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Acupuntura · O que esperar do tratamento

Acupuntura dói? Saiba o que esperar do tratamento

Quase sempre a acupuntura não dói: a agulha filiforme afasta o tecido em vez de cortar e estimula poucos receptores de dor, então a inserção costuma passar quase despercebida. O que se sente é o de qi, um peso ou formigamento do recrutamento das fibras certas.

Resposta direta
  • A agulha de acupuntura é filiforme: sólida, com 0,16 a 0,30 mm de diâmetro e ponta cônica polida. Ela afasta as fibras do tecido em vez de cortar, e por isso recruta poucos nociceptores cutâneos. A agulha de injeção é oca, mais calibrosa e tem bisel cortante, o que é uma diferença física, não de percepção.
  • O que se sente depois da inserção é o de qi: peso, dormência, formigamento ou calor difuso que se espalha ao redor do ponto. Corresponde ao recrutamento de fibras de pequeno calibre (Aδ e fibras musculares dos grupos III e IV) e mecanorreceptores, e não tem o caráter agudo ou em queimação da dor; é um sinal esperado de bom posicionamento.
  • O alívio não vem por sugestão: a estimulação ativa a comporta segmentar no corno dorsal da medula e as vias inibitórias descendentes, com liberação de opioides endógenos. Reações como pequena equimose ou desconforto local por um a dois dias são leves e comuns; eventos sérios são raros e ligados a técnica ou anatomia. A segurança depende de material descartável, técnica correta e formação de quem aplica.
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Acupuntura médica

Centro de Referência no Brasil em Acupuntura Médica. Tratamento com base em evidências, na tradição da USP e do HC-FMUSP.

Acupuntura dói? A sensação real

Prof. Dr. Hong Jin Pai em mesa de debate no CINDOR 2018.
Participação da equipe em congressos mantém a prática atualizada.

A pergunta “acupuntura dói?” tem uma resposta curta: a dor da agulha, quando existe, é mínima e nada se parece com a de uma injeção. O incômodo que assusta na imaginação raramente corresponde ao que o paciente de fato experimenta na maca, e há uma razão física e neurofisiológica para isso.

A confusão vem de uma associação natural: agulha lembra injeção, e injeção dói. Só que as duas agulhas pertencem a categorias diferentes. A agulha da acupuntura é filiforme, ou seja, sólida e fina como um fio, com diâmetro tipicamente entre 0,16 e 0,30 mm. Ela não corta nem rasga o tecido: a ponta é cônica e polida (atraumática), e separa as fibras à medida que penetra, em vez de seccioná-las.

A pele concentra a maior densidade de nociceptores logo abaixo da epiderme; uma ponta fina e romba que apenas afasta esse tecido aciona poucas dessas terminações, enquanto um bisel cortante as estimula em maior número. Por isso, no momento da inserção, a maioria das pessoas sente apenas um toque, um leve beliscão ou, com frequência, absolutamente nada.

O que vem em seguida é uma sensação distinta, e é justamente ela que costuma surpreender quem nunca fez acupuntura. Em vez de dor, descreve-se um peso, uma dormência, um formigamento ou um calor difuso que se espalha em torno do ponto, às vezes irradiando ao longo de um trajeto. Na medicina tradicional, essa resposta é chamada de de qi (lê-se “dê tchí”). Ela não tem o caráter agudo, pontual ou em queimação da dor, e essa diferença qualitativa é o ponto central: dor e de qi são percepções distintas porque recrutam fibras nervosas distintas.

Quando a agulha é inserida e manipulada na profundidade certa, ela estimula sobretudo as fibras de pequeno calibre do músculo e do tecido conjuntivo (fibras dos grupos III e IV, equivalentes às fibras Aδ e C) e os mecanorreceptores locais. A ativação difusa e de evolução lenta dessas fibras é percebida como peso, formigamento e calor, não como a fisgada pontual de um corte superficial. Do ponto de vista clínico, o de qi sinaliza que a agulha alcançou a estrutura correta e que a estimulação está acionando as vias que produzem o efeito analgésico. É uma sensação esperada e desejável.

