Tendinite no pulso
A tendinite no pulso é, mais precisamente, uma tenossinovite por sobrecarga repetitiva, sendo a De Quervain a forma mais conhecida. Na maioria dos casos é tratada sem cirurgia, com órtese e ajuste de atividade.
- Tendinite no pulso (ou no punho) é a irritação dos tendões e de suas bainhas no nível do punho, em geral por esforço repetitivo; tecnicamente é uma tenossinovite.
- A forma mais comum é a tenossinovite de De Quervain, no lado do polegar, diagnosticada clinicamente pelo teste de Finkelstein, sem necessidade de exame de imagem na maioria dos casos.
- O tratamento é não-cirúrgico, multimodal e individualizado: órtese e modificação de atividade como base, somadas a ondas de choque, laser, agulhamento, infiltração e reabilitação.
- O tempo de afastamento varia caso a caso; o atestado é definido pelo médico após o exame, conforme a profissão e a intensidade do quadro.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é tendinite no pulso

Tendinite no pulso é a dor que surge quando os tendões que atravessam o punho ficam irritados pela sobrecarga. Na prática, o que mais se vê não é uma inflamação do corpo do tendão, mas uma tenossinovite: a irritação da fina bainha sinovial que envolve o tendão e por onde ele desliza.
O punho é uma região de passagem. Dezenas de tendões longos, que nascem nos músculos do antebraço, cruzam a articulação dentro de túneis e bainhas para mover os dedos e a mão. Cada vez que você digita, segura o celular, gira uma chave ou ergue um bebê, esses tendões deslizam dentro de suas bainhas.
Quando o movimento se repete em excesso, ou quando o tendão é forçado em uma posição desfavorável, esse deslizamento gera atrito, a bainha incha e o que era um movimento suave passa a doer. É por isso que o termo correto, na maioria dos casos, é tenossinovite, e não tendinite no sentido estrito.
Vale distinguir alguns nomes que aparecem juntos. Tendinopatia é o termo guarda-chuva para o sofrimento do tendão; tendinite sugere inflamação ativa; e tenossinovite aponta especificamente para a bainha inflamada. No pulso, três quadros concentram a maioria das queixas, descritos pelo lado e pelos tendões envolvidos.
| Quadro | Onde dói | Tendões envolvidos |
|---|---|---|
| Tenossinovite de De Quervain | Lado do polegar, sobre o estiloide do rádio | Abdutor longo e extensor curto do polegar (1º compartimento) |
| Tenossinovite dos extensores | Dorso do punho | Extensores do punho e dos dedos |
| Tenossinovite dos flexores | Face palmar do punho | Flexores do punho e dos dedos |
Sobre as “fotos de tendinite no pulso” que muita gente procura: na maioria das vezes não há nada visível por fora. Em quadros mais intensos pode aparecer um leve inchaço sobre o lado do polegar ou no dorso do punho, e ocasionalmente uma sensação de creptação, um ranger fino ao mover o punho. Mas a ausência de inchaço não exclui o diagnóstico, que é sobretudo clínico, feito pela história e pelo exame, e não por uma imagem.
“Se não aparece nada na foto nem incha, então não é tendinite de verdade e não precisa tratar.”
A tenossinovite do punho costuma doer sem deformar nem inchar visivelmente. O diagnóstico é clínico, por testes como o de Finkelstein, e o tratamento precoce tende a encurtar a recuperação.
“Tendinite no pulso” não é um diagnóstico único: é um rótulo para vários tendões diferentes, e qual deles dói depende de onde dói. Se a dor é no lado do polegar, são os tendões do 1º compartimento, a De Quervain; se é nas costas do punho, são os extensores; se é na palma, os flexores. Nomear o compartimento certo é o que define a órtese e o foco do tratamento. E há uma fronteira que muda a conduta: dormência ou formigamento nos dedos não é tendão, é nervo, em geral o túnel do carpo, que é outro problema e tem outra conduta. Por isso a primeira pergunta no consultório é “qual estrutura, e onde?”.

Causas e quem corre mais risco
Na grande maioria dos casos, a tendinite no pulso é uma lesão por sobrecarga: o tendão recebe mais carga, em repetição, do que consegue tolerar e reparar entre um esforço e outro. Não é um trauma único, e sim o acúmulo de microagressões. Por isso aparece tanto em quem trabalha o dia inteiro ao computador quanto em quem cuida de um recém-nascido.
