Pregabalina serve para dor na coluna?
A pregabalina é um neuromodulador para dor neuropática. Na coluna, seu lugar é estreito: ela pode ajudar quando há dor em queimação e formigamento por irritação de uma raiz nervosa, mas a evidência não sustenta seu uso na ciática nem na dor lombar mecânica comum.
- A pregabalina é um gabapentinoide que age na subunidade alfa-2-delta-1 dos canais de cálcio do nervo. Seu alvo é a dor neuropática, não a dor mecânica nem a inflamação.
- A evidência mais forte é para neuropatia diabética e neuralgia pós-herpética. Para a dor ciática, o melhor ensaio (PRECISE, NEJM 2017) foi negativo, e para a lombalgia mecânica comum ela não é indicada. Esse é o ponto mais mal compreendido sobre o remédio.
- Causa sonolência, tontura, edema e ganho de peso, pede ajuste pela função renal, tem potencial de dependência e exige introdução e desmame graduais. A dose é definida pelo médico assistente.
- Na coluna, o remédio é, no máximo, uma camada. O caminho começa pelo diagnóstico e por um plano ativo e multimodal, não por um comprimido.
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Para que a pregabalina serve

A pregabalina entrou no vocabulário de quem tem dor na coluna, mas seu lugar é estreito e específico. Ela não é um remédio para qualquer dor de coluna: é um remédio para um tipo de dor, e mesmo nesse tipo a evidência tem limites claros.
A pregabalina pertence à classe dos gabapentinoides, o mesmo grupo da gabapentina. São neuromoduladores que atuam sobre a forma como o sistema nervoso conduz e amplifica o sinal de dor, e não sobre inflamação ou espasmo muscular. Por isso seu alvo é a dor neuropática: a dor gerada por lesão, compressão ou irritação de um nervo, com um caráter próprio de queimação, choque, agulhada, formigamento ou dormência, muitas vezes acompanhada de alodínia (dor ao toque leve) e de hiperalgesia.
As indicações em bula e na literatura mais sólida não são da coluna: são a neuropatia diabética dolorosa, a neuralgia pós-herpética (a dor que persiste após o herpes-zóster), a dor neuropática central após lesão medular e, fora do campo da dor, a fibromialgia e o transtorno de ansiedade generalizada. É a partir desse perfil neuropático que se discute, com cautela, um eventual papel na coluna.
Na coluna, o perfil neuropático aparece na dor radicular, quando uma raiz nervosa (por exemplo L4, L5 ou S1 na região lombar, ou C6, C7 e C8 na cervical) é comprimida ou inflamada e a dor deixa de ser apenas local e passa a seguir o trajeto do dermátomo daquela raiz. O exemplo mais citado é a dor ciática, em que o desconforto desce pela nádega e pela perna, às vezes até o pé, com formigamento ou perda de sensibilidade. É tentador concluir que, por ter componente neuropático, a ciática responderia a um gabapentinoide; essa conclusão, embora lógica, esbarra na evidência.
É importante separar bem o terreno. A maior parte das dores lombares é mecânica e inespecífica, ligada a disco, articulações facetárias, sacroilíaca ou musculatura, e melhora com movimento, exercício e, quando preciso, anti-inflamatório por período curto. Para esse tipo de dor, a pregabalina não tem indicação e tende a não ajudar, tema desenvolvido em remédios para dor na coluna.

Como a pregabalina age, e o que ela não faz

A pregabalina é um ligante da subunidade auxiliar alfa-2-delta-1 (α2δ-1) dos canais de cálcio voltagem-dependentes do tipo P/Q e N, presentes nas terminações pré-sinápticas dos neurônios. Apesar do parentesco estrutural com o neurotransmissor GABA, ela não age no receptor GABA, não é convertida em GABA e não altera sua recaptação. Seu efeito vem do bloqueio funcional desses canais de cálcio em neurônios que estão hiperexcitáveis.
Ao se ligar à subunidade α2δ-1, a pregabalina reduz o influxo de cálcio na terminação nervosa quando o neurônio dispara. Menos cálcio na terminação significa menor liberação dos neurotransmissores excitatórios envolvidos na transmissão da dor: glutamato, substância P, peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) e noradrenalina. Esse efeito é mais expressivo justamente nos circuitos que estão sensibilizados, como o corno dorsal da medula na dor neuropática, e por isso o medicamento modula a dor sem se comportar como um analgésico geral.
