Dor central pós-AVC: quando o sistema nervoso mantém a dor depois do derrame
A dor central pós-AVC é uma dor neuropática causada pela lesão das vias somatossensoriais, classicamente o trato espinotalâmico e o tálamo. O acompanhamento primário é do neurologista; o papel da clínica de dor é adjuvante, com medicação específica, reabilitação e neuromodulação.
- A dor central pós-AVC (DCPA) é uma dor neuropática central gerada pela própria lesão do AVC sobre as vias que conduzem dor e temperatura: o trato espinotalâmico, os núcleos do tálamo (ventral posterolateral e posteromedial, a clássica síndrome de Dejerine-Roussy) ou suas projeções. A dor não vem do membro que dói; vem da via sensorial lesada.
- O quadro é típico: dor em queimação ou lancinante no hemicorpo contralateral à lesão, com alodínia ao toque e ao frio, frequentemente com início semanas a meses após o derrame e convivendo com perda de sensibilidade térmica e dolorosa na mesma área (perda dissociada). O diagnóstico é clínico e de exclusão; imagem confirma a lesão, não a dor.
- O eixo do cuidado é o neurologista, na reabilitação. O tratamento da dor é adjuvante e modesto na resposta: primeira linha com amitriptilina, lamotrigina e gabapentinoides (pregabalina, gabapentina), reabilitação e dessensibilização e, em refratários, neuromodulação (EMTr ou estimulação do córtex motor). A meta é reduzir a dor e recuperar a função.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é a dor central pós-AVC

A dor central pós-AVC é uma dor neuropática causada por lesão direta das vias somatossensoriais do sistema nervoso central. Nomear corretamente o mecanismo muda a conduta: o paciente deixa de ouvir apenas “não apareceu nada grave” e passa a entender por que a dor persiste, quais exames mudam o manejo e quais fármacos têm evidência específica nesse cenário.
Tecnicamente, a DCPA é uma dor neuropática central, dentro do grupo das síndromes dolorosas centrais. Ela aparece quando o infarto ou a hemorragia atinge o sistema espinotalâmico-talamocortical, a via que carrega dor e temperatura: as fibras do trato espinotalâmico no tronco encefálico, os núcleos ventral posterolateral (VPL) e ventral posteromedial (VPM) do tálamo, ou as projeções talamocorticais para os córtices somatossensoriais (S1 e S2) e a ínsula. A lesão talâmica pura é a histórica síndrome de Dejerine-Roussy, descrita em 1906. No tronco, o local clássico é o bulbo lateral (síndrome de Wallenberg, por oclusão da artéria cerebelar posteroinferior), em que a dor e a perda térmica seguem um padrão cruzado, na face de um lado e no corpo do outro.
A dor surge porque essa via, ao ser lesada, gera sinal por conta própria. Dois mecanismos são propostos e não se excluem. O primeiro é a desinibição: a teoria de desinibição termossensorial (Craig) propõe que a lesão das fibras espinotalâmicas de dor e frio remove a inibição normal que essas fibras exercem sobre a via de frio inócuo, liberando uma sensação de frio doloroso e de queimação.
O segundo é a sensibilização e a reorganização central: neurônios talâmicos e corticais desaferentados tornam-se hiperexcitáveis, com descargas espontâneas e ampliação de campos receptivos, um fenômeno análogo à dor de desaferentação. É por isso que a DCPA frequentemente convive com perda de sensibilidade: a mesma via que foi destruída é a que carregava dor e temperatura, e o que sobra é um sinal desorganizado em um sistema sem freio.
A epidemiologia ajuda a calibrar a suspeita. A DCPA ocorre em cerca de 8 a 35 por cento dos pacientes após AVC, conforme a definição e o tempo de seguimento, e é mais provável quando o derrame compromete a via espinotalâmica, sobretudo em lesões do tálamo e do bulbo lateral. A condição é, antes de tudo, um problema neurológico, e o seguimento principal é do neurologista que conduz a reabilitação. A medicina da dor entra como apoio no manejo da dor neuropática que persiste, não como substituta do cuidado neurológico.
“Se a tomografia ou a ressonância não mostram nada de novo, a dor não é real ou é psicológica.”
