O estresse pode agravar suas dores?
Sim, e por uma via concreta no corpo: o estresse mantém o músculo em guarda, eleva o arousal simpático, sensibiliza o sistema nervoso e fragmenta o sono. Como o elo é fisiológico, manejar o estresse é tratamento de dor, e não um conselho à parte.
- O estresse e a ansiedade amplificam quase qualquer dor e, em algumas pessoas, geram dor muscular sem lesão: a guarda muscular sustentada, o arousal simpático e a sensibilização central baixam o limiar de dor.
- O elo é de mão dupla. O estresse piora a dor; a dor é, ela própria, um estressor; e a noite mal dormida deixa o corpo mais dolorido no dia seguinte, fechando uma alça que se reforça sozinha.
- Por ser fisiológico, manejar o estresse conta como tratamento de dor: respiração e relaxamento, sono, exercício regular, pacing, apoio social e, quando indicado, terapia psicológica (TCC, ACT, mindfulness) e tratamento da tensão miofascial que o estresse produz.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Estresse e ansiedade causam dores musculares?
A frase que mais ouço no consultório é uma pergunta cautelosa: “doutor, será que é o estresse, ou estou inventando?”. A fisiologia da dor responde com firmeza e sem desdém: o estresse é um modulador potente e mensurável da nocicepção. A dor que ele amplifica tem endereço no músculo, no sistema nervoso autônomo e na medula espinhal, e nada disso depende de imaginação.
A dor nunca é a leitura crua de uma lesão no tecido. Ela é a conclusão a que o sistema nervoso chega depois de somar o sinal que vem da periferia ao estado emocional, ao sono, à atenção e à memória de dor da pessoa. É por isso que o mesmo estímulo dói mais num dia tenso e menos num dia tranquilo.
Na maioria dos casos o estresse não cria a dor a partir do nada; ele sobe o volume com que ela é sentida. Em parte das pessoas, porém, a tensão sustentada chega a produzir dor muscular difusa mesmo sem uma lesão que se possa apontar.
Vale separar dois termos que se confundem. O estresse é a resposta do organismo a uma demanda, com ativação do sistema de luta ou fuga. A ansiedade é a antecipação apreensiva de uma ameaça, muitas vezes sem perigo concreto à frente.
Os dois acionam vias quase idênticas no corpo, elevam a tensão muscular e aumentam a sensibilidade à dor. Por isso, quem procura por estresse e ansiedade causa dores musculares está descrevendo, na prática, o mesmo eixo neurofisiológico.
“Se a dor piora quando estou estressado, então não é dor de verdade, é só da minha cabeça.”
A dor modulada pelo estresse é tão real quanto qualquer outra. O estresse altera a química do músculo, o eixo do cortisol e o processamento na medula. Essas mudanças são fisiológicas; chamá-las de imaginárias é um erro técnico, não uma gentileza.

Como o estresse agrava a dor: o mecanismo
São cinco engrenagens que se encaixam. Nenhuma age sozinha: cada uma alimenta a seguinte, e é essa convergência que torna a dor associada ao estresse tão teimosa quando ninguém a trata de frente.
1. Guarda muscular sustentada
A resposta de luta ou fuga contrai a musculatura para a ação. Sob estresse contínuo, músculos como o trapézio superior, os paravertebrais, os mastigatórios (masseter e temporal) e os suboccipitais ficam parcialmente contraídos por horas, mesmo em repouso, num padrão de guarda que a pessoa nem percebe que mantém. Essa contração mantida reduz o fluxo sanguíneo local, acumula metabólitos e favorece pontos-gatilho miofasciais, bandas tensas que doem ao toque e referem dor à distância. É o substrato concreto da dor de estresse na nuca, nos ombros, na mandíbula e na cabeça, e a explicação de por que a ansiedade causa dores musculares em tanta gente.
2. Arousal simpático e hormônios do estresse
O estresse ativa o ramo simpático do sistema nervoso autônomo, o estado de prontidão que acelera o coração, prende a respiração e mantém o corpo “ligado”. Em paralelo, o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal libera cortisol, que em picos curtos é anti-inflamatório e adaptativo. O problema é a ativação crônica: quando o estresse não cede, o cortisol perde seu ritmo normal ao longo do dia e seu efeito de freio sobre a inflamação se desgasta. O resultado é arousal simpático que não baixa somado a inflamação de baixo grau, um ambiente bioquímico que favorece a dor difusa e a fadiga.
