Enxaqueca dura quantos dias?
A crise de enxaqueca não tratada dura de 4 a 72 horas e tem quatro fases, cada uma com seu tempo.
- A fase de dor de uma crise não tratada dura de 4 a 72 horas. Em crianças pode ser mais curta, a partir de 2 horas.
- A crise inteira é mais longa que a dor: o pródromo pode começar de 24 a 48 horas antes, e o pósdromo (a “ressaca”) prolonga o mal-estar por mais 24 a 48 horas.
- Dor que ultrapassa 72 horas seguidas é chamada de estado de mal enxaquecoso e merece avaliação; tratar a crise cedo, antes da sensibilização central, é o que mais encurta sua duração.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Quanto dura a crise de enxaqueca
A resposta curta é: de 4 a 72 horas de dor quando a crise não é tratada. A resposta útil é entender que a crise tem quatro fases, e o que a pessoa chama de “minha enxaqueca durou três dias” muitas vezes soma a dor com o que vem antes e depois dela.
A duração de 4 a 72 horas é o critério C da classificação internacional das cefaleias para a enxaqueca sem aura no adulto. Pela definição, a crise precisa ainda preencher pelo menos duas das quatro características de dor (localização unilateral, caráter pulsátil, intensidade moderada a forte, piora com esforço físico rotineiro como subir escadas) e vir acompanhada de náusea/vômito ou de foto e fonofobia. Esse intervalo de 4 a 72 horas conta a cefaleia em si, da instalação da dor até a sua resolução, numa crise não tratada ou tratada sem sucesso.
Em crianças e adolescentes a crise tende a ser mais curta, podendo durar a partir de 2 horas, e é com mais frequência bilateral e frontotemporal. Quando a dor cede em poucos minutos ou, no outro extremo, se arrasta por mais de três dias seguidos, vale rever o diagnóstico e a conduta.
A variação é grande de pessoa para pessoa, e até de crise para crise na mesma pessoa. Isso reflete a própria biologia da enxaqueca: ela não é “dor de cabeça forte”, e sim a ativação do sistema trigeminovascular, em que neurônios do gânglio trigeminal liberam neuropeptídeos vasoativos (sobretudo o CGRP, o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) que disparam inflamação neurogênica nas meninges e sensibilizam a via da dor. Um diário de cefaleia, anotando início, duração, intensidade na escala de 0 a 10 e o que foi tomado, é a melhor forma de conhecer o seu padrão e de perceber se as crises estão ficando mais longas ou frequentes ao longo do tempo.
Os “4 a 72 horas” são a duração de uma fase só, a da dor. Duas leituras importam. A primeira: como a crise inclui um pródromo antes e um pósdromo depois, o mal-estar real é mais longo que esse número, e quem conta o episódio inteiro descreve algo perto de “quase uma semana”. A segunda, e mais importante: ultrapassar 72 horas não é “uma enxaqueca forte” que basta aguentar. É um critério formal de complicação (o estado de mal enxaquecoso) e funciona como sinal de alerta para procurar atendimento.
As quatro fases e quanto dura cada uma
A enxaqueca não é um interruptor que liga e desliga. É um processo neurológico que se desenrola em até quatro fases, cada uma com um substrato no sistema nervoso. Nem toda crise tem todas elas, e a aura só aparece em cerca de um terço das pessoas. Reconhecer em que fase você está tem valor prático: a janela mais importante para tratar é o início da dor, e os sinais do pródromo são o aviso de que essa janela está chegando.
Pródromo
É a fase premonitória, atribuída a alterações na atividade do hipotálamo e do tronco encefálico antes da dor. Manifesta-se por bocejos repetidos, desejo por certos alimentos, sede, irritabilidade ou humor alterado, dificuldade de concentração, retenção de líquido e rigidez no pescoço. Aprender a reconhecê-los permite agir cedo.
Aura
Quando presente, traz sintomas neurológicos focais e transitórios, atribuídos à depressão alastrante cortical (uma onda de despolarização seguida de inibição que percorre o córtex). O mais comum é visual (escotoma cintilante, linhas em zigue-zague, mancha cega que se expande); há também aura sensitiva (parestesia que sobe pelo braço até a face) e disfásica. Cada sintoma instala-se de forma gradual e dura, em geral, de 5 a 60 minutos.
