Tendinite calcária do ombro
A tendinite calcária é o depósito de cálcio em um tendão do manguito rotador, quase sempre o supraespinhal, e a fase de reabsorção costuma ser a mais dolorosa.
- A tendinite calcária é um depósito de cálcio dentro de um tendão do manguito rotador, em geral o supraespinhal; não é a calcificação de uma estrutura desgastada, mas um processo próprio.
- Ela passa por fases. A dor mais intensa, em crise, costuma surgir na fase de reabsorção, justamente quando o corpo começa a dissolver o cálcio.
- O tratamento é multimodal e não-cirúrgico. As ondas de choque têm boa evidência aqui, somadas a barbotage guiada, infiltração e reabilitação.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é e por que o cálcio se deposita
A tendinite calcária não é o mesmo que um tendão gasto que endureceu. É a formação ativa de um depósito de cálcio dentro de um tendão saudável, um processo com começo, meio e fim próprios.
O depósito é feito de cristais de hidroxiapatita de cálcio, o mesmo mineral do osso, acumulado dentro da substância do tendão. O alvo preferencial é o tendão do supraespinhal, em uma zona a cerca de 1 a 2 centímetros da sua inserção no tubérculo maior do úmero. Com menos frequência, o depósito aparece no infraespinhal ou no subescapular. É uma causa frequente de dor no ombro em adultos entre 30 e 60 anos, com leve predomínio em mulheres, e pode existir nos dois ombros.
O ponto que mais confunde é que a tendinite calcária se distingue da tendinopatia degenerativa do supraespinhal. Na tendinopatia degenerativa, o tendão sofre com sobrecarga e desgaste ao longo dos anos. Na calcária, o tendão de base costuma estar íntegro, e o problema é o depósito que se forma, amadurece e depois é reabsorvido. Por isso ela atinge gente mais jovem e ativa, e tem uma história natural que, na maioria dos casos, caminha para a resolução.
A causa exata ainda é estudada. A hipótese mais aceita é a de uma metaplasia fibrocartilaginosa: parte das células do tendão muda de comportamento, passa a se comportar como cartilagem e cria um ambiente que favorece a deposição de cálcio, possivelmente em resposta a uma redução local de oxigenação. Há associação com distúrbios metabólicos e endócrinos, como alterações da tireoide e diabetes, o que ajuda a explicar por que nem sempre se trata de uma lesão por esforço.
“Tenho cálcio no ombro, então o tendão está gasto e vai romper.”
O depósito de cálcio da tendinite calcária se forma em um tendão geralmente íntegro e tende a ser reabsorvido pelo próprio corpo. É um quadro diferente da ruptura do manguito, e a maioria dos casos responde a tratamento não-cirúrgico.
As fases: por que a reabsorção dói tanto
Entender as fases é o que explica o comportamento tão variável da dor. O modelo clássico descreve um ciclo, e o sintoma muda conforme o ponto desse ciclo em que o ombro se encontra. Saber em que fase o paciente está orienta tanto a expectativa quanto a escolha do tratamento.
- Fase de formação (pré-calcificação e calcificação)
As células do tendão depositam o cálcio aos poucos. O depósito é denso e bem delimitado. Aqui a dor costuma ser leve ou intermitente, ligada a certos movimentos; muita gente nem sabe que tem o depósito, achado por acaso em um exame.
- Fase de repouso
O depósito está estável e silencioso. Pode permanecer assim por meses ou anos, sem dor relevante. É possível conviver com o cálcio sem sintoma significativo durante esse período.
- Fase de reabsorção
O corpo reconhece o depósito e envia vasos e células de defesa para dissolvê-lo. O cálcio fica pastoso, como creme dental, e a pressão dentro do tendão aumenta. É a fase mais dolorosa: dor aguda, intensa, que pode surgir de repente e limitar muito o movimento. Paradoxalmente, é também a fase em que o ombro está se curando.
- Fase de reparo (pós-cálcio)
Reabsorvido o depósito, o tecido do tendão é remodelado e a dor cede de forma progressiva. O ombro tende a recuperar a função.
