Cetamina intravenosa para dor crônica: quando considerar, riscos e limites
Cetamina intravenosa para dor crônica é a administração pela veia, em ambiente monitorado, para casos selecionados. Não é primeira linha e exige equipe habilitada. Atua sobre o receptor NMDA na dor neuropática refratária, com evidência ainda limitada.
- A cetamina é antagonista não competitivo do receptor NMDA do glutamato; o racional para usá-la na dor é interromper o fenômeno de wind-up e a sensibilização central no corno dorsal da medula, sobretudo em dor neuropática e nociplástica.
- É uma opção especializada e de segunda ou terceira linha, discutida em dor refratária bem selecionada (dor neuropática, síndrome de dor regional complexa), nunca em dor musculoesquelética comum ou em dor sem diagnóstico.
- A infusão usa doses subanestésicas (faixa habitual em torno de 0,1 a 0,5 mg/kg/h), exige ambiente monitorado, equipe treinada em sedação e via aérea, e o sucesso se mede em função (sono, movimento, menos resgate), não só no número da escala de dor. A clínica não realiza infusão de cetamina; avalia, trata de forma conservadora e encaminha quando há indicação.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é cetamina intravenosa para dor crônica
Cetamina intravenosa para dor crônica é a administração de cetamina pela veia, em ambiente médico monitorado, em doses subanestésicas, com o objetivo de modular circuitos de dor em casos selecionados. Doses subanestésicas (analgésicas) são uma ordem de grandeza menores do que as doses de indução anestésica (1 a 2 mg/kg em bolus); ainda assim a cetamina continua sendo um medicamento de alto cuidado, com efeitos cardiovasculares, sedativos e neuropsíquicos possíveis.
A cetamina é um derivado da fenciclidina, comercializada em geral como mistura racêmica de dois enantiômeros (S e R), além da formulação isolada de S-cetamina (esketamina). É lipofílica, tem início de ação rápido e meia-vida de eliminação relativamente curta; seu metabólito ativo norcetamina contribui para o efeito. Esses detalhes importam porque explicam por que a via, a velocidade de infusão e a duração mudam completamente o perfil clínico: um bolus rápido produz pico de concentração e mais efeito psicotomimético, enquanto uma infusão contínua e lenta busca uma concentração plasmática estável na faixa analgésica.
Do ponto de vista regulatório, a cetamina injetável deve ser interpretada a partir da bula do produto e da norma local aplicável. O uso para dor crônica costuma exigir decisão especializada e em geral configura uso off-label, fora da bula aprovada para esta indicação no Brasil, conforme formulação, protocolo e país. Isso não torna a discussão automaticamente inadequada, mas exige consentimento informado documentado, justificativa clínica, registro e um serviço preparado para monitoramento. Não é um procedimento para ser improvisado.
O ponto mais importante é não confundir dor intensa com indicação automática. A indicação depende do tipo de dor, do mecanismo predominante, da história clínica, dos tratamentos já tentados, das doenças associadas e da capacidade do serviço de monitorar o paciente. Para a maioria das dores musculoesqueléticas, lombares, cervicais, miofasciais ou articulares comuns, o primeiro plano continua sendo diagnóstico, educação em dor, exercício progressivo, sono, tratamento de comorbidades e reabilitação.
“Dor muito forte já é indicação para fazer cetamina na veia.”
A intensidade isolada da dor não indica o procedimento. O que pesa é o mecanismo (neuropático ou nociplástico), o impacto funcional, o risco individual e a falha documentada de tratamentos bem conduzidos. Sem isso, a infusão entra em terreno frágil.
Mecanismo: receptor NMDA, wind-up e sensibilização central

A cetamina é um antagonista não competitivo do receptor N-metil-D-aspartato (NMDA), um canal iônico glutamatérgico presente nos neurônios do corno dorsal da medula e em vias supraespinhais. Em repouso, o poro do canal NMDA fica bloqueado por um íon magnésio. Quando há estimulação nociceptiva intensa e repetida, a despolarização da membrana remove esse bloqueio de magnésio e permite a entrada de cálcio, o que potencializa a transmissão.