Dor
A fase de cefaleia: dor pulsátil, com frequência unilateral, que piora com esforço e vem com náusea, foto e fonofobia. Corresponde à ativação trigeminovascular plena e, nas horas seguintes, à sensibilização central. É a fase que define a duração “oficial” da crise: de 4 a 72 horas no adulto não tratado.
Pósdromo
A “ressaca” da enxaqueca. Depois que a dor cede, costuma sobrar cansaço, lentidão de raciocínio, dificuldade de concentração e sensação de esgotamento, em paralelo à normalização da atividade cortical e do fluxo sanguíneo cerebral. Explica por que a pessoa não se sente bem no mesmo instante em que a dor passa.
Somando as fases, entende-se a percepção de que “a enxaqueca durou dias”: uma crise com pródromo de um dia, dor de dois dias e pósdromo de mais um pode tomar quase uma semana de mal-estar, mesmo que a dor propriamente dita tenha respeitado o limite das 72 horas. Por isso, ao contar quanto dura a sua enxaqueca, vale separar a fase de dor das demais.
O pródromo é uma janela de ação. Quem aprende a reconhecer seus próprios sinais premonitórios (o bocejo repetido, o desejo por doce, a irritabilidade) ganha horas de vantagem para iniciar o tratamento antes da dor se instalar e antes que a sensibilização central torne a crise mais resistente, justamente quando o abortivo funciona melhor.
Estado de mal enxaquecoso e os sinais de alerta
Quando a fase de dor de uma crise típica se prolonga por mais de 72 horas seguidas, sem alívio sustentado, fala-se em estado de mal enxaquecoso (em latim, status migranoso), uma complicação formal pelos critérios de diagnóstico. Não é um tipo diferente de dor de cabeça: é a mesma crise que não cedeu no tempo esperado, em geral incapacitante e muitas vezes acompanhada de náusea e vômitos persistentes. Períodos curtos de alívio durante o sono ou logo após medicação não interrompem a contagem.
Dois mecanismos perpetuam a crise arrastada. O primeiro é a desidratação: vômitos repetidos por dias somados à dificuldade de comer e beber reduzem o volume circulante, dificultam a absorção do abortivo e mantêm o estímulo nociceptivo. O segundo é a sensibilização central, expressa clinicamente como alodínia (o couro cabeludo, o pentear o cabelo ou os óculos passam a doer): quando ela se instala, os triptanos perdem eficácia, o que ajuda a explicar por que a crise tardia resiste ao tratamento.
Some-se a isso o uso excessivo de analgésicos durante uma crise longa, que a médio prazo transforma a dor em cefaleia diária. O estado de mal enxaquecoso costuma exigir abordagem em ambiente assistido, com hidratação venosa, controle da náusea e medicação de resgate parenteral para quebrar a crise, sempre conduzida pelo médico.
Procure atendimento sem demora se houver
- Dor de cabeça que não cede após 72 horas, ou crise muito mais forte e diferente das suas crises habituais.
- Dor súbita e explosiva (cefaleia em trovoada), descrita como a pior da vida, que atinge o pico em segundos a minutos.
- Vômitos que impedem de beber líquidos, sinais de desidratação ou impossibilidade de tomar a medicação.
- Febre com rigidez de nuca, confusão mental ou sonolência fora do comum.
- Fraqueza, dormência, alteração da fala ou da visão que não melhoram quando a aura deveria ter passado (acima de 60 minutos).
- Primeira dor de cabeça forte após os 50 anos, dor que piora ao deitar/tossir, ou dor que muda de padrão e piora de forma progressiva.