A chave está na fase de reabsorção. Quando o cálcio passa de denso a pastoso, ele pode aumentar de volume e elevar a pressão no interior do tendão, e parte do material pode escapar para a bursa subacromial, desencadeando uma reação inflamatória aguda. É a chamada crise hiperálgica: uma dor que muitos descrevem como uma das piores do corpo, com o braço praticamente travado. Por isso, uma dor súbita e violenta no ombro de quem tem cálcio costuma ser um bom sinal de fundo, ainda que sofrido: indica que a reabsorção começou.
Quando o cálcio rompe para dentro da bursa, o quadro se sobrepõe ao de uma bursite subacromial aguda. A dor é desproporcional ao exame, o paciente protege o braço junto ao corpo e qualquer tentativa de elevação é mal tolerada. Reconhecer que isso é reabsorção, e não uma piora da doença, muda a conversa sobre prognóstico.
Sintomas e diagnóstico por imagem
O sintoma principal é a dor no ombro, mas o seu caráter depende da fase. Pode ser uma dor crônica e surda, que piora ao elevar o braço acima da cabeça e ao deitar sobre o lado afetado e atrapalha o sono, semelhante à de outras causas de dor do manguito. Ou pode ser a dor aguda e incapacitante da crise de reabsorção. Um arco doloroso entre cerca de 60 e 120 graus de elevação é comum, e a força costuma estar preservada, o que ajuda a diferenciar de uma ruptura.
O diagnóstico se confirma na imagem, e aqui ela tem papel central, ao contrário de outras dores do ombro em que se evita pedir exame cedo. A radiografia simples costuma ser o primeiro passo e mostra bem o depósito; incidências em rotação interna e externa ajudam a localizá-lo no tendão. A aparência do depósito orienta a fase: um depósito denso, nítido e de contornos definidos sugere fase de formação ou repouso; um depósito com aspecto nebuloso, esmaecido e de contornos mal definidos sugere reabsorção.
A ultrassonografia é muito útil porque mostra o depósito em tempo real, avalia o tendão ao redor, detecta a reação na bursa e permite guiar procedimentos como a barbotage e a infiltração. A ressonância magnética não é necessária para o diagnóstico do cálcio em si, mas é solicitada quando se quer avaliar o estado do manguito, descartar uma ruptura associada ou esclarecer um quadro atípico. Vale lembrar que um depósito visto na imagem nem sempre é a causa da dor: o achado precisa fazer sentido com a história e o exame.
| Quadro | Pista que diferencia |
|---|---|
| Tendinite calcária | Depósito de cálcio na radiografia ou no ultrassom; pode cursar com crise de dor súbita e muito intensa na reabsorção; força costuma preservada |
| Tendinopatia do supraespinhal | Dor por sobrecarga ou desgaste, sem depósito de cálcio; instala-se de forma mais gradual |
| Bursite subacromial | Dor à compressão subacromial; pode ser desencadeada pela ruptura do cálcio para a bursa, somando-se à calcária |
| Ruptura do manguito | Perda de força para elevar ou rodar o braço; manobras específicas alteradas; mais comum após os 50 anos |
| Capsulite adesiva | Perda de mobilidade passiva, não só ativa; ombro que “congela” em todas as direções |
A distinção importa porque o caminho de tratamento muda. Boa parte das dores do ombro tem origem no manguito; a página sobre a síndrome do manguito rotador reúne o exame completo e os diagnósticos diferenciais. A tendinite calcária se destaca desse grupo por ter um alvo de tratamento muito concreto: o próprio depósito de cálcio.
Sinais de alerta
A tendinite calcária é benigna na imensa maioria dos casos. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, seja para tratar uma crise de dor, seja para afastar outras causas de dor no ombro.
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor súbita e muito intensa no ombro, com o braço quase travado, sem melhora com analgésico comum.
- Febre associada à dor e ao calor no ombro, que pode sugerir infecção.
- Perda importante de força para elevar ou girar o braço, e não apenas dor.
- Dor após trauma ou queda significativa sobre o ombro.
- Vermelhidão, inchaço e calor que se espalham para além da articulação.
- Dor no ombro acompanhada de dor no peito, falta de ar ou sudorese, que pede avaliação de urgência.
