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Coluna · Anatomia clínica

Anatomia da coluna vertebral: o que você precisa saber

A coluna tem cerca de 33 vértebras em cinco regiões. Veja onde fica cada parte, a lombar entre elas, para que serve cada peça e que dor ela costuma causar.

Em resumo
  • Onde fica a lombar? Na parte baixa das costas, entre a última costela e o topo da pelve, na altura da linha do cinto: são cinco vértebras, L1 a L5, as maiores da coluna. Se dói aí, hoje: mantenha-se em movimento dentro do limite da dor. Se não melhorar em 1 a 2 semanas, marque uma consulta.
  • A coluna reúne cerca de 33 vértebras em cinco regiões: 7 cervicais (incluindo o atlas e o áxis), 12 torácicas, 5 lombares, o sacro (5 fundidas) e o cóccix (3 a 5 fundidas), com 23 discos intervertebrais entre os segmentos móveis.
  • Cada estrutura tem uma dor associada: o disco gera a hérnia e a dor que desce pela perna; as facetas, a síndrome facetária; o estreitamento do canal, a estenose, com dor nas pernas ao caminhar; o deslizamento entre corpos, a espondilolistese; e o músculo, a dor miofascial.
  • A medula termina no cone medular por volta de L1 a L2; abaixo disso, o canal contém a cauda equina. Por isso uma hérnia lombar comprime raízes, não a medula, o que muda o significado clínico e o tratamento.
  • A maioria das dores da coluna responde a tratamento não cirúrgico, e o tratamento depende da estrutura responsável: a tabela em «Quando a anatomia vira dor» mostra o que costuma ajudar em cada uma.
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O que fazer agora

Se você chegou até aqui por causa de uma dor nova na coluna, o essencial: a maioria das dores da coluna é mecânica e benigna, e melhora mantendo-se ativo dentro do limite da dor, sem repouso prolongado na cama.

  • Mantenha-se em movimento dentro do limite da dor. Reduza o esforço que reproduz a dor, mas evite ficar parado; o repouso prolongado atrasa a melhora.
  • Observe o padrão da dor. Dor que fica só nas costas costuma ter um caminho diferente de dor que desce pelo braço ou pela perna. A tabela em «Quando a anatomia vira dor», abaixo, ajuda a situar a sua.
  • Marque uma consulta se a dor não melhorar em 1 a 2 semanas, mesmo sem nenhum sinal de alerta.

Pronto-socorro hoje se houver fraqueza nas pernas que piora em horas ou dias ou perda de controle para urinar ou evacuar ou dormência na região do períneo. Os demais sinais estão na lista de sinais de «Quando procurar avaliação».

As cinco regiões e as 33 vértebras

Diagrama da coluna vertebral de perfil com as regiões cervical, torácica, lombar e sacro identificadas
A coluna se divide em segmentos cervical, torácico e lombar, cada um com curvatura e função próprias

A coluna vertebral, ou raque, é uma estrutura óssea segmentada que vai da base do crânio até a pelve. No adulto, costuma reunir cerca de 33 vértebras, organizadas em cinco regiões. As três superiores são móveis e separadas por discos; as duas inferiores são, em sua maior parte, fundidas. Entender essa organização é o primeiro passo para localizar de onde vem uma dor.

A coluna cervical tem sete vértebras (C1 a C7) e é a mais móvel, porque sustenta a cabeça e permite girar e acenar. As duas primeiras são atípicas: o atlas (C1) é um anel sem corpo vertebral que sustenta o crânio na articulação atlanto-occipital, responsável pelo aceno de “sim”; o áxis (C2) projeta um pino ósseo para cima, o processo odontoide (dente do áxis), ao redor do qual o atlas pivota na articulação atlantoaxial, responsável por cerca de metade da rotação do “não”. Essa mobilidade tem custo: a parte alta do pescoço é onde nasce a cefaleia cervicogênica, a dor de cabeça que vem do pescoço, e parte da dor na nuca.