Já uma dor aguda, em fisgada ou em choque não é o de qi: pode indicar contato com uma terminação cutânea superficial ou um pequeno vaso e deve ser comunicada ao médico, que ajusta ou reposiciona a agulha. Vale acrescentar que cada agulha vem lacrada, é estéril e descartável: usada uma única vez e descartada em seguida, o que elimina qualquer risco de transmissão entre pacientes.

Mito

“Acupuntura dói como uma injeção, porque também usa agulha.”

Fato

A agulha da acupuntura é muitas vezes mais fina que a de uma injeção e não injeta nada. A inserção costuma ser quase indolor; o que se sente é a sensação “de qi”, de peso ou formigamento, parte do efeito do tratamento.

Instrutor demonstrando aparelho de eletroacupuntura para grupo de alunos ao redor da mesa
Ensino e formação Demonstração do aparelho de eletroacupuntura para o grupo.

Por que não dói como uma injeção

A diferença entre as duas experiências é física, não psicológica, e tem três componentes. O primeiro é o calibre: a agulha de injeção (hipodérmica) é oca, precisa de uma parede e de um canal interno por onde passa o líquido e, por isso, costuma ter diâmetro acima de 0,4 mm; muitas agulhas filiformes de acupuntura têm 0,20 a 0,25 mm, e várias chegam a 0,16 mm, ou seja, podem ser bem menos da metade do diâmetro de uma hipodérmica comum. O segundo é a geometria da ponta: a hipodérmica tem bisel cortante, projetado para fatiar a pele; a filiforme tem ponta cônica romba, que dilata e separa o tecido.

O terceiro é o volume: a injeção empurra um líquido sob pressão para dentro do tecido, e essa distensão rápida ativa nociceptores por estiramento, somando-se ao ardor de muitas substâncias. A agulha de acupuntura não injeta volume nenhum.

Há ainda a questão do alvo e do estímulo. A injeção mira um compartimento (a veia, o músculo, o subcutâneo) para depositar uma substância. A acupuntura busca um ponto e uma resposta neural: o objetivo é recrutar fibras nervosas, não preencher um espaço. Por isso o desconforto da injeção vem da soma corte + calibre + distensão pelo líquido, enquanto a sensação da acupuntura vem da estimulação controlada de fibras de pequeno calibre, percebida como peso e formigamento.

São fenômenos de naturezas diferentes, ainda que ambos comecem com o toque de uma agulha. Isso também explica por que uma punção venosa para coleta de sangue, feita com agulha oca e calibrosa, dói mais do que uma sessão inteira de acupuntura.

Agulha de acupuntura e agulha de injeção, lado a lado
AspectoAgulha de acupunturaAgulha de injeção
TipoSólida, filiforme (como um fio)Oca, com canal interno
Espessura típica0,16 a 0,30 mmGeralmente acima de 0,4 mm
PontaCônica e polida (atraumática)Biselada e cortante
O que faz no tecidoAfasta as fibras, sem cortarCorta a pele e injeta líquido sob pressão
Fibras recrutadasFibras de pequeno calibre do músculo (grupos III e IV) e mecanorreceptoresNociceptores cutâneos pelo corte e por estiramento
O que se senteToque leve, depois peso ou formigamento (de qi)Picada e ardor pela distensão do líquido
Injeta substância?NãoSim
Em uma frase

Quem teme a acupuntura por causa do medo de injeção pode descansar: a agulha não corta nem injeta nada. A sensação de peso ou formigamento que se sente é o efeito do tratamento acontecendo, não a dor que se espera de uma seringa.