3. Sensibilização central
Este é o mecanismo decisivo na dor crônica. Quando o sistema nervoso é bombardeado por estresse e dor por tempo prolongado, ele fica mais eficiente em conduzir e amplificar sinais dolorosos, fenômeno chamado de sensibilização central: o mesmo estímulo passa a doer mais porque o limiar de dor caiu. As vias inibitórias descendentes, que normalmente abafam a dor, perdem eficácia; o ganho do sistema sobe.
A consequência clínica é a alodínia (dor a um estímulo que não deveria doer, como o toque da roupa) e a hiperalgesia (dor desproporcional ao estímulo). É o terreno comum da fibromialgia e de boa parte das dores crônicas amplificadas pelo estado emocional.
4. Sono fragmentado e inflamação de baixo grau
O estresse e a ansiedade dificultam iniciar e manter o sono, e o sono ruim é um amplificador independente da dor. Noites fragmentadas reduzem o sono profundo, restaurador, e estudos experimentais mostram que privar o sono baixa o limiar de dor já no dia seguinte e eleva marcadores inflamatórios. Aqui se fecha o elo central da alça: dor que rouba o sono, sono ruim que aumenta a dor, inflamação de baixo grau que sustenta os dois.
5. A dor como estressor: a alça se fecha
Falta o fechamento do circuito, e é o ponto que muda a forma de tratar. A dor persistente não é apenas consequência do estresse; ela é, por si só, um estressor. Doer todos os dias ativa as mesmas vias de ameaça, gera medo do movimento, isolamento e foco na dor, alimentando novo estresse.
Esse padrão de medo-evitação é um dos motores mais bem descritos da cronificação. Por isso o quadro deixa de ter uma causa única e passa a ser uma alça que se reforça: estresse, guarda muscular, sensibilização, sono ruim e dor, cada elo realimentando o anterior.
O estresse não precisa de uma lesão nova para piorar a dor: basta manter o músculo em guarda, o simpático ligado, o sistema nervoso sensibilizado e o sono picado, com a própria dor realimentando o estresse. Quebrar qualquer um desses elos já alivia o conjunto.
A alça estresse-dor que se reforça sozinha
Na prática clínica, essas engrenagens se organizam num círculo que a pessoa reconhece de imediato quando o descrevo no quadro. O estresse aumenta a guarda muscular e a sensibilidade à dor; a dor incomoda mais à noite e atrapalha o sono; a privação de sono baixa ainda mais o limiar de dor e reduz a tolerância ao estresse no dia seguinte; e a dor diária, agora um estressor, realimenta a tensão. A roda gira sozinha, e cada volta a deixa mais fácil de girar.
Estresse e guarda muscular
A musculatura entra em guarda, o simpático não desliga e o sistema nervoso fica em alerta, baixando o limiar de dor.
Dor que estressa de volta
A dor amplificada rouba o sono e, por doer todo dia, vira ela mesma um estressor, reativando a guarda e fechando o círculo.
Entender que se trata de uma alça, e não de uma causa isolada, muda toda a estratégia. Atacar só a dor com analgésico, só a ansiedade com remédio ou só o sono com indutor tende a frustrar, porque os elos se reforçam. O tratamento que funciona entra em mais de um ponto do círculo ao mesmo tempo. É a mesma lógica que descrevo em ansiedade dá dor no corpo e em a dor psicogênica é real: o componente emocional faz parte do diagnóstico e o confirma, em vez de invalidá-lo.
Manejar o estresse é tratamento de dor, não um conselho à parte
O estresse piora a dor por biologia, não por imaginação. Guarda muscular, arousal simpático, sensibilização central e sono fragmentado são mecanismos verificáveis, e é exatamente por isso que manejar o estresse é um tratamento de dor legítimo, e não um modo de sugerir que a dor não existe.