A coluna torácica tem doze vértebras (T1 a T12), cada uma articulada com um par de costelas pelas articulações costovertebrais e costotransversárias. Essa amarração à caixa torácica a torna a região mais estável e menos móvel, o que protege coração e pulmões, mas também explica por que a dor torácica de origem mecânica costuma vir das articulações costovertebrais e dos músculos, e não de hérnias, que ali são raras.

A coluna lombar tem cinco vértebras (L1 a L5), as maiores e mais robustas da parte móvel, porque suportam a maior parte do peso do tronco e são muito solicitadas ao inclinar, levantar peso e girar. É a sede mais frequente de dor nas costas. Abaixo dela, o sacro reúne cinco vértebras fundidas em um osso triangular, encaixado entre os ossos do quadril nas articulações sacroilíacas, fonte própria de dor lombar baixa e glútea. Por fim, o cóccix é formado por três a cinco vértebras fundidas (em geral quatro), vestígio de cauda que ancora ligamentos e músculos do assoalho pélvico e que, quando dói ao sentar, configura a coccidínia.

Cervical · C1 a C7
7 vértebras. Mais móvel; sustenta a cabeça. Atlas (C1) e áxis (C2) permitem o “sim” e o “não”. Dor cervical, cefaleia cervicogênica.
Torácica · T1 a T12
12 vértebras articuladas com as costelas. Mais estável; protege os órgãos do tórax. Dor costovertebral e miofascial.
Lombar · L1 a L5
5 vértebras, as maiores; suportam mais carga. Sede frequente de lombalgia, hérnia, faceta e estenose.
Sacro
5 vértebras fundidas. Liga a coluna à pelve pelas articulações sacroilíacas. Dor sacroilíaca.
Cóccix
3 a 5 vértebras fundidas. Fixa músculos e ligamentos do assoalho pélvico. Coccidínia.

Uma forma simples de memorizar as regiões móveis é associá-las a horários de refeição: 7 (café da manhã), 12 (almoço) e 5 (jantar). Esses 24 ossos móveis, somados ao sacro e ao cóccix, compõem o eixo central do esqueleto e dão à coluna sua forma de S quando vista de lado.

Dr. Marcus Pai aplicando acupuntura na região lombar de uma paciente deitada de bruços
Atendimento na clínica Acupuntura na região lombar durante atendimento

Onde fica a lombar e o que cada vértebra faz

A região lombar fica na parte mais baixa das costas, entre a última costela e o topo da pelve. No corpo, corresponde à faixa que sobra entre o gradil costal e a linha do cinto: atrás dela estão as cinco vértebras lombares, L1 a L5. Quem procura por zona lombar ou parte baixa das costas está falando exatamente dessa área.

Há uma referência prática para localizá-la: ponha as mãos na cintura, sobre os ossos do quadril. A linha traçada entre os pontos mais altos desses ossos, as cristas ilíacas, cruza a coluna na altura do espaço entre L4 e L5. É a partir dela que o médico conta cada nível na palpação. Já a expressão popular ossos das costas mistura estruturas diferentes: além das vértebras, fazem parte do relevo das costas as costelas, as escápulas e a pelve.

Diagrama da coluna vertebral em vista lateral com os segmentos cervical, torácico, lombar, sacro e cóccix identificados e as vértebras L1 a L5 nomeadas
Vista lateral da coluna. Os quatro segmentos e as cinco vértebras lombares, L1 a L5. A curva em S distribui a carga; a lombar concentra a maior parte dela.

Saber o nível importa porque cada vértebra lombar corresponde a uma raiz nervosa, e cada raiz tem músculo, faixa de pele e reflexo próprios. É essa combinação que o exame neurológico usa para dizer de onde vem uma dor que desce para a perna.

