Dor de cabeça e ânsia de vômito
Dor de cabeça com náusea ou ânsia de vômito (enjoo) é, na maioria das vezes, a assinatura da enxaqueca, benigna e tratável. Numa minoria, pode sinalizar aumento da pressão no crânio.
- E quando é só ânsia de vômito, sem dor de cabeça? Aí a origem costuma ser digestiva, emocional, labiríntica ou hormonal, e não a enxaqueca: o enjoo isolado tem causas próprias.
- Dor de cabeça com náusea ou ânsia de vômito é, na maioria das vezes, enxaqueca: a náusea faz parte do próprio mecanismo da crise, junto da sensibilidade à luz e ao som.
- O sinal de alerta principal é o vômito em jato, sem náusea que o anteceda, associado a dor que piora pela manhã ou ao deitar, a déficit neurológico ou a uma dor nova depois dos 50 anos.
- O tratamento da enxaqueca une o controle da crise (analgésico ou triptano mais antiemético) à profilaxia e a um plano multimodal não cirúrgico, reavaliado conforme a resposta.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
- Enxaqueca
- Dor latejante, luz e som incomodam, melhora no escuro e quieto.
- Cefaleia tensional
- Aperto em faixa nos dois lados, enjoo leve, sem vômito.
- Cefaleia cervicogênica
- Dor que sobe da nuca, piora com o movimento do pescoço.
- Labiríntica
- Vertigem e enjoo intenso ao mexer a cabeça, sem dor central.
- Gravidez
- Ânsia matinal em mulheres, causa clássica a lembrar.
- Ansiedade
- Enjoo com coração acelerado e falta de ar, sem doença digestiva.
- Virose / infecção alimentar
- Diarreia e febre baixa dominam o quadro.
- Jejum / desidratação
- Ânsia ácida ao acordar, melhora ao comer algo leve.
Padrão de dor latejante recorrente aponta para enxaqueca, a causa mais comum, detalhada a seguir. Vômito em jato ou dor súbita e intensa pedem avaliação imediata, veja «sinais de alerta de pressão no crânio».
Enquanto a causa é esclarecida, medidas gerais e seguras costumam ajudar: repouso em ambiente escuro e silencioso, hidratação e regularidade de sono e das refeições, evitando jejum prolongado. Analgésico, triptano ou antiemético são definidos em consulta, não por conta própria. Diante de qualquer sinal de alerta, veja «sinais de alerta de pressão no crânio» e procure avaliação sem demora.
Por que a enxaqueca dá ânsia de vômito
Náusea e vômito não são um acaso na enxaqueca: são parte do quadro, tão característicos quanto a própria dor. Quem convive com enxaqueca reconhece a sequência, o enjoo que vem junto da dor latejante e da aversão à luz.
Durante a crise, a ativação do sistema trigeminovascular (as fibras do nervo trigêmeo que inervam os vasos da dura-máter) libera neuropeptídeos vasoativos, sobretudo o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), além de substância P e PACAP. Esses sinais sobem pelo núcleo trigeminocervical até o tronco encefálico, e não ficam restritos à via da dor. O mesmo circuito ativa a área postrema, no assoalho do quarto ventrículo, que funciona como zona de gatilho quimiorreceptora (CTZ): por estar fora da barreira hematoencefálica, ela detecta sinais circulantes e dispara o reflexo do vômito através do núcleo do trato solitário e das aferências do nervo vago. É essa cascata, e não o estômago, que gera o enjoo.
Soma-se a isso uma gastroparesia da crise: o esvaziamento gástrico fica lento durante o episódio, mediado em parte pela mesma ativação autonômica. O resultado prático é duplo: o enjoo aumenta e a absorção dos comprimidos tomados por via oral cai, o que ajuda a explicar por que um analgésico “que sempre funcionou” às vezes parece não fazer efeito no auge da dor. Por isso a náusea anda de mãos dadas com a dor, e o controle dela é parte do tratamento.
A náusea é um sintoma central da enxaqueca, gerada no tronco encefálico ao mesmo tempo que a dor, e não uma reação do estômago. Isso muda a conduta de forma concreta. Primeiro, o antiemético faz parte do tratamento da crise, e tomado cedo melhora a absorção do analgésico ao reverter a gastroparesia, de modo que tratar a náusea desde o início encurta a crise inteira. Segundo, é por isso que remédio de estômago ou medidas para o fígado não resolvem: o alvo não está ali.
Os critérios diagnósticos vêm da Classificação Internacional das Cefaleias, 3ª edição. Para enxaqueca sem aura, exigem ao menos cinco crises que duram de 4 a 72 horas (sem tratamento), com pelo menos duas destas quatro características, dor de um lado só, pulsátil, de intensidade moderada a forte, ou que piora com atividade física rotineira, e ao menos uma de duas associações: náusea e/ou vômito, ou fotofobia e fonofobia juntas (incômodo com luz e com som). Ou seja, a náusea está escrita nos próprios critérios. Cerca de um terço das pessoas tem aura antes ou durante a dor, sintomas neurológicos transitórios, em geral visuais (pontos luminosos, linhas em ziguezague), de fala ou sensitivos, que se instalam em 5 a 20 minutos e duram menos de 60.
Entender esse desenho é o que separa um enjoo benigno de crise de um sinal que merece investigação, tema das próximas seções. Para um panorama dos diferentes quadros, veja os tipos de dor de cabeça.