Cada sinal aponta para uma conduta distinta, e é assim que o médico decide quando uma imagem (tomografia ou ressonância) muda o manejo. Uma cefaleia em trovoada levanta a hipótese de hemorragia subaracnóidea e impõe investigação imediata; febre com rigidez de nuca sugere meningite; um déficit neurológico que ultrapassa o tempo da aura precisa excluir evento isquêmico; dor que piora ao deitar, com despertar noturno ou início após os 50 anos, levanta suspeita de causa secundária (hipertensão intracraniana, lesão expansiva, arterite de células gigantes). Na ausência desses sinais, uma crise dentro das 72 horas com história típica é, quase sempre, a sua enxaqueca de sempre: a neuroimagem de rotina não está indicada, e a prioridade passa a ser encurtá-la.
Algumas observações recorrentes no consultório ajudam a interpretar a duração:
- O pósdromo é a fase que mais surpreende. Muita gente chega dizendo que “a enxaqueca durou cinco dias”, quando a dor em si durou um e o restante foi a “ressaca”, a lentidão de raciocínio e o cansaço que ninguém tinha avisado que faziam parte da mesma crise. Nomear essa fase costuma aliviar mais que qualquer exame.
- O estado de mal enxaquecoso, acima de 72 horas, raramente chega cedo. Em geral a pessoa esperou dois ou três dias “para ver se passava”, já vomitando e sem conseguir beber água, e só então procurou ajuda; quanto mais tarde, mais difícil de quebrar a crise. Vale combinar de antemão a partir de quando ligar.
- A transformação para a forma crônica raramente é súbita. Ela aparece como crises que vão deixando de ter começo e fim claros e começam a se confundir umas com as outras, com a cartela de analgésico subindo de consumo. Esse borramento, mais que a intensidade de uma crise isolada, é o sinal que pede revisão do plano.
Como encurtar e prevenir as crises
A duração da crise não é só destino: ela depende de quão cedo o tratamento começa. O princípio que mais reduz o tempo de dor é tratar cedo e na dose certa. Há uma razão fisiológica para isso: nas primeiras horas a dor ainda é conduzida por neurônios trigeminais periféricos, sobre os quais o abortivo age bem; passado esse tempo instala-se a sensibilização central, e o medicamento perde força. Tratar tarde, esperando “ver se passa” com a dor já forte, ou tratar com dose insuficiente, é uma das principais causas de crises que se arrastam.
O tratamento se organiza em duas frentes, sempre definidas pelo médico. A primeira é farmacológica e tem duas metas: encurtar cada crise (o tratamento agudo ou abortivo) e reduzir a frequência e a duração das crises ao longo do tempo (o tratamento profilático); o detalhe dessas classes está na seção sobre o tratamento medicamentoso. A segunda frente, descrita abaixo, é o conjunto de procedimentos de dor e técnicas não medicamentosas disponíveis na clínica, úteis nos casos refratários ou em quem busca reduzir a polifarmácia, dentro de um plano multimodal e não-cirúrgico. As modalidades a seguir somam-se à base de hábitos e à reabilitação ativa detalhadas mais adiante.
Acupuntura médica
- O que é: inserção de agulhas finas em acupontos por médico acupunturiatra, isolada ou com eletroestimulação de baixa frequência (eletroacupuntura), dentro da tradição de acupuntura médica do grupo.
- Mecanismo: modulação segmentar no corno dorsal da medula, ativação de vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial) e liberação de opioides endógenos; postula-se ainda efeito sobre o tônus autonômico, ainda em investigação.
- Evidência: moderada para a profilaxia da enxaqueca, com revisões sistemáticas mostrando redução de dias de dor versus acupuntura simulada e cuidado usual, e recomendação de diretrizes (como a NICE) em contextos selecionados.
- O que esperar: é profilaxia, não resgate: não derruba a dor da crise de hoje, mas, ao longo de semanas, tende a tornar as crises menos frequentes e menos arrastadas. A reavaliação se faz pelo diário de cefaleia, comparando dias de dor e duração média antes e depois de algumas semanas de tratamento regular.
- Indicações: profilaxia em quem busca reduzir a polifarmácia, não tolera ou tem contraindicação aos profiláticos orais, ou está em gestação (com técnica adequada).
- Limitações: não interrompe a crise aguda; desconforto ou pequena equimose no local são possíveis; cautela em uso de anticoagulantes. Não substitui o tratamento de base.
