Tendinopatia de De Quervain: causas, sintomas e tratamento
A De Quervain é a tendinopatia dos tendões que abrem o polegar, com dor na base do polegar e teste de Finkelstein positivo. Quase sempre melhora sem cirurgia, com órtese e reabilitação.
- De Quervain é a tendinopatia dos tendões do abdutor longo e do extensor curto do polegar, que ficam apertados e irritados na bainha do primeiro compartimento do punho. A dor é na base do polegar, do lado do rádio.
- É mais comum em quem repete o gesto de pinça e de desvio do punho, e tem um pico conhecido no pós-parto, ao pegar o bebê no colo. Por isso é chamada, popularmente, de “punho das mães”.
- Tem cura na maioria dos casos e o tratamento é, em primeiro lugar, não-cirúrgico: ajuste de carga e ergonomia, órtese do polegar, reabilitação e, conforme a resposta, infiltração da bainha, agulhamento seco, acupuntura e ondas de choque. A cirurgia fica para os casos refratários.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é a tenossinovite de De Quervain
A tendinopatia, ou tenossinovite, de De Quervain é a irritação dolorosa de dois tendões do polegar onde eles cruzam a borda do punho. Esses tendões correm dentro de um túnel fibroso estreito, o primeiro compartimento extensor, e quando deslizam mal por ali surgem dor e dificuldade para usar a mão.
Os dois tendões envolvidos são o do abdutor longo do polegar e o do extensor curto do polegar. Juntos, eles afastam o polegar da palma e o levam para cima. No trajeto até o polegar, passam por uma polia, uma espécie de túnel revestido por uma bainha sinovial, sobre a apófise estiloide do rádio, o relevo ósseo que você sente na borda do punho do lado do polegar. Cada vez que você abre o polegar ou desvia o punho, esses tendões deslizam dentro desse túnel.
Na De Quervain, esse deslizamento se torna doloroso. O nome “tenossinovite” sugere inflamação da bainha, mas o que se vê nos casos crônicos é, em boa parte, uma tendinopatia: a parede do túnel engrossa, fica fibrosada e mais espessa, o espaço interno diminui e os tendões passam apertados, com atrito. Há um componente inflamatório, sobretudo no início e na forma do pós-parto, mas o substrato dominante é mecânico e degenerativo, não uma inflamação clássica. Essa distinção tem consequência prática: explica por que repouso e anti-inflamatório isolados resolvem pouco e por que a base do tratamento é tirar carga do tendão e reabilitá-lo.
De Quervain não é “tendão inflamado” no sentido simples. É um túnel que ficou estreito para dois tendões do polegar, e o tratamento que funciona é o que reduz a carga e devolve o deslizamento, não apenas o que combate a inflamação.
Por que aparece: o gesto de pinça e o pós-parto
O mecanismo central é a sobrecarga por repetição. Movimentos que combinam a pinça do polegar com o desvio do punho para o lado do dedo mínimo, repetidos ao longo do dia, somam microtrauma sobre o primeiro compartimento. Com o tempo, a bainha responde engrossando, o atrito aumenta e a dor se instala. Não é preciso um único trauma; é o acúmulo de pequenas cargas que excede a capacidade do tendão de se adaptar.
Há um gatilho clássico e bem reconhecido: o pós-parto e os primeiros meses cuidando do bebê. O gesto de erguer a criança com as mãos em concha, polegares afastados sustentando a cabeça, repetido dezenas de vezes ao dia, é exatamente o movimento que sobrecarrega esses tendões. Soma-se a isso o componente hormonal e a retenção de líquido do puerpério, que tornam as bainhas mais suscetíveis. Por essa associação, o quadro ganhou o apelido de “punho das mães” ou “tendinite das mamães”, embora não dependa de amamentação e possa surgir em quem cuida do bebê sem ter dado à luz.
Fora do puerpério, a lista de gatilhos acompanha a vida moderna e o trabalho. O uso intenso do polegar no celular, ao digitar e rolar a tela, é causa crescente. Profissões e atividades que repetem a pinça e a preensão, de cabeleireiros e cozinheiros a quem usa tesoura, parafusadeira, instrumentos musicais ou passa horas ao teclado e ao mouse, também predispõem. Há ainda fatores que aumentam o risco de tendinopatias em geral: diabetes, doenças reumatológicas inflamatórias e alterações hormonais.
