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Medicamento · Antidepressivo tricíclico · Dor neuropática

Nortriptilina para dor

A nortriptilina é um antidepressivo tricíclico usado em dose baixa para a dor neuropática crônica, com efeito analgésico independente do humor.

Resposta direta
  • A nortriptilina serve, na dor, sobretudo para a dor neuropática (queimação, choque, formigamento) e para quadros de dor crônica em que o sono ruim e a sensibilização central participam. É um tricíclico aparentado da amitriptilina, do qual é metabólito, com tendência a menos efeitos anticolinérgicos e menos sedação.
  • A dose usada para dor é baixa e noturna, bem menor que a dose antidepressiva, e o alívio costuma surgir só depois de 1 a 2 semanas de uso contínuo, não na primeira noite. A titulação é gradual e individual.
  • Funciona para parte das pessoas, não para todas, e o alívio costuma ser parcial. Os efeitos comuns são boca seca, prisão de ventre, sonolência, tontura e ganho de peso; em idosos e em quem tem doença cardíaca exige cautela, e pode ser pedido um eletrocardiograma antes ou durante o uso.
  • É medicamento de prescrição: a indicação, a dose, os ajustes e a eventual retirada são definidos pelo médico, dentro de um plano que trata a causa da dor.
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Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Para que serve a nortriptilina na dor

Ilustração editorial de um nervo se acalmando à noite, com disparos em terracota suavizando.
A nortriptilina, em dose baixa, acalma a dor neuropática e melhora o sono.

A nortriptilina nasceu como antidepressivo, mas na prática da medicina da dor uma das suas indicações mais úteis é o tratamento da dor crônica, sobretudo a dor neuropática. Por isso a pergunta “nortriptilina para que serve” tem duas respostas verdadeiras: serve para depressão e serve para dor, e aqui ela é prescrita justamente pela segunda razão.

Dor neuropática é a dor que vem de uma lesão ou disfunção do próprio sistema que conduz a dor, seja o nervo periférico, seja as vias centrais. Tem uma assinatura reconhecível: queimação, choque elétrico, agulhadas, formigamento dolorido (parestesia) ou dor ao simples toque da roupa ou do lençol (alodínia). É diferente da dor que vem de um músculo ou de uma articulação inflamada e, por isso, responde mal aos analgésicos comuns e aos anti-inflamatórios, e melhor a medicamentos que agem sobre o próprio nervo, como os antidepressivos tricíclicos.

Nesse cenário, a nortriptilina é uma das opções para várias formas de dor neuropática, ao lado de outro tricíclico (a amitriptilina), da duloxetina e dos gabapentinoides. As situações típicas incluem a neuropatia diabética dolorosa, a neuralgia pós-herpética (após o herpes-zóster), a dor neuropática após cirurgia ou trauma e a radiculopatia com componente neuropático. Além da dor neuropática propriamente dita, é usada em outros quadros de dor crônica em que essas vias estão envolvidas: na cefaleia tensional crônica e na enxaqueca, como medicação preventiva para reduzir a frequência das crises, e não para cortar a crise já instalada; e na dor crônica com sono ruim, em que o efeito leve sobre o sono, em dose baixa à noite, é aproveitado quando a dor atrapalha o sono e o sono ruim, por sua vez, piora a dor.

A decisão de usar nortriptilina não deve ser guiada apenas pela intensidade da dor. Ela depende do diagnóstico provável (que tipo de dor é esta), dos riscos individuais de cada pessoa e do que precisa melhorar na vida diária: dormir, caminhar, sentar, trabalhar, dirigir, treinar, tolerar a reabilitação ou reduzir a frequência das crises. São metas mais objetivas do que simplesmente dizer que a dor ficou menor por algumas horas.

O ponto que mais gera dúvida

Tomar nortriptilina para dor não significa que o médico ache que a sua dor “é da cabeça” ou psicológica. O efeito analgésico do remédio é independente do efeito antidepressivo: aparece em doses muito menores, mais cedo, e em pessoas sem nenhuma depressão. Quando usada com essa finalidade, ela age sobre o circuito da dor, e não sobre o humor.