“Dor de cabeça que dá enjoo é sempre coisa do estômago ou do fígado.”
Na enxaqueca, a náusea nasce no próprio mecanismo da crise, no tronco encefálico, e não no aparelho digestivo. Tratar a enxaqueca costuma resolver a náusea junto.
Ânsia de vômito sem dor de cabeça: outras causas
Nem toda ânsia de vômito vem acompanhada de dor de cabeça, e nem toda náusea é enxaqueca. Quando o enjoo aparece sozinho, ou domina o quadro, vale percorrer as causas que nada têm a ver com a cabeça, porque o tratamento muda por completo.
As mais comuns são digestivas: refluxo, gastrite, infecção alimentar e a má digestão produzem ânsia, às vezes pela manhã ou logo após comer. A ânsia em jejum, ao acordar com o estômago vazio, costuma ser ácida e melhora ao comer algo leve. Há também a causa labiríntica: as crises de tontura e vertigem vêm com enjoo intenso, suor e a sensação de que o ambiente gira, e aí o gatilho é o movimento da cabeça, não a dor.
Em mulheres, a gravidez é uma causa clássica de ânsia matinal e merece ser lembrada antes de qualquer exame. E vários medicamentos, de anti-inflamatórios a antibióticos, têm o enjoo como efeito conhecido.
Existe ainda a ânsia de fundo emocional. Ansiedade, crises de pânico e estresse agudo ativam o eixo entre o cérebro e o intestino e produzem enjoo, aperto no estômago e vontade de vomitar sem nenhuma doença digestiva por trás. É um sintoma real, não imaginado, e costuma vir junto de coração acelerado, falta de ar e a sensação de perigo iminente.
Reconhecer esse padrão evita uma maratona de exames digestivos e direciona o cuidado para a origem certa. O termo popular para tudo isso é o mesmo, enjoo, e a chave do diagnóstico é o que acompanha a ânsia, não a palavra usada para descrevê-la.
Com dor de cabeça pulsátil
Enjoo que chega com dor de cabeça latejante, piora com luz e som e melhora no escuro: o padrão é de enxaqueca, detalhado no restante deste guia.
Sem dor de cabeça
Ânsia ligada a refeições, jejum, azia, tontura giratória, atraso menstrual ou a momentos de ansiedade aponta para causa digestiva, labiríntica, hormonal ou emocional, e pede outro caminho de investigação.
Em qualquer cenário, a ânsia que vem com sinais de alarme, vômito em jato, dor de cabeça súbita e intensa ou alteração neurológica, sai dessa lista e exige avaliação imediata, como descrito nos sinais de alerta adiante.
O que mais pode ser
A combinação de dor de cabeça e enjoo aparece em mais de um quadro. A divisão clínica que importa é entre cefaleia primária (a dor é a própria doença, como na enxaqueca e na tensional) e cefaleia secundária (a dor é sintoma de outra condição). A maioria é primária e benigna, mas o padrão dos sintomas orienta a hipótese. A tabela reúne as pistas que diferenciam as causas comuns das que pedem cautela.
| Quadro | Como a dor e o enjoo se apresentam | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Enxaqueca | Dor pulsátil, em geral de um lado, com náusea, às vezes vômito que alivia a crise | Luz e som incomodam; episódios recorrentes; pode ter aura; melhora em ambiente escuro e quieto |
| Cefaleia tensional | Aperto em faixa nos dois lados, enjoo leve no máximo | Sem vômito; sem fotofobia marcante; ligada a tensão e postura |
| Cefaleia cervicogênica | Dor que sobe da nuca, de um lado, com enjoo discreto | Piora com o movimento e a postura do pescoço; mobilidade cervical reduzida |
| Causa gastrintestinal | Náusea e vômito em primeiro plano, dor de cabeça secundária | Sintomas digestivos dominam; diarreia, febre baixa, contexto de virose ou alimento |
| Hipertensão intracraniana / tumor | Dor que piora pela manhã ou ao deitar, vômito em jato | Vômito sem náusea que o anteceda; piora com manobra de Valsalva (tosse, esforço); papiledema no fundo de olho |
| Hemorragia subaracnóidea | Dor explosiva, “a pior da vida”, com vômito e rigidez de nuca | Cefaleia em trovoada: ápice em segundos a 1 minuto; pode ter perda de consciência |
| Meningite / encefalite | Dor difusa e progressiva, vômito, prostração | Febre, rigidez de nuca, fotofobia intensa, confusão; sinais de Kernig e Brudzinski |
| Glaucoma agudo de ângulo fechado | Dor periorbitária de um lado, vômito intenso | Olho vermelho e duro, pupila média fixa, visão borrada com halos ao redor das luzes |
| Intoxicação por monóxido de carbono | Dor difusa, náusea e vômito, tontura, sonolência | Vários moradores ou colegas com sintomas ao mesmo tempo; aquecedor ou motor em ambiente fechado; melhora ao sair do local |
As quatro últimas linhas são as causas que não se pode perder. Cada uma tem uma assinatura própria. Na hipertensão intracraniana (por tumor, hidrocefalia ou hipertensão idiopática), a dor piora deitado e pela manhã porque a posição horizontal e o sono dificultam a drenagem venosa e do líquido cefalorraquidiano; o vômito “em jato”, sem náusea que o anteceda, vem da pressão direta sobre a área postrema, e o achado de exame é o papiledema (edema do nervo óptico no fundo de olho). A hemorragia subaracnóidea, em geral por ruptura de aneurisma, se anuncia como cefaleia em trovoada, que atinge o máximo em segundos, uma emergência absoluta.
