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Parestesia: o que é o formigamento e a dormência

Parestesia é a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas quando um nervo ou a via sensitiva está comprimido ou adoecido. Em geral é benigna; às vezes sinaliza causa séria.

Resposta direta
  • Parestesia é a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas (alfinetadas) provocada por um nervo ou via sensitiva comprimido, irritado ou doente.
  • A causa mais comum é benigna e transitória: o nervo ficou comprimido por uma posição mantida (a clássica perna ou mão que “dorme”) e o sintoma some em minutos.
  • Quando é persistente, progressiva, vem com fraqueza, ou começa de forma súbita em um lado do corpo ou na face, a avaliação não deve esperar, porque pode sinalizar compressão de raiz, neuropatia ou um evento no cérebro (AVC).
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O que é parestesia

Render 3D de neurônios com corpo celular alaranjado e axônios ramificados em fundo claro, com impulsos azuis ao longo das fibras
Parestesia e uma alteração da condução nervosa nas fibras que transmitem sensibilidade ao cérebro

Parestesia é o nome técnico para a sensação anormal e espontânea de formigamento, dormência, queimação ou agulhadas, sentida sem que nada esteja tocando a pele. É um sintoma, não uma doença: significa que a informação que viaja pelo nervo até o cérebro está sendo gerada ou conduzida de forma errada em algum ponto do trajeto.

Na prática do consultório, as pessoas descrevem a parestesia de formas muito reconhecíveis: “formigamento”, “dormência”, “adormecimento”, a sensação de “agulhadas” ou “alfinetadas”, uma área “anestesiada” como após injeção no dentista, ou um “choque” que percorre o membro. Cada uma dessas palavras descreve a mesma família de sintomas, gerada quando o sistema sensitivo dispara fora de hora. Quando a sensação é francamente dolorosa, de queimação ou choque, usamos o termo disestesia, e o quadro entra no campo da dor neuropática.

O sistema sensitivo funciona como uma linha telefônica: receptores na pele captam o estímulo, o nervo periférico conduz o sinal até a medula, e a via ascendente o leva ao cérebro, onde a sensação é interpretada. A parestesia aparece quando há um defeito em qualquer ponto dessa linha. Por isso o sintoma, sozinho, não diz a causa: localizar onde a fiação falha, e por quê, é exatamente o trabalho da avaliação.

Sintoma
Não é diagnóstico; aponta para uma causa
Maioria
Benigna e posicional, resolve sozinha
Súbito
Em um lado do corpo pede atenção imediata
Multi
Tratamento mira a causa e a dor

Vale separar dois cenários desde o início, porque eles mudam tudo o que vem depois. A parestesia transitória é a perna que “dorme” ao ficar de pernas cruzadas, ou a mão que formiga ao dormir sobre o braço: o nervo foi comprimido por minutos, a condução parou momentaneamente e, ao mudar de posição, a sensação de “formiguinhas” sobe e o quadro normaliza. É fisiológico e não preocupa. Já a parestesia persistente, recorrente ou progressiva é a que merece investigação, porque reflete um problema sustentado no nervo, na raiz ou na via central.

Mito

“Formigamento é sempre falta de circulação ou de vitamina, e basta tomar suplemento.”

Fato

A maioria das parestesias persistentes é de origem neural (compressão ou doença do nervo), não vascular. A causa precisa ser identificada; suplementar B12 só ajuda quando há de fato a carência, comprovada em exame.

Dr. Marcus Yu Bin Pai como convidado do programa Sem Censura na TV Brasil
Na mídia Dr. Marcus Pai no programa Sem Censura da TV Brasil

Por que o nervo formiga: os mecanismos

Ilustração editorial de antebraço e mão com pontilhado fino representando formigamento e parestesia
O formigamento surge quando os nervos disparam sinais elétricos de forma anormal ao longo dos axônios

A parestesia surge quando as fibras nervosas geram impulsos de forma espontânea, fora do estímulo normal, ou quando a condução pelo nervo está bloqueada. Conhecer os quatro grandes mecanismos ajuda a entender por que causas tão diferentes produzem a mesma sensação, e por que o tratamento precisa mirar a origem, e não apenas o sintoma.