Agulhamento seco dos pontos-gatilho
- O que é: agulha de acupuntura inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial, sem injeção de substância. Muitas pessoas com enxaqueca têm pontos-gatilho ativos na musculatura pericraniana e cervical (suboccipitais, trapézio superior, esternocleidomastóideo) que funcionam como gatilho e prolongador das crises por convergência no complexo trigeminocervical.
- Mecanismo: a agulha no ponto-gatilho cervical desencadeia a contração local da banda tensa, reduz a atividade elétrica da placa motora e a concentração local de substâncias álgicas; ao desativar essa fonte de aferência que converge no complexo trigeminocervical, retira-se um amplificador da crise, com efeito analgésico local e segmentar.
- Evidência: boa para dor miofascial.
- O que esperar: ao desativar um ponto-gatilho cervical ativo, a sensibilidade local e a “tensão no pescoço” que precede as crises costumam ceder ao longo dos dias seguintes; uma dor pós-agulhamento leve por 1 a 2 dias é comum. O número de sessões depende de quantos pontos estão ativos e da resposta de cada um.
- Indicações: componente cervicogênico/miofascial associado à enxaqueca, comum em quem refere “tensão no pescoço” disparando as crises.
- Limitações: dor local transitória e equimose; cautela em anticoagulados; é parte do plano, combinada com reabilitação ativa, não tratamento isolado.
Bloqueio do nervo occipital
- O que é: injeção de anestésico local (por vezes com corticoide) ao redor do nervo occipital maior, na nuca.
- Mecanismo: interrompe temporariamente a aferência nociceptiva que converge para o complexo trigeminocervical, reduzindo a entrada de dor e abrindo uma janela para a reabilitação ativa.
- Evidência: útil na neuralgia occipital e na cefaleia cervicogênica refratária; usado também como medida de resgate em crises e no estado de mal enxaquecoso.
- O que esperar: alívio que pode durar de dias a algumas semanas, frequentemente percebido já nas primeiras horas.
- Indicações: crises com forte componente occipital/cervical, sensibilidade à palpação do nervo, ou necessidade de interromper uma crise arrastada.
- Limitações: efeito temporário; desconforto no local; integra um plano multimodal, não o substitui.
Toxina botulínica para enxaqueca crônica
- O que é: injeção de toxina botulínica tipo A em 31 pontos padronizados da cabeça e do pescoço, conforme o protocolo PREEMPT. Indicada especificamente para a enxaqueca crônica (15 ou mais dias de cefaleia por mês, por mais de três meses), não para a forma episódica.
- Mecanismo: além de relaxar a musculatura, reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (CGRP, substância P, glutamato) nas terminações trigeminais, com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular.
- Evidência: consolidada na enxaqueca crônica (programa de ensaios PREEMPT); não é abortivo da crise nem tratamento da enxaqueca episódica.
- O que esperar: início de ação em 2 a 4 semanas, efeito por cerca de 3 a 4 meses, com benefício cumulativo em ciclos repetidos.
- Indicações: enxaqueca crônica refratária ou intolerante à profilaxia oral.
- Limitações: dor no local de aplicação e fraqueza transitória da musculatura tratada; a escolha do produto e da dose é do médico.
Nenhuma dessas modalidades age sozinha. Elas se somam, de um lado, ao tratamento medicamentoso de base e, de outro, a uma base de hábitos e reabilitação ativa com evidência consistente para reduzir a frequência e a duração das crises (regularidade de sono e de refeições, exercício aeróbico, manejo de gatilhos e do componente cervical), detalhada na seção sobre o tratamento não farmacológico. A escolha e a ordem de introdução dependem da apresentação clínica, das comorbidades e da resposta inicial.
| Encurta a crise | Tende a prolongar |
|---|---|
| Tomar o abortivo nos primeiros minutos da dor, ainda leve, antes da alodínia | Esperar para “ver se passa” e medicar só com a dor forte e já com alodínia |
| Dose adequada definida pelo médico, com antiemético quando há náusea/vômito | Dose insuficiente ou medicação que não se absorve por causa do vômito e da estase gástrica |
| Repouso em ambiente escuro e silencioso, hidratação | Manter esforço, luz e som intensos; desidratação por vômitos |
| Profilaxia quando as crises são frequentes | Uso excessivo de analgésicos (cefaleia por uso excessivo de medicação) |
“O melhor é aguentar e esperar a crise passar sozinha para não tomar remédio à toa.”