A meningite combina dor, febre e rigidez de nuca. O glaucoma agudo eleva de forma abrupta a pressão dentro do olho e estimula o nervo vago, o que explica o vômito ao lado do olho vermelho e doloroso. E a intoxicação por monóxido de carbono é a grande imitadora: o gás se liga à hemoglobina e priva os tecidos de oxigênio, dando dor de cabeça e vômito que melhoram ao deixar o ambiente, uma pista frequentemente perdida.
A distinção nem sempre é imediata, e os quadros podem coexistir: uma noite mal dormida, jejum ou tensão cervical podem disparar a crise em quem já tem enxaqueca, somando mecanismos. A tabela é um ponto de partida, não um diagnóstico. A confirmação depende da história e do exame, e qualquer pista das quatro últimas linhas muda a conduta de forma imediata.
Sinais de alerta de pressão no crânio
A grande maioria das dores de cabeça com enjoo é benigna. O cuidado é distinguir a náusea típica da enxaqueca do vômito que sinaliza uma causa secundária, situação em que a avaliação não deve esperar. A medicina usa um roteiro sistematizado para essa triagem, com os principais sinais de alerta da cefaleia. Em linguagem clara, procure atendimento sem demora diante de qualquer um destes sinais:
Procure avaliação imediata se houver
- Dor de cabeça súbita e intensa, a pior da vida, que chega ao ápice em segundos a um minuto (cefaleia em trovoada).
- Vômito em jato, repentino e forte, sem a náusea que costuma vir antes, sobretudo se piora ao deitar, ao acordar ou ao tossir e fazer esforço.
- Febre, rigidez de nuca, confusão, sonolência fora do comum ou convulsão.
- Fraqueza, dormência, alteração da fala, visão dupla ou desequilíbrio que não passa, qualquer sinal neurológico novo.
- Cefaleia nova depois dos 50 anos, ou que muda de padrão e piora de forma progressiva.
- Dor nova em quem tem câncer, infecção pelo HIV ou imunidade baixa, na gravidez e no pós-parto, ou desencadeada por tosse, esforço ou sexo.
Cada sinal aponta para uma causa que muda a conduta. A dor súbita e máxima levanta a hipótese de hemorragia subaracnóidea e é a que mais corre contra o relógio. O vômito em jato sem náusea prévia, com piora matinal, ao deitar ou na manobra de Valsalva (tosse, evacuação, esforço), sugere aumento da pressão intracraniana, porque a posição horizontal e o esforço elevam a pressão venosa cerebral. Febre com rigidez de nuca aponta para meningite. Déficit neurológico que progride exige imagem sem demora.
A dor nova após os 50 anos obriga a considerar arterite de células gigantes e lesões expansivas; e os contextos especiais (câncer, imunossupressão, gestação) ampliam o leque de causas. Na ausência de qualquer um desses sinais, a dor de cabeça com náusea costuma ser enxaqueca e responde bem ao tratamento.
- 1 em 7adultos convive com enxaqueca ao longo da vida
- até 3xmais comum em mulheres, pela influência hormonal
- 4 a 72hduração típica de uma crise não tratada
- maioriados casos é benigna; sinais de alerta são a exceção
Como o quadro é avaliado
A avaliação parte de uma pergunta prática: a dor com enjoo é uma cefaleia primária, como a enxaqueca, ou há sinais que apontam para uma causa secundária. Na história, caracteriza-se o lado e o tipo da dor, a velocidade de instalação, o que a melhora e a piora, a relação com luz, som e movimento, e o padrão da náusea: o enjoo que acompanha e flutua com a dor da enxaqueca é diferente do vômito em jato com piora matinal. Em paralelo, rastreiam-se os sinais de alerta.
O exame neurológico verifica força, sensibilidade, reflexos, coordenação, marcha e a movimentação ocular, à procura de déficit focal. A fundoscopia (exame do fundo de olho) busca o papiledema, o sinal de pressão intracraniana elevada; a rigidez de nuca e os sinais de Kernig e Brudzinski rastreiam irritação meníngea. Diante de um quadro típico de enxaqueca e de exame normal, nenhuma imagem é necessária, recomendação alinhada às iniciativas Choosing Wisely.
A imagem fica reservada aos sinais de alerta, e a escolha do método segue a hipótese: a tomografia sem contraste é o primeiro exame na suspeita de sangramento agudo (e, se vier normal numa cefaleia em trovoada, complementa-se com punção lombar para pesquisar sangue ou xantocromia no líquor); a ressonância tem mais sensibilidade para lesões da fossa posterior, tumores e alterações vasculares. Pedir imagem sem indicação costuma gerar achados incidentais e preocupação desnecessária.
Manter um diário de cefaleia (data, duração, intensidade de 0 a 10, gatilhos, presença de náusea e medicação usada) é uma das ferramentas mais úteis. Ele confirma o padrão da enxaqueca, mostra a frequência real e orienta a decisão entre tratar só as crises ou iniciar profilaxia.
Conduta e tratamento
Confirmada a enxaqueca, o tratamento tem duas frentes: tratar a crise quando ela vem e reduzir a frequência ao longo do tempo. A abordagem é multimodal, não cirúrgica e individualizada, e une medidas para a fase aguda, profilaxia quando as crises são frequentes e técnicas em clínica que modulam a dor sem depender de medicação contínua. O objetivo é diminuir a intensidade e o número de crises a um nível que não limite a rotina.
