Parestesia: o que é o formigamento e a dormência
Parestesia é a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas quando um nervo ou a via sensitiva está comprimido ou adoecido. Em geral é benigna; às vezes sinaliza causa séria.
- Parestesia é a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas (alfinetadas) provocada por um nervo ou via sensitiva comprimido, irritado ou doente.
- A causa mais comum é benigna e transitória: o nervo ficou comprimido por uma posição mantida (a clássica perna ou mão que “dorme”) e o sintoma some em minutos.
- Quando é persistente, progressiva, vem com fraqueza, ou começa de forma súbita em um lado do corpo ou na face, a avaliação não deve esperar, porque pode sinalizar compressão de raiz, neuropatia ou um evento no cérebro (AVC).
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O que é parestesia
Parestesia é o nome técnico para a sensação anormal e espontânea de formigamento, dormência, queimação ou agulhadas, sentida sem que nada esteja tocando a pele. É um sintoma, não uma doença: significa que a informação que viaja pelo nervo até o cérebro está sendo gerada ou conduzida de forma errada em algum ponto do trajeto.
Na prática do consultório, as pessoas descrevem a parestesia de formas muito reconhecíveis: “formigamento”, “dormência”, “adormecimento”, a sensação de “agulhadas” ou “alfinetadas”, uma área “anestesiada” como após injeção no dentista, ou um “choque” que percorre o membro. Cada uma dessas palavras descreve a mesma família de sintomas, gerada quando o sistema sensitivo dispara fora de hora. Quando a sensação é francamente dolorosa, de queimação ou choque, usamos o termo disestesia, e o quadro entra no campo da dor neuropática.
O sistema sensitivo funciona como uma linha telefônica: receptores na pele captam o estímulo, o nervo periférico conduz o sinal até a medula, e a via ascendente o leva ao cérebro, onde a sensação é interpretada. A parestesia aparece quando há um defeito em qualquer ponto dessa linha. Por isso o sintoma, sozinho, não diz a causa: localizar onde a fiação falha, e por quê, é exatamente o trabalho da avaliação.
Vale separar dois cenários desde o início, porque eles mudam tudo o que vem depois. A parestesia transitória é a perna que “dorme” ao ficar de pernas cruzadas, ou a mão que formiga ao dormir sobre o braço: o nervo foi comprimido por minutos, a condução parou momentaneamente e, ao mudar de posição, a sensação de “formiguinhas” sobe e o quadro normaliza. É fisiológico e não preocupa. Já a parestesia persistente, recorrente ou progressiva é a que merece investigação, porque reflete um problema sustentado no nervo, na raiz ou na via central.
“Formigamento é sempre falta de circulação ou de vitamina, e basta tomar suplemento.”
A maioria das parestesias persistentes é de origem neural (compressão ou doença do nervo), não vascular. A causa precisa ser identificada; suplementar B12 só ajuda quando há de fato a carência, comprovada em exame.

Por que o nervo formiga: os mecanismos

A parestesia surge quando as fibras nervosas geram impulsos de forma espontânea, fora do estímulo normal, ou quando a condução pelo nervo está bloqueada. Conhecer os quatro grandes mecanismos ajuda a entender por que causas tão diferentes produzem a mesma sensação, e por que o tratamento precisa mirar a origem, e não apenas o sintoma.
- Compressão de nervo ou raiz. Quando uma raiz nervosa na coluna ou um nervo periférico é comprimido, a bainha de mielina sofre e o nervo passa a disparar sozinho. É o mecanismo do nervo comprimido na coluna (radiculopatia) e das síndromes de túnel, como o túnel do carpo.
- Neuropatia periférica. Aqui o próprio nervo adoece, em geral nas fibras mais finas e mais longas primeiro. É o que ocorre na neuropatia diabética e na neuropatia de fibras finas, com formigamento e queimação que costumam começar na ponta dos pés.
- Causas metabólicas e tóxicas. Diabetes, deficiência de vitamina B12, doença da tireoide, doença renal, excesso de álcool e alguns medicamentos (como certos quimioterápicos) alteram o metabolismo do nervo e geram parestesia, em geral simétrica e nas duas mãos e pés.
- Origem central. Quando o problema está na medula ou no cérebro, a sensação anormal pode tomar um lado inteiro do corpo ou a face. É o território de causas como AVC, esclerose múltipla e compressão medular, que exigem avaliação específica.