Essa distinção tem consequência prática. Quando explico que respiração, sono, exercício e, em alguns casos, terapia psicológica agem sobre as mesmas vias que amplificam a dor, o conselho deixa de parecer um “vá viver melhor” vago e passa a ser uma prescrição com alvo fisiológico, no mesmo plano de uma agulha num ponto-gatilho ou de um fármaco de ação central. Validar a dor e tratar o estresse não são caminhos opostos; são a mesma intervenção lida pelos dois lados.
“Manejar o estresse” não é um eufemismo para “a dor está na sua cabeça”. É agir sobre a biologia que baixa o seu limiar de dor. Por isso a técnica de respiração, a noite bem dormida e a sessão de terapia entram na mesma prescrição que a agulha e o remédio.
Como reconhecer a dor agravada pelo estresse
Não existe exame que diga “esta dor é do estresse”. O reconhecimento é clínico e parte de um padrão que se repete. A dor é difusa ou migra de lugar, varia muito com o estado emocional e com as noites de sono, concentra-se em regiões de tensão (nuca, trapézio, mandíbula, lombar) e vem acompanhada de sinais de hiperativação: peito apertado, fôlego curto, irritabilidade, mente acelerada. Costuma piorar ao fim de um dia tenso e ceder em períodos de folga ou férias.
- Minha dor piora visivelmente nos períodos de estresse ou ansiedade.
- Acordo cansado e mais dolorido depois de noites mal dormidas.
- Sinto o pescoço, os ombros ou a mandíbula tensos a maior parte do tempo.
- A dor muda de lugar ou é difusa, sem uma lesão que a explique sozinha.
- Percebo que a própria dor me deixa mais ansioso, e isso parece piorar a dor.
Identificar-se com vários itens sugere um componente de estresse relevante na sua dor.
Esse reconhecimento não dispensa o cuidado de afastar outras causas. Toda dor nova, intensa, progressiva ou acompanhada de sinais de alarme merece avaliação para excluir uma doença de base antes de atribuí-la ao estresse. Creditar tudo ao emocional cedo demais é um erro tão grave quanto ignorar o emocional.
Procure avaliação médica se houver
- Dor torácica ou no braço com falta de ar, suor frio ou náusea, que pode indicar causa cardíaca e é uma emergência.
- Febre, perda de peso sem explicação ou história de câncer.
- Déficit neurológico: fraqueza, dormência progressiva, alteração da fala ou da visão.
- Dor após trauma, ou dor que acorda à noite e não alivia com o repouso.
- Dor localizada, fixa e progressiva, diferente do padrão difuso e variável do estresse.
Para orientar essa distinção, vale comparar o comportamento típico da dor amplificada pelo estresse com o de outras origens comuns. Nenhum traço isolado fecha o diagnóstico, mas o conjunto costuma apontar a direção, sempre confirmado pela história e pelo exame.
| Origem | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Agravada pelo estresse / ansiedade | Dor difusa ou migratória, em regiões de tensão | Varia com o estado emocional e com o sono; melhora em folga e férias |
| Miofascial (pontos-gatilho) | Dor em banda muscular tensa, com dor referida | Reproduz à palpação do ponto-gatilho no trapézio, na nuca ou nos paravertebrais |
| Fibromialgia | Dor generalizada crônica, com fadiga e sono não-reparador | Dor em múltiplos pontos por meses; critérios diagnósticos próprios |
| Radicular (compressão de nervo) | Dor que desce por um membro em trajeto de nervo | Formigamento ou fraqueza no trajeto; não varia com o humor |
| Inflamatória / sistêmica | Dor fixa, com rigidez matinal, inchaço ou febre | Sinais objetivos e laboratoriais; padrão não emocional |
Manejar o estresse como tratamento de dor
Como o elo é fisiológico, o manejo do estresse deixa de ser um conselho à parte e entra no plano como tratamento de dor. A abordagem é multimodal, individualizada e não-cirúrgica, e ataca a alça em vários pontos ao mesmo tempo. A base é ativa, com exercício e regulação do estresse; o trabalho do componente muscular trata a tensão miofascial que o estresse produz; a higiene do sono fecha o elo da insônia; a terapia psicológica entra quando a relação com a dor precisa ser retrabalhada; e os fármacos de ação central somam como adjuvantes quando indicados. A meta é reduzir a tradução do estresse em dor e devolver função, sabendo que zerar o estresse da vida seria irreal.