Esse mecanismo de esforço repetitivo é o mesmo que dá nome às LER/DORT (Lesões por Esforço Repetitivo / Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho). A tenossinovite do punho é uma das apresentações clássicas das LER/DORT, ao lado da epicondilite e da síndrome do túnel do carpo. O fator de risco mais moderno é o uso intenso de telas: o gesto de segurar o celular e mover o polegar para digitar e rolar a tela sobrecarrega justamente os tendões do 1º compartimento, os mesmos da De Quervain.
Um cenário muito típico é o pós-parto. A De Quervain é tão frequente em mães e cuidadores de bebês que recebeu o apelido de “punho da mãe” ou “tendinite das mamães”. A combinação de erguer o bebê repetidamente com o polegar afastado, as mamadas em posições mantidas e as alterações hormonais e de retenção de líquido das primeiras semanas explica por que o quadro costuma surgir nesse período. Não é fraqueza nem descuido: é uma sobrecarga previsível de um gesto repetido dezenas de vezes ao dia.
O que costuma desencadear
Digitação e mouse por longas horas, uso intenso do celular, trabalho manual repetitivo, esportes de raquete e levantamento de peso com punho mal posicionado.
Perfis frequentes
Mães e cuidadores no pós-parto, trabalhadores de escritório e de linha de produção, músicos, e pessoas com hipotireoidismo, artrite reumatoide ou diabetes.
Vale lembrar que nem toda dor no punho é tendinite. O esforço repetitivo também pode irritar o nervo mediano dentro do túnel do carpo, gerando formigamento na mão, ou sobrecarregar os tendões mais acima, no antebraço. Por isso o diagnóstico preciso importa: ele direciona o tratamento. As queixas que se estendem para a mão e para os dedos são abordadas na página sobre dor nas mãos, e a sobrecarga dos tendões mais proximais, em tendinite no antebraço.
Sintomas e como reconhecer
A queixa central é dor no punho que piora com o movimento e a carga e melhora com o repouso. Na De Quervain, a dor se concentra no lado do polegar, sobre uma saliência óssea do punho chamada estiloide do rádio, e costuma irradiar tanto para o polegar quanto para o antebraço. Tarefas simples passam a doer: abrir um pote, torcer um pano, segurar uma xícara, levantar o bebê pelas axilas ou usar o polegar para digitar no celular.
Nos extensores, a dor fica no dorso do punho e piora ao estender a mão para trás, como ao se apoiar para levantar de uma cadeira. Nos flexores, fica na face palmar e piora ao fechar a mão com força. Em todos eles, é comum uma rigidez matinal breve, a sensação de punho “preso” no início do movimento, e às vezes aquele ranger fino, a creptação, durante o uso.
- Dói ao usar, alivia ao repousar. O padrão mecânico é a marca da tendinite, ao contrário das dores que pioram à noite e em repouso.
- Localização precisa. A De Quervain dói num ponto definido sobre o lado do polegar, não em toda a mão.
- Gestos do polegar disparam. Pinçar, segurar, levantar peso e digitar no celular reproduzem a dor.
- Pode haver inchaço discreto. Às vezes um pequeno edema ou creptação sobre o tendão, mas a ausência deles não afasta o diagnóstico.
Há um sinal de alerta importante: dor no punho que vem acompanhada de formigamento ou dormência nos dedos (sobretudo polegar, indicador e médio) aponta para o nervo mediano comprimido, ou seja, síndrome do túnel do carpo, um problema de nervo que é diferente da tendinite e tem outra conduta. Da mesma forma, dor que surge após queda sobre a mão estendida levanta a hipótese de fratura, em especial do osso escafoide, que pode passar despercebida. Nesses casos, a avaliação não deve esperar.
Dor no lado do polegar que piora ao pinçar, segurar e levantar peso, e alivia no repouso, é o retrato típico da tenossinovite de De Quervain. Formigamento nos dedos muda a hipótese e pede avaliação específica.
Diagnóstico: o teste de Finkelstein
O diagnóstico da tendinite no pulso é clínico: feito pela história e pelo exame físico, na maioria das vezes sem necessidade de exames de imagem. A história aponta o gesto repetitivo e o padrão mecânico da dor; o exame localiza o tendão acometido e reproduz o sintoma com manobras específicas.