No nível das fibras, a parestesia “positiva” (formigamento, agulhadas, choque) costuma refletir disparos espontâneos de nervos irritados, enquanto a dormência “negativa” (a área anestesiada, com perda de sensibilidade) reflete bloqueio da condução ou perda de fibras. Os dois padrões podem coexistir: é comum a pessoa relatar uma região dormente que, ao mesmo tempo, formiga ou dá choques. Esse detalhe orienta o exame, porque sintomas positivos e negativos apontam para fases e mecanismos diferentes da lesão do nervo.
O nervo dispara sozinho
Formigamento, agulhadas, choque e queimação. Refletem fibras irritadas que geram impulsos fora de hora, típico de compressão recente e de irritação da raiz.
O sinal não passa
Dormência e perda de sensibilidade, a área “anestesiada”. Refletem bloqueio da condução ou perda de fibras, e costumam indicar quadro mais estabelecido.
O padrão de distribuição é a pista mais útil. Parestesia que segue o trajeto de um nervo ou de uma raiz (uma faixa no braço, dois ou três dedos) sugere compressão localizada. Parestesia simétrica, “em luva e meia” (mãos e pés ao mesmo tempo, de fora para dentro), sugere neuropatia metabólica difusa. E parestesia que toma um hemicorpo inteiro ou a face aponta para causa central.
Principais causas por localização
Onde o formigamento aparece é a informação que mais estreita o diagnóstico. A mesma queixa, “estou com parestesia”, tem causas bem distintas conforme atinge as mãos, os pés, um membro inteiro, a face ou um lado do corpo. A tabela resume o raciocínio que usamos no consultório; cada linha tem uma página dedicada neste blog.
| Onde formiga | Padrão típico | Causa mais provável |
|---|---|---|
| Mãos e dedos | Polegar, indicador e médio; piora à noite e ao volante | Síndrome do túnel do carpo (nervo mediano); avaliar também origem cervical |
| Dedo anelar e mínimo | Borda interna da mão, piora ao apoiar o cotovelo | Compressão do nervo ulnar no cotovelo (túnel cubital) |
| Braço, em faixa | Desce do pescoço para o braço seguindo um trajeto | Raiz cervical comprimida (radiculopatia); ver nervo comprimido |
| Pés e pernas | Simétrico, começa na ponta dos pés, “em meia”, queimação noturna | Neuropatia periférica (diabética, B12, fibras finas) |
| Perna, em faixa | Desce da lombar pela parte de trás ou lateral da perna | Raiz lombar comprimida (ciática / radiculopatia lombar) |
| Face ou hemicorpo | Súbito, um lado do rosto e/ou do corpo, com outros sintomas | Causa central: AVC, esclerose múltipla. Avaliação imediata |
Formigamento nas mãos
É a localização que mais leva ao consultório. Quando atinge o polegar, o indicador e o dedo médio e piora à noite, ao volante ou segurando o celular, a principal hipótese é a síndrome do túnel do carpo, em que o nervo mediano é comprimido no punho. Mas a mão também pode formigar por uma raiz cervical comprimida no pescoço, e distinguir as duas situações muda o tratamento. O detalhamento desse cenário está em formigamento nas mãos: o que pode ser.
Formigamento nos pés e nas pernas
Quando a parestesia é simétrica, começa na ponta dos dois pés e sobe lentamente “em meia”, com queimação que piora à noite, o padrão sugere neuropatia periférica. Diabetes é a causa mais frequente no Brasil, seguida de deficiência de B12 e de outras causas metabólicas. Quando os exames de condução nervosa são normais mas a queimação persiste, investiga-se a neuropatia de fibras finas. Já o formigamento que desce de um lado só, da lombar para a perna em faixa, aponta para uma raiz lombar comprimida.
Formigamento na face ou em um lado do corpo
Esta é a apresentação que mais exige cuidado. Parestesia que toma metade do rosto, ou um braço e uma perna do mesmo lado, sobretudo se começou de forma súbita, aponta para uma causa no cérebro ou na medula. Em adultos, a hipótese de AVC precisa ser afastada com urgência; em adultos jovens, com sintomas que vão e voltam, considera-se também a esclerose múltipla. Essas causas centrais são o motivo de a parestesia nunca dever ser tratada como banal quando foge do padrão posicional.
Distribuição conta mais que intensidade
Uma parestesia leve, porém difusa e simétrica, pode indicar neuropatia; uma intensa, mas restrita a dois dedos, costuma ser compressão local. O mapa do sintoma orienta o diagnóstico mais do que o quanto incomoda.
principal causa de neuropatia periférica e de formigamento crônico em mãos e pés na população brasileira.
