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Quadril · Virilha

Impacto femoroacetabular: a síndrome do impacto no quadril

O impacto femoroacetabular é um conflito mecânico entre fêmur e acetábulo que causa dor profunda na virilha do adulto jovem. Veja os tipos cam, pincer e misto, e por que o tratamento conservador vem antes da artroscopia.

Resposta direta
  • O impacto femoroacetabular é um conflito mecânico entre a borda do acetábulo e a junção cabeça-colo do fêmur, que pode lesar o labrum e a cartilagem e gerar dor profunda na virilha no adulto jovem.
  • O quadro típico tem o sinal C com a mão em concha sobre o quadril e dor reproduzida pelo teste de impacto FADIR; a radiografia e a ressonância confirmam a morfologia e a lesão do labrum.
  • A base do tratamento é conservadora, com controle de carga e fortalecimento do quadril e do core; a artroscopia fica reservada a casos selecionados, depois de um tratamento bem conduzido.
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40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

O que é o impacto femoroacetabular e por que dói

Diagrama anatômico do quadril com a articulação normal a esquerda e quatro modelos ósseos rotulados normal, CAM, pincer e mixed mostrando o contato anormal entre cabeça do fêmur e acetábulo.
O impacto femoroacetabular tem três padrões: came (fêmur), pincer (acetábulo) e misto, que combina os dois.

A síndrome do impacto femoroacetabular (FAI) é um conflito mecânico: em certas posições do quadril, sobretudo na flexão com rotação interna, o colo do fêmur e a borda do acetábulo se chocam de forma repetida. Esse atrito danifica progressivamente o labrum e a cartilagem da borda articular, e é daí que vem a dor.

Para entender o problema, vale lembrar a anatomia. O quadril é uma articulação esférica: a cabeça do fêmur encaixa no acetábulo, a cavidade da bacia. Em volta da borda do acetábulo existe um anel de fibrocartilagem chamado labrum, que aprofunda o encaixe, sela a articulação e distribui a pressão. Quando há uma alteração de forma do osso, o movimento normal deixa de ser livre e passa a esbarrar, comprimindo justamente o labrum e a cartilagem vizinha.

Essa alteração de forma define os três tipos. No tipo cam (came), a junção entre a cabeça e o colo do fêmur perde a esfericidade e ganha uma saliência óssea que, na flexão, raspa para dentro do acetábulo e descola o labrum da cartilagem. No tipo pincer (pinça), o acetábulo é fundo demais ou cobre o fêmur em excesso, e a borda óssea pinça o labrum contra o colo. O tipo misto, com componentes cam e pincer juntos, é o mais frequente na prática.

3 tipos
morfologias do impacto: cam, pincer e misto
misto
é a forma mais comum na prática clínica
FADIR
flexão, adução e rotação interna reproduzem a dor
jovem
adulto ativo, muitas vezes ligado a esporte
O mecanismo

Choque na flexão profunda

Uma saliência óssea no colo do fêmur (cam) ou uma cobertura excessiva do acetábulo (pincer) faz o osso esbarrar na borda articular ao flexionar e girar o quadril para dentro. O atrito repetido lesa o labrum e a cartilagem, gerando dor profunda na virilha.

Onde dói

Profundo na virilha

Gesto que piora

Agachar e sentar fundo

O sintoma mais característico é uma dor profunda na virilha, que o paciente costuma indicar de um jeito muito típico: com a mão em concha logo acima e à frente do trocânter, formando um C com o polegar e o indicador. É o chamado sinal C. A dor piora ao agachar, ao sentar por muito tempo (sobretudo em assentos baixos), ao entrar e sair do carro, ao subir escadas e em gestos esportivos de chute, agachamento e mudança de direção. Pode haver sensação de travamento, estalo ou pinçamento quando o labrum está lesado.

É importante separar dois conceitos. Ter a morfologia de impacto na imagem (uma cam ou uma pincer) não é, sozinho, uma doença: muita gente assintomática tem essas formas ósseas. Fala-se em síndrome do impacto femoroacetabular apenas quando há a tríade sintomas compatíveis, achados de exame físico e achados de imagem, juntos. Esse cuidado evita tratar uma radiografia em vez de tratar o paciente.

Mito

“Tenho impacto no quadril no exame, então vou precisar operar.”

Fato

A morfologia de impacto é comum mesmo em quem não sente dor. A maioria dos quadros sintomáticos começa o tratamento por exercício e controle de carga; a cirurgia é considerada apenas em casos selecionados, depois de um tratamento conservador bem conduzido.