A DCPA é uma dor biológica real, produzida pela lesão das vias sensoriais. O diagnóstico é clínico e de exclusão: depende da história neurológica e do exame da sensibilidade térmica e dolorosa. A imagem confirma o AVC; ela não mede a dor, e um exame sem novidades não exclui o quadro.

Quadro clínico e a assinatura neuropática
A DCPA tem uma assinatura sensorial que a separa da dor mecânica comum. O paciente descreve a dor como queimação constante, frio doloroso ou choques lancinantes, sobreposta a sensações estranhas e desagradáveis chamadas disestesias. A dor ocupa o hemicorpo contralateral à lesão e pode ser ampla (todo o lado) ou restrita a um segmento, como a mão, o pé ou a hemiface, conforme a somatotopia da via atingida.
| Domínio | Achado e por que importa |
|---|---|
| Caráter | Queimação, frio doloroso, choque/pontada lancinante, sensação de aperto ou disestesia mal definida |
| Estímulo-evocado | Alodínia ao toque leve e, de forma marcante, ao frio; hiperalgesia; somação temporal (a dor cresce com estímulos repetidos) |
| Distribuição | Hemicorpo contralateral à lesão; segue a somatotopia da via, podendo poupar parte do corpo |
| Perda dissociada | Hipoestesia térmica e dolorosa na mesma área que dói (a via espinotalâmica foi lesada), por vezes com tato preservado |
| Tempo | Início tardio típico, semanas a meses após o AVC, à medida que a via se reorganiza |
Dois fenômenos merecem nome próprio porque guiam o tratamento e confirmam a natureza neuropática. A alodínia é dor provocada por um estímulo que normalmente não dói, como o roçar do lençol ou uma brisa fria; a hiperalgesia é a resposta exagerada a um estímulo que já seria desconfortável. A alodínia ao frio é particularmente característica da DCPA: muitos pacientes pioram em dias frios ou ao contato com água fria, o que se encaixa na teoria de desinibição termossensorial. Esses sinais indicam um sistema somatossensorial sensibilizado, não uma lesão nova no membro.
Um detalhe semiológico distingue a DCPA de quase toda dor musculoesquelética: a coexistência de dor intensa com perda de sensibilidade na mesma região. O paciente sente menos o toque fino, a temperatura e a picada de alfinete e, ainda assim, refere dor espontânea contínua. Essa perda sensorial dissociada, com predomínio da via de dor e temperatura, é a impressão digital da lesão espinotalâmica e raramente aparece em quadros mecânicos.
Dor em queimação, frio doloroso ou lancinante, no hemicorpo contralateral a um AVC, com alodínia ao toque e ao frio e perda da sensibilidade térmica e dolorosa na mesma área, surgindo semanas a meses depois, é a apresentação típica da dor central pós-AVC.
Diagnóstico de exclusão: o que precisa ser separado
A DCPA é um diagnóstico de exclusão. Não há exame que a prove; o raciocínio se apoia em quatro pilares: (1) dor de caráter neuropático, (2) em território corporal compatível com a lesão do AVC, (3) com lesão das vias somatossensoriais confirmada por imagem ou pelo exame, e (4) após excluir outras causas de dor no lado afetado. O erro mais custoso é assumir que toda dor pós-AVC é central e perder uma causa com tratamento próprio, ou o oposto, tratar como problema de ombro uma dor que é neuropática central. As principais hipóteses a separar:
- Espasticidade dolorosa. A síndrome do neurônio motor superior eleva o tônus e gera contraturas e dor musculoesquelética. O mecanismo e o tratamento (cinesioterapia, alongamento, toxina botulínica tipo A focal, agentes orais) diferem dos da dor central, embora os dois quadros frequentemente coexistam.
- Ombro doloroso hemiplégico. A fraqueza do manguito e a subluxação glenoumeral do ombro plégico causam dor mecânica local, muito comum na reabilitação, que responde a posicionamento, suporte do membro, fisioterapia e, em casos selecionados, bloqueio do nervo supraescapular.
- Radiculopatia. Dor que segue um dermátomo, com parestesia e fraqueza no miótomo correspondente e reflexo alterado, aponta para a coluna (raiz nervosa), e não para a lesão central do AVC.
