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Cefaleia · Guia comparativo

Tipos de dor de cabeça: como identificar a sua

Nem toda dor de cabeça é igual.

Resposta direta
  • As dores de cabeça se dividem em primárias (a dor é a própria doença: enxaqueca, cefaleia tensional, cefaleias em salvas) e secundárias (a dor é sintoma de outra causa: uso excessivo de medicação, problema na coluna cervical, pós-traumática, sinusal, vascular).
  • O que separa cada tipo é o conjunto localização · duração · qualidade · sintomas associados, e não a intensidade isolada. Mais de 90% das cefaleias na consulta são primárias e benignas.
  • Um grupo pequeno de sinais de alerta — dor em trovoada, déficit neurológico, início após os 50 anos, padrão que muda ou piora, dor que aperta ao deitar ou ao esforço, gravidez, câncer ou imunossupressão — separa as cefaleias benignas das que exigem investigação dirigida.
4,9Google5,0Doctoralia

40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Duas grandes famílias: primárias e secundárias

Ilustração do rosto e cabeça de uma mulher de perfil com setas coloridas indicando as regiões de dor: enxaqueca no topo, cefaleia em salvas ao redor do olho e tensional na nuca
Cada tipo de dor de cabeça tem uma localização característica: topo e laterais na enxaqueca, ao redor do olho nas salvas, nuca na tensional

As cefaleias se separam em dois grandes grupos: aquelas em que a dor é a própria doença e aquelas em que ela é apenas o sintoma de outro problema, cada uma com critérios próprios de diagnóstico.

Nas cefaleias primárias, não há lesão estrutural por trás: o sistema que processa a dor é o próprio protagonista. São a enxaqueca, a cefaleia tensional, as cefaleias trigêmino-autonômicas (cefaleia em salvas, hemicrania paroxística, SUNCT) e um grupo de outras cefaleias primárias. Respondem pela imensa maioria das consultas e, embora possam ser muito incapacitantes, não traduzem doença perigosa. O diagnóstico é clínico, pelo padrão temporal e pelos sintomas associados, e a neuroimagem não é necessária na ausência de sinal de alerta.

Nas cefaleias secundárias, a dor é a manifestação de outra condição: a coluna cervical alta, o uso excessivo de analgésicos, uma rinossinusite, um trauma recente ou, mais raramente, uma causa vascular ou inflamatória que exige atenção urgente. A maior parte das secundárias também é benigna, mas é nesse grupo que moram os quadros que não podem esperar. Por isso a primeira pergunta clínica nunca é “que tipo é”, e sim “há sinal de alerta?”.

Primárias · a dor é a doença

Enxaqueca, tensional, trigêmino-autonômicas

O mecanismo está no próprio processamento da dor: ativação do sistema trigeminovascular e liberação de CGRP na enxaqueca, sensibilização miofascial e pericraniana na tensional, e descarga trigêmino-autonômica (reflexo trigêmino-parassimpático) nas TACs. São benignas, recorrentes e diagnosticadas pelo padrão clínico.

Secundárias · a dor é sintoma

Por medicação, cervicogênica, pós-traumática, sinusal, vascular

A dor reflete outra causa identificável. A maioria é benigna e tratável pela causa, mas é aqui que se concentram os sinais de alarme que pedem investigação dirigida e, por vezes, imagem.

Uma observação que evita confusão: ter mais de um tipo ao mesmo tempo é a regra, não a exceção. Quem tem enxaqueca pode também ter cefaleia tensional nos dias de estresse, e quem tem tensão cervical persistente pode desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação ao tratar mal as crises. Identificar o tipo predominante e os tipos associados é o que orienta o tratamento.

A pergunta que vem antes do nome

A divisão que define a segurança vem antes do tipo: a dor é primária (a própria dor é a doença, benigna e recorrente) ou secundária (a dor é a ponta de outro problema)? Saber se é enxaqueca ou tensional define o tratamento; saber que a dor é, na verdade, secundária e perigosa define se há indicação de pronto-socorro no mesmo dia.

Uma dor que de repente é a pior da vida e estoura em segundos, uma cefaleia inédita depois dos 50 anos, ou uma dor com febre e rigidez de nuca, fraqueza, fala enrolada ou alteração da visão, ou que piora ao deitar e acorda a pessoa vomitando, não pede um rótulo entre as primárias: sinaliza causa secundária e investigação dirigida. O tipo benigno se identifica com calma; o sinal de alarme se reconhece primeiro.