Uma crise de reabsorção, embora benigna, costuma justificar uma avaliação rápida pelo nível de dor e pela possibilidade de aliviar o quadro com procedimentos dirigidos. Febre com calor e vermelhidão exige descartar artrite séptica. Perda de força marcante levanta a hipótese de ruptura associada. Na ausência desses sinais, o quadro tende a ser conduzido de forma conservadora e a melhorar ao longo de semanas.
Caminho de tratamento
O tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado, e tem uma particularidade: aqui existe um alvo físico, o depósito de cálcio, que pode ser estimulado a reabsorver ou removido de forma dirigida. A escolha depende da fase, da intensidade da dor e da resposta. A base ativa é a reabilitação, e técnicas como as ondas de choque, a barbotage e a infiltração se somam a ela. O objetivo é controlar a dor, eliminar ou reduzir o depósito e devolver a função, evitando cirurgia.
Controle da dor e movimento
Analgesia adequada à fase, gelo na crise, ajuste das atividades acima da cabeça e retorno precoce ao movimento dentro do conforto; o repouso absoluto não é o objetivo.
Reabilitação e fisioterapia
Reeducação escapular e fortalecimento do manguito, para recuperar o ritmo do ombro e prevenir recorrência depois que o cálcio é tratado.
Ondas de choque
Recurso de destaque na calcária: estimula a fragmentação e a reabsorção do depósito e tem efeito analgésico, com boa evidência neste cenário.
Procedimentos guiados
Barbotage (lavagem percutânea do cálcio) e infiltração, guiadas por ultrassom, sobretudo quando a dor é intensa ou o depósito é grande e pastoso.
Ondas de choque: o destaque na calcária
As ondas de choque extracorpóreas são ondas acústicas de alta energia aplicadas sobre o tendão. O mecanismo combina mecanotransdução, com estímulo à fragmentação do depósito e à sua reabsorção, indução de neovascularização e um efeito analgésico direto. Na tendinite calcária do ombro, é uma das poucas situações em que as ondas de choque têm boa evidência, com benefício consistente sobre dor e função e redução, ou até desaparecimento, do depósito em parte dos casos. A energia mais alta tende a ser mais eficaz na reabsorção do que a mais baixa.
O tratamento costuma envolver um ciclo de cerca de 3 a 5 sessões semanais, e a melhora se constrói ao longo de semanas, não de um dia para o outro. Há desconforto durante a aplicação, ajustável pela energia, e a resposta é reavaliada ao fim do ciclo, com nova imagem quando indicado. As ondas de choque têm contraindicações específicas, e a indicação é sempre médica.
Esses números são parâmetros do tratamento da calcária: o tamanho do depósito, a fase em que ele está e a presença de reação na bursa mudam o ritmo, e por isso o ciclo de ondas de choque e a decisão de associar barbotage são individualizados caso a caso. A meta é tirar a dor do nível que trava o braço acima da cabeça e, sempre que possível, fragmentar ou eliminar o depósito; parte dos casos resolve pela reabsorção natural antes mesmo de se esgotar o arsenal.
A crise mais feroz, aquela que rouba o sono e faz o paciente ir à emergência, costuma ser o sinal de que o depósito entrou na fase de reabsorção e está, naquele exato momento, se dissolvendo. O pior da dor é, com frequência, o começo do fim. E como uma parcela relevante dos depósitos some sozinha, a urgência de “operar logo para tirar esse cálcio” raramente se justifica: na maioria dos casos, o tempo e as medidas dirigidas ao depósito jogam a favor, e a cirurgia fica para a minoria que realmente não reabsorve.
Barbotage, a lavagem percutânea guiada
A barbotage, também chamada de lavagem percutânea ou aspiração do cálcio guiada por ultrassom, é um procedimento em que se introduzem uma ou duas agulhas no depósito sob anestesia local. Injeta-se e aspira-se soro repetidamente para amolecer e retirar o cálcio, sobretudo quando ele está em fase de reabsorção e tem consistência pastosa. É particularmente útil em depósitos grandes ou em dor intensa que não cede. Costuma ser combinada com uma infiltração de anestésico e corticoide na bursa subacromial ao final, para aliviar a reação inflamatória.