O alvo é, portanto, a hiperexcitabilidade neuronal e a sensibilização central, o estado em que o sistema nervoso amplifica e perpetua o sinal de dor, com o fenômeno de somação temporal (o chamado wind-up). É isso que explica por que o efeito tende a aparecer na dor em queimação, choque e formigamento, e por que é pequeno ou nulo na dor mecânica de fundo da coluna, em que não há esse circuito disparando em excesso.
Modular a dor neuropática
Reduzir a liberação de glutamato, substância P e CGRP em circuitos sensibilizados, atenuando a dor em queimação, choque e formigamento de origem neuropática, e ajudar o sono e a ansiedade associados à dor crônica.
Não trata a dor mecânica
Não age na dor lombar mecânica comum, não é anti-inflamatório, não é analgésico simples, não é relaxante muscular e não corrige a causa: hérnia, faceta, sacroilíaca ou sobrecarga muscular.
Essa distinção evita uma frustração frequente: a de tomar pregabalina esperando que ela resolva uma dor lombar de esforço e concluir que o remédio não serve para nada. O problema não é o remédio, é a indicação. A escolha entre pregabalina, gabapentina ou outras classes, e a decisão de associá-las ou não, dependem do quadro e cabem ao médico.
O que a evidência mostra na coluna
Aqui está o ponto que costuma surpreender. A lógica de que a ciática, por ter componente neuropático, responderia a um gabapentinoide foi testada de frente, e o resultado foi negativo. É um exemplo clássico de hipótese plausível que não se confirma no ensaio clínico.
Pregabalina não superou o placebo na dor ciática
No ensaio PRECISE, duplo-cego e controlado por placebo, publicado no New England Journal of Medicine em 2017, a pregabalina não reduziu a intensidade da dor na perna em pessoas com ciática, nem em 8 nem em 52 semanas, e ainda se associou a mais efeitos adversos, sobretudo tontura. Mathieson S e cols., N Engl J Med, 2017.
Ver referências →Esse achado é coerente com revisões mais amplas. As diretrizes e revisões sistemáticas sobre dor lombar e radicular não recomendam gabapentinoides para a lombalgia inespecífica nem para a dor radicular de rotina, porque o benefício médio é pequeno ou ausente e os efeitos adversos são frequentes. Em outras palavras: na dor da coluna, a pregabalina costuma entregar pouco e cobrar caro em tontura, sonolência e edema.
Onde a pregabalina tem evidência consistente
Para a neuropatia diabética dolorosa e a neuralgia pós-herpética, revisões Cochrane mostram benefício de magnitude moderada: uma parcela dos pacientes alcança redução relevante da dor, com 50% de alívio em cerca de 1 a cada 7 ou 8 pessoas. O efeito existe, mas está longe de ser universal, e essas indicações não são da coluna. Derry S e cols., Cochrane Database Syst Rev, 2019.
Ver referências →A pregabalina tem evidência para dores neuropáticas bem definidas, como a do diabetes e a pós-herpética, e não tem evidência de benefício para a ciática nem para a dor lombar mecânica. Pode haver casos individuais de dor radicular com forte caráter neuropático em que um teste terapêutico, com meta e prazo, é discutido entre médico e paciente, mas isso é uma decisão de exceção, fora da indicação de rotina, e não uma regra. A magnitude do efeito varia entre pessoas, e a ausência de resposta em poucas semanas é motivo para reavaliar, não para insistir.
A hipótese de que a pregabalina serviria para a ciática, por ela agir na dor neuropática, foi testada de frente no melhor ensaio randomizado em ciática e o resultado foi negativo, com a pregabalina empatando com placebo no alívio da dor na perna e ainda causando mais tontura e sonolência. E, por agir no sistema nervoso central, ela não pode ser parada de uma vez: a interrupção abrupta pode desencadear uma síndrome de descontinuação.
“Pregabalina é o remédio da ciática e da dor de coluna em geral.”
O melhor ensaio em ciática foi negativo, e ela não é indicada para a dor lombar mecânica. A evidência sólida está em outras dores neuropáticas, como a neuropatia diabética e a neuralgia pós-herpética.