- Pós-parto. Erguer o bebê com o polegar afastado, muitas vezes ao dia, é o gatilho mais típico.
- Pinça repetida. Pegar, segurar e torcer com o polegar, no trabalho ou no lazer, sobrecarrega o compartimento.
- Polegar no celular. Digitar e rolar a tela por longos períodos é causa crescente em adultos jovens.
- Fatores de base. Diabetes, doenças inflamatórias e mudanças hormonais aumentam a suscetibilidade.
Sintomas e o teste de Finkelstein
O sintoma principal é a dor na base do polegar e na borda do punho do lado do rádio, justamente sobre a estiloide. A dor costuma piorar quando se pega um objeto com força, ao espremer ou torcer (abrir uma tampa, espremer uma fruta), ao levantar peso com o punho desviado e ao erguer a criança. Muitas pessoas relatam que a dor irradia para cima, em direção ao antebraço, ou para baixo, em direção ao polegar.
Outros achados ajudam a reconhecer o quadro. Pode haver inchaço local sobre a estiloide do rádio, às vezes com a sensação de um pequeno nódulo, e uma crepitação, um ranger fino, quando se move o polegar. Em casos mais avançados, surge a sensação de travamento ou de que o polegar “engata” ao se movimentar. A força de pinça diminui pela dor, e gestos simples do dia a dia passam a ser evitados.
O exame que sela a suspeita é o teste de Finkelstein. A pessoa fecha a mão com o polegar por dentro dos outros dedos e, em seguida, inclina o punho para o lado do dedo mínimo (desvio ulnar). Quando isso reproduz uma dor aguda sobre o primeiro compartimento, na borda do punho, o teste é positivo e fala fortemente a favor de De Quervain. É um teste clínico simples, que pode ser feito na consulta, e costuma bastar, com a história, para o diagnóstico.
- Feche a mão sobre o polegar
O polegar fica dobrado dentro da palma, envolvido pelos outros dedos.
- Incline o punho para o lado do mínimo
O desvio ulnar estica os tendões do primeiro compartimento.
- Observe onde dói
Dor aguda na borda do punho, do lado do polegar, sugere De Quervain.
Na prática, o relato de uma mãe que sente dor na borda do punho ao tirar o bebê do berço, com Finkelstein positivo, é tão característico que o diagnóstico se faz à beira do leito. A imagem entra para casos atípicos ou para afastar outras causas, não como rotina.
Diagnóstico e o que pode ser confundido
O diagnóstico de De Quervain é clínico: a história típica somada à dor localizada sobre o primeiro compartimento e ao teste de Finkelstein positivo costuma ser suficiente. Exames de imagem não são necessários na maioria dos casos. A ultrassonografia pode confirmar o espessamento da bainha e ajudar quando há dúvida ou quando se planeja uma infiltração guiada; a radiografia serve sobretudo para afastar artrose da base do polegar, que entra no diagnóstico diferencial.
Vale diferenciar de outras causas de dor no mesmo lado do punho e da mão, porque o tratamento muda. A rizartrose (artrose da articulação trapézio-metacarpal, na base do polegar) também dói ao pinçar, mas a dor é mais profunda, na junta, e piora ao apertar a pinça contra resistência. A síndrome do túnel do carpo dá dormência e formigamento nos dedos, em geral à noite, um sintoma neurológico que De Quervain não causa.
A artrose do punho e a tendinopatia de outros compartimentos completam o leque. Por isso a dor de punho merece avaliação dirigida, abordada também no guia sobre dor constante no pulso.
| Quadro | Onde dói | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| De Quervain | Borda do punho, base do polegar, sobre a estiloide do rádio | Teste de Finkelstein positivo; piora ao pinçar e desviar o punho |
| Rizartrose | Na junta da base do polegar, mais profundo | Dor na articulação ao apertar a pinça; crepitação articular; vista na radiografia |
| Túnel do carpo | Palma e dedos (polegar, indicador, médio) | Dormência e formigamento, pioram à noite; sintoma neurológico, ver página dedicada |
| Tenossinovite de outros tendões | Outros pontos do punho e do dorso da mão | Dor segue o trajeto de outro tendão; ver o quadro geral de tenossinovite |
| Artrose do punho | Punho de forma mais difusa | Rigidez, dor ao apoiar e girar; alterações na radiografia |
Para entender o mecanismo comum a todas as tenossinovites, a inflamação ou o espessamento da bainha que reveste um tendão, vale a leitura do texto base sobre o que é tenossinovite. De Quervain é a forma mais conhecida dessa família, mas o princípio do tratamento, reduzir carga e recuperar o deslizamento, se repete nas demais.