Sala de fisioterapia com maca azul, bola de exercícios e barras paralelas junto à janela
Reabilitação na clínica Sala de fisioterapia com maca, barras paralelas e ampla iluminação natural.

A tabela: cada tipo e o critério que o define

A forma mais rápida de se localizar é comparar os tipos lado a lado pelos quatro eixos que os diferenciam: localização, duração, qualidade da dor e sintomas associados. A tabela reúne os principais quadros por esses critérios. Use-a como ponto de partida, não como diagnóstico: o padrão completo e o exame é que confirmam.

Tipos de dor de cabeça por localização, duração, qualidade e sintomas associados
TipoLocalizaçãoDuraçãoQualidade e sintomas associados
EnxaquecaEm geral unilateral; pode alternar de lado4 a 72 horas por crise (sem tratamento)Pulsátil, moderada a forte, piora ao esforço; náusea e/ou foto e fonofobia; aura visual ou sensitiva em parte dos casos (5 a 60 min)
Cefaleia tensionalBilateral30 minutos a 7 diasEm aperto ou peso (não pulsátil), leve a moderada, não piora ao esforço; sem náusea; no máximo foto ou fonofobia
Cefaleia em salvasEstritamente unilateral, periorbitária e/ou temporal15 a 180 minutos por crise; 1 dia sim, dia não, até 8 ao diaExcruciante; lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão/rinorreia, ptose/miose do lado da dor; inquietação ou agitação
Hemicrania paroxísticaUnilateral, periorbitária2 a 30 minutos; mais de 5 crises ao diaTAC de crises curtas e muito frequentes; sinais autonômicos do mesmo lado; resposta absoluta à indometacina é o traço definidor
SUNCT / SUNAUnilateral, periorbitária1 a 600 segundos; dezenas a centenas ao diaCrises neuralgiformes muito curtas com lacrimejamento e hiperemia conjuntival (SUNCT) ou um só sinal autonômico (SUNA)
Neuralgia do trigêmeoTerritório V2/V3 do trigêmeo, unilateralChoques de uma fração de segundo a 2 minutosChoques fulminantes disparados por gatilhos cutâneos (tocar o rosto, mastigar, falar, escovar os dentes)
CervicogênicaUnilateral, lado fixo; sobe da nuca para a fronteVariável, costuma ser contínua com exacerbaçõesComeça no pescoço; reproduzida por posturas/movimentos cervicais ou pela pressão sobre a coluna cervical alta; mobilidade cervical reduzida
Por uso excessivo de medicaçãoDifusa, bilateral15 ou mais dias por mês, por mais de 3 mesesCefaleia quase diária, presente ao acordar, em quem usa abortivos com frequência (ver limiares por classe na seção «As cefaleias secundárias mais comuns»)
Sinusal (rinossinusite)Face, fronte, região maxilarDias, junto do quadro infecciosoPeso e pressão com congestão e secreção purulenta, hiposmia e febre; piora ao abaixar a cabeça
Pós-traumáticaVariávelSurge em até 7 dias do traumaFenótipo frequentemente parecido com tensional ou enxaqueca; aguda (até 3 meses) ou persistente

Três contrastes resolvem a maioria das dúvidas. Náusea, fotofobia e piora ao esforço apontam para enxaqueca; o aperto bilateral sem náusea e sem piora ao esforço sugere tensional; e a presença de sinais autonômicos estritamente de um lado (olho vermelho e lacrimejante, nariz entupido, pálpebra caída) move a hipótese para o grupo das cefaleias trigêmino-autonômicas. Dentro desse grupo, o que separa os tipos é a aritmética da crise: salvas duram de 15 a 180 minutos, a hemicrania paroxística de 2 a 30 minutos e o SUNCT segundos, em número crescente de ataques por dia.

Pérola clínica

Cefaleia estritamente unilateral que nunca troca de lado em anos de história merece um olhar mais atento. Salvas, hemicrania paroxística, SUNCT, neuralgia do trigêmeo e cefaleia cervicogênica costumam ser fixas de um lado. A lateralidade rígida, embora muitas vezes benigna, é um dado que o médico valoriza, sobretudo se acompanhada de sinais autonômicos ou de gatilhos cervicais.

As cefaleias primárias, uma a uma

As primárias respondem pela esmagadora maioria das dores de cabeça. Conhecer o mecanismo e o traço central de cada uma é o que permite reconhecer a própria dor e buscar a página específica para se aprofundar.

