
O procedimento é realizado pelos médicos Dr. Marcus Yu Bin Pai (CRM-SP 158.074 · RQE 65.523) e Dr. Andrew Park (CRM-SP 157.730 · RQE 102.227), especialistas em Medicina Física e Reabilitação com área de atuação em Dor. A indicação é definida em consulta, a partir do exame segmentar e da algometria de pressão.
Quantas aplicações são necessárias?
O protocolo estudado no ensaio do HC-FMUSP empregou uma aplicação por semana durante três semanas consecutivas, sempre associada a analgesia e a exercícios. Ao fim dessas três semanas, a dor, a capacidade funcional e o limiar de pressão são reavaliados, e essa comparação define se a série é repetida, se o plano é ajustado ou se vale rever o diagnóstico. Não há um número fixo de aplicações válido para todos.
Precisa de ultrassom ou de raio-X para guiar a agulha?
Não. O plano da infiltração é superficial e o alvo é identificado por palpação — a banda tensa na musculatura paravertebral e o ligamento interespinhoso sensibilizado. Foi assim que a técnica foi aplicada no ensaio clínico. A ausência de orientação por imagem é consequência da profundidade limitada: a agulha de 3,7 cm não alcança estruturas que exigiriam essa precisão. Procedimentos mais profundos na coluna, como o bloqueio facetário, seguem exigindo ultrassom ou fluoroscopia.
Usa corticoide?
A técnica descrita por Fischer e a testada no ensaio clínico empregam apenas anestésico local — lidocaína a 1% sem vasoconstritor. O efeito buscado é a interrupção da condução nociceptiva no segmento, e não uma ação anti-inflamatória local. Isso também evita os efeitos do corticoide sobre glicemia e tecido conjuntivo, relevantes quando se planeja uma série de aplicações.
O alívio dura quanto tempo?
O anestésico em si dura poucas horas. O que interessa é o que permanece depois: no ensaio, 71,4% dos pacientes haviam reduzido a dor em pelo menos 30% ao fim das três semanas, e 56,3% mantinham essa redução aos três meses. Uma parte do benefício, portanto, persiste bem além da meia-vida do anestésico — e é isso que sustenta a hipótese de dessensibilização do segmento. A duração varia entre pessoas, e há quem não responda.
Dói?
A agulha é fina, de 27G, e o trajeto é curto. Sente-se a picada na entrada e uma sensação de pressão ou peso durante a infusão, muitas vezes acompanhada da reprodução da dor habitual quando a agulha encontra a banda tensa — o que confirma que o ponto está certo. Sensibilidade local por um a dois dias é esperada e cede com gelo.
E se não funcionar?
Cerca de 4 em cada 10 pacientes não alcançam redução de 30% da dor com a série. A ausência de resposta, sobretudo quando o limiar de pressão não se altera na aferição imediata, sugere que a sensibilização segmentar não era o mecanismo predominante — e a conduta é rever o diagnóstico, procurando geradores que não foram tratados: faceta, disco, articulação sacroilíaca, quadril, ou um componente predominantemente central que pede abordagem farmacológica e de reabilitação mais ampla.
Referências8 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A indicação do bloqueio de Fischer, a escolha dos segmentos a tratar e a condução da série são decisões individualizadas, que dependem do exame e do diagnóstico de cada caso. A indicação de qualquer procedimento ou medicamento cabe exclusivamente ao médico assistente.

