Venlafaxina para dor
A venlafaxina é um antidepressivo IRSN às vezes discutido na dor crônica neuropática.
- A venlafaxina é um antidepressivo inibidor de recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN). Na dor, ela pode ser discutida em alguns quadros de dor crônica com componente neuropático, e em situações em que ansiedade, humor, sono e dor se amplificam mutuamente. Não é analgésico de crise.
- A dose usada para o efeito sobre a dor é maior que a dose mínima antidepressiva, porque o componente noradrenérgico, que importa para a analgesia, só aparece de forma consistente em doses mais altas. O alívio é gradual e construído ao longo de semanas, não imediato.
- Funciona para parte das pessoas, não para todas, e o alívio costuma ser parcial. Exige acompanhamento de pressão arterial (que pode subir nas doses maiores), atenção a náusea, insônia ou sonolência e sudorese, e nunca deve ser suspensa de forma abrupta, pelo risco de sintomas de descontinuação.
- É medicamento de prescrição: a indicação, a dose, os ajustes e a eventual retirada gradual são definidos pelo médico, dentro de um plano que trate a causa da dor. Na dor neuropática, a duloxetina, outro IRSN, costuma ter evidência mais robusta.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Para que serve a venlafaxina na dor

A venlafaxina nasceu e é mais conhecida como antidepressivo, mas a pergunta “venlafaxina para que serve” tem mais de uma resposta verdadeira. Na medicina da dor, ela pode ser uma das opções discutidas para quadros de dor crônica com componente neuropático, justamente porque pertence à mesma família dual (IRSN) da duloxetina, que tem papel firmado nesse tipo de dor.
Dor neuropática é a dor que nasce de uma lesão ou disfunção do próprio sistema que conduz a dor, seja o nervo periférico, seja as vias centrais. Tem uma assinatura reconhecível: queimação, choque elétrico, agulhadas, formigamento dolorido ou dor desproporcional ao toque. É diferente da dor que vem de um músculo ou de uma articulação inflamada e, por isso, responde mal aos analgésicos comuns e aos anti-inflamatórios, e melhor a medicamentos que agem sobre o próprio circuito da dor, como certos antidepressivos.
Nesse cenário, a venlafaxina pode entrar como alternativa em situações selecionadas: dor crônica com componente neuropático ou com sensibilização central plausível, e quadros em que ansiedade, humor, sono e dor se reforçam mutuamente. Quando a dor atrapalha o sono e o sono ruim, por sua vez, piora a dor e o humor, um medicamento que atue ao mesmo tempo sobre o circuito da dor e sobre o humor pode fazer sentido, desde que haja um plano de acompanhamento para resposta, pressão arterial, efeitos colaterais e retirada gradual se necessário.
Em dor musculoesquelética ou neuropática, a resposta ao medicamento é avaliada junto com a função. Dormir melhor, caminhar, sentar, trabalhar, dirigir, treinar, reduzir crises ou tolerar a reabilitação são metas mais objetivas do que dizer que a dor ficou menor por algumas horas.
Receber venlafaxina para dor não significa que o médico ache que a sua dor “é da cabeça” ou apenas emocional. Quando prescrita com essa finalidade, ela age sobre as mesmas vias que o corpo usa para frear a dor no nervo. O efeito sobre o humor e sobre a ansiedade pode somar quando esses fatores coexistem, mas o alvo, na dor, é o circuito doloroso, e não um diagnóstico psiquiátrico presumido.

Como age: o mecanismo na dor
Para entender por que um antidepressivo alivia a dor do nervo, é preciso lembrar que o corpo tem um sistema próprio para frear a dor. Do tronco encefálico descem vias inibitórias que usam dois mensageiros, a serotonina e a noradrenalina, para reduzir, na medula, a quantidade de sinal doloroso que sobe até o cérebro. É um freio natural e, na dor neuropática crônica, esse freio costuma estar enfraquecido.
Onde age
A venlafaxina atua nas vias inibitórias descendentes que partem do tronco encefálico em direção ao corno dorsal da medula — o mesmo eixo serotoninérgico-noradrenérgico que outros antidepressivos duais e os tricíclicos também reforçam.
O que faz
Bloqueia a recaptação de serotonina e de noradrenalina nas sinapses, aumentando a disponibilidade desses neurotransmissores nessas vias inibitórias.
Efeito clínico
Potencializa a modulação que diminui a transmissão da dor no corno dorsal — reforça o “freio” enfraquecido. É por isso que medicamentos pensados originalmente para o humor têm efeito sobre a dor neuropática.