- Síndrome dolorosa regional complexa (SDRC). Pode surgir no membro plégico, com dor desproporcional, alterações de cor, temperatura, sudorese e edema, e exige abordagem própria, distinta da dor central pura.
- Cefaleia, dor por imobilidade, ulceração e dor visceral também entram no diferencial de “dor após AVC” e têm condutas específicas.
À beira do leito, o exame que mais rende é o teste das modalidades espinotalâmicas: comparar, entre os dois hemicorpos, a sensação de temperatura (tubo frio e morno), a picada de alfinete (dor) e a presença de alodínia ao toque e ao frio. A assimetria dessas modalidades no lado que dói sustenta a origem central. Questionários de rastreio ajudam a identificar o componente neuropático, mas são triagem, não diagnóstico. Não existe biomarcador: a neuroimagem confirma e localiza o AVC, e em situações selecionadas os potenciais evocados ou o teste sensorial quantitativo documentam a disfunção da via, sem, contudo, substituir o julgamento clínico.
O que a avaliação deve responder
O objetivo da consulta é transformar uma dor confusa em um plano verificável. A primeira avaliação responde a perguntas práticas: qual é o mecanismo predominante (quanto é neuropático central, quanto é espasticidade, ombro ou coluna)? Há sinais de alerta? O que já foi tentado, em que dose, por quanto tempo, o que piorou e o que melhorou?
Há comprometimento de sono, humor, marcha, destreza e autonomia? Quais metas são realistas nas próximas semanas?
No exame, avalio de forma comparada a sensibilidade do território afetado (tato, temperatura, dor e a presença de alodínia ao toque e ao frio), reviso o quadro neurológico do AVC, examino a amplitude e a estabilidade do ombro hemiplégico e o tônus do membro para pesar espasticidade, e procuro sinais que apontem outra origem. Esse mapeamento define o peso de cada componente. Reconhecer que pode haver mais de um mecanismo ao mesmo tempo não enfraquece o diagnóstico; torna o tratamento mais preciso, porque a parte mecânica tem tratamento local direto e a parte central exige fármacos de ação no sistema nervoso.
Um bom plano combina educação em dor, reabilitação, tratamento das comorbidades (em especial sono e humor, já que o AVC eleva o risco de depressão), medicação específica para dor neuropática quando indicada e o encaminhamento adequado, sempre articulado com o neurologista. Registro três medidas antes de começar: a intensidade média da dor (escala de 0 a 10), o pior momento do dia e a atividade mais limitada. A cada retorno, comparo essas medidas com a realidade, o que permite saber se o plano aponta alguma direção, ainda que a melhora seja parcial.
Tratamento na clínica: o papel adjuvante na dor pós-AVC
O tratamento é multimodal e individualizado. A dor central pós-AVC está entre as dores neuropáticas mais difíceis de tratar, e a evidência sustenta uma redução parcial da dor: nos ensaios, a proporção de pacientes que alcança alívio relevante é modesta e a magnitude do efeito é variável. A meta é diminuir a intensidade a um nível que não domine a rotina, melhorar sono e humor e recuperar função, dentro de um plano conduzido com o neurologista. O eixo do cuidado é neurológico; o papel da clínica de dor é adjuvante e se organiza em três frentes que as seções seguintes detalham.
Educação e reabilitação
Explicar a dor neuropática central sem culpar o paciente, manter o uso seguro do hemicorpo afetado e tratar a espasticidade e o ombro doloroso associados.
Técnicas sobre o componente mecânico
Agulhamento seco, infiltração de pontos-gatilho, toxina botulínica para espasticidade focal e bloqueio do supraescapular, quando há gerador miofascial, espasticidade ou ombro hemiplégico.
Fármacos para a dor neuropática
Amitriptilina, lamotrigina e gabapentinoides (pregabalina, gabapentina), iniciados em dose baixa e titulados de forma escalonada pelo médico.
Neuromodulação (refratários)
EMTr sobre o córtex motor e, em casos selecionados, estimulação do córtex motor implantada, em centro especializado.