~50%
dos adultos têm cefaleia em um ano
1ª
enxaqueca, causa líder de incapacidade em jovens
3:1
enxaqueca, proporção de mulheres em relação a homens
90%
das cefaleias na consulta são primárias e benignas

Enxaqueca

É uma dor tipicamente unilateral e pulsátil, moderada a forte, que piora ao esforço físico e vem com náusea e/ou incômodo com luz e som; cada crise dura de 4 a 72 horas sem tratamento. Cerca de um terço das pessoas tem aura, um sintoma neurológico focal reversível que precede ou acompanha a dor (escotomas cintilantes, linhas em zigue-zague, parestesias em mancha de óleo) e dura de 5 a 60 minutos. O mecanismo central é a ativação do sistema trigeminovascular: neurônios do gânglio trigeminal inervam os vasos meníngeos e, ao serem ativados, liberam o neuropeptídeo CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), que promove vasodilatação e inflamação neurogênica e amplifica a transmissão nociceptiva no complexo trigeminocervical. A aura corresponde à depressão alastrante cortical, uma onda de despolarização que percorre o córtex.

Esse entendimento abriu a era das terapias anti-CGRP. Para fases, gatilhos e tratamento em profundidade, veja o guia da enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.

Cefaleia tensional

É a mais comum de todas. Manifesta-se como aperto ou peso bilateral, em faixa, de intensidade leve a moderada, que não piora ao esforço e quase nunca traz náusea. O componente miofascial é central: pontos-gatilho na musculatura pericraniana e cervical (trapézio superior, esplênio, esternocleidomastóideo, temporal, masseter, suboccipitais) tornam-se uma fonte de aferência nociceptiva contínua.

Nas formas episódicas predomina esse mecanismo periférico; na forma crônica (15 ou mais dias por mês) soma-se a sensibilização central, com facilitação da dor no corno dorsal e perda de modulação inibitória descendente. Os detalhes de mecanismo e tratamento estão no artigo sobre cefaleia tensional.

Cefaleias trigêmino-autonômicas: salvas, hemicrania paroxística e SUNCT

As cefaleias trigêmino-autonômicas (TACs) compartilham um traço: dor estritamente unilateral, periorbitária, acompanhada de sinais autonômicos cranianos do mesmo lado (lacrimejamento, hiperemia conjuntival, congestão ou rinorreia, ptose e miose). Decorrem da ativação do reflexo trigêmino-parassimpático, com participação do hipotálamo posterior. O que as separa é a duração e a frequência das crises. A cefaleia em salvas é a mais conhecida: crises excruciantes de 15 a 180 minutos, uma a oito por dia, em séries de semanas a meses, com a pessoa agitada durante a dor, o oposto da enxaqueca, em que se busca o repouso.

A hemicrania paroxística tem crises mais curtas (2 a 30 minutos) e mais frequentes (mais de cinco ao dia) e responde de forma absoluta à indometacina, o que é, ao mesmo tempo, tratamento e critério diagnóstico. O SUNCT/SUNA reúne ataques neuralgiformes ultracurtos (1 a 600 segundos), dezenas a centenas por dia. Por serem raras e exigirem condutas próprias, as TACs merecem avaliação especializada.

Neuralgia do trigêmeo

Aqui a dor não é uma cefaleia comum, e sim uma dor facial em choques fulminantes de uma fração de segundo a dois minutos, disparados por gestos banais (mastigar, falar, escovar os dentes, tocar o rosto), em geral no território das divisões V2 e V3 do nervo trigêmeo. A causa clássica é a compressão neurovascular da raiz do trigêmeo por um vaso (com frequência a artéria cerebelar superior), que desmieliniza a raiz e gera descargas ectópicas. Em paciente jovem, com sintomas bilaterais ou déficit sensitivo, é obrigatório afastar uma causa secundária como a esclerose múltipla. O diagnóstico, o diferencial com dor de origem dentária e o tratamento estão detalhados em o que é a neuralgia do trigêmeo.

Mito

“Dor de cabeça muito forte é sempre sinal de algo grave no cérebro.”

Fato

A intensidade isolada não define a gravidade. Enxaqueca e cefaleia em salvas estão entre as dores mais fortes que existem e são benignas. O que aciona o alerta é o padrão: dor que atinge o auge em segundos (em trovoada), déficit neurológico, papiledema ou febre com rigidez de nuca, e não o quanto dói.