Morfologia não é diagnóstico

A saliência cam aparece em radiografia e ressonância de uma fração grande de atletas e adultos jovens sem nenhuma dor, em especial em quem joga futebol ou faz esportes de impacto desde a adolescência. Achar a morfologia em um exame, isolada, não justifica operar. O que muda a conduta é a soma de três coisas no mesmo paciente: dor profunda na virilha com o padrão típico, um exame físico que reproduz o conflito (perda de rotação interna, FADIR positivo) e a falha de uma reabilitação bem feita. Sem essa tríade, tratar a imagem é tratar a pessoa errada.

Sala de fisioterapia com maca azul, bola de exercícios e barras paralelas junto à janela
Reabilitação na clínica Sala de fisioterapia com maca, barras paralelas e ampla iluminação natural.

O que mais pode causar dor profunda na virilha

Radiografia de um quadril com seta verde apontando a junção cabeça-colo do fêmur e seta vermelha indicando uma proeminência óssea acima dela.
Na radiografia, a proeminência óssea na junção cabeça-colo diferencia o impacto femoroacetabular de outras causas de dor no quadril.

A dor na virilha tem várias origens, e nem toda dor profunda é impacto. Antes de fechar o diagnóstico, vale separar o que vem de dentro da articulação do que vem da musculatura, da parede ou da coluna. Cada hipótese muda a conduta, e mais de uma pode coexistir.

Principais causas de dor na virilha e suas pistas
CausaPista típica
Impacto femoroacetabular (FAI) / lesão do labrumDor profunda na virilha, sinal C, FADIR positivo, perda de rotação interna, jovem ativo; travamento ou estalo se há lesão labral
Artrose do quadril (coxartrose)Dor na virilha com rigidez e perda de rotação interna, em geral em pessoas mais velhas; o impacto é um dos fatores que podem levar a ela
Pubalgia (adutor / parede / sínfise)Dor mais superficial, pior à adução resistida e ao squeeze test, ligada ao esforço da musculatura
Quadril que estala (coxa saltans)Estalo audível ou palpável por fora (banda iliotibial) ou por dentro (iliopsoas); pode ou não doer
Hérnia inguinal verdadeiraAbaulamento que aparece ao esforço ou em pé e some deitado, redutível
Dor referida lombar ou neuropáticaDor que desce de raiz nervosa, com formigamento; pode acompanhar dor lombar

Na prática, duas distinções pesam mais. A primeira separa a dor de dentro da articulação (o impacto e a lesão do labrum) da dor da musculatura e da parede: a pubalgia tende a dar dor mais superficial, ligada à adução resistida, enquanto o impacto dá dor profunda, reproduzida pela flexão com rotação interna. A segunda observa o estalo: nem todo quadril que estala tem impacto, e você encontra esse tema na página sobre por que o quadril estala. O panorama completo da articulação está na página de dor no quadril.

Pérola clínica

Dor profunda na virilha em um adulto jovem e ativo, com sinal C, perda de rotação interna e teste FADIR positivo, fala fortemente a favor de impacto femoroacetabular com possível lesão do labrum. Já dor superficial, pior à adução resistida e ao squeeze test, aponta para a pubalgia, um cenário diferente que pede outro plano. O exame distingue, e às vezes as duas coisas coexistem.

Sinais de alerta antes de tratar

A maior parte das dores no quadril por impacto é mecânica e benigna, mas alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar e que a causa pode estar fora do roteiro do impacto. Procure atendimento sem demora se houver:

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Dor após trauma de alta energia ou queda, com incapacidade de apoiar o peso (risco de fratura).
  • Febre, mal-estar, vermelhidão ou inchaço no quadril, que levantam a hipótese de infecção articular.
  • Dor intensa e crescente em quem usa corticoide, faz quimioterapia, abusa de álcool ou tem doença que reduz a circulação do osso (suspeita de necrose avascular da cabeça do fêmur).
  • Perda de peso inexplicada, dor noturna implacável ou história de câncer.
  • Dor no quadril com claudicação progressiva e perda rápida de mobilidade, sobretudo em crianças e adolescentes.
  • Dor que desce da coluna para a perna com formigamento, dormência ou perda de força.

Cada item aponta para uma causa que muda a conduta: trauma com incapacidade de apoio sugere fratura; febre e sinais inflamatórios levantam infecção; o uso de corticoide ou a dor desproporcional pedem excluir necrose avascular; e a dor referida da coluna pede outra investigação. Na ausência desses sinais, o impacto femoroacetabular costuma seguir o caminho de uma condição mecânica, com avaliação e tratamento conduzidos de forma programada.