  • Compressão de nervo ou raiz. Quando uma raiz nervosa na coluna ou um nervo periférico é comprimido, a bainha de mielina sofre e o nervo passa a disparar sozinho. É o mecanismo do nervo comprimido na coluna (radiculopatia) e das síndromes de túnel, como o túnel do carpo.
  • Neuropatia periférica. Aqui o próprio nervo adoece, em geral nas fibras mais finas e mais longas primeiro. É o que ocorre na neuropatia diabética e na neuropatia de fibras finas, com formigamento e queimação que costumam começar na ponta dos pés.
  • Causas metabólicas e tóxicas. Diabetes, deficiência de vitamina B12, doença da tireoide, doença renal, excesso de álcool e alguns medicamentos (como certos quimioterápicos) alteram o metabolismo do nervo e geram parestesia, em geral simétrica e nas duas mãos e pés.
  • Origem central. Quando o problema está na medula ou no cérebro, a sensação anormal pode tomar um lado inteiro do corpo ou a face. É o território de causas como AVC, esclerose múltipla e compressão medular, que exigem avaliação específica.

No nível das fibras, a parestesia “positiva” (formigamento, agulhadas, choque) costuma refletir disparos espontâneos de nervos irritados, enquanto a dormência “negativa” (a área anestesiada, com perda de sensibilidade) reflete bloqueio da condução ou perda de fibras. Os dois padrões podem coexistir: é comum a pessoa relatar uma região dormente que, ao mesmo tempo, formiga ou dá choques. Esse detalhe orienta o exame, porque sintomas positivos e negativos apontam para fases e mecanismos diferentes da lesão do nervo.

Sintomas “positivos”

O nervo dispara sozinho

Formigamento, agulhadas, choque e queimação. Refletem fibras irritadas que geram impulsos fora de hora, típico de compressão recente e de irritação da raiz.

Sintomas “negativos”

O sinal não passa

Dormência e perda de sensibilidade, a área “anestesiada”. Refletem bloqueio da condução ou perda de fibras, e costumam indicar quadro mais estabelecido.

Pérola clínica

O padrão de distribuição é a pista mais útil. Parestesia que segue o trajeto de um nervo ou de uma raiz (uma faixa no braço, dois ou três dedos) sugere compressão localizada. Parestesia simétrica, “em luva e meia” (mãos e pés ao mesmo tempo, de fora para dentro), sugere neuropatia metabólica difusa. E parestesia que toma um hemicorpo inteiro ou a face aponta para causa central.

Principais causas por localização

Onde o formigamento aparece é a informação que mais estreita o diagnóstico. A mesma queixa, “estou com parestesia”, tem causas bem distintas conforme atinge as mãos, os pés, um membro inteiro, a face ou um lado do corpo. A tabela resume o raciocínio que usamos no consultório; cada linha tem uma página dedicada neste blog.

Parestesia por localização e causa mais provável
Onde formigaPadrão típicoCausa mais provável
Mãos e dedosPolegar, indicador e médio; piora à noite e ao volanteSíndrome do túnel do carpo (nervo mediano); avaliar também origem cervical
Dedo anelar e mínimoBorda interna da mão, piora ao apoiar o cotoveloCompressão do nervo ulnar no cotovelo (túnel cubital)
Braço, em faixaDesce do pescoço para o braço seguindo um trajetoRaiz cervical comprimida (radiculopatia); ver nervo comprimido
Pés e pernasSimétrico, começa na ponta dos pés, “em meia”, queimação noturnaNeuropatia periférica (diabética, B12, fibras finas)
Perna, em faixaDesce da lombar pela parte de trás ou lateral da pernaRaiz lombar comprimida (ciática / radiculopatia lombar)
Face ou hemicorpoSúbito, um lado do rosto e/ou do corpo, com outros sintomasCausa central: AVC, esclerose múltipla. Avaliação imediata

Formigamento nas mãos

É a localização que mais leva ao consultório. Quando atinge o polegar, o indicador e o dedo médio e piora à noite, ao volante ou segurando o celular, a principal hipótese é a síndrome do túnel do carpo, em que o nervo mediano é comprimido no punho. Mas a mão também pode formigar por uma raiz cervical comprimida no pescoço, e distinguir as duas situações muda o tratamento. O detalhamento desse cenário está em formigamento nas mãos: o que pode ser.