A manobra central para a De Quervain é o teste de Finkelstein. A pessoa dobra o polegar para dentro da palma, fecha os outros dedos sobre ele e, então, o punho é inclinado em direção ao dedo mínimo. Esse movimento estica os tendões do 1º compartimento dentro da bainha inflamada; quando reproduz a dor aguda no lado do polegar, o teste é positivo e fala fortemente a favor do diagnóstico. É um teste de consultório, simples, que dispensa aparelho.
Os exames de imagem têm papel restrito e seletivo. A ultrassonografia pode mostrar o espessamento da bainha e ajudar a guiar uma eventual infiltração. A radiografia entra quando há história de trauma, para afastar fratura, ou suspeita de artrose na base do polegar (rizartrose), que pode confundir-se com a De Quervain.
A ressonância raramente é necessária nesse contexto. O mais importante do exame é separar a tendinite de outras causas de dor no punho, porque cada uma muda a conduta.
| Hipótese | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Tenossinovite de De Quervain | Dor sobre o estiloide do rádio, no lado do polegar | Teste de Finkelstein positivo; piora ao pinçar e levantar peso |
| Rizartrose (artrose da base do polegar) | Dor na base do polegar, mais profunda | Piora ao fazer pinça forte; crepitação articular; mais comum após os 50 anos |
| Síndrome do túnel do carpo | Formigamento na palma e nos dedos | Dormência noturna em polegar, indicador e médio; sinais de compressão do nervo |
| Fratura do escafoide | Dor após queda sobre a mão estendida | Dor na “tabaqueira anatômica”; história de trauma; radiografia |
| Tendinite no antebraço | Dor mais acima, no ventre muscular | Dor proximal ao punho, que piora ao contrair contra resistência |
Quantos dias de atestado para tendinite no pulso
Depende do caso, e quem define é o médico que examina. Não existe um número fixo de dias de atestado para tendinite no pulso, porque o afastamento precisa fazer sentido para a profissão da pessoa, para o lado acometido (dominante ou não) e para a intensidade do quadro.
Em quadros leves, muitas vezes não é o afastamento total que resolve, e sim a modificação da atividade: trocar tarefas, reduzir a digitação, usar a órtese durante o trabalho e organizar pausas. Em quadros mais intensos, sobretudo quando a função exige uso forçado e repetido do punho, alguns dias de repouso relativo costumam ser indicados para tirar a carga do tendão na fase mais dolorosa. O objetivo do atestado, quando dado, é permitir que o tendão se acalme durante a fase mais reativa, o tempo suficiente para a órtese e a redução de carga começarem a agir.
O tempo de afastamento por tendinite no pulso é individual e definido na consulta, conforme a profissão, o lado acometido e a gravidade. Não há um número padrão, e o foco do tratamento é proteger o tendão para devolver a função com segurança, com retorno gradual às atividades.
Vale registrar um ponto: quando a tendinite tem relação com o trabalho (LER/DORT), o caso pode ter desdobramentos ocupacionais, e a documentação adequada importa. Mas a decisão clínica sobre repouso, retorno e adaptação de função é sempre médica, baseada no exame, e não em uma tabela genérica de dias.
Tratamento multimodal e não-cirúrgico

O tratamento da tendinite no pulso é multimodal, não-cirúrgico e individualizado, e começa por identificar qual compartimento dói, porque isso muda a órtese e o gesto a corrigir. A base é sempre a mesma: tirar carga do tendão e ajustar o movimento que o sobrecarrega; sobre essa base, somam-se recursos que controlam a dor e estimulam a recuperação do tecido. A meta é devolver ao tendão a capacidade de tolerar o uso do dia a dia e reduzir o risco de recidiva, sem cair na imobilização prolongada que enfraquece a região. A cirurgia (a liberação do compartimento) fica reservada a poucos casos refratários, descritos ao final.
Órtese e ajuste de atividade
Spica do polegar e correção do gesto que sobrecarrega o 1º compartimento: a base que alivia mais rápido.
Reabilitação e excêntrico
Exercício progressivo do punho e antebraço que devolve ao tendão a tolerância à carga e previne a recidiva.
Ondas de choque
Mecanotransdução sobre o tendão nos quadros arrastados que não cederam só com órtese e ajuste de carga.
Laser de alta intensidade
Fotobiomodulação adjuvante para dor e inflamação local enquanto o punho ainda não tolera o exercício.
Agulhamento e acupuntura
Trata o ponto-gatilho dos extensores e flexores do antebraço que mantêm a tensão sobre o tendão irritado.
Infiltração da bainha
Anestésico e, em casos selecionados, corticoide na bainha quando a dor é intensa e não cede à base.