As cefaleias secundárias mais comuns

Nas secundárias, tratar a causa costuma resolver a dor. As quatro abaixo concentram a maior parte dos casos benignos e têm mecanismos e condutas bem distintos entre si.

Cefaleias secundárias benignas: mecanismo e o que muda na conduta
TipoMecanismo / de onde vemO que muda na conduta
CervicogênicaAferência das raízes C1 a C3 (articulações atlanto-occipital e atlantoaxial, facetas C2-C3, músculos suboccipitais) converge sobre o complexo trigeminocervical e projeta dor para a cabeçaO alvo é o pescoço: reabilitação cervical e terapia manual; bloqueio diagnóstico/terapêutico do nervo occipital maior ou da faceta quando indicado
Por uso excessivo de medicaçãoUso frequente de abortivos regula para baixo os sistemas de modulação da dor e mantém a sensibilização; cronifica quem já tinha enxaqueca ou tensionalSuspender ou reduzir o abortivo, sob orientação, e iniciar profilaxia. Limiares: triptanos, ergóticos, opioides ou combinações em 10 ou mais dias/mês; analgésicos simples em 15 ou mais dias/mês
Sinusal (rinossinusite)Inflamação dos seios paranasais, em geral durante infecção respiratóriaTratar a rinossinusite; fora do quadro infeccioso agudo, reconsiderar se a dor é, na verdade, enxaqueca com sintomas autonômicos faciais
Pós-traumáticaTrauma craniano ou cervical, com cefaleia que surge em até 7 dias; fenótipo tensional ou enxaquecosoAcompanhamento, controle dos sintomas pelo fenótipo e atenção a sinais de alarme nas primeiras semanas

A cefaleia cervicogênica merece destaque porque é muito confundida com enxaqueca e tensional. A base anatômica é a convergência cervicotrigeminal: as raízes C1 a C3 e o núcleo espinal do trigêmeo compartilham neurônios de segunda ordem, de modo que uma dor que nasce nas facetas C2-C3 ou na musculatura suboccipital é “sentida” como dor de cabeça. A dor é de um lado fixo, piora com a postura e o movimento cervical, e o exame da coluna cervical (incluindo a manobra de flexão-rotação para a articulação atlantoaxial) reproduz o sintoma. Quando a sua dor parece começar na nuca, vale ler o guia da cefaleia cervicogênica.

A cefaleia por uso excessivo de medicação é um círculo vicioso silencioso: o abortivo que alivia a crise, tomado em muitos dias do mês, passa a alimentar uma dor quase diária ao manter o sistema de dor em estado sensibilizado. É uma das principais causas de cefaleia que “não passa com nada”, e o tratamento começa exatamente por retirar o gatilho farmacológico. Já a sensação de pressão e aperto, sem náusea, costuma ser tensional ou cervicogênica; o artigo sobre pressão na cabeça ajuda a separar essas possibilidades da ansiedade e dos quadros que merecem atenção.

Atenção ao rótulo “sinusal”

A maior parte das dores que as pessoas atribuem a sinusite, fora de um quadro infeccioso claro com febre, secreção purulenta e hiposmia, é enxaqueca com sintomas autonômicos no rosto (lacrimejamento, congestão, pressão maxilar). Tratar repetidamente como sinusite atrasa o diagnóstico correto e favorece o uso excessivo de medicação.

Sinais de alerta: quando a dor não pode esperar

A imensa maioria das cefaleias é benigna, mas um grupo curto de sinais indica que a avaliação não pode esperar. Esses achados formam uma lista de verificação usada em toda primeira consulta. Cada um aponta para uma categoria de causa e muda a conduta, sobretudo a decisão de pedir neuroimagem ou exames dirigidos.

