Síndrome Dolorosa Pós Mastectomia: dor crônica nas mamas após cirurgia
A síndrome dolorosa pós-mastectomia é uma dor crônica, em geral neuropática, que persiste por mais de três meses após cirurgia de mama. Não significa que o câncer voltou e costuma ser controlada com tratamento multimodal junto do seguimento oncológico.
- A síndrome dolorosa pós-mastectomia é uma dor crônica, com forte componente neuropático, que dura mais de três meses após a cirurgia de mama, na parede torácica, na cicatriz, na axila e na face interna do braço.
- A dor no ombro após mastectomia é uma das queixas mais comuns: vem da rigidez, do mau posicionamento e da perda de movimento, e costuma responder bem à reabilitação.
- É um diagnóstico de dor, não de recidiva. Qualquer mudança de padrão (nódulo novo, dor que muda de caráter, inchaço progressivo) deve ser avaliada pela sua equipe de oncologia.
- O tratamento é multimodal e não-cirúrgico: reabilitação do ombro, medicação neuropática em nomes genéricos, agulhamento, bloqueios guiados e, em casos refratários, toxina botulínica. A meta é controlar a dor e devolver função.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é a síndrome dolorosa pós-mastectomia

A síndrome dolorosa pós-mastectomia é a dor crônica que persiste ou aparece depois de uma cirurgia de mama e se mantém por mais de três meses, uma vez afastadas outras causas. Apesar do nome, não se restringe à mastectomia radical: ocorre também após quadrantectomia, cirurgia conservadora, esvaziamento axilar e reconstrução.
É, na maior parte das vezes, uma dor neuropática, ou seja, gerada por lesão ou disfunção dos próprios nervos da região, e não por uma inflamação ativa ou por um tumor. O alvo mais clássico é o nervo intercostobraquial, um ramo sensitivo que sai entre as costelas e leva a sensibilidade da axila e da face interna do braço. Esse nervo é frequentemente estirado, cortado ou aprisionado em cicatriz durante o esvaziamento dos linfonodos da axila. O resultado é uma dor descrita como queimação, choque, fisgada ou aperto, acompanhada de áreas dormentes ou, ao contrário, de uma sensibilidade exagerada ao toque (alodínia) e de formigamento.
É uma condição mais comum do que se imagina e por muito tempo subnotificada. Estimativas variam bastante conforme o tipo de cirurgia e o tempo de seguimento, mas uma parcela significativa das mulheres operadas de câncer de mama relata algum grau de dor persistente, e em parte delas a dor é intensa o suficiente para limitar o sono, o movimento do braço e o retorno às atividades. Reconhecer o quadro tem valor prático: dor crônica não tratada tende a se perpetuar por sensibilização do sistema nervoso, e quanto antes se intervém, melhor o controle.
A dor pós-mastectomia quase nunca é uma coisa só: o eixo central é uma lesão neuropática do nervo intercostobraquial, e por cima dela costumam se empilhar um ombro rígido por desuso, um cordão axilar, pontos-gatilho miofasciais no peitoral e no serrátil e, em parte das mulheres, um linfedema. Cada uma dessas camadas tem um tratamento diferente, e tratar só uma deixa a dor pela metade. Ela também é subtratada porque é frequentemente rotulada como desconforto normal de quem operou e passou pela radioterapia, então a mulher não conta, e quem cuida não pergunta. Reconhecer que são várias camadas, e nomear cada uma, é o que abre o caminho do tratamento.
Por que a dor aparece e quem tem mais risco
A dor após a cirurgia de mama raramente tem uma única causa. Costuma ser a soma de uma lesão nervosa direta, de uma cicatriz que aprisiona o nervo, de uma rigidez que se instala no ombro e de um sistema nervoso que passou a amplificar os sinais de dor. Entender cada peça ajuda a montar o tratamento certo, porque cada mecanismo responde a um recurso diferente.