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Como age: o mecanismo na dor

Para entender por que um antidepressivo alivia a dor do nervo, é preciso lembrar que o corpo tem um sistema próprio para frear a dor: do tronco encefálico descem vias inibitórias que usam dois mensageiros, a noradrenalina e a serotonina, para reduzir, na medula, a quantidade de sinal doloroso que sobe até o cérebro. Na dor neuropática crônica esse freio costuma estar enfraquecido — e é sobre ele que a nortriptilina atua, por mais de um caminho.

O freio descendente

Do tronco encefálico descem vias inibitórias descendentes que liberam noradrenalina e serotonina no corno dorsal da medula, diminuindo a transmissão da dor. Na dor neuropática crônica esse freio costuma estar enfraquecido.

Reforço do freio (alvo principal)

A nortriptilina bloqueia a recaptação de noradrenalina e, em menor grau, de serotonina nas sinapses, aumentando a disponibilidade desses neurotransmissores nas vias inibitórias descendentes e potencializando a modulação que reduz a dor no corno dorsal. É o mesmo eixo que medicamentos duais (IRSN) como a duloxetina reforçam por outro caminho.

Ações extras sobre o nervo lesado

Soma-se o bloqueio de canais de sódio, que reduz os disparos espontâneos e a hiperexcitabilidade do nervo lesado, além de ação sobre receptores do glutamato. Por atuar em múltiplos alvos do circuito da dor, a dose analgésica é menor e o efeito sobre a dor independe do efeito sobre o humor.

Uma diferença farmacológica importante: por ser metabólito da amitriptilina, a nortriptilina tem ação mais seletiva sobre a noradrenalina e menos efeito anti-histamínico e anticolinérgico, o que costuma se traduzir em menos sedação e menos boca seca. Mas os efeitos colaterais nascem do outro lado da mesma molécula — cada alvo bloqueado tem sua contrapartida:

Recaptação de noradrenalina (e, em menor grau, serotonina)
Reforça as vias inibitórias descendentes: efeito analgésico na dor neuropática
Bloqueio de canais de sódio
Reduz disparos espontâneos e a hiperexcitabilidade do nervo lesado
Ação sobre receptores de glutamato
Contribui para a modulação da dor no circuito medular
Bloqueio de receptores de acetilcolina (anticolinérgico, mais brando que a amitriptilina)
Boca seca e prisão de ventre
Bloqueio de receptores de histamina
Sonolência / efeito sedativo
Bloqueio de receptores adrenérgicos
Possível queda de pressão ao levantar

É justamente esse perfil um pouco mais favorável — menos efeito anti-histamínico e anticolinérgico que a amitriptilina — que costuma fazer da nortriptilina uma alternativa quando a amitriptilina não é bem tolerada, sem que isso a torne isenta de cuidados.

Dose para dor é diferente de dose antidepressiva, e a latência de 1 a 2 semanas

Na dor, a nortriptilina é usada de um jeito bem diferente do uso antidepressivo. A dose costuma ser baixa e tomada à noite, perto da hora de dormir, por dois motivos: aproveita-se o leve efeito sobre o sono e reduz-se a sonolência diurna. O tratamento começa com uma dose pequena e, conforme a tolerância e a resposta, o médico pode aumentar aos poucos, em geral em intervalos de alguns dias a uma a duas semanas.

A dose para dor é tipicamente menor que a dose usada para tratar depressão, e essa distinção é parte do raciocínio clínico. Dose, ritmo de aumento e duração são individualizados.

O ponto que mais frustra quem começa é a latência. A nortriptilina não é um analgésico de resgate: não corta a dor na hora, como faz uma dipirona. O efeito analgésico se constrói com o uso contínuo e costuma começar a aparecer depois de 1 a 2 semanas, com benefício que ainda pode crescer ao longo de algumas semanas na dose adequada.

O que costuma surgir primeiro são a sonolência leve e a boca seca; o alívio da dor vem depois. Por isso a avaliação de eficácia é feita em semanas, não em dias. Outro ponto importante: após uso prolongado, a nortriptilina não deve ser suspensa de forma abrupta, porque a retirada brusca pode causar mal-estar, náusea e distúrbio do sono. A redução, quando indicada, é feita de forma gradual, sempre orientada pelo médico.

