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Perna · Medicina do esporte · Dor

Toxina botulínica (BOTOX) para síndrome compartimental crônica de esforço do tibial anterior

A toxina botulínica tipo A no tibial anterior é uma opção em estudo para a síndrome compartimental crônica de esforço, reduzindo a pressão intracompartimental durante a corrida. A evidência é de séries pequenas e o efeito é temporário: uma tentativa antes da fasciotomia, em casos selecionados.

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Resposta direta
  • A síndrome compartimental crônica de esforço (SCCE) é uma dor por aumento de pressão dentro de um dos quatro compartimentos fasciais da perna durante o exercício. No compartimento anterior, dói a frente da canela ao correr, com previsibilidade de tempo ou distância, e o alívio em poucos minutos ao parar é a marca registrada.
  • A toxina botulínica tipo A cliva a proteína SNAP-25 na junção neuromuscular, reduz parcialmente a força e o volume do tibial anterior em contração, baixa a pressão intracompartimental de esforço e, em séries pequenas, aliviou a dor em parte dos pacientes. O efeito é temporário (cerca de 3 a 6 meses) e o uso é off-label.
  • É uma tentativa conservadora razoável antes da fasciotomia em casos selecionados. Antes dela vêm o diagnóstico objetivo pela medida de pressão (critérios de Pedowitz), o ajuste de carga e a reeducação do padrão de pisada, além do tratamento da canelite ou da fratura por estresse, que se confundem com a SCCE.
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O que é a síndrome compartimental crônica de esforço

A perna abaixo do joelho é dividida por septos de fáscia rígida em quatro compartimentos: anterior, lateral, posterior superficial e posterior profundo. Cada um aloja músculos, um nervo e vasos num espaço de complacência baixa, quase fixo. Na síndrome compartimental crônica de esforço, o músculo aumenta de volume com o exercício (o fluxo sanguíneo e o conteúdo de água sob carga elevam o volume muscular em torno de 20%), a pressão dentro do compartimento sobe acima do que a fáscia inelástica acomoda, e o resultado é dor, sensação de aperto e, às vezes, parestesia, que crescem com o esforço e cedem rápido no repouso.

Vista de cima de vários frascos-ampola e seringas espalhados sobre uma superfície clara.
A toxina botulínica é um medicamento injetável usado de forma dirigida no músculo afetado pela síndrome compartimental.

O compartimento anterior é o mais acometido. Ele contém o tibial anterior, o extensor longo dos dedos, o extensor longo do hálux e o fibular terceiro, irrigados pela artéria tibial anterior e inervados pelo nervo fibular profundo (raízes L4 a S1). A dor concentra-se na frente da canela, lateral à crista da tíbia, e costuma vir com uma queixa muito típica: o pé “cai” ou tropeça no fim da corrida. Isso ocorre porque o tibial anterior e o extensor longo do hálux, que fazem a dorsiflexão e levantam a ponta do pé, ficam fracos e isquêmicos sob a pressão alta.

Em casos mais intensos surge dormência no primeiro espaço interdigital do dorso do pé, o território sensitivo terminal do nervo fibular profundo. Tudo isso aparece num tempo ou numa distância previsíveis e desaparece em minutos depois de parar, o que distingue a SCCE de quase tudo o mais.

É um quadro de quem corre, marcha ou treina com carga repetida: corredores de média e longa distância, recrutas militares, jogadores. A diferença para a síndrome compartimental aguda, que é uma emergência cirúrgica após trauma ou fratura, é total. A forma crônica de esforço é uma isquemia de demanda, transitória e reversível: não há necrose muscular nem lesão neurológica permanente, não é urgência e melhora ao cessar o exercício. Confundir as duas é um erro grave em direções opostas, e por isso vale nomear: dor desproporcional e que não cede no repouso, parestesia que não regride, perda de pulso, palidez ou dor à extensão passiva dos dedos fora do contexto de exercício são sinais de compartimento agudo e pedem pronto-socorro, não consultório.