O alívio pode ser rápido quando boa parte do cálcio é removida, embora nem todo depósito se deixe aspirar, e às vezes mais de uma sessão é necessária. Pode haver dor pós-procedimento por alguns dias, e o resultado é melhor quando o procedimento é seguido de reabilitação. É um recurso de plano, não uma solução isolada.
Algumas observações de consultório de quem chega com cálcio no ombro.
A primeira é o paradoxo da dor: quem chega na crise hiperálgica, sem dormir há dias e com o braço colado ao corpo, costuma estar no melhor momento do ponto de vista da doença, não no pior. Essa dor brutal quase sempre é a reabsorção em curso, e explicar isso muda a conversa de “preciso operar urgente” para “vamos controlar a dor enquanto o seu corpo termina de dissolver isso”.
A segunda é o quanto a história natural é generosa: parte dos depósitos que reaparecem na radiografia de controle simplesmente não está mais lá, ou diminuiu, mesmo sem procedimento dirigido. Isso reforça a paciência antes de partir para a cirurgia.
A terceira é a confusão recorrente com tendinopatia comum: o paciente, muitas vezes mais jovem e ativo do que o típico ombro desgastado, ouve que “rompeu o tendão” e chega assustado, quando o tendão de base costuma estar íntegro e o problema é o depósito. E o que mais surpreende é a barbotage devolver o sono em poucos dias quando o depósito está pastoso o bastante para ser aspirado.
Infiltração e bloqueio
A infiltração com anestésico local e, em situações selecionadas, corticoide na bursa subacromial controla a dor da crise inflamatória aguda, sobretudo quando o cálcio rompeu para a bursa. Ela não dissolve o depósito, mas quebra o ciclo de dor e abre uma janela para reabilitar. O bloqueio do nervo supraescapular é uma opção para dor intensa e refratária, interrompendo de forma temporária a condução nociceptiva. Ambos são recursos pontuais, integrados ao plano e guiados por imagem quando necessário, e o uso de corticoide é criterioso para não atrapalhar o tendão.
Reabilitação e fisioterapia: a base
A reabilitação ativa é a base que sustenta o resultado, em atendimento individual. O foco é a reeducação do ritmo escapuloumeral, a mobilidade do ombro dentro do conforto e o fortalecimento progressivo do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula. Na fase aguda, prioriza-se controle de dor e movimento sem agredir o tendão; depois que o cálcio é tratado, o fortalecimento reduz a sobrecarga e ajuda a prevenir recorrência. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e depende da regularidade.
Agulhamento seco, acupuntura e laser para o componente miofascial
Há um detalhe que vale separar com cuidado, porque é onde mais se confunde causa e consequência. Quando um ombro fica semanas protegido pela dor da calcária, a musculatura ao redor se sobrecarrega: o trapézio superior, o infraespinhal, o deltoide e o elevador da escápula desenvolvem pontos-gatilho que projetam dor para o braço e para a borda da escápula. Essa dor miofascial peri-escapular se soma à do depósito e, não raro, persiste depois que o cálcio já reabsorveu, mantendo o paciente com queixa mesmo com a radiografia limpando. É um alvo legítimo, mas separado do cálcio.
Agulhamento seco
A agulha na banda tensa busca a contração muscular reflexa que sinaliza o ponto-gatilho certo e desfaz o nó contrátil, aliviando a dor referida da cintura escapular.
Acupuntura médica
Conduzida por médico, soma a modulação central da dor a esse alívio local.
Laser de alta intensidade
Por fotobiomodulação, entra como adjuvante analgésico e anti-inflamatório no peri-ombro.
Nenhum desses recursos dissolve o cristal de hidroxiapatita: eles tratam a dor muscular que orbita o depósito e ajudam o paciente a se mexer enquanto as ondas de choque e a barbotage cuidam do cálcio em si.
Agulhamento seco com efeito analgésico duradouro na dor do ombro
Ensaio duplo-cego e controlado, conduzido pela nossa equipe no Grupo de Dor do HC-FMUSP, mostrou efeito analgésico do agulhamento seco mantido por sete dias na dor do ombro, com alívio significativo em cerca de 1 a cada 2 pessoas tratadas. Importa o que o estudo mostra e o que ele não mostra: ele apoia o agulhamento sobre os pontos-gatilho miofasciais do ombro, o overlay muscular que acompanha a tendinite calcária, e não sobre o depósito de cálcio, que tem alvos próprios. Pai MYB e cols., Pain Reports, 2021.
