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Tontura e vertigem · Diagnóstico diferencial

Muita tontura pode ser o quê?

A resposta começa com uma classificação: vertigem rotatória, pré-síncope, desequilíbrio ou tontura inespecífica. Cada padrão aponta um conjunto distinto de causas, do labirinto ao coração e ao cerebelo, e há um exame de cabeceira (HINTS) que separa o periférico do central.

Resposta direta
  • “Tontura” não é um diagnóstico, é um sintoma com quatro síndromes que orientam a investigação: vertigem (sensação de rotação), pré-síncope (sensação de desmaio iminente), desequilíbrio (instabilidade ao andar) e tontura inespecífica (cabeça leve, flutuante). A pergunta que mais decide a conduta hoje não é só “que tipo”, mas o curso temporal e os gatilhos: a abordagem TiTrATE (timing, triggers).
  • A vertigem rotatória costuma ser vestibular: VPPB (a mais comum, confirmada pela manobra de Dix-Hallpike), neurite vestibular e doença de Ménière. A pré-síncope aponta causa hemodinâmica (hipotensão ortostática, síncope vasovagal, arritmia ou doença cardíaca estrutural). O desequilíbrio puro sugere neuropatia periférica, parkinsonismo, disfunção cerebelar ou polifarmácia. A tontura inespecífica liga-se a ansiedade, à PPPD (tontura postural-perceptual persistente) e ao componente cervical.
  • O exame de cabeceira HINTS (head-impulse, nistagmo, test-of-skew) separa periférico de central numa vertigem contínua. Sinais de alerta de AVC de fossa posterior: cefaleia ou cervicalgia súbita, diplopia, disartria, disfagia, ataxia de marcha incapacitante e qualquer déficit focal. Dor no peito, palpitação ou síncope verdadeira apontam causa cardíaca. Diante de qualquer um deles, procure o pronto-socorro.
  • O tratamento depende da causa. Para VPPB, a manobra de reposicionamento (Epley) resolve a maioria dos casos. A reabilitação vestibular é a base nas demais vertigens e no desequilíbrio. Quando há componente cervical, o plano é não-cirúrgico e multimodal: fisioterapia cervical, reabilitação e acupuntura, sempre individualizado.
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Primeiro passo: classificar a tontura por síndrome, tempo e gatilho

Ilustração editorial de uma pessoa se apoiando para não cair, com um redemoinho em terracota ao redor da cabeça.
A tontura tem muitas causas; o tipo de sensação ajuda a apontar a origem.

A pergunta “muita tontura pode ser o quê” só tem resposta útil depois de classificar o sintoma. Na avaliação clínica, “tontura” se desdobra em quatro síndromes, e cada uma reorienta a investigação para um conjunto diferente de causas, de órgãos e de especialidades.

Quem sente o mundo girando (vertigem) tem, com mais frequência, um problema vestibular, do labirinto ou da via vestibular central. Quem sente que vai desmaiar (pré-síncope) costuma ter uma causa hemodinâmica, de pressão ou do coração. Quem se sente instável ao caminhar (desequilíbrio) pode ter um problema neurológico ou multifatorial, comum no idoso. E quem descreve uma cabeça “leve”, “zonza” ou “desligada”, sem rotação (tontura inespecífica), frequentemente tem um quadro ligado a ansiedade, à PPPD, a medicamentos ou ao componente cervical.

A classificação clássica por “tipo” tem um limite conhecido: o relato do paciente é instável e até metade das pessoas troca de descrição quando questionada de outra forma. Por isso a abordagem contemporânea, sintetizada na sigla TiTrATE (timing, triggers and targeted examination), valoriza mais duas perguntas objetivas: qual o curso temporal (a tontura é episódica e curta, episódica e longa, ou aguda e contínua?) e o que a dispara (mudar de posição da cabeça, ficar em pé, ou nada a provoca?). Cruzar curso temporal com gatilho aponta a síndrome com muito mais segurança do que o rótulo isolado.