Esperar costuma alongar a crise, porque dá tempo de instalar a sensibilização central que torna o abortivo menos eficaz. O abortivo funciona melhor logo no início, com a dor ainda leve. O que se deve evitar não é tratar cedo, e sim tratar com frequência excessiva, o que pede uma estratégia de profilaxia.
Medimos a intensidade da dor na escala de 0 a 10, a duração e a frequência das crises pelo diário de cefaleia, e questionários de impacto que medem o quanto a enxaqueca limita a rotina. A meta é reduzir a frequência, a intensidade e a duração das crises a um nível que não comprometa a vida, mais do que eliminá-las por completo. O plano é individualizado, multimodal e não-cirúrgico, e é revisto conforme a resposta.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
O remédio encurta a crise, mas quem dita se as crises voltam menos e mais curtas, ao longo dos meses, é a base não medicamentosa. Ela não compete com o tratamento agudo nem com a profilaxia: é o terceiro pilar de um plano multimodal e não-cirúrgico, com papel de adjuvante consistente. Quatro frentes têm evidência que justifica o investimento, resumidas abaixo. São adjuvantes: somam-se aos medicamentos profiláticos quando indicados, sem substituí-los.
Exercício aeróbico regular
Atividade moderada (caminhada rápida, bicicleta, natação), em geral 30 a 40 min, 3×/semana, introduzida de forma gradual. Postula-se melhora do tônus autonômico, do sono e do humor e liberação de mediadores com efeito analgésico central; o mecanismo exato sobre a frequência das crises segue em investigação.
Reabilitação do componente cervical
Fisioterapia, RPG e Pilates clínico para o pescoço: trata os pontos-gatilho suboccipitais, do trapézio superior e do esternocleidomastóideo e a postura anteriorizada da cabeça, que alimentam a crise pela convergência no complexo trigeminocervical. Detalhada na ficha abaixo.
Higiene do sono e manejo de gatilhos
Sono e refeições em horários estáveis, evitar jejum prolongado e privação de sono (dois dos gatilhos mais frequentes), hidratação e moderação da cafeína. O diário de cefaleia identifica os gatilhos individuais, em vez de impor dietas restritivas sem base.
Acupuntura médica (profilaxia)
Pilar profilático já detalhado na seção sobre como encurtar e prevenir as crises: evidência moderada para redução de dias de dor, útil em quem busca reduzir a polifarmácia. Não interrompe a crise instalada.
Fisioterapia, RPG e Pilates clínico para o componente cervical
Boa parte das pessoas com enxaqueca tem um componente cervical associado: dor e rigidez no pescoço, pontos-gatilho ativos na musculatura suboccipital, no trapézio superior e no esternocleidomastóideo, e postura anteriorizada da cabeça. Esse componente importa porque as aferências dos três primeiros nervos cervicais convergem, no complexo trigeminocervical, sobre os mesmos neurônios que recebem a dor trigeminal: a tensão cervical alimenta e prolonga a crise. Tratar o pescoço não cura a enxaqueca, mas reduz um gatilho e um amplificador frequentes.
- RPG (reeducação postural global)
- Trabalha as cadeias musculares como um todo, com posturas de alongamento ativo mantido e contração isométrica e excêntrica da musculatura encurtada (cadeia posterior, suboccipitais, escalenos), para devolver comprimento e equilíbrio às cadeias que sustentam a postura anteriorizada da cabeça.
- Pilates clínico
- Centrado no controle motor e na estabilização, treina os estabilizadores profundos do tronco e da cintura escapular para sustentar a coluna cervical com menos esforço da musculatura superficial dolorida, em progressão controlada de carga.