O gatilho inicial mais frequente é a lesão do nervo intercostobraquial durante o esvaziamento axilar. Outros nervos da parede torácica (intercostais, peitorais, torácico longo) também podem ser afetados. Quando o nervo cicatriza de forma desorganizada, pode formar um neuroma, um emaranhado de fibras nervosas hipersensível e doloroso ao toque. Some-se a isso a fibrose e a aderência da cicatriz, que tracionam tecidos e nervos a cada movimento, e o quadro de dor mecânica e neuropática combinadas começa a se desenhar.
A dor no ombro após mastectomia merece destaque por ser tão comum. Após a cirurgia, é natural proteger o lado operado, movimentar menos o braço e adotar uma postura encolhida. Esse desuso leva à perda de amplitude, ao encurtamento de músculos do peito e da cintura escapular e, em alguns casos, a um quadro de capsulite adesiva (ombro congelado) ou de dor miofascial com pontos-gatilho no peitoral, no trapézio e nos rotadores. É uma dor de origem musculoesquelética que se soma à neuropática, e que costuma responder bem à reabilitação.
Há ainda fatores que aumentam o risco de a dor cronificar, e conhecê-los orienta a prevenção: cirurgia mais extensa, sobretudo com esvaziamento axilar; radioterapia na região; dor intensa e mal controlada no pós-operatório imediato; presença de linfedema (o inchaço do braço por comprometimento da drenagem linfática, que pode ser doloroso); idade mais jovem; e quadros prévios de ansiedade, depressão ou dor crônica. Nenhum desses fatores condena ninguém à dor, mas todos pedem atenção precoce.
A síndrome dolorosa pós-mastectomia costuma ser dor neuropática (do nervo intercostobraquial) somada a dor do ombro por desuso e rigidez. Por isso o tratamento precisa atacar os dois eixos ao mesmo tempo.
Como reconhecer: sintomas e onde dói
O reconhecimento começa pela localização e pelo caráter da dor. Na síndrome dolorosa pós-mastectomia, a dor se distribui pela parede torácica anterior, pela cicatriz, pela axila e pela face interna do braço do lado operado, e com frequência se irradia para o ombro. Muitas mulheres descrevem a sensação desconcertante de dor numa mama que já não está mais ali, a chamada dor fantasma da mama, que é real e tem base neurológica.
O caráter é tipicamente neuropático. As descrições mais comuns incluem queimação contínua, choques que aparecem do nada, fisgadas, aperto em faixa ao redor do tórax e formigamento. Coexistem áreas de dormência (perda de sensibilidade onde o nervo foi lesado) e de alodínia (dor provocada por um toque que normalmente não doeria, como a roça da roupa ou da alça do sutiã). Movimentos do braço, abraços e o próprio peso da mama contralateral podem desencadear ou piorar a dor.
| Sintoma | O que descreve | O que costuma indicar |
|---|---|---|
| Queimação e choque na axila e face interna do braço | Dor neuropática no território do nervo intercostobraquial | Componente neuropático; responde a medicação neuropática e bloqueios |
| Dormência e formigamento na mesma área | Perda de sensibilidade por lesão do nervo | Esperado após esvaziamento axilar; orienta o mapa da dor |
| Dor ao toque leve (roupa, sutiã) | Alodínia, sensibilização do sistema nervoso | Dessensibilização gradual e medicação central ajudam |
| Dor e rigidez do ombro, braço que não levanta bem | Perda de amplitude, capsulite ou dor miofascial | Reabilitação do ombro é a base; bom prognóstico |
| Ponto muito sensível e localizado na cicatriz | Possível neuroma ou aderência cicatricial | Pode responder a infiltração local e técnicas sobre a cicatriz |
| Inchaço progressivo e peso no braço | Linfedema, com ou sem dor associada | Encaminhar para fisioterapia de linfedema; avaliar em conjunto |
Para confirmar o caráter neuropático, são úteis questionários simples e validados, e o exame que mapeia o território de dor, dormência e alodínia. O diagnóstico, porém, é antes de tudo clínico e de exclusão: depende de afastar outras causas, o que nos leva ao ponto seguinte.
Padrões que se repetem no consultório:
- O padrão que mais se repete é a queixa de queimação e dormência ao mesmo tempo, na axila e descendo pela face interna do braço, o território do intercostobraquial. Confunde quem sente, porque a área que dói é em parte a mesma que está adormecida, e essa combinação costuma ser a pista de que há lesão de nervo.