Algumas observações de quem atende dor na coluna todos os dias. A primeira é o quanto a pregabalina chega já prescrita para ciática e para dor lombar comum, muitas vezes em quem nunca teve um exame que confirmasse componente neuropático; é um dos medicamentos mais usados fora da indicação na dor de coluna, e isso convive mal com um ensaio randomizado que a igualou ao placebo na ciática. A segunda é o preço que ela cobra: a queixa mais comum não é de alívio, e sim de sonolência e cabeça lenta no começo, de tontura que assusta sobretudo o idoso pelo risco de queda, e de inchaço nos pés e ganho de peso. A terceira é onde ela de fato ajuda: quando a dor tem caráter claramente neuropático e bem definido, como numa neuropatia diabética ou numa neuralgia pós-herpética, o balanço pode favorecer um teste, o que é bem diferente de uma lombalgia de esforço. E a quarta é que não se larga a pregabalina de uma hora para outra: a parada abrupta pode trazer insônia, ansiedade e mal-estar, então a saída é um desmame lento e combinado com o médico assistente.
Segurança: efeitos, ajuste renal, dependência e desmame
Mesmo quando indicada, a pregabalina exige cuidado. Boa parte dos efeitos colaterais vem da sua ação sobre o sistema nervoso central. Os mais comuns são sonolência e tontura, em geral mais intensas no início e quando a dose sobe rápido, e por isso a introdução é sempre gradual, começando baixo e subindo aos poucos conforme tolerância e resposta. Também são frequentes o edema (inchaço de pés e tornozelos), o ganho de peso, a boca seca, a visão turva, a dificuldade de concentração e uma sensação de desequilíbrio que, em idosos, aumenta o risco de quedas.
A pregabalina não deve ser interrompida de uma vez. A retirada abrupta pode provocar síndrome de descontinuação, com insônia, ansiedade, irritabilidade, náusea, sudorese, dor de cabeça e, em casos raros, convulsão. Quando chega a hora de suspender, faz-se um desmame gradual, com redução lenta da dose ao longo de pelo menos uma a duas semanas, sempre orientado pelo médico assistente.
Como pesar tudo isso na prática depende do quadro: numa dor neuropática bem definida, com sono ruim e boa tolerância, o balanço pode favorecer um teste; numa dor mecânica, sem componente neuropático, o balanço é desfavorável, porque há os efeitos adversos sem o benefício esperado.
Na dor da coluna, alguns sinais não devem ser mascarados por remédio
- Perda de força progressiva na perna ou no pé, ou queda do pé ao caminhar.
- Dificuldade para controlar a urina ou as fezes, ou dormência na região entre as pernas (a sela), que pode indicar compressão grave.
- Febre, perda de peso inexplicada ou história de câncer com dor nova na coluna.
- Dor que piora à noite, não alivia em nenhuma posição e não cede com repouso.
- Trauma significativo recente, ou dor em quem usa corticoide por longo tempo ou tem osteoporose.
O lugar da pregabalina na dor na coluna
Resumindo o papel deste remédio: na coluna, a pregabalina é, no máximo, um adjuvante, e apenas para o componente neuropático ou radicular da dor, nunca para a dor lombar mecânica comum. Ela alivia um sintoma quando há nervo irritado; ela não corrige o que produz a dor.
A indicação mais defensável é a dor radicular com caráter claramente neuropático, com queimação, choque e formigamento seguindo o trajeto de uma raiz. Mesmo aí, a evidência na coluna é fraca, e para a dor ciática o melhor ensaio randomizado (PRECISE) foi negativo. Para a dor lombar axial mecânica, a pregabalina não tem indicação e não deve ser usada. Quando se cogita um teste em dor radicular, ele entra com meta e prazo, com titulação lenta a partir de dose baixa para reduzir sonolência e tontura, com atenção ao edema e ao ganho de peso, e com a ciência de que o gabapentinoide tem potencial de dependência e uso indevido, exigindo desmame gradual.
Em termos de classe, quando há componente neuropático nem sempre o gabapentinoide é a melhor escolha: os antidepressivos com ação analgésica (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) costumam ter melhor relação entre benefício e tolerância na dor da coluna, e a decisão entre eles é do médico, conforme o quadro, as comorbidades e a função renal.
Acima de tudo, a medicação é só uma camada. O que de fato muda o curso da dor da coluna é um tratamento multimodal, individualizado e dirigido à causa, definido depois de caracterizar a origem da dor, e o plano completo é detalhado nas páginas da dor lombar e da dor ciática.