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação imediata se houver

  • Sintoma sistêmico (febre, perda de peso) ou fator de risco secundário (câncer, HIV/imunossupressão): levanta infecção do sistema nervoso, metástase ou lesão oportunista.
  • Déficit neurológico ou alteração da consciência: fraqueza, dormência, alteração da fala ou da visão, sonolência.
  • Início súbito ou em trovoada: dor que atinge o auge em menos de um minuto, a pior da vida, com prioridade para afastar hemorragia subaracnóidea.
  • Idade de início acima dos 50 anos: nova cefaleia nessa faixa pede afastar arterite de células gigantes e lesões expansivas.
  • Mudança de padrão ou cefaleia recente e progressiva, diferente da habitual.
  • Cefaleia posicional: que piora deitado ou em pé de forma marcada (hipertensão ou hipotensão liquórica).
  • Desencadeada por Valsalva: tosse, esforço ou espirro, que sugere lesão de fossa posterior ou anormalidade craniocervical.
  • Papiledema ao exame de fundo de olho: aumento da pressão intracraniana.
  • Cefaleia em trovoada progressiva ou de evolução atípica.
  • Gravidez e puerpério: período de risco para trombose venosa cerebral e pré-eclâmpsia/eclâmpsia.
  • Olho doloroso com sinais autonômicos: afastar causas oculares e da órbita (ex.: glaucoma agudo, dissecção).
  • Trauma craniano recente: atenção a hematoma, sobretudo em idosos e anticoagulados.
  • Uso de analgésico em excesso ou nova cefaleia ligada a um medicamento.

A lógica é simples: na ausência de qualquer um desses sinais, uma cefaleia que preenche critérios de tipo primário pode ser conduzida com calma, sem imagem, identificando o tipo e montando o plano. A presença de um item desloca a prioridade para descartar a causa correspondente, e é o que decide quando a neuroimagem (tomografia ou ressonância, eventualmente angiografia ou estudo do líquor) muda a conduta. A dor em trovoada e o déficit neurológico levam ao pronto-atendimento imediato; o início após os 50 anos com dor temporal e VHS elevada faz pensar em arterite e iniciar conduta sem aguardar a biópsia. Esses achados têm precedência sobre qualquer tentativa de encaixar a dor num tipo benigno.

Da prática clínica

Algumas impressões do consultório ajudam a colocar tudo isso no chão. Na conversa, três descrições espontâneas costumam separar as primárias antes mesmo do exame: a pessoa que aperta a própria nuca e a testa com as duas mãos e fala em “peso” ou “capacete” quase sempre traz cefaleia tensional; a que precisa apagar a luz, deitar e fica enjoada descreve enxaqueca; e a que aponta com um dedo para trás de um olho só, anda pela sala sem conseguir ficar parada e tem o olho lacrimejando daquele lado está descrevendo o padrão das trigêmino-autonômicas. A escolha do gesto diz mais do que a nota de intensidade que a pessoa dá para a dor.

A segunda coisa que se confirma a cada semana é o quanto a maioria é benigna: a esmagadora parte das dores de cabeça que chegam é primária, e boa parte do trabalho da primeira consulta é justamente devolver esse alívio com segurança, sem pedir exame por reflexo. O contraponto é que o pequeno grupo com sinal de alarme muda tudo num instante, e por isso a varredura desses sinais é feita sempre, mesmo no paciente jovem e tranquilo: a dor que estourou de repente como a pior da vida, a que apareceu inédita depois dos 50, a que vem com febre e nuca rígida, com déficit neurológico, ou que piora ao deitar e desperta a pessoa não disputam espaço com os tipos benignos, elas saltam para a frente da fila.

Surpreende muita gente descobrir que o pescoço participa de tanta dor de cabeça. É comum a pessoa relatar a dor subindo da base do crânio, e a palpação reproduzir o sintoma em pontos do trapézio superior, dos suboccipitais e do esternocleidomastóideo; quando esse componente cervical e miofascial é tratado, parte das cefaleias tidas como “só tensão” responde de forma desproporcional ao esforço. O outro achado que costuma abrir os olhos do paciente é a cefaleia por uso excessivo de medicação: a dor que “não passa com nada” muitas vezes está sendo sustentada pelo próprio analgésico tomado quase todos os dias, e a conta de quantos dias por mês o remédio é usado quase nunca tinha sido feita antes da consulta.

Assista: Dor de cabeça: O que pode ser? Quando me preocupar?

Tratamento por tipo de cefaleia

Identificado o tipo, o tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado, e organiza-se em dois eixos para quase todas as cefaleias: o tratamento abortivo (da crise) e o profilático (para reduzir frequência e intensidade), somados às técnicas em clínica que atuam no gatilho miofascial e cervical. Nenhuma modalidade isolada costuma bastar, e o progresso é acompanhado por um diário de crises: quantos dias de dor por mês e o quanto ela atrapalha a rotina. Os medicamentos abaixo aparecem pelo nome do princípio ativo, não por marca.

Diagnóstico do tipo e dos gatilhos

História, exame neurológico e cervical e um diário de cefaleia definem o tipo predominante, a frequência e os gatilhos. Escalas validadas medem intensidade e impacto. Antes de tratar, excluem-se os sinais de alerta.