Entender a alça e voltar a se mover
Compreender o circuito estresse-dor, retomar o movimento aos poucos e desfazer o medo-evitação já reduzem a amplificação da dor.
Exercício, respiração e sono
O trio que regula o estresse: exercício regular como base, técnicas de respiração e relaxamento e higiene do sono estruturada.
Tratar o componente miofascial
Agulhamento seco e infiltração dos pontos-gatilho gerados pela guarda muscular, com acupuntura médica para neuromodular a dor e o arousal.
Terapia e fármacos quando indicado
Apoio psicológico (TCC, ACT, mindfulness) e, em casos selecionados, fármacos de ação central definidos pelo médico.
Exercício regular e pacing: a base reguladora
O exercício é a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança, e age em quase todos os elos da alça ao mesmo tempo. Pelo mecanismo, a atividade física regular reduz a reatividade do simpático e do eixo do cortisol ao estresse, melhora o humor, aprofunda o sono e, sobretudo, ativa as vias inibitórias descendentes da dor, efeito conhecido como analgesia induzida pelo exercício. Ainda dessensibiliza o sistema ao movimento, desfazendo o medo de se mexer. Não é preciso treino intenso: atividade aeróbica leve a moderada e regular, com fortalecimento progressivo, já produz efeito.
O segredo prático é o pacing, dosar o esforço por cota e não pela dor do dia, para não alternar entre exageros e recaídas. A melhora é gradual, ao longo de semanas, e a carga sobe devagar para não disparar crises no início. Na clínica, a reabilitação é individualizada, um paciente por sala, com ajuste de carga ao caso.
Respiração, relaxamento e apoio social
Se o estresse é o gatilho, trabalhar diretamente a resposta ao estresse é tratar a dor na origem. As técnicas de respiração diafragmática e o relaxamento muscular progressivo ativam o ramo parassimpático e reduzem, em minutos, o arousal simpático, a guarda muscular e a frequência cardíaca, servindo de ferramenta de uso imediato nos picos de tensão. O apoio social não é detalhe sentimental: a percepção de estar amparado reduz a resposta de estresse e melhora o enfrentamento da dor, ao passo que o isolamento a piora. Orientar pausas regulares ao longo do dia, micro-intervalos para soltar ombros e mandíbula e a manutenção de vínculos fazem parte do plano, com o mesmo peso das demais medidas.
Terapia psicológica: TCC, ACT e mindfulness
Quando a dor já reorganizou a vida em torno do medo, a abordagem psicológica é a intervenção com melhor evidência. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), conduzida por psicólogo, trabalha as crenças sobre a dor, desfaz o ciclo de medo-evitação e devolve à pessoa um senso de controle. A terapia de aceitação e compromisso (ACT) muda o objetivo: em vez de lutar contra cada sensação, ajuda a pessoa a retomar o que importa mesmo com algum nível de dor, reduzindo o sofrimento ligado a ela. O mindfulness (atenção plena) altera a forma como o cérebro processa a dor, reduzindo a reatividade emocional ao sintoma e a catastrofização, com evidência de benefício na dor crônica.
O que esperar é uma mudança na relação com a dor, com menos sofrimento e incapacidade, ainda que parte da dor persista. Nada disso implica que a dor seja psicológica; significa usar o cérebro, que processa a dor, a favor de quem dói.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
A acupuntura médica é particularmente adequada à dor associada ao estresse porque mira dois alvos ao mesmo tempo: a dor e a hiperativação. O mecanismo envolve a modulação segmentar no corno dorsal da medula (teoria da comporta), a ativação das vias inibitórias descendentes e a liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Há ainda um efeito de regulação autonômica que ajuda a baixar o arousal simpático e favorece o sono, justamente o que costuma estar travado nesses quadros. A evidência é moderada para dor cervical crônica, lombalgia e cefaleia, recomendada por diretrizes em contextos selecionados.
Em vez de um número fixo de sessões, o que oriento é um ciclo curto inicial com reavaliação ao fim dele, mantido apenas se o alívio se mostrar progressivo e cumulativo, e revisto quando isso não acontece. É uma opção valiosa quando se busca reduzir o uso de medicação. Na clínica, é conduzida por médicos com formação específica em acupuntura.