Como o impacto é avaliado: exame e imagem

A avaliação parte de uma pergunta prática: a dor vem de dentro da articulação (impacto, labrum, cartilagem), vem da musculatura e da parede ou há sinais que apontam para algo fora do quadril? A história e o exame físico respondem à maior parte disso, e a imagem confirma e localiza.

Na história, caracteriza-se o tempo de evolução, a localização da dor (o sinal C é uma pista valiosa), e os gestos que disparam o sintoma: agachar, sentar fundo por muito tempo, entrar e sair do carro, e gestos esportivos. Pergunta-se sobre travamento, estalo e falseio, que sugerem lesão do labrum, e rastreiam-se as bandeiras vermelhas do bloco anterior.

  1. Marcha e inspeção

    Observação da marcha e da postura, busca de claudicação antálgica e do padrão de apoio.

  2. Amplitude de movimento

    Medida da rotação interna do quadril em flexão; a perda de rotação interna é um achado característico do impacto.

  3. Teste de impacto (FADIR)

    Flexão a 90 graus, adução e rotação interna do quadril; a reprodução da dor profunda na virilha é o sinal mais sugestivo de impacto anterior.

  4. Teste FABER (Patrick)

    Flexão, abdução e rotação externa (figura de 4); dor e assimetria ajudam a localizar a origem articular e a triar a sacroilíaca.

  5. Triagem dos vizinhos

    Exame dos adutores (adução resistida e squeeze test), da parede inguinal e da coluna, para separar pubalgia, hérnia e dor referida.

A imagem é dirigida pela suspeita. A radiografia da bacia, em incidências adequadas (frente em pé e um perfil do colo, como o de Dunn), é o primeiro exame: mede o ângulo alfa (que quantifica a saliência cam na junção cabeça-colo), avalia a cobertura do acetábulo (relacionada ao componente pincer) e tria a artrose e outras causas ósseas. A ressonância magnética, em especial a artrorressonância (com contraste intra-articular), é o exame mais útil para ver a lesão do labrum e o estado da cartilagem. A tomografia pode ajudar a planejar uma eventual cirurgia.

Esquema: quadril normal, tipo cam (saliência no colo do fêmur) e tipo pincer (cobertura excessiva do acetábulo), com o labrum em destaque e o ângulo alfa na radiografia
Os três cenários do impacto femoroacetabular. No quadril normal, a junção cabeça-colo é esférica e o movimento é livre. No tipo cam, uma saliência óssea no colo raspa para dentro do acetábulo na flexão. No tipo pincer, a borda do acetábulo cobre o fêmur em excesso e pinça o labrum. O ângulo alfa, medido na radiografia, quantifica a saliência cam. Ilustração esquemática para fins educativos.
Uso racional da imagem

A morfologia cam e a pincer são frequentes em pessoas sem dor, e pequenas alterações do labrum aparecem em quadris assintomáticos. Por isso o ângulo alfa e o laudo da ressonância confirmam e localizam, mas não fecham o diagnóstico sozinhos: o que define a conduta é a correlação entre o sinal C, a perda de rotação interna, o teste FADIR e os achados de imagem, e não o exame isolado.

Assista: TENDINITE DO GLÚTEO – DOR MIOFASCIAL E TENDINOPATIA NO QUADRIL

Tratamento do impacto na clínica

O tratamento do impacto femoroacetabular começa conservador, não-cirúrgico e individualizado. A base é ativa, com controle de carga e fortalecimento do quadril e do core, e as demais técnicas se somam a ela conforme a apresentação clínica e a resposta. O objetivo é reduzir a dor, melhorar o controle do quadril e adaptar a carga, evitando o atrito que provoca o sintoma e adiando ou dispensando a cirurgia.

ReabilitaçãoProcedimentosMedicamentos

Controle de carga e educação

Reduzir temporariamente os gestos que provocam o impacto (agachamento profundo, sentar fundo, flexão com rotação interna extrema), sem repouso absoluto, e explicar o mecanismo.

Forte1ª linha

Fortalecimento do quadril e do core

Glúteos, rotadores externos e estabilizadores da pelve e do tronco, com correção do padrão de agachamento. É o eixo do plano.

Forte6–12 sem

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

Sobre o overlay miofascial do glúteo médio, piriforme e iliopsoas que acompanha o impacto; abre espaço para o exercício.