As quatro síndromes de tontura e o que cada uma sugere
SíndromePista que diferenciaConduta inicial
Vertigem (o ambiente roda)Sensação de rotação; episódica e disparada por posição (VPPB) ou contínua por dias (neurite, central)Dix-Hallpike e HINTS conforme o curso; avaliação vestibular e, se necessário, ORL
Pré-síncope (vou desmaiar)Vista escurece, suor frio; ao levantar (ortostática), em situação de gatilho (vasovagal) ou sem aviso (arritmia)Pressão deitado e em pé, ECG; avaliar coração e medicações; clínico/cardio
Desequilíbrio (instabilidade)Falta de firmeza ao andar, sem rotação; piora no escuro e em piso irregularAvaliar marcha, sensibilidade, força, cerebelo e revisão de medicamentos; reabilitação
Tontura inespecífica (cabeça leve)Cabeça “flutuando”, persistente; piora em ambientes visuais complexos e telas; pescoço tensoAvaliar ansiedade, PPPD, medicamentos e o componente cervical
Pérola clínica

Mais do que o rótulo, três dados decidem a conduta: o que dispara (mudar de posição sugere VPPB; levantar sugere ortostase; nada a provoca, com sintoma contínuo, eleva a suspeita de causa central ou cardíaca), quanto dura (segundos a 1 minuto na VPPB; minutos a horas na Ménière; horas a dias na neurite e no AVC) e o que vem junto (zumbido e perda auditiva apontam o labirinto; palpitação aponta o coração; diplopia, disartria e ataxia apontam o tronco e o cerebelo).

Descreva o tipo de tontura antes da consulta

O dado que mais restringe o diagnóstico vem antes da consulta: qual é exatamente a sensação? É o mundo que roda à sua volta (vertigem), a sensação de que vai desmaiar e a vista escurece (pré-síncope) ou um piso que parece bambo ao caminhar (desequilíbrio)? Some a isso o que dispara (mudar de posição na cama? levantar da cadeira? nada?) e quanto dura cada episódio (segundos? horas? dias?).

Esse trio, tipo mais gatilho mais duração, restringe o diagnóstico mais depressa do que qualquer exame isolado e orienta inclusive a urgência: uma vertigem de segundos disparada ao deitar indica VPPB benigna; uma tontura contínua há dois dias, em repouso, com visão dupla, indica pronto-socorro. Anotar isso antes da consulta economiza exames e acerta o caminho.

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As causas de muita tontura, por síndrome

A lista de causas é longa, mas um punhado de diagnósticos responde pela maioria dos casos. Organizá-los por síndrome explica por que a investigação às vezes envolve mais de um especialista, e por que a coluna cervical entra nessa conversa com mais frequência do que se imagina.

Vertigem vestibular periférica: VPPB, neurite e Ménière

A vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é a causa mais comum de vertigem. Otocônios (cristais de carbonato de cálcio) se desprendem da mácula utricular e migram para um canal semicircular, na maioria das vezes o canal posterior (cerca de 85 a 90% dos casos). Cada movimento da cabeça no plano daquele canal faz a endolinfa deslocar a cúpula e dispara uma vertigem rotatória de segundos a 1 minuto, tipicamente ao deitar, virar na cama ou olhar para cima. O diagnóstico é clínico, pela manobra de Dix-Hallpike: com o paciente sentado, gira-se a cabeça 45 graus para o lado testado e deita-se rapidamente com a cabeça em leve extensão; o achado é um nistagmo torcional para cima (geotrópico), com latência de poucos segundos, paroxístico e fatigável.

A variante de canal lateral é pesquisada pelo teste de rolamento supino (supine roll test). É um quadro benigno e altamente tratável com manobras de reposicionamento.

A neurite vestibular (vestibulopatia periférica aguda, chamada de “labirintite” no uso popular) decorre de inflamação do nervo vestibular, com frequência pós-viral. Cursa com vertigem intensa e contínua por horas a dias, náusea, desequilíbrio e nistagmo espontâneo unidirecional, horizonto-torcional, que bate para o lado são e aumenta ao olhar nessa direção (obedece à lei de Alexander). Quando não há perda auditiva, fala-se em neurite; quando há, em labirintite. É o cenário clássico em que o exame HINTS faz a diferença entre nervo periférico e tronco encefálico.

A doença de Ménière combina crises de vertigem de 20 minutos a várias horas com a tríade de zumbido, plenitude auricular e perda auditiva flutuante para frequências graves, atribuída a hidropisia endolinfática. Esses três quadros são predominantemente otológicos, da alçada do otorrinolaringologista; detalhamos a abordagem no texto sobre labirintite, o que é e como tratar.