Eixo abortivo e eixo profilático

Cada tipo recebe um abortivo calibrado e, se as crises forem frequentes ou incapacitantes, uma profilaxia. Controlar o número de dias de uso de abortivo previne a cefaleia por uso excessivo de medicação.

Técnicas em clínica para o componente miofascial e cervical

Acupuntura médica, eletroacupuntura, agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho atuam na tensional, na cervicogênica e como adjuvantes na enxaqueca, com a vantagem de reduzir a necessidade de medicação.

Procedimentos dirigidos

Bloqueio do nervo occipital maior na cervicogênica e em casos selecionados; toxina botulínica pelo protocolo PREEMPT na enxaqueca crônica; e a indometacina como prova nas hemicranias.

Enxaqueca

O que é o plano: dois eixos. Abortivo para tratar a crise cedo e profilático para reduzir a frequência quando há quatro ou mais dias de dor por mês ou crises incapacitantes.

Mecanismo (calibrado): os triptanos (sumatriptana, rizatriptana) são agonistas dos receptores 5-HT1B/1D, que reduzem a liberação de CGRP e a vasodilatação trigeminovascular; os anti-inflamatórios atuam na inflamação neurogênica periférica. Na profilaxia, o betabloqueador propranolol, o antidepressivo tricíclico amitriptilina e o anticonvulsivante topiramato reduzem a excitabilidade e a sensibilização central; os anticorpos monoclonais anti-CGRP bloqueiam diretamente a via que move a crise.

Evidência: triptanos e anti-inflamatórios têm eficácia bem estabelecida na crise; propranolol, amitriptilina e topiramato são profiláticos de primeira linha por ensaios consistentes. A acupuntura tem evidência de redução da frequência de crises e é citada por diretrizes como opção profilática em contextos selecionados.

O que esperar: o abortivo funciona melhor quanto mais cedo é tomado; a profilaxia leva de 4 a 8 semanas para mostrar efeito e exige titulação gradual. A meta é reduzir dias de dor e o uso de abortivo, não zerar as crises.

Indicações e limitações: abortivo para toda crise; profilaxia quando a frequência ou a incapacidade justificam. Triptanos são contraindicados em doença coronariana e cerebrovascular; o uso de abortivo deve ficar abaixo de 10 dias/mês (triptanos) ou 15 dias/mês (analgésicos simples) para não cronificar a dor. A escolha do profilático considera as comorbidades (o propranolol é útil com ansiedade, evitado na asma; o topiramato emagrece, mas pode causar parestesias).

Cefaleia tensional

O que é o plano: abortivo simples para crises esporádicas, profilaxia e tratamento do componente miofascial nas formas frequentes ou crônicas.

Mecanismo (calibrado): na crise, analgésicos simples e anti-inflamatórios reduzem a aferência nociceptiva periférica. Na forma crônica, a amitriptilina em dose baixa modula a dor por inibição da recaptação de serotonina e noradrenalina e por reforço da modulação inibitória descendente, agindo sobre a sensibilização central.

Evidência: a amitriptilina é o profilático com melhor sustentação para a cefaleia tensional crônica. Para o componente miofascial, a evidência apoia técnicas que atuam nos pontos-gatilho pericranianos, detalhadas no bloco de técnicas em clínica.

O que esperar: a profilaxia começa a responder em semanas; relaxantes musculares têm papel limitado pela sonolência. Controlar o número de dias de analgésico é parte do tratamento.

Indicações e limitações: evitar o uso diário de analgésicos é prioridade, pelo risco de cefaleia por uso excessivo de medicação. A amitriptilina exige cautela em idosos, glaucoma, retenção urinária e arritmia (efeitos anticolinérgicos).

Cefaleia cervicogênica

O que é o plano: o alvo é a coluna cervical alta. Reabilitação ativa como base, terapia manual como adjuvante e, quando indicado, bloqueio anestésico.

Mecanismo (calibrado): a cinesioterapia cervical (ativação dos flexores profundos do pescoço, estabilização escapulotorácica, fortalecimento progressivo) corrige fatores que mantêm a aferência das raízes C1 a C3 que converge sobre o complexo trigeminocervical. O bloqueio do nervo occipital maior interrompe temporariamente a condução nociceptiva e abre uma janela para avançar a reabilitação.

Evidência: exercício é a base do tratamento conservador da dor cervical, com terapia manual somando benefício de magnitude variável. O bloqueio occipital tem papel diagnóstico e terapêutico em casos selecionados.