Moderadaadjuvante

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Modula a dor por vias segmentares e inibitórias descendentes; reduz a dor e a necessidade de anti-inflamatório, liberando o paciente para fortalecer.

Moderadabloco + reavaliação

Infiltração intra-articular guiada

Por ultrassom ou radioscopia, com valor diagnóstico (confirma dor intra-articular) e terapêutico; recurso pontual em casos selecionados.

Moderadapontual

Laser de alta intensidade e ondas de choque

Laser de alta intensidade como adjuvante analgésico; ondas de choque só quando há componente tendíneo ou miofascial associado, não sobre o conflito ósseo.

Limitadaselecionado

Por onde começar: as linhas de cuidado

Primeira linhainiciar aqui
Controle de cargaFortalecimento de glúteos e coreCorreção do padrão de agachamento
Segunda linhase a dor limita o exercício
Agulhamento secoAcupuntura / eletroacupunturaLaser de alta intensidadeInfiltração intra-articular diagnóstica
Refratáriocasos selecionados
Reavaliação após meses de conservadorEncaminhamento à artroscopia

Tratar segundo a morfologia: cam, pincer e misto

Cam

Saliência no colo do fêmur

A junção cabeça-colo perde a esfericidade e raspa para dentro do acetábulo na flexão, descolando o labrum.

→ controlar flexão com rotação interna e fortalecer o quadril
Pincer

Cobertura acetabular excessiva

O acetábulo é fundo demais ou cobre o fêmur em excesso, e a borda óssea pinça o labrum contra o colo.

→ ajustar amplitudes extremas e o padrão de báscula pélvica
Misto

Cam + pincer juntos

Combinação dos dois componentes; é a forma mais frequente na prática clínica.

→ plano conservador integral; reavaliar morfologia se refratário

Controle de carga e fisioterapia: a base

O que é
Primeira linha e intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança no impacto sintomático. Eixo duplo: controlar a carga e fortalecer o quadril e o core (glúteos, estabilizadores da pelve, controle do tronco).
Mecanismo
Evitar temporariamente as amplitudes extremas que provocam o choque (flexão profunda com rotação interna, agachamento abaixo do conforto) e trabalhar mobilidade tolerada, padrão de agachamento e gesto esportivo, em progressão.
Evidência
Programas de fisioterapia bem conduzidos melhoram a dor e a função em boa parte dos pacientes e fazem parte do tratamento mesmo de quem mais tarde opera.
O que esperar
Resposta gradual ao longo de semanas, dependente da regularidade. Na clínica, a reabilitação é individual, um paciente por sala, com cinesioterapia, RPG e Pilates clínico conforme o caso.
Indicações
Praticamente todo impacto sintomático.

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

O que é
Agulhamento do componente miofascial peri-quadril que acompanha o impacto. A defesa contra o conflito anterior sobrecarrega o glúteo médio e os rotadores externos profundos, com pontos-gatilho ativos no glúteo médio, no piriforme e no iliopsoas, além de tensão nos adutores.
Mecanismo
O agulhamento do glúteo médio e do piriforme procura reproduzir a dor referida e disparar uma resposta de contração local, reduzindo a atividade elétrica espontânea da placa motora; em pontos resistentes, a infiltração com anestésico local interrompe o ciclo dor-tensão-dor.
O que esperar
O agulhamento profundo do glúteo costuma deixar a região dolorida por um a dois dias antes do alívio; o efeito local e segmentar destensiona a musculatura e devolve amplitude para o exercício.
Limitações
Esse componente miofascial não é a causa do impacto; sustenta-se o uso do agulhamento como adjuvante sobre o overlay glúteo e peri-quadril, e nunca como tratamento do conflito ósseo. O ganho real só se sustenta acoplado ao fortalecimento, não isolado.

Infiltração intra-articular guiada

O que é
Infiltração intra-articular do quadril, guiada por ultrassom ou radioscopia, com anestésico e, em casos selecionados, corticoide.
Mecanismo
Tem duplo papel. Diagnóstico: o alívio importante da dor logo após o anestésico confirma que a dor vem de dentro da articulação, o que ajuda a decidir a conduta. Terapêutico: controla a dor e abre uma janela para avançar a reabilitação quando a dor limita os exercícios.
O que esperar
Efeito temporário; o ganho duradouro vem do fortalecimento.
Limitações
Funciona como recurso pontual dentro do plano multimodal, e não como tratamento isolado.