Ver referências →Medicação, papel adjuvante
Analgésicos e anti-inflamatórios por períodos curtos ajudam a controlar a dor, em especial na crise de reabsorção, e relaxantes musculares têm papel limitado. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção aos efeitos adversos e às comorbidades. A medicação alivia, mas não substitui as medidas que tratam o depósito e reabilitam o ombro.
Controle inicial
Aliviar a dor conforme a fase, iniciar o movimento dentro do conforto e, na crise intensa, considerar infiltração ou barbotage.
Reabsorção dirigida e reabilitação
Ciclo de ondas de choque e fortalecimento progressivo; a dor costuma ceder à medida que o depósito reduz.
Reavaliação
Nova imagem quando indicada e revisão do plano; sem a resposta esperada, discutem-se outras opções, incluindo, raramente, a cirurgia.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a amplitude de movimento, a força e escores funcionais do ombro, além do retorno às atividades e do controle por imagem. A cirurgia, com remoção artroscópica do depósito, fica reservada a uma minoria: dor persistente e incapacitante apesar de um tratamento bem conduzido por meses. A grande maioria não chega lá. A meta é reduzir a dor e recuperar a função, e a história natural da calcária, embora possa ser lenta, costuma jogar a favor.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa é o eixo que sustenta o resultado na tendinite calcária, sobretudo depois que o depósito é tratado. Ela não dissolve o cálcio, mas é o que recupera o ritmo do ombro, devolve força ao manguito e reduz a chance de recidiva da dor. As abordagens a seguir são conduzidas na clínica, individualizadas, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal com indicação médica.
Abandonar o repouso absoluto. Imobilizar o ombro favorece a rigidez e a perda de força do manguito; na crise de reabsorção o objetivo é controlar a dor e manter o movimento dentro do conforto, não travar o braço.
Progressão graduada de carga. Reintroduzir o esforço sobre o manguito e os estabilizadores da escápula de forma controlada e crescente, respeitando a fase da doença. A escolha entre as técnicas e a ordem de introdução dependem da fase, da intensidade da dor e da resposta de cada pessoa.
Cinesioterapia e fortalecimento do manguito
Exercício terapêutico individualizado, prescrito e progredido por fisioterapeuta. Recupera o ritmo escapuloumeral e fortalece os rotadores do manguito (supraespinhal, infraespinhal, redondo menor e subescapular) e os estabilizadores da escápula (trapézio inferior e médio, serrátil anterior), melhorando a centralização da cabeça do úmero e reduzindo o impacto subacromial. Progride do isométrico, mais tolerado na fase irritável, para o excêntrico e de resistência. É a base sobre a qual as demais técnicas e os procedimentos dirigidos ao cálcio se apoiam.
Reeducação Postural Global (RPG)
Fisioterapia que trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas. No ombro, reequilibra a cadeia da cintura escapular (peitoral menor, elevador da escápula, trapézio superior) e melhora a postura torácica, usando contração isométrica em posição alongada e controle respiratório para abrir espaço subacromial. Benefício sobre dor e flexibilidade comparável ao de outros programas de exercício, sem superioridade clara sobre eles.
Pilates clínico
Exercícios de controle, estabilização e respiração adaptados ao quadro, no solo ou em aparelhos com molas. Enfatiza a ativação da musculatura estabilizadora do tronco e da cintura escapular; o ganho de controle escapulotorácico melhora a base do movimento e reduz o impacto subacromial. Os aparelhos permitem trabalho em cadeia fechada com carga parcial, útil nas fases iniciais e na transição da fase dolorosa para o fortalecimento. Efeito semelhante ao de outras formas de exercício, sem superioridade demonstrada sobre a cinesioterapia.