4
compartimentos fasciais na perna (anterior, lateral, posterior superficial e profundo); o anterior é o mais acometido
>30 mmHg
pressão intracompartimental 1 minuto após o exercício, um dos critérios de Pedowitz para confirmar a SCCE
min
o alívio em minutos após parar de correr é a pista clínica que mais diferencia a SCCE
~95%
dos casos é bilateral no compartimento anterior, surgindo nas duas pernas em quem corre ou treina com impacto

O limiar de pressão, o tempo de medida e a interpretação variam entre serviços, e o diagnóstico combina a história, o exame e a medida de pressão.

Por que não basta o nome “canelite”

A frase “dor na canela ao correr” cabe em pelo menos quatro diagnósticos diferentes, e tratar todos como “canelite” é o motivo mais comum de a dor não passar. A canelite, nome popular da síndrome do estresse tibial medial, dói na borda póstero-medial da tíbia, ao longo do terço distal, por sobrecarga do periósteo e do osso; a dor difusa costuma melhorar à medida que a pessoa aquece no início do treino. A SCCE anterior dói na frente e lateral da canela, aperta com o tempo de corrida e some no repouso.

A fratura por estresse dói num ponto único e bem localizado do osso, piora de forma progressiva e pode doer até em repouso e à noite. E a dor pode ser vascular (aprisionamento da artéria poplítea, por exemplo) ou irradiada de uma radiculopatia lombar de L5, com outro padrão ainda.

A confirmação da SCCE é objetiva: mede-se a pressão intracompartimental com um cateter ou agulha acoplada a manômetro, em repouso e logo após o protocolo de exercício que reproduz a dor. Pelos critérios modificados de Pedowitz, considera-se diagnóstica ao menos uma destas medidas no compartimento sintomático: pressão de repouso igual ou maior que 15 mmHg, pressão 1 minuto após o esforço igual ou maior que 30 mmHg, ou pressão 5 minutos após igual ou maior que 20 mmHg. A queda lenta da pressão para o normal reforça o diagnóstico.

A ressonância e a cintilografia óssea ajudam a afastar a fratura por estresse e tumorações; o ultrassom com Doppler e a angiotomografia avaliam o componente vascular. Não há atalho de imagem que substitua a medida de pressão quando a SCCE é a principal hipótese, e é justamente essa investigação que decide se a toxina botulínica faz sentido ou se o problema é outro.

Dor na perna do corredor: como diferenciar
QuadroOnde e quando dóiPista que diferencia
Síndrome compartimental de esforço (anterior)Frente e lateral da canela; aperto que cresce em tempo ou distância previsíveisAlívio em minutos no repouso; pé “cai” ou formiga no fim do treino; pressão alta na medida (critérios de Pedowitz)
Canelite (estresse tibial medial)Borda póstero-medial da tíbia, terço distal; difusaDói ao iniciar e tende a aquecer; sem perda de força; ver página dedicada
Fratura por estressePonto único e bem localizado no ossoPiora progressiva; dói ao saltar num pé só e até em repouso ou à noite
Tendinopatia do tibial anteriorTrajeto do tendão até o dorso do péDor à dorsiflexão resistida e ao alongamento do tendão, não ligada à pressão de esforço
Origem vascular ou radicular L5Variável, pode irradiar do glúteo ao dorso do péClaudicação com alteração de pulso, ou trajeto de raiz com parestesia; avaliação específica
Mito

“Dor na canela ao correr é sempre canelite e passa com gelo e descanso.”

Fato

São quadros distintos com tratamentos distintos. A SCCE não melhora só com gelo; depende de baixar a pressão de esforço, e exige a medida de pressão para ser confirmada antes de qualquer procedimento.

O detalhamento clínico da canelite, com sintomas, fases e progressão de carga, está na página dor nas pernas: você já ouviu falar em canelite?, e vale a leitura justamente porque é o diagnóstico que mais se confunde com a SCCE.

Como a toxina botulínica age neste quadro

A toxina botulínica tipo A é uma protease que, internalizada no terminal do neurônio motor, cliva a proteína SNAP-25, componente do complexo SNARE responsável pela fusão das vesículas de acetilcolina com a membrana. Sem esse complexo funcional, a acetilcolina não é liberada na fenda sináptica e a ordem de contração não chega à fibra muscular. Aplicada no ventre do tibial anterior, ela produz uma denervação química parcial e reversível: o músculo contrai com menos força e, ao longo de semanas, sofre atrofia parcial, reduzindo seu volume e a demanda de fluxo durante o exercício. Como a SCCE nasce justamente do excesso de volume e pressão de um músculo grande dentro de uma fáscia rígida, reduzir essa massa contrátil tende a baixar o pico de pressão intracompartimental no esforço, que é a causa direta da dor.