As medidas se somam de forma escalonada e mensurável; cada degrau é mantido, otimizado ou trocado conforme a resposta. Os blocos abaixo seguem o padrão da clínica: o que é, o mecanismo calibrado, a evidência e o nível, o que esperar, as indicações e as limitações.
Educação em dor e reabilitação
- O que é
- Explicação do mecanismo da dor neuropática central somada ao trabalho de reabilitação: cinesioterapia, manejo da espasticidade e cuidado do ombro hemiplégico.
- Mecanismo
- Entender que a dor vem da lesão da via sensorial, e não de um dano novo no membro, reduz o comportamento de evitação e o medo do movimento, que amplificam a percepção dolorosa; a reabilitação preserva amplitude, previne contraturas e trata os componentes mecânicos que somam dor.
- Evidência
- Limitada A educação em neurociência da dor e o exercício têm boa base em dor crônica em geral; na DCPA especificamente os dados são indiretos, o que classifico como recomendação de bom senso clínico mais do que de alta certeza.
- O que esperar
- Ganhos graduais ao longo de semanas, sobretudo em função e tolerância, frequentemente antes de mudança expressiva na intensidade.
- Indicações
- Compõe a base do plano em qualquer apresentação da DCPA.
- Limitações
- Não atua sobre a lesão central em si, e o programa precisa ser adaptado a déficit motor, equilíbrio e fadiga pós-AVC.
O papel adjuvante da clínica de dor
- O que é
- Manejo dos componentes de dor associados ao quadro pós-AVC e otimização do tratamento da dor neuropática, em articulação com a neurologia.
- Mecanismo (calibrado)
- A lesão central não tem tratamento local, mas os componentes miofasciais, a espasticidade focal e o ombro hemiplégico têm: o agulhamento seco e a infiltração de pontos-gatilho atuam sobre a placa motora e o ciclo de dor muscular; a toxina botulínica tipo A reduz a hiperatividade muscular na espasticidade focal; o bloqueio do nervo supraescapular alivia a dor do ombro.
- Evidência
- Moderada Para a toxina na espasticidade pós-AVC, a evidência é consistente. Nenhuma dessas técnicas trata a dor central em si.
- O que esperar
- Alívio do componente mecânico somado ao quadro, o que pode reduzir a carga total de dor e facilitar a reabilitação.
- Indicações
- Quando há dor miofascial, espasticidade dolorosa ou ombro hemiplégico identificáveis ao exame.
- Limitações
- É um papel adjuvante, complementar ao seguimento neurológico; atua sobre os componentes mecânicos somados, não sobre a dor neuropática central.
Na DCPA, o ganho mensurável raramente é “dor zero”. É dormir a noite inteira, tolerar a roupa sobre a pele, retomar a fisioterapia ou usar menos medicação de resgate. Medir essas dimensões evita dois erros opostos: abandonar um tratamento que ajuda de forma parcial e insistir em uma estratégia que não muda nada.
Titulação inicial
Início de um agente de primeira linha em dose baixa, com aumento lento (especialmente lento para a lamotrigina), e ajuste da reabilitação. O efeito analgésico é gradual e a tolerância aos efeitos adversos é avaliada de perto.
Ajuste e combinação
Busca da dose eficaz tolerada; se a resposta for parcial, o médico pode trocar a classe ou combinar fármacos racionalmente, sempre com vigilância de sedação e de efeitos adversos.
Decisão sobre próximos passos
Sem resposta a um plano coerente, revê-se o diagnóstico e discute-se neuromodulação com a neurologia; com resposta, mantém-se e otimiza-se o que funciona.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa não é um detalhe opcional na dor central pós-AVC: é o terreno onde a função se reconstrói e onde os componentes mecânicos que somam dor são tratados. A lesão central não se reabilita diretamente, mas a dor neuropática leva o paciente a proteger o hemicorpo afetado, reduzir o movimento e perder condicionamento, e esse desuso retroalimenta a sensibilização, a rigidez, a espasticidade, o sono ruim e o humor, em uma população que já tem risco elevado de depressão após o AVC. O movimento orientado e a exposição gradual ao estímulo fazem o caminho inverso.