Órtese e modificação de atividade: a base
- O que é
- A intervenção mais importante e a que costuma trazer alívio mais rápido: na De Quervain, uma órtese spica do polegar que imobiliza o polegar e o punho, somada à correção do gesto que sobrecarrega.
- Mecanismo
- Coloca o tendão em repouso relativo e reduz o atrito dentro da bainha, dando tempo para a irritação ceder; a modificação de atividade ataca a causa, ajustando como se segura o celular e o bebê, alternando tarefas e reorganizando o posto de trabalho.
- O que esperar
- Usada nas atividades que provocam dor e à noite, por algumas semanas, com alívio que costuma vir cedo.
- Limitações
- Imobilização relativa, não rígida nem permanente, para não enfraquecer a região; sem a mudança do gesto, qualquer outra terapia tende a ter efeito apenas temporário.
Ondas de choque
- O que é
- Terapia por ondas de choque extracorpóreas que aplica ondas acústicas de alta energia sobre o tendão.
- Mecanismo
- Mecanotransdução: o estímulo mecânico ativa a célula do tendão, favorece a neovascularização e a regeneração tecidual, além de um efeito analgésico próprio.
- Evidência
- Recurso com boa evidência em tendinopatias, útil sobretudo nos quadros mais arrastados, que não cederam só com órtese e ajuste de carga.
- O que esperar
- Em geral um ciclo de cerca de 3 a 5 sessões semanais, com melhora progressiva ao longo de semanas.
- Limitações
- Pode haver desconforto durante a aplicação, e há contraindicações específicas que o médico avalia.
Laser de alta intensidade
O laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação: a energia luminosa, em profundidade, estimula o metabolismo celular e tem efeito analgésico e anti-inflamatório sobre o tendão e a bainha irritados. Entra como adjuvante, somado à órtese e à reabilitação, sobretudo para controlar a dor e a inflamação local na fase em que o punho ainda não tolera bem o exercício. É aplicado em séries de sessões, com alívio que costuma ser progressivo, e não em uma aplicação isolada.
Agulhamento seco e acupuntura
A sobrecarga dos tendões do punho raramente vive sozinha: os músculos que os movem nascem no antebraço, e quando o gesto se repete demais essa musculatura encurta e desenvolve pontos-gatilho que somam dor e mantêm a tensão sobre os tendões irritados. No agulhamento seco, uma agulha fina é direcionada a esses pontos-gatilho nos extensores e flexores do antebraço, e não sobre a bainha inflamada do punho em si; a punção da banda tensa provoca a resposta de contração local e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, soltando a musculatura que tracionava o tendão. A acupuntura médica e a eletroacupuntura acrescentam uma camada de neuromodulação da dor, por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, ativação de vias inibitórias descendentes e liberação de opioides endógenos; entram quando se busca reduzir o uso de anti-inflamatório no membro superior.
É um recurso adjuvante: trata o componente miofascial do antebraço que acompanha a tendinite, mas não dispensa a órtese, o ajuste do gesto e o exercício, sem os quais a sobrecarga retorna ao tendão. O alívio costuma aparecer em poucos dias após a sessão, com leve dolorimento no local da punção que cede em um a dois dias.
Reabilitação e exercício excêntrico
Tirar carga do tendão acalma a dor, mas é o exercício progressivo que devolve a ele a capacidade de tolerar o uso. O eixo da reabilitação é o exercício excêntrico e o fortalecimento gradual da musculatura do punho e do antebraço: a carga controlada, bem dosada, estimula a remodelação do colágeno e prepara o tendão para o gesto do dia a dia. É a parte que previne a recidiva, porque um tendão apenas imobilizado fica frágil e volta a doer assim que a atividade retorna.
Na clínica, o atendimento de reabilitação é individual, com progressão ajustada à resposta de cada pessoa, e a terapia manual entra como adjuvante. O detalhamento da reabilitação ativa segue na próxima seção.
Infiltração em casos selecionados
Quando a dor é intensa e não cede ao tratamento de base, a infiltração da bainha do tendão com anestésico local e, em casos selecionados, corticoide, pode interromper o ciclo inflamatório e abrir uma janela para avançar a reabilitação. Pode ser guiada por ultrassom para maior precisão. É um recurso pontual, não um tratamento isolado, com efeito que costuma durar de semanas a alguns meses, sempre integrado ao ajuste de carga e ao exercício. A escolha do produto e da dose é do médico, e o detalhamento medicamentoso segue na seção própria.