Agulhamento seco e infiltração do componente miofascial
A guarda muscular sustentada deixa pontos-gatilho que precisam ser tratados onde eles estão. No agulhamento seco (dry needling), a agulha fina alcança o ponto-gatilho na banda tensa, no trapézio, na nuca ou no masseter, e busca a resposta de contração local, um espasmo breve que reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a liberação local de substâncias que sustentam a dor, com efeito analgésico local e segmentar. Quando o ponto resiste, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) relaxa a banda e interrompe o ciclo dor-espasmo-dor, abrindo janela para o exercício.
Aqui vale a sinceridade sobre o tempo de resposta: em alguns pacientes o alívio vem na própria sessão, em outros aparece ao longo dos dias seguintes, e uma dor leve no local por um ou dois dias é esperada. É um recurso direto para a tensão miofascial que o estresse fabrica nos ombros, na nuca e na mandíbula, e funciona melhor combinado às medidas que baixam o estresse, sem o qual os pontos tendem a voltar.
Agulhamento seco
A tensão miofascial gerada pelo estresse não é “tensão imaginária”: é uma banda muscular com pontos-gatilho reais.
Ver referências →Higiene do sono
Tratar o sono é tratar a dor, porque o sono fragmentado é um elo central da alça. A higiene do sono estrutura hábitos que favorecem adormecer e manter o sono: horário regular para deitar e levantar, quarto escuro e silencioso, menos telas e cafeína no fim do dia, e o uso da cama apenas para dormir. Quando a insônia é persistente, a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) é o tratamento de primeira linha, com evidência superior à do uso prolongado de medicação. O que esperar é uma melhora progressiva da qualidade do sono que se reflete, em paralelo, na intensidade da dor diurna.
Fármacos de ação central, quando indicado
A medicação tem papel adjuvante e não dispensa a base ativa. Na dor crônica amplificada pelo estresse e com sono ruim, os fármacos mais úteis são os de ação central, que atuam justamente nas vias da sensibilização e do humor. Antidepressivos em dose baixa, como a amitriptilina ou a nortriptilina (tricíclicos), podem reduzir a dor e melhorar o sono; a duloxetina tem evidência em dor crônica e em quadros com ansiedade ou depressão associadas; os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) podem ser considerados em componentes específicos. Os analgésicos simples e anti-inflamatórios têm papel limitado neste tipo de dor; os relaxantes musculares, papel pontual e sedativo.
A escolha do fármaco, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente, com atenção a efeitos adversos e comorbidades. A escolha racional dos medicamentos para dor está detalhada no guia de remédios para dor.
Controle inicial
Entender a alça, retomar o movimento aos poucos, técnicas de respiração e ajuste da higiene do sono.
Progressão
Exercício e respiração consolidados, tratamento do componente miofascial; a dor e a guarda muscular costumam começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e ajusta-se o plano, considerando apoio psicológico e fármacos de ação central.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a qualidade do sono e o grau de incapacidade nas atividades do dia a dia. A meta é reduzir a dor a um nível que não limite a vida e devolver função e sono.
Da prática clínica
Algumas impressões recorrentes de quem atende dor amplificada pelo estresse:
- A guarda muscular costuma estar escondida à vista. Muitos pacientes só percebem o quanto seguram o trapézio e cerram a mandíbula quando eu peço para soltar e eles sentem a diferença, ou quando relatam acordar com a mandíbula cansada de apertar à noite.
- A alça que mais surpreende é a dor estressando de volta. Quando explico que a dor diária funciona como um estressor que realimenta a tensão, é comum a pessoa reconhecer ali, em voz alta, por que “tudo piorou junto” sem uma lesão nova.
- Tratar o estresse soa, no começo, como se eu estivesse dizendo que a dor é da cabeça. Quando mostro que respiração, sono e exercício agem nas mesmas vias que baixam o limiar de dor, o alívio costuma ser tanto de dor quanto de sentir a queixa finalmente levada a sério.