Sinais de alerta
De Quervain é uma condição benigna e tratável. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, porque sugerem outra causa ou uma complicação. Procure atendimento se notar qualquer um destes:
Não trate por conta própria se houver
- Vermelhidão importante, calor e inchaço que aumentam rápido, com febre, que podem indicar infecção da bainha.
- Dormência, formigamento ou fraqueza nos dedos, que apontam para envolvimento de um nervo, não apenas do tendão.
- Dor após queda ou trauma direto no punho, com deformidade ou impossibilidade de mover, pela possibilidade de fratura.
- Dor em várias articulações ao mesmo tempo, rigidez matinal prolongada ou inchaço de outras juntas, que levantam doença reumatológica.
- Quadro que não melhora nada após semanas de tratamento bem conduzido, ou que piora de forma progressiva.
Na ausência desses sinais, a tendinopatia de De Quervain costuma responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas, sem necessidade de exames de urgência ou de cirurgia.
Tratamento na clínica: o caminho sem cirurgia
O tratamento da De Quervain é multimodal, individualizado e, na grande maioria dos casos, não-cirúrgico. Como o problema é um tendão sobrecarregado num túnel estreito, o primeiro passo é tirar a carga que mantém a irritação e, ao mesmo tempo, recuperar a capacidade do tendão de tolerar o uso. Sobre essa base, detalhada na seção de reabilitação, somam-se as técnicas conduzidas em consultório, da infiltração da bainha às ondas de choque, conforme a intensidade e a resposta. A cirurgia, abordada em seção própria, é reservada aos casos que não cedem.
Órtese em espica e ajuste de carga
Tala que poupa o 1º compartimento mais a modificação do gesto de pinça que dispara a dor; a medida que mais muda o curso.
Terapia da mão e exercício
Carga progressiva do abdutor longo e do extensor curto do polegar para devolver força e tolerância; sustenta o resultado.
Infiltração da bainha com corticoide
Injeção no 1º compartimento, em geral guiada por ultrassom; alto rendimento em quadros sintomáticos, inclusive no pós-parto.
Agulhamento seco do antebraço
Trata os pontos-gatilho do abdutor longo, extensor curto, braquiorradial e extensores radiais que orbitam o quadro.
Acupuntura e eletroacupuntura
Camada de analgesia situacional, útil na grávida e na puérpera que amamenta ou para reduzir o anti-inflamatório.
Ondas de choque
Recurso adjuvante em quadros arrastados; campo de melhor evidência nas tendinopatias, menor na De Quervain específica.
Infiltração da bainha com corticoide
- O que é
- Injeção de um corticoide, em geral associado a anestésico local, dentro da bainha que reveste os tendões do primeiro compartimento, com frequência guiada por ultrassom para precisão.
- Mecanismo
- O corticoide reduz a inflamação e o edema dentro do túnel apertado, diminuindo o atrito e a dor e abrindo uma janela para a reabilitação avançar.
- Evidência
- Forte Uma das intervenções com melhor resposta na De Quervain, com altas taxas de alívio, sobretudo combinada com órtese; frequentemente opção de escolha em quadros mais sintomáticos, inclusive no pós-parto, com técnica e cuidado adequados.
- O que esperar
- O alívio costuma vir em poucos dias. Pode haver dor local transitória após a aplicação e, em peles mais escuras, despigmentação no ponto da injeção.
- Limitações
- O número de aplicações é limitado e definido pelo médico, porque infiltrações repetidas têm seus próprios riscos; a infiltração não dispensa o ajuste de carga e a reabilitação que sustentam o resultado.
Agulhamento seco dos pontos-gatilho do antebraço
A De Quervain raramente vem sozinha. A musculatura do antebraço que comanda o polegar, o abdutor longo e o extensor curto na sua origem, mais o braquiorradial e os extensores radiais do punho, costuma estar tensa e cheia de pontos-gatilho que doem à palpação e mantêm o gesto de pinça sobrecarregando o primeiro compartimento. Esse é o componente miofascial que se soma à tendinopatia da bainha.