Controle inicial
Órtese, ajuste do gesto que sobrecarrega, gelo e analgesia; reduzir a carga sobre o tendão na fase mais dolorosa.
Progressão
Terapias em clínica e início do exercício progressivo; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e consideram-se infiltração ou, raramente, avaliação cirúrgica.
A maioria dos casos de tendinite no pulso melhora com esse plano conservador bem conduzido ao longo de semanas. Para a maior parte das pessoas, o caminho é o oposto da cirurgia: proteger o tendão, modular a dor e reabilitar. As seções seguintes completam o quadro do tratamento: a reabilitação ativa (RPG, Pilates e fisioterapia), as opções cirúrgicas e fora da clínica reservadas aos casos refratários, e o detalhamento do tratamento medicamentoso.
Peço para o paciente apontar com um dedo. Antes de qualquer manobra, peço que aponte com a ponta do dedo o ponto que mais dói. Se ele aponta o lado do polegar sobre o estiloide do rádio, já penso em De Quervain; se aponta o dorso ou a palma do punho, penso nos extensores ou flexores. Esse gesto simples costuma definir o compartimento melhor do que muitos exames, e é o que orienta qual órtese pedir.
A órtese certa alivia rápido, e isso confunde. Quando a spica do polegar é bem ajustada e o gesto que sobrecarrega é corrigido, o alívio costuma vir em dias, e aí mora uma armadilha: a pessoa se sente curada e abandona o exercício. Repito sempre que o alívio inicial é da órtese tirando carga; o que segura o resultado é o fortalecimento do antebraço depois. Tendão só imobilizado volta a doer assim que a mão é usada de novo.
A pergunta que separa tendão de nervo. Sempre pergunto se há formigamento ou dormência nos dedos, principalmente à noite. Se há, desconfio do túnel do carpo, não da tendinite, e o caminho muda. Da mesma forma, dor mais funda na base do polegar ao fazer pinça forte me faz pensar em artrose (rizartrose), e dor após uma queda sobre a mão, em fratura do escafoide. São quadros que se vestem de “tendinite” e precisam ser separados antes de tratar.
A infiltração resolve casos teimosos, mas não é o primeiro passo. Numa tenossinovite que não cede à órtese e ao ajuste de carga, a infiltração da bainha com corticoide costuma abrir uma janela boa de alívio para avançar a reabilitação. O que explico é que ela é pontual e tem número limitado: repetir corticoide no mesmo tendão sem mudar o gesto que o sobrecarrega troca um problema por outro.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa é a coluna vertebral do tratamento da tendinite no pulso, e não um complemento opcional. A tenossinovite por sobrecarga melhora quando se restaura a capacidade do tendão de gerar e tolerar carga, e isso se faz com proteção inicial seguida de exercício terapêutico graduado, não com repouso prolongado, que enfraquece o tendão e prolonga o quadro. As abordagens abaixo são todas conduzidas na clínica, com atendimento individual, um paciente por sala, e se integram numa única estratégia, individualizada e não-cirúrgica. A escolha entre elas e a dose dependem da fase da dor, da apresentação clínica e da resposta a cada etapa.
Órtese e imobilização relativa do polegar e do punho
A órtese spica do polegar estabiliza polegar e punho em posição neutra, coloca o tendão e a bainha em repouso relativo e reduz o atrito do deslizamento dentro do 1º compartimento, baixando a sobrecarga que perpetua a irritação. Uso nas atividades que provocam dor e à noite, por algumas semanas. Imobilização relativa, não rígida nem permanente: o uso contínuo excessivo enfraquece a musculatura e o tendão, e por isso a órtese é retirada de forma progressiva à medida que o exercício avança.
Fisioterapia, cinesioterapia e terapia da mão
Exercício terapêutico dirigido ao punho, à mão e ao antebraço, em três alvos: dessensibilização ao movimento na fase dolorosa com mobilização precoce dentro da faixa sem dor para evitar rigidez; recuperação da amplitude do punho e do polegar; e ganho de controle motor da musculatura extrínseca do antebraço e intrínseca da mão, que redistribui a carga. Inclui correção dos fatores posturais do membro superior, do ombro à mão. Exige adesão e progressão correta de carga; feita rápido demais pode reagudizar, por isso a dose é ajustada pela resposta nas 24 horas seguintes.
