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Coluna · Anatomia clínica

Anatomia da coluna vertebral: o que você precisa saber

A coluna, peça por peça, ligada à dor que cada parte gera: vértebras e facetas, o disco e seus dois componentes, os ligamentos, a medula com cone medular e cauda equina, as raízes nos forames e a musculatura estabilizadora.

Em resumo
  • Onde fica a lombar? Na parte baixa das costas, entre a última costela e o topo da pelve: são cinco vértebras, L1 a L5, as maiores da coluna.
  • A coluna reúne cerca de 33 vértebras em cinco regiões: 7 cervicais (incluindo o atlas e o áxis), 12 torácicas, 5 lombares, o sacro (5 fundidas) e o cóccix (3 a 5 fundidas), com 23 discos intervertebrais entre os segmentos móveis.
  • Cada estrutura tem uma dor associada: o disco gera a hérnia e a dor radicular; as facetas, a síndrome facetária; o estreitamento do canal, a estenose com claudicação; o deslizamento entre corpos, a espondilolistese; e o músculo, a dor miofascial.
  • A medula termina no cone medular por volta de L1 a L2; abaixo disso, o canal contém a cauda equina. Por isso uma hérnia lombar comprime raízes, não a medula, o que muda o significado clínico e o tratamento.
  • Como a maioria das dores da coluna responde a tratamento não cirúrgico, o tratamento depende da estrutura responsável e da região, e está detalhado nas páginas de lombalgia, cervicalgia, dor ciática e coccidínia, indicadas ao longo deste guia.
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Avaliação clínica

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O que fazer agora

Se você chegou até aqui por causa de uma dor nova na coluna, antes de entrar nos detalhes anatômicos vale saber o essencial: a maioria das dores da coluna é mecânica e benigna, e melhora mantendo-se ativo dentro do limite da dor, sem repouso prolongado na cama.

  • Mantenha-se em movimento dentro do limite da dor. Reduza o esforço que reproduz a dor, mas evite ficar parado; o repouso prolongado atrasa a melhora.
  • Observe o padrão da dor. Dor que fica só nas costas costuma ter um caminho diferente de dor que desce pelo braço ou pela perna — a seção «Quando a anatomia vira dor», abaixo, ajuda a situar a sua.
  • Procure avaliação médica se a dor persistir além de quatro a seis semanas, mesmo sem nenhum dos sinais abaixo.

Avaliação sem demora se houver fraqueza progressiva nas pernas ou dificuldade para caminhar, perda de controle para urinar ou evacuar com dormência na região do períneo, ou febre e perda de peso inexplicada (ver «Sinais de alerta», mais adiante).

As cinco regiões e as 33 vértebras

Esqueleto da coluna vertebral em vista ventral, lateral e dorsal, com chaves marcando as regiões cervical, toracica e lombar
A coluna se divide em segmentos cervical, torácico e lombar, cada um com curvatura e função próprias

A coluna vertebral, ou raque, é uma estrutura óssea segmentada que vai da base do crânio até a pelve. No adulto, costuma reunir cerca de 33 vértebras, organizadas em cinco regiões. As três superiores são móveis e separadas por discos; as duas inferiores são, em sua maior parte, fundidas. Entender essa organização é o primeiro passo para localizar de onde vem uma dor.

A coluna cervical tem sete vértebras (C1 a C7) e é a mais móvel, porque sustenta a cabeça e permite girar e acenar. As duas primeiras são atípicas: o atlas (C1) é um anel sem corpo vertebral que sustenta o crânio na articulação atlanto-occipital, responsável pelo aceno de “sim”; o áxis (C2) projeta um pino ósseo para cima, o processo odontoide (dente do áxis), ao redor do qual o atlas pivota na articulação atlantoaxial, responsável por cerca de metade da rotação do “não”. Essa mobilidade tem custo: a transição craniocervical é também onde se concentram a cefaleia cervicogênica e parte da dor suboccipital.