Formigamento nos pés e nas pernas

Quando a parestesia é simétrica, começa na ponta dos dois pés e sobe lentamente “em meia”, com queimação que piora à noite, o padrão sugere neuropatia periférica. Diabetes é a causa mais frequente no Brasil, seguida de deficiência de B12 e de outras causas metabólicas. Quando os exames de condução nervosa são normais mas a queimação persiste, investiga-se a neuropatia de fibras finas. Já o formigamento que desce de um lado só, da lombar para a perna em faixa, aponta para uma raiz lombar comprimida.

Formigamento na face ou em um lado do corpo

Esta é a apresentação que mais exige cuidado. Parestesia que toma metade do rosto, ou um braço e uma perna do mesmo lado, sobretudo se começou de forma súbita, aponta para uma causa no cérebro ou na medula. Em adultos, a hipótese de AVC precisa ser afastada com urgência; em adultos jovens, com sintomas que vão e voltam, considera-se também a esclerose múltipla. Essas causas centrais são o motivo de a parestesia nunca dever ser tratada como banal quando foge do padrão posicional.

A regra prática

Distribuição conta mais que intensidade

Uma parestesia leve, porém difusa e simétrica, pode indicar neuropatia; uma intensa, mas restrita a dois dedos, costuma ser compressão local. O mapa do sintoma orienta o diagnóstico mais do que o quanto incomoda.

Causa metabólica nº 1
Diabetes

principal causa de neuropatia periférica e de formigamento crônico em mãos e pés na população brasileira.

O desenho do formigamento no corpo

O que muda o diagnóstico não é o formigamento em si, e sim o desenho dele no corpo. Formigamento restrito ao território de um único nervo (dois ou três dedos, uma faixa) aponta para uma compressão localizada; uma linha que desce do pescoço ou da lombar seguindo um trajeto desenha um dermátomo e aponta para uma raiz; o mesmo formigamento nos dois pés, simétrico, subindo de fora para dentro “em meia”, desenha uma neuropatia difusa de causa metabólica. São três causas inteiramente diferentes por trás da mesma palavra. E há um quarto desenho que reescreve tudo: o formigamento que toma um lado inteiro do corpo de forma súbita, sobretudo com fraqueza ou fala enrolada, não é um problema de nervo, é uma emergência de cérebro até prova em contrário. Por isso a primeira pergunta no consultório nunca é “o quanto formiga”, e sim “exatamente onde, e desenhando que forma”.

Sinais de alerta: quando é emergência

A grande maioria das parestesias é benigna, mas alguns padrões mudam a urgência por completo. O mais importante é reconhecer o formigamento que pode ser a manifestação de um AVC: nesse caso, cada minuto conta, e a conduta é acionar o serviço de emergência, não agendar consulta.

Sinais de alerta · não espere

Procure emergência imediatamente se houver

  • Dormência ou formigamento súbito em um lado do rosto, do braço ou da perna, sobretudo de um lado só do corpo.
  • Boca torta, dificuldade para falar ou para entender, ou fraqueza súbita de um lado: sinais de AVC.
  • Perda súbita de visão, visão dupla, tontura intensa com desequilíbrio ou dor de cabeça muito forte e súbita.
  • Parestesia que sobe rapidamente pelas pernas em direção ao tronco, com perda de força (suspeita de síndrome de Guillain-Barré).
  • Dormência “em sela” (região genital e entre as pernas) com alteração para urinar ou evacuar, e fraqueza nas pernas: suspeita de compressão medular / cauda equina.
  • Parestesia após trauma recente na coluna ou na cabeça.