O que esperar: resposta ao longo de semanas com a reabilitação; o bloqueio pode aliviar por dias a semanas. O tratamento ativo é mantido para prevenir a recorrência.

Indicações e limitações: indicada quando o exame cervical reproduz a dor; o bloqueio é temporário e faz parte de um plano, nunca isolado. Medicação tem papel adjuvante.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é: inserção de agulhas finas em acupontos por médico acupunturiatra; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas.

Mecanismo (calibrado): modulação segmentar no corno dorsal da medula (teoria da comporta), ativação de vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial) e liberação de opioides endógenos. A correspondência entre a descrição tradicional por meridianos e a neurofisiologia contemporânea segue em estudo.

Evidência: evidência de benefício na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, com recomendação por diretrizes em contextos selecionados e a vantagem de reduzir o consumo de medicação.

O que esperar: como é uma medida profilática, e não abortiva, ela não corta a crise que já começou; o que se acompanha é a curva de dias de dor no mês ao longo de algumas semanas de sessões seriadas, marcada no diário de cefaleia. Na enxaqueca e na tensional crônica, o resultado é redução de frequência e de consumo de analgésico, não o desaparecimento das crises, e o efeito é reavaliado pela própria contagem de dias antes de decidir manter ou ajustar.

Indicações e limitações: útil na profilaxia da enxaqueca e da tensional, sobretudo quando se quer reduzir a polifarmácia, quando os profiláticos orais não foram tolerados ou na gestante, em que muitas opções ficam restritas. Desconforto ou pequena equimose no acuponto são incomuns; cautela em quem usa anticoagulante. Não substitui a reabilitação cervical nem a higiene do uso de abortivos, e não tem papel nas cefaleias secundárias perigosas, que pedem tratamento da causa. Na clínica, a acupuntura para cefaleia é indicação médica e parte de um raciocínio diagnóstico: a dor só entra em tratamento depois que os sinais de alarme foram excluídos.

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

O que é: agulha inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial pericraniano ou cervical (agulhamento seco), sem injeção de substância; quando o ponto é resistente, infiltração com anestésico local.

Mecanismo (calibrado): ao atingir o ponto-gatilho no trapézio superior, no esternocleidomastóideo, no temporal ou nos suboccipitais, a agulha dispara uma contração breve da banda tensa, a resposta de contração local, que reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a concentração local de substâncias álgicas. Como esses músculos pericranianos e cervicais alimentam o complexo trigeminocervical, baixar essa aferência tende a aliviar tanto a cefaleia tensional quanto o componente cervicogênico. Quando o ponto é resistente, o anestésico injetado quebra o ciclo dor-espasmo-dor na própria banda tensa.

Evidência: há boa evidência para a dor miofascial em geral, e revisões sobre agulhamento seco na cefaleia apontam para melhora da dor e da incapacidade, ainda com estudos heterogêneos.

O que esperar: parte das pessoas sente a musculatura “soltar” e a dor de cabeça ceder já na sessão; em outras o alívio se instala ao longo de um a três dias, e uma dor local discreta no ponto agulhado por um ou dois dias é esperada. Em geral bastam poucas sessões para julgar se o componente miofascial era de fato um motor da cefaleia, pela resposta no diário.

Indicações e limitações: componente miofascial da cefaleia tensional e da cervicogênica, e como adjuvante na enxaqueca. Cautela em anticoagulados; a técnica na região cervical e torácica exige domínio anatômico.

Bloqueios e toxina botulínica

O que é: o bloqueio do nervo occipital maior consiste em injetar anestésico (com ou sem corticoide) ao redor do nervo; a toxina botulínica tipo A é injetada em pontos pericranianos pelo protocolo PREEMPT na enxaqueca crônica.

Mecanismo (calibrado): o bloqueio interrompe temporariamente a condução nociceptiva e quebra o ciclo de dor; a toxina botulínica reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (CGRP, substância P), com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular.

Evidência: a toxina botulínica tem papel consolidado na enxaqueca crônica (protocolo PREEMPT); o bloqueio occipital ajuda na cefaleia cervicogênica e em quadros com componente neurálgico na nuca.

O que esperar: a toxina começa a agir em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos; o bloqueio alivia por dias a semanas.

Indicações e limitações: a toxina é reservada à enxaqueca crônica, não à episódica nem à cefaleia tensional comum. Dor no local e fraqueza transitória são possíveis.