Terapia manual
Mobilização articular e de tecidos moles da cintura escapular (glenoumeral e gradil torácico), como adjuvante para reduzir a dor e facilitar o exercício. Produz analgesia por mecanismos segmentares e descendentes e melhora transitoriamente a mobilidade, abrindo janela para a reabilitação ativa. Combinada ao exercício tem benefício; o efeito isolado sobre a dor é de curta duração.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia é parte legítima do cuidado da tendinite calcária, mas é claramente a exceção: a história natural caminha para a reabsorção, e o tratamento conservador bem conduzido, somado às medidas dirigidas ao depósito, resolve a grande maioria dos casos. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; o quadro abaixo mostra o que elas oferecem e em que momento encaminhar.
Conservador · 1ª escolha
Resolve a grande maioria
- Reabilitação ativa como eixo, antes e depois de qualquer procedimento.
- Ondas de choque para fragmentar e reabsorver o depósito.
- Barbotage guiada e infiltração na bursa subacromial para depósitos grandes ou dor intensa.
- A história natural tende à reabsorção: parte dos depósitos some sozinha, jogando a favor da paciência.
Cirúrgico · exceção (fora da clínica)
Minoria refratária
- Indicada só com dor persistente e incapacitante após meses de tratamento conservador bem conduzido, incluindo ondas de choque e barbotage, em depósito que não se reabsorve.
- Remoção artroscópica do depósito é o procedimento de referência.
- Reabilitação prolongada e riscos próprios: rigidez pós-operatória, infecção, dor residual.
- Operar cedo demais expõe a risco cirúrgico desnecessário em quadro que ainda responderia às medidas não cirúrgicas.
A cirurgia entra em discussão apenas quando há dor persistente e incapacitante apesar de tratamento conservador bem conduzido por vários meses, em um depósito que não se reabsorve. O procedimento de referência é a remoção artroscópica do depósito cálcico: por vídeo e pequenas incisões, o cirurgião localiza o cálcio, abre o tendão e remove o material, regularizando o leito quando necessário. A decisão sobre técnica, riscos e reabilitação cabe ao cirurgião de ombro que conduzirá o caso. O quadro abaixo resume quando cada caminho fora da clínica costuma ser considerado e o que esperar.
| Situação | Quando considerar | Procedimento e o que esperar |
|---|---|---|
| Depósito refratário e sintomático | Dor persistente e incapacitante após meses de tratamento conservador bem conduzido, incluindo ondas de choque e barbotage, sem reabsorção do cálcio | Remoção artroscópica do depósito; bons resultados sobre dor e função na maioria, com reabilitação de semanas a meses para recuperar mobilidade e força |
| Impacto subacromial associado | Sinais de conflito subacromial somados ao depósito, em paciente já operado do cálcio ou durante a artroscopia | Descompressão subacromial (acromioplastia) no mesmo tempo cirúrgico; recuperação integrada à da retirada do depósito |
| Ruptura do manguito associada | Defeito significativo do tendão após a remoção do cálcio, ou ruptura concomitante confirmada em imagem | Reparo do manguito rotador; reabilitação mais longa e protegida, conforme o tamanho e a qualidade do tendão |
A remoção artroscópica do depósito alivia a dor e melhora a função na maioria de quem realmente esgotou o tratamento conservador, mas é uma cirurgia com reabilitação prolongada e riscos próprios, e por isso é reservada à minoria refratária. A decisão é sempre compartilhada e individualizada, e o papel do cuidado de base é reconhecer o momento certo, explicar o que a cirurgia oferece e encaminhar a quem a executa, mantendo a reabilitação como eixo antes e depois de qualquer procedimento.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na tendinite calcária: ajuda a controlar a dor e a inflamação, sobretudo na crise de reabsorção, para que a reabilitação avance, mas não dissolve o depósito de cálcio nem substitui as medidas dirigidas a ele e o fortalecimento do manguito. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar e cautelas |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios não esteroidais (AINE) | Ibuprofeno, naproxeno ou diclofenaco, em ciclos curtos, para controlar a dor e a inflamação da crise de reabsorção, quando o cálcio amolece e irrita a bursa subacromial | Moderada | Não aceleram a reabsorção do depósito. Exigem cautela pelos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos e em quem tem comorbidades. |
| Analgésicos simples | Paracetamol para alívio da dor, útil em quem tem contraindicação aos anti-inflamatórios | Moderada | Perfil de segurança favorável dentro da dose recomendada. Atenção à dose total diária e à função hepática. |
| Infiltração subacromial de corticoide | Anestésico local com corticoide na bursa subacromial, recurso adjuvante para a crise inflamatória aguda, sobretudo quando o cálcio rompeu para a bursa | Moderada | Controla a dor e abre uma janela para reabilitar, mas não dissolve o depósito. Uso de corticoide criterioso e por tempo limitado, para não comprometer o tendão; procedimento médico indicado caso a caso. |
| Relaxantes musculares | Auxiliar em curtos períodos quando há contratura muscular reativa associada | Limitada | Papel limitado e secundário. A sonolência é o efeito adverso mais comum e limita o uso diurno. |
O que sustenta a prescrição
- Nenhuma medicação isolada trata a causa da tendinite calcária, e o uso prolongado de anti-inflamatórios sem reavaliação não é desejável.