Sequência em três etapas mostrando o músculo contraído, a aplicação e o músculo relaxado
A toxina botulínica age na placa motora, impedindo a liberação de acetilcolina e relaxando o músculo do compartimento.

Esse é um raciocínio mecânico, e é assim que se deve entendê-lo: a toxina não “abre” o compartimento como a fasciotomia, mas diminui o que pressiona contra ele. Há ainda um possível componente antinociceptivo periférico, descrito em dor crônica, com redução da liberação de neuropeptídeos como CGRP, substância P e glutamato dos terminais sensitivos. Na SCCE, porém, o efeito dominante parece ser o de descompressão funcional pela queda de força e volume, não a analgesia direta. Trata-se de uma aplicação off-label, fora da bula aprovada para esta indicação no Brasil, apoiada em estudos exploratórios.

Em uma frase

A fasciotomia aumenta o continente; a toxina botulínica reduz o conteúdo. As duas atacam a mesma equação de pressão por caminhos opostos, e só uma é cirúrgica.

Evidência · séries de casoscerteza baixo

O que a literatura mostra na SCCE

Os relatos disponíveis são pequenos e majoritariamente sem grupo-controle. No estudo de Isner-Horobeti e colaboradores (2013), 16 pernas de corredores com SCCE dos compartimentos anterior e lateral receberam toxina botulínica tipo A: a pressão intracompartimental de esforço caiu de forma significativa e a maioria dos pacientes ficou livre de dor ao longo do seguimento, embora com queda mensurável da força do tibial anterior que, na maior parte, não comprometeu a marcha. Séries posteriores reproduziram o sinal de benefício de forma heterogênea. O nível de evidência permanece baixo, o efeito é temporário e os resultados não são uniformes; faltam ensaios randomizados que confirmem o benefício e definam a dose ideal.

Ver referências →

Esses dados têm dois lados. De um lado, há um sinal de eficácia coerente com o mecanismo e atraente porque pode evitar a cirurgia. De outro, o efeito é transitório e há um preço previsível: a perda parcial de força do músculo que faz a dorsiflexão, exatamente a função que a SCCE anterior já compromete. Por isso a decisão depende de pesar o ganho na dor contra essa perda de força, caso a caso, com um diagnóstico já confirmado pela medida de pressão.

O que esperar do procedimento

A aplicação é ambulatorial, com a toxina diluída e injetada em pontos do tibial anterior. Não exige internação nem anestesia geral, e a pessoa volta para casa no mesmo dia. A escolha do produto, da diluição, do número de pontos e das doses cabe ao médico e é individualizada.

Seringa de pequeno volume com agulha encaixada na tampa de um frasco-ampola de medicamento sobre fundo neutro.
A aplicação usa agulha fina e doses pequenas, com desconforto leve e retorno rápido às atividades do dia.
Início

2 a 4 semanas

O efeito não é imediato: a redução de força e do pico de pressão se instala ao longo das primeiras semanas, conforme a SNAP-25 é clivada e a placa motora silencia.

Duração

3 a 6 meses

O benefício é temporário e regride à medida que o terminal nervoso forma novos brotamentos e a junção neuromuscular se recupera; pode ser necessário repetir.

Esperado

Menos força na dorsiflexão

Alguma queda na força de levantar a ponta do pé é parte do mecanismo, em geral tolerada, mas deve ser monitorada com teste de força e marcha.

Retorno

Progressivo

A volta à corrida é gradual e guiada pela dor e pela força, dentro de um plano de reabilitação, não por uma data fixa.

O objetivo realista é correr mais tempo e mais longe com menos dor, não eliminar para sempre o problema com uma única aplicação. Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a distância ou o tempo até a dor aparecer, a força de dorsiflexão (graduação manual ou dinamometria) e, quando indicado, uma nova medida de pressão intracompartimental. Se a dor melhora e a fraqueza é leve e bem tolerada, repete-se em ciclos; se a fraqueza atrapalha a marcha ou o esporte mais do que a dor que se quer tratar, a balança muda e se reconsidera a conduta, inclusive a cirúrgica.