- A dor raramente vem sozinha. Quando se examina com calma, aparecem os companheiros: o ombro que não sobe direito, o cordão fibroso que salta na axila quando se eleva o braço, o peso do linfedema. Cada um pede o seu próprio tratamento, e é comum que a paciente só tenha recebido analgésico para o conjunto.
- O que mais surpreende quem chega é descobrir que a dor é comum, conhecida e tratável, e que poderia ter sido cuidada antes. Muitas atravessaram meses achando que era o preço normal de ter operado e que não havia o que fazer, e seguraram a queixa por isso.
- A regra que não se abre mão: dor nova ou que muda de caráter volta primeiro para a oncologia. Tratar o sintoma sem antes excluir recidiva com a equipe que acompanha o câncer não é cuidado, é risco.
Dor não é sinal de recidiva, mas exige avaliação
A primeira preocupação de quem sente dor depois do tratamento do câncer é compreensível: será que o câncer voltou? Na maioria das vezes, a resposta é não. A síndrome dolorosa pós-mastectomia é um diagnóstico de dor, ligada à cirurgia e aos seus efeitos sobre os nervos, e não um marcador de recidiva. Ainda assim, a dor nunca deve ser ignorada, justamente porque algumas mudanças precisam ser avaliadas pela equipe que cuida do seu câncer.
Procure sua equipe oncológica se houver
- Nódulo novo, endurecimento ou massa na mama, na cicatriz, na axila ou acima da clavícula.
- Dor que muda de caráter, torna-se progressiva, constante e que piora à noite, sem relação com o movimento.
- Inchaço do braço que aumenta de forma rápida, com vermelhidão e calor (avaliar infecção ou trombose).
- Perda de peso sem explicação, febre persistente ou cansaço importante e novo.
- Dor óssea localizada e progressiva, fraqueza nas pernas ou alterações neurológicas novas.
O manejo da dor é, portanto, sempre feito em paralelo, e nunca no lugar, do seu seguimento oncológico. Mantenha as consultas e os exames de controle com o mastologista e o oncologista. O médico da dor trabalha em conjunto com essa equipe: enquanto a oncologia vigia a doença de base, o tratamento da dor cuida do sintoma que limita a sua vida. Essa divisão de papéis é o que permite tratar a dor com segurança.
Tratamento multimodal da dor
O tratamento da síndrome dolorosa pós-mastectomia é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. Como a dor combina um componente neuropático (do nervo intercostobraquial lesado) com um componente musculoesquelético (do ombro e da parede torácica) e, muitas vezes, um componente de sensibilização central, nenhum recurso isolado costuma resolver. A lógica é somar técnicas que atuam em mecanismos diferentes, com a reabilitação do ombro e do braço como base, e ajustar conforme a resposta. O objetivo é reduzir a dor a um nível que não limite a vida e recuperar o movimento.
Reabilitação do ombro e do braço
Recuperar amplitude e força, soltar a cicatriz e dessensibilizar a área dolorida; a base de todo o plano.
Acupuntura e eletroacupuntura
Adjuvante sobre dor e rigidez do ombro, com técnica tangencial e superficial sobre o tórax operado.
Agulhamento seco e infiltração
Para pontos-gatilho do peitoral e do serrátil e para neuroma ou aderência sobre a cicatriz.
Bloqueios guiados e PENS
Bloqueio do intercostobraquial e da parede torácica e neuromodulação para a dor neuropática que não cede.
Toxina botulínica
Casos refratários com espasmo e dor miofascial na parede torácica; uso off-label e individualizado.
Medicação neuropática
Antidepressivos duais, tricíclicos e gabapentinoides em nomes genéricos para a dor de fundo (ver «Tratamento medicamentoso»).
Reabilitação do ombro, do braço e da cicatriz: a base
- O que é
- A intervenção mais importante e a que devolve função: recupera amplitude e força do ombro e do braço, alonga a musculatura encurtada do peito e da cintura escapular e reorganiza a postura, junto da mobilização e da dessensibilização da cicatriz e da pele dolorida.