Exercício progressivo e treino excêntrico
O núcleo da reabilitação: carga controlada e gradual ao tendão e à musculatura do antebraço, com ênfase no excêntrico, que ativa a célula do tendão e estimula a remodelação do colágeno. A progressão vai do isométrico na faixa sem dor ao concêntrico e excêntrico com carga, até gestos próximos aos da função e do trabalho. É a parte que devolve a função e previne a recidiva. Ganho progressivo que exige consistência; não substitui o ajuste do gesto que sobrecarrega, sem o qual a sobrecarga retorna.
RPG, reeducação postural global
Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas mantidas de alongamento ativo e contração isométrica e excêntrica. Na tendinite do punho, atua sobre a cadeia do membro superior: retrações do antebraço, do ombro e da região cervicoescapular alteram como a carga chega ao punho, e reequilibrá-las reduz a sobrecarga distal a cada gesto repetido. Evidência específica para tenossinovites é limitada e a magnitude varia; soma-se ao fortalecimento e ao controle motor, que permanecem a base, e não os substitui.
Pilates clínico
Exercício de controle motor e estabilização com finalidade terapêutica, no solo ou em aparelhos, supervisionado e adaptado ao quadro. Atua sobretudo na estabilização da cintura escapular e do tronco e no controle do membro superior sob carga leve, dando base mais estável ao gesto da mão e distribuindo melhor a carga ao longo do braço. Não dispensa o fortalecimento dirigido do antebraço e o treino excêntrico; é complemento qualificado, não atalho.
Terapia manual e ergonomia
Mobilização articular e de tecidos moles aplicada pelo terapeuta, somada à correção ergonômica do gesto. A terapia manual reduz a dor e melhora transitoriamente a mobilidade, abrindo janela para o exercício (efeito sobretudo neurofisiológico e de curto prazo). A ergonomia ataca a causa: punho neutro ao digitar, apoio do antebraço, ajuste de teclado e mouse, micropausas, e segurar o celular e erguer o bebê com as duas mãos em vez de pinçar com o polegar afastado. O efeito da terapia manual isolada é transitório; o ganho duradouro vem do exercício e do ajuste do gesto.
Ondas de choque no arsenal da clínica
Ondas acústicas de alta energia sobre o tendão, por mecanotransdução: o estímulo mecânico ativa a célula do tendão, favorece a neovascularização e a regeneração tecidual, com efeito analgésico próprio. Nas tenossinovites do punho é usada de forma seletiva, sobretudo nos casos que não cederam só com órtese e ajuste de carga. Em geral um ciclo de 3 a 5 sessões semanais. Pode haver desconforto durante a aplicação; há contraindicações específicas que o médico avalia, e o recurso soma-se à reabilitação ativa, não a substitui. O laser de alta intensidade, descrito na seção de tratamento da clínica, segue a mesma lógica de adjuvante físico.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Na grande maioria dos casos, a tendinite no pulso é uma tenossinovite por sobrecarga que responde ao tratamento conservador, e a cirurgia não faz parte do caminho; a cirurgia entra apenas nas situações de exceção descritas a seguir. Estas opções cirúrgicas não são realizadas em nossa clínica, cuja atuação é a medicina não-cirúrgica da dor e a reabilitação; quando indicadas, o cuidado é compartilhado com o cirurgião de mão.
Conservador · 1ª escolha
Caminho da maioria
- Órtese spica do polegar e modificação de atividade como base.
- Reabilitação ativa e exercício excêntrico progressivo.
- Ondas de choque, laser, agulhamento e, quando indicada, infiltração.
- Resolve a maioria dos casos ao longo de semanas, sem incisão.
Cirúrgico · exceção
Casos refratários
- Considerada só quando a dor persiste apesar de tratamento conservador completo e bem conduzido, em geral por vários meses.
- Ou em quadro recidivante que não se estabiliza com as medidas conservadoras.
- Decisão compartilhada, baseada na evolução clínica, não num achado de imagem isolado (o espessamento da bainha é comum).
- Não realizada em nossa clínica; cuidado compartilhado com o cirurgião de mão.
Quando se chega a esse ponto, na De Quervain o procedimento é a liberação cirúrgica do 1º compartimento extensor: uma pequena incisão sobre o estiloide do rádio abre o teto fibroso do túnel, descomprime a bainha e devolve o deslizamento livre aos tendões do abdutor longo e do extensor curto do polegar. É um procedimento ambulatorial, em geral sob anestesia local, com boas taxas de alívio nos casos bem selecionados. A recuperação envolve cuidado com a ferida, mobilização precoce e algumas semanas de reabilitação até o retorno pleno à função. Há riscos a considerar, como lesão do ramo sensitivo do nervo radial, formação de cicatriz dolorosa e, raramente, subluxação dos tendões, razões pelas quais a cirurgia fica reservada aos casos refratários e não é a primeira escolha.