O que esperar durante e depois da sessão

Mãos do acupunturista manipulando agulhas finas inseridas na pele, uma delas ainda com o tubo guia de aplicação
Durante a sessão o profissional posiciona e ajusta cada agulha com cuidado, mantendo a aplicação controlada e indolor

Saber o roteiro da sessão reduz boa parte da ansiedade. Após a avaliação, o paciente fica deitado e relaxado. O médico limpa a pele, insere as agulhas nos pontos escolhidos e, em geral, busca evocar a sensação de qi com pequenos movimentos da agulha (rotação ou um leve sobe e desce).

As agulhas permanecem no lugar por um período, em torno de 15 a 30 minutos, durante o qual a maioria das pessoas relata uma sensação de relaxamento, às vezes com leve sonolência. Não há dor contínua: se algum ponto incomoda mais do que o esperado, basta avisar, e a agulha é ajustada ou reposicionada.

Na eletroacupuntura, uma corrente elétrica de baixa intensidade é conectada às agulhas. A sensação é de uma pulsação ou formigamento rítmico, regulada para ser confortável; a intensidade é ajustada com o paciente, nunca imposta. No agulhamento seco (dry needling), em que a agulha é dirigida a um ponto-gatilho muscular, pode ocorrer uma contração rápida e involuntária do músculo, a resposta de contração local, seguida de um alívio da tensão. Esse “solavanco” é breve e, embora costume ser mais intenso que a acupuntura comum, é bem tolerado; voltaremos a ele adiante.

O que pode aumentar o desconforto

A intensidade da sensação não é a mesma em todos os pontos nem em todas as pessoas, e conhecer os fatores que a modulam ajuda a entender por que uma agulha passa despercebida e outra é mais notada. Em ordem prática de importância:

  • Localização do ponto. Regiões com pele fina e alta densidade de terminações nervosas, como as extremidades (mãos, pés, ponta dos dedos), a face e o couro cabeludo, são naturalmente mais sensíveis do que o ventre de músculos grandes (como a região lombar ou a coxa). Pontos próximos ao periósteo, que recobre o osso e é ricamente inervado, também tendem a ser mais sensíveis.
  • Sensibilidade individual e ansiedade. O limiar de dor varia de pessoa para pessoa, e a expectativa influencia a percepção: a tensão muscular e a antecipação amplificam qualquer estímulo. Por isso a sessão é feita deitado, com explicação prévia, o que reduz o tônus e o desconforto.
  • Técnica e intensidade do estímulo. A profundidade, a manipulação para evocar o de qi e a frequência ou amplitude da eletroacupuntura influenciam a sensação. Um estímulo mais forte pode ser mais eficaz em certos quadros, mas é sempre titulado ao conforto; mais intenso não é sinônimo de melhor.
  • Estado da pele e do músculo. Inflamação local, um ponto-gatilho muito ativo ou pele tensionada aumentam a resposta. No agulhamento seco, justamente o ponto mais doloroso à palpação tende a gerar a contração local mais nítida.

Depois da sessão, as reações possíveis são leves e passageiras. Pode surgir um pequeno hematoma (equimose) no local de uma das agulhas, sem gravidade, que regride sozinho em poucos dias. Algumas pessoas sentem um cansaço agradável ou uma leve tontura logo após (uma reação vagal benigna), motivo pelo qual vale levantar-se devagar.

No agulhamento seco, é comum uma dor muscular leve no ponto tratado por um a dois dias, semelhante à dor de um exercício novo (dor muscular de início tardio), sinal de que o ponto-gatilho foi estimulado. Nenhuma dessas reações exige tratamento; basta repouso e hidratação.

0,16mm
Espessura comum da agulha filiforme
de qi
Peso ou formigamento esperado, não dor
1 a 2
Dias de eventual dor muscular leve
Única
Cada agulha é descartável e estéril
O que avisar ao médico antes de começar
  • Se usa anticoagulante ou tem distúrbio de coagulação, pelo maior risco de hematoma.
  • Se tem marca-passo ou outro dispositivo eletrônico implantado, relevante para a eletroacupuntura.
  • Se está grávida, para que se evitem pontos contraindicados na gestação.
  • Se costuma sentir tontura ou desmaio com procedimentos, para que a sessão seja feita deitado.