Tratamento da crise
Tomar a medicação cedo, no início da dor; combinar o analgésico ou triptano com um antiemético para conter a náusea e melhorar a absorção; repousar em ambiente escuro e quieto.
Controle de gatilhos
Regularidade de sono, não pular refeições, hidratação, manejo do estresse e atenção a gatilhos individuais; o diário de cefaleia ajuda a identificá-los.
Profilaxia
Quando as crises são frequentes ou incapacitantes, considera-se medicação preventiva diária e técnicas não medicamentosas para reduzir a frequência.
Procedimentos em casos selecionados
Bloqueio do nervo occipital e toxina botulínica na enxaqueca crônica, dentro do plano e reavaliados pela resposta.
Tratamento da crise: abortivo
- O que é
- a medicação que interrompe a crise já instalada. Em crises leves a moderadas, começa-se por anti-inflamatórios não esteroides (anti-inflamatório, como naproxeno, ibuprofeno ou cetoprofeno) ou ácido acetilsalicílico. Nas crises moderadas a fortes, ou quando o anti-inflamatório não resolve, entram os triptanos (sumatriptano, naratriptano, rizatriptano, zolmitriptano).
- Mecanismo (calibrado)
- os triptanos são agonistas dos receptores de serotonina 5-HT1B e 5-HT1D. Pela via 5-HT1B, contraem os vasos cranianos dilatados na crise; pela 5-HT1D, inibem a liberação de neuropeptídeos (incluindo o CGRP) nas terminações trigeminais e reduzem a transmissão nociceptiva no núcleo trigeminocervical. Os anti-inflamatório atuam antes, bloqueando a cascata inflamatória (prostaglandinas) que sensibiliza essas mesmas fibras.
- Evidência
- robusta, com triptanos e anti-inflamatório entre os tratamentos agudos de primeira linha em diretrizes internacionais.
- O que esperar · indicações · limitações
- o efeito costuma aparecer em 30 a 120 minutos, e tomar a dose cedo, logo no início da dor, melhora muito a resposta. Os triptanos são contraindicados em doença coronariana, infarto ou AVC prévios e hipertensão não controlada, pela ação vasoconstritora, e não devem ser combinados com ergotamínicos. O limite de uso é tão importante quanto a dose: anti-inflamatório ou analgésicos simples em 15 ou mais dias por mês, ou triptanos e combinações em 10 ou mais dias por mês, podem transformar a enxaqueca em cefaleia por uso excessivo de medicação, uma dor que se torna quase diária. A escolha, a dose e a duração cabem ao médico.
Antieméticos na crise
- O que é
- medicação que controla a náusea e o vômito da crise. Não é um acessório, é parte do tratamento abortivo, e em muitos casos deve ser tomada junto com o analgésico. As opções habituais são a metoclopramida, a domperidona e a ondansetrona; no pronto-atendimento, antagonistas dopaminérgicos como a clorpromazina ou a proclorperazina também controlam náusea e dor.
- Mecanismo (calibrado)
- aqui está o detalhe que muda a conduta. A metoclopramida e a domperidona são antagonistas dos receptores dopaminérgicos D2 na área postrema (a zona de gatilho quimiorreceptora), e a metoclopramida acrescenta um efeito procinético, acelerando o esvaziamento gástrico que a crise havia tornado lento. Esse duplo efeito tem uma consequência prática importante: ao reverter a gastroparesia, o antiemético melhora a absorção do analgésico tomado por via oral, de modo que a dupla “anti-inflamatório ou triptano + antiemético” tende a funcionar melhor do que o analgésico isolado. A ondansetrona age por outro receptor, é antagonista da 5-HT3, e é uma alternativa potente para a náusea, embora com menos efeito sobre a motilidade gástrica.
- Evidência · o que esperar · limitações
- a metoclopramida tem evidência de boa qualidade no controle da crise de enxaqueca, isolada e como adjuvante. O alívio da náusea costuma vir em 30 a 60 minutos. Como limitações, os antagonistas D2 podem causar sonolência e, sobretudo em jovens e em uso repetido, reações extrapiramidais (inquietação, contraturas); a domperidona exige cautela em quem tem alterações do ritmo cardíaco (prolongamento do intervalo QT); a ondansetrona compartilha esse cuidado com o QT e pode causar constipação. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente.
O que mais separa quem controla bem as crises de quem sofre por horas costuma ser o relógio, e não o remédio em si. Quem aprende a tratar a náusea junto com a dor, logo no aviso da crise (a aversão à luz, o “estômago embrulhado”, o bocejo), em geral relata crises mais curtas do que quando espera “para ver se passa” e toma o comprimido só no auge, já enjoado, quando o estômago lento mal absorve.
Surpreende muita gente descobrir que o analgésico “parou de funcionar” não porque o corpo se acostumou, mas porque no pico da crise o estômago praticamente para. É um alívio para o paciente entender que o problema é de timing e absorção, e que tomar cedo, ou usar uma via que não dependa do estômago, costuma resolver.
