Artrose acromioclavicular e artrose no ombro: como diferenciar
Artrose no ombro engloba dois quadros distintos: a acromioclavicular dói no topo do ombro, e a glenoumeral causa dor profunda com perda de amplitude.
- Artrose no ombro não é uma só: a acromioclavicular (AC) dói no topo do ombro, sobre a articulação; a glenoumeral dói no fundo, com perda de movimento e crepitação.
- O teste de adução cruzada (levar o braço estendido em direção ao ombro oposto) reproduz a dor da artrose AC e é uma das pistas mais úteis no exame.
- O tratamento é multimodal e não-cirúrgico na maioria dos casos (modificação de atividade, exercício, infiltração AC guiada). A cirurgia, como a ressecção da clavícula distal, fica para os quadros que não respondem.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Duas artroses, dois lugares de dor
Dizer que o ombro tem artrose é pouco. O ombro abriga mais de uma articulação, e cada uma desgasta de um jeito, dói num ponto diferente e exige uma abordagem própria.
As duas articulações que mais costumam desenvolver artrose no ombro são a acromioclavicular e a glenoumeral. A articulação acromioclavicular (AC) é uma junta pequena, no alto do ombro, onde a ponta da clavícula encontra o acrômio (a saliência da escápula que você apalpa no topo). É uma articulação muito solicitada em movimentos acima da cabeça e em apoios sobre o membro, e por isso desgasta cedo, com frequência já a partir da meia-idade. A articulação glenoumeral é a articulação principal do ombro, em forma de esfera e cavidade (a cabeça do úmero contra a glenoide da escápula), responsável pela amplitude ampla do braço.
A diferença de localização da dor decorre dessa anatomia. Na artrose AC, a dor é localizada no topo do ombro, exatamente sobre a articulação, e a pessoa costuma apontar o ponto com um dedo. Na artrose glenoumeral, a dor é profunda, sentida no fundo da articulação, por vezes referida para a face lateral do braço, e vem acompanhada de perda de amplitude de movimento (ADM) e de crepitação (a sensação de rangido ao mover). Reconhecer onde a dor se concentra é o primeiro passo para diferenciar os dois quadros.
- 2articulações do ombro que mais desenvolvem artrose: AC e glenoumeral
- a partir dos 40faixa em que a artrose AC já é comum, por vezes sem dor
- 1 dedoa dor da artrose AC costuma ser apontada com a ponta do dedo
- 180°a artrose AC dói no fim da elevação total do braço
Dor no topo do ombro
Dor localizada sobre a articulação AC, apontada com o dedo. Piora ao cruzar o braço na frente do corpo, ao deitar sobre o ombro e no fim da elevação acima da cabeça. Costuma surgir cedo, na meia-idade.
Dor profunda no fundo
Dor profunda na articulação principal, com perda progressiva de amplitude (sobretudo rotação externa) e crepitação ao mover. Mais comum em idosos ou após trauma e em quadros secundários.
Como diferenciar no exame
A história já adianta muito: onde dói, o que piora e como começou. O exame confirma. A manobra mais útil para a artrose AC é o teste de adução cruzada (também chamado de cross-body, ou adução horizontal forçada): com o braço estendido na altura do ombro, leva-se a mão em direção ao ombro oposto, cruzando o corpo.
Esse movimento comprime a articulação acromioclavicular e reproduz a dor no topo do ombro quando há artrose AC. Soma-se a ele a palpação direta da articulação, que costuma estar dolorosa e por vezes alargada, e a dor no fim da elevação total do braço acima da cabeça.
Na artrose glenoumeral, o achado dominante é outro: a perda de amplitude, em especial da rotação externa, tanto no movimento ativo quanto no passivo (quando o examinador move o braço), acompanhada de crepitação. Essa limitação passiva ajuda a separar a artrose glenoumeral da capsulite adesiva e das tendinopatias, em que o padrão de restrição é diferente.
O passo seguinte é separar a artrose da síndrome do manguito rotador, a causa mais comum de dor no ombro, porque os tratamentos diferem. O manguito (supraespinhal, infraespinhal, subescapular e redondo menor) dá uma dor mais lateral, com arco doloroso entre cerca de 60 e 120 graus de elevação e testes de força positivos, como o de Jobe (lata vazia) para o supraespinhal. A artrose AC, ao contrário, dói no topo e no fim da elevação, e responde ao teste de adução cruzada.