Acupuntura: para que serve e como age

A sensação da agulha é o sinal de que as fibras que disparam o efeito analgésico foram recrutadas. A acupuntura serve, sobretudo, para o controle da dor, mas seu uso médico se estende a náusea, enxaqueca e outros quadros funcionais. O estímulo da agulha não atua por sugestão: aciona mecanismos neurofisiológicos descritos e mensuráveis, que explicam tanto a sensação local quanto o alívio que se segue. Por isso a acupuntura é uma das modalidades de um plano de tratamento da dor cervical e de outros quadros musculoesqueléticos.

Como a acupuntura modula a dor

O efeito analgésico opera em três níveis, do local ao cerebral, e cada um deles tem correlato neurofisiológico conhecido.

1. Comporta no corno dorsal (nível medular). A estimulação da agulha recruta fibras aferentes de pequeno e médio calibre. As fibras mielinizadas mais rápidas ( e parte das ) ativam interneurônios inibitórios na lâmina superficial do corno dorsal, que reduzem a transmissão do sinal nociceptivo trazido pelas fibras finas C e Aδ aos neurônios de ampla faixa dinâmica. É o mecanismo de “comporta” descrito por Melzack e Wall: o estímulo da agulha “fecha a porta” para a passagem da dor naquele segmento medular, um efeito segmentar que ajuda a explicar a escolha de pontos próximos à área dolorosa.

2. Inibição descendente e controle inibitório difuso (nível do tronco encefálico). O estímulo doloroso ou intenso em um ponto também aciona vias que descem do cérebro para a medula. A substância cinzenta periaquedutal e o bulbo rostroventromedial liberam serotonina e noradrenalina no corno dorsal, inibindo a dor de forma mais ampla. Esse é, em parte, o fenômeno de controle inibitório difuso (ou modulação condicionada da dor): um estímulo aplicado em um ponto reduz a sensibilidade dolorosa em regiões distantes.

3. Opioides endógenos e mediadores locais (nível químico). A estimulação promove a liberação de opioides produzidos pelo próprio corpo. Estudos clássicos mostram que o efeito é parcialmente revertido pela naloxona (um bloqueador de receptores opioides), o que confirma essa participação. A frequência da eletroacupuntura modula quais peptídeos predominam: frequências baixas (em torno de 2 Hz) tendem a recrutar mais encefalina e beta-endorfina, com ação em receptores mu e delta, enquanto frequências altas (em torno de 100 Hz) mobilizam mais a dinorfina, com ação em receptores kappa. No próprio local da agulha, há ainda liberação de adenosina, que age em receptores A1 com efeito analgésico, além de aumento do fluxo sanguíneo local.

A sensação de qi é a expressão consciente desse recrutamento. A correspondência entre a descrição tradicional por meridianos e essa neurofisiologia permanece objeto de estudo, mas o efeito analgésico, esse, é reprodutível.