- Mecanismo
- Restaura o movimento perdido pelo desuso, reverte o padrão de proteção do lado operado e dessensibiliza a área dolorosa.
- Evidência
- Consistente: programas de exercício e fisioterapia melhoram a dor, a mobilidade e a qualidade de vida após a cirurgia de mama, e o exercício é seguro quando bem orientado.
- O que esperar
- Ganhos graduais de movimento ao longo de semanas, com sessões individuais (um paciente por sala) e exercícios para casa; a constância sustenta o resultado.
- Indicações
- Praticamente todos os casos; quando há linfedema, articula-se à fisioterapia específica de drenagem e contenção.
- Limitações
- Exige progressão cuidadosa para não desencadear surtos e respeita, nas primeiras semanas, os limites do reparo tecidual e da reconstrução.
Bloqueios guiados e neuromodulação (PENS)
- O que é
- Bloqueios anestésicos guiados por ultrassom do nervo intercostobraquial e da parede torácica (plano do serrátil, PECS), com anestésico que pode ser combinado a corticoide em casos selecionados; e o PENS, estimulação elétrica percutânea para o componente neuropático.
- Mecanismo
- Interrompem temporariamente a condução nociceptiva, confirmam o gerador da dor e abrem uma janela para avançar a reabilitação; o PENS é aplicado em ciclos com resposta reavaliada.
- Evidência
- Aponta benefício dos bloqueios da parede torácica no controle da dor pós-mastectomia, sobretudo quando há um território nervoso bem definido.
- O que esperar
- O alívio pode durar de dias a semanas e costuma ser usado para destravar a progressão do tratamento ativo, não como recurso isolado.
- Indicações
- Dor neuropática que não cede ao plano de base, com território nervoso definido.
- Limitações
- A toxina botulínica tipo A fica reservada a quadros refratários com forte componente de espasmo na parede torácica: o efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, é off-label nessa dor e não substitui a reabilitação. A acupuntura, o agulhamento seco e a infiltração detalham-se a seguir, na seção «tratamento não farmacológico».
As técnicas em clínica e os procedimentos guiados costumam abrir a janela de alívio que permite avançar a reabilitação, enquanto a medicação modula a dor de fundo (ver «Tratamento medicamentoso»). Nenhum desses recursos atua sozinho.
Avaliação e início
Mapear a dor, iniciar reabilitação do ombro e a dessensibilização da cicatriz e, quando indicado, a medicação neuropática em dose baixa.
Progressão
Avançar fortalecimento e amplitude, somar técnicas em clínica (agulhamento, bloqueios) e titular a medicação; a dor costuma começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e consideram-se bloqueios guiados, PENS ou toxina botulínica em casos selecionados.
Quando a melhora não chega no ritmo esperado, o passo seguinte é reabrir o diagnóstico com a oncologia, reexaminar se predomina o nervo, o ombro ou o miofascial, e recalibrar o plano para o eixo que ficou para trás.
Agulhamento seco
A técnica entra como adjuvante do componente musculoesquelético, e não como tratamento da lesão neuropática do intercostobraquial.
Ver referências →Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
Na síndrome dolorosa pós-mastectomia a reabilitação é a base ativa do plano, não um acessório. O movimento orientado não desfaz a lesão do nervo intercostobraquial nem a cicatriz, mas atua sobre tudo o que orbita a dor: a rigidez e a perda de amplitude do ombro do lado operado, o encurtamento dos músculos do peito e da cintura escapular, o desuso que se instala quando a mulher protege o braço com medo de doer, o sono fragmentado e o humor rebaixado, fatores que retroalimentam a sensibilização central. O exercício também recruta as vias inibitórias descendentes, o mesmo sistema sobre o qual agem os antidepressivos duais, e por isso costuma somar à medicação.
Junto com o exercício caminham a dessensibilização da cicatriz e da pele dolorida, peça central quando há alodínia, e a atenção precoce ao cordão axilar e ao linfedema. O atendimento é individual, com um paciente por sala, sempre articulado ao seguimento oncológico.