Há um detalhe farmacológico que muda a prática: a venlafaxina tem ação dependente da dose. O mapa abaixo separa o que cada faixa de dose recruta e qual componente importa para a analgesia.
Os efeitos colaterais nascem do mesmo mecanismo. O reforço serotoninérgico pode causar náusea, alteração do sono e sudorese; o reforço noradrenérgico, nas doses maiores, pode elevar a pressão arterial e a frequência cardíaca. E, como o efeito depende de níveis estáveis do medicamento, a interrupção brusca derruba esses níveis e provoca os sintomas de descontinuação descritos adiante. Entender o mecanismo ajuda a entender, ao mesmo tempo, por que a venlafaxina pode aliviar a dor e por que exige acompanhamento.
Dose para dor, a faixa noradrenérgica e a latência de semanas
Na dor, a venlafaxina é usada de um jeito diferente do uso antidepressivo de menor dose. Como o componente noradrenérgico, que importa para a analgesia, só aparece de forma consistente em doses mais altas, a dose buscada para o efeito sobre a dor tende a ser maior que a dose mínima antidepressiva. O tratamento começa com uma dose pequena e, conforme a tolerância e a resposta, o médico pode aumentar aos poucos. Dose, ritmo de aumento, formulação e duração são individualizados.
O ponto que mais frustra quem começa é a latência. A venlafaxina não é um analgésico de resgate: não corta a dor na hora, como faz uma dipirona. O efeito analgésico se constrói com o uso contínuo e costuma levar semanas para se firmar, com benefício que ainda pode crescer ao longo do tempo na dose adequada. Usar a venlafaxina apenas como analgésico de crise, esperando efeito imediato, é um erro de uso, do mesmo modo que aumentar a dose por conta própria à espera de uma resposta rápida.
O que costuma surgir primeiro são a náusea, a alteração do sono (insônia ou sonolência) e a sudorese; o alívio da dor vem depois. Por isso a avaliação de eficácia é feita em semanas, não em dias. Um ponto de segurança que merece destaque: após uso continuado, a venlafaxina não deve ser suspensa de forma abrupta, porque ela tem meia-vida curta e a retirada brusca pode causar uma síndrome de descontinuação desconfortável, com tontura, sensação de choque, náusea, irritabilidade e distúrbio do sono. A redução, quando indicada, é feita de forma gradual, sempre orientada pelo médico.
Adaptação
Costumam aparecer náusea, alteração do sono e sudorese antes de qualquer efeito sobre a dor. A dose inicial é baixa e o corpo se ajusta aos poucos.
Ajuste para a faixa analgésica
Conforme a tolerância, a dose pode ser aumentada em direção à faixa em que o efeito noradrenérgico aparece. É quando o cuidado com a pressão arterial ganha peso.
Resposta e reavaliação
Define-se se a venlafaxina ajuda o suficiente, comparando alívio, função e efeitos colaterais. A descontinuação, se necessária, é sempre gradual.
O que esperar: a evidência
Entre os antidepressivos duais (IRSN) usados na dor neuropática, a duloxetina é a que tem a base de evidência mais sólida e figura como opção de primeira linha em diretrizes, sobretudo na neuropatia diabética dolorosa. A venlafaxina tem evidência mais limitada e heterogênea: pode ajudar parte das pessoas, em geral nas doses mais altas, mas seu papel é mais o de alternativa em casos selecionados do que o de primeira escolha.
O benefício para a dor depende do tipo de dor e do contexto clínico. Ela não funciona para todo mundo, e quando funciona o alívio costuma ser parcial, não a abolição da dor. A meta é reduzir a dor a um patamar que devolva sono, função e qualidade de vida.
Venlafaxina e duloxetina (IRSN) na dor neuropática
As sínteses de evidência sobre antidepressivos na dor neuropática colocam a duloxetina entre as opções de primeira linha, com base mais consistente, enquanto a venlafaxina aparece com evidência mais limitada e dependente de dose, em geral como alternativa. A leitura prática é equilibrada: a venlafaxina pode ser uma opção em casos selecionados, especialmente quando há comorbidade de humor ou ansiedade, mas o alívio costuma ser parcial e exige acompanhamento de pressão arterial. A escolha entre venlafaxina, duloxetina, um tricíclico ou um gabapentinoide é individual, conforme o quadro, as comorbidades e os efeitos adversos.