Vertigem central: quando a origem é o tronco ou o cerebelo

Uma minoria das vertigens nasce no sistema nervoso central, e é a que mais preocupa. O AVC de fossa posterior (isquemia no território vertebrobasilar, cerebelo ou tronco encefálico) pode se apresentar como vertigem isolada, sem outro déficit evidente, sobretudo em infartos cerebelares pequenos. A migrânea vestibular é uma causa central comum e benigna: vertigem recorrente em quem tem história de enxaqueca, por vezes sem dor de cabeça na crise.

Esclerose múltipla e tumores de fossa posterior são causas mais raras. O traço de alarme é o nistagmo de padrão central (que muda de direção conforme o olhar, ou é puramente vertical ou torcional) e a presença de qualquer sinal de tronco ou cerebelo, detalhados na seção «sinais de alerta de AVC».

Pré-síncope: causas hemodinâmicas e cardíacas

A sensação de desmaio iminente reflete redução transitória da perfusão cerebral e tem três grandes origens. A hipotensão ortostática é a queda da pressão ao levantar (redução de pelo menos 20 mmHg na sistólica ou 10 mmHg na diastólica em até 3 minutos em pé); dá cabeça leve e vista escurecendo ao se pôr de pé, e é comum na desidratação, no calor, no repouso prolongado e com vários medicamentos. A síncope reflexa (vasovagal) tem gatilhos típicos (dor, emoção, ortostase prolongada, ambiente quente) e pródromos de calor, náusea, sudorese e visão em túnel. As causas cardíacas são as mais sérias: arritmias (bradi ou taquiarritmias) e doença estrutural (estenose aórtica, miocardiopatia hipertrófica).

O sinal de alerta cardíaco é a pré-síncope ou síncope sem pródromo, em esforço ou deitado, ou acompanhada de palpitação e dor no peito. Esse grupo é avaliado pelo clínico e pelo cardiologista, com medida da pressão deitado e em pé e eletrocardiograma.

Desequilíbrio: neuropatia, parkinsonismo, cerebelo e polifarmácia

A instabilidade ao caminhar, sem rotação e sem sensação de desmaio, costuma ser multifatorial, em especial no idoso, e aponta para o sistema sensório-motor mais do que para o labirinto. As causas frequentes incluem neuropatia periférica (diabética, por deficiência de vitamina B12), que rouba a propriocepção dos pés e piora muito no escuro; o parkinsonismo, com marcha em passos curtos, festinação e instabilidade postural; a disfunção cerebelar, com marcha de base alargada e ataxia; déficit visual; e a polifarmácia, somatório de sedativos, anti-hipertensivos e outros fármacos. A presbivestibulopatia (perda vestibular bilateral relacionada à idade) e a fraqueza muscular completam o quadro. É justamente o terreno em que a reabilitação do equilíbrio e a revisão de medicamentos mais ajudam.

Tontura inespecífica, PPPD e ansiedade

A tontura de cabeça leve, “zonza” e flutuante, sem rotação clara, tem forte associação com ansiedade, hiperventilação e privação de sono. Quando se torna crônica, frequentemente após um evento vestibular agudo (uma VPPB ou uma neurite já resolvidas), ela pode evoluir para a tontura postural-perceptual persistente (PPPD), um diagnóstico reconhecido pela Bárány Society. Os critérios exigem tontura, instabilidade ou vertigem não rotatória na maior parte dos dias por três meses ou mais, que piora com a postura ereta, com o movimento ativo ou passivo e com a exposição a estímulos visuais complexos (supermercados, trânsito, rolagem de telas). Não é “frescura”: é um padrão real, de mecanismo neurofuncional, com tratamento dirigido.

A tontura cervicogênica: o ângulo da coluna cervical

Há um tipo de tontura que se origina no pescoço, e não no labirinto: a tontura cervicogênica. A coluna cervical alta é um órgão sensorial sofisticado. As articulações zigapofisárias e a musculatura profunda dos segmentos C1 a C3 são densamente povoadas por mecanorreceptores e fusos musculares, que informam o tronco encefálico sobre a posição da cabeça em relação ao tronco. Essa aferência cervical é integrada, nos núcleos vestibulares, com os sinais do labirinto e da visão (reflexos cervico-ocular e vestíbulo-ocular) para gerar a percepção de equilíbrio.