Quando há um componente musculoesquelético somado, sobretudo o ombro hemiplégico doloroso e a espasticidade do neurônio motor superior, a fisioterapia trata diretamente esse gerador. As modalidades abaixo são conduzidas na clínica de forma individual, um paciente por sala, adaptadas ao déficit motor, ao equilíbrio e à fadiga pós-AVC, e combinadas conforme a fase e a resposta.
Cinesioterapia, dessensibilização e ombro hemiplégico
Exercício terapêutico orientado, com mobilização, ganho de amplitude e fortalecimento progressivo dentro do que o déficit permite, somado ao treino de dessensibilização, em que a pele e o segmento afetado são expostos de forma gradual a diferentes texturas, temperaturas e cargas. Ativa as vias inibitórias descendentes (analgesia induzida pelo exercício) e, por habituação, reduz ao longo de semanas a alodínia ao toque e ao frio; o posicionamento e o suporte do membro plégico protegem a articulação da subluxação glenoumeral e da dor mecânica que se soma à dor central. Limitações: não atua sobre a lesão central; exige adesão e progressão cuidadosa, pois carga ou estímulo intensos demais no início podem deflagrar a dor.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trata o corpo por cadeias musculares, com posturas mantidas de alongamento ativo combinadas a contração isométrica. Após o AVC, a assimetria de tônus, a postura antálgica e o desequilíbrio entre o hemicorpo plégico e o sadio sobrecarregam cadeias musculares e somam tensão e dor mecânica; a RPG busca devolver comprimento, simetria e equilíbrio postural sem perder estabilidade. Limitações: não substitui o tratamento da dor neuropática nem a neuromodulação; as posturas exigem tolerância e orientação cuidadosa, sobretudo sobre área de alodínia, e precisam respeitar o déficit motor.
Pilates clínico
Pilates aplicado com finalidade terapêutica e supervisão, voltado a controle motor, estabilização e progressão de carga, distinto da modalidade de academia. Trabalha o controle do tronco como base estável para o movimento dos membros e gradua a carga com precisão no aparelho, reconduzindo ao exercício um corpo em desuso pela dor e pelo déficit, o que reduz o comportamento de proteção e o risco de quedas. Limitações: depende de execução correta e de adaptação ao déficit motor e ao equilíbrio; sem supervisão, movimentos compensatórios podem reproduzir a sobrecarga.
Terapia manual
Técnicas manuais de mobilização articular e de tecidos moles aplicadas ao componente musculoesquelético, sobretudo no ombro e na cintura escapular do lado plégico. Reduz a dor por mecanismos neurofisiológicos e melhora a mobilidade de forma temporária, criando uma janela para o exercício. Limitações: o efeito isolado é transitório e some sem o componente ativo; sobre área de alodínia intensa e em articulação subluxada, a técnica precisa ser graduada para não deflagrar dor.
Na prática, essas técnicas não competem entre si: a cinesioterapia com dessensibilização e o cuidado do ombro conduzem o plano, a RPG e o Pilates clínico tratam o componente postural e o controle motor, e a terapia manual abre espaço quando a dor ou a rigidez travam a progressão. O denominador comum é a reabilitação ativa, individualizada, conduzida por profissionais da equipe e integrada ao programa neurológico, com reavaliação periódica para ajustar carga e estímulo.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Não existe cirurgia que trate a dor central pós-AVC. A lesão que gera a dor está nas vias somatossensoriais do próprio cérebro, no tálamo ou no tronco encefálico, e não há procedimento que a “remova” ou a corrija. As antigas cirurgias ablativas do sistema nervoso, que destruíam regiões da via da dor, foram abandonadas nesse cenário porque o alívio era passageiro e a dor com frequência retornava pior.
O caminho, quando o tratamento conservador bem conduzido falha, é a neuromodulação, que ajusta a atividade dos circuitos da dor sem lesão destrutiva, conduzida por centros de dor e de neurocirurgia funcional. Esses procedimentos não são realizados em nossa clínica, que tem foco no tratamento não cirúrgico da dor.