Ver referências →A melhor forma de saber se o medicamento está valendo a pena é comparar o alívio com os efeitos colaterais. Se a dor melhora um pouco, mas a pessoa fica sedada, confusa, com tontura, queda, falta de ar, dor abdominal, sangramento, piora da pressão ou perda de função, o resultado pode não ser favorável. Quando a venlafaxina ajuda apenas em parte, ela costuma ser combinada com as medidas não-farmacológicas descritas adiante, em vez de simplesmente substituída por outro comprimido sem revisão do diagnóstico.
Pressão arterial, descontinuação e interações serotoninérgicas
A indicação da venlafaxina é individual. Idade, função dos rins e do fígado, estômago, pressão, histórico de quedas, uso de anticoagulantes, de outros remédios para sono ou ansiedade e o consumo de álcool podem mudar a decisão. Três pontos merecem destaque: a pressão arterial, a descontinuação e as interações serotoninérgicas.
| Categoria | O que costuma acontecer | Conduta / cuidado |
|---|---|---|
| Pressão arterial | Elevação da pressão e da frequência cardíaca, sobretudo nas doses mais altas (efeito noradrenérgico) | Medir a pressão antes e durante o tratamento; cautela em hipertensão não controlada |
| Gastrintestinais e neurovegetativos | Náusea, sudorese, boca seca; tende a atenuar com o tempo | Iniciar em dose baixa; reavaliar se persistir |
| Sono e disposição | Insônia ou, em alguns casos, sonolência; agitação no início | Ajustar horário e dose com o médico; cautela em quem dirige |
| Descontinuação | Tontura, sensação de choque, náusea, irritabilidade e distúrbio do sono se suspensa de forma abrupta | Nunca parar de uma vez; redução gradual orientada pelo médico |
| Interações serotoninérgicas | Risco de síndrome serotoninérgica ao combinar com outros serotoninérgicos | Informar todos os remédios em uso; nunca associar por conta própria |
O risco aumenta quando o medicamento vira repetição sem exame, sem diagnóstico ou sem revisão de outras doenças, e quando a pessoa combina remédios por conta própria para tentar ampliar o alívio. A venlafaxina deve ser usada com cautela redobrada, ou evitada, em situações como pressão arterial descontrolada, histórico de mania (em que antidepressivos podem desencadear virada de humor), uso recente de inibidores da MAO (outra classe de antidepressivos) e combinação com outros medicamentos serotoninérgicos sem orientação. A suspensão abrupta, já citada, é outra fonte frequente de problemas.
As interações pesam na decisão. A combinação com outras substâncias que aumentam a serotonina, como alguns antidepressivos, o tramadol e os triptanos usados na enxaqueca, eleva o risco de síndrome serotoninérgica, um quadro potencialmente grave com agitação, confusão, febre, tremor, diarreia e rigidez muscular. O álcool e outros sedativos somam-se aos efeitos sobre o sistema nervoso. Combinar remédios da mesma família serotoninérgica eleva o risco sem aumentar o alívio.
A venlafaxina é um medicamento de prescrição: a indicação, a escolha entre as opções, a dose, os aumentos e a eventual retirada gradual são definidos pelo médico. Informar todos os produtos em uso, incluindo remédios para sono, ansiedade, gripe, suplementos e os de uso contínuo, faz parte da segurança contra interações.
Durante o uso de venlafaxina, atenção a
- Agitação intensa, confusão, febre, tremor, diarreia ou rigidez muscular após associar medicamentos (possível síndrome serotoninérgica).
- Pressão arterial em elevação, palpitação forte, dor no peito ou falta de ar.
- Tontura, sensação de choque, náusea e irritabilidade ao reduzir ou esquecer doses (sintomas de descontinuação).
- Pensamentos de se machucar: antidepressivos exigem acompanhamento, sobretudo em jovens no início do uso.
- Dor de início súbito acompanhada de fraqueza, perda de força, febre, perda de peso ou alteração do controle urinário ou intestinal, que pede avaliação imediata da causa.
O lugar da venlafaxina no tratamento da dor
A venlafaxina é, no máximo, uma peça de um plano, não o plano inteiro. O tratamento da dor crônica com componente neuropático é multimodal, não-cirúrgico e individualizado: combina o remédio certo, na dose certa, com reabilitação e com técnicas que modulam a dor, e parte de uma premissa importante. Antes de tratar só o sintoma, é preciso entender e tratar a causa: controlar o diabetes na neuropatia diabética, descomprimir uma raiz nervosa quando há compressão, e assim por diante.