Quando a coluna cervical está em sofrimento, por dor, hipertonia, pontos-gatilho miofasciais ou alterações degenerativas, essa informação proprioceptiva chega distorcida ou em conflito com o que o labirinto e os olhos relatam. O cérebro recebe um sinal discordante e o traduz como tontura, instabilidade ou flutuação, em geral acompanhada de dor ou rigidez na nuca e de cefaleia que parte do occipício. É um diagnóstico de exclusão e de associação: confirma-se quando a tontura caminha junto com a queixa cervical, melhora quando o pescoço melhora e as outras causas (vestibular periférica, central, cardíaca) foram afastadas. O elo entre pescoço e tontura é detalhado na página sobre tontura cervical e seus sintomas.

Mito

“Toda tontura vem do labirinto, é sempre o ouvido.”

Fato

O equilíbrio depende de três fontes integradas: labirinto, visão e propriocepção cervical. A disfunção da coluna cervical pode gerar tontura mesmo com o labirinto saudável, e esse componente costuma ser subdiagnosticado, sobretudo quando convive com ansiedade e PPPD.

O exame de cabeceira: HINTS e os sinais de alerta de AVC

Diante de uma vertigem aguda e contínua (a chamada síndrome vestibular aguda: vertigem, náusea, nistagmo e intolerância ao movimento por horas a dias), a pergunta decisiva é se a origem é periférica (neurite, benigna) ou central (AVC, grave). Surpreende muita gente saber que, nesse cenário, um exame de cabeceira de três passos é mais sensível para AVC do que uma tomografia precoce, que frequentemente não enxerga infartos pequenos de fossa posterior nas primeiras horas.

Esse exame é o HINTS (Head-Impulse, Nystagmus, Test-of-Skew). Ele só se aplica a quem está com vertigem ativa e contínua, e deve ser feito por examinador treinado:

Head-Impulse (teste do impulso cefálico)
Gira-se rapidamente a cabeça do paciente para um lado enquanto ele fixa o olhar. No periférico, há uma sacada de correção (o olho “escorrega” e volta), sinal de reflexo vestíbulo-ocular deficitário. Um teste normal numa pessoa muito vertiginosa é paradoxalmente preocupante: sugere causa central.
Nystagmus (nistagmo)
Nistagmo unidirecional e horizontal, que não muda de direção, é tranquilizador (periférico). Nistagmo que muda de direção conforme o lado do olhar, ou puramente vertical ou torcional, é sinal central.
Test-of-Skew (desvio ocular vertical)
Ao cobrir e descobrir cada olho, um desvio vertical de realinhamento (skew deviation) indica lesão de tronco encefálico, ou seja, central.

A combinação benigna (“HINTS periférico”) é: head-impulse anormal, nistagmo unidirecional e ausência de skew. Qualquer desvio desse padrão, somado a outros achados, eleva a suspeita de causa central e impõe avaliação de urgência. Vale a contraintuição: uma vertigem que se mantém intensa em repouso, sem piorar nitidamente ao mudar de posição da cabeça, é mais preocupante do que a vertigem posicional típica.

Independentemente do HINTS, alguns achados são sinais de alerta de AVC de fossa posterior ou de causa cardíaca e dispensam qualquer espera. Diante de qualquer um deles, não aguarde uma consulta: procure um pronto-socorro.

Sinais de alerta · procure pronto-socorro

Tontura com qualquer um destes achados pode ser emergência

  • Os 5 D do território vertebrobasilar: dizziness contínua com diplopia (visão dupla), disartria (fala arrastada), disfagia (engasgo) ou dismetria/ataxia (descoordenação e marcha incapacitante).
  • Fraqueza ou dormência em um lado do corpo, boca torta, alteração súbita da visão ou do campo visual.
  • Cefaleia ou cervicalgia súbita e intensa, “a pior da vida”, ou após manipulação/trauma cervical (alerta para dissecção arterial).
  • Nistagmo que muda de direção, vertical ou torcional, ou incapacidade de ficar sentado ou em pé sem apoio.
  • Dor ou aperto no peito, palpitação forte, falta de ar, ou síncope sem pródromo, em esforço ou deitado (alerta cardíaco).
  • A primeira e a pior vertigem da vida, contínua, que não melhora ao ficar parado, sobretudo com fatores de risco vascular (hipertensão, diabetes, fibrilação atrial, tabagismo).
  • Tontura com febre alta e rigidez de nuca, ou após trauma craniano.