- O que é
- Introdução de uma agulha fina e sólida nessas bandas tensas do antebraço, sem injetar substância, para tratar a dor referida que orbita o quadro.
- Mecanismo
- Ao atingir o ponto-gatilho, a agulha desencadeia a contração reflexa da banda, reduz a hiperatividade da placa motora e a concentração local de mediadores que sensibilizam a região, soltando a tensão que estava puxando contra os tendões do polegar.
- Evidência
- Moderada A técnica tem suporte para dor miofascial.
- O que esperar
- Costuma soltar a musculatura do antebraço e baixar a dor referida em uma a três sessões; pode deixar a região dolorida por um ou dois dias.
- Limitações
- Trata o overlay miofascial do antebraço, não o estreitamento do túnel; é adjuvante à órtese, ao ajuste do gesto e, quando indicada, à infiltração da bainha, que continuam sendo o que muda o curso.
Acupuntura médica, eletroacupuntura e ondas de choque
A acupuntura tem papel coadjuvante e situacional: é útil quando a dor do punho persiste apesar das medidas de base, quando se quer reduzir o anti-inflamatório, ou na grávida e na puérpera que amamenta, em que limitar fármaco e adiar a infiltração tem valor. Agulhas em pontos do antebraço, do punho e a distância modulam a dor pelo corno dorsal da medula no segmento que inerva a mão, recrutam as vias inibitórias descendentes e liberam opioides endógenos; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência tende a ativar mais esses circuitos. Há suporte para o controle de dores musculoesqueléticas; na De Quervain o uso é por extensão desse benefício, como camada de analgesia, não como tratamento do estreitamento do túnel.
Não corrige a estenose do compartimento; se a dor é intensa e o caso é claro, a infiltração resolve mais rápido. Na clínica é praticada por médicos com formação na área.
As ondas de choque extracorpóreas têm seu campo de melhor evidência nas tendinopatias, o que as torna uma opção a considerar em quadros mais arrastados. Ondas acústicas de energia aplicadas sobre o tecido estimulam a mecanotransdução, a neovascularização e a regeneração tecidual, com efeito analgésico associado. São bem estabelecidas na tendinopatia calcária do ombro, na patelar, na aquileia, na epicondilite e na fascite plantar; na De Quervain entram como recurso adjuvante em casos selecionados que não respondem bem às medidas de base, em um ciclo de algumas sessões semanais, com melhora ao longo de semanas e desconforto durante a aplicação. A evidência específica na De Quervain é menor que nas tendinopatias clássicas, e a técnica entra como adjuvante, não como medida isolada.
Controle inicial
Reduzir os gestos que doem, iniciar a órtese nas atividades de risco e à noite e, se preciso, analgesia de curto prazo.
Progressão
Introdução e progressão dos exercícios, técnicas em clínica conforme a resposta; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, considera-se infiltração (se ainda não feita), ondas de choque ou, em último caso, avaliação cirúrgica.
A meta é clara: reduzir a dor a um nível que não limite o uso da mão e devolver a força da pinça para as tarefas do dia a dia, do trabalho ao cuidado com o bebê. Acompanho a resposta pela intensidade da dor e pela recuperação da função. Quando a melhora não vem no ritmo esperado, reviso o que está sendo feito, em vez de só repetir o mesmo plano: confirmo a adesão à órtese e à modificação do gesto, reconsidero a infiltração da bainha se ela ainda não foi tentada, e só então penso em escalonar.
Observações de consultório:
O quadro tem uma assinatura que poucas dores de punho têm. A pessoa aponta com um dedo a borda do punho, do lado do polegar, exatamente sobre a estiloide do rádio, e o teste de Finkelstein reproduz a dor de imediato. Quando vem uma mãe ou um pai com bebê de poucos meses, ou alguém que passou a usar muito o polegar no celular, e a dor é nesse ponto, a De Quervain já é a primeira hipótese antes mesmo do exame.
O que mais surpreende quem chega é o quanto a infiltração de corticoide na bainha pode resolver. Em casos claros, costuma ser a medida de maior rendimento, com alívio em poucos dias, e em muitos a dor não volta na mesma intensidade depois de uma única aplicação somada à órtese em espica e ao ajuste do gesto. A expectativa de quem vem é a de meses de fisioterapia; a realidade, em quadros bem selecionados, costuma ser mais simples.