L1, a porta de entrada da lombar

Marca a transição toracolombar, a zona onde terminam as costelas e a coluna ganha mobilidade. É também perto dali que a medula espinhal termina no adulto, no cone medular, por volta de L1 a L2. Por concentrar a mudança de rigidez, a junção T12-L1 é o ponto preferencial das fraturas vertebrais por osteoporose. A raiz L1 leva sensibilidade à região da virilha.

L2 e os flexores do quadril

A raiz L2 inerva sobretudo o psoas, o principal flexor do quadril, e responde pela sensibilidade da face anterior e superior da coxa. Compressões altas, menos comuns, produzem dor anterior na coxa e dificuldade para subir escadas, padrão diferente da ciática clássica.

L3 e o quadríceps

Junto com L4, a raiz L3 move o quadríceps e participa do reflexo patelar. Sua faixa de pele cobre a face anterior do joelho. Hérnias de L2-L3 e L3-L4 são proporcionalmente mais frequentes em pessoas mais velhas e doem na frente da coxa, o que costuma confundir com problema do próprio joelho ou do quadril.

L4 e a marcha no calcanhar

A raiz L4 comanda o tibial anterior, que levanta a ponta do pé. No consultório ela é testada pedindo que a pessoa ande sobre os calcanhares; a fraqueza desse gesto aponta para L4. O reflexo patelar e a sensibilidade da face interna da perna completam a tríade desse nível.

L5, a raiz mais comprimida da coluna

A raiz L5 estende o dedão (extensor longo do hálux), ajuda a levantar o pé e estabiliza a pelve pelo glúteo médio. Sua faixa de pele cobre o dorso do pé até o dedão. Não tem reflexo próprio prático de testar, por isso a força do dedão é o melhor marcador. Como o disco L4-L5 é, com L5-S1, o que mais hernia, L5 é a raiz mais comprimida da coluna; nos casos graves a fraqueza evolui para o pé caído.

Por que quase toda hérnia acontece em L4-L5 e L5-S1

Cerca de nove em cada dez hérnias lombares ocorrem nos dois últimos discos. A explicação é mecânica: esses níveis somam a maior carga axial do corpo, o maior braço de alavanca ao inclinar o tronco e a transição entre a coluna móvel e o sacro fixo. Além disso, o ligamento longitudinal posterior, que reforça a parede de trás do disco, vai ficando mais estreito justamente ali, deixando os cantos de trás e dos lados menos protegidos, o caminho típico da hérnia que comprime a raiz.

Como o exame localiza o nível sem ressonância

Três pistas triangulam a raiz: o músculo fraco, a faixa de pele alterada e o reflexo diminuído. Marcha no calcanhar testa L4; força de extensão do dedão testa L5; marcha na ponta do pé e reflexo do tornozelo testam S1; o reflexo patelar fala por L3 e L4. Quando as três pistas apontam para o mesmo nível, a imagem serve para confirmar.

A coluna cervical em detalhe

Diagrama de duas vértebras cervicais com disco, articulação facetária e cápsula identificados
Entre duas vértebras cervicais há o disco à frente e, atrás, as articulações facetárias que guiam o movimento do pescoço.

A coluna cervical vai da base do crânio ao topo do tórax. Na nuca, o ponto ósseo mais saliente ao inclinar a cabeça para a frente é o processo espinhoso de C7, a vértebra proeminente, referência usada no exame para contar os níveis. É o segmento mais móvel da coluna e o que carrega menos peso: sustenta apenas a cabeça, cerca de 4 a 5 quilos.

Abaixo do atlas e do áxis, de C3 a C7, as vértebras empilham corpos menores com duas particularidades: pequenas quilhas laterais (articulações uncovertebrais) que guiam o movimento e que, com o desgaste, formam bicos de papagaio (osteófitos) capazes de estreitar a abertura por onde a raiz sai; e furos laterais que conduzem a artéria vertebral em direção ao crânio.