A cetamina se liga a um sítio dentro do canal aberto (bloqueio uso-dependente), reduzindo essa potencialização. Em doses subanestésicas, ela também tem ações secundárias descritas sobre receptores opioides, canais de sódio, receptores colinérgicos e a recaptação de monoaminas, o que ajuda a explicar componentes do efeito analgésico e dos efeitos adversos.
O receptor NMDA é central no fenômeno de wind-up: quando fibras nociceptivas tipo C são estimuladas de forma repetida, a resposta dos neurônios de segunda ordem do corno dorsal aumenta progressivamente a cada estímulo, mesmo com intensidade constante. Esse somatório temporal é um dos blocos de construção da sensibilização central, um estado em que o sistema nervoso amplifica a dor, reduz seu próprio controle inibitório e passa a responder a estímulos que antes não eram dolorosos. Clinicamente, isso aparece como alodinia (dor a toque leve), hiperalgesia (resposta exagerada a um estímulo doloroso) e expansão da área dolorosa para além da lesão original.
Ao antagonizar o NMDA, a cetamina tem o potencial de reverter parcialmente a sensibilização central e de reduzir a hiperalgesia, inclusive a hiperalgesia induzida por opioides. Há também a hipótese de que ela reforce a modulação inibitória descendente (vias que partem da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostroventromedial em direção à medula) e o efeito poupador de opioides, permitindo controlar a dor com menos opioide. Esse é o argumento conceitual para considerá-la justamente nos quadros em que o problema não é mais a lesão tecidual ativa, e sim um sistema nervoso reativo.
Esse raciocínio é especialmente relevante na dor neuropática e em dores com características nociplásticas. A dor neuropática decorre de lesão ou doença do sistema somatossensorial, como neuralgia pós-herpética, dor pós-lesão nervosa, neuropatia diabética dolorosa, dor pós-amputação (membro fantasma) ou dor após lesão medular. A dor nociplástica envolve processamento alterado da dor mesmo sem lesão tecidual proporcional ou dano nervoso claro; fibromialgia, síndrome de dor regional complexa e alguns quadros persistentes podem ter componentes mistos.
Na prática, muitos pacientes têm mais de um mecanismo ao mesmo tempo: uma dor lombar pode ter componente mecânico, miofascial, radicular, inflamatório, neuropático e de sensibilização. Por isso a infusão não deve ser decidida apenas pelo nome do diagnóstico: o exame físico, o padrão de irradiação no dermátomo, os sinais de dor neuropática (alodinia, disestesia, déficit sensitivo) e a resposta a tratamentos prévios contam mais do que a vontade de tentar algo forte.
O interesse pela cetamina não vem de ser um analgésico mais potente, e sim de atuar num alvo (o canal NMDA, o wind-up e a sensibilização central) que os analgésicos comuns não alcançam, o que só faz sentido quando esse é, de fato, o mecanismo predominante da dor.
Quando pode ser discutida e quando geralmente não é o próximo passo
A tabela abaixo resume o raciocínio clínico e ajuda a separar uma indicação plausível de um uso precipitado. A maioria dos quadros de dor não chega a esse degrau.