As três principais técnicas de agulha do nosso arsenal partilham essa base, com ênfases diferentes. Abaixo, cada uma com mecanismo, evidência, o que esperar, indicações e limitações.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é
Inserção de agulhas filiformes em acupontos por médico acupunturiatra. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas e mantém um estímulo regulável, ajustado ao conforto do paciente.
Mecanismo
Comporta segmentar no corno dorsal, ativação das vias inibitórias descendentes (com serotonina e noradrenalina) e liberação de opioides endógenos. A frequência da corrente modula os peptídeos: baixa frequência recruta mais encefalina e beta-endorfina; alta frequência, mais dinorfina.
Evidência
Evidência de qualidade moderada para dor cervical crônica, lombalgia e enxaqueca, com recomendação condicional em diretrizes para contextos selecionados (por exemplo, a orientação do NICE para profilaxia de enxaqueca e para cervicalgia). A magnitude do efeito varia entre estudos.
O que esperar (sensação)
Na inserção, um toque ou leve picada que costuma passar quase despercebido; em seguida, o de qi (peso, dormência ou calor difuso ao redor do ponto), referência de bom posicionamento. Na eletroacupuntura, a corrente acrescenta uma pulsação ou formigamento rítmico, regulada com o paciente até um nível confortável e nunca imposta. A intensidade aumenta em pontos de extremidade, face e couro cabeludo, e diminui no ventre de músculos grandes. Durante os minutos em que a agulha permanece, é comum relaxamento, por vezes com leve sonolência, sem dor contínua.
Indicações
Dor miofascial, cervicalgia e lombalgia, cefaleia e enxaqueca, alguns componentes de dor neuropática e náusea; é útil quando se busca reduzir o uso de medicação.
Limitações
Desconforto ou pequena equimose no local, em geral raros; cautela na eletroacupuntura em quem tem marca-passo. É adjuvante ao tratamento ativo. A relação com a enxaqueca é detalhada no guia de enxaqueca, causas e tratamentos.

Agulhamento seco

O agulhamento seco merece um detalhe à parte porque é a técnica em que a sensação costuma ser mais intensa, ainda que breve, e por isso é onde mais surge a dúvida sobre dor.

O que é
A mesma agulha filiforme inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial, sem injeção de qualquer substância (daí “seco”). A agulha é avançada na banda muscular tensa até desencadear a contração local.
Mecanismo
Ao atravessar a banda muscular tensa, a ponta da agulha encontra uma placa motora disfuncional e dispara um reflexo medular: o músculo se contrai por uma fração de segundo de forma involuntária, a chamada resposta de contração local. Esse reflexo reduz a atividade elétrica espontânea da placa e a concentração local de substâncias álgicas, e soma-se a ele o efeito de comporta segmentar. É essa contração, e não a perfuração da pele, que gera o “solavanco” característico: a percepção mais intensa vem de dentro do músculo, do reflexo, não da agulha cruzando a superfície.
Evidência
Boa evidência para a síndrome dolorosa miofascial.
O que esperar (sensação)
A sensação tem dois tempos. No momento do agulhamento, o “solavanco” da contração local é breve e mais marcante que o da acupuntura comum, mas dura uma fração de segundo e costuma ser bem tolerado; o ponto mais doloroso à palpação tende a gerar a contração mais nítida. Depois, é esperada uma dor muscular leve no ponto tratado por um a dois dias, parecida com a de um exercício novo (dor muscular de início tardio), sinal de que o ponto-gatilho foi estimulado, e não de complicação. Quem teme o procedimento costuma se surpreender por ele ser pontual, e não uma dor sustentada.
Indicações
Pontos-gatilho do trapézio, do elevador da escápula, da musculatura suboccipital, dos glúteos e de outros grupos, na síndrome dolorosa miofascial. O detalhamento está na página de dry needling, agulhamento seco.
Limitações
Dor local transitória e equimose; cautela em pessoas anticoaguladas; o agulhamento da parede torácica exige domínio anatômico pelo risco de pneumotórax em mãos não treinadas.
Da prática clínica

O paciente que mais teme a dor costuma ser quem nunca fez acupuntura e chega tensionando os ombros desde a sala de espera; a explicação calma do que vai sentir, antes de qualquer agulha, costuma reduzir mais o desconforto do que qualquer ajuste técnico.

O engano mais frequente é confundir o de qi com algo errado: a pessoa sente o peso ou o formigamento, estranha e conclui que dói, quando aquilo é justamente o sinal de bom posicionamento. Nomear a sensação de antemão muda a leitura dela. Em sentido inverso, vale insistir que uma fisgada aguda ou em choque deve ser avisada na hora, pois é o único desconforto que pede reposicionamento.