Uma regra anatômica explica os padrões de dor no braço: na cervical, cada raiz sai por cima da vértebra de mesmo número, e existe uma raiz C8 sem vértebra correspondente, saindo entre C7 e T1. Quando uma hérnia ou um bico de papagaio comprime essas raízes, a dor desce para o braço: a raiz C6 leva formigamento em direção ao polegar; C7, ao dedo médio; C8, aos dois últimos dedos e à musculatura fina da mão. O mapa por dedo está em dormência no braço. O exame procura ainda sinais de algo mais sério: quando o próprio canal cervical aperta a medula, surgem mãos desajeitadas (dificuldade para abotoar), marcha insegura e reflexos aumentados, o quadro de mielopatia cervical, que pede consulta nesta semana.

A cervical alta também participa de dores de cabeça. Os nervos de C1 a C3 chegam ao mesmo centro do tronco cerebral que recebe o nervo do rosto, o trigêmeo, e esse encontro explica a cefaleia cervicogênica, a dor de cabeça que nasce do pescoço. O quadro de dor cervical persistente, com ou sem irradiação, é detalhado em cervicalgia.

A coluna torácica, a dorsal, em detalhe

A coluna torácica, que muita gente conhece como coluna dorsal, ocupa o meio das costas: vai da altura das clavículas até a última costela. São doze vértebras, T1 a T12, e cada uma se articula com um par de costelas. Essa amarração transforma o segmento em uma caixa rígida que protege coração e pulmões, e muda o tipo de dor que nasce ali.

Pela rigidez, hérnias de disco torácicas são raras, respondem por menos de 1% das hérnias sintomáticas. A dor dorsal mecânica costuma vir de outras fontes: das articulações costovertebrais e costotransversárias, que inflamam com esforço de rotação ou tosse repetida, e da musculatura entre as escápulas, sobretudo trapézio médio e romboides. Há um detalhe clínico que evita exames desnecessários: boa parte da dor entre as escápulas é dor referida da cervical baixa, dos discos e facetas de C5 a C7, e melhora tratando o pescoço. Esse padrão é explicado em dor entre as escápulas.

As faixas de pele de cada raiz torácica se organizam na horizontal, como anéis: a linha dos mamilos corresponde a T4 e a do umbigo a T10. Por isso, dor em faixa ou em cinta no tórax, principalmente com queimação ou choque, sugere irritação de uma raiz torácica, e o herpes zóster pode doer nessa distribuição dias antes de qualquer bolha aparecer na pele. É também na torácica que se medem as curvas da escoliose e o aumento da cifose. O desgaste que aparece nos laudos dessa região está explicado em espondilose dorsal.

Sacro e cóccix em detalhe

Abaixo de L5 a coluna deixa de ser uma pilha de peças móveis. O sacro, cinco vértebras fundidas em um osso triangular, encaixa-se entre os dois ossos ilíacos e transmite todo o peso do tronco para a pelve e os membros inferiores. Na ponta dele, o cóccix encerra a coluna.

A articulação entre o sacro e o ilíaco, a sacroilíaca, move-se pouco, mas é fonte frequente de dor: tipicamente glútea, abaixo da linha de L5, com piora ao levantar da cadeira, ao subir escadas e ao apoiar o peso em uma perna só. No exame, manobras que forçam a articulação, como cruzar a perna em forma de 4 e comprimir ou afastar a pelve, ajudam a apontá-la como origem (veja dor sacroilíaca). A gestação e o pós-parto deixam essa articulação mais frouxa e dolorosa, e doenças inflamatórias como a espondilite anquilosante começam por ela em gente jovem, com dor que melhora com movimento e piora com repouso.

Pelos furos do sacro saem as raízes S1 a S4. A raiz S1 completa o exame neurológico do membro inferior: caminhar na ponta dos pés testa sua força, o reflexo do tornozelo (aquileu) depende dela e sua faixa de pele cobre a face lateral do pé. As raízes sacrais mais baixas inervam bexiga, intestino e períneo, e é por isso que dormência na região que encosta no selim e alteração urinária junto com dor lombar configuram a emergência da síndrome da cauda equina (veja a lista de sinais adiante).