Conservador · 1ª escolha
Plano multimodal não cirúrgico
- Fármacos neuromoduladores (amitriptilina, lamotrigina, gabapentinoides) titulados pelo médico
- Educação em dor, reabilitação e dessensibilização
- Manejo do componente mecânico: espasticidade, ombro hemiplégico, dor miofascial
- Conduzido com o neurologista, por meses, antes de qualquer escalada
Neuromodulação · exceção
Casos refratários, fora da clínica
- Indicada só quando a dor persiste com impacto relevante apesar de plano adequado por meses
- Indicação individualizada e compartilhada, com fase de teste antes de qualquer implante
- Sem cirurgia que corrija a lesão; resposta parcial na maioria dos casos
- Conduzida em serviços de neuromodulação e neurocirurgia funcional
A neuromodulação só entra na conversa quando a DCPA é refratária. A primeira escolha tende a ser a opção menos invasiva, e a escalada para técnicas implantadas é reservada a serviços especializados. As principais opções, fora do nosso escopo, estão resumidas abaixo.
- Estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr)
- Técnica não invasiva que aplica pulsos magnéticos sobre o córtex motor primário (M1). É a opção mais estudada na DCPA, com sinais de benefício em parte dos pacientes, porém efeito tipicamente temporário, o que exige sessões de manutenção. Funciona como teste e como tratamento em si, sem cirurgia. Conduzida em serviços de neuromodulação.
- Estimulação do córtex motor (ECM) implantada
- Implante cirúrgico de eletrodos sobre o córtex motor, considerado em casos muito selecionados que responderam a estímulo prévio. Há séries com benefício em parte dos pacientes refratários, mas sem ensaios robustos, e por isso é uma opção de exceção. Conduzida pela neurocirurgia funcional.
- Estimulação cerebral profunda (DBS) e estimulação medular
- A estimulação cerebral profunda de alvos sensoriais foi tentada na dor central com resultados inconsistentes e permanece investigacional. A estimulação medular, útil em outras dores neuropáticas, tem papel limitado e não estabelecido na dor de origem encefálica. São discutidas apenas em centros de dor de alta complexidade.
Além do espectro da neuromodulação, o cuidado completo depende do trabalho conjunto com especialistas, porque a DCPA é, antes de tudo, uma consequência neurológica.
Eixo do cuidado
Neurologista
Conduz o seguimento do AVC, a prevenção secundária e a reabilitação. É o eixo do cuidado, e o tratamento da dor se articula com ele.
Programa motor
Fisiatra e equipe de reabilitação
Coordenam o programa motor, o manejo da espasticidade e o cuidado do ombro hemiplégico.
Quando há depressão
Saúde mental
A depressão, frequente após o AVC, amplifica a dor; o apoio em saúde mental entra no plano quando indicado.
A pergunta certa não é qual cirurgia corrige a dor central, porque nenhuma o faz, mas se aquele paciente, depois de um tratamento conservador completo, é candidato a uma neuromodulação conduzida em centro especializado.
Princípio de decisão na dor central pós-AVCTratamento medicamentoso
Na dor central pós-AVC, o medicamento tem papel central, e não apenas adjuvante, porque o problema é a hiperexcitabilidade de uma via sensorial lesada, e não uma inflamação local. Isso muda a escolha das classes: os analgésicos comuns e os anti-inflamatórios têm pouco efeito sobre a queimação e a alodínia, e as opções de primeira linha são fármacos neuromoduladores que agem sobre a transmissão da dor no sistema nervoso. A DCPA está entre as dores neuropáticas mais difíceis de tratar: a resposta costuma ser parcial e nem todos os pacientes respondem. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico, com escalonamento lento e atenção a idade, função renal, função cardíaca e outras doenças, frequentes nesta população.