Cinesioterapia e recuperação do ombro
Exercício terapêutico orientado, base do plano: recupera amplitude e força do ombro do lado operado, alonga peitoral e cintura escapular e fortalece de forma progressiva, com retorno gradual pela atividade graduada, que dosa a carga sem disparar crises. Previne e trata a capsulite adesiva (ombro congelado) do desuso. Exige progressão cuidadosa e respeito ao reparo tecidual e às restrições da reconstrução nas primeiras semanas.
RPG: reeducação postural global
Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo associadas a contração isométrica e excêntrica e ao controle da respiração. Trata as retrações e o desequilíbrio postural de quem encolhe o ombro e protege a parede torácica operada, e melhora a mecânica respiratória limitada após cirurgia e radioterapia. Atua sobre o componente mecânico e miofascial sobreposto, não sobre o nervo em si; é sempre parte de um plano mais amplo.
Pilates clínico
Exercício de baixo impacto supervisionado, focado em controle motor, estabilização do tronco e ativação da musculatura profunda, no solo ou em aparelhos. Melhora a estabilização escapulotorácica, reduz a sobrecarga sobre a cintura escapular sensibilizada e devolve confiança no movimento. Exige adaptação quando há restrição cirúrgica recente, linfedema ou reconstrução, e não substitui a medicação quando ela é necessária.
Terapia manual, cordão axilar e dessensibilização da cicatriz
Mobilização e liberação miofascial, manejo da síndrome da rede axilar (cordão axilar) e programa de dessensibilização dirigido à cicatriz e à área de alodínia. O alongamento específico libera os cordões fibrosos que limitam dolorosamente a elevação do braço; a dessensibilização expõe a pele de forma gradual a texturas, temperaturas e pressões, reeducando o sistema nervoso a tolerar o toque. A dessensibilização é feita em sessões curtas e frequentes, idealmente diárias em casa, e exige constância; a terapia manual isolada não sustenta resultado sem exercício ativo.
Fisioterapia do linfedema
Abordagem específica para o inchaço do braço por comprometimento da drenagem linfática após o esvaziamento axilar e a radioterapia, conduzida pela terapia descongestiva complexa: drenagem linfática manual, enfaixamento compressivo, exercícios e cuidados com a pele. Estimula vias de drenagem alternativas, reduz volume e desconforto e previne infecções de repetição (erisipela). Tem fase intensiva de redução seguida de manutenção com malha de compressão; o linfedema é controlável, não necessariamente reversível por completo. Exige diferenciar de causas agudas (trombose, infecção) e acompanhamento de longo prazo.
A reabilitação na dor pós-mastectomia trabalha, portanto, em várias frentes: devolver amplitude e força ao ombro e ao braço, reeducar a região operada a tolerar o estímulo pela dessensibilização, liberar o cordão axilar e controlar o linfedema. Nenhuma dessas medidas substitui a medicação quando indicada, mas, somadas a ela, costumam acelerar o ganho de função e melhorar a qualidade de vida. O plano é individualizado e ajustado conforme a resposta.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Uma expectativa comum é a de que uma nova cirurgia vá encerrar a dor. Na síndrome dolorosa pós-mastectomia, na maioria das vezes isso não acontece. A cirurgia não trata a dor neuropática em si: a lesão do nervo intercostobraquial já está estabelecida, e reabordar a área sem um alvo estrutural claro raramente ajuda e pode agravar, porque adiciona nova lesão tecidual a um sistema já sensibilizado.
Por isso a regra é tratar primeiro pelo caminho conservador e reservar os procedimentos para situações específicas. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; quando indicadas, orientamos o encaminhamento ao especialista adequado e seguimos acompanhando o tratamento da dor em conjunto.
Conservador · 1ª escolha
Caminho clínico multimodal
- Reabilitação do ombro, do braço e da cicatriz como base.
- Medicação para o componente neuropático em nomes genéricos.
- Acupuntura, agulhamento seco e infiltração quando há componente miofascial.
- Bloqueios guiados, PENS e toxina botulínica nos casos refratários.
- Sempre em paralelo ao seguimento oncológico.