Entre as opções fora da clínica que não são cirúrgicas, o encaminhamento ao cirurgião ou especialista em mão é o passo natural quando o quadro foge do esperado, recidiva ou há dúvida diagnóstica, para confirmar a hipótese e discutir a conduta. Quando a tendinite tem relação com o trabalho (LER/DORT), o cuidado também envolve a medicina do trabalho, com adequação ergonômica do posto e a documentação ocupacional adequada, que correm em paralelo ao tratamento clínico.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante na tendinite no pulso, nunca de protagonista. O que sobrecarregou o tendão foi a dose do gesto repetido, e isso se corrige com proteção, ajuste de atividade e reabilitação; nenhum remédio trata essa causa. A função do medicamento é controlar a dor da fase mais aguda para abrir espaço ao trabalho ativo.
A prescrição vem com dose e duração definidas pelo médico, atenta a efeitos adversos e comorbidades. As opções farmacológicas para dor musculoesquelética são detalhadas no guia de remédios para dor.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar e cautelas |
|---|---|---|---|
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Controlar a dor nas fases de maior incômodo | Moderada | Bom perfil de segurança em períodos curtos. |
| Anti-inflamatórios orais (ibuprofeno, naproxeno) | Aliviar a dor na fase mais aguda | Moderada | Apenas por períodos curtos; não devem virar uso contínuo, pelos riscos gastrointestinais, renais e cardiovasculares. |
| Anti-inflamatórios tópicos (diclofenaco em gel) | Dor local sobre o compartimento dolorido | Moderada | Opção útil por ser estrutura superficial: boa concentração local e menor exposição sistêmica. |
| Infiltração de corticoide na bainha | Dor importante na De Quervain que não cede à base | Forte | Efeito de semanas a alguns meses, nem sempre definitivo; número restrito por possível efeito deletério no tendão, atrofia ou despigmentação da pele. |
Analgésicos e anti-inflamatórios orais e tópicos
Os analgésicos simples, como o paracetamol e a dipirona, ajudam a controlar a dor nas fases de maior incômodo e têm bom perfil de segurança quando usados por períodos curtos. Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), como ibuprofeno ou naproxeno, podem aliviar a dor na fase mais aguda, porém por períodos curtos: não devem virar uso contínuo, pelos riscos gastrointestinais, renais e cardiovasculares. Os anti-inflamatórios tópicos, como o diclofenaco em gel aplicado sobre o compartimento dolorido, são uma opção útil na tendinite do punho, por ser uma estrutura superficial, com boa concentração local e menor exposição sistêmica. Há uma cautela específica: usar anti-inflamatório para mascarar a dor e seguir com o mesmo gesto repetido tende a prolongar a lesão de fundo, porque remove o sinal de alerta sem remover a sobrecarga.
Infiltração de corticoide na bainha
A infiltração de corticoide na bainha do tendão, associada a anestésico local, é a opção medicamentosa de maior impacto na De Quervain quando a dor é importante e não cede ao tratamento de base. Atua reduzindo a inflamação dentro do compartimento, interrompendo o ciclo inflamatório e abrindo uma janela para avançar a reabilitação; tem boa evidência de alívio na tenossinovite de De Quervain, em especial quando combinada com a órtese. Pode ser guiada por ultrassom para maior precisão na deposição dentro da bainha. O efeito costuma durar de semanas a alguns meses e nem sempre é definitivo.
Há limitações relevantes: infiltrações repetidas de corticoide associam-se a possível efeito deletério sobre o tendão, atrofia ou despigmentação da pele no local, e por isso o número é restrito e a indicação, criteriosa. A escolha do produto e da dose é do médico, e o recurso soma-se ao ajuste de carga e ao exercício, não os substitui.
Vale registrar que o manejo da tendinite do punho, por ser uma dor por sobrecarga, raramente envolve as classes usadas na dor crônica neuropática ou difusa; quando há um componente miofascial associado no antebraço, a estratégia preferencial é não farmacológica, com agulhamento e as demais técnicas já descritas, mantendo a farmacoterapia no papel de apoio pontual.