O erro que evito é confundir com a artrose da base do polegar (rizartrose). As duas doem ao pinçar, mas a dor da rizartrose é mais baixa e mais profunda, na própria junta, e o Finkelstein é negativo; tratá-la como De Quervain, com órtese e infiltração da bainha, não resolve, porque o problema está na articulação, não no túnel dos tendões.
A De Quervain é uma das poucas tendinopatias com um atalho de fato eficaz. Uma infiltração de corticoide bem aplicada no primeiro compartimento resolve uma fração grande dos casos claros, com frequência como primeira linha junto da órtese em espica, em vez de meses de tratamento escalonado. E o que separa a De Quervain da artrose do polegar, que se trata de outro jeito, são duas pistas: o teste de Finkelstein e a localização da dor sobre a estiloide do rádio, não na base do polegar.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa, somada ao ajuste de carga e à órtese, é o eixo que muda o curso da De Quervain e reduz a recorrência. As técnicas em consultório aliviam e abrem janela, mas é o trabalho ativo, devolver ao tendão a tolerância à carga e reeducar o gesto de pinça, que sustenta o resultado depois que a fase aguda cede. Por isso a órtese, a terapia da mão, a cinesioterapia, a reeducação postural e o Pilates clínico não são “complemento opcional”, e sim a base do tratamento conservador.
Na clínica, o programa é individualizado, um paciente por sala, e a resposta se constrói ao longo de semanas. A lógica é a do tendão: tirar o microtrauma repetido, recuperar a capacidade de deslizar sem dor e, só então, recarregar de forma progressiva.
Órtese em espica do polegar e modificação de atividade
Tala que imobiliza polegar e punho na posição que poupa o primeiro compartimento (dedos livres), somada à mudança dirigida dos gestos que sobrecarregam o tendão. Ao limitar o desvio do punho e a abertura do polegar, reduz o deslizamento doloroso e o atrito no túnel; ao reorganizar o gesto, retira o microtrauma repetido. Na prática: erguer o bebê apoiado no antebraço com punho neutro em vez de afastar o polegar, reorganizar o posto de trabalho, reduzir o polegar no celular e alternar tarefas de pinça contínua. Usada mais nas primeiras semanas, sobretudo nas atividades que doem e à noite, e retirada à medida que a dor cede. Imobilizar indefinidamente enfraquece a musculatura e atrasa a recuperação: é ponte para o exercício, não tratamento permanente.
Terapia da mão e exercício progressivo
Reabilitação ativa conduzida por fisioterapeuta ou terapeuta da mão, com exercício graduado, terapia manual adjuvante e treino do gesto funcional. A carga progressiva do abdutor longo e do extensor curto do polegar estimula a adaptação do tecido e melhora como o polegar e o punho distribuem a força; somam-se mobilidade do punho, alongamento suave e correção dos padrões de movimento. O exercício orientado é a base do tratamento das tendinopatias, com benefício consistente sobre dor e função. Indicado em praticamente todos os casos, da fase de alívio à reintrodução das tarefas que doíam. Exige adesão e prática domiciliar; progredir carga cedo demais reacende a dor.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trabalha o corpo em cadeias musculares, por posturas de alongamento ativo mantidas. O punho e o polegar integram a cadeia do membro superior que vem do pescoço e da cintura escapular; a contração isométrica e o alongamento sustentado aliviam a tensão do antebraço e melhoram o alinhamento de ombro, cotovelo e punho que distribui a carga na pinça. A evidência específica na De Quervain é indireta, derivada do benefício da correção postural e do exercício, por isso entra como abordagem complementar. Indicada quando há componente postural e tensão da cadeia cervical e do ombro associada ao uso da mão. Não é tratamento da dor aguda; o efeito se constrói com regularidade.
Pilates clínico e controle motor
Exercício terapêutico de controle motor e estabilização, conduzido por fisioterapeuta, com foco no core, na cintura escapular e na postura do membro superior. Melhora a estabilização escapulotorácica e o controle do ombro e do punho, reduzindo a sobrecarga da cadeia que termina na pinça do polegar. A evidência direta na De Quervain é indireta, derivada do benefício do exercício e da correção postural. Indicado para manutenção, condicionamento e correção postural, sobretudo em quem combina uso intenso da mão com pouca estabilidade da cintura escapular. É parte do plano de reabilitação e prevenção, não um tratamento isolado da dor aguda.