| Cenário | Interpretação prática |
|---|---|
| Dor neuropática refratária (neuralgia pós-herpética, neuropatia diabética dolorosa, dor pós-lesão nervosa) | Pode ser discutida quando diagnóstico, território nervoso e tratamentos prévios de primeira linha foram revisados por especialista. |
| Síndrome de dor regional complexa (SDRC) | É a condição com mais estudos dedicados; a resposta é variável e o tratamento continua multimodal, com reabilitação no centro. |
| Dor difusa com sensibilização central (ex.: fibromialgia) | Exige cautela; pode haver interesse teórico, mas a evidência é limitada e a indicação depende de gravidade, incapacidade, comorbidades e histórico. |
| Dor muscular comum ou crise mecânica recente | Geralmente não é o próximo passo. Avaliação, carga adequada, fisioterapia e manejo conservador vêm antes. |
| Dor sem diagnóstico mínimo | Não é bom alvo. Primeiro é preciso entender se há causa inflamatória, neurológica, visceral, infecciosa, tumoral ou mecânica. |
| Hipertensão instável, doença cardíaca relevante ou risco psiquiátrico não controlado | Pode contraindicar ou exigir ambiente de maior suporte. A decisão deve ser especializada. |
| Expectativa de cura garantida | É um sinal de alerta. A proposta é reduzir dor e abrir janela para recuperar função. |
Numa indicação especializada, a pergunta não é se a cetamina existe, e sim se ela é o passo certo para aquela pessoa, naquele momento.
O tratamento em detalhe: cetamina e o plano multimodal
A cetamina intravenosa nunca é uma terapia isolada. Quando entra na conversa, ela ocupa um degrau alto de uma escada de tratamento que começa em diagnóstico, educação em dor e exercício, passa por técnicas em clínica e farmacoterapia adjuvante, e só então considera procedimentos intervencionistas. As seções a seguir explicam, uma a uma, as principais peças desse plano, incluindo o protocolo da própria cetamina e as modalidades conservadoras que a clínica conduz antes de qualquer encaminhamento. Para cada modalidade vale a mesma lógica: o que é, como age, qual a evidência, o que esperar, para quem e quais os limites.
Cetamina intravenosa: indicações
Cetamina intravenosa: protocolo e dose subanestésica
Cetamina intravenosa: evidência e nível
Cetamina IV na dor crônica: sinal de benefício na dor neuropática e na SDRC, com limites metodológicos
O consenso ASRA/AAPM/ASA (2018) reconhece maior plausibilidade na dor neuropática e na síndrome de dor regional complexa, com melhor resposta associada a doses mais altas e infusões mais longas, mas alerta para amostras pequenas, dificuldade de montar um grupo de comparação convincente e poucos dados de longo prazo. A recomendação prática é uso seletivo, com triagem cuidadosa, monitoramento e metas funcionais claras, e nunca como primeira linha.
Ver referências →Cetamina intravenosa: efeitos adversos e segurança
As modalidades a seguir são as que a clínica efetivamente conduz antes de cogitar um encaminhamento para infusão. Elas existem porque, na maioria dos casos, há ganho funcional a obter com tratamento conservador bem dosado, e porque otimizar essas etapas muda a própria decisão sobre se a cetamina é, de fato, necessária.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
Bloqueios anestésicos
Farmacoterapia adjuvante para dor neuropática
O paciente certo: mais do que dor forte
Um paciente pode ter dor 9 de 10 e ainda assim não ser bom candidato naquele momento. Outro pode ter dor 6 de 10, mas com alodinia intensa, sono destruído, incapacidade progressiva e falha documentada de tratamentos bem conduzidos. A intensidade isolada da dor é insuficiente. A seleção costuma considerar mecanismo, impacto funcional, risco clínico e a trajetória de tratamento.
Antes de discutir cetamina, vale organizar cinco pontos. Primeiro, qual é o diagnóstico mais provável. Segundo, qual mecanismo predomina: nociceptivo, neuropático, nociplástico ou misto. Terceiro, o que já foi tentado, com dose, duração e adesão adequadas (por exemplo, um tricíclico ou um gabapentinoide titulados de fato até a dose efetiva ou a intolerância).
Quarto, quais riscos individuais existem: pressão, coração, fígado, rim, saúde mental, uso de álcool ou substâncias, histórico de dissociação intensa, quedas ou sedação. Quinto, qual meta será medida depois: sono, marcha, trabalho, treino, autocuidado, redução de alodinia ou menor necessidade de resgate.