O que muda o diagnóstico não é o formigamento em si, e sim o desenho dele no corpo. Formigamento restrito ao território de um único nervo (dois ou três dedos, uma faixa) aponta para uma compressão localizada; uma linha que desce do pescoço ou da lombar seguindo um trajeto desenha um dermátomo e aponta para uma raiz; o mesmo formigamento nos dois pés, simétrico, subindo de fora para dentro “em meia”, desenha uma neuropatia difusa de causa metabólica. São três causas inteiramente diferentes por trás da mesma palavra. E há um quarto desenho que reescreve tudo: o formigamento que toma um lado inteiro do corpo de forma súbita, sobretudo com fraqueza ou fala enrolada, não é um problema de nervo, é uma emergência de cérebro até prova em contrário. Por isso a primeira pergunta no consultório nunca é “o quanto formiga”, e sim “exatamente onde, e desenhando que forma”.
Sinais de alerta: quando é emergência
A grande maioria das parestesias é benigna, mas alguns padrões mudam a urgência por completo. O mais importante é reconhecer o formigamento que pode ser a manifestação de um AVC: nesse caso, cada minuto conta, e a conduta é acionar o serviço de emergência, não agendar consulta.
Procure emergência imediatamente se houver
- Dormência ou formigamento súbito em um lado do rosto, do braço ou da perna, sobretudo de um lado só do corpo.
- Boca torta, dificuldade para falar ou para entender, ou fraqueza súbita de um lado: sinais de AVC.
- Perda súbita de visão, visão dupla, tontura intensa com desequilíbrio ou dor de cabeça muito forte e súbita.
- Parestesia que sobe rapidamente pelas pernas em direção ao tronco, com perda de força (suspeita de síndrome de Guillain-Barré).
- Dormência “em sela” (região genital e entre as pernas) com alteração para urinar ou evacuar, e fraqueza nas pernas: suspeita de compressão medular / cauda equina.
- Parestesia após trauma recente na coluna ou na cabeça.
Fora desse cenário de emergência, há sinais que não são imediatos mas pedem avaliação médica sem demora: parestesia progressiva, que avança de área ou se intensifica; parestesia acompanhada de fraqueza ou de perda de força no membro; perda de massa muscular; dormência que persiste por semanas; e sintomas que afetam a marcha ou a destreza das mãos. A combinação de formigamento com fraqueza é a que mais preocupa, porque sugere que o nervo ou a raiz já está sofrendo dano motor, e não apenas sensitivo.
Para a memória rápida do AVC, vale o lembrete SAMU, popularizado nas campanhas: Sorriso (boca torta), Abraço (fraqueza no braço), Música/fala (dificuldade para falar) e Urgente (ligar 192). Diante de formigamento súbito em um lado do corpo com qualquer um desses sinais, não se observa em casa nem se espera passar: aciona-se a emergência na hora.
Como a parestesia é investigada
A investigação parte de três perguntas que a história e o exame quase sempre respondem antes de qualquer exame caro: onde formiga (a distribuição), como começou (súbito ou gradual, transitório ou persistente) e o que vem junto (dor, fraqueza, sintomas em outros sistemas). A partir daí, decide-se se o problema está em um nervo, em uma raiz, em vários nervos ao mesmo tempo ou no sistema central.
- História dirigida
Tempo de evolução, fatores que pioram (postura, esforço repetitivo, posição ao dormir), doenças associadas como diabetes e tireoide, uso de álcool e medicamentos, e o padrão exato da distribuição.
- Exame neurológico
Testa-se a sensibilidade por dermátomo e por nervo, a força por miótomo, os reflexos e o trofismo muscular, mapeando se o déficit segue uma raiz, um nervo periférico ou um território central.
- Manobras provocativas
Sinal de Tinel e teste de Phalen no túnel do carpo, teste de Spurling para raiz cervical, manobras de tensão neural e elevação da perna estendida para raiz lombar.
- Exames quando indicados
Eletroneuromiografia para confirmar e localizar lesão de nervo ou raiz; exames de sangue (glicemia, HbA1c, B12, TSH, função renal) para causas metabólicas; ressonância da coluna ou do crânio conforme a suspeita.
A eletroneuromiografia merece uma nota, porque é o exame que mais ajuda nas parestesias de membros: ela mede a velocidade de condução dos nervos e a atividade dos músculos, confirmando se há compressão (e onde), neuropatia difusa ou comprometimento de raiz. Tem uma limitação importante, no entanto: avalia bem as fibras grossas, mas pode ser normal na neuropatia de fibras finas, em que o diagnóstico se apoia em outros testes. Por isso o exame complementa, mas não substitui, o raciocínio clínico.