- Cinesioterapia específica
- Ativação dos flexores profundos do pescoço (flexão craniocervical), estabilização escapulotorácica e fortalecimento progressivo — a parte da fisioterapia com evidência mais direta para a cefaleia cervicogênica e o componente cervical da enxaqueca.
- Terapia manual
- Mobilização articular e liberação miofascial como adjuvantes, para abrir uma janela de menos dor que permita avançar no exercício ativo — não como tratamento isolado.
- Evidência e o que esperar
- O exercício terapêutico é a base do tratamento conservador da dor cervical, e a combinação de terapia manual com exercício tem evidência de benefício no componente cervical, de magnitude variável. A resposta se constrói ao longo de semanas, e a reabilitação é mantida para prevenir a recorrência.
- Limitações
- Esses recursos atuam sobre o gatilho cervical e a incapacidade, não sobre a fase aguda da crise; integram o plano, não o substituem. Anotar sono, refeições, ciclo menstrual e estresse no diário de cefaleia complementa essa frente.
Pense em três alavancas. O tratamento agudo encurta a crise de hoje; a profilaxia reduz a frequência das crises do próximo trimestre; o exercício, o sono regular e a reabilitação do pescoço mudam o terreno em que a enxaqueca acontece. As três operam juntas, e é a soma, não uma medida isolada, que costuma trazer o melhor controle.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Convém ser direto: a enxaqueca não é tratada com cirurgia de rotina. Não existe procedimento cirúrgico que cure a enxaqueca, e nenhuma diretriz de cefaleia recomenda cirurgia como parte do tratamento habitual. A enxaqueca é uma condição neurológica do sistema trigeminovascular, conduzida clinicamente; o caminho é o tratamento medicamentoso somado à base não farmacológica descrita acima. As opções abaixo completam o quadro e situam quando, e por quem, são consideradas, mas não fazem parte do manejo padrão e não são realizadas em nossa clínica.
Conservador · 1ª escolha
Plano clínico multimodal
- Ajuste do tratamento agudo (abortivo cedo, na dose certa)
- Profilaxia adequada, incluindo anticorpos anti-CGRP
- Toxina botulínica na forma crônica
- Base não farmacológica: exercício, sono, reabilitação cervical, acupuntura
- Controla a quase totalidade dos casos sem qualquer procedimento
Cirúrgico / fora da clínica · exceção
Apenas em refratários, por equipe especializada
- Cogitado só após falha bem documentada da profilaxia adequada e da base não farmacológica
- Cirurgia de descompressão de nervos: controversa, não endossada pelas diretrizes
- Neuromodulação reservada a centros especializados
- Benefício e durabilidade variáveis; decisão fora do escopo da clínica
Duas categorias aparecem fora do consultório de dor e merecem ser entendidas com cautela. A primeira é a cirurgia de descompressão de nervos pericranianos (a chamada cirurgia dos pontos-gatilho da enxaqueca), proposta para liberar nervos como o occipital maior ou ramos do trigêmeo de supostos pontos de compressão muscular ou vascular. Permanece controversa: as sociedades de cefaleia não a endossam como tratamento padrão, a evidência vem sobretudo de centros isolados e fora do âmbito neurológico, e seleção, desfechos e durabilidade ainda são objeto de debate. A segunda é a neuromodulação, reservada a casos refratários e conduzida por equipes especializadas.
- Quando se cogita
- Apenas em enxaqueca refratária, após falha bem documentada de profilaxia adequada (incluindo anti-CGRP e toxina botulínica na forma crônica) e de tratamento não farmacológico, e sempre por equipe especializada.
- Neuromodulação não invasiva
- Estimulação do nervo trigêmeo supraorbitário, estimulação magnética transcraniana e estimulação do nervo vago, com perfil de segurança favorável e alguma evidência na enxaqueca, como dispositivos adjuvantes para casos selecionados, conduzidos por especialista.
- Neuromodulação invasiva
- Estimulação do nervo occipital e do gânglio esfenopalatino, restritas a centros terciários e a quadros refratários graves, com indicação individualizada.