A coluna torácica tem doze vértebras (T1 a T12), cada uma articulada com um par de costelas pelas articulações costovertebrais e costotransversárias. Essa amarração à caixa torácica a torna a região mais estável e menos móvel, o que protege coração e pulmões, mas também explica por que a dor torácica de origem mecânica costuma vir das articulações costovertebrais e dos músculos, e não de hérnias, que ali são raras.

A coluna lombar tem cinco vértebras (L1 a L5), as maiores e mais robustas da parte móvel, porque suportam a maior parte do peso do tronco e são muito solicitadas ao inclinar, levantar peso e girar. É a sede mais frequente de dor nas costas. Abaixo dela, o sacro reúne cinco vértebras fundidas em um osso triangular, encaixado entre os ossos do quadril nas articulações sacroilíacas, fonte própria de dor lombar baixa e glútea. Por fim, o cóccix é formado por três a cinco vértebras fundidas (em geral quatro), vestígio de cauda que ancora ligamentos e músculos do assoalho pélvico e que, quando dói ao sentar, configura a coccidínia.

Cervical · C1 a C7
7 vértebras. Mais móvel; sustenta a cabeça. Atlas (C1) e áxis (C2) permitem o “sim” e o “não”. Dor cervical, cefaleia cervicogênica.
Torácica · T1 a T12
12 vértebras articuladas com as costelas. Mais estável; protege os órgãos do tórax. Dor costovertebral e miofascial.
Lombar · L1 a L5
5 vértebras, as maiores; suportam mais carga. Sede frequente de lombalgia, hérnia, faceta e estenose.
Sacro
5 vértebras fundidas. Liga a coluna à pelve pelas articulações sacroilíacas. Dor sacroilíaca.
Cóccix
3 a 5 vértebras fundidas. Fixa músculos e ligamentos do assoalho pélvico. Coccidínia.

Uma forma simples de memorizar as regiões móveis é associá-las a horários de refeição: 7 (café da manhã), 12 (almoço) e 5 (jantar). Esses 24 ossos móveis, somados ao sacro e ao cóccix, compõem o eixo central do esqueleto e dão à coluna sua forma de S quando vista de lado.

Dr. Marcus Pai aplicando acupuntura na região lombar de uma paciente deitada de bruços
Atendimento na clínica Acupuntura na região lombar durante atendimento

Onde fica a lombar e o que cada vértebra faz

A região lombar fica na parte mais baixa das costas, entre a última costela e o topo da pelve. No corpo, corresponde à faixa que sobra entre o gradil costal e a linha do cinto: atrás dela estão as cinco vértebras lombares, L1 a L5. Quem procura por zona lombar ou parte baixa das costas está falando exatamente dessa área.

No exame físico há uma referência prática para localizá-la: a linha intercristal (linha de Tuffier), traçada entre os pontos mais altos das duas cristas ilíacas, cruza a coluna na altura do espaço entre L4 e L5. É a partir dela que se conta cada nível na palpação e que se orientam infiltrações e bloqueios guiados. Já a expressão popular ossos das costas mistura estruturas diferentes: além das vértebras, fazem parte do relevo das costas as costelas, as escápulas e a pelve.

Diagrama da coluna vertebral em vista lateral com os segmentos cervical, torácico, lombar, sacro e cóccix identificados e as vértebras L1 a L5 nomeadas
Vista lateral da coluna. Os quatro segmentos e as cinco vértebras lombares, L1 a L5. A curva em S distribui a carga; a lombar concentra a maior parte dela.

Saber o nível importa porque cada vértebra lombar corresponde a uma raiz nervosa, e cada raiz tem músculo, faixa de pele e reflexo próprios. É essa combinação que o exame neurológico usa para dizer de onde vem uma dor que desce para a perna.

L1, a porta de entrada da lombar

Marca a transição toracolombar, a zona onde terminam as costelas e a coluna ganha mobilidade. É também onde a medula espinhal termina no adulto, no cone medular, em geral na altura de T12 a L1. Por concentrar a mudança de rigidez, a junção T12-L1 é o ponto preferencial das fraturas vertebrais por osteoporose. A raiz L1 leva sensibilidade à região da virilha.