A imagem entra de forma dirigida. A ressonância da coluna é útil quando a parestesia segue uma raiz e há suspeita de compressão; a ressonância do crânio, quando a apresentação aponta para causa central. Pedir imagem cedo demais, sem hipótese clara, costuma revelar alterações degenerativas comuns à idade, presentes mesmo em quem não tem sintoma algum, o que gera preocupação e intervenções desnecessárias. A regra é deixar o exame responder a uma pergunta que a clínica já formulou.
Algumas observações recorrentes de quem avalia esse sintoma todos os dias. A primeira: o formigamento posicional, o membro que “dorme” e acorda em “formiguinhas” ao mudar de posição, quase nunca é o que traz a pessoa ao consultório; o que traz é a parestesia que fica, que não some ao mexer o braço ou a perna. Essa simples pergunta, “passa quando você muda de posição?”, já separa o benigno do que precisa ser investigado.
A segunda: na prática, é o desenho que decide. Quando o paciente aponta dois dedos, penso em um nervo; quando ele risca com o dedo uma faixa que desce do pescoço ou da lombar, penso em uma raiz; quando ele esfrega as duas plantas dos pés ao mesmo tempo, penso em causa metabólica e já encaminho a glicemia, a HbA1c, a B12 e o TSH antes de qualquer ressonância, porque essas causas se tratam e são fáceis de perder.
A terceira, a que não admite espera: dormência que aparece de repente em um lado só do corpo ou do rosto, ainda mais com o braço fraco ou a fala embolada, não é caso de marcar consulta, é serviço de emergência na hora; já vi esse padrão ser confundido com “dormiu sobre o braço” e perder a janela de tratamento do AVC. O que mais costuma surpreender quem chega é descobrir que um formigamento crônico nos pés pode ser a primeira pista de um diabetes ainda não diagnosticado, e que tratar a causa muda mais o quadro do que qualquer remédio para o sintoma.
Tratamento: a causa e a dor neuropática
O tratamento da parestesia tem dois eixos que andam juntos: tratar a causa que irrita ou comprime o nervo e controlar a dor neuropática e o sintoma sensitivo enquanto o nervo se recupera. A abordagem é multimodal, individualizada e, na imensa maioria dos casos, não-cirúrgica. O objetivo é aliviar o formigamento e a queimação, preservar a função do nervo e evitar tanto o uso crônico de medicação quanto a cirurgia desnecessária. Como a parestesia é um sintoma de muitas doenças diferentes, o plano só faz sentido depois de definida a origem; o que segue é o arsenal de que dispomos, sempre encaixado no diagnóstico.
Tratar a causa
Controlar o diabetes e a glicemia, repor B12 quando há carência comprovada, ajustar a tireoide, retirar o fator que comprime o nervo (postura, esforço repetitivo) e rever medicamentos que possam estar contribuindo.
Reabilitação e mobilização neural
Exercício orientado, mobilização do nervo (neurodinâmica), correção postural e ergonômica; a base ativa do tratamento, que melhora o deslizamento do nervo e reduz a irritação.
Fármacos para dor neuropática
Quando há queimação ou choque, antidepressivos em dose analgésica e gabapentinoides, com indicação, dose e duração definidas pelo médico.
Acupuntura e eletroacupuntura
Camada de neuromodulação da dor, útil para reduzir o sintoma e, com frequência, a necessidade de medicação.
Infiltração e descompressão
Bloqueios e infiltração guiados em casos selecionados; cirurgia de descompressão reservada para déficit que progride ou compressão que não responde.
Tratar a causa, antes de tudo
É o passo que mais muda o curso, porque a parestesia tende a ceder quando a fonte é removida. Na neuropatia diabética, o controle rigoroso da glicemia é a medida com maior impacto sobre a progressão; na carência de B12, a reposição corrige a causa, embora a recuperação do nervo seja lenta e nem sempre completa quando o dano já se instalou. Na compressão por postura ou esforço repetitivo, ajustar o posto de trabalho, o uso do celular e a posição ao dormir costuma reduzir o sintoma sem qualquer fármaco. E, quando a causa é uma raiz comprimida, o tratamento conservador da coluna, detalhado na página de nervo comprimido nas costas e no pescoço, resolve a maioria dos casos.