Vale lembrar que os quadros coexistem com frequência: um esporão na face inferior da articulação AC pode contribuir para o impacto sobre o manguito. Para aprofundar essa causa, veja o guia sobre síndrome do manguito rotador.
| Pista | Artrose AC | Artrose glenoumeral | Manguito rotador |
|---|---|---|---|
| Onde dói | Topo do ombro, sobre a articulação | Profunda, no fundo da articulação | Face lateral do braço, no deltoide |
| Teste que reproduz | Adução cruzada (cross-body) | Rotação passiva limitada e dolorosa | Arco doloroso (60 a 120°), Jobe |
| Amplitude | Preservada; dói no fim da elevação | Reduzida (sobretudo rotação externa) | Dói ao elevar, mas costuma ser possível |
| Outro achado | Articulação alargada e dolorosa ao toque | Crepitação ao mover | Perda de força no teste do tendão afetado |
Alterações de artrose AC na radiografia ou na ressonância são muito comuns e frequentemente assintomáticas a partir da meia-idade. O laudo, por si só, não fecha o diagnóstico: o que importa é se o exame, em especial a adução cruzada e a palpação, reproduz a dor exatamente naquela articulação. Tratar uma imagem, e não o paciente, leva a intervenções desnecessárias.
A pergunta decisiva é qual articulação dói. AC e glenoumeral são vizinhas, mas pedem condutas diferentes: a AC é superficial, responde bem ao anti-inflamatório tópico e à infiltração guiada de uma junta minúscula, e sua cirurgia (retirar a ponta da clavícula) é pequena; a glenoumeral é profunda, a infiltração é intra-articular e o desfecho cirúrgico é uma prótese. Confundir as duas leva a infiltrar o lugar errado e a alinhar a expectativa errada. O exame que separa uma da outra, e não o achado de imagem, é o que muda o tratamento.
Quem chega ao consultório com artrose AC quase nunca diz “dói o ombro”. Diz que dói no topo, que não consegue cruzar o braço para alcançar o cinto de segurança ou abraçar, e que dormir sobre aquele lado acorda. Esse trio (cruzar o corpo, deitar sobre o ombro, fim da elevação) é mais revelador do que qualquer laudo, e a pessoa costuma apontar o ponto com a ponta do dedo, algo que a dor do manguito, mais espalhada pela lateral do braço, raramente permite.
A confusão mais comum não é com o manguito, e sim entre a própria AC e a glenoumeral: muita gente já ouviu “é artrose no ombro” sem que ninguém tenha dito de qual articulação se trata, e isso muda tudo na conduta. Surpreende os pacientes saber que a infiltração da AC serve também como teste: quando a dor some logo após a injeção no ponto certo, fica confirmado de onde ela vinha. E surpreende ainda mais que a cirurgia da AC, quando enfim necessária, seja pequena (retirar poucos milímetros da clavícula), bem diferente da prótese que costuma vir à mente quando se ouve a palavra “artrose”. Por isso a infiltração guiada e o ajuste de carga entram bem antes de qualquer conversa sobre operar.
Sinais de alerta
A grande maioria das dores no ombro por artrose é benigna e tem evolução arrastada, mas alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar. Procure atendimento se notar qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor no ombro após trauma de maior energia, queda sobre o ombro ou deformidade visível.
- Incapacidade súbita de elevar ou girar o braço, ou perda de força que progride.
- Ombro vermelho, quente e muito inchado, com febre, sugerindo processo inflamatório ou infeccioso.
- Dor que piora à noite de forma implacável, perda de peso inexplicada ou história de câncer.
- Dormência ou formigamento que desce pelo braço e pela mão, sugerindo origem na coluna cervical.
Cada sinal aponta para uma causa que muda a conduta: um trauma de maior energia levanta a hipótese de fratura ou de luxação da articulação AC; sinais inflamatórios com febre pedem afastar artrite séptica; dor noturna implacável com perda de peso exige investigação. Na ausência desses sinais, a artrose do ombro costuma ser conduzida de forma conservadora, com reavaliação ao longo de algumas semanas.