Na anamnese, a pergunta que mais ajuda a separar enxaqueca de sinal de alerta não é sobre a dor, e sim sobre a sequência da náusea: na enxaqueca o enjoo vem antes e acompanha a dor; o vômito que assusta é o que jorra de repente, sem aviso, com a dor pior ao acordar ou ao deitar. Quando o relato é esse, a conduta deixa de ser ajustar antiemético e passa a ser investigar.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Na enxaqueca com náusea, a acupuntura tem um interesse duplo que poucas modalidades reúnem: age sobre a dor e sobre o enjoo pela mesma sessão. Modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Sobre a náusea, a estimulação de pontos como o PC6 (Neiguan) e o ST36 atua na via vagal e no reflexo do vômito, o mesmo princípio com evidência robusta em náusea pós-operatória e da gestação. Há evidência de benefício na profilaxia da enxaqueca, com redução da frequência das crises, e diretrizes (como o NICE) a recomendam em contextos selecionados.
Para esse alvo profilático, o que se busca é menos crises ao mês, não abortar uma crise em curso: por isso a sequência é de sessões espaçadas ao longo de algumas semanas, com a frequência das crises e o diário de cefaleia servindo de termômetro da resposta antes de decidir manter, ajustar ou somar outra frente. A condução é por médico acupunturiatra, com a técnica integrada ao restante do plano da enxaqueca.
Toxina botulínica para enxaqueca crônica
Reservada à enxaqueca crônica, definida por dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês. A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (como CGRP, substância P e glutamato), com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular. Tem papel consolidado na enxaqueca crônica, pelo protocolo PREEMPT, e não é primeira linha para crises esporádicas. O efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de 3 a 4 meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Profilaxia farmacológica
- O que é
- medicação de uso diário (ou periódico) para reduzir a frequência e a intensidade das crises, indicada quando elas são frequentes (em geral quatro ou mais por mês), incapacitantes ou exigem abortivo demais.
- Mecanismo (calibrado)
- as opções clássicas vêm de classes diferentes e foram, na maioria, descobertas por acaso para essa indicação. O propranolol é um betabloqueador que reduz a excitabilidade neuronal e a ativação simpática; a amitriptilina é um antidepressivo tricíclico que modula as vias serotoninérgica e noradrenérgica da dor (útil quando há também insônia ou cefaleia tensional associada); o topiramato é um neuromodulador que estabiliza a hiperexcitabilidade cortical; a candesartana atua no sistema renina-angiotensina; a flunarizina é um bloqueador de canais de cálcio. Mais recentemente, surgiram tratamentos específicos para a via do CGRP, anticorpos monoclonais e antagonistas orais (gepantes), que bloqueiam justamente o neuropeptídeo central da crise.
- O que esperar · limitações
- a profilaxia não age na hora, exige de 4 a 12 semanas para mostrar resultado, e a meta é reduzir, não necessariamente zerar, as crises. A escolha leva em conta as comorbidades e os efeitos adversos de cada classe (por exemplo, o topiramato pode causar formigamento e alteração da cognição; a amitriptilina, sonolência e boca seca; o propranolol é evitado em asma e bradicardia). A indicação, a dose e a duração são sempre definidas pelo médico, em consulta. Para entender a fundo a doença, suas fases e o leque de tratamentos, veja o guia da enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.
Hidratação, gatilhos e medidas de base
- O que é
- o conjunto de medidas não medicamentosas que reduz a frequência das crises e dá suporte na fase aguda. A desidratação e o jejum são gatilhos reconhecidos; na crise com vômito, repor líquidos (e, quando o vômito é intenso, hidratação venosa em pronto-atendimento) ajuda a quebrar o ciclo.
- Mecanismo · o que esperar
- a regularidade é o fio condutor, sono em horário estável, refeições sem grandes saltos, hidratação ao longo do dia, atividade física regular e manejo do estresse atuam reduzindo os disparadores de uma crise. O diário de cefaleia é a ferramenta que identifica os gatilhos individuais (alimentos específicos, álcool, alterações hormonais, privação de sono) e mede a resposta ao plano.
- Limitações
- isoladas, raramente bastam nas formas frequentes; compõem a base sobre a qual o restante do tratamento se apoia.
Controle agudo
Medicação cedo, antiemético associado, ambiente escuro e quieto; reavaliar se a crise não cede ou se surgem sinais de alerta.
Ajuste do plano
Diário de cefaleia, controle de gatilhos e início de técnicas em clínica; decisão sobre a necessidade de profilaxia.
Reavaliação
A profilaxia bem conduzida costuma reduzir frequência e intensidade nesse intervalo; quando a resposta fica abaixo do esperado, revê-se o diagnóstico, a adesão e a dose antes de trocar de classe ou somar outra frente.
Na enxaqueca, o acompanhamento se apoia em alguns indicadores concretos: a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, o número de dias de dor por mês, a presença e a intensidade da náusea e o impacto na rotina medido por questionários validados de impacto. Na enxaqueca com náusea, registra-se também se o enjoo deixou de obrigar o vômito e se a medicação oral passou a “fazer efeito”, o que indica que a gastroparesia da crise está sendo contornada. Se esses indicadores não andam no prazo previsto, a primeira pergunta é se o diagnóstico segue de pé e se a medicação está sendo tomada cedo e na dose certa, antes de mudar o rumo do tratamento. A meta é reduzir a frequência e a intensidade das crises, nem sempre eliminá-las por completo.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa não é um detalhe na enxaqueca: é uma das frentes que reduz a frequência das crises e dá ao tratamento uma base que não depende de medicação contínua. Muitas crises têm um disparador cervical, a tensão sustentada nos músculos suboccipitais, no trapézio superior e no elevador da escápula gera pontos-gatilho que referem dor para a cabeça e alimentam o sistema trigeminocervical, justamente a via que governa a dor e a náusea. Somam-se a má postura prolongada na tela, o sono ruim e o descondicionamento, que reduzem o limiar para uma nova crise.