Quando procurar ORL, neuro ou cardio, e quando faz sentido o médico da dor

Cada especialidade tem um limite definido. Boa parte das tonturas não é cervicogênica, e tratar o pescoço de quem tem doença de Ménière, arritmia ou um infarto cerebelar não resolve o problema. O papel do médico da dor e do fisiatra, aqui, é duplo: conduzir a reabilitação e tratar o componente cervical quando ele de fato existe e contribui, e direcionar a pessoa ao especialista certo quando a origem é outra.

Para onde a tontura costuma apontar
Quadro sugeridoPistasEspecialista de referência
Vestibular periférico (VPPB, neurite, Ménière)Vertigem rotatória, Dix-Hallpike positivo, zumbido, perda auditiva, nistagmo unidirecionalOtorrinolaringologia (ORL)
Central (AVC, migrânea vestibular)HINTS central, diplopia, disartria, ataxia, déficit focal, nistagmo que muda de direçãoUrgência e Neurologia
CardiovascularPré-síncope, síncope sem pródromo, palpitação, dor no peito, queda de pressão ortostáticaClínica médica e Cardiologia
Desequilíbrio multifatorialInstabilidade ao andar, neuropatia, parkinsonismo, polifarmácia, idosoGeriatria / Neurologia + reabilitação
CervicogênicoTontura ligada à dor e à rigidez do pescoço, sem rotação franca, com cefaleia da nucaFisiatra / médico da dor + reabilitação
PPPD / ansiedadeTontura inespecífica persistente, piora com telas e ambientes movimentadosReabilitação vestibular + abordagem multidisciplinar

Na prática, esses mundos se cruzam. Não é raro alguém ter tido uma VPPB já tratada com Epley, mas seguir com instabilidade por meses por uma PPPD somada a um componente cervical e ansioso. É exatamente nesse terreno de tontura persistente, multifatorial, com forte participação do pescoço e da habituação visual, que a reabilitação e o manejo da dor cervical fazem diferença.

Assista: Enxaqueca dá tontura? Enxaqueca dá náuseas? Quando me preocupar?

Tratamento: da manobra de Epley à reabilitação e ao manejo do pescoço

Não existe um “remédio para tontura” que sirva para todos: o tratamento depende da causa, e a maior parte do benefício vem de intervenções não medicamentosas e específicas. A regra é tratar a causa identificada, usar a reabilitação como base e reservar a medicação para um papel adjuvante e por tempo curto, porque os supressores vestibulares atrapalham a compensação natural do equilíbrio. As modalidades abaixo somam-se dentro de um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico; o objetivo é controlar o sintoma e devolver função.

Tratar a causa específica

VPPB com manobra de reposicionamento (Epley); neurite e Ménière conforme a ORL; causa cardíaca ou ortostática pelo cardiologista; revisão de medicamentos que provocam tontura.

Reabilitação vestibular e do equilíbrio

Exercícios de habituação, estabilização do olhar e treino de equilíbrio, a base no desequilíbrio, na PPPD e na compensação após neurite.

Manejo da dor cervical em clínica

Fisioterapia cervical, acupuntura e eletroacupuntura quando há componente cervicogênico associado, somadas à reabilitação.

Medicação adjuvante

Sintomáticos vestibulares por tempo curto; ISRS/IRSN para PPPD, sempre dentro do plano e sob prescrição.

Manobra de reposicionamento (Epley) para VPPB

O que é: uma sequência de quatro posições da cabeça e do tronco, derivada da Dix-Hallpike, que reconduz os otocônios do canal semicircular de volta ao utrículo, onde deixam de gerar vertigem. É a manobra de Epley (reposicionamento canalicular) para o canal posterior; o canal lateral usa a manobra de Lempert (barbecue roll).

Mecanismo (calibrado): não é “exercício” nem efeito de fármaco; é física aplicada. Com a sequência de movimentos, a gravidade arrasta as partículas pelo trajeto do canal até a saída, eliminando a fonte mecânica do nistagmo posicional. Por isso a resposta costuma ser imediata.

Evidência: alta. Revisões sistemáticas e a diretriz da American Academy of Otolaryngology mostram que as manobras de reposicionamento resolvem a VPPB de canal posterior na maioria das pessoas, com forte recomendação e benefício superior ao placebo e aos antivertiginosos.