Acupuntura médica e laser de alta intensidade

No impacto femoroacetabular, estas modalidades não corrigem o conflito ósseo nem a lesão do labrum: somam-se ao exercício para trabalhar a dor e o overlay miofascial.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Não agem sobre a saliência cam nem sobre a borda pincer: trabalham o componente de dor, modulando-a por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula e por vias inibitórias descendentes, com participação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência aplicada à musculatura glútea e peri-quadril reforça esse efeito e dialoga com o overlay miofascial. Costuma-se planejar um primeiro bloco de sessões e reavaliar pela resposta concreta (dor à FADIR, tolerância ao agachamento, função no esporte).

Moderadacomponente de dor

Laser de alta intensidade

Atua por fotobiomodulação, com efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade, como adjuvante. Não substitui o exercício; soma-se a ele.

Limitadaadjuvante

Ondas de choque

Maior benefício nas tendinopatias e na dor miofascial crônica; no impacto não atuam sobre o conflito ósseo nem sobre a lesão do labrum, e entram apenas quando há um componente tendíneo ou miofascial associado. Não substituem o exercício; somam-se a ele.

Limitadacomponente tendíneo
Da prática clínica

O gesto do sinal C aparece quase sozinho: ao pedir para mostrar onde dói, muitos fazem a concha sobre a virilha e a lateral do quadril antes de qualquer pergunta, e descrevem a dor surgindo no fundo do agachamento, ao sair do carro ou depois de horas sentado em poltrona baixa, mais do que ao caminhar no plano.

Surpreende o paciente quando se explica que começar pela reabilitação não é só por cautela: controlar a carga e fortalecer glúteos e core muda como a articulação recebe a força e costuma reduzir a dor sem mexer no osso, e essa mesma reabilitação é parte do resultado mesmo de quem mais tarde opera.

O outro ponto que costuma aliviar é ouvir que ter a morfologia não é uma sentença: a cam é comum em quadris sem dor, e o que importa é o conjunto sintomas, exame e resposta ao tratamento. Boa parte da dor lateral e profunda tem um componente miofascial do glúteo médio e do piriforme que coexiste com o impacto; tratar esse overlay, que não resolve o conflito ósseo, costuma destravar a reabilitação.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

No impacto femoroacetabular, o tratamento não farmacológico não é um complemento opcional: é a primeira linha e a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança. O conflito é mecânico, e a forma de mudar como as cargas atravessam a articulação é melhorar o controle do quadril, a força e o padrão de movimento, e ajustar a atividade que provoca o choque. O ensaio multicêntrico UK FASHIoN e revisões sistemáticas mostram que muitos pacientes melhoram de forma relevante com um programa ativo bem conduzido, e que a reabilitação é parte essencial do resultado mesmo de quem mais tarde opera. Na clínica, a reabilitação é individual, conduzida por fisioterapeutas e integrada ao manejo médico da dor.

Fisioterapia e controle motor
Forte
Fortalecimento de glúteos e pelve
Forte
Ajuste de atividade e terapia manual
Moderada
RPG (reeducação postural global)
Moderada
Pilates clínico
Moderada

Fisioterapia e controle motor do quadril e do core

Programa progressivo de cinesioterapia dirigido ao controle motor do quadril e do tronco, com fortalecimento e correção do padrão de movimento. Ganhar controle dos estabilizadores e reorganizar o agachamento e a aterrissagem distribui melhor a carga e reduz o atrito que lesa o labrum. Resposta gradual ao longo de semanas, mantida para prevenir recorrência. Evita-se, na fase sintomática, forçar as amplitudes extremas de flexão com rotação interna.

Fortebase ativa

Fortalecimento dos glúteos e estabilizadores da pelve

Força dirigida ao glúteo médio e máximo, aos rotadores externos profundos e ao tronco, com carga graduada. Glúteos fortes controlam a adução e a rotação interna do fêmur no apoio e no agachamento, justamente os movimentos que aproximam o colo da borda acetabular, reduzindo o pinçamento anterior. Ganho ao longo de 6 a 12 semanas, com manutenção a longo prazo. A carga é progredida aos poucos para não reacender a dor.

Forte6–12 sem

RPG (reeducação postural global)

Trabalha as cadeias musculares por posturas de alongamento ativo e contração isométrica excêntrica sustentada. Meses de dor e postura antálgica encurtam cadeias e instalam compensações na pelve e no tronco que alteram o ritmo do quadril; a RPG devolve mobilidade e simetria à báscula pélvica. Não corrige a saliência cam nem a cobertura pincer; soma-se ao trabalho de força, não o substitui.