Esse cuidado evita uma armadilha comum: usar um procedimento para compensar a ausência de um plano. Se o paciente não tem diagnóstico claro, não sabe quais atividades pode fazer, não recebeu progressão de exercício, dorme mal, usa medicações de forma confusa e não tem critério de reavaliação, uma infusão pode até parecer sofisticada, mas entra em terreno frágil.
Uma boa avaliação pré-procedimento reduz risco e melhora a chance de interpretar a resposta corretamente. Seis pontos costumam precisar estar claros antes de qualquer infusão.
Qual dor está sendo tratada
E por que a cetamina faria sentido para esse mecanismo, e não apenas porque a dor é forte.
O que já foi tentado
Quais tratamentos, por quanto tempo e com que resposta, para confirmar que a dor é mesmo refratária.
Triagem clínica e mental
Pressão, coração, saúde mental, uso de substâncias e medicações precisam ser revisados antes.
Estrutura para monitorar
O local deve ter monitoramento, equipe treinada e plano para eventos adversos.
Dor e função, não só sensação
A resposta deve ser medida por dor e por função, não apenas pela sensação imediata.
Encaixe no plano
A infusão precisa se encaixar em um plano de reabilitação, sono, medicação e retorno.
Como costuma ser o monitoramento
Os protocolos variam entre serviços, mas a segurança é constante. Diretrizes e bulas ressaltam que a cetamina pode alterar pressão arterial, frequência cardíaca, nível de consciência, percepção, respiração e a recuperação após a administração. Por isso a infusão deve ocorrer em ambiente preparado, com profissionais treinados em sedação, via aérea e manejo de intercorrências.
Em termos práticos, o serviço costuma avaliar sinais vitais antes, durante e depois; acompanhar pressão e frequência cardíaca; observar oxigenação por oximetria e a respiração conforme o risco; manter acesso venoso; orientar jejum quando aplicável; definir acompanhante e restrição para dirigir; e registrar eventos como náusea, tontura, sonhos vívidos, ansiedade, dissociação, aumento de pressão ou sonolência prolongada.
O paciente deve sair sabendo o que é esperado nas próximas horas, o que exige contato com o serviço e quando será feita a reavaliação. A segurança não termina quando a infusão acaba: quedas, confusão, sedação, náusea e alterações de percepção podem impactar deslocamento, trabalho, direção, decisões importantes e o uso de outros medicamentos.
Triagem e preparo
Revisão de diagnóstico, riscos e medicações; consentimento informado; jejum quando indicado; acesso venoso e definição de acompanhante.
Monitoramento ativo
Pressão, frequência cardíaca, oximetria e nível de consciência acompanhados de perto, com titulação lenta e equipe pronta para intercorrências.
Recuperação e orientação
Observação até estabilizar, restrição para dirigir no dia, sinais de alerta combinados e data de reavaliação de dor e função.
Riscos e efeitos adversos que entram na decisão
A cetamina pode causar náusea, vômito, tontura, sonolência, sensação de dissociação, sonhos vívidos, alucinações transitórias, ansiedade, euforia, alterações de percepção, aumento de pressão arterial, aumento de frequência cardíaca e, em situações de dose elevada ou administração rápida, depressão respiratória. Em tratamentos repetidos ou em usos fora de ambiente monitorado, há ainda preocupação com abuso, mau uso, cistite induzida por cetamina e alterações hepatobiliares, que são toxicidades de exposição cumulativa.
Algumas condições exigem prudência especial: hipertensão não controlada, doença cardiovascular em que o aumento de pressão represente risco, arritmias relevantes, doença psiquiátrica instável, psicose, ideação suicida sem suporte adequado, uso problemático de álcool ou de outras substâncias, doença hepática importante, gestação, glaucoma ou hipertensão intracraniana. Cada um desses fatores exige triagem clínica detalhada antes do procedimento.
Também é preciso cautela com o discurso de microdose, terapia alternativa, protocolo detox ou uso domiciliar sem monitoramento. A via intravenosa, a dose, o tempo de infusão, o contexto clínico e a supervisão mudam completamente o perfil de risco. Formulações orais, sublinguais, intranasais ou manipuladas não são equivalentes a uma infusão IV monitorada e não devem ser tratadas como atalhos simples.