Fora desse cenário de emergência, há sinais que não são imediatos mas pedem avaliação médica sem demora: parestesia progressiva, que avança de área ou se intensifica; parestesia acompanhada de fraqueza ou de perda de força no membro; perda de massa muscular; dormência que persiste por semanas; e sintomas que afetam a marcha ou a destreza das mãos. A combinação de formigamento com fraqueza é a que mais preocupa, porque sugere que o nervo ou a raiz já está sofrendo dano motor, e não apenas sensitivo.

Para a memória rápida do AVC, vale o lembrete SAMU, popularizado nas campanhas: Sorriso (boca torta), Abraço (fraqueza no braço), Música/fala (dificuldade para falar) e Urgente (ligar 192). Diante de formigamento súbito em um lado do corpo com qualquer um desses sinais, não se observa em casa nem se espera passar: aciona-se a emergência na hora.

Como a parestesia é investigada

A investigação parte de três perguntas que a história e o exame quase sempre respondem antes de qualquer exame caro: onde formiga (a distribuição), como começou (súbito ou gradual, transitório ou persistente) e o que vem junto (dor, fraqueza, sintomas em outros sistemas). A partir daí, decide-se se o problema está em um nervo, em uma raiz, em vários nervos ao mesmo tempo ou no sistema central.

  1. História dirigida

    Tempo de evolução, fatores que pioram (postura, esforço repetitivo, posição ao dormir), doenças associadas como diabetes e tireoide, uso de álcool e medicamentos, e o padrão exato da distribuição.

  2. Exame neurológico

    Testa-se a sensibilidade por dermátomo e por nervo, a força por miótomo, os reflexos e o trofismo muscular, mapeando se o déficit segue uma raiz, um nervo periférico ou um território central.

  3. Manobras provocativas

    Sinal de Tinel e teste de Phalen no túnel do carpo, teste de Spurling para raiz cervical, manobras de tensão neural e elevação da perna estendida para raiz lombar.

  4. Exames quando indicados

    Eletroneuromiografia para confirmar e localizar lesão de nervo ou raiz; exames de sangue (glicemia, HbA1c, B12, TSH, função renal) para causas metabólicas; ressonância da coluna ou do crânio conforme a suspeita.

A eletroneuromiografia merece uma nota, porque é o exame que mais ajuda nas parestesias de membros: ela mede a velocidade de condução dos nervos e a atividade dos músculos, confirmando se há compressão (e onde), neuropatia difusa ou comprometimento de raiz. Tem uma limitação importante, no entanto: avalia bem as fibras grossas, mas pode ser normal na neuropatia de fibras finas, em que o diagnóstico se apoia em outros testes. Por isso o exame complementa, mas não substitui, o raciocínio clínico.

A imagem entra de forma dirigida. A ressonância da coluna é útil quando a parestesia segue uma raiz e há suspeita de compressão; a ressonância do crânio, quando a apresentação aponta para causa central. Pedir imagem cedo demais, sem hipótese clara, costuma revelar alterações degenerativas comuns à idade, presentes mesmo em quem não tem sintoma algum, o que gera preocupação e intervenções desnecessárias. A regra é deixar o exame responder a uma pergunta que a clínica já formulou.

Da prática clínica

Algumas observações recorrentes de quem avalia esse sintoma todos os dias. A primeira: o formigamento posicional, o membro que “dorme” e acorda em “formiguinhas” ao mudar de posição, quase nunca é o que traz a pessoa ao consultório; o que traz é a parestesia que fica, que não some ao mexer o braço ou a perna. Essa simples pergunta, “passa quando você muda de posição?”, já separa o benigno do que precisa ser investigado.

A segunda: na prática, é o desenho que decide. Quando o paciente aponta dois dedos, penso em um nervo; quando ele risca com o dedo uma faixa que desce do pescoço ou da lombar, penso em uma raiz; quando ele esfrega as duas plantas dos pés ao mesmo tempo, penso em causa metabólica e já encaminho a glicemia, a HbA1c, a B12 e o TSH antes de qualquer ressonância, porque essas causas se tratam e são fáceis de perder.