L2 e os flexores do quadril

A raiz L2 inerva sobretudo o psoas, o principal flexor do quadril, e responde pela sensibilidade da face anterior e superior da coxa. Compressões altas, menos comuns, produzem dor anterior na coxa e dificuldade para subir escadas, padrão diferente da ciática clássica.

L3 e o quadríceps

Junto com L4, a raiz L3 move o quadríceps e participa do reflexo patelar. Sua faixa de pele cobre a face anterior do joelho. Hérnias de L2-L3 e L3-L4 são proporcionalmente mais frequentes em pessoas mais velhas e doem na frente da coxa, o que costuma confundir com problema do próprio joelho ou do quadril.

L4 e a marcha no calcanhar

A raiz L4 comanda o tibial anterior, que levanta a ponta do pé. No consultório ela é testada pedindo que a pessoa ande sobre os calcanhares; a fraqueza desse gesto aponta para L4. O reflexo patelar e a sensibilidade da face interna da perna completam a tríade desse nível.

L5, a raiz mais comprimida da coluna

A raiz L5 estende o dedão (extensor longo do hálux), participa da dorsiflexão do pé e estabiliza a pelve pelo glúteo médio. Sua faixa de pele cobre o dorso do pé até o dedão. Não tem reflexo próprio prático de testar, por isso a força do dedão é o melhor marcador. Como o disco L4-L5 é, com L5-S1, o que mais hernia, L5 é a raiz mais comprimida da coluna; nos casos graves a fraqueza evolui para o pé caído.

Por que quase toda hérnia acontece em L4-L5 e L5-S1

Cerca de nove em cada dez hérnias lombares ocorrem nos dois últimos discos. A explicação é mecânica: esses níveis somam a maior carga axial do corpo, o maior braço de alavanca ao inclinar o tronco e a transição entre a coluna móvel e o sacro fixo. Além disso, o ligamento longitudinal posterior, que reforça a parede de trás do disco, vai ficando mais estreito justamente ali, deixando os cantos posterolaterais menos protegidos, o caminho típico da hérnia que comprime a raiz.

Como o exame localiza o nível sem ressonância

Três pistas triangulam a raiz: o músculo fraco, a faixa de pele alterada e o reflexo diminuído. Marcha no calcanhar testa L4; força de extensão do dedão testa L5; marcha na ponta do pé e reflexo do tornozelo testam S1; o reflexo patelar fala por L3 e L4. Quando as três pistas apontam para o mesmo nível, a imagem serve para confirmar, e não para procurar o diagnóstico.

A coluna cervical em detalhe

A coluna cervical vai da base do crânio ao topo do tórax. Na nuca, o ponto ósseo mais saliente ao inclinar a cabeça para a frente é o processo espinhoso de C7, a vértebra proeminente, referência usada no exame para contar os níveis. É o segmento mais móvel da coluna e o que carrega menos peso: sustenta apenas a cabeça, cerca de 4 a 5 quilos.

A mobilidade se divide de forma desigual. O complexo formado pelo occipital, pelo atlas (C1) e pelo áxis (C2) responde por cerca de metade de toda a rotação e boa parte do aceno. De C3 a C7, as vértebras subaxiais empilham corpos menores com duas particularidades anatômicas: as articulações uncovertebrais, pequenas quilhas laterais que guiam o movimento e que, com o desgaste, formam osteófitos capazes de estreitar o forame por onde a raiz sai; e os forames transversos, canais ósseos que conduzem a artéria vertebral em direção ao crânio.

Uma regra anatômica explica os padrões de dor no braço: na cervical, cada raiz sai por cima da vértebra de mesmo número, e existe uma raiz C8 sem vértebra correspondente, saindo entre C7 e T1. Quando uma hérnia ou um osteófito comprime essas raízes, o quadro é a cervicobraquialgia: a raiz C6 leva formigamento em direção ao polegar e enfraquece o reflexo braquiorradial; C7, o dedo médio e o reflexo do tríceps; C8, os dois últimos dedos e a musculatura fina da mão. O exame procura ainda sinais de algo mais sério: quando o próprio canal cervical aperta a medula, surgem perda de destreza das mãos, alteração da marcha e reflexos exaltados, o quadro de mielopatia cervical, que muda a conduta e a urgência da investigação.