Os efeitos adversos costumam ser locais e passageiros: dor no ponto de aplicação por um a dois dias e a própria fraqueza esperada do músculo. Como qualquer uso de toxina, há contraindicações (gestação, amamentação, doenças da junção neuromuscular como miastenia gravis e síndrome de Eaton-Lambert, infecção no local, uso de aminoglicosídeos) e a possibilidade rara de difusão a músculos vizinhos, como os fibulares ou os flexores. Por isso a indicação é médica e a aplicação é feita pelo médico, com técnica de localização adequada.

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O lugar da toxina no tratamento da SCCE

A toxina botulínica não é o primeiro passo nem o único, e entendê-la fora do plano completo leva a expectativa errada. O tratamento da síndrome compartimental crônica de esforço é escalonado e multimodal: começa pelo diagnóstico certo e pelas medidas conservadoras que mudam a carga e o gesto, passa por técnicas que reduzem a sobrecarga miofascial e a dor, reserva a toxina para casos selecionados como tentativa antes da cirurgia, e mantém a fasciotomia como opção definitiva quando o quadro é incapacitante e refratário. Cada degrau só faz sentido depois de o anterior ter sido bem conduzido, e nenhuma modalidade isolada costuma resolver sozinha.

Frasco de medicamento sobre bandeja clínica com gaze
O preparo e a diluição da toxina são feitos com técnica estéril antes da aplicação no compartimento.

Diagnóstico e ajuste de carga

Confirmar a SCCE com a medida de pressão (critérios de Pedowitz), reduzir volume e intensidade de corrida e tratar o que coexiste (canelite, fratura por estresse). Sem isso, qualquer procedimento é tiro no escuro.

Reabilitação e técnica de corrida

Mudar o padrão de pisada (do ataque de calcanhar para o médio-pé reduz a demanda excêntrica do tibial anterior), fortalecer e mobilizar a cadeia, corrigir treino e calçado. É a base e, em parte dos casos, resolve.

Técnicas em clínica para a dor

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho da musculatura associada, acupuntura médica, laser de alta intensidade e ondas de choque como adjuvantes do componente miofascial e tendíneo que se soma ao quadro.

Toxina botulínica, off-label e selecionada

Em quem segue sintomático após a reabilitação e quer evitar a cirurgia, reduzindo a pressão de esforço de forma temporária. Decisão compartilhada, com clareza sobre evidência e duração.

Fasciotomia

A cirurgia que abre a fáscia e descomprime o compartimento, opção definitiva nos casos incapacitantes e refratários. É conduta do cirurgião (ortopedia ou medicina do esporte).

Ajuste de carga e reeducação do padrão de pisada

É o degrau com a melhor relação entre evidência e segurança, e o que mais frequentemente resolve sem qualquer agulha. Reduzir volume e intensidade por algumas semanas alivia a sobrecarga aguda. A mudança do padrão de pisada tem racional direto na SCCE anterior: correr atacando o solo com o calcanhar (rearfoot strike) exige uma frenagem excêntrica intensa do tibial anterior a cada passo para controlar a descida do antepé; deslocar para um apoio de médio ou antepé (forefoot strike) reduz essa demanda. No ensaio prospectivo de Diebal e colaboradores (2012), militares com SCCE anterior treinados em corrida de antepé por seis semanas tiveram queda expressiva da pressão pós-esforço e dos sintomas, a ponto de evitar a fasciotomia já indicada.

Soma-se a isso a correção do treino (progressão de no máximo cerca de 10% por semana), do calçado e da mecânica geral, com fortalecimento e mobilidade orientados por profissional. A transição de pisada é gradual e supervisionada, porque sobrecarrega a panturrilha e o antepé se feita de forma abrupta.

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

A musculatura da perna sobrecarregada desenvolve pontos-gatilho miofasciais que somam dor ao quadro de pressão e perpetuam o ciclo dor-espasmo-dor. No agulhamento seco, a agulha inserida na banda tensa provoca a resposta de contração local (local twitch response), reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a concentração local de substâncias álgicas, com efeito analgésico local e segmentar. Quando o ponto é resistente, a infiltração com anestésico local relaxa a banda tensa e bloqueia a aferência nociceptiva.