Cirúrgico · exceção
Procedimento dirigido por especialista
- Reservado a casos selecionados, após falha do tratamento conservador.
- Exige um alvo estrutural claro (neuroma, aderência, compressão demonstrável).
- Não trata a dor neuropática sem alvo, e pode agravar se reabordar sem indicação.
- Decisão compartilhada, ponderando o quadro oncológico e a resposta às etapas anteriores.
Há, ainda assim, situações em que um procedimento dirigido tem papel, sempre conduzido por especialista fora da clínica:
- Dor neuropática sem alvo estrutural
- A cirurgia não trata a dor do nervo em si; reabordar a área não é indicado e pode agravar. A conduta é o tratamento clínico multimodal, a reabilitação e, quando necessário, a neuromodulação. Mais cirurgia não é a solução nesse cenário.
- Neuroma sintomático
- Excisão ou revisão cirúrgica do neuroma por especialista. Considerar quando há dor em ponto fixo, gatilho à palpação e alívio consistente com bloqueio. Alívio possível do componente local; resultado variável.
- Lipofilling sobre a cicatriz / radiodermite
- Enxerto de gordura autóloga para melhorar a qualidade do tecido irradiado e, em casos selecionados, a dor. Recurso em estudo, com evidência ainda em construção; indicação individualizada.
- Aderência ou compressão de nervo
- Liberação ou descompressão dirigida por especialista, em quadros refratários com ponto de compressão demonstrável. Considerada após falha do tratamento conservador.
- Manejo da mama e da reconstrução
- Correção de complicações da reconstrução ou de contratura capsular, conduzida pela equipe de mastologia e cirurgia plástica que acompanha a paciente.
Além dos procedimentos, parte do cuidado é compartilhada com outros especialistas conforme o contexto: a oncologia e a mastologia, que seguem vigiando a doença de base e excluindo recidiva antes de atribuir a dor a uma sequela; a fisioterapia especializada em linfedema; e, quando há sofrimento emocional importante, o apoio psicológico, já que ansiedade e depressão amplificam a dor crônica. A decisão sobre qualquer procedimento é sempre compartilhada e tomada após avaliação especializada, ponderando o quadro oncológico, as comorbidades e a resposta às etapas anteriores. O objetivo, mesmo nas opções fora da clínica, é controle da dor e ganho de função, não cura.
Tratamento medicamentoso
O tratamento medicamentoso é uma das colunas do manejo quando há componente neuropático, e aqui vale profundidade, porque é a parte que mais gera dúvida. O ponto que mais surpreende é que o anti-inflamatório comum não é o remédio da dor neuropática: ele age sobre a inflamação do tecido, mecanismo da dor nociceptiva, e não sobre a hiperexcitabilidade do nervo, que é o motor da dor após a lesão do intercostobraquial. Pode ter papel adjuvante e pontual, por períodos curtos, quando há um componente inflamatório ou musculoesquelético associado, mas não é a base.
As medicações que de fato modulam a dor neuropática são descritas a seguir pelos nomes genéricos. A indicação, a dose e a duração são definidas pelo médico, individualmente, levando em conta as comorbidades e, sobretudo, as medicações em uso no tratamento oncológico, pelo risco de interações.
As diretrizes internacionais convergem numa estrutura de linhas de tratamento. As recomendações do grupo de dor neuropática da IASP (NeuPSIG) e de diretrizes como a do NICE colocam como primeira linha três classes: os gabapentinoides (gabapentina e pregabalina), a duloxetina (antidepressivo dual, com a particularidade de ter evidência também na dor articular e na neuropatia induzida por quimioterapia) e os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina e nortriptilina). Os agentes tópicos, como o adesivo de lidocaína a 5% e a capsaicina a 8%, são opção sobretudo na dor neuropática periférica e localizada, situação frequente na alodínia sobre a cicatriz. Os opioides e o tramadol ficam reservados a linhas posteriores, por tempo limitado e com cautela, pelo perfil de efeitos adversos e risco de dependência.