| Classe | Mecanismo | Evidência na DCPA | O que esperar e cautelas |
|---|---|---|---|
| Amitriptilina (tricíclico) | Reforça as vias inibitórias descendentes (noradrenalina e serotonina na medula) e bloqueia canais de sódio | Moderada ensaio controlado específico (Leijon e Boivie, 1989) | Dose baixa ao deitar, titulação lenta, benefício sobre o sono. Cautela com efeitos anticolinérgicos e cardíacos (QT) em idosos e cardiopatas; nortriptilina é alternativa mais tolerada |
| Lamotrigina (anticonvulsivante) | Bloqueia canais de sódio voltagem-dependentes, estabiliza neurônios hiperexcitáveis e reduz a liberação de glutamato | Moderada ensaio randomizado dedicado (Vestergaard et al., 2001) | Redução média da dor em torno de 200 mg/dia. Exige titulação muito lenta pelo risco de reação cutânea grave (Stevens-Johnson, NET); exantema é urgência |
| Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Ligam-se à subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio, reduzindo o influxo de cálcio e a liberação de glutamato e substância P | Limitada ensaio com pregabalina (Kim, 2011) não atingiu o desfecho de dor, mas melhorou sono e ansiedade | Possível ganho indireto via sono. Sonolência, tontura, edema e ganho de peso; ajustar à função renal; sedação pode comprometer atenção e equilíbrio em reabilitação |
| Duloxetina (IRSN) | Inibe a recaptação de serotonina e noradrenalina, reforçando as vias inibitórias descendentes | Moderada evidência forte em outras dores neuropáticas; alternativa na DCPA | Em geral mais bem tolerada que os tricíclicos; opção ou segunda linha quando a resposta a um primeiro fármaco bem titulado é parcial |
| Opioides | Agonismo opioide central | Limitada | Papel muito limitado e desencorajado na dor central crônica, pelo balanço desfavorável entre benefício modesto e riscos |
| Anti-inflamatórios e paracetamol | Ação sobre o componente nociceptivo / inflamatório | Limitada | Ajudam pouco no componente neuropático puro; fazem sentido apenas quando há componente nociceptivo ou miofascial associado, em cursos curtos |
Amitriptilina em foco
- O que é
- Antidepressivo tricíclico em dose baixa, um dos poucos medicamentos com ensaio controlado específico em DCPA (o estudo clássico de Leijon e Boivie, 1989), que mostrou alívio superior ao placebo.
- Mecanismo
- Não age aqui como “remédio para depressão”: reforça as vias inibitórias descendentes da dor ao aumentar a disponibilidade de noradrenalina e serotonina na medula, e os tricíclicos têm ainda bloqueio de canais de sódio que contribui para a analgesia.
- Evidência
- Moderada Ensaio controlado específico em DCPA com alívio superior ao placebo, dado que a coloca entre as opções de primeira linha.
- O que esperar
- Iniciada em dose baixa ao deitar, com titulação lenta; tem benefício adicional sobre o sono. O efeito analgésico é parcial e gradual.
- Indicações
- Primeira linha na dor neuropática central, sobretudo quando o sono também está comprometido.
- Limitações
- Efeitos anticolinérgicos (boca seca, constipação, retenção urinária, sedação) e efeitos cardíacos (prolongamento do QT) limitam o uso em idosos (critérios de Beers) e em cardiopatas, população frequente após AVC; a nortriptilina é uma alternativa com tolerância um pouco melhor.
Quando a resposta a um agente isolado é insuficiente, o médico pode trocar de classe ou combinar fármacos de mecanismos diferentes de forma racional, sempre vigiando a sedação somada e o risco de interações, como a associação de fármacos serotoninérgicos. Toda a estratégia se integra ao seguimento do neurologista. Para entender o papel de cada classe, veja o nosso guia de remédios para dor.
Quando procurar avaliação sem adiar
Como a dor surge no contexto de uma doença neurológica grave, alguns cenários exigem prioridade absoluta de segurança e não devem esperar por uma consulta de rotina:
Procure avaliação sem demora se houver
- Novo déficit neurológico (fraqueza, alteração da fala, da visão ou da consciência), que pode indicar um novo evento e exige atendimento de urgência.
- Piora súbita e importante da dor ou do quadro neurológico, fora do padrão habitual.
- Queda ou trauma, sobretudo com dor nova, em paciente com mobilidade comprometida.
- Dor associada a febre, confusão mental ou sinais de infecção.
- Exantema ou lesão de pele após início ou aumento de lamotrigina, pelo risco de reação cutânea grave.
Em todos esses cenários, a prioridade é segurança, e o caminho é a avaliação de urgência, não o ajuste do tratamento da dor. Fora das situações urgentes, a avaliação ainda é importante quando a dor dura mais de algumas semanas, quando há recidivas frequentes, ou quando o paciente está usando remédios repetidamente sem um diagnóstico funcional claro. Uma dor que muda de território, que passa a acordar o paciente toda noite, que vem acompanhada de perda de força ou que exige aumento frequente de medicação merece reavaliação, e não a repetição da mesma estratégia.