O movimento orientado faz o caminho inverso: trata o gerador cervical, melhora o controle motor e a postura, e o exercício aeróbico regular tem efeito profilático próprio. As modalidades são conduzidas na clínica de forma individual, um paciente por sala, e combinadas conforme a fase e a resposta.
Reeducação postural global (RPG)
Trata o corpo por cadeias musculares, com posturas globais sustentadas de alongamento ativo somadas a contração isométrica e trabalho excêntrico controlado. Devolve comprimento à cadeia posterior do pescoço e dos ombros, que mantém a tensão sobre suboccipitais e pericranianos e perpetua os pontos-gatilho. Sessões individuais semanais; melhora progressiva da postura e da percepção corporal. Não substitui o tratamento da crise nem a profilaxia, e as posturas exigem tolerância e orientação cuidadosa.
Pilates clínico
Pilates com finalidade terapêutica e supervisão, distinto da modalidade de academia: controle do tronco, estabilização da cintura escapular e cervical, integração da respiração e progressão de carga graduada no aparelho. Reduz a sobrecarga sobre os geradores cervicais e recoloca em movimento um corpo em desuso pela dor. Atua sobre o componente cervical e o condicionamento, não sobre o mecanismo central. Depende de execução correta; sem supervisão, compensações reproduzem a sobrecarga que se quer evitar.
Terapia manual + acupressão do PC6 (Neiguan)
Mobilização articular e liberação miofascial dos suboccipitais e do trapézio reduzem dor e melhoram a mobilidade de forma temporária, abrindo janela para o exercício; somam-se ao agulhamento descrito no plano da clínica. A acupressão do PC6 no punho é um recurso simples de autocuidado para a náusea, atuando sobre a via vagal. Efeito da terapia manual transitório quando isolada; a acupressão é adjuvante, não tratamento da crise nem substitui o antiemético quando ele é necessário.
Fisioterapia e cinesioterapia
- O que é
- Reabilitação ativa individualizada com exercício terapêutico, que combina o trabalho do componente cervical (mobilidade, ativação dos flexores profundos do pescoço pela flexão craniocervical, estabilização escapulotorácica) ao condicionamento aeróbico progressivo.
- Mecanismo
- Ao tratar a disfunção cervical que dispara ou agrava as crises, reduz a aferência nociceptiva que chega ao núcleo trigeminocervical, onde convergem a dor da face e a do pescoço. Em paralelo, o exercício aeróbico ativa vias inibitórias descendentes da dor e parece reduzir a hiperexcitabilidade que predispõe à crise.
- Evidência
- O exercício aeróbico regular tem evidência de redução da frequência das crises, com magnitude comparável a parte das medidas profiláticas em alguns estudos; a fisioterapia cervical ajuda sobretudo quando há componente cervicogênico ou tensional somado.
- O que esperar
- Resposta gradual ao longo de semanas a poucos meses; manter a atividade após a melhora é o que sustenta a redução das crises.
- Indicações
- Enxaqueca com gatilho ou componente cervical, descondicionamento, sobreposição com cefaleia tensional.
- Limitações
- O início do esforço pode, em algumas pessoas, ser ele próprio um gatilho, o que reforça a progressão gradual e supervisionada; isolada, raramente basta nas formas frequentes.
Na prática, essas técnicas não competem entre si: o exercício aeróbico e a cinesioterapia cervical conduzem o plano e têm o efeito profilático mais consistente, a RPG e o Pilates clínico tratam o componente postural e o controle motor, e a terapia manual abre espaço quando a dor ou a rigidez cervical travam a progressão. O denominador comum é a reabilitação ativa, individualizada, conduzida por profissionais da equipe, com reavaliação periódica para ajustar carga e estímulo.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Não existe cirurgia que trate a enxaqueca. A enxaqueca é uma doença neurológica funcional, ligada à excitabilidade do sistema trigeminovascular, e não a uma lesão que se possa remover. Procedimentos de “descompressão de nervos do crânio” comercializados como cura da enxaqueca não têm respaldo nas diretrizes e não devem ser oferecidos como tratamento de rotina. O que existe fora da clínica não é uma cirurgia da doença, mas a investigação e o manejo das causas secundárias quando há sinais de alerta, e um conjunto de terapias especializadas para os casos refratários.
Conservador · 1ª escolha
Plano multimodal não-cirúrgico
- Controle da crise (abortivo + antiemético, tomados cedo)
- Profilaxia quando as crises são frequentes ou incapacitantes
- Reabilitação ativa e técnicas em clínica que modulam a dor
- Foco da nossa clínica: a resposta da enxaqueca quase nunca está no centro cirúrgico
Cirúrgico · exceção
Tratamento de uma causa secundária
- Indicado apenas quando o quadro não é enxaqueca, mas o que os sinais de alerta apontam («sinais de alerta de pressão no crânio»)
- Cirurgia dirigida à causa: aneurisma, tumor, hidrocefalia, glaucoma agudo
- Conduzido por neurocirurgião, neurorradiologista, oftalmologista ou infectologista
- Não é cirurgia da enxaqueca, e sim da lesão que a imita
A situação em que a conduta sai do consultório de dor e vira urgência é a da cefaleia com sinais de alerta («sinais de alerta de pressão no crânio»): vômito em jato com piora matinal, dor súbita e máxima, déficit neurológico, febre com rigidez de nuca ou cefaleia nova após os 50 anos. Aí a hipótese deixa de ser enxaqueca e passa a ser uma causa secundária, que tem caminho próprio e por vezes cirúrgico. A decisão é sempre individualizada e essas vias não substituem o tratamento de base da enxaqueca.