| Classe | Exemplos | Como costuma agir | Linha | Cuidados frequentes |
|---|---|---|---|---|
| Gabapentinoides | Gabapentina, pregabalina | Reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios ao modular canais de cálcio do nervo | 1ª linha | Sonolência, tontura, inchaço e ganho de peso; ajuste em doença renal; retirada gradual |
| Antidepressivos duais | Duloxetina, venlafaxina | Reforçam as vias que inibem a dor (serotonina e noradrenalina) na medula | 1ª linha | Náusea, boca seca e pressão; cuidado com outras medicações serotoninérgicas e com o tamoxifeno |
| Antidepressivos tricíclicos | Amitriptilina, nortriptilina | Modulam vias inibitórias e canais de sódio; ajudam o sono em dose baixa à noite | 1ª linha | Boca seca, retenção urinária, sedação; atenção em idosas e em problemas cardíacos |
| Tópicos | Lidocaína 5% (adesivo), capsaicina 8% (adesivo de alta concentração) | A lidocaína bloqueia canais de sódio nas fibras hiperexcitáveis da pele; a capsaicina dessensibiliza as fibras nociceptivas cutâneas por ação no receptor TRPV1 | Localizada | Para dor localizada e pele íntegra; irritação e ardência locais; a capsaicina 8% é aplicada em ambiente assistido |
| Opioides e tramadol | Tramadol e outros opioides, por tempo limitado | Atuam nos receptores opioides do sistema nervoso; o tramadol também inibe a recaptação de serotonina e noradrenalina | Posterior | Dependência, constipação e sonolência; uso restrito, criterioso e supervisionado; não são primeira linha |
Na prática, costuma-se iniciar com uma única medicação de primeira linha, escolhida pelo perfil da paciente, com a dose introduzida de forma gradual, começar baixo e subir devagar, para reduzir efeitos colaterais e encontrar a menor dose eficaz. Muitas vezes a escolha aproveita um benefício extra: um tricíclico em dose baixa à noite ajuda quem também não dorme; a duloxetina pode ajudar quem tem sintomas depressivos associados ou neuropatia por quimioterapia. A resposta leva de uma a algumas semanas e quase nunca zera a dor; a meta é reduzi-la a um nível tolerável.
Quando a resposta a uma medicação isolada é parcial, combinam-se classes diferentes, sempre com atenção às interações, em especial com hormonioterapia e quimioterapia em curso. Para um panorama das opções, veja o guia de remédios para dor, os anticonvulsivantes na dor, a amitriptilina na dor neuropática, o adesivo de lidocaína e a capsaicina.
Conversa com a oncologia
Várias medicações da dor neuropática interagem com fármacos do tratamento do câncer. Um exemplo clássico é a cautela com inibidores potentes da enzima que ativa o tamoxifeno. Por isso a prescrição é sempre coordenada com a equipe que conduz a hormonioterapia ou a quimioterapia.
Dose certa e revisão
O objetivo é a menor dose que controle a dor com poucos efeitos colaterais. A medicação é reavaliada periodicamente, com retirada sempre gradual, e não mantida no automático por tempo indefinido.
Pontos de bula dos gabapentinoides: a dose precisa ser ajustada em quem tem função renal reduzida, a suspensão nunca deve ser abrupta, e a sonolência e a tontura podem prejudicar dirigir e operar máquinas, sobretudo no início. A medicação funciona melhor quando faz parte de um plano que inclui reabilitação e as técnicas em clínica, e não quando carrega sozinha todo o peso do tratamento.
Prevenção e o que você pode fazer
Parte da prevenção começa no perioperatório, com técnicas que preservam o nervo intercostobraquial quando possível e com o bom controle da dor logo após a cirurgia, decisões da equipe cirúrgica. Do seu lado, há medidas que reduzem o risco de a dor cronificar e que ajudam quem já convive com ela.
Retomar o movimento do braço e do ombro o quanto antes, dentro do que a equipe liberar, evita a rigidez e o ombro congelado. O desuso é o maior inimigo da função.
A mobilização e a dessensibilização da cicatriz, ensinadas na reabilitação, reduzem aderências e a hipersensibilidade ao toque ao longo das semanas.