Dia 1 a 7

Adaptação

Costumam aparecer boca seca e alguma sonolência antes de qualquer efeito sobre a dor. A dose inicial é baixa, à noite, e o corpo se ajusta aos poucos.

Semana 1 a 2

Início do efeito analgésico

A dor neuropática costuma começar a ceder e o sono tende a melhorar. É o momento de reavaliar com o médico, sem desistir antes da hora.

Semana 4 a 8

Resposta e ajuste

Define-se se a nortriptilina ajuda o suficiente, se vale ajustar a dose ou se é melhor trocar por outra opção. A descontinuação, se necessária, é gradual.

O que esperar: a evidência

A nortriptilina é um medicamento antigo, barato e amplamente usado, com décadas de experiência clínica na dor neuropática. Ela não funciona para todo mundo, e quando funciona o alívio costuma ser parcial, não a abolição da dor.

Nas revisões sistemáticas de antidepressivos tricíclicos na dor neuropática, cerca de uma em cada três a quatro pessoas tratadas obtém alívio importante que não teria só com placebo. As próprias revisões alertam que a qualidade das evidências é limitada, mas a experiência clínica sustenta o uso, sobretudo pelo custo e pela disponibilidade.

Revisões sistemáticas · dor neuropática1 em cada 3 a 4

Antidepressivos tricíclicos na dor neuropática

As sínteses de evidência sobre tricíclicos (amitriptilina e nortriptilina) na dor neuropática apontam alívio significativo em cerca de 1 a cada 3 ou 4 pessoas, com qualidade de evidência considerada baixa a moderada. Vale tentar em casos selecionados, com a expectativa de que pode não funcionar para todos e de que o alívio costuma ser parcial. A escolha entre nortriptilina, amitriptilina, duloxetina ou um gabapentinoide é individual, conforme o quadro, as comorbidades e os efeitos adversos.

Ver referências →

Uma meta é, portanto, reduzir a dor a um patamar que devolva sono, função e qualidade de vida, e não esperar que a dor desapareça por completo. Quando a nortriptilina ajuda apenas em parte, ela costuma ser combinada com as medidas não-farmacológicas descritas adiante, em vez de simplesmente substituída. E a melhor forma de saber se o medicamento está valendo a pena é comparar o alívio com os efeitos colaterais: se a dor melhora um pouco, mas a pessoa fica sedada, confusa, com tontura, queda de pressão ou perda de função, o resultado pode não ser favorável.

Efeitos colaterais, cuidado cardíaco e interações

Os efeitos adversos da nortriptilina vêm sobretudo das suas ações anticolinérgica, anti-histamínica e cardiovascular. A maioria é dose-dependente e mais intensa no começo, tendendo a atenuar com o tempo, mas alguns exigem atenção especial, principalmente no idoso. Idade, função dos rins e do fígado, pressão, histórico de quedas, glaucoma, próstata aumentada, uso de anticoagulantes ou de outros remédios para sono e ansiedade e o consumo de álcool podem mudar a decisão.

Efeitos e cuidados com a nortriptilina
CategoriaO que costuma acontecerConduta / cuidado
AnticolinérgicosBoca seca, prisão de ventre, visão embaçada, retenção urináriaHidratação e fibras; cautela em glaucoma de ângulo fechado e em próstata aumentada
Sedação / sonoSonolência, em geral mais branda que com a amitriptilinaTomar à noite; aproveitada a favor quando há sono ruim ligado à dor
Ganho de peso e apetiteAumento de apetite e ganho de peso em parte das pessoasDiscutir com o médico; monitorar o peso ao longo do tratamento
CardiovascularQueda de pressão ao levantar; em doses mais altas, alteração da condução do coraçãoCautela em cardiopatas e em arritmias; pode ser pedido eletrocardiograma, sobretudo no idoso
Idoso e cogniçãoMaior risco de confusão, quedas, tontura, retenção urinária e efeitos cardíacosDose menor e reavaliação frequente; ainda assim, a nortriptilina é muitas vezes preferida à amitriptilina pelo perfil mais favorável

Há situações em que a nortriptilina deve ser evitada ou usada com cautela redobrada: infarto recente ou arritmias graves, alterações importantes da condução cardíaca, glaucoma de ângulo fechado, retenção urinária e uso recente de inibidores da MAO (outra classe de antidepressivos). Em idosos, os tricíclicos aparecem nas listas de medicamentos potencialmente inapropriados justamente pelo conjunto de efeitos anticolinérgicos e cardíacos, o que não os proíbe, mas reforça a necessidade de avaliação criteriosa e de dose baixa. O eletrocardiograma entra exatamente nesse contexto: avaliar a condução do coração antes de iniciar ou durante o tratamento em pessoas mais velhas ou com risco cardíaco, porque os tricíclicos podem afetar o ritmo.