Procure avaliação médica sem adiar se a dor vier acompanhada de
- Perda de força progressiva, dormência em sela ou perda de controle urinário ou intestinal.
- Febre, perda de peso inexplicada, dor após trauma importante ou dor oncológica nova ou em mudança.
- Confusão, desmaios, dor torácica, falta de ar, infecção ativa ou piora neurológica.
- Dor noturna progressiva ou uso crescente de medicações sem orientação.
Nesses cenários, a prioridade não é escolher cetamina, infiltração, bloqueio ou outro procedimento. A prioridade é confirmar se existe uma condição que precisa de diagnóstico e tratamento específicos. Procedimento sem diagnóstico pode atrasar um cuidado essencial.
Cetamina, depressão e dor: temas relacionados, não iguais
Muitos pacientes com dor crônica também têm depressão, ansiedade, insônia, trauma, medo de movimento ou sofrimento prolongado. Isso não significa que a dor seja psicológica. Significa que a dor persistente envolve corpo, sistema nervoso, sono, humor, atenção, memória, ameaça percebida e contexto de vida. A cetamina ganhou visibilidade também na psiquiatria, em especial com a esketamina intranasal para depressão resistente, mas o raciocínio, o produto, a via, o protocolo, a indicação e o monitoramento não são automaticamente os mesmos do tratamento de dor.
Quando o sofrimento emocional é importante, a melhor conduta costuma ser integrada: médico, reabilitação, psicologia quando indicada, revisão de sono, medicações e metas funcionais. Em alguns casos, psiquiatra e especialista em dor precisam conversar. O erro seria usar a cetamina como promessa rápida para resolver uma dor complexa sem cuidar dos demais fatores que mantêm a incapacidade.
“Se a cetamina ajuda na depressão resistente, deve servir igual para a minha dor.”
São aplicações distintas. Produto, via, dose, protocolo e indicação diferem entre psiquiatria e dor. Coexistir depressão pode mudar a avaliação, mas não transforma a indicação para dor em automática.
O que perguntar ao especialista antes de aceitar o procedimento
Uma consulta bem feita deve deixar respostas claras. O paciente pode perguntar: qual é meu diagnóstico principal? Minha dor parece neuropática, nociplástica ou mista? Que tratamentos conservadores ainda fazem sentido antes?
A cetamina é primeira tentativa ou opção após falhas documentadas? Quais benefícios são realistas no meu caso? Que riscos pessoais eu tenho? Quem monitora a infusão?
O serviço tem estrutura para sedação e intercorrências? Como vou medir a resposta?
Também vale perguntar quando parar. Se a primeira tentativa não melhora dor, sono, movimento ou função, qual será o próximo passo? Haverá repetição? Com que critério?
O objetivo é reduzir a medicação de resgate, melhorar a tolerância ao exercício, diminuir a alodinia, permitir a fisioterapia, voltar ao trabalho ou apenas reduzir o número na escala de dor? Sem critérios, o tratamento pode virar uma tentativa e erro cara, ansiosa e pouco informativa.
- Mecanismo. Por que a cetamina faria sentido para o meu tipo de dor.
- Linha de tratamento. O que já falhou e por que este é o momento de considerar uma infusão.
- Segurança. Quem monitora, com que estrutura e quais riscos são meus em particular.
- Critério de sucesso. Qual ganho funcional define que valeu a pena, e quando parar se não vier.
Como avaliamos esse tema na clínica
Na clínica, a conversa começa antes da técnica. Avaliamos se a dor parece muscular, articular, neuropática, radicular, visceral, inflamatória, pós-cirúrgica, pós-traumática ou centralizada. Revemos exames, medicações, tratamentos tentados, sono, atividade, medo de movimento e metas. Isso ajuda a separar o paciente que precisa de reabilitação bem dosada daquele que precisa de investigação adicional ou de encaminhamento para dor intervencionista.