Como acompanhar a evolução
A evolução precisa ser acompanhada de forma prática. Na DCPA, observo quatro dimensões: a intensidade da dor, a área e o caráter das sensações, a tolerância ao toque e ao frio e o impacto real na vida diária. A dor pode ceder pouco no começo e, ainda assim, o paciente passar a dormir melhor, tolerar a roupa sobre a pele, avançar na fisioterapia ou usar menos medicação de resgate. Esses sinais também contam e orientam a manter o rumo.
O acompanhamento trabalha com hipóteses e reavaliação: se a hipótese estiver correta, espera-se algum ganho mensurável; se não houver ganho, muda-se o tratamento, a dose ou o encaminhamento.
Uma boa consulta termina com critérios claros. O paciente precisa saber o que fazer nas próximas semanas, quais atividades estão liberadas, quais sinais exigem contato e como a resposta será medida. Isso reduz a ansiedade, evita a sensação de que cada crise recomeça do zero e mantém o tratamento da dor alinhado ao seguimento neurológico, que continua sendo o eixo do cuidado após o AVC.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
A dor pode aparecer muito tempo depois do AVC?
Sim. A dor central pós-AVC costuma ter início tardio, surgindo semanas a meses após o derrame, e às vezes até 1 a 2 anos depois, à medida que o sistema nervoso se reorganiza. Por isso a linha do tempo e o território neurológico importam tanto: a dor pode não coincidir com o momento do evento, mas acompanha o hemicorpo contralateral à lesão.
Por que sinto dor em uma área que está dormente?
Porque a via lesada pelo AVC, o trato espinotalâmico, é justamente a que carrega dor e temperatura. Quando ela é danificada, o paciente perde parte da sensibilidade térmica e dolorosa naquela área (perda dissociada) e, ao mesmo tempo, o sistema desaferentado gera sinais de dor por conta própria. Dor intensa convivendo com dormência na mesma região é típico da origem central.
Um exame de imagem normal exclui a dor central?
Não. O diagnóstico é clínico e de exclusão: a imagem confirma e localiza o AVC, mas não mede a dor. Uma imagem sem novidades não afasta o quadro, assim como uma alteração na imagem não prova, sozinha, que ela seja a fonte da dor. O que sustenta o diagnóstico é a dor neuropática em território compatível, com lesão da via somatossensorial e após excluir outras causas.
Quais remédios são usados para a dor central pós-AVC?
As opções de primeira linha são a amitriptilina (antidepressivo tricíclico), a lamotrigina (anticonvulsivante bloqueador de canais de sódio) e os gabapentinoides gabapentina e pregabalina, iniciados em dose baixa e titulados de forma escalonada. A duloxetina é uma alternativa. O efeito costuma ser parcial, não total. A indicação, a dose e a duração são definidas pelo médico.
A fisioterapia e a acupuntura ajudam se a dor é central?
Têm papel adjuvante. Não tratam a lesão central, mas a fisioterapia preserva função, previne contraturas e trabalha a dessensibilização, e as técnicas da clínica de dor (agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho, toxina botulínica para espasticidade focal, bloqueio do supraescapular) atuam sobre os componentes mecânicos que somam dor, como a espasticidade e o ombro hemiplégico. Elas melhoram função e qualidade de vida, sempre articuladas com o seguimento neurológico.
A dor central pós-AVC tem cura?
É uma das dores neuropáticas mais difíceis de tratar e tem caráter crônico; o objetivo é o controle dos sintomas e a recuperação da função. Na prática, isso significa reduzir a intensidade a um nível que não domine a rotina e melhorar sono, humor e função. Algumas pessoas respondem bem à medicação, outras precisam de várias etapas, e os casos refratários podem discutir neuromodulação, como a EMTr do córtex motor, com a neurologia.
Referências1 fonte citada neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas sobre publicidade médica e vedação de garantia de resultado.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A dor central pós-AVC é um quadro neurológico cujo acompanhamento principal é do neurologista; a medicina da dor atua de forma adjuvante.