- O componente miofascial responde melhor quando o estresse também é trabalhado. Agulhar um ponto-gatilho no trapézio alivia, mas, sem mexer no sono e no arousal, ele tende a voltar; o ganho que se sustenta vem de combinar agulha, respiração, sono e, quando indicado, terapia.
- O que mais alivia o paciente, antes de qualquer técnica, é a validação. Ouvir que a dor é real e tem mecanismo costuma reduzir a ansiedade em torno dela e, com isso, parte da própria dor.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
A dor causada por estresse e ansiedade é uma dor real?
Sim. O estresse e a ansiedade mantêm a musculatura em guarda por horas, elevam o arousal simpático e sensibilizam o sistema nervoso, o que baixa o limiar de dor e pode gerar dores musculares difusas mesmo sem lesão. É uma dor de origem fisiológica, não imaginária. Por isso o alvo do tratamento é a alça estresse-dor-sono, com o músculo como uma das engrenagens.
Se a dor melhora quando eu relaxo, ela é psicológica?
Não. Que a dor responda ao relaxamento é sinal de que o estresse a estava amplificando por vias concretas (guarda muscular, simpático, sensibilização), e não de que ela seja inventada. Tratar o estresse age sobre essa biologia. Manejar o estresse é tratamento de dor, com o mesmo estatuto de uma agulha num ponto-gatilho ou de um fármaco de ação central.
O que é a “dor de estresse” e onde ela costuma aparecer?
É a dor que se intensifica ou surge em períodos de tensão. Concentra-se nas regiões que entram em guarda pela resposta de estresse: nuca, trapézio (ombros), mandíbula e região lombar, muitas vezes com dor de cabeça associada. Tende a variar com o estado emocional e com a qualidade do sono.
Por que a dor piora à noite ou quando durmo mal?
Porque o sono fragmentado é um amplificador independente da dor: a privação de sono baixa o limiar de dor no dia seguinte e eleva a inflamação de baixo grau. Forma-se uma alça em que a dor atrapalha o sono e o sono ruim aumenta a dor. Tratar o sono, com higiene do sono e, se necessário, terapia para insônia, é parte central do tratamento.
A ansiedade pode causar dor muscular mesmo sem eu perceber que estou ansioso?
Pode. A guarda muscular e o arousal simpático muitas vezes ocorrem sem que a pessoa identifique a ansiedade de forma consciente; o corpo expressa pela dor o que a mente não nomeou. Por isso a dor muscular persistente e difusa, sobretudo com sono ruim e fadiga, merece avaliação que considere o componente emocional, depois de afastar outras causas. O receio em torno da ansiedade e da dor muscular costuma diminuir quando a pessoa entende o mecanismo e vê a dor responder ao tratamento da alça.
Preciso tomar remédio para tratar a dor causada pelo estresse?
Nem sempre. A base do tratamento é não-medicamentosa: exercício, respiração e relaxamento, sono, tratamento do componente miofascial e, quando indicado, terapia psicológica. Os fármacos de ação central, como antidepressivos em dose baixa, entram como adjuvantes em casos selecionados, sempre com indicação médica. A escolha, a dose e a duração cabem ao médico assistente.
Qual a diferença entre dor por estresse e fibromialgia?
Há sobreposição de mecanismos, sobretudo a sensibilização central, mas são quadros distintos. A fibromialgia é uma síndrome de dor crônica generalizada, com pontos dolorosos, fadiga e sono não-reparador, com critérios diagnósticos próprios. A dor por estresse pode ser mais circunscrita e variável. Veja a página sobre fibromialgia para o detalhamento.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Davis et al. Chronic Pain, Stress, and the Dynamics of Affective Differentiation. Journal of Personality. 2004. doi:10.1111/j.1467-6494.2004.00293.x.
- Veehof MM; Trompetter HR; Bohlmeijer ET; Schreurs KM. Acceptance- and mindfulness-based interventions for the treatment of chronic pain: a meta-analytic review. Cognitive behaviour therapy. 2016. doi:10.1080/16506073.2015.1098724. PMID:26818413.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Manejar o estresse é parte do tratamento da dor, e reconhecer o componente de estresse não significa que a dor seja imaginária. O peso de cada engrenagem da alça estresse-dor muda de pessoa para pessoa, então o plano só faz sentido individualizado após consulta.