O que mais surpreende quem chega receoso é a comparação com a coleta de sangue: terminada a sessão, é comum ouvir que a agulha fina passou despercebida perto da punção venosa que temiam. E o limiar prático para preferir a acupuntura a laser não é a dor em si, que é pequena, mas a aversão à agulha forte o bastante para elevar a ansiedade e atrapalhar o relaxamento da sessão.

Assista: Acupuntura – Quando ela pode ser útil?

Segurança e quem deve aplicar

Prof. Dr. Hong Jin Pai conduzindo aula prática de acupuntura para a equipe.
O Prof. Dr. Hong Jin Pai conduz a formação em acupuntura médica da equipe.

A acupuntura é um procedimento seguro quando feito com agulhas descartáveis e por profissional com formação adequada, mas seguro não quer dizer isento de qualquer reação. Convém separar dois grupos. Os eventos leves são relativamente comuns e benignos: pequena equimose ou sangramento puntiforme, dor no local, e uma reação vagal passageira (tontura, sensação de desmaio), mais provável em jejum ou em quem é ansioso, motivo pelo qual a sessão é feita deitado. Grandes séries prospectivas, com dezenas a centenas de milhares de sessões, estimam esse tipo de reação na ordem de poucas ocorrências a cada cem sessões, todas autolimitadas.

Os eventos sérios são raros e, quando ocorrem, costumam estar ligados a técnica inadequada ou a falta de conhecimento anatômico, e não à acupuntura em si. O agulhamento da parede torácica, por exemplo, exige domínio da anatomia, porque uma inserção profunda mal conduzida pode atingir a pleura e causar pneumotórax em mãos não treinadas; infecção é incomum quando se usa material estéril e descartável. Em pessoas que usam anticoagulantes, redobra-se o cuidado pelo risco de hematoma.

As mesmas grandes séries situam os eventos graves em ordem de grandeza de unidades por milhão de sessões, o que torna a técnica, em mãos treinadas, comparável aos procedimentos ambulatoriais mais seguros. São justamente esses pontos que separam um procedimento seguro de um arriscado, e que dependem de quem segura a agulha.

Quem segura a agulha muda tanto o conforto quanto a segurança. A formação em anatomia é o que permite calibrar a profundidade ponto a ponto, evitar o trajeto de vasos e nervos superficiais que causariam a fisgada indesejada e reconhecer a margem de segurança sobre a parede torácica, justamente onde uma inserção mal conduzida poderia atingir a pleura. É também o treino clínico que distingue, no relato do paciente, o de qi esperado de uma dor que pede reposicionamento, e que identifica antes de começar quando a dor exige investigação em vez de agulha, ou quando há uma contraindicação.

Na clínica, a acupuntura é praticada por médicos com formação na área e vínculo com o Grupo de Dor do HC-FMUSP. A segurança concreta vem da soma de material descartável, técnica correta e mãos treinadas.

Cautelas e contraindicações relativas

Situações que pedem avaliação antes da acupuntura

  • Uso de anticoagulantes ou distúrbios de coagulação, pelo maior risco de hematoma.
  • Gravidez, pela necessidade de evitar pontos contraindicados na gestação.
  • Marca-passo ou dispositivo eletrônico implantado, no caso da eletroacupuntura.
  • Infecção ativa ou lesão na pele sobre o local a ser puncionado.
Reconhecimento

Centro de Dor

Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)

Centro de Tratamento por Ondas de Choque

Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)

Clínica listada

Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)

Perguntas frequentes

Acupuntura dói?

Na maioria das vezes, a inserção da agulha é quase indolor, no máximo uma picada breve, e nada comparável a uma injeção. O que se sente em seguida é a sensação “de qi”, de peso, formigamento ou calor ao redor do ponto, que é esperada e indica que a agulha está bem posicionada. Se algum ponto incomoda, basta avisar para que a agulha seja ajustada.