A cervical alta também participa de dores de cabeça. As fibras sensitivas de C1 a C3 convergem no tronco encefálico para os mesmos neurônios que recebem o nervo trigêmeo, e essa convergência explica a cefaleia cervicogênica, a dor de cabeça que nasce do pescoço. O quadro de dor cervical persistente, com ou sem irradiação, é detalhado em cervicalgia.

A coluna torácica, a dorsal, em detalhe

A coluna torácica, que muita gente conhece como coluna dorsal, ocupa o meio das costas: vai da altura das clavículas até a última costela. São doze vértebras, T1 a T12, e cada uma se articula com um par de costelas. Essa amarração transforma o segmento em uma caixa rígida que protege coração e pulmões, e muda o tipo de dor que nasce ali.

Pela rigidez, hérnias de disco torácicas são raras, respondem por menos de 1% das hérnias sintomáticas. A dor dorsal mecânica costuma vir de outras fontes: das articulações costovertebrais e costotransversárias, que inflamam com esforço de rotação ou tosse repetida, e da musculatura entre as escápulas, sobretudo trapézio médio e romboides. Há um detalhe clínico que evita exames desnecessários: boa parte da dor entre as escápulas é dor referida da cervical baixa, dos discos e facetas de C5 a C7, e melhora tratando o pescoço. Esse padrão é explicado em dor entre as escápulas.

Os dermátomos torácicos se organizam em faixas horizontais, como anéis: a linha dos mamilos corresponde a T4 e a do umbigo a T10. Por isso, dor em faixa ou em cinta no tórax, principalmente com queimação ou choque, levanta a hipótese de radiculopatia torácica, e o herpes zóster pode doer nessa distribuição dias antes de qualquer bolha aparecer na pele. A transição entre a torácica rígida e a lombar móvel, T12 com L1, concentra as fraturas vertebrais por osteoporose, que doem no meio das costas após esforços pequenos em pessoas com fatores de risco. É também na torácica que se medem as curvas da escoliose e o aumento da cifose.

Sacro e cóccix em detalhe

Abaixo de L5 a coluna deixa de ser uma pilha de peças móveis. O sacro, cinco vértebras fundidas em um osso triangular, encaixa-se entre os dois ossos ilíacos e transmite todo o peso do tronco para a pelve e os membros inferiores. Na ponta dele, o cóccix encerra a coluna.

A articulação entre o sacro e o ilíaco, a sacroilíaca, move-se pouco, mas é fonte frequente de dor: tipicamente glútea, abaixo da linha de L5, com piora ao levantar da cadeira, ao subir escadas e ao apoiar o peso em uma perna só. No exame, manobras provocativas como o FABER (Patrick) e os testes de compressão e distração da pelve ajudam a apontá-la como origem. A gestação e o pós-parto deixam essa articulação mais frouxa e dolorosa, e doenças inflamatórias como a espondilite anquilosante começam por ela em gente jovem, com dor que melhora com movimento e piora com repouso.

Pelos forames do sacro saem as raízes S1 a S4. A raiz S1 completa o exame neurológico do membro inferior: caminhar na ponta dos pés testa sua força, o reflexo do tornozelo (aquileu) depende dela e sua faixa de pele cobre a face lateral do pé. As raízes sacrais mais baixas inervam bexiga, intestino e períneo, e é por isso que dormência em sela e alteração urinária junto com dor lombar configuram a emergência da síndrome da cauda equina, listada nos sinais de alerta adiante.

O cóccix, três a cinco peças fundidas, ancora ligamentos e parte do assoalho pélvico. Quando dói, o quadro é a coccidínia: dor na ponta da coluna ao sentar, principalmente em superfícies duras, e uma fisgada característica no movimento de levantar. Trauma em queda sentada, parto e longas horas sentado são os gatilhos habituais, e parte dos casos vem de tensão do próprio assoalho pélvico, não do osso. O tema tem página própria em dor no cóccix.