A terceira, a que não admite espera: dormência que aparece de repente em um lado só do corpo ou do rosto, ainda mais com o braço fraco ou a fala embolada, não é caso de marcar consulta, é serviço de emergência na hora; já vi esse padrão ser confundido com “dormiu sobre o braço” e perder a janela de tratamento do AVC. O que mais costuma surpreender quem chega é descobrir que um formigamento crônico nos pés pode ser a primeira pista de um diabetes ainda não diagnosticado, e que tratar a causa muda mais o quadro do que qualquer remédio para o sintoma.

Radiculopatia
Sofrimento de uma raiz nervosa na saída da coluna; dá parestesia e dor em faixa no trajeto da raiz.
Neuropatia periférica
Doença dos nervos periféricos, em geral simétrica e distal; formigamento “em luva e meia”.
Mononeuropatia
Lesão de um único nervo, como no túnel do carpo; sintomas no território daquele nervo.
Dor neuropática
Dor gerada pela lesão ou doença do próprio sistema somatossensitivo; queimação, choque, alodínia.
Assista: Parestesia: O que é, sintomas, tratamentos e causas

Tratamento: a causa e a dor neuropática

O tratamento da parestesia tem dois eixos que andam juntos: tratar a causa que irrita ou comprime o nervo e controlar a dor neuropática e o sintoma sensitivo enquanto o nervo se recupera. A abordagem é multimodal, individualizada e, na imensa maioria dos casos, não-cirúrgica. O objetivo é aliviar o formigamento e a queimação, preservar a função do nervo e evitar tanto o uso crônico de medicação quanto a cirurgia desnecessária. Como a parestesia é um sintoma de muitas doenças diferentes, o plano só faz sentido depois de definida a origem; o que segue é o arsenal de que dispomos, sempre encaixado no diagnóstico.

Tratar a causa

Controlar o diabetes e a glicemia, repor B12 quando há carência comprovada, ajustar a tireoide, retirar o fator que comprime o nervo (postura, esforço repetitivo) e rever medicamentos que possam estar contribuindo.

Reabilitação e mobilização neural

Exercício orientado, mobilização do nervo (neurodinâmica), correção postural e ergonômica; a base ativa do tratamento, que melhora o deslizamento do nervo e reduz a irritação.

Fármacos para dor neuropática

Quando há queimação ou choque, antidepressivos em dose analgésica e gabapentinoides, com indicação, dose e duração definidas pelo médico.

Acupuntura e eletroacupuntura

Camada de neuromodulação da dor, útil para reduzir o sintoma e, com frequência, a necessidade de medicação.

Infiltração e descompressão

Bloqueios e infiltração guiados em casos selecionados; cirurgia de descompressão reservada para déficit que progride ou compressão que não responde.

Tratar a causa, antes de tudo

É o passo que mais muda o curso, porque a parestesia tende a ceder quando a fonte é removida. Na neuropatia diabética, o controle rigoroso da glicemia é a medida com maior impacto sobre a progressão; na carência de B12, a reposição corrige a causa, embora a recuperação do nervo seja lenta e nem sempre completa quando o dano já se instalou. Na compressão por postura ou esforço repetitivo, ajustar o posto de trabalho, o uso do celular e a posição ao dormir costuma reduzir o sintoma sem qualquer fármaco. E, quando a causa é uma raiz comprimida, o tratamento conservador da coluna, detalhado na página de nervo comprimido nas costas e no pescoço, resolve a maioria dos casos.

Reabilitação e mobilização neural

A reabilitação ativa é a base do tratamento conservador. No componente de compressão, a mobilização neural (neurodinâmica) usa movimentos específicos que deslizam e tensionam o nervo de forma controlada, com o objetivo de melhorar a mecânica do nervo dentro do seu túnel e reduzir a sensibilidade ao movimento. Soma-se a isso a correção postural, o fortalecimento da musculatura que estabiliza a região e os ajustes ergonômicos que retiram a sobrecarga do nervo.

O atendimento é individual, um paciente por sala, e a resposta é gradual, ao longo de semanas, dependente da regularidade. Em síndromes de túnel iniciais, essas medidas, somadas a uma órtese noturna quando indicada, com frequência controlam o quadro sem cirurgia.