A agulha da acupuntura é igual à da injeção?

Não. A agulha da acupuntura é sólida e filiforme, muito mais fina (em torno de 0,16 a 0,30 mm) e não injeta nada. A agulha de injeção é oca, mais grossa, corta a pele e empurra líquido sob pressão, o que explica o ardor. Por isso a acupuntura não dói como uma injeção.

Para que serve a acupuntura?

A acupuntura é usada sobretudo para o controle da dor, como dor cervical crônica, lombalgia, dor miofascial e enxaqueca, e também para quadros como náusea. Ela age modulando a transmissão da dor na medula, ativando vias inibitórias do cérebro e liberando opioides endógenos. Costuma ser indicada dentro de um plano multimodal, somada ao exercício e às demais medidas.

Pode aparecer hematoma ou dor depois da acupuntura?

Pode, e são reações leves e passageiras. Um pequeno hematoma no local de uma agulha regride sozinho em poucos dias. No agulhamento seco, uma dor muscular leve no ponto tratado por um a dois dias é comum, parecida com a dor de um exercício novo. Nenhuma dessas reações é grave nem exige tratamento específico.

A sessão fica mais confortável com o tempo?

Em geral, sim. A primeira sessão costuma ser a mais notada, porque a antecipação eleva o tônus muscular e amplifica qualquer estímulo. Conhecido o roteiro, o paciente relaxa, a musculatura cede e a inserção tende a passar ainda mais despercebida nas sessões seguintes. O número de sessões depende do quadro e é definido caso a caso na avaliação; do ponto de vista da sensação, o que muda com o tempo é o à-vontade, não a intensidade da agulha em si.

Sentir o de qi significa que está funcionando?

O de qi (peso, formigamento ou calor difuso ao redor do ponto) indica que a agulha alcançou a estrutura certa e recrutou as fibras de pequeno calibre envolvidas no efeito analgésico, por isso é considerado um sinal de bom posicionamento. O alívio depende do quadro, do plano e de várias sessões. O que importa distinguir é o de qi, esperado, de uma dor aguda em fisgada ou choque, que não é desejável e deve ser avisada para reposicionar a agulha.

Por que o agulhamento seco dói mais que a acupuntura comum?

Porque a agulha é dirigida ao ponto-gatilho dentro de uma banda muscular tensa e busca provocar a resposta de contração local, uma contração rápida e involuntária do músculo. Esse “solavanco” é mais marcante que a sensação da acupuntura comum, mas é breve e sinaliza que o ponto certo foi atingido. Costuma deixar uma dor muscular leve por um a dois dias, parecida com a de um exercício novo, que regride sozinha.

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Dra. Celia Yunes Portiolli
Sobre a autora
Dra. Celia Yunes Portiolli
CRM-SP 27.971RQE 5.148 / 19.469

Médica Especialista em Acupuntura, Dor e Pediatria. Atua com tratamentos em acupuntura, laserterapia e ventosaterapia para pacientes adultos e pediátricos.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Zhang et al. Needle Sensation and Personality Factors Influence Therapeutic Effect of Acupuncture for Treating Bell’s Palsy: A Secondary Analysis of a Multicenter Randomized Controlled Trial. Chinese Medical Journal. 2016. doi:10.4103/0366-6999.186640.
  2. Park JE; Ryu YH; Liu Y; Jung HJ; Kim AR; Jung SY; Choi SM. A literature review of de qi in clinical studies. Acupuncture in medicine: journal of the British Medical Acupuncture Society. 2013. doi:10.1136/acupmed-2012-010279. PMID:23486017.
Atualizado em 31 mai 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A sensação descrita aqui é a típica; o limiar de dor e a tolerância variam de pessoa para pessoa, e a escolha dos pontos e da técnica é individualizada na consulta. A indicação e a aplicação da acupuntura devem ser feitas por profissional habilitado.

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