Reabilitação e mobilização neural
A reabilitação ativa é a base do tratamento conservador. No componente de compressão, a mobilização neural (neurodinâmica) usa movimentos específicos que deslizam e tensionam o nervo de forma controlada, com o objetivo de melhorar a mecânica do nervo dentro do seu túnel e reduzir a sensibilidade ao movimento. Soma-se a isso a correção postural, o fortalecimento da musculatura que estabiliza a região e os ajustes ergonômicos que retiram a sobrecarga do nervo.
O atendimento é individual, um paciente por sala, e a resposta é gradual, ao longo de semanas, dependente da regularidade. Em síndromes de túnel iniciais, essas medidas, somadas a uma órtese noturna quando indicada, com frequência controlam o quadro sem cirurgia.
Fármacos para a dor neuropática
Quando a parestesia vem acompanhada de dor neuropática, queimação, choques ou alodínia, os analgésicos comuns e os anti-inflamatórios costumam ter pouco efeito, porque o problema não é inflamatório, mas de fibras nervosas disparando fora de hora. As classes com melhor evidência atuam justamente sobre essa hiperexcitabilidade. Os antidepressivos em dose analgésica, como os tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina) e os duais (duloxetina, venlafaxina), reforçam as vias inibitórias descendentes que freiam a dor na medula. Os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios ao modular canais de cálcio nos nervos sensibilizados.
Para áreas localizadas, há ainda opções tópicas, como o adesivo de lidocaína. A escolha, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente, com atenção a efeitos adversos como sonolência e tontura e às demais doenças da pessoa. O panorama das opções está reunido no guia de remédios para dor.
Acupuntura e eletroacupuntura
No contexto da parestesia, a acupuntura médica tem um papel definido: atua sobre o componente sensitivo desagradável, a queimação, o choque e o formigamento da dor neuropática; não regenera o nervo lesado. O mecanismo é de neuromodulação: a agulha ativa a inibição segmentar no corno dorsal da medula (a teoria da comporta), no mesmo nível medular para onde converge o nervo formigando, e recruta as vias inibitórias descendentes que partem do tronco encefálico, somando a liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência conectada às agulhas reforça esse efeito e tende a recrutar mais sistemas opioides, o que a torna a variante preferida quando o que domina o quadro é a queimação neuropática. A utilidade prática maior aparece na parestesia que vem acompanhada de dor: nas radiculopatias cervical e lombar e nas neuropatias com componente álgico, reduzir a intensidade do sintoma costuma permitir baixar a dose dos gabapentinoides e dos tricíclicos, o que importa em quem já carrega sonolência e tontura desses fármacos.
A resposta é avaliada por ciclos curtos com reavaliação objetiva: se a área de formigamento e a nota de queimação não cedem após algumas sessões, não se insiste na mesma técnica, revê-se o diagnóstico. É uma camada complementar à reabilitação e ao tratamento da causa metabólica ou compressiva, nunca um substituto deles.
Por que a agulha entra também na dor neuropática
O racional de usar agulha na parestesia dolorosa vem da neuromodulação.
Ver referências →Infiltração, bloqueios e descompressão
Quando o quadro não responde ao plano inicial, ou quando há um alvo bem definido, entram os procedimentos. A infiltração e os bloqueios guiados (por ultrassom ou radioscopia) levam anestésico, por vezes com corticoide, ao redor do nervo ou da raiz irritada: interrompem temporariamente a condução nociceptiva, quebram o ciclo de dor e abrem uma janela para avançar a reabilitação. Têm efeito que vai de dias a semanas e fazem parte de um plano, não de uma solução isolada. A neuromodulação por estimulação elétrica percutânea (PENS) é uma opção para componentes neuropáticos selecionados.
A cirurgia de descompressão (liberar o nervo no túnel do carpo, ou descomprimir uma raiz na coluna) é reservada a situações específicas: déficit motor que progride, dor incapacitante que não cede ao tratamento conservador bem conduzido, ou sinais de sofrimento neural importante. Na maior parte dos casos de parestesia, ela não é necessária.
Identificar e aliviar
Definir a causa, retirar gatilhos (postura, esforço), iniciar a reabilitação e, se há dor neuropática, o fármaco em dose inicial.
Progressão
Ajuste da medicação, mobilização neural e camada de neuromodulação. O formigamento costuma começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, volta-se ao diagnóstico: confirma-se o desenho da parestesia, repensa-se a causa e considera-se eletroneuromiografia ou um procedimento dirigido.