O que esperar: melhora frequentemente após uma a três sessões; muitos casos resolvem em uma única manobra bem executada. Pode haver tontura breve durante a manobra e recorrência em parte das pessoas, o que justifica reavaliação e, às vezes, repetição.

Indicações: VPPB confirmada pela Dix-Hallpike (canal posterior) ou pelo teste de rolamento (canal lateral).

Limitações e cuidados: exige diagnóstico correto do canal acometido e cautela em quem tem limitação cervical importante, instabilidade cervical ou doença carotídea. Não trata as demais causas de tontura, e a recorrência é possível. Deve ser feita por profissional treinado, com manobra de Brandt-Daroff orientada para casa apenas quando indicada.

Reabilitação vestibular e fisioterapia cervical

O que é: programa ativo e individualizado de reabilitação. A reabilitação vestibular combina exercícios de habituação, estabilização do olhar (gaze stabilization, com mira em alvo durante o movimento da cabeça) e treino de equilíbrio e marcha. A fisioterapia cervical entra em paralelo quando há componente do pescoço, com mobilidade da coluna cervical, ativação dos flexores profundos do pescoço (flexão craniocervical) e treino de reposicionamento cefálico, que retreina a propriocepção alterada.

Mecanismo (calibrado): a reabilitação promove compensação central e habituação, ou seja, o cérebro reaprende a ponderar e a confiar nos sinais vestibulares, visuais e proprioceptivos, reduzindo a sensibilidade ao movimento e ao conflito visual. A terapia manual e o exercício cervical reduzem a aferência nociceptiva e recalibram o reflexo cervico-ocular.

Evidência: é a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança no desequilíbrio e na hipofunção vestibular. Há evidência de boa qualidade para a reabilitação vestibular na disfunção vestibular periférica unilateral e na PPPD, e evidência favorável (de magnitude variável) para a fisioterapia cervical na tontura cervicogênica.

O que esperar: atendimento individual, um paciente por sala. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é mantido para reduzir recaídas. Pode haver aumento transitório da tontura no início, parte esperada do processo de habituação.

Indicações: compensação após neurite vestibular, desequilíbrio multifatorial e do idoso, PPPD, e o componente cervical da tontura.

Limitações: exige adesão e regularidade; isolada não corrige uma VPPB ativa (que pede Epley) nem uma causa cardíaca; a melhora não é linear.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é: inserção de agulhas finas em pontos da musculatura cervical posterior, do trapézio superior e da região suboccipital; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência liga as agulhas e mantém o estímulo. Quando há cefaleia da nuca associada, os pontos sobre o trajeto do nervo occipital maior entram no esquema.

Mecanismo (calibrado): modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal, e bulbo rostroventromedial) e pela liberação de opioides endógenos; a baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. No raciocínio cervicogênico há um alvo extra: o complexo trigêmino-cervical, onde as aferências de C1 a C3 convergem com o trigêmeo. Reduzir a dor e a hipertonia da musculatura suboccipital diminui o ruído proprioceptivo que, em conflito com o labirinto, o cérebro lê como tontura.

Evidência: moderada para dor cervical crônica e cefaleia, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados (por exemplo, NICE para cefaleia tensional e enxaqueca). Para a vertigem em si, a evidência é limitada e heterogênea: o uso aqui mira o gerador miofascial cervical da tontura cervicogênica, não a disfunção vestibular.

O que esperar: a tontura cervicogênica raramente cede em uma sessão, porque o que se trata é a aferência cervical e não um cristal deslocado; planejamos um bloco de cerca de oito sessões semanais e reavaliamos pela dupla métrica que importa aqui, a intensidade da dor cervical e a frequência ou a intensidade das crises de tontura. Se as duas não andam juntas, o componente cervical provavelmente não era o principal e o plano muda.

Indicações: dor cervical e suboccipital miofascial que acompanha a tontura cervicogênica, cefaleia cervicogênica; útil quando se quer reduzir o uso de sintomáticos vestibulares que atrapalham a compensação.

Limitações e efeitos: desconforto ou pequena equimose no local, raros; cautela em uso de anticoagulantes. Não corrige uma VPPB ativa nem uma causa vestibular ou central, e por isso só entra depois que essas hipóteses foram afastadas.