As interações também pesam na decisão. A combinação com outras substâncias que aumentam a serotonina, como alguns antidepressivos, o tramadol e os triptanos, eleva o risco de síndrome serotoninérgica; o álcool e outros sedativos somam-se à sonolência; e há interações com medicamentos que afetam o ritmo cardíaco. Combinar fármacos da mesma família eleva o risco de toxicidade serotoninérgica e cardíaca. A indicação, a escolha entre as opções, a dose, os aumentos e a eventual retirada são definidos pelo médico que conhece a sua história e as suas comorbidades, a quem cabe informar todos os produtos em uso, incluindo remédios para sono, ansiedade, gripe e suplementos.

Procure avaliação médica sem demora se

Durante o uso de nortriptilina, atenção a

  • Batimentos cardíacos irregulares, palpitação forte, desmaio ou dor no peito.
  • Confusão mental, agitação intensa, febre com rigidez muscular e tremores (possível síndrome serotoninérgica).
  • Incapacidade de urinar, dor ocular intensa com visão embaçada (possível crise de glaucoma).
  • Pensamentos de se machucar: antidepressivos exigem acompanhamento, sobretudo em jovens no início do uso.
  • Dor neuropática de início súbito acompanhada de fraqueza, perda de força ou alteração do controle urinário ou intestinal, que pede avaliação imediata da causa.
Assista: NORTRIPTILINA: Para que serve? Como usar e efeitos colaterais

O lugar da nortriptilina no tratamento da dor

A nortriptilina é uma peça de um plano, não o plano inteiro. O tratamento da dor neuropática crônica é multimodal, não-cirúrgico e individualizado: combina o remédio certo, na dose certa, com reabilitação e com técnicas que modulam a dor, e parte de uma premissa importante. Antes de tratar só o sintoma, é preciso entender e tratar a causa da neuropatia: controlar o diabetes na neuropatia diabética, descomprimir uma raiz nervosa quando há compressão, e assim por diante. A dor neuropática e suas causas, como a neuropatia diabética, são detalhadas na página sobre dor crônica e neuropatia diabética.

Boa parte do trabalho não é decidir só qual remédio usar, mas entender o tipo de dor. Dor mecânica costuma piorar com carga ou postura; dor inflamatória pode vir com calor, inchaço ou rigidez; dor neuropática queima, dá choque ou formiga; dor sensibilizada pode ficar desproporcional ao exame. Cada padrão muda a estratégia, e é por isso que uma revisão bem feita pergunta se há compressão neural, tendinopatia, artrose, dor miofascial, sono ruim, perda de condicionamento, medo de movimento, efeito colateral de outro remédio ou sinal de uma doença que precisa de investigação diferente.

Dentro do braço farmacológico, a nortriptilina divide o lugar com outras opções, e a escolha é feita pelo perfil de cada paciente. Vale conhecer as principais alternativas, sempre por nome genérico, nunca por marca. O guia de remédios para dor reúne essa visão geral.

Amitriptilina (outro tricíclico)

Mecanismo
É a molécula da qual a nortriptilina é metabólito; age de modo parecido, reforçando as vias inibitórias descendentes, mas com mais efeito anti-histamínico e anticolinérgico.
Evidência
Tem eficácia analgésica comparável à da nortriptilina na dor neuropática.
O que esperar
Tende a ser mais sedativa e a causar mais boca seca e prisão de ventre, o que pode ser útil quando há insônia importante, mas pesa no idoso. Mesma latência de 1 a 2 semanas e mesma regra: dose baixa, à noite, definida pelo médico. O tema é aprofundado na página sobre amitriptilina para dor neuropática em adultos.