Tratamento, do conservador à cirurgia
O tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado, e a maioria das pessoas com artrose AC ou glenoumeral melhora sem operar. A base é ativa, com modificação de atividade e exercício orientado, e as demais técnicas se somam a ela conforme a articulação envolvida, a intensidade da dor e a resposta. O objetivo é reduzir a dor, preservar a função e adiar ou evitar a cirurgia, reservando-a para os quadros que não respondem a um tratamento bem conduzido.
Modificação de atividade
Reduzir por um período os gestos que comprimem a AC (carga acima da cabeça, supino, cruzar o braço, dormir sobre o ombro), sem imobilizar.
Exercício e reeducação escapular
Base do plano: fortalecer o manguito e estabilizar a escápula para descarregar a articulação dolorida, AC ou glenoumeral.
Acupuntura e agulhamento seco
Para o componente miofascial (trapézio, deltoide, periescapulares) que acompanha a artrose. Não age sobre a cartilagem.
Infiltração AC guiada por US
Anestésico com corticoide na AC localizada e persistente; alívio de semanas a meses e prova diagnóstica.
Viscossuplementação (glenoumeral)
Ácido hialurônico e infiltração intra-articular em casos glenoumerais selecionados, sempre com reabilitação.
Ondas de choque e laser
Maior benefício nas tendinopatias do ombro; na artrose articular pura a evidência é mais limitada.
Medicação adjuvante
Analgésicos e anti-inflamatórios por períodos curtos nas fases de piora; anti-inflamatório tópico sobre a AC superficial. Alivia, não corrige.
Cirurgia, quando indicada
Ressecção da clavícula distal na artrose AC refratária; artroplastia na glenoumeral avançada. Para casos que não respondem.
Exercício e reeducação escapular: a base
- O que é
- Fortalecimento progressivo do manguito rotador e dos estabilizadores da escápula (trapézio, serrátil anterior), com treino do ritmo escapuloumeral. Atendimento individual, um paciente por sala.
- Mecanismo
- Melhora o controle motor e o ritmo escapuloumeral, distribui melhor a carga e reduz o estresse sobre a articulação dolorida, seja a AC, seja a glenoumeral.
- Evidência
- Forte Intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na dor do ombro.
- O que esperar
- Resposta gradual ao longo de semanas; o programa é mantido para evitar recorrência. Terapia manual e mobilização entram como adjuvantes do exercício.
- Limitações
- Exige constância; a melhora não é imediata e iniciar a carga acima da cabeça cedo demais reativa a dor.
Acupuntura médica e agulhamento seco
- O que é
- Abordagem do componente miofascial que acompanha a artrose: pontos-gatilho no trapézio superior, deltoide, supraespinhal e periescapulares (romboides, elevador da escápula). Ato médico, integrado ao plano de reabilitação.
- Mecanismo
- A acupuntura modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal, vias inibitórias descendentes e opioides endógenos. No agulhamento seco, a agulha busca a banda tensa e a contração local breve, reduzindo a atividade da placa motora e a sensibilização local.
- Evidência
- Moderada Ensaio duplo-cego da nossa equipe no Grupo de Dor do HC-FMUSP mostrou alívio mantido por sete dias na dor miofascial do ombro (cerca de 1 a cada 2 pessoas tratadas). A população tinha dor miofascial, não artrose AC propriamente.
- O que esperar
- Número de sessões definido pela resposta, em geral algumas ao longo de poucas semanas; é comum leve agravamento por um ou dois dias após a punção, seguido do alívio.
- Limitações
- Trata o sofrimento miofascial que acompanha a artrose, não a cartilagem desgastada da AC ou glenoumeral. Exige cuidado anatômico na região do supraespinhal, próxima à cúpula pleural.
Infiltração guiada e viscossuplementação
- O que é
- Infiltração da articulação AC guiada por ultrassom, com anestésico e em geral corticoide, quando a dor é localizada e persiste. Na glenoumeral, viscossuplementação (ácido hialurônico) e infiltração intra-articular em casos selecionados.
- Mecanismo
- Controla a inflamação local; o guia por ultrassom aumenta a precisão numa articulação tão pequena. Funciona também como prova diagnóstica: quando a dor cede após a injeção no ponto certo, confirma-se que a origem é a AC.
- Evidência
- Moderada na AC localizada; Limitada para viscossuplementação glenoumeral, restrita a casos selecionados.
- O que esperar
- Alívio de semanas a meses na AC. Não é tratamento isolado, e sim parte de um plano com reabilitação.