A vértebra, as articulações facetárias e os ligamentos

Vértebra vista de cima com corpo vertebral, pedículo, lâmina e medula espinhal identificados por setas
Cada vértebra reúne corpo, pedículo e lâmina ao redor do canal que abriga a medula espinhal

Apesar das diferenças de tamanho, a maioria das vértebras móveis segue um mesmo plano com duas partes principais. Na frente está o corpo vertebral, um bloco ósseo cilíndrico que sustenta o peso e sobre o qual se apoiam os discos; quanto mais baixa a vértebra, maior o corpo, o que explica o volume das lombares. Atrás está o arco vertebral, formado por dois pedículos (as colunas laterais) e duas lâminas (o teto).

Corpo e arco delimitam o forame vertebral, e o empilhamento desses forames forma o canal vertebral, o túnel ósseo que aloja a medula. É a redução desse canal, por osteófitos, hipertrofia ligamentar ou abaulamento discal, que define a estenose de canal.

Do arco partem sete processos, que funcionam como alavancas e pontos de encaixe: o espinhoso, para trás, na linha média (as proeminências palpáveis ao deslizar a mão pelas costas); os dois transversos, para os lados; e quatro processos articulares, dois acima e dois abaixo. São esses processos articulares que, com os da vértebra vizinha, formam as articulações facetárias (ou zigapofisárias) de cada lado, atrás do disco.

A faceta é uma articulação sinovial verdadeira, com cartilagem, líquido sinovial e uma cápsula articular ricamente inervada pelo ramo medial do ramo dorsal de dois níveis adjacentes. Essa inervação é a base da síndrome facetária: dor axial que tipicamente piora à extensão e à rotação do tronco e que pode referir para a nádega ou a coxa sem seguir um trajeto radicular. A orientação das facetas muda por região, mais coronal na torácica e mais sagital na lombar, o que determina quanto cada segmento flexiona, estende ou gira. Entre o corpo, à frente, e a faceta, atrás, fica de cada lado o forame intervertebral, por onde sai a raiz nervosa, ponto que retomamos adiante.

Os ossos não se mantêm alinhados sozinhos: dependem de ligamentos. O ligamento longitudinal anterior corre na frente dos corpos e limita a extensão; o ligamento longitudinal posterior corre atrás dos corpos, dentro do canal, e, por ser mais estreito na lombar baixa, deixa o ângulo posterolateral do disco mais vulnerável, justamente a direção em que a maioria das hérnias se projeta contra a raiz. O ligamento amarelo (flavo) reveste a face interna das lâminas e, quando se espessa com a idade, é uma das causas de estenose.

Os ligamentos supraespinhoso e interespinhoso conectam os processos espinhosos e limitam a flexão. Quando a estabilidade entre dois corpos falha, seja por defeito do arco (espondilólise) ou por degeneração, uma vértebra pode deslizar sobre a de baixo, configurando a espondilolistese.

O disco intervertebral, a medula e as raízes nervosas

Render lateral de duas vértebras com o disco intervertebral roxo entre os corpos e a raiz nervosa saindo ao lado
O disco intervertebral funciona como amortecedor entre os corpos vertebrais de cada segmento

Entre cada par de vértebras móveis, do pescoço ao fim da lombar, há um disco intervertebral, cerca de 23 ao todo. Cabe a eles a tarefa dupla de absorver impacto e permitir que os ossos se movam sem atrito direto.

Cada disco tem duas partes que trabalham juntas. No centro está o núcleo pulposo, um gel rico em água e proteoglicanos que se comporta como uma almofada hidráulica: sob carga, ele pressuriza e distribui a força em todas as direções. Ao redor, o ânulo fibroso é um anel de lâminas concêntricas de colágeno em orientação cruzada, que contém o núcleo e resiste à tração e à torção. O disco do adulto é, em grande parte, avascular e se nutre por difusão através das placas terminais dos corpos vertebrais, o que ajuda a explicar por que sua capacidade de reparo é limitada.