Emergência vascular
Neurocirurgião / neurorradiologista
Cefaleia em trovoada com suspeita de hemorragia subaracnóidea: tomografia sem contraste, punção lombar e angiografia; clipagem ou embolização do aneurisma. Conduta em horas, prognóstico dependente do tempo até o tratamento.
Hipertensão intracraniana
Neurocirurgião
Vômito em jato com papiledema (tumor, hidrocefalia, hipertensão idiopática): ressonância; derivação ventricular, ressecção do tumor ou tratamento da hipertensão conforme a causa, com acompanhamento neurológico continuado.
Infecção do SNC
Infectologista / neurologista
Febre, rigidez de nuca e confusão (meningite/encefalite): punção lombar e início precoce de antibiótico ou antiviral. Quanto mais cedo o tratamento, melhor o desfecho.
Emergência ocular
Oftalmologista
Olho vermelho e duro, halos e vômito (glaucoma agudo de ângulo fechado): redução imediata da pressão ocular e iridotomia a laser. Conduta em horas para preservar a visão.
Refratariedade
Neurologista / neuromodulação
Enxaqueca crônica refratária a várias profilaxias: anticorpos monoclonais contra a via do CGRP ou dispositivos de neuromodulação não invasiva (estimulação do nervo vago ou do trigêmeo). Terapia especializada, de exceção, reavaliada pela resposta.
O ponto a fixar é que, na enxaqueca, a resposta está no controle das crises, na profilaxia e no plano multimodal não-cirúrgico. A cirurgia entra apenas quando o que existe não é enxaqueca, mas uma das causas secundárias que os sinais de alerta apontam, e essa é a razão de a triagem da seção «sinais de alerta de pressão no crânio» ser tão importante.
A pergunta certa não é se a dor de cabeça com vômito pode ser operada, mas se aquele quadro é mesmo enxaqueca ou uma causa secundária. Na enxaqueca, o tratamento é clínico; quando há sinal de alerta, o caminho é a investigação, e aí sim pode haver indicação cirúrgica da causa.
Princípio de decisão na cefaleia com vômitoTratamento medicamentoso
O tratamento medicamentoso da enxaqueca tem duas finalidades distintas, que não se confundem: tratar a crise quando ela vem (medicação aguda ou abortiva) e reduzir a frequência das crises ao longo do tempo (profilaxia). Um princípio organiza tudo: a náusea da crise lentifica o estômago e prejudica a absorção do comprimido, então a medicação aguda é mais eficaz quando tomada cedo e associada a um antiemético. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar / limitações |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatório / AAS | Crise leve a moderada: bloqueiam a cascata de prostaglandinas que sensibiliza as fibras trigeminais | Forte | Primeira linha; tomar cedo. Excesso (≥15 dias/mês) leva a cefaleia por uso excessivo de medicação |
| Triptanos | Crise moderada a forte: agonistas 5-HT1B/1D, contraem vasos cranianos e inibem a liberação de CGRP | Forte | Muito eficazes, mas contraindicados em doença coronariana, infarto/AVC prévios e hipertensão não controlada; não combinar com ergotamínicos. ≥10 dias/mês favorece o uso excessivo |
| Ditanos (lasmiditano) | Crise quando o triptano é contraindicado: agonista 5-HT1F, alivia sem efeito vasoconstritor | Moderada | Sem vasoconstrição, mas causa sonolência e restrição para dirigir; disponibilidade variável |
| Gepantes (rimegepante, ubrogepante) | Crise e, em alguns casos, prevenção: antagonistas do receptor de CGRP | Moderada | Úteis quando o triptano falha ou é contraindicado; disponibilidade ainda variável, prescritos em situações selecionadas |
| Antieméticos (metoclopramida, domperidona, ondansetrona) | Controlam a náusea/vômito e, com a metoclopramida, aceleram o esvaziamento gástrico, melhorando a absorção do analgésico | Moderada | Parte do tratamento, não acessório. Antagonistas D2 podem dar reações extrapiramidais; domperidona e ondansetrona prolongam o QT |
| Profilaxia clássica (propranolol, amitriptilina, topiramato, candesartana, flunarizina) | Uso diário para reduzir frequência e intensidade quando as crises são frequentes (≥4/mês) ou incapacitantes | Forte | Não age na hora: 4 a 12 semanas. Escolha guiada por comorbidades (topiramato: formigamento/cognição; amitriptilina: sonolência, boca seca; propranolol: evitar em asma/bradicardia) |
| Anti-CGRP (erenumabe, galcanezumabe, fremanezumabe) | Prevenção da enxaqueca de difícil controle: injeção mensal ou trimestral que bloqueia o neuropeptídeo central da crise | Moderada | Opção específica para a via do CGRP, em geral conduzida pelo neurologista; meta é reduzir, não necessariamente zerar as crises |
Antieméticos: a peça que melhora a absorção do abortivo
- O que é
- Medicação que controla a náusea e o vômito da crise. Não é um acessório: é parte do tratamento abortivo e, em muitos casos, deve ser tomada junto com o analgésico. Opções habituais: metoclopramida, domperidona e ondansetrona.