Duloxetina (IRSN)

Mecanismo
Inibe a recaptação de serotonina e de noradrenalina (antidepressivo dual, ou IRSN), reforçando a mesma via descendente de freio da dor, porém sem o bloqueio anticolinérgico e cardíaco dos tricíclicos.
Evidência
É opção de primeira linha na neuropatia diabética dolorosa e na fibromialgia, com boa base de estudos.
O que esperar
Tende a ser mais bem tolerada no aspecto cardíaco e anticolinérgico, mas pode causar náusea no início, alteração do sono e elevação da pressão; também não deve ser suspensa de forma abrupta. É uma alternativa natural quando os efeitos dos tricíclicos pesam, sobretudo no idoso ou no cardiopata. Veja duloxetina para dor crônica.

Gabapentina e pregabalina (gabapentinoides)

Mecanismo
Atuam por uma via diferente: ligam-se à subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio nos neurônios, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios e a hiperexcitabilidade do nervo lesado.
Evidência
São primeira linha na dor neuropática, com boa eficácia na neuralgia pós-herpética e na neuropatia diabética.
O que esperar
A gabapentina exige titulação mais lenta e várias tomadas ao dia; a pregabalina age mais rápido e tem posologia mais simples. Os efeitos típicos são sonolência, tontura, edema e ganho de peso. Por agirem em alvo distinto, às vezes são combinadas com um tricíclico ou com a duloxetina em dor refratária, sempre sob orientação médica.
Opções na dor neuropática
MedicamentoClasse e viaQuando costuma ser preferido
NortriptilinaTricíclico mais seletivo (noradrenalina); freio descendente + canais de sódioQuando se quer o efeito do tricíclico com menos sedação e menos efeitos anticolinérgicos
AmitriptilinaTricíclico; freio descendente + canais de sódioDor neuropática com insônia associada; opção de baixo custo
DuloxetinaIRSN (dual)Neuropatia diabética e fibromialgia; cautela cardíaca e anticolinérgica menor
Gabapentina / pregabalinaGabapentinoide; canais de cálcioNeuralgia pós-herpética; alvo diferente, útil para combinar

O tratamento não-farmacológico: por que ele não é opcional

Nenhum desses remédios resolve sozinho a dor neuropática crônica de forma duradoura. O alívio sustentado vem de um plano que soma medicação a reabilitação e a neuromodulação da dor. É aqui que entra o trabalho da nossa clínica, com a experiência do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Mecanismo
A inserção de agulhas finas em acupontos, por médico, ativa a modulação segmentar no corno dorsal (teoria da comporta) e as mesmas vias inibitórias descendentes que a nortriptilina reforça, com liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas.
Evidência
Há evidência moderada para dor crônica, incluindo componentes neuropáticos e a enxaqueca, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados.
O que esperar
Um ciclo inicial de cerca de 6 a 10 sessões, 1 a 2 vezes por semana, com alívio progressivo e cumulativo reavaliado ao final. É especialmente útil quando se busca reduzir a quantidade de medicamentos ou complementar a medicação que ajuda apenas em parte.

Reabilitação, exercício e dessensibilização

Mecanismo
A reabilitação ativa individualizada melhora o controle motor, a força e a mobilidade e, na dor neuropática, trabalha a dessensibilização do território doloroso e do movimento, reduzindo a hiperexcitabilidade aprendida do sistema nervoso.
Evidência
O exercício é a base do tratamento conservador da dor crônica, com benefício consistente na função e na qualidade de vida.
O que esperar
É a parte mantida do plano: a resposta se constrói ao longo de semanas e o programa segue depois do alívio para evitar recorrência.

Neuromodulação em casos selecionados

Mecanismo
Técnicas como a estimulação elétrica nervosa percutânea aplicam corrente por agulhas finas sobre trajetos nervosos, promovendo neuromodulação periférica e segmentar da dor.
Evidência e o que esperar
São opções para componentes neuropáticos selecionados, aplicadas em ciclos com a resposta reavaliada. Entram como recurso pontual, dentro do plano multimodal, quando a dor não cede ao conjunto inicial bem conduzido, e não substituem a base ativa do tratamento. Para casos refratários com forte componente miofascial associado, a toxina botulínica tipo A pode ter papel adjuvante em indicações específicas, sempre off-label fora da enxaqueca crônica e sob critério médico.