Com a idade, o núcleo perde água e o disco perde altura, um processo de degeneração discal que é em boa parte fisiológico e muitas vezes assintomático. Quando uma fissura do ânulo permite que parte do núcleo se desloque, ocorre a hérnia de disco, classificada em protrusão (ânulo íntegro), extrusão (material além do ânulo) e sequestro (fragmento livre). A hérnia tende a se projetar no ângulo posterolateral e a comprimir a raiz que sai um nível abaixo, gerando dor radicular; entender a estrutura do disco ajuda a compreender por que a maioria dos casos melhora com tratamento conservador, como detalhamos em hérnia de disco: o que é, causas, sintomas e tratamentos.

Dentro do canal corre a medula espinhal, que conecta o cérebro ao corpo. Um detalhe anatômico muda tudo na prática: a medula não desce até o fim da coluna. Ela termina no cone medular, por volta de L1 a L2 no adulto.

Abaixo desse ponto, o canal lombar contém apenas o feixe de raízes lombossacras solto no líquor, a cauda equina. Por isso uma hérnia lombar baixa comprime raízes, não a medula, o que costuma ser menos grave; uma exceção é a compressão maciça de várias raízes da cauda, a síndrome da cauda equina, emergência cirúrgica que se manifesta por anestesia em sela, retenção ou incontinência urinária e fecal e fraqueza progressiva nas pernas.

Em cada nível, pares de raízes nervosas deixam o canal pelos forames intervertebrais. Cada raiz carrega comando motor para um grupo de músculos (o miótomo) e a sensibilidade de uma faixa de pele (o dermátomo), e participa de um reflexo. Por isso a compressão de uma raiz não dá uma dor difusa, e sim um padrão reconhecível, que orienta o exame: L4 (sensibilidade da face medial da perna, força do quadríceps, reflexo patelar), L5 (dorso do pé, força para levantar o pé e o dedão, sem reflexo próprio) e S1 (borda lateral do pé, flexão plantar, reflexo aquileu). Esse mapa é o que permite, ao avaliar uma dor que desce pela perna, localizar qual nível está envolvido, tema da dor ciática.

Curvaturas, musculatura estabilizadora e suprimento

Render lateral da coluna vertebral inteira mostrando as curvaturas naturais em forma de S do pescoço ao cóccix
Vista de perfil revela as curvaturas em S que distribuem a carga e dão estabilidade a coluna

Vista de frente, a coluna saudável é reta; vista de lado, descreve curvas alternadas que não são defeito, e sim projeto. Há duas lordoses (concavidade posterior), na cervical e na lombar, e duas cifoses (concavidade anterior), na torácica e na sacral. Esse arranjo em S age como mola: distribui cargas, amortece a marcha e mantém a cabeça equilibrada sobre a pelve com o menor gasto muscular. Quando as curvas se acentuam ou desviam, recebem nomes próprios, hipercifose, hiperlordose e escoliose (desvio lateral), mas pequenas variações são comuns e nem sempre causam sintomas.

Toda essa arquitetura cumpre três funções que se sustentam mutuamente: suporte (transmitir o peso do tronco e da cabeça até a pelve), movimento (a soma de muitas pequenas articulações permite flexionar, estender, inclinar e girar) e proteção (blindar a medula e dar passagem protegida às raízes). Nenhuma delas se sustenta apenas com osso e ligamento, que são estabilizadores passivos. É preciso estabilidade ativa, e ela vem da musculatura.

A musculatura organiza-se em planos com papéis distintos. Os eretores da espinha (iliocostal, longuíssimo, espinhal), superficiais e longos, estendem o tronco e controlam a inclinação para a frente. Mais profundos, os multífidos cruzam poucos segmentos de cada vez e fornecem o controle fino e a estabilidade segmentar; sua atrofia e sua infiltração por gordura estão associadas à dor lombar crônica e recorrente.

À frente, o transverso do abdome funciona como uma cinta que aumenta a pressão intra-abdominal e enrijece a coluna antes do movimento, e atua em conjunto com o diafragma e o assoalho pélvico para formar o cilindro de estabilização central, o chamado core. É a disfunção dessa musculatura, mais do que qualquer achado de imagem isolado, que costuma perpetuar a dor, e é por isso que o reforço desse sistema é central no tratamento.