- Cirurgia de descompressão de nervos
- Procedimento controverso, não recomendado pelas diretrizes de cefaleia como tratamento padrão; não realizado em nossa clínica. Decisão fora do escopo do manejo neurológico habitual, com benefício e durabilidade variáveis.
Na prática, antes de pensar em qualquer procedimento dessa natureza, a quase totalidade das pessoas com enxaqueca alcança bom controle com o ajuste do tratamento agudo, a profilaxia certa (hoje incluindo os anticorpos anti-CGRP) e a base não medicamentosa. Crises arrastadas e frequentes que não respondem pedem, primeiro, a revisão desse plano por um médico da dor ou neurologista, não cirurgia.
Tratamento medicamentoso: agudo e profilático
O medicamento é o centro do controle da enxaqueca, e é o que mais influencia a duração da crise. Organiza-se em duas frentes, com objetivos diferentes: o tratamento agudo (ou abortivo), tomado na crise para encurtá-la, e o tratamento profilático, de uso contínuo, para reduzir a frequência e a duração das crises ao longo do tempo. A discussão abaixo descreve classes, não doses: a escolha, a dose e os ajustes são definidos pelo médico assistente. O uso de analgésicos por conta própria é justamente o que mais transforma a enxaqueca em dor diária.
Tratamento agudo: encurtar a crise
São os medicamentos que interrompem a crise em andamento, e funcionam melhor quanto mais cedo, ainda com a dor leve, antes da alodínia. A escolha varia com a intensidade da crise e com as contraindicações.
| Classe (exemplos) | Para quê | Mecanismo, em linhas gerais | O que observar |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno) | Crises leves a moderadas | Inibem a cicloxigenase e reduzem a inflamação neurogênica meníngea | Em dose plena; cuidados gástricos e renais habituais |
| Triptanos (sumatriptana, rizatriptana, zolmitriptana) | Crises moderadas a fortes | Agonistas 5-HT1B/1D: vasoconstrição craniana e inibição da liberação de CGRP nas terminações trigeminais | Contraindicação vascular; perdem eficácia se já há alodínia |
| Ditanos (lasmiditana) | Alternativa quando há contraindicação vascular | Agonista 5-HT1F, sem o efeito vasoconstritor dos triptanos | Opção mais recente, por indicação do médico |
| Gepantes de uso agudo | Alternativa quando há contraindicação aos triptanos | Antagonistas do receptor de CGRP | Opção mais recente, por indicação do médico |
| Antiemético (metoclopramida, domperidona) | Adjuvante na náusea/vômito | Controla a náusea e acelera o esvaziamento gástrico paralisado na crise, melhorando a absorção do abortivo | Associado ao abortivo quando há náusea |
O abortivo tem um teto de uso. Tomá-lo em excesso (em geral mais de 10 dias por mês para triptanos, gepantes e combinações, ou mais de 15 para analgésicos simples) produz o efeito contrário: a cefaleia por uso excessivo de medicação, em que o próprio remédio perpetua a dor e a torna diária. Precisar de abortivo com muita frequência não é sinal de tomar mais analgésico, e sim de que o caminho é a profilaxia. Esse equilíbrio é definido com o médico.
Tratamento profilático: reduzir frequência e duração
Indicada quando as crises são frequentes (a partir de cerca de 4 dias de dor por mês com incapacidade), longas ou refratárias ao abortivo, a profilaxia é um tratamento contínuo cuja meta usual é reduzir as crises pela metade, e não eliminá-las por completo. O efeito aparece de forma gradual, ao longo de 4 a 12 semanas, e a dose é titulada conforme tolerância e resposta; por isso não se julga um profilático antes de algumas semanas no alvo. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP e a toxina botulínica (esta, para a forma crônica, descrita na seção «Como encurtar e prevenir as crises») são linhas mais recentes, em geral conduzidas por neurologista ou médico da dor e reservadas a quem falhou às opções orais.