Moderadaadjuvante postural

Pilates clínico

Desenvolve controle motor e estabilização do tronco com carga graduada, conduzido de forma individualizada. Recupera o controle dos estabilizadores profundos do tronco e da pelve e ajuda a reorganizar o gesto de agachar e mudar de direção sem forçar o conflito anterior. A carga e a amplitude são adaptadas para não reproduzir o impacto; é parte de um plano, não um tratamento isolado.

Moderadacontrole motor

Ajuste de atividade e terapia manual

Educação sobre carga e modificação temporária dos gestos que provocam o impacto (agachamento muito profundo, sentar fundo prolongado, amplitudes extremas de flexão com rotação interna), somada à terapia manual e à liberação miofascial de glúteos, adutores e iliopsoas como adjuvante. O ajuste é temporário e específico, não repouso absoluto, que descondiciona e atrasa a recuperação.

Moderadatemporário

Como em toda dor crônica, nenhuma destas modalidades age isolada: a base ativa é o exercício, e as demais somam, não substituem. Elas compõem, com as técnicas em clínica e o manejo medicamentoso adjuvante, um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico, ajustado à apresentação de cada pessoa e à sua resposta.

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

Reconstrução tridimensional de tomografia de dois quadris lado a lado: o normal a esquerda e, a direita, a deformidade tipo came com saliência óssea destacada em vermelho na junção cabeça-colo do fêmur.
A saliência óssea da deformidade came e o alvo do reparo cirúrgico que restaura o contorno da junção cabeça-colo do fêmur.

A cirurgia do impacto femoroacetabular não é realizada em nossa clínica. Somos especializados em dor e reabilitação e conduzimos todo o tratamento conservador; a artroscopia do quadril é feita por um cirurgião ortopédico de quadril. Esta seção descreve o quadro completo e o momento de procurá-la, nem cedo demais nem tarde demais.

Conservador · ponto de partida

O caminho da maioria

  • Controle de carga e fortalecimento do quadril e do core, somados às técnicas em clínica.
  • A maior parte dos quadros sintomáticos melhora sem cirurgia imediata.
  • É também parte do resultado de quem mais tarde opera, antes e depois do procedimento.
VS

Cirúrgico · casos selecionados

Artroscopia do quadril

  • Dor e perda de função persistentes apesar de tratamento conservador adequado por alguns meses.
  • Diagnóstico bem definido: sintomas, exame e imagem concordantes.
  • Cartilagem ainda preservada.

A artroscopia do quadril pode corrigir a morfologia óssea e tratar a lesão do labrum, preservando o tecido sempre que possível. A decisão é sempre individual e compartilhada, e leva em conta a falha do tratamento conservador bem conduzido, a clareza do diagnóstico e o estado da cartilagem. O ensaio UK FASHIoN sugeriu vantagem da artroscopia sobre o tratamento conservador na dor e função do impacto, enquanto outras revisões encontram diferença pequena ou incerta; por isso a seleção do caso, e não a indicação automática, é o que mais pesa no resultado.

Osteoplastia femoral (cam)
Remodelagem artroscópica da saliência óssea na junção cabeça-colo do fêmur, devolvendo a esfericidade e liberando a flexão com rotação interna. Indicada quando há cam sintomática com falha do conservador.
Osteoplastia acetabular (pincer)
Regularização da borda do acetábulo que cobre o fêmur em excesso, reinserindo o labrum quando necessário. Trata o componente pincer da morfologia mista.
Reparo do labrum
Sutura e reinserção do labrum lesado à borda acetabular, preservando sua função de selo e de distribuição de carga. Preferido à ressecção sempre que o tecido é viável.
O que esperar
Reabilitação estruturada por vários meses após a cirurgia, parte essencial do resultado; retorno ao esporte guiado por critérios de força e função.

Há ainda opções fora da clínica que completam o cuidado em cenários específicos. A infiltração intra-articular do quadril, guiada por ultrassom ou radioscopia, com anestésico e, em casos selecionados, corticoide, é realizada por serviços de imagem ou intervenção e tem valor diagnóstico e terapêutico (detalhada na seção de tratamento medicamentoso). Quando a artrose já está estabelecida e a cartilagem muito desgastada, a artroscopia perde previsibilidade, e o quadro passa a ser conduzido como dor no quadril por artrose, podendo, em estágios avançados e em pessoas mais velhas, evoluir para discussão de artroplastia (prótese) com o ortopedista. Em qualquer cenário, a reabilitação que oferecemos se articula com o cirurgião, antes e depois do procedimento.