- Limitações
- Infiltrações repetidas em excesso são evitadas; o resultado sustentável depende da reabilitação e do ajuste de carga.
Controle inicial
Ajustar a carga (acima da cabeça, supino, dormir sobre o ombro), aliviar a dor e iniciar a mobilidade dentro do conforto.
Progressão
Fortalecimento do manguito, reeducação escapular e técnicas em clínica; considera-se a infiltração AC guiada se a dor localizada persiste.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico (AC, manguito ou glenoumeral?) e discute-se a cirurgia, como a ressecção da clavícula distal.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a amplitude de movimento do ombro e escalas funcionais do ombro, além do retorno às atividades e ao esporte. Quando a dor não cede no ritmo esperado, revê-se o diagnóstico, confere-se a resposta à infiltração diagnóstica e ajusta-se a carga do programa antes de cogitar o passo seguinte. O objetivo é reduzir a dor a um nível que não limite a rotina e preservar a função; as alterações já instaladas na articulação nem sempre são revertidas por completo.
“Artrose no ombro só tem solução com cirurgia ou prótese.”
A maioria das pessoas com artrose AC ou glenoumeral melhora com tratamento conservador: ajuste de carga, exercício, técnicas em clínica e, quando preciso, infiltração guiada. A cirurgia fica para os quadros que não respondem.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
As técnicas em clínica e a infiltração guiada abrem a janela de alívio; é a reabilitação ativa que sustenta esse ganho e descarrega de forma duradoura a articulação dolorida, seja a acromioclavicular, seja a glenoumeral. RPG, Pilates clínico, cinesioterapia e terapia manual não competem com a agulha: dão a ela controle escapulotorácico, força do manguito e progressão. São abordagens conduzidas dentro da clínica, sempre individuais.
A lógica é comum a todas: na artrose do ombro, a dor piora quando a articulação recebe carga mal distribuída, e o que muda o curso é devolver controle, força e ritmo ao complexo do ombro. Um manguito forte e uma escápula bem posicionada reduzem a compressão sobre a articulação AC na elevação e descarregam a glenoumeral, retirando o estímulo que alimenta a dor. Por isso a progressão importa mais do que a intensidade, e o programa é mantido depois do alívio, para prevenir recorrência e a piora do desgaste.
Controle escapulotorácico e fortalecimento do manguito
Treino do ritmo escapuloumeral e fortalecimento progressivo do manguito (supraespinhal, infraespinhal, subescapular, redondo menor) e dos estabilizadores da escápula (trapézio inferior e médio, serrátil anterior). Uma escápula que roda no tempo certo amplia o espaço subacromial e reduz a compressão sobre a AC; um manguito competente centra a cabeça do úmero e distribui a carga. Limitação: exige constância e dose ajustada — carga acima da cabeça cedo demais reativa a dor.
Reeducação postural global (RPG)
Trabalha o corpo por cadeias musculares com posturas de alongamento ativo mantidas. A contração isométrica de caráter excêntrico reduz o encurtamento da cadeia anterior e dos peitorais, corrige a anteriorização dos ombros e a báscula anterior da escápula que estreita o espaço subacromial. Útil quando há ombros enrolados, encurtamento peitoral e dor ao posicionar o braço. Limitação: não substitui o fortalecimento do manguito; base de estudos específica para o ombro é modesta.
Pilates clínico
Exercício terapêutico de baixo impacto centrado em controle motor e estabilização, adaptado por fisioterapeuta. Integra a estabilização da escápula e do tronco ao movimento do braço e treina o gesto com carga graduada, tornando a elevação menos agressiva à AC e à glenoumeral. Limitação: precisa ser clínico e individualizado; carga sobre o ombro cedo demais provoca piora; efeito de magnitude modesta e dependente de adesão.
Cinesioterapia, terapia manual e ajuste de carga
Reabilitação ativa com prescrição individualizada de mobilidade, fortalecimento e treino de controle, somada à terapia manual (mobilização articular e de tecidos moles) e ao ajuste de carga nas atividades e no treino. A terapia manual cria uma janela de conforto para avançar o exercício; o ajuste de carga evita os picos de sobrecarga que reativam a dor. Limitação: técnicas puramente passivas, sem exercício ativo, não sustentam o ganho; o resultado depende de continuidade.