Fármacos para a dor neuropática

Quando a parestesia vem acompanhada de dor neuropática, queimação, choques ou alodínia, os analgésicos comuns e os anti-inflamatórios costumam ter pouco efeito, porque o problema não é inflamatório, mas de fibras nervosas disparando fora de hora. As classes com melhor evidência atuam justamente sobre essa hiperexcitabilidade. Os antidepressivos em dose analgésica, como os tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina) e os duais (duloxetina, venlafaxina), reforçam as vias inibitórias descendentes que freiam a dor na medula. Os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios ao modular canais de cálcio nos nervos sensibilizados.

Para áreas localizadas, há ainda opções tópicas, como o adesivo de lidocaína. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente, com atenção a efeitos adversos como sonolência e tontura e às demais doenças da pessoa. O panorama das opções está reunido no guia de remédios para dor.

Acupuntura e eletroacupuntura

No contexto da parestesia, a acupuntura médica tem um papel definido: atua sobre o componente sensitivo desagradável, a queimação, o choque e o formigamento da dor neuropática; não regenera o nervo lesado. O mecanismo é de neuromodulação: a agulha ativa a inibição segmentar no corno dorsal da medula (a teoria da comporta), no mesmo nível medular para onde converge o nervo formigando, e recruta as vias inibitórias descendentes que partem do tronco encefálico, somando a liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência conectada às agulhas reforça esse efeito e tende a recrutar mais sistemas opioides, o que a torna a variante preferida quando o que domina o quadro é a queimação neuropática. A utilidade prática maior aparece na parestesia que vem acompanhada de dor: nas radiculopatias cervical e lombar e nas neuropatias com componente álgico, reduzir a intensidade do sintoma costuma permitir baixar a dose dos gabapentinoides e dos tricíclicos, o que importa em quem já carrega sonolência e tontura desses fármacos.

A resposta é avaliada por ciclos curtos com reavaliação objetiva: se a área de formigamento e a nota de queimação não cedem após algumas sessões, não se insiste na mesma técnica, revê-se o diagnóstico. É uma camada complementar à reabilitação e ao tratamento da causa metabólica ou compressiva, nunca um substituto deles.

Por que a agulha entra também na dor neuropática

O racional de usar agulha na parestesia dolorosa vem da neuromodulação.

Ver referências →

Infiltração, bloqueios e descompressão

Quando o quadro não responde ao plano inicial, ou quando há um alvo bem definido, entram os procedimentos. A infiltração e os bloqueios guiados (por ultrassom ou radioscopia) levam anestésico, por vezes com corticoide, ao redor do nervo ou da raiz irritada: interrompem temporariamente a condução nociceptiva, quebram o ciclo de dor e abrem uma janela para avançar a reabilitação. Têm efeito que vai de dias a semanas e fazem parte de um plano, não de uma solução isolada. A neuromodulação por estimulação elétrica percutânea (PENS) é uma opção para componentes neuropáticos selecionados.

A cirurgia de descompressão (liberar o nervo no túnel do carpo, ou descomprimir uma raiz na coluna) é reservada a situações específicas: déficit motor que progride, dor incapacitante que não cede ao tratamento conservador bem conduzido, ou sinais de sofrimento neural importante. Na maior parte dos casos de parestesia, ela não é necessária.

Semana 1 a 2

Identificar e aliviar

Definir a causa, retirar gatilhos (postura, esforço), iniciar a reabilitação e, se há dor neuropática, o fármaco em dose inicial.

Semana 3 a 8

Progressão

Ajuste da medicação, mobilização neural e camada de neuromodulação. O formigamento costuma começar a ceder.

Após 8 semanas

Reavaliação

Sem a resposta esperada, volta-se ao diagnóstico: confirma-se o desenho da parestesia, repensa-se a causa e considera-se eletroneuromiografia ou um procedimento dirigido.

Medimos a nota de queimação ou choque de 0 a 10, mas sobretudo a extensão da área dormente ou formigando (uma faixa que recua é bom sinal) e a força no território afetado. O nervo se recupera devagar e a fibra sensitiva fina é a mais lenta de todas: quando o dano já está estabelecido, o objetivo é reduzir o formigamento e a dor a um nível que não limite a rotina e impedir que a lesão avance para o componente motor; zerar a sensação nem sempre é possível. O sinal de alarme no acompanhamento é a parestesia que muda de qualidade, vira fraqueza ou ganha área: aí o foco volta ao diagnóstico, não à dose. O detalhe de cada causa está nas páginas específicas indicadas ao longo do texto.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

O que é parestesia, em palavras simples?