Não trata a SCCE em si, que é um problema de pressão, mas alivia o componente miofascial associado e ajuda a tolerar a reabilitação. O alívio pode ser imediato ou surgir em 24 a 72 horas, com dor pós-agulhamento leve por um a dois dias; há cautela em pessoas anticoaguladas.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (teoria da comporta), pela ativação de vias inibitórias descendentes da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostroventral, e pela liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides. Não substituem a correção de carga nem descomprimem o compartimento, mas reduzem a dor e podem diminuir o uso de medicação durante o tratamento. Um ciclo inicial costuma ter 6 a 10 sessões, com reavaliação ao final.

Manejo farmacológico, papel adjuvante

Analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroidais por períodos curtos ajudam na fase de dor, mas não corrigem a causa mecânica e não devem virar uso contínuo para “aguentar” o treino, o que apenas mascara o problema e expõe ao risco gastrointestinal e renal. Quando há componente neuropático pela isquemia do nervo fibular profundo, fármacos como gabapentinoides ou tricíclicos em dose baixa podem ser considerados pelo médico e com titulação conforme tolerância. A escolha, a dose e a duração do medicamento são definidas pelo médico assistente, com atenção a contraindicações e comorbidades. A medicação alivia e abre espaço para a reabilitação, sem substituir a base ativa.

Quando a dor persiste apesar do plano bem conduzido, ou quando a fraqueza e a incapacidade dominam, a conversa passa para a fasciotomia, conduzida por cirurgião, com taxas de melhora boas para o compartimento anterior, ainda que não isentas de complicações e recidiva. A toxina botulínica ocupa o espaço entre a reabilitação e a cirurgia: uma tentativa a mais, off-label e temporária, para quem quer adiar ou evitar o bisturi com um diagnóstico já firmado e expectativas claras.

Sinais de alerta

A SCCE é incômoda e limitante, mas não é uma emergência. Alguns sinais, porém, apontam para quadros que mudam totalmente a conduta e não devem esperar. Procure atendimento sem demora se notar qualquer um destes:

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Dor intensa e desproporcional que não alivia no repouso, com a perna tensa, pálida ou fria, ausência de pulso, dor à extensão passiva dos dedos ou parestesia persistente do pé fora do esforço: possível síndrome compartimental aguda, que é urgência.
  • Dor localizada num ponto do osso que piora de forma progressiva e dói à noite ou em repouso, sugerindo fratura por estresse.
  • Inchaço de uma só panturrilha, com dor e calor, fora do contexto de exercício, que pode indicar trombose venosa profunda.
  • Fraqueza ou queda do pé que persiste e piora, ou dormência que não regride após parar de correr, sugerindo sofrimento do nervo fibular.
  • Febre, perda de peso sem explicação ou dor que surge sem relação com o esforço.

Cada item aponta para uma hipótese diferente da SCCE benigna de esforço, e a distinção é justamente o que protege o paciente de tratar a coisa errada. Na ausência desses sinais, a dor que sobe com a corrida e some no repouso costuma responder bem ao plano escalonado, conduzido pelo médico que investiga e trata esse quadro.

Perguntas frequentes

A toxina botulínica cura a síndrome compartimental de esforço?

Não é uma cura. A toxina reduz parcialmente a força e o volume do tibial anterior, baixa a pressão de esforço e, em séries pequenas, aliviou a dor de parte dos pacientes por alguns meses. O efeito é temporário, a evidência ainda é limitada e o uso é off-label. É uma tentativa conservadora em casos selecionados, antes da cirurgia, não uma solução definitiva.

Canelite e síndrome compartimental são a mesma coisa?

Não. A canelite (estresse tibial medial) dói na borda póstero-medial da tíbia e tende a melhorar ao aquecer; a síndrome compartimental anterior dói na frente da canela, aperta com o tempo de corrida e alivia rápido no repouso, às vezes com o pé caindo. Os tratamentos são diferentes, e o diagnóstico da síndrome compartimental depende da medida de pressão. Veja a página sobre canelite.

Vou ficar com o pé fraco depois da aplicação?