O fio condutor é claro: na artrose do ombro, o movimento supervisionado e graduado é tratamento, e a melhor reabilitação é a que o paciente consegue manter. A escolha entre controle escapular, RPG, Pilates ou cinesioterapia depende do perfil, da preferência e da tolerância de cada pessoa, e com frequência se combinam ao longo do tempo.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia entra na artrose do ombro com procedimentos nomeados e desfechos definidos. Essas opções não são realizadas em nossa clínica, mas fazem parte do mapa de cuidado. A regra é a mesma para os dois quadros: a cirurgia é reservada à dor que persiste apesar de um tratamento conservador bem conduzido, incluindo a infiltração guiada, por alguns meses.
Conservador · 1ª escolha
O que resolve a maioria
- Modificação de atividade e ajuste de carga
- Exercício e reeducação escapular
- Acupuntura e agulhamento seco no componente miofascial
- Infiltração AC guiada por ultrassom
- Conduzido na clínica, por alguns meses, antes de cogitar operar
Cirúrgico · exceção
Quando o conservador se esgota
- Dor que persiste apesar do tratamento bem conduzido
- AC: ressecção da clavícula distal (Mumford), aberta ou artroscópica
- Glenoumeral avançada: artroplastia anatômica ou reversa
- Indicação confirmada pelo exame e pela resposta à infiltração diagnóstica
- Realizada fora da nossa clínica, pelo ortopedista de ombro
Na artrose acromioclavicular refratária, o procedimento de escolha é a ressecção da extremidade distal da clavícula (procedimento de Mumford). Removem-se poucos milímetros da ponta da clavícula para abolir o atrito doloroso na articulação AC, e a junta passa a ser preenchida por tecido fibroso, sem comprometer a estabilidade quando os ligamentos coracoclaviculares são preservados. Pode ser feita por via aberta, com pequena incisão sobre a articulação, ou por via artroscópica, hoje frequente, com recuperação funcional em geral mais rápida e resultados comparáveis a médio prazo. A indicação típica é a dor localizada na AC, confirmada pelo exame e por resposta clara à infiltração diagnóstica, que retorna após o tratamento conservador.
| Quando considerar | Procedimento | O que esperar |
|---|---|---|
| Artrose AC com dor localizada que persiste apesar do tratamento conservador e da infiltração guiada | Ressecção da extremidade distal da clavícula (Mumford), aberta ou artroscópica | Alívio do atrito doloroso na AC; recuperação funcional em semanas, com retorno gradual à carga acima da cabeça |
| Artrose glenoumeral avançada, com dor e perda de função, manguito preservado | Artroplastia anatômica do ombro | Redução da dor e ganho de função; reabilitação ao longo de meses |
| Artrose glenoumeral avançada com manguito irreparável (artropatia do manguito) | Artroplastia reversa do ombro | Recupera a elevação ativa pela ação do deltoide; reabilitação prolongada |
| Componente de manguito ou impacto associado contribuindo para a dor | Avaliação do ortopedista de ombro para reparo ou descompressão, conforme o caso | Conduta definida caso a caso; nem todo achado de imagem exige cirurgia |
Na artrose glenoumeral avançada, a escolha entre a artroplastia anatômica e a artroplastia reversa depende sobretudo da integridade do manguito rotador: quando o manguito está irreparável, a prótese reversa muda a biomecânica para que o deltoide assuma a elevação. São cirurgias de maior porte, com reabilitação de meses, indicadas quando os sintomas limitam a vida diária e as etapas anteriores se esgotaram. A decisão é individual e compartilhada, e pesa a intensidade dos sintomas, a limitação funcional e a resposta ao tratamento conservador.
Alterações de artrose AC na imagem são muito comuns e em geral assintomáticas, de modo que não se opera uma radiografia, e sim uma dor que se confirmou vir daquela articulação e que não respondeu ao tratamento. O encaminhamento ao ortopedista de ombro é o caminho certo quando esses critérios se cumprem; até lá, a maioria dos casos é conduzida de forma conservadora, na clínica, com bons resultados.