Na clínica, a reabilitação é conduzida de forma individualizada e integrada às técnicas médicas (infiltração, agulhamento seco, acupuntura e ondas de choque descritas acima). O objetivo vai além de passar a dor da crise: é mudar o padrão de carga que sobrecarrega os tendões do polegar, para que o quadro não volte assim que a mão retomar o uso de antes.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Para completar o quadro: a grande maioria dos casos de De Quervain resolve com tratamento conservador, e a cirurgia tem papel pequeno e bem delimitado. Ela é reservada aos casos refratários, isto é, quem não melhora após um tratamento conservador completo e bem conduzido, incluindo órtese, modificação de atividade, reabilitação e, em geral, ao menos uma infiltração de corticoide na bainha. As opções abaixo são apresentadas para dar o panorama completo e indicar quando procurá-las; o procedimento cirúrgico não é realizado em nossa clínica e cabe ao cirurgião de mão ou ortopedista.
Conservador · 1ª escolha
O que resolve a grande maioria
- Órtese em espica do polegar e modificação do gesto de pinça
- Terapia da mão e exercício progressivo do abdutor longo e do extensor curto
- Infiltração de corticoide na bainha do 1º compartimento, de alto rendimento
- Agulhamento seco, acupuntura e ondas de choque conforme a resposta
- Sem incisão; preserva o ramo sensitivo do nervo radial por não abordá-lo
Cirúrgico · exceção
Liberação do 1º compartimento extensor
- Indicada só após conservador completo e, em geral, ao menos uma infiltração bem indicada
- Pequena incisão sobre a estiloide do rádio abre o teto do túnel fibroso e devolve espaço ao deslizamento dos tendões
- Em geral sob anestesia local, em regime ambulatorial, com boas taxas de resolução da dor
- Risco principal: proximidade do ramo sensitivo do nervo radial, que precisa ser preservado para evitar dormência; além de cicatriz
- Reconhecer e abrir um eventual septo do subcompartimento do abdutor longo é parte da técnica, sob pena de manter dor
- Conduzida por cirurgião de mão ou ortopedista, fora da nossa clínica
Mesmo quando indicada, a cirurgia não dispensa a reabilitação: a recuperação da força de pinça e da mobilidade do punho, além do ajuste do gesto que sobrecarregava o tendão, continuam necessários depois do procedimento, com retorno gradual às atividades em algumas semanas após a cicatrização. A decisão é compartilhada entre paciente e equipe, depois de esgotadas as opções não-cirúrgicas, porque a grande maioria das pessoas resolve o quadro sem operar.
Tratamento medicamentoso
No tratamento medicamentoso da De Quervain é preciso separar dois papéis. A infiltração de corticoide na bainha do primeiro compartimento é uma intervenção de primeira linha com alta eficácia, descrita em detalhe na seção de tratamento em clínica; é o medicamento que de fato muda o curso em quadros mais sintomáticos. Já os medicamentos por via oral ou tópica têm papel adjuvante: aliviam a dor e abrem espaço para a reabilitação, mas não corrigem o estreitamento do túnel nem dispensam a órtese e o ajuste de carga. A escolha, a dose e a duração cabem exclusivamente ao médico, com atenção a efeitos adversos, interações, comorbidades e à amamentação no caso das mães.