O cóccix, três a cinco peças fundidas, ancora ligamentos e parte do assoalho pélvico. Quando dói, o quadro é a coccidínia: dor na ponta da coluna ao sentar, principalmente em superfícies duras, e uma fisgada característica no movimento de levantar. Trauma em queda sentada, parto e longas horas sentado são os gatilhos habituais, e parte dos casos vem de tensão do próprio assoalho pélvico, não do osso. O tema tem página própria em dor no cóccix.

A vértebra, as articulações facetárias e os ligamentos

Vértebra vista de cima com corpo vertebral, pedículo, lâmina e medula espinhal identificados por setas
Cada vértebra reúne corpo, pedículo e lâmina ao redor do canal que abriga a medula espinhal

Apesar das diferenças de tamanho, a maioria das vértebras móveis segue um mesmo plano com duas partes principais. Na frente está o corpo vertebral, um bloco ósseo cilíndrico que sustenta o peso e sobre o qual se apoiam os discos; quanto mais baixa a vértebra, maior o corpo, o que explica o volume das lombares. Atrás está o arco vertebral, formado por dois pedículos (as colunas laterais) e duas lâminas (o teto).

Corpo e arco delimitam o forame vertebral, e o empilhamento desses forames forma o canal vertebral, o túnel ósseo que aloja a medula. É a redução desse canal, por bicos de papagaio, ligamento engrossado ou disco abaulado, que define a estenose de canal.

Do arco partem sete processos, que funcionam como alavancas e pontos de encaixe: o espinhoso, para trás, na linha média (as proeminências palpáveis ao deslizar a mão pelas costas); os dois transversos, para os lados; e quatro processos articulares, dois acima e dois abaixo. São esses processos articulares que, com os da vértebra vizinha, formam as articulações facetárias (ou zigapofisárias) de cada lado, atrás do disco.

A faceta é uma articulação como a do joelho, com cartilagem, líquido lubrificante e uma cápsula cheia de terminações nervosas, que vêm de um pequeno ramo do nervo (ramo medial) de dois níveis vizinhos. Essa inervação é a base da síndrome facetária: dor nas costas que tipicamente piora ao estender e girar o tronco e que pode irradiar para a nádega ou a coxa sem seguir o trajeto de uma raiz (veja dor facetária). É esse ramo medial que o bloqueio facetário anestesia. Entre o corpo, à frente, e a faceta, atrás, fica de cada lado uma abertura lateral, o forame intervertebral, por onde sai a raiz nervosa.

Os ossos não se mantêm alinhados sozinhos: dependem de ligamentos. O ligamento longitudinal anterior corre na frente dos corpos e limita a extensão; o ligamento longitudinal posterior corre atrás dos corpos, dentro do canal, e fica mais estreito na lombar baixa, como explica o destaque sobre L4-L5 e L5-S1. O ligamento amarelo (flavo) reveste a face interna das lâminas e, quando se espessa com a idade, é uma das causas de estenose.

Os ligamentos supraespinhoso e interespinhoso conectam os processos espinhosos e limitam a flexão. Quando a estabilidade entre dois corpos falha, seja por defeito do arco (espondilólise) ou por degeneração, uma vértebra pode deslizar sobre a de baixo, configurando a espondilolistese.

O disco intervertebral, a medula e as raízes nervosas

Render lateral de duas vértebras com o disco intervertebral roxo entre os corpos e a raiz nervosa saindo ao lado
O disco intervertebral funciona como amortecedor entre os corpos vertebrais de cada segmento

Entre cada par de vértebras móveis, do pescoço ao fim da lombar (menos entre o atlas e o áxis), há um disco intervertebral, cerca de 23 ao todo. Cabe a eles a tarefa dupla de absorver impacto e permitir que os ossos se movam sem atrito direto.