- Mecanismo
- A metoclopramida e a domperidona são antagonistas dos receptores dopaminérgicos D2 na área postrema (zona de gatilho quimiorreceptora); a metoclopramida acrescenta efeito procinético, acelerando o esvaziamento gástrico que a crise havia tornado lento. Ao reverter a gastroparesia, melhoram a absorção do analgésico oral. A ondansetrona age por outro receptor, é antagonista da 5-HT3, alternativa potente para a náusea com menos efeito sobre a motilidade.
- Evidência
- A metoclopramida tem evidência de boa qualidade no controle da crise de enxaqueca, isolada e como adjuvante.
- O que esperar
- O alívio da náusea costuma vir em 30 a 60 minutos; a dupla “anti-inflamatório ou triptano + antiemético” tende a funcionar melhor do que o analgésico isolado.
- Indicações
- Crise de enxaqueca com náusea ou vômito, sobretudo quando o comprimido oral parece não fazer efeito no auge da dor.
- Limitações
- Antagonistas D2 podem causar sonolência e, sobretudo em jovens e em uso repetido, reações extrapiramidais (inquietação, contraturas); a domperidona exige cautela em quem tem prolongamento do intervalo QT; a ondansetrona compartilha esse cuidado com o QT e pode causar constipação.
O limite de dias de medicação aguda por mês é tão importante quanto a dose: anti-inflamatório ou analgésicos simples em 15 ou mais dias por mês, ou triptanos, gepantes e combinações em 10 ou mais dias por mês, podem transformar a enxaqueca em cefaleia por uso excessivo de medicação, uma dor quase diária. A profilaxia não age na hora, exige de 4 a 12 semanas, e a meta é reduzir, não necessariamente zerar, as crises. Para um aprofundamento na doença e em todas as suas opções, veja o guia da enxaqueca: o que é, causas e tratamentos e o guia de remédios para dor.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Dor de cabeça com ânsia de vômito é sempre enxaqueca?
Na maioria das vezes, sim. A náusea faz parte do mecanismo da enxaqueca, junto da dor pulsátil e da sensibilidade à luz e ao som. A exceção que pede atenção é o vômito em jato sem náusea prévia, com piora pela manhã ou ao deitar, ou acompanhado de déficit neurológico, que deve ser avaliado sem demora.
Por que a enxaqueca dá enjoo?
A crise ativa o sistema trigeminovascular e o tronco encefálico, que governam o reflexo da náusea, e ainda lentifica o esvaziamento do estômago. Por isso o enjoo acompanha a dor e prejudica a absorção dos comprimidos, o que justifica associar um antiemético no tratamento.
Vomitar alivia a dor de cabeça?
Em algumas pessoas com enxaqueca, o vômito coincide com o fim da crise e parece aliviar. Isso é diferente do vômito em jato repentino, sem náusea que o anteceda e com piora ao deitar, que é um sinal de alerta e não um alívio.
Quando a dor de cabeça com vômito é uma emergência?
Procure atendimento imediato diante de vômito em jato sem náusea prévia, dor pior pela manhã ou ao deitar, dor súbita e máxima, déficit neurológico, febre com rigidez de nuca, ou uma cefaleia nova depois dos 50 anos. Esses sinais podem indicar aumento da pressão dentro do crânio ou outra causa secundária.
Posso tomar remédio para enjoo por conta própria?
Os antieméticos têm efeitos e interações, e o uso frequente de analgésicos para a dor de cabeça perpetua o próprio sintoma. A escolha da medicação, a dose e a duração são definidas em consulta.
Preciso de tomografia ou ressonância?
Na maioria das vezes, não. Diante de um quadro típico de enxaqueca e de exame neurológico normal, a história e o exame bastam. A imagem fica reservada para os sinais de alerta ou para a dor que não responde ao tratamento.
Dor de cabeça constante, que não passa, ainda pode ser enxaqueca?
Pode. Quando a dor ocorre em 15 ou mais dias por mês, fala-se em enxaqueca crônica, e uma causa frequente é o próprio uso excessivo de analgésicos, que perpetua a dor numa cefaleia diária por abuso de medicação. Nesse cenário, o caminho é avaliar o padrão com um diário de cefaleia e rever o tratamento em consulta, não aumentar a dose por conta própria. Uma dor nova, persistente e que muda de padrão, sobretudo após os 50 anos, também merece avaliação.
O que fazer quando a crise não passa com a medicação de sempre?
Uma crise de enxaqueca pode durar de 4 a 72 horas, mas uma dor que se arrasta além disso, sem ceder ao tratamento habitual, deve ser reavaliada, porque repetir a medicação sem critério favorece o abuso de analgésicos. Procure atendimento se a crise for muito mais forte que o usual, mudar de característica ou vier com qualquer sinal de alerta, como vômito em jato, déficit neurológico ou dor súbita e máxima.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Diante de dor de cabeça com vômito, em especial com qualquer sinal de alerta, a conduta correta é a avaliação presencial, com a escolha dos antieméticos, dos abortivos e da profilaxia individualizada para cada caso.