| Classe | Quando se usa | Evidência | Mecanismo e limites |
|---|---|---|---|
| Corticoide injetável na bainha (infiltração do 1º compartimento) | Dor intensa ou que não cede às medidas iniciais; opção de escolha em quadros sintomáticos, inclusive no pós-parto | Forte | Reduz a inflamação e o edema dentro do túnel apertado, diminuindo o atrito e a dor; das intervenções com melhor resposta na De Quervain, sobretudo combinada com órtese. Número de aplicações limitado; pode causar dor local transitória e despigmentação da pele. |
| Anti-inflamatórios não esteroides orais (ibuprofeno, naproxeno) e analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Fase aguda de dor, por períodos curtos | Moderada | Reduzem dor e o componente inflamatório; uso curto pelo risco gástrico, renal e cardiovascular dos anti-inflamatórios. Aliviam o sintoma, não corrigem o estreitamento do túnel. |
| Anti-inflamatório tópico (diclofenaco em gel) | Dor localizada, como alternativa ou complemento à via oral | Moderada | Ação local sobre a região dolorosa com menos efeitos sistêmicos; útil quando se quer evitar o anti-inflamatório oral. Efeito adjuvante, aplicado sobre a pele íntegra. |
Na prática, em quadros mais sintomáticos a infiltração de corticoide bem indicada costuma ser o passo medicamentoso de maior rendimento, com alívio em poucos dias e abrindo janela para a reabilitação avançar. Os anti-inflamatórios e analgésicos, orais ou tópicos, servem para a fase aguda, em curso curto, como ponte para as medidas que mudam o curso, a órtese, o ajuste de carga e o exercício. Não há indicação de relaxante muscular ou de antibiótico na De Quervain comum; o antibiótico só entra na suspeita de infecção da bainha, um cenário diferente, listado nos sinais de alerta. Acima de tudo, exceto pela infiltração, o medicamento é uma ponte para a reabilitação, e não o tratamento em si.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
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Perguntas frequentes
Tendinite de De Quervain tem cura?
Na grande maioria dos casos, sim. Com ajuste de carga, órtese em espica do polegar, reabilitação e, quando preciso, infiltração de corticoide na bainha, o quadro costuma se resolver sem cirurgia, e em quadros claros a infiltração resolve uma boa parte deles. A chave é reduzir o gesto que sobrecarrega o tendão e recuperar a tolerância à carga; sem isso, a dor tende a voltar.
Qual anti-inflamatório é usado para a tenossinovite de De Quervain?
Anti-inflamatórios não esteroidais por via oral (ibuprofeno ou naproxeno) ou tópicos (como o diclofenaco em gel) podem ser usados por curtos períodos para controlar a dor da fase aguda, sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico. Eles aliviam o sintoma, mas não substituem a órtese, o ajuste de carga e a reabilitação. Mesmo medicamentos de venda livre têm contraindicações, e há cuidado adicional na amamentação.
O que é o teste de Finkelstein?
É a manobra clássica para suspeitar de De Quervain. A pessoa fecha a mão com o polegar por dentro dos outros dedos e inclina o punho para o lado do dedo mínimo. Se isso reproduz uma dor aguda sobre a borda do punho, do lado do polegar, o teste é positivo e fala a favor da tendinopatia do primeiro compartimento. É um teste clínico simples, feito na consulta.
Por que De Quervain aparece tanto no pós-parto?
Porque erguer o bebê com as mãos em concha, polegares afastados sustentando a cabeça, repete dezenas de vezes ao dia o exato movimento que sobrecarrega esses tendões. Somam-se as alterações hormonais e a retenção de líquido do puerpério, que tornam as bainhas mais suscetíveis. Por essa associação, o quadro é apelidado de “punho das mães”. Ajustar o modo de pegar a criança, apoiando-a no antebraço com o punho neutro, faz parte do tratamento.
Preciso de cirurgia para De Quervain?
Quase nunca. A cirurgia é reservada a casos refratários, que não melhoram após tratamento conservador completo e bem conduzido, incluindo órtese, reabilitação e, em geral, ao menos uma infiltração. O procedimento abre o teto do primeiro compartimento e tem bons resultados, mas é uma etapa final. A maioria das pessoas resolve o quadro sem operar.
Qual o CID da tendinite de De Quervain?
A tenossinovite de De Quervain corresponde ao código M65.4 na CID-10. O código é uma referência administrativa e de registro; o que orienta o tratamento é a avaliação clínica do seu caso, não o número do diagnóstico.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Huisstede BM; Coert JH; Fridén J; Hoogvliet P; European HANDGUIDE Group. Consensus on a multidisciplinary treatment guideline for de Quervain disease: results from the European HANDGUIDE study. Physical therapy. 2014. doi:10.2522/ptj.20130069. PMID:24700135.
- Challoumas D; Ramasubbu R; Rooney E; Seymour-Jackson E; Putti A; Millar NL. Management of de Quervain Tenosynovitis: A Systematic Review and Network Meta-Analysis. JAMA network open. 2023. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.37001. PMID:37889490.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A indicação de órtese, da infiltração da bainha do primeiro compartimento ou de qualquer outra medida na De Quervain depende do exame da sua mão e deve ser individualizada, ainda mais na gestação e na amamentação.