Quando a dor parece refratária e a cetamina surge como possibilidade, nosso papel é organizar a indicação e encaminhar para um serviço ou médico habilitado, não vender infusão. A clínica não realiza infusão intravenosa de cetamina. Muitas vezes, antes disso, ainda há espaço para otimizar a fisioterapia individual, os exercícios de força supervisionados, o Pilates individual quando adequado, a acupuntura médica, o tratamento de pontos-gatilho, o ajuste de carga, a revisão de medicamentos adjuvantes e o manejo do sono.
Isso não diminui a dor do paciente. Pelo contrário: evita que uma dor complexa seja tratada como se bastasse escolher a técnica mais forte. Um bom plano é proporcional. Ele não banaliza a dor persistente, mas também não pula etapas importantes de segurança e de diagnóstico.
Diagnóstico e educação em dor
Definir o mecanismo predominante (mecânico, miofascial, neuropático, nociplástico) e alinhar expectativas. Sem diagnóstico, não há indicação de procedimento.
Exercício e reabilitação
Base do tratamento da dor crônica, com a melhor relação entre evidência e segurança; é o que sustenta o resultado ao longo do tempo.
Técnicas em clínica e medicação adjuvante
Acupuntura médica, agulhamento seco, infiltração de pontos-gatilho, bloqueios e fármacos (tricíclicos, duloxetina, gabapentinoides) com indicação, dose e duração definidas pelo médico.
Encaminhamento intervencionista
Quando a dor é refratária e há indicação plausível, organizamos o quadro e encaminhamos para serviço habilitado em procedimentos como a cetamina IV.
Quando a cetamina entra na conversa, costumo dizer ao paciente que meu papel não é aplicar a infusão, e sim garantir que, se ela for feita, seja pela razão certa, na hora certa e com a estrutura certa. Encaminhar bem, com a indicação organizada e a meta clara, costuma proteger mais o paciente do que oferecer um procedimento forte cedo demais.
Quem pergunta por cetamina raramente chega no começo da jornada. Em geral é alguém que já passou por tricíclico, gabapentinoide ou duloxetina, às vezes por bloqueios, e chega trazendo o nome do procedimento como uma última carta. Boa parte do meu trabalho nessa consulta é ir para trás: confirmar se cada uma dessas etapas foi de fato titulada até a dose útil ou a intolerância, porque é comum encontrar um gabapentinoide abandonado em dose baixa, rotulado como falha quando nunca chegou a ser testado.
O que mais costuma surpreender é a parte da experiência. Quando explico que a infusão pode trazer uma sensação dissociativa, de distanciamento do próprio corpo, há quem recue e há quem se interesse demais, e ambos os extremos pedem conversa. Prefiro que a pessoa saiba antes que isso é esperado, dependente da dose e da velocidade, e que existe pré-medicação para suavizar, do que descobrir no meio da infusão e interpretar como algo dando errado.
A expectativa que mais preciso ajustar é a de que a cetamina seja um botão de desligar a dor. Mesmo quando ajuda, ela costuma abrir uma janela em que dá para dormir e tolerar a fisioterapia, e é o que se faz dentro dessa janela que decide se o ganho se sustenta. Por isso encaminho com a reabilitação já combinada, não como um evento isolado a que se volta sempre que a dor reaparece.
Na dor, o que muda o desfecho não é a cetamina em si, mas a curva de concentração no tempo: o mesmo fármaco, em bolus rápido, produz pico, mais dissociação e pouco benefício analgésico sustentado, enquanto em infusão lenta e prolongada busca uma concentração estável na faixa que realmente modula o receptor NMDA. Por isso a evidência mais favorável aparece justamente nos protocolos de dose mais alta e infusão mais longa, e por isso comparar cetamina intravenosa monitorada com uma versão oral, sublingual ou nasal manipulada não faz sentido: a curva o modo como o corpo processa o remédio é outra, de modo que se trata, na prática, de um tratamento distinto, e não da mesma terapia por outra porta de entrada. A pergunta clínica não é se a cetamina funciona, e sim com qual protocolo, em qual diagnóstico e com qual meta funcional ela tem chance razoável de ajudar.