Sobre o suprimento: as artérias segmentares (ramos da aorta na região torácica e lombar, e das artérias vertebrais no pescoço) irrigam corpos vertebrais, músculos e a própria medula; a drenagem venosa passa pelo plexo venoso vertebral interno, uma rede sem válvulas dentro do canal que, por se comunicar com as veias do tórax, abdome e pelve, é uma das vias pelas quais infecções e tumores podem alcançar a coluna. Os músculos profundos também carregam pontos-gatilho miofasciais, focos de banda tensa que doem localmente e referem dor à distância, base da dor miofascial que abordamos no tratamento.

Quando a anatomia vira dor

Conhecer a anatomia ajuda a entender a dor, mas com uma ressalva importante: um achado de imagem, como uma desidratação de disco, um abaulamento ou um pequeno desvio de curvatura, nem sempre é a causa da dor. Estudos de imagem em pessoas assintomáticas mostram que protrusões discais, degeneração e artrose facetária são frequentes mesmo em quem não sente nada, e a prevalência aumenta com a idade. Por isso a avaliação não persegue uma estrutura isolada: ela conecta a queixa, o exame físico (mobilidade, palpação, força, sensibilidade e reflexos por raiz, além de manobras como a elevação da perna estendida na suspeita de compressão radicular lombar) e, só quando isso muda a conduta, a imagem.

Com esse mapa, cada estrutura aponta para uma condição e para o conteúdo que a detalha. O disco remete à hérnia de disco e, quando comprime uma raiz, à dor ciática. A faceta e a musculatura paravertebral remetem à dor axial e à lombalgia.

A redução do canal aponta para a estenose, com a claudicação neurogênica que alivia ao sentar e ao fletir o tronco. O deslizamento entre corpos é a espondilolistese, e a dor na ponta da coluna ao sentar é a coccidínia.

Sinais de alerta · avaliação sem demora

Quando a dor na coluna não é só mecânica

  • Fraqueza progressiva nas pernas, dificuldade para andar na ponta dos pés ou nos calcanhares.
  • Anestesia em sela (região do períneo) e perda de controle para urinar ou evacuar, que sugerem síndrome da cauda equina.
  • Febre, perda de peso inexplicada ou histórico de câncer, que levantam suspeita de infecção ou tumor.
  • Dor que piora à noite e em repouso, ou dor após trauma de alta energia, sobretudo em quem tem osteoporose.

Esses sinais não são a regra. A maioria das dores da coluna é mecânica, benigna e responde a tratamento conservador, sem necessidade de cirurgia nem de exames de imagem precoces.

Quando procurar avaliação

A regra prática é simples: dor na coluna que persiste além de quatro a seis semanas, que desce para braço ou perna, que acorda à noite ou que vem com fraqueza, febre ou perda de peso merece avaliação médica, porque cada um desses sinais aponta para mecanismos diferentes.

O tratamento depende da causa e da região, e por isso está detalhado nas páginas de cada quadro: dor lombar e lombalgia para a parte baixa das costas, cervicalgia para o pescoço, dor ciática quando a dor desce pela perna e coccidínia para a dor ao sentar. Em todos eles a lógica é a mesma: identificar a estrutura responsável com exame físico dirigido e tratar de forma individualizada e multimodal, com reabilitação ativa como base.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Quantas vértebras tem a coluna vertebral?

O adulto costuma ter cerca de 33 vértebras: 7 cervicais, 12 torácicas e 5 lombares (as 24 móveis), mais 5 fundidas no sacro e em geral 4 no cóccix. Como o número de vértebras do cóccix varia entre três e cinco, o total pode oscilar levemente.

Até onde vai a medula espinhal na coluna?

A medula não desce até o fim da coluna. Ela termina no cone medular, por volta de L1 a L2 no adulto. Abaixo desse ponto, o canal lombar contém apenas o feixe de raízes solto no líquor, chamado cauda equina. É por isso que uma hérnia lombar baixa comprime raízes nervosas, e não a medula, o que muda o significado clínico do quadro.