Boa parte do trabalho não é decidir só qual remédio usar, mas entender o tipo de dor. Dor mecânica costuma piorar com carga ou postura; dor inflamatória pode vir com calor, inchaço ou rigidez; dor neuropática queima, dá choque ou formiga; dor sensibilizada pode ficar desproporcional ao exame. Cada padrão muda a estratégia, e é por isso que uma revisão bem feita pergunta se há compressão neural, tendinopatia, artrose, bursite, dor miofascial, sono ruim, perda de condicionamento, medo de movimento, efeito colateral de outro remédio ou sinal de uma doença que precisa de investigação diferente.
Dentro do braço farmacológico, a venlafaxina divide o lugar com outras opções, e a escolha é feita pelo perfil de cada paciente, sempre por nome genérico, nunca por marca. O guia de remédios para dor reúne essa visão geral.
Duloxetina (outro IRSN)
- Mecanismo
- Inibe a recaptação de serotonina e de noradrenalina, reforçando a mesma via descendente de freio da dor, com ação dual mais equilibrada já em doses usuais.
- Evidência
- É opção de primeira linha na neuropatia diabética dolorosa e na fibromialgia, com base de estudos mais sólida que a da venlafaxina.
- O que esperar
- Pode causar náusea no início, alteração do sono e elevação da pressão; também não deve ser suspensa de forma abrupta. Costuma ser a primeira escolha dual na dor neuropática. Veja duloxetina para dor crônica.
Amitriptilina e nortriptilina (tricíclicos)
- Mecanismo
- Reforçam as vias inibitórias descendentes (serotonina e noradrenalina) e ainda bloqueiam canais de sódio do nervo lesado.
- Evidência
- Têm longa experiência e eficácia na dor neuropática, com alívio relevante em cerca de 1 a cada 3 ou 4 pessoas.
- O que esperar
- Mais efeitos anticolinérgicos e cardíacos que os IRSN; usados em dose baixa, à noite, com cautela no idoso e possível eletrocardiograma. Veja amitriptilina para dor neuropática e nortriptilina para dor.
Gabapentina e pregabalina (gabapentinoides)
- Mecanismo
- Atuam por uma via diferente: ligam-se à subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio nos neurônios, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios e a hiperexcitabilidade do nervo lesado.
- Evidência
- São primeira linha na dor neuropática, com boa eficácia na neuralgia pós-herpética e na neuropatia diabética.
- O que esperar
- Sonolência, tontura, edema e ganho de peso; por agirem em alvo distinto, às vezes são combinados com um antidepressivo em dor refratária, sempre sob orientação médica. Veja gabapentina para dor.
| Medicamento | Classe e via | Quando costuma ser preferido |
|---|---|---|
| Venlafaxina | IRSN; reforço serotoninérgico e, em dose maior, noradrenérgico das vias descendentes | Alternativa em casos selecionados, sobretudo com ansiedade ou humor associados; exige controle de pressão |
| Duloxetina | IRSN (dual equilibrado) | Neuropatia diabética e fibromialgia; primeira escolha dual, mais evidência |
| Amitriptilina / nortriptilina | Tricíclico; freio descendente + canais de sódio | Dor neuropática, sobretudo com insônia; cautela cardíaca e anticolinérgica |
| Gabapentina / pregabalina | Gabapentinoide; canais de cálcio | Neuralgia pós-herpética; alvo diferente, útil para combinar |
Da prática clínica: o que a venlafaxina ensina no consultório
Onde costuma ajudar de fato. O ganho mais consistente não aparece na pessoa que procura só apagar a dor, e sim naquela em que dor neuropática, sono ruim e ansiedade ou humor rebaixado andam juntos. Quando esse trio coexiste, mexer numa via que atua nos três ao mesmo tempo tende a render mais do que somar comprimidos isolados. Quando o quadro é dor neuropática pura, sem essa carga emocional, a duloxetina ou um gabapentinoide costumam ser um caminho mais direto.
O erro mais comum. Tratar a venlafaxina como analgésico de resgate. É frequente a pessoa tomar por alguns dias, não sentir nada na dor, achar que não funcionou e parar. As duas metades desse erro custam caro: o efeito analgésico leva semanas para aparecer, e parar de uma vez justamente o que tem meia-vida curta abre a porta para a síndrome de descontinuação.
O que o paciente subestima. Dois pontos. A pressão arterial, porque a faixa de dose que ajuda na dor é a mesma em que o efeito noradrenérgico pode elevá-la, então medir a pressão deixa de ser detalhe e vira parte do tratamento. E a retirada, que precisa ser planejada e gradual desde o começo, e não improvisada no dia em que a caixa acaba ou a pessoa decide parar.