Atenção a inchaço, peso e dor no braço. O acompanhamento precoce com fisioterapia específica de linfedema melhora o controle e o conforto.
Dor persistente não é algo a suportar em silêncio. Quanto antes se busca avaliação, menor a chance de sensibilização e melhor o resultado do tratamento.
Sono, atividade física regular liberada pela equipe e suporte emocional também importam. Ansiedade e humor deprimido amplificam a dor crônica, e o cuidado integrado, que pode incluir apoio psicológico, faz parte do tratamento. Se você sente sofrimento emocional intenso, fale com a sua equipe; em momentos de crise, o CVV atende pelo 188.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Por que tenho dor no ombro após a mastectomia?
A dor no ombro após mastectomia é muito comum e costuma vir da combinação de desuso (movimentar menos o braço para proteger o lado operado), encurtamento da musculatura do peito e da cintura escapular, perda de amplitude e, às vezes, capsulite adesiva (ombro congelado) ou pontos-gatilho miofasciais. Pode somar-se à dor neuropática da própria síndrome dolorosa pós-mastectomia. A boa notícia é que esse componente responde bem à reabilitação do ombro, base do tratamento.
A dor crônica nas mamas após a cirurgia significa que o câncer voltou?
Na maioria das vezes, não. A síndrome dolorosa pós-mastectomia é uma dor ligada à cirurgia e à lesão de nervos da região, não um marcador de recidiva. Ainda assim, qualquer mudança de padrão deve ser avaliada pela sua equipe de oncologia: nódulo ou endurecimento novo, dor progressiva e constante que piora à noite sem relação com o movimento, inchaço que aumenta rápido, perda de peso ou febre. O tratamento da dor é sempre feito junto, e nunca no lugar, do seguimento oncológico.
A síndrome dolorosa pós-mastectomia tem cura?
Parte da dor vem de uma lesão de nervo já estabelecida, e o objetivo do tratamento é o controle, não a cura. O controle tem bom resultado na maioria dos casos: reduzir a dor a um nível que não limite a vida, recuperar o movimento do braço e do ombro e melhorar o sono e a função. Quanto mais cedo se trata, melhor o controle, porque a dor crônica tende a se perpetuar quando não cuidada.
Quanto tempo depois da cirurgia a dor pode aparecer?
A dor pode persistir desde o pós-operatório ou surgir semanas a meses depois. Fala-se em síndrome dolorosa pós-mastectomia quando a dor se mantém por mais de três meses após a cirurgia, afastadas outras causas. Dor que muda de caráter ou que aparece tardiamente e de forma progressiva deve ser avaliada para diferenciar das demais possibilidades.
A acupuntura ajuda na dor depois da cirurgia de mama?
Pode ajudar como adjuvante. Há estudos sugerindo benefício da acupuntura sobre a dor e a rigidez do ombro nessa população, mas o nível de certeza ainda é moderado a baixo, então ela entra somada à reabilitação e à medicação, não como tratamento isolado, e nunca substitui o seu seguimento oncológico. As agulhas são finas, descartáveis e de uso único, e eventos adversos sérios são raros.
Qual médico trata a dor crônica após a mastectomia?
O manejo da dor costuma ser conduzido por um médico da dor ou fisiatra, em conjunto com a fisioterapia e em coordenação com o seu mastologista e oncologista, que seguem cuidando da doença de base. Esse trabalho em equipe é o que permite tratar a dor com segurança, sem perder de vista o acompanhamento do câncer.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Resolução CFM nº 1.974/2011 e normas correlatas sobre publicidade médica, que vedam anunciar resultado assegurado em tratamento.
- Larsson IM; Ahm Sørensen J; Bille C. The Post-mastectomy Pain Syndrome-A Systematic Review of the Treatment Modalities. The breast journal. 2017. doi:10.1111/tbj.12739. PMID:28133848.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual nem o acompanhamento com a sua equipe de oncologia. Na dor pós-mastectomia o peso de cada componente, o neuropático, o do ombro e o miofascial, muda de pessoa para pessoa, e por isso o plano é individualizado a cada caso e revisto ao longo do tempo.