Para que serve o disco intervertebral e por que ele hernia?

O disco funciona como amortecedor: o núcleo pulposo, gelatinoso, pressuriza e distribui a carga, e o ânulo fibroso, um anel de fibras de colágeno, contém esse núcleo e resiste à torção. Com a idade, o disco perde água e altura. Quando uma fissura do ânulo deixa parte do núcleo se deslocar, ocorre a hérnia, que tende a se projetar para trás e para o lado e comprimir uma raiz vizinha.

O que são as articulações facetárias e que dor elas causam?

São as articulações entre os processos articulares de vértebras vizinhas, atrás do disco. Têm cápsula ricamente inervada, o que as torna fonte de dor: a síndrome facetária costuma dar dor axial que piora à extensão e à rotação do tronco e pode referir para a nádega ou a coxa, sem seguir o trajeto de uma raiz.

Um achado de hérnia ou desgaste na ressonância explica a dor?

Nem sempre. Protrusões discais, degeneração e artrose facetária são frequentes mesmo em pessoas sem dor, e aumentam com a idade. Por isso a imagem é interpretada junto da queixa e do exame físico, e não isoladamente. Ela é mais útil quando muda a conduta, por exemplo diante de sinais de alerta ou quando se considera um procedimento.

Por que o tratamento foca em fortalecer a musculatura?

Porque o osso e os ligamentos são estabilizadores passivos; a estabilidade ativa depende dos músculos profundos, sobretudo multífidos e transverso do abdome. A disfunção desse sistema costuma perpetuar a dor mais do que um achado de imagem isolado, e é por isso que o exercício orientado é a base, somado, conforme o caso, a acupuntura, agulhamento seco, infiltrações e bloqueios. As causas e o caminho completo estão no guia de tratamento de lombalgia ou dor lombar.

Quando uma dor na coluna precisa de cirurgia?

Na maioria das vezes não precisa: a dor axial mecânica melhora sem operar. A cirurgia entra em discussão em situações definidas, como hérnia com déficit neurológico progressivo ou dor radicular refratária ao tratamento conservador bem conduzido, estenose de canal sintomática que limita a marcha, instabilidade ou espondilolistese com deslizamento progressivo, e nas emergências e sinais de alerta (síndrome da cauda equina, fratura instável, suspeita de tumor ou infecção). A decisão depende do quadro clínico e de sua evolução, não apenas do achado de imagem. Esses procedimentos não são realizados em nossa clínica, que mantém abordagem não cirúrgica e encaminha quando indicado.

Qual o papel dos remédios na dor da coluna?

É um papel adjuvante e por tempo definido: o medicamento ajuda a baixar a dor para que a reabilitação avance, mas não trata a causa mecânica nem substitui o exercício. Anti-inflamatórios em ciclos curtos e relaxantes musculares atuam na fase aguda; para o componente neuropático, podem-se considerar gabapentinoides, duloxetina ou tricíclicos em dose baixa, com titulação. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Raj PP. Intervertebral disc: anatomy-physiology-pathophysiology-treatment. Pain practice: the official journal of World Institute of Pain. 2008. doi:10.1111/j.1533-2500.2007.00171.x. PMID:18211591.
  2. Hardy TA. Spinal Cord Anatomy and Localization. Continuum (Minneapolis, Minn.). 2021. doi:10.1212/con.0000000000000899. PMID:33522735.
Atualizado em 4 jun 2026 Leitura 11 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A descrição anatômica é uma simplificação didática, e a anatomia normal varia entre as pessoas.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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  • Jose de Olieira Silva

    Excelente, uma aula magnifica

  • Essa exposição detalhada sobre as estruturas que compõem nossa coluna só tem um problema: ela termina.
    Parabéns pela clareza.

  • Rosa Aparecida de Ávila

    Excelente essa leitura me ajudou a entender bem sobre a coluna no todo. E agora posso cuidar melhor de mim. Obrigada parabéns

  • Não posso deixar de enaltecer essa grande aula de Anatomia sobre a coluna.Prabens por tanto esclarecimento e ilustrações impecáveis.

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