Semana 1 a 2

Controle inicial

Ajustar a carga, retirar as amplitudes que provocam o impacto e iniciar fortalecimento de glúteos e core sem dor.

Semana 3 a 8

Progressão de força e controle

Avançar o fortalecimento do quadril, o controle do tronco e o padrão de agachamento; somar técnicas em clínica conforme a dor.

Após 3 meses

Reavaliação

Sem a resposta esperada e com diagnóstico bem definido, discute-se a infiltração diagnóstica e a artroscopia.

No acompanhamento, conservador ou cirúrgico, medem-se a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a amplitude e a dor ao teste de impacto, e um índice de função do quadril, como o iHOT, o HOOS ou o Oxford Hip Score, além de marcos funcionais e esportivos. Quando a melhora não vem como se esperava, o plano é reavaliado e ajustado.

3 a 6
meses, em média, de tratamento conservador antes de reavaliar a cirurgia; a função é acompanhada por escala de dor 0 a 10 e índices como iHOT e HOOS
Hábitos que ajudam a controlar o quadro · marque o que já faz
  • Evitar, na fase sintomática, o agachamento muito profundo e o sentar fundo por longos períodos.
  • Manter um programa de fortalecimento de glúteos, quadril e core ao longo do tempo, não só na crise.
  • Progredir carga e volume de treino aos poucos, evitando saltos bruscos.
  • Trabalhar o padrão de agachamento e de aterrissagem com orientação, sobretudo no esporte.
  • Procurar avaliação cedo quando a dor profunda na virilha começa, antes que vire um quadro crônico.

Hábitos mantidos reduzem a sobrecarga da articulação.

Tratamento medicamentoso

A medicação tem papel adjuvante no impacto femoroacetabular: ajuda a controlar a dor na fase mais sintomática para que a reabilitação possa avançar, mas não corrige a morfologia óssea (a saliência cam, a cobertura pincer) nem trata a lesão do labrum. Não deve virar uso crônico nem mascarar uma dor que pioraria com o esforço. A indicação, a dose, a duração e as contraindicações de cada fármaco são definidas pelo médico assistente, com atenção a efeitos adversos e comorbidades, e identificadas pelo nome do princípio ativo.

Classes medicamentosas no impacto femoroacetabular
ClassePara quêEvidênciaO que esperar e limites
Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco)Crises de dor, por ciclos curtos, somados ao controle de carga e ao exercício. Inibem a cicloxigenase e reduzem prostaglandinas, diminuindo a dor e o componente inflamatório da sinovite reacional ao atrito.ModeradaAliviam a dor a curto prazo, mas não alteram a história natural do impacto nem a lesão labral. Riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular aumentam com o uso prolongado e em idosos ou com comorbidades: prescrição médica e por tempo definido.
Analgésicos simples (paracetamol, dipirona)Alternativa ou complemento aos anti-inflamatórios para dor leve a moderada, útil quando os anti-inflamatórios são contraindicados. Ação analgésica central, com efeito anti-inflamatório mínimo.LimitadaEfeito analgésico modesto, com bom perfil de tolerância nas doses corretas. Respeitar a dose máxima diária (atenção à dose total de paracetamol pelo risco hepático). Camadas de alívio que acompanham a reabilitação, não a substituem.
Relaxantes muscularesSituações pontuais.LimitadaPapel limitado e causam sonolência; restritos a situações pontuais.
Infiltração intra-articular (fora da clínica)Anestésico local e, em casos selecionados, corticoide, guiada por ultrassom ou radioscopia em serviços de imagem ou intervenção. Papel diagnóstico (o alívio após o anestésico confirma dor intra-articular) e terapêutico (abre janela para a reabilitação).ModeradaRecurso pontual e adjuvante dentro do plano multimodal, com efeito temporário; o ganho duradouro vem do fortalecimento, e o corticoide intra-articular é usado com parcimônia. Não é realizada em nossa clínica.
Viscossuplementação (ácido hialurônico)Injeção intra-articular com papel mais estabelecido na artrose.LimitadaNo impacto sem artrose, o benefício é incerto.

Nenhum medicamento trata a causa mecânica do impacto. A farmacologia é uma camada de alívio que viabiliza a base ativa do tratamento, o exercício, e que se integra às técnicas em clínica para o controle da dor; quando o quadro é refratário e o diagnóstico está bem definido, a discussão se desloca para a infiltração diagnóstica e a artroscopia, e não para o aumento indefinido da medicação.