O que muda o curso da dor da coluna é a avaliação que define a origem e monta o plano. Anote onde a dor começa e para onde desce, se tem caráter de queimação ou formigamento, o que melhora e o que piora, e leve a lista de todos os medicamentos que usa, incluindo os de venda livre.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Pregabalina serve para dor na coluna?
Seu alvo é a dor neuropática, e a evidência sólida está em dores como a neuropatia diabética e a neuralgia pós-herpética, não na coluna. Para a dor ciática, o melhor ensaio foi negativo, e para a dor lombar mecânica comum ela não é indicada. Em casos selecionados de dor radicular com forte componente neuropático, pode-se discutir um teste com prazo, sempre definido pelo médico.
Pregabalina é boa para ciática?
A melhor evidência diz que não. O ensaio PRECISE, publicado no New England Journal of Medicine em 2017, mostrou que a pregabalina não reduziu a dor da ciática mais do que o placebo, e ainda causou mais tontura. Por isso ela não é o tratamento de rotina da ciática, cujo manejo é conservador e multimodal. Veja a dor ciática.
Quanto tempo a pregabalina leva para fazer efeito?
Como a dose é aumentada aos poucos, o efeito costuma se construir ao longo de uma a algumas semanas, à medida que se chega à dose adequada. A avaliação do benefício é feita após esse período, e a falta de resposta é motivo para reavaliar a indicação, não para insistir.
Pregabalina engorda?
O ganho de peso é um efeito colateral conhecido, assim como o edema (inchaço de pés e tornozelos). Nem todos os apresentam, mas vale acompanhar o peso durante o uso e relatar inchaço ao médico, que pode ajustar a conduta.
Qual a diferença entre pregabalina e gabapentina?
As duas são gabapentinoides e agem no mesmo alvo, a subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio, na dor neuropática. Diferem na o modo como o corpo processa o remédio: a pregabalina tem absorção mais previsível e linear. A escolha entre elas depende do quadro, da tolerância, da função renal e da avaliação médica.
Idoso pode tomar pregabalina?
Pode, com cautela. Idosos são mais sensíveis à sonolência, à tontura e ao risco de quedas, e a função renal costuma estar reduzida, o que exige doses menores e ajuste cuidadoso. A indicação e a dose cabem ao médico.
Pregabalina trata hérnia de disco?
Ela não trata a hérnia nem corrige a compressão, e mesmo a dor neuropática que a hérnia pode causar tem evidência fraca de resposta ao remédio, como mostrou o estudo na ciática. O tratamento da causa é conservador e multimodal, com exercício na base. Veja a dor lombar.
Pregabalina é anti-inflamatório?
Não. A pregabalina é um neuromodulador da classe dos gabapentinoides, que age na liberação de neurotransmissores da dor pelo nervo, e não na inflamação. Por isso não substitui um anti-inflamatório e não age na dor mecânica comum da coluna.
Posso parar de tomar pregabalina de uma vez?
Não. A interrupção abrupta pode causar síndrome de descontinuação, com insônia, ansiedade, náusea, sudorese e dor de cabeça. A suspensão é feita com desmame gradual da dose, ao longo de pelo menos uma a duas semanas, sempre orientado pelo médico assistente.
Pregabalina causa dependência?
Há potencial de uso indevido e de dependência, sobretudo em doses altas ou em quem tem história de dependência de substâncias, o que levou os gabapentinoides a controle especial em vários contextos. Por isso o uso é orientado, com dose e prazo definidos, e a suspensão é feita com desmame, nunca de forma abrupta nem por conta própria.
Para que serve a pregabalina de 75 mg?
A apresentação de 75 mg é apenas uma das doses disponíveis e costuma ser usada no início do tratamento, dentro da titulação gradual. A dose total, o número de tomadas e os ajustes dependem do quadro, da função renal e da resposta, e são definidos pelo médico.
Posso dirigir tomando pregabalina?
Enquanto houver sonolência ou tontura, em especial no início e quando a dose sobe, dirigir ou operar máquinas fica desaconselhado, e o álcool e outros sedativos pioram o quadro. A titulação lenta ajuda a tolerar melhor o medicamento.
Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Decidir se a pregabalina tem ou não lugar numa dor de coluna depende de caracterizar a dor, e essa indicação é individualizada caso a caso. O início, a dose, o ajuste pela função renal e, sobretudo, o desmame da pregabalina devem ser feitos exclusivamente pelo médico assistente, nunca de forma abrupta nem por conta própria.

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