Como prevenir a recidiva
Como a tendinite no pulso nasce da sobrecarga, prevenir a volta passa por revisar o gesto que a causou. Algumas medidas simples reduzem o risco de recidiva, sobretudo em quem trabalha ao computador, usa muito o celular ou cuida de um bebê.
Ergonomia e pausas
Manter o punho neutro ao digitar, apoiar o antebraço, ajustar a altura do teclado e do mouse e fazer micropausas regulares. Segurar o celular com a mão toda, não só com o polegar.
Proteger o polegar
Erguer o bebê com as duas mãos e o punho neutro, em vez de “pinçar” com o polegar afastado, e alternar a posição nas mamadas. A órtese ajuda nas semanas de maior demanda.
Quando a dor for esportiva ou ligada a movimento de raquete, vale revisar a técnica e a empunhadura, da mesma forma que se faz na epicondilite lateral (cotovelo de tenista), outra lesão de sobrecarga do mesmo grupo. Manter a musculatura do antebraço forte e o gesto bem distribuído é o que dá ao tendão a folga para tolerar o uso sem inflamar de novo.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Quantos dias de atestado para tendinite no pulso?
Não existe um número padrão. O tempo de afastamento por tendinite no pulso é individual e definido pelo médico na consulta, conforme a profissão, o lado acometido e a intensidade do quadro. Em casos leves, muitas vezes a modificação de atividade e a órtese bastam; em casos mais intensos, alguns dias de repouso relativo podem ser indicados para tirar a carga do tendão. A decisão é sempre clínica.
Tendinite no pulso e tendinite no punho são a mesma coisa?
Sim. “Pulso” e “punho” são nomes populares para a mesma região, a articulação entre a mão e o antebraço. Tendinite no pulso e tendinite no punho descrevem o mesmo quadro: a irritação dos tendões que cruzam essa articulação, em geral uma tenossinovite por esforço repetitivo.
Como saber se é tendinite de De Quervain?
O quadro típico é dor no lado do polegar, sobre o punho, que piora ao pinçar, segurar e levantar peso. O exame usa o teste de Finkelstein: ao dobrar o polegar dentro da mão e inclinar o punho para o lado do dedo mínimo, surge a dor característica. O diagnóstico é clínico e deve ser confirmado em consulta, que também afasta outras causas como rizartrose e síndrome do túnel do carpo.
Existem fotos de tendinite no pulso? O que se vê?
Na maioria das vezes não há nada visível por fora. Em quadros mais intensos pode haver um leve inchaço sobre o lado do polegar ou no dorso do punho, e às vezes uma sensação de ranger fino ao mover. Mas a tenossinovite costuma doer sem deformar nem inchar de forma evidente, por isso o diagnóstico é feito pelo exame, e não por uma imagem.
Tendinite no pulso tem cura ou volta sempre?
A maioria dos casos melhora bem com tratamento conservador. Como é uma lesão de sobrecarga, ela pode retornar se o gesto que a causou não for ajustado. Por isso o tratamento não termina no alívio da dor: a reabilitação e a correção da ergonomia e do gesto são o que reduz o risco de recidiva. Quem volta ao mesmo movimento sem mudar nada tende a recidivar; quem ajusta o gesto e fortalece o antebraço costuma ficar bem de forma duradoura.
Posso continuar trabalhando e usando o celular com tendinite no pulso?
Depende da intensidade. Em quadros leves, a chave costuma ser a modificação de atividade: usar a órtese, fazer pausas, ajustar a forma de segurar o celular e alternar tarefas. Em quadros mais intensos, pode ser necessário reduzir ou afastar temporariamente o uso forçado do punho, conforme orientação médica. Manter o gesto sobrecarregando o tendão tende a prolongar a recuperação.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Ferrara PE; Codazza S; Cerulli S; Maccauro G; Ferriero G; Ronconi G. Physical modalities for the conservative treatment of wrist and hand's tenosynovitis: A systematic review. Seminars in arthritis and rheumatism. 2020. doi:10.1016/j.semarthrit.2020.08.006. PMID:33065423.
- Challoumas D; Ramasubbu R; Rooney E; Seymour-Jackson E; Putti A; Millar NL. Management of de Quervain Tenosynovitis: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. JAMA network open. 2023. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.37001. PMID:37889490.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A escolha da órtese, da dose de carga na reabilitação e da eventual infiltração depende de qual compartimento do punho está acometido e da intensidade do quadro, e por isso precisa ser individualizada no exame.