O que vale vigiar. A combinação acidental com outros serotoninérgicos, sobretudo o tramadol e os triptanos da enxaqueca, que muita gente toma sem associar a um risco. Por isso a lista completa do que se usa, incluindo o que é comprado por conta própria, importa mais aqui do que parece.
A dose importa de um jeito particular na venlafaxina: ela é um IRSN dependente da dose, e não um dual equilibrado. Em dose baixa ela se comporta quase como um antidepressivo só serotoninérgico, e é exatamente o braço noradrenérgico, que só entra em doses mais altas, o que carrega boa parte do efeito sobre a dor. Daí a consequência que raramente se diz em voz alta: na faixa baixa, a dor neuropática pode simplesmente não responder, não porque o remédio falhou, mas porque a pessoa ainda não chegou à dose em que ele age como analgésico. E essa mesma faixa analgésica é a que cobra o cuidado com a pressão. É essa dupla ligação, dose que liga a analgesia e dose que liga o risco pressórico, que separa a venlafaxina da duloxetina e que explica por que, na dor, ela costuma ser alternativa, e não primeira escolha.
O tratamento não-farmacológico: por que ele não é opcional
Nenhum desses remédios resolve sozinho a dor crônica de forma duradoura. O alívio sustentado vem de um plano que soma medicação a reabilitação e à modulação da dor. É aqui que entra o trabalho da nossa clínica, com a experiência do Grupo de Dor do HC-FMUSP.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- Mecanismo
- A inserção de agulhas finas em acupontos, por médico, ativa a modulação segmentar no corno dorsal e as mesmas vias inibitórias descendentes que a venlafaxina reforça, com liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente recruta esses sistemas de forma mais sustentada.
- Evidência
- Há evidência moderada para dor crônica, incluindo componentes neuropáticos e a enxaqueca, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados.
- O que esperar
- O efeito também é construído ao longo de algumas semanas, em paralelo com a titulação do medicamento, e a resposta é reavaliada junto com a dose. Na dor neuropática, a acupuntura interessa sobretudo em dois cenários ligados à venlafaxina: quando o alívio do medicamento é só parcial e se quer somar uma via não-medicamentosa, e quando se busca evitar subir a dose para a faixa em que a pressão arterial pesa mais. Por não ser serotoninérgica, é uma das poucas medidas que se associam à venlafaxina sem aumentar o risco de síndrome serotoninérgica.
Reabilitação, exercício e dessensibilização
- Mecanismo
- A reabilitação ativa individualizada melhora o controle motor, a força e a mobilidade e, na dor neuropática, trabalha a dessensibilização do território doloroso e do movimento, reduzindo a hiperexcitabilidade aprendida do sistema nervoso.
- Evidência
- O exercício é a base do tratamento conservador da dor crônica, com benefício consistente na função e na qualidade de vida.
- O que esperar
- É a parte mantida do plano: a resposta se constrói ao longo de semanas e o programa segue depois do alívio para evitar recorrência.
Neuromodulação e procedimentos em casos selecionados
- Mecanismo
- Técnicas como a estimulação elétrica nervosa percutânea aplicam corrente por agulhas finas sobre trajetos nervosos, promovendo neuromodulação periférica e segmentar da dor.
- Evidência e o que esperar
- São opções para componentes neuropáticos selecionados, aplicadas em ciclos com a resposta reavaliada, e não substituem a base ativa do tratamento. Entram tipicamente quando a venlafaxina, mesmo na faixa de dose tolerada, deixa um resíduo de dor neuropática localizada, em vez de se elevar a dose indefinidamente. Para casos refratários com forte componente miofascial associado, a toxina botulínica tipo A pode ter papel adjuvante em indicações específicas, sempre off-label fora da enxaqueca crônica e sob critério médico.
Tratar a causa e educar
Investigar e controlar a causa da dor, entender a sua natureza e ajustar sono e rotina antes de focar só no comprimido.
Medicação escolhida pelo perfil
Duloxetina, tricíclico ou gabapentinoide como primeiras opções; a venlafaxina como alternativa em casos selecionados, com dose e ajuste pelo médico.
Reabilitação e técnicas em clínica
Exercício e dessensibilização como base, somados a acupuntura e eletroacupuntura para modular a dor.
Procedimentos em casos selecionados
Neuromodulação e outros recursos quando a dor persiste apesar do plano inicial bem conduzido.