Alguma redução de força do tibial anterior é parte do mecanismo, já que é esse músculo da dorsiflexão que se quer relaxar. Na maioria dos relatos, a fraqueza é leve e não atrapalha a marcha, mas precisa ser monitorada com teste de força. Se a fraqueza incomodar mais do que a dor que se quer tratar, a conduta é reavaliada. A força retorna à medida que o efeito da toxina regride, em alguns meses.

Quando começa a fazer efeito e quanto dura?

O efeito não é imediato: instala-se ao longo de 2 a 4 semanas após a aplicação e costuma durar de 3 a 6 meses, regredindo conforme a junção neuromuscular se recupera. Por isso pode ser necessário repetir em ciclos. O retorno à corrida é gradual e guiado pela dor e pela força, dentro de um plano de reabilitação.

A toxina substitui a cirurgia (fasciotomia)?

São abordagens diferentes da mesma pressão: a fasciotomia abre a fáscia e descomprime o compartimento de forma definitiva; a toxina reduz temporariamente o volume do músculo que pressiona. Em casos selecionados, a toxina pode ser tentada antes para adiar ou evitar a cirurgia, mas não a substitui quando o quadro é incapacitante e refratário. A decisão é compartilhada, com o cirurgião quando indicado.

Toda dor na canela ao correr precisa de toxina?

Não. A maioria das dores na perna do corredor melhora com diagnóstico correto, ajuste de carga, mudança de técnica de corrida e reabilitação, sem qualquer procedimento. A toxina é reservada à síndrome compartimental de esforço confirmada pela medida de pressão, em quem segue sintomático após a base conservadora. O primeiro passo é sempre identificar de qual quadro se trata.

Quem realiza a aplicação da toxina botulínica?

A aplicação da toxina botulínica é realizada pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai (CRM-SP 158.074 · RQE 65.523), médico especialista em Fisiatria com área de atuação em Dor e colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP. A indicação é definida em avaliação individual, antes do procedimento.

Posso aplicar no mesmo dia da avaliação?

Na maioria dos casos, sim. A aplicação é feita em consultório e costuma levar menos de uma hora, contando o preparo. A confirmação depende da avaliação médica no dia.

Preciso de internação? Volto para casa no mesmo dia?

Não é necessária internação. É um procedimento ambulatorial: depois de um breve período de observação, você recebe alta e vai para casa no mesmo dia.

Clínica listada pela SBED, pela SMBTOC e pelo CMBA

Conheça a clínica

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Atuação acadêmica e institucional
  • Diretor do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura
  • Professor Colaborador da Pós-Graduação em Dor da USP
  • Ex-membro da Câmara Técnica de Acupuntura do CREMESP
Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Isner-Horobeti ME, Dufour SP, Blaes C, Lecocq J. Intramuscular pressure before and after botulinum toxin in chronic exertional compartment syndrome of the leg: a preliminary study. Am J Sports Med. 2013;41(11):2558 a 2566. acessar
  2. Charvin M, Orta C, Laroche D, et al. Botulinum Toxin A for Chronic Exertional Compartment Syndrome: A Retrospective Study of 16 Upper- and Lower-Limb Cases. Clin J Sport Med. 2022;32(4):e436 a e440. acessar
  3. Berrigan WA, Wickstrom J, Farrell M, Alter K. Botulinum Toxin A for Chronic Exertional Compartment Syndrome Evaluated With Shear Wave Elastography: A Case Report. Clin J Sport Med. 2022;32(2):e178 a e180. acessar
  4. Diebal AR, Gregory R, Alitz C, Gerber JP. Forefoot running improves pain and disability associated with chronic exertional compartment syndrome. Am J Sports Med. 2012;40(5):1060 a 1067. acessar
  5. Pedowitz RA, Hargens AR, Mubarak SJ, Gershuni DH. Modified criteria for the objective diagnosis of chronic compartment syndrome of the leg. Am J Sports Med. 1990;18(1):35 a 40. acessar
  6. Moore C, et al. Utilization of Botulinum Toxin for Musculoskeletal Disorders. Current Sports Medicine Reports. 2020. ver resumo
Leitura 11 min

A toxina botulínica para a síndrome compartimental de esforço é uso off-label, apoiado em evidência limitada. A indicação, a escolha do produto e as doses cabem ao médico.

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