- O melhor resultado vem da combinação criteriosa do controle da dor com as medidas dirigidas ao depósito e a reabilitação ativa.
Para entender melhor as classes e os cuidados, veja o nosso guia de remédios para dor.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
A tendinite calcária tem cura?
Na maioria dos casos o quadro se resolve, porque o próprio corpo tende a reabsorver o depósito de cálcio com o tempo. O tratamento ajuda a controlar a dor, a acelerar a reabsorção e a recuperar a função. O tempo até isso acontecer depende da fase do depósito, e a conduta é individualizada conforme o tamanho do cálcio e a intensidade da crise.
Por que a dor ficou tão forte de repente?
A dor súbita e intensa costuma marcar a fase de reabsorção, quando o cálcio amolece, aumenta a pressão no tendão e pode escapar para a bursa, causando uma crise inflamatória aguda. É a fase mais dolorosa, mas também aquela em que o ombro está se curando. Uma crise assim merece avaliação para alívio dirigido.
As ondas de choque funcionam mesmo para o cálcio?
A tendinite calcária do ombro é uma das situações com melhor evidência para as ondas de choque. Elas estimulam a fragmentação e a reabsorção do depósito e têm efeito analgésico, em um ciclo de cerca de 3 a 5 sessões. A indicação é médica e a resposta é reavaliada ao fim do ciclo.
O que é a barbotage do ombro?
É a lavagem percutânea do cálcio guiada por ultrassom: com anestesia local, agulhas são introduzidas no depósito e soro é injetado e aspirado para amolecer e retirar o cálcio. É útil em depósitos grandes ou em dor intensa, sobretudo na fase de reabsorção, e costuma ser seguida de reabilitação.
Preciso operar?
Raramente. A cirurgia, com remoção artroscópica do depósito, fica reservada a casos de dor persistente e incapacitante apesar de tratamento conservador bem conduzido por meses. A grande maioria melhora com medidas não-cirúrgicas, e a página sobre a síndrome do manguito rotador detalha quando a cirurgia entra em cena no ombro.
Posso me exercitar com tendinite calcária?
O repouso absoluto não é o objetivo. Movimento dentro do conforto e reabilitação orientada são parte do tratamento; o que se ajusta é a carga e os movimentos acima da cabeça, conforme a fase e a dor. Na crise aguda, prioriza-se controle da dor antes de progredir o exercício.
Cálcio no ombro é o mesmo que bursite?
São coisas distintas que podem coexistir. A tendinite calcária é o depósito de cálcio no tendão; a bursite subacromial é a inflamação da bursa. Quando o cálcio rompe para a bursa, os dois quadros se somam, o que explica parte da dor aguda.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Pai MYB, et al. Dry needling has lasting analgesic effect in shoulder pain. Pain Reports. 2021;6(2):e939.
- Yao Y; Yang G; Jiang S; Ji B; Jin H; Tang P; Li H; Lu B; Li Y. Treatments for rotator cuff calcific tendinitis: a systematic review and network meta-analysis of randomized-controlled trials. EFORT open reviews. 2025. doi:10.1530/eor-2024-0078. PMID:40591667.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A fase do depósito, a intensidade da crise e a escolha entre ondas de choque, barbotage e infiltração definem uma conduta individualizada, decidida em consulta.