É a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas que aparece sem nada tocar a pele. Acontece quando um nervo, uma raiz nervosa ou a via sensitiva está comprimido, irritado ou doente, e passa a enviar sinais errados ao cérebro.

Formigamento é sempre sinal de algo grave?

Na maioria das vezes, não. O formigamento posicional, quando uma parte do corpo “dorme” e logo normaliza, é benigno. A preocupação aumenta quando é persistente, progressivo, vem com fraqueza, ou começa de forma súbita em um lado do corpo ou na face, situação em que pode indicar AVC e exige emergência.

Formigamento nas mãos é túnel do carpo?

Pode ser. O túnel do carpo costuma afetar o polegar, o indicador e o médio e piorar à noite. Mas a mão também formiga por compressão de uma raiz no pescoço, e distinguir as duas situações muda o tratamento. Veja formigamento nas mãos: o que pode ser.

Formigamento nos pés tem a ver com diabetes?

Com frequência, sim. Quando é simétrico, começa na ponta dos pés e sobe “em meia”, com queimação que piora à noite, a hipótese principal é a neuropatia periférica, e o diabetes é a causa mais comum. Veja neuropatia diabética e neuropatia de fibras finas.

Formigamento por falta de vitamina B12, faz sentido?

Sim, a deficiência de B12 é uma causa reconhecida de parestesia, em geral simétrica em mãos e pés. Mas só vale repor quando a carência é comprovada em exame de sangue; suplementar sem deficiência não resolve formigamento de outra origem.

Formigamento em um lado do rosto, o que pode ser?

Parestesia em metade do rosto, sobretudo se súbita e com fraqueza, dificuldade para falar ou boca torta, exige acionar a emergência imediatamente, porque pode ser um AVC. Em adultos jovens, com sintomas que vão e voltam, considera-se também a esclerose múltipla. Não espere para ver se passa.

Parestesia tem cura?

Depende inteiramente da causa. Quando é posicional ou por compressão recente, costuma resolver ao remover o fator. Em neuropatias estabelecidas, o nervo se recupera devagar e nem sempre por completo, mas o tratamento da causa e o controle da dor melhoram muito o sintoma e a qualidade de vida. O plano é individualizado após avaliação.

Qual médico procurar para formigamento?

O fisiatra (médico da reabilitação e da dor) e o neurologista são os especialistas que mapeiam a origem do sintoma e montam o plano. Diante de qualquer sinal de alerta, sobretudo início súbito em um lado do corpo, a porta de entrada é a emergência.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Anderson D; Woods B; Abubakar T; Koontz C; Li N; Hasoon J; Viswanath O; Kaye AD; Urits I. A Comprehensive Review of Cubital Tunnel Syndrome. Orthopedic reviews. 2022. doi:10.52965/001c.38239. PMID:36128335.
  2. Zhu J; Hu Z; Luo Y; Liu Y; Luo W; Du X; Luo Z; Hu J; Peng S. Diabetic peripheral neuropathy: pathogenetic mechanisms and treatment. Frontiers in endocrinology. 2023. doi:10.3389/fendo.2023.1265372. PMID:38264279.
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 14 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual: a parestesia é um sintoma com causas que vão do banal posicional ao AVC, e só o exame presencial localiza a origem e define a conduta. Diante de dormência súbita em um lado do corpo, com fraqueza ou alteração da fala, procure emergência imediatamente. A investigação e o plano de tratamento da parestesia são individualizados após consulta.

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  • Doutor, há alguns dias estou tendo parestesia crônica no dedo mínimo e parte medial da palma esquerda. Não entendo o que pode ter causado isso. Se puder me esclarecer isso, agradeço. Antonio.

  • Quero saber um pouco sobre o parastesia dos membros superiores e inferiores.

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