Medimos a nota de queimação ou choque de 0 a 10, mas sobretudo a extensão da área dormente ou formigando (uma faixa que recua é bom sinal) e a força no território afetado. O nervo se recupera devagar e a fibra sensitiva fina é a mais lenta de todas: quando o dano já está estabelecido, o objetivo é reduzir o formigamento e a dor a um nível que não limite a rotina e impedir que a lesão avance para o componente motor; zerar a sensação nem sempre é possível. O sinal de alarme no acompanhamento é a parestesia que muda de qualidade, vira fraqueza ou ganha área: aí o foco volta ao diagnóstico, não à dose. O detalhe de cada causa está nas páginas específicas indicadas ao longo do texto.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
O que é parestesia, em palavras simples?
É a sensação anormal de formigamento, dormência ou agulhadas que aparece sem nada tocar a pele. Acontece quando um nervo, uma raiz nervosa ou a via sensitiva está comprimido, irritado ou doente, e passa a enviar sinais errados ao cérebro.
Formigamento é sempre sinal de algo grave?
Na maioria das vezes, não. O formigamento posicional, quando uma parte do corpo “dorme” e logo normaliza, é benigno. A preocupação aumenta quando é persistente, progressivo, vem com fraqueza, ou começa de forma súbita em um lado do corpo ou na face, situação em que pode indicar AVC e exige emergência.
Formigamento nas mãos é túnel do carpo?
Pode ser. O túnel do carpo costuma afetar o polegar, o indicador e o médio e piorar à noite. Mas a mão também formiga por compressão de uma raiz no pescoço, e distinguir as duas situações muda o tratamento. Veja formigamento nas mãos: o que pode ser.
Formigamento nos pés tem a ver com diabetes?
Com frequência, sim. Quando é simétrico, começa na ponta dos pés e sobe “em meia”, com queimação que piora à noite, a hipótese principal é a neuropatia periférica, e o diabetes é a causa mais comum. Veja neuropatia diabética e neuropatia de fibras finas.
Formigamento por falta de vitamina B12, faz sentido?
Sim, a deficiência de B12 é uma causa reconhecida de parestesia, em geral simétrica em mãos e pés. Mas só vale repor quando a carência é comprovada em exame de sangue; suplementar sem deficiência não resolve formigamento de outra origem.
Formigamento em um lado do rosto, o que pode ser?
Parestesia em metade do rosto, sobretudo se súbita e com fraqueza, dificuldade para falar ou boca torta, exige acionar a emergência imediatamente, porque pode ser um AVC. Em adultos jovens, com sintomas que vão e voltam, considera-se também a esclerose múltipla. Não espere para ver se passa.
Parestesia tem cura?
Depende inteiramente da causa. Quando é posicional ou por compressão recente, costuma resolver ao remover o fator. Em neuropatias estabelecidas, o nervo se recupera devagar e nem sempre por completo, mas o tratamento da causa e o controle da dor melhoram muito o sintoma e a qualidade de vida. O plano é individualizado após avaliação.
Qual médico procurar para formigamento?
O fisiatra (médico da reabilitação e da dor) e o neurologista são os especialistas que mapeiam a origem do sintoma e montam o plano. Diante de qualquer sinal de alerta, sobretudo início súbito em um lado do corpo, a porta de entrada é a emergência.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Anderson D; Woods B; Abubakar T; Koontz C; Li N; Hasoon J; Viswanath O; Kaye AD; Urits I. A Comprehensive Review of Cubital Tunnel Syndrome. Orthopedic reviews. 2022. doi:10.52965/001c.38239. PMID:36128335.
- Zhu J; Hu Z; Luo Y; Liu Y; Luo W; Du X; Luo Z; Hu J; Peng S. Diabetic peripheral neuropathy: pathogenetic mechanisms and treatment. Frontiers in endocrinology. 2023. doi:10.3389/fendo.2023.1265372. PMID:38264279.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual: a parestesia é um sintoma com causas que vão do banal posicional ao AVC, e só o exame presencial localiza a origem e define a conduta. Diante de dormência súbita em um lado do corpo, com fraqueza ou alteração da fala, procure emergência imediatamente. A investigação e o plano de tratamento da parestesia são individualizados após consulta.

Sem comentários
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Doutor, há alguns dias estou tendo parestesia crônica no dedo mínimo e parte medial da palma esquerda. Não entendo o que pode ter causado isso. Se puder me esclarecer isso, agradeço. Antonio.
Quero saber um pouco sobre o parastesia dos membros superiores e inferiores.