Reconhecimento

Centro de Dor

Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)

Centro de Tratamento por Ondas de Choque

Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)

Clínica listada

Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)

Perguntas frequentes

Ilustração anatômica do musculo iliopsoas em vista frontal e lateral, com o ilíaco e o psoas em vermelho e estruturas rotuladas como ligamento inguinal e arcada iliopectínea.
O iliopsoas, na frente do quadril, pode causar dor inguinal que se confunde com o impacto femoroacetabular.

Impacto femoroacetabular sempre precisa de cirurgia?

Não. A base do tratamento é conservadora, com controle de carga e fortalecimento do quadril e do core. A artroscopia fica reservada a casos selecionados, com sintomas persistentes apesar de um tratamento bem conduzido por alguns meses, diagnóstico bem definido e cartilagem ainda preservada.

O que é o sinal C?

É a forma como o paciente costuma indicar a dor: com a mão em concha logo acima e à frente do trocânter, formando um C com o polegar e o indicador, sobre a virilha e a lateral do quadril. É uma pista típica de dor intra-articular, como no impacto.

Qual a diferença entre os tipos cam, pincer e misto?

No tipo cam, há uma saliência óssea na junção cabeça-colo do fêmur que raspa para dentro do acetábulo. No tipo pincer, o acetábulo cobre o fêmur em excesso e pinça o labrum. O tipo misto reúne os dois e é o mais comum.

Posso continuar fazendo esporte com impacto no quadril?

Em geral sim, com ajustes. Na fase sintomática, reduz-se temporariamente o que provoca a dor (agachamento profundo, amplitudes extremas) e mantém-se a atividade tolerada, enquanto se fortalece o quadril e o core. O retorno pleno é guiado por critérios de força e função, com orientação.

Tenho uma lesão do labrum no exame. Vou precisar operar?

Não necessariamente. Lesões do labrum aparecem também em quadris sem dor, e muitas respondem ao tratamento conservador. A decisão de operar depende da correlação entre os sintomas, o exame e a imagem, e da falha do tratamento conservador, não do laudo isolado.

O impacto femoroacetabular leva à artrose do quadril?

A morfologia de impacto, sobretudo a cam, é um dos fatores associados ao desenvolvimento de artrose do quadril ao longo do tempo. Isso não significa que todo mundo com impacto terá artrose. O controle de carga e o fortalecimento ajudam a reduzir a sobrecarga da articulação.

Como sei se a dor é do quadril e não dos adutores?

Dor profunda na virilha, reproduzida pela flexão com rotação interna do quadril (FADIR) e com perda de rotação interna, aponta para o quadril. Dor mais superficial, pior à adução resistida e ao squeeze test, fala a favor dos adutores, como na pubalgia. O exame distingue, e às vezes as duas coisas coexistem.

Quando devo procurar um especialista?

Quando a dor profunda na virilha não melhora em algumas semanas, recorre ao esforço, limita a rotina ou vem com travamento, estalo doloroso ou qualquer sinal de alerta. Um médico fisiatra ou da dor pode definir a origem, separar o que é quadril, adutor ou parede, e montar o plano.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Griffin DR, Dickenson EJ, O’Donnell J, et al. The Warwick Agreement on femoroacetabular impingement syndrome (FAI syndrome): an international consensus statement. Br J Sports Med. 2016;50(19):1169 a 1176. acessar
  2. Griffin DR, Dickenson EJ, Wall PDH, et al. Hip arthroscopy versus best conservative care for the treatment of femoroacetabular impingement syndrome (UK FASHIoN): a multicentre randomised controlled trial. Lancet. 2018;391(10136):2225 a 2235. acessar
  3. Bastos RM, de Carvalho Júnior JG, da Silva SAM, et al. Surgery is no more effective than conservative treatment for femoroacetabular impingement syndrome: systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. Clin Rehabil. 2021;35(3):332 a 341. acessar
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  5. Pavkovich R. Effectiveness of dry needling, stretching, and strengthening to reduce pain and improve function in subjects with chronic lateral hip and thigh pain: a retrospective case series. Int J Sports Phys Ther. 2015;10(4):540 a 551. ver resumo
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 12 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Cada quadril sintomático tem uma combinação própria de morfologia, lesão do labrum e overlay miofascial, e a conduta no impacto femoroacetabular precisa ser individualizada após exame presencial.

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