A medicação, portanto, tem papel definido por tipo, e o eixo abortivo nunca deve crescer a ponto de virar gatilho: por isso o número de dias de uso é monitorado em todas as cefaleias. Quando a dor de cabeça resiste e a frequência não cede, aumentar a dose costuma ser o reflexo errado. A primeira atitude é revisar o diagnóstico, conferir se um sinal de alarme passou despercebido e procurar uma cefaleia por uso excessivo de medicação que tenha se instalado por baixo do quadro original. As cefaleias trigêmino-autonômicas e a neuralgia do trigêmeo seguem condutas próprias, especializadas, e estão fora do escopo deste guia introdutório.

Reconhecimento

Centro de Dor

Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)

Centro de Tratamento por Ondas de Choque

Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)

Clínica listada

Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)

Perguntas frequentes

Como sei se é enxaqueca ou cefaleia tensional?

A enxaqueca costuma ser unilateral e pulsátil, piora ao esforço e vem com náusea e/ou fotofobia, em crises de 4 a 72 horas; a tensional aperta os dois lados, é mais leve, não piora ao esforço e não traz náusea. Veja o guia da enxaqueca e o da cefaleia tensional para confirmar o padrão.

Minha dor de cabeça começa no pescoço. O que pode ser?

Dor que sobe da nuca para a cabeça, de um lado fixo e ligada à postura, sugere cefaleia cervicogênica, por convergência das raízes C1 a C3 sobre o complexo trigeminocervical. O exame da coluna cervical, que reproduz o sintoma, ajuda a confirmar.

Dor de cabeça todos os dias é normal?

Não. Cefaleia em 15 dias ou mais por mês merece avaliação. Uma causa frequente é a cefaleia por uso excessivo de medicação, que cronifica a dor de quem já tinha enxaqueca ou tensional e tem tratamento próprio, começando pela retirada do abortivo sob orientação.

É só uma sensação de pressão e aperto, sem dor forte. Conta como cefaleia?

Sim. A pressão na cabeça costuma corresponder a cefaleia tensional ou cervicogênica e, com menos frequência, a um componente de ansiedade. O artigo dedicado mostra como diferenciar e quando é sinal de alerta.

Choques rápidos no rosto ao mastigar ou tocar a pele são dor de cabeça?

Esse padrão, em choques de segundos disparados por gestos do dia a dia no território V2/V3, é típico da neuralgia do trigêmeo, uma dor facial com tratamento específico, diferente das cefaleias comuns.

Toda dor de cabeça precisa de tomografia ou ressonância?

Não. Nas cefaleias primárias típicas, sem nenhum sinal de alerta, o diagnóstico é clínico e a imagem não é necessária. O exame fica reservado para quando há sinal de alarme ou padrão atípico, justamente para evitar achados incidentais que geram preocupação desnecessária.

Sinto que é sinusite sempre que dói a cabeça. É possível?

Fora de um quadro infeccioso claro, com febre, secreção purulenta e hiposmia, a maior parte da “dor sinusal” recorrente é, na verdade, enxaqueca com sintomas no rosto. Tratar como sinusite repetidamente atrasa o diagnóstico e favorece o uso excessivo de medicação.

Quando devo procurar um especialista?

Quando as crises são frequentes ou incapacitantes, não melhoram com o que você já tentou, exigem analgésico em muitos dias do mês, ou diante de qualquer sinal de alerta da seção «sinais de alerta». Um médico da dor ou neurologista define o tipo e monta o plano.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Carlos Roberto Baba
Sobre o autor
Dr. Carlos Roberto Baba
CRM-SP 47.825RQE 12.910 / 19.925

Médico com atuação em queixas ortopédicas, articulares, tendíneas e Acupuntura Médica.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211.
  2. Do TP, et al. Red and orange flags for secondary headaches in clinical practice: SNNOOP10 list. Neurology. 2019;92(3):134-144.
Atualizado em 04 jun 2026 Leitura 16 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Os critérios de cada tipo de cefaleia e a lista de sinais de alerta servem para orientar, não para autodiagnóstico: definir o tipo, decidir sobre exames e montar um plano individualizado dependem de consulta. Diante de uma dor de cabeça súbita e intensa, com febre e rigidez de nuca, déficit neurológico ou qualquer outro sinal de alarme, procure atendimento de urgência. Qualquer medicamento, abortivo ou profilático, deve ser iniciado, ajustado ou suspenso apenas pelo médico assistente.

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