No fim, a venlafaxina pode aliviar parte das dores crônicas com componente neuropático, sobretudo quando ansiedade ou humor coexistem, mas raramente é a primeira escolha e quase nunca resolve sozinha. O melhor resultado costuma vir de combinar a medicação certa com reabilitação e técnicas de modulação da dor, dentro de um plano que ataca a causa e é reavaliado por metas: dor, sono, função e a menor necessidade possível de medicação.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Venlafaxina serve para dor?
Pode servir em casos selecionados. A venlafaxina é um antidepressivo dual (IRSN) que, na medicina da dor, é discutido sobretudo em quadros de dor crônica com componente neuropático, em especial quando há ansiedade, humor rebaixado ou sono ruim associados. Ela age reforçando as vias que o corpo usa para frear a dor. Não é, porém, primeira escolha: na dor neuropática, a duloxetina e os gabapentinoides costumam ter base de evidência mais sólida. A indicação é sempre médica.
A dose de venlafaxina para dor é a mesma da depressão?
Em geral não. Para o efeito sobre a dor, costuma ser necessária uma dose mais alta que a dose mínima usada apenas para o humor, porque o componente noradrenérgico, que importa para a analgesia, só aparece de forma consistente em doses maiores. É justamente nessa faixa que cresce o cuidado com a pressão arterial. A dose exata, o ritmo de aumento e a duração são definidos pelo médico; não se deve copiar a dose de outra pessoa nem ajustar por conta própria.
Quanto tempo a venlafaxina leva para fazer efeito na dor?
O efeito analgésico se constrói com o uso contínuo e costuma levar semanas para se firmar, podendo ainda crescer ao longo do tempo na dose adequada. Ela não corta a dor na hora, como um analgésico de resgate. Os primeiros efeitos a surgir costumam ser náusea, alteração do sono e sudorese; o alívio da dor vem depois. Por isso não se deve abandonar o tratamento nos primeiros dias achando que não funcionou, nem usá-la como remédio de crise.
Venlafaxina aumenta a pressão? Preciso medir?
Pode aumentar, sobretudo nas doses mais altas, por causa do efeito noradrenérgico. Por isso o médico costuma medir a pressão arterial antes de iniciar e durante o tratamento, com cautela maior em quem já tem pressão alta não controlada. Se a pressão subir, o médico avalia ajustar a dose ou trocar a medicação. Acompanhar a pressão é parte da segurança do uso.
Posso parar a venlafaxina de uma vez se não sentir efeito?
Não por conta própria. A venlafaxina tem meia-vida curta, e a interrupção abrupta pode causar uma síndrome de descontinuação desconfortável, com tontura, sensação de choque, náusea, irritabilidade e distúrbio do sono. Se ela não estiver ajudando, o caminho é conversar com o médico, que pode ajustar a dose, fazer uma redução gradual ou trocar por outra opção.
Venlafaxina ou duloxetina para dor neuropática?
As duas são IRSN e reforçam as mesmas vias de freio da dor, mas a duloxetina tem base de evidência mais sólida na dor neuropática e figura como opção de primeira linha, por exemplo na neuropatia diabética. A venlafaxina costuma entrar como alternativa em casos selecionados, sobretudo quando há comorbidade de ansiedade ou humor, e exige atenção à pressão arterial nas doses maiores. A escolha entre elas é do médico, conforme o quadro, as comorbidades e os efeitos adversos de cada pessoa.
Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Gallagher HC, Gallagher RM, Butler M, Buggy DJ, Henman MC. Venlafaxine for neuropathic pain in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2015;(8):CD011091. link
- Sindrup SH, Bach FW, Madsen C, Gram LF, Jensen TS. Venlafaxine versus imipramine in painful polyneuropathy: a randomized, controlled trial. Neurology. 2003;60(8):1284-1289. link
- Finnerup NB, Attal N, Haroutounian S, McNicol E, Baron R, Dworkin RH, et al. Pharmacotherapy for neuropathic pain in adults: a systematic review and meta-analysis. Lancet Neurol. 2015;14(2):162-173. link
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas para publicidade e conteúdo médico.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A venlafaxina é um medicamento de prescrição. A indicação, a dose, os ajustes e a eventual suspensão, sempre gradual, devem ser feitos exclusivamente pelo médico assistente, que conhece a sua história e as suas comorbidades. Na dor, a resposta à venlafaxina depende da dose alcançada e do tipo de dor, costuma ser parcial e exige acompanhamento da pressão arterial.