Tratar a causa e educar

Investigar e controlar a causa da neuropatia, por exemplo o diabetes, entender a natureza da dor e ajustar sono e rotina.

Medicação de primeira linha

Nortriptilina, amitriptilina, duloxetina ou gabapentinoide, escolhidos pelo perfil do paciente, sempre com dose e ajuste pelo médico.

Reabilitação e técnicas em clínica

Exercício e dessensibilização como base, somados a acupuntura e eletroacupuntura para modular a dor.

Procedimentos em casos selecionados

Neuromodulação e outros recursos quando a dor persiste apesar do plano inicial bem conduzido.

No fim, a nortriptilina pode aliviar de forma importante a dor neuropática de parte das pessoas, mas o melhor resultado quase sempre vem de combiná-la com reabilitação e com as técnicas de modulação da dor, dentro de um plano que ataca a causa e é reavaliado por metas: dor, sono, função e a menor necessidade possível de medicação.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Nortriptilina serve para dor? E é a mesma coisa que para depressão?

Sim, a nortriptilina serve para dor, e esse é um dos seus usos frequentes na medicina da dor, sobretudo na dor neuropática. É a mesma molécula usada na depressão, mas o efeito analgésico é independente: aparece em doses menores, mais cedo, e em pessoas sem depressão. Ela age reforçando as vias que o corpo usa para frear a dor, e não tratando o humor, quando prescrita com essa finalidade.

A dose de nortriptilina para dor é a mesma da depressão?

Em geral não. Na dor, a nortriptilina costuma ser usada em dose mais baixa que a dose antidepressiva, tomada à noite, com aumento gradual conforme a tolerância e a resposta. A dose exata, o ritmo de aumento e a duração são definidos pelo médico para cada pessoa.

Quanto tempo a nortriptilina leva para fazer efeito na dor?

O efeito analgésico costuma começar a aparecer depois de 1 a 2 semanas de uso contínuo e pode ainda crescer ao longo de algumas semanas na dose adequada. Ela não corta a dor na hora, como um analgésico de resgate. Os primeiros efeitos a surgir são a boca seca e alguma sonolência; o alívio da dor vem depois.

Qual a diferença entre nortriptilina e amitriptilina para dor?

As duas são tricíclicos com eficácia analgésica parecida na dor neuropática; a nortriptilina é metabólito da amitriptilina. Na prática, a nortriptilina tende a causar menos sedação, menos boca seca e menos prisão de ventre, o que costuma torná-la preferida em idosos ou em quem teve efeitos adversos com a amitriptilina. A escolha entre as duas é do médico, conforme o perfil de cada paciente.

Preciso fazer eletrocardiograma para usar nortriptilina?

Nem sempre, mas pode ser pedido. Como os tricíclicos podem afetar a condução do coração, o médico costuma solicitar um eletrocardiograma sobretudo em pessoas mais velhas ou com doença cardíaca, antes de iniciar ou durante o tratamento. A necessidade é avaliada caso a caso, junto com a história clínica e os outros medicamentos em uso.

Posso parar a nortriptilina de uma vez se não sentir efeito?

Não por conta própria. Depois de uso prolongado, a nortriptilina não deve ser suspensa de forma abrupta, porque a retirada brusca pode causar mal-estar, náusea e distúrbio do sono. Se ela não estiver ajudando, o médico pode ajustar a dose, fazer uma redução gradual ou trocar por outra opção.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Derry S, Wiffen PJ, Aldington D, Moore RA. Nortriptyline for neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2015;2015(1):CD011209. link
  2. Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, McNicol E, Baron R, Dworkin RH, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. link
  3. SpecGx LLC. Pamelor (nortriptyline hydrochloride) capsules: US prescribing information. DailyMed, US National Library of Medicine; revised 2024. link
  4. Conselho Federal de Medicina (CFM). A nortriptilina é medicamento de prescrição.
Atualizado em 3 jun 2026 Leitura 11 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A nortriptilina é um medicamento de prescrição. A indicação, a dose, os ajustes e a eventual suspensão devem ser feitos exclusivamente pelo médico assistente, que conhece a sua história e as suas comorbidades.

Equipe médica · Jardim Paulista · 40+ anos

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