Como medir se ajudou
Antes de qualquer intervenção, registre três dados simples: a dor média na última semana, o pior momento do dia e a atividade mais limitada. Depois, acompanhe se houve mudança real: dormir mais horas, caminhar mais, sentar por mais tempo, tolerar a fisioterapia, reduzir a alodinia, usar menos resgate, voltar a trabalhar, subir escadas, cuidar da casa ou retomar exercício leve.
Uma redução pequena na escala de dor pode ser relevante se a função melhora. O contrário também vale: uma queda momentânea da dor, sem ganho funcional, pode não justificar repetir a estratégia. Em dor crônica, o objetivo não é apenas sentir menos por algumas horas; é recuperar autonomia com segurança. Essa é a régua que decide se a infusão merece ser repetida ou se o plano precisa mudar de direção.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
A clínica faz infusão de cetamina?
Não. A clínica não realiza infusão intravenosa de cetamina. Podemos avaliar o quadro de dor, otimizar o tratamento conservador e encaminhar para especialista ou serviço habilitado quando a indicação for plausível.
Cetamina intravenosa é tratamento de primeira linha para dor crônica?
Não. Em geral é uma opção especializada para casos refratários e selecionados. Diagnóstico, educação em dor, exercício progressivo, sono, medicações adjuvantes apropriadas (tricíclicos, duloxetina, gabapentinoides), fisioterapia e manejo de comorbidades vêm antes na maioria dos casos.
Qual é a dose usada na infusão?
São doses subanestésicas, muito menores que as de anestesia, com faixa habitual em torno de 0,1 a 0,5 mg/kg/h em infusão controlada. A dose exata, a velocidade e a duração são definidas pelo serviço habilitado, ajustadas à tolerância e à resposta.
Serve para dor lombar, cervical ou dor muscular comum?
Geralmente não como próximo passo. Dores musculoesqueléticas comuns precisam primeiro de avaliação clínica, exclusão de sinais de alerta, reabilitação e ajuste de carga. A cetamina não deve substituir esse processo.
Quais tipos de dor são mais discutidos?
A literatura discute principalmente a dor neuropática e a síndrome de dor regional complexa, com menor peso para alguns quadros de sensibilização central. Mesmo nesses grupos, a resposta varia e depende de seleção adequada.
Quais são os principais riscos?
Podem ocorrer náusea, tontura, sedação, dissociação, sonhos vívidos, ansiedade, alterações de pressão e de frequência cardíaca e alterações de percepção; em situações específicas, risco respiratório. Com uso repetido, há preocupação com cistite induzida por cetamina e alterações hepáticas. Por isso o procedimento exige monitoramento.
Cetamina oral, sublingual ou nasal é a mesma coisa?
Não. Via, dose, absorção, contexto e monitoramento mudam o perfil de risco. Produtos manipulados ou usados em casa não devem ser tratados como equivalentes a uma infusão intravenosa supervisionada.
Posso dirigir depois?
Em geral, procedimentos com sedação ou alteração de percepção exigem acompanhante e restrição para dirigir no mesmo dia, conforme a orientação do serviço. O plano deve ser definido antes da infusão.
Se eu tenho depressão junto com a dor, isso muda a indicação?
Pode mudar a avaliação, mas não transforma a indicação em automática. Dor crônica e saúde mental precisam ser cuidadas de forma integrada, frequentemente com médico da dor, reabilitação e psiquiatria quando necessário.
Referências1 fonte citada neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas sobre publicidade médica e procedimentos: vedação a garantia de resultado e a promessa de cura.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A cetamina intravenosa para dor é uma opção especializada para casos refratários e selecionados, exige ambiente monitorado e depende de avaliação e diagnóstico. A clínica não realiza infusão de cetamina.