Tratamento medicamentoso
Os medicamentos têm papel adjuvante na artrose do ombro, não de base. Servem para controlar a dor nas fases de piora e abrir uma janela que permita avançar a reabilitação, e nunca substituem o exercício e o ajuste de carga. São usados por períodos definidos, em dose individualizada, com a escolha conforme a fase, as comorbidades e o perfil de cada pessoa.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / cuidados |
|---|---|---|---|
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Controlar a dor nas fases de piora, sem ação anti-inflamatória | Moderada | Aliviam, mas não corrigem o desgaste. Uso por períodos definidos. |
| Anti-inflamatórios orais (ibuprofeno, naproxeno) | Fases de piora inflamatória da artrose, por períodos curtos | Moderada | Uso prolongado pede cautela pelos riscos gástrico, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos. |
| Anti-inflamatório tópico (diclofenaco em gel) | Artrose AC, articulação superficial logo abaixo da pele | Moderada | Entrega o fármaco localmente com menor exposição sistêmica. Opção sensata para dor leve a moderada e bem localizada, com bom perfil de segurança. |
| Infiltração guiada com corticoide (na clínica) | Dor da AC localizada e persistente; também prova diagnóstica | Moderada | Alívio de semanas a meses. Não é tratamento isolado; infiltrações repetidas em excesso são evitadas. |
| Infiltração intra-articular / viscossuplementação (glenoumeral) | Casos glenoumerais selecionados, com ácido hialurônico | Limitada | Papel em casos selecionados, sempre combinada com a reabilitação. |
| Opioides | Não indicados para dor articular comum | Evitar | Não tratam a causa e trazem riscos que não compensam. |
O que não tem lugar é o uso crônico de anti-inflamatórios como única estratégia, ou de opioides para dor articular comum, por não tratarem a causa e trazerem riscos que não compensam. A medicação alivia; o resultado sustentável vem da reabilitação e do ajuste de carga, com os fármacos no papel de adjuvante.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Qual a diferença entre artrose acromioclavicular e artrose no ombro?
Artrose no ombro é um termo amplo. A artrose acromioclavicular (AC) atinge a pequena articulação no topo do ombro e dá dor localizada nesse ponto. A artrose glenoumeral atinge a articulação principal e dá dor profunda, com perda de movimento e crepitação. São quadros distintos, com tratamentos parecidos na base, mas com particularidades.
O que é o teste de adução cruzada?
É uma manobra do exame em que, com o braço estendido na altura do ombro, leva-se a mão em direção ao ombro oposto, cruzando o corpo. O movimento comprime a articulação acromioclavicular e reproduz a dor no topo do ombro quando há artrose AC. É uma das pistas mais úteis para diferenciá-la do manguito rotador.
Como saber se é artrose ou problema no manguito rotador?
A dor do manguito é mais lateral, com arco doloroso entre cerca de 60 e 120 graus e perda de força em testes como o de Jobe. A artrose AC dói no topo, no fim da elevação e na adução cruzada. Os quadros podem coexistir. Para aprofundar, veja o guia sobre síndrome do manguito rotador.
Artrose no ombro tem cura?
A artrose é uma alteração estrutural que não se reverte, mas isso não significa dor permanente. A maioria das pessoas controla bem os sintomas com tratamento conservador e retoma a rotina. A meta é reduzir a dor e preservar a função, com a cirurgia reservada aos casos que não respondem.
A dor no topo do ombro pode vir da clavícula?
Sim. A articulação acromioclavicular é justamente o encontro da ponta da clavícula com o acrômio, e é uma causa frequente de dor bem no topo do ombro. Outras causas de dor na clavícula são revistas no guia sobre dor na clavícula.
Quando a cirurgia é indicada?
Quando a dor persiste apesar de um tratamento conservador bem conduzido por alguns meses. Na artrose AC, o procedimento de escolha costuma ser a ressecção da clavícula distal. Na glenoumeral avançada, avalia-se a prótese. A decisão é individual e pesa os sintomas e a limitação na vida diária.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Pai MYB, et al. Dry needling has lasting analgesic effect in shoulder pain. Pain Reports. 2021;6(2):e939.
- Welch M; Rankin S; How Saw Keng M; Woods D. A systematic review of the treatment of primary acromioclavicular joint osteoarthritis. Shoulder & elbow. 2024. doi:10.1177/17585732231157090. PMID:38655415.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Diferenciar a artrose AC da glenoumeral e definir qual técnica usar exige exame presencial, e a conduta aqui descrita precisa ser individualizada para o seu caso.