| Classe (exemplos) | Mecanismo, em linhas gerais | Notas e efeitos a observar |
|---|---|---|
| Betabloqueador (propranolol) | Modula o tônus noradrenérgico central | Cautela em asma, bradicardia e depressão; fadiga é comum |
| Antiepiléptico (topiramato) | Estabiliza a excitabilidade neuronal e eleva o limiar da depressão alastrante cortical | Parestesias, perda de peso e efeitos cognitivos; evitar na gestação |
| Tricíclico (amitriptilina, dose baixa) | Potencializa vias inibitórias serotoninérgicas e noradrenérgicas | Útil quando há insônia ou dor associada; sonolência e boca seca |
| Antagonista de angiotensina (candesartana) | Bloqueio do sistema renina-angiotensina, com efeito profilático demonstrado | Bem tolerado; vigiar pressão arterial |
| Bloqueador de canal de cálcio (flunarizina) | Reduz a hiperexcitabilidade neuronal | Sonolência, ganho de peso; cautela em depressão e parkinsonismo |
| Anticorpos anti-CGRP (erenumabe, galcanezumabe, fremanezumabe) | Bloqueiam diretamente a via do CGRP | Linha mais recente, conduzida por especialista, para casos selecionados |
A escolha entre essas classes não é por ordem fixa: depende das comorbidades (uma enxaqueca com insônia ou pressão alta pode orientar a opção), das contraindicações, da gestação e da resposta inicial, sempre em decisão compartilhada.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Enxaqueca dura quantos dias, afinal?
A fase de dor de uma crise não tratada dura de 4 a 72 horas no adulto, ou seja, de algumas horas a até três dias. Em crianças pode ser mais curta, a partir de 2 horas. Contando o pródromo (que vem antes) e o pósdromo (a “ressaca”, que vem depois), o mal-estar total pode se estender por mais alguns dias.
Minha enxaqueca já passou de 3 dias. É perigoso?
Dor de enxaqueca que ultrapassa 72 horas seguidas é chamada de estado de mal enxaquecoso e merece avaliação médica, sobretudo se houver vômitos que impedem de beber líquidos ou sinais de desidratação. Procure o pronto-atendimento; costuma ser necessário hidratar pela veia, controlar a náusea e usar medicação de resgate para quebrar a crise.
Por que continuo mal mesmo depois que a dor passou?
É o pósdromo, a quarta fase da crise. Depois que a dor cede, costuma sobrar cansaço, lentidão de raciocínio e dificuldade de concentração por 24 a 48 horas, enquanto a atividade cortical se normaliza. É a “ressaca” da enxaqueca e faz parte do mesmo processo neurológico; tende a melhorar com repouso e hidratação.
Quanto tempo dura a aura?
Cada sintoma de aura instala-se de forma gradual e dura, em geral, de 5 a 60 minutos, costumando preceder a dor. Aura visual ou sensitiva que se prolonga por mais de uma hora, ou que vem com fraqueza, alteração da fala ou da consciência, deve ser avaliada sem demora. Veja a página sobre enxaqueca com e sem aura.
Como faço a crise passar mais rápido?
O que mais encurta a crise é tomar a medicação abortiva prescrita logo no início da dor, ainda leve (antes da alodínia), em repouso, em ambiente escuro e silencioso, e mantendo a hidratação. Tratar tarde ou em dose insuficiente costuma prolongar a crise. Se você precisa de abortivo com muita frequência, converse com o médico sobre profilaxia.
Crises cada vez mais longas ou frequentes, o que pode ser?
O aumento da frequência e da duração pode indicar transformação para enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês) ou cefaleia por uso excessivo de medicação. É um sinal de que o tratamento precisa ser revisto, com foco em profilaxia. Entenda o quadro completo no guia sobre enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Dodick DW. A Phase-by-Phase Review of Migraine Pathophysiology. Headache. 2018. doi:10.1111/head.13300. PMID:29697154.
- Paemeleire K; Vandenbussche N; Stark R. Migraine without aura. Handbook of clinical neurology. 2023. doi:10.1016/b978-0-12-823356-6.00007-x. PMID:38043959.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica. A duração das crises e o tempo de resposta a cada medida variam de pessoa para pessoa, e o plano precisa ser individualizado para o seu padrão de enxaqueca.