Medicação, papel adjuvante e por tempo limitado

Sintomáticos vestibulares: anti-histamínicos como o dimenidrinato e a meclizina, e antieméticos, reduzem a vertigem aguda e a náusea por ação anticolinérgica e anti-histamínica central. O ponto crítico: devem ser usados por poucos dias, pois o uso prolongado atrapalha a compensação central e perpetua o desequilíbrio. A betaistina é empregada na doença de Ménière com evidência ainda debatida. Na PPPD, há benefício de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS, como a sertralina) e duais (IRSN, como a venlafaxina), em doses e por tempo definidos pelo médico, combinados à reabilitação e, quando indicado, à terapia cognitivo-comportamental.

Para o componente cervical: analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos ajudam na fase aguda da dor do pescoço; relaxantes musculares têm papel limitado e causam sonolência, que por si piora a tontura.

Semana 1 a 2

Controle inicial

Afastar urgências (HINTS, sinais de alerta), tratar a causa específica (Epley na VPPB), iniciar exercícios suaves de equilíbrio e mobilidade cervical e revisar medicamentos.

Semana 3 a 6

Progressão

Avançar a reabilitação vestibular e cervical e as técnicas em clínica; a tontura e a dor no pescoço costumam começar a ceder, com habituação progressiva ao movimento.

Após 6 semanas

Reavaliação

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e considera-se encaminhamento ou investigação adicional (audiometria, vídeo-nistagmografia, imagem). A evolução não é linear.

A meta é reduzir a tontura a um nível que não limite a sua vida e recuperar a confiança no movimento. Quando a origem não é cervical nem vestibular periférica, a conduta é conduzir a reabilitação e direcionar você ao especialista certo.

Da prática clínica

Observações recorrentes no consultório (impressões clínicas, não desfechos de estudo):

A primeira pergunta vale mais que o primeiro exame. Antes de qualquer manobra, o que mais muda a conduta é separar três sensações: o mundo girando, a iminência de desmaio e o chão bambo. Boa parte da imprecisão de quem chega vem de chamar tudo de “tontura”; quando a pessoa consegue dizer qual das três sente, e o que dispara, o número de hipóteses cai pela metade ali mesmo.

O que mais surpreende é como uma vertigem de anos pode resolver em poucos minutos. Quando o quadro é uma VPPB de canal posterior, a manobra de reposicionamento muitas vezes encerra, na mesma consulta, uma tontura que a pessoa carregava com medo de “algo grave no cérebro”. Saber que tem nome, tem causa mecânica e tem solução costuma aliviar tanto quanto a manobra.

O componente do pescoço é o mais subdiagnosticado e o mais superdiagnosticado ao mesmo tempo. Subdiagnosticado porque muita gente com tontura inespecífica persistente tem pontos-gatilho suboccipitais que ninguém palpou; superdiagnosticado porque é tentador atribuir tudo ao pescoço. A régua que uso: o componente cervical só conta quando a tontura anda junto com a dor cervical e melhora quando o pescoço melhora, sempre depois de afastadas as causas vestibular, central e cardíaca.

O cenário que não admite espera é a vertigem que começa de repente e vem acompanhada: visão dupla, fala arrastada, descoordenação ao andar, dormência de um lado. Esse conjunto não é para o consultório, é para o pronto-socorro, e a contraintuição que sempre reforço é que uma vertigem intensa que se mantém parada, em repouso, preocupa mais do que aquela que só aparece ao virar na cama.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Muita tontura pode ser o quê?

Tontura é um sintoma com quatro síndromes que orientam o diagnóstico: vertigem rotatória (geralmente vestibular, como VPPB, neurite e Ménière, ou central, como AVC e migrânea vestibular), pré-síncope (hipotensão ortostática, síncope vasovagal e causas cardíacas), desequilíbrio (neuropatia, parkinsonismo, disfunção cerebelar, polifarmácia) e tontura inespecífica (ansiedade, PPPD e o componente cervical). Identificar a síndrome, o curso temporal e o gatilho é o que aponta a causa. Vertigem contínua com diplopia, disartria ou ataxia, e síncope sem pródromo, são urgências.

Tontura do nada e tontura repentina, o que pode ser?

Uma tontura repentina pode ser desde uma VPPB (otocônios no canal semicircular, disparada ao mudar de posição, com Dix-Hallpike positivo) ou uma queda de pressão ao levantar, até, mais raramente, um AVC de fossa posterior. Se a tontura súbita vier com visão dupla, fala arrastada, engasgo, descoordenação, fraqueza de um lado do corpo, cefaleia muito intensa, dor no peito ou síncope sem aviso, procure pronto-socorro imediatamente: pode ser AVC ou causa cardíaca.

Como o médico diferencia uma tontura do ouvido de uma do cérebro?

Numa vertigem aguda e contínua, o exame de cabeceira HINTS (teste do impulso cefálico, padrão do nistagmo e desvio ocular vertical) ajuda a separar a causa periférica, em geral benigna, da central, que pode ser um AVC. Nesse cenário, o HINTS bem feito é mais sensível para AVC do que a tomografia precoce, que frequentemente não enxerga infartos pequenos do cerebelo nas primeiras horas. Na vertigem posicional, é a manobra de Dix-Hallpike que confirma a VPPB. O exame deve ser feito por profissional treinado.

O que é a manobra de Epley e qual a sua eficácia?

A manobra de Epley é uma sequência de posições da cabeça e do tronco que reconduz os cristais (otocônios) deslocados de volta ao lugar de origem no labirinto, eliminando a causa mecânica da VPPB. Tem evidência de alta qualidade: resolve a VPPB de canal posterior na maioria das pessoas, muitas vezes em uma a três sessões, com benefício superior ao de medicamentos antivertiginosos. Deve ser realizada por profissional treinado, após o diagnóstico do canal acometido pela Dix-Hallpike.

A coluna cervical pode causar tontura?

Sim. A coluna cervical alta (C1 a C3) é rica em mecanorreceptores que informam o cérebro sobre a posição da cabeça. Quando o pescoço está em sofrimento, por dor, hipertonia ou pontos-gatilho, essa informação chega distorcida e em conflito com o labirinto e a visão, e o cérebro traduz o conflito como tontura. É a chamada tontura cervicogênica, em geral acompanhada de dor ou rigidez na nuca e de cefaleia que parte do occipício. É um diagnóstico de exclusão, feito após afastar as causas vestibular, central e cardíaca.

Tontura que não passa há meses, o que pode ser?

Tontura inespecífica e persistente por três meses ou mais, que piora ao ficar em pé, ao se mover e em ambientes visualmente complexos (supermercados, trânsito, telas), sugere PPPD (tontura postural-perceptual persistente), com frequência após um evento vestibular já resolvido. Pode somar-se a um componente cervical e ansioso. O tratamento combina reabilitação vestibular, em alguns casos ISRS ou IRSN, e terapia cognitivo-comportamental, sempre individualizado. Saiba quando a dor no pescoço merece preocupação.

Quanto tempo a tontura cervicogênica leva para melhorar?

Varia entre pessoas. Com reabilitação consistente e controle da dor cervical, muitos quadros começam a responder em algumas semanas, com reavaliação por volta de seis semanas. A evolução não é linear, e o plano é ajustado conforme a resposta. A meta é reduzir a tontura a um nível que não limite a vida, e não garantir o desaparecimento total.

Prof. Dr. Hong Jin Pai
Sobre o autor
Prof. Dr. Hong Jin Pai
CRM-SP 36.399RQE 29.862

Médico com atuação em Acupuntura Médica, dor, ensino clínico e formação médica continuada. Diretor técnico da Clínica Dr. Hong Jin Pai.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Newman-Toker DE, Edlow JA. TiTrATE: a novel, evidence-based approach to diagnosing acute dizziness and vertigo. Neurol Clin. 2015;33(3):577 a 599. acessar
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  3. Bhattacharyya N, Gubbels SP, Schwartz SR, et al. Clinical practice guideline: benign paroxysmal positional vertigo (update). Otolaryngol Head Neck Surg. 2017;156(3 Suppl):S1 a S47. acessar
  4. Kattah JC, Talkad AV, Wang DZ, et al. HINTS to diagnose stroke in the acute vestibular syndrome: three-step bedside oculomotor examination more sensitive than early MRI diffusion-weighted imaging. Stroke. 2009;40(11):3504 a 3510. acessar
Atualizado em 04 jun 2026 Leitura 13 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A tontura é um sintoma com causas que vão do benigno (uma VPPB que cede a uma manobra) ao urgente (um AVC de fossa posterior ou uma arritmia): diante de qualquer sinal de alerta deste guia, a conduta correta é procurar atendimento imediato. As condutas aqui descritas valem para o componente cervical e vestibular e pressupõem um plano individualizado, definido em consulta após o exame que confirma o tipo de tontura.

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