Cada disco tem duas partes que trabalham juntas. No centro está o núcleo pulposo, um gel rico em água e proteoglicanos que se comporta como uma almofada hidráulica: sob carga, ele pressuriza e distribui a força em todas as direções. Ao redor, o ânulo fibroso é um anel de lâminas concêntricas de colágeno em orientação cruzada, que contém o núcleo e resiste à tração e à torção. O disco do adulto quase não tem vasos sanguíneos e se nutre pelo contato com as vértebras, o que ajuda a explicar por que se recupera devagar.

Com a idade, o núcleo perde água e o disco perde altura, um processo de degeneração discal que é em boa parte fisiológico e muitas vezes assintomático. Quando uma fissura do ânulo permite que parte do núcleo se desloque, ocorre a hérnia de disco, classificada em protrusão (ânulo íntegro), extrusão (material além do ânulo) e sequestro (fragmento livre). A hérnia tende a sair para trás e para o lado e a comprimir a raiz do nível de baixo, gerando dor que desce pela perna; entender a estrutura do disco ajuda a compreender por que a maioria dos casos melhora com tratamento conservador, como detalhamos em hérnia de disco: o que é, causas, sintomas e tratamentos.

Dentro do canal corre a medula espinhal, que conecta o cérebro ao corpo. Um detalhe anatômico muda tudo na prática: a medula não desce até o fim da coluna. Ela termina no cone medular, por volta de L1 a L2 no adulto.

Abaixo desse ponto, o canal lombar contém apenas o feixe de raízes lombossacras solto no líquor, a cauda equina. Por isso uma hérnia lombar baixa comprime raízes, não a medula, o que costuma ser menos grave; a exceção é a compressão de várias raízes da cauda ao mesmo tempo, a síndrome da cauda equina, emergência cirúrgica explicada em hérnia de disco afeta o intestino?

Em cada nível, pares de raízes nervosas deixam o canal pelas aberturas laterais. Cada raiz comanda um grupo de músculos, leva a sensibilidade de uma faixa de pele e participa de um reflexo. Por isso a compressão de uma raiz dá um padrão reconhecível, o mesmo mapa de L1 a S1 descrito em «Onde fica a lombar». É esse mapa que localiza o nível numa dor que desce pela perna, tema da dor ciática.

Curvaturas e músculos que estabilizam a coluna

Figura de perfil com a coluna mostrando a cifose torácica e a lordose lombar
Vista de perfil revela as curvaturas em S que distribuem a carga e dão estabilidade à coluna

Vista de frente, a coluna saudável é reta; vista de lado, descreve curvas alternadas que fazem parte do projeto. Há duas lordoses (concavidade posterior), na cervical e na lombar, e duas cifoses (concavidade anterior), na torácica e na sacral. Esse arranjo em S age como mola: distribui cargas, amortece a marcha e mantém a cabeça equilibrada sobre a pelve com o menor gasto muscular. Quando as curvas se acentuam ou desviam, recebem nomes próprios, hipercifose, hiperlordose e escoliose (desvio lateral), mas pequenas variações são comuns e nem sempre causam sintomas.

Toda essa arquitetura cumpre três funções que se sustentam mutuamente: suporte do peso, movimento e proteção da medula e das raízes. Nenhuma delas se sustenta apenas com osso e ligamento, que são estabilizadores passivos. É preciso estabilidade ativa, e ela vem da musculatura.

A musculatura organiza-se em planos com papéis distintos. Os eretores da espinha (iliocostal, longuíssimo, espinhal), superficiais e longos, estendem o tronco e controlam a inclinação para a frente. Mais profundos, os multífidos cruzam poucos segmentos de cada vez e fornecem o controle fino e a estabilidade segmentar; sua atrofia e sua infiltração por gordura estão associadas à dor lombar crônica e recorrente. À frente, o transverso do abdome funciona como uma cinta que aumenta a pressão intra-abdominal e enrijece a coluna antes do movimento, e atua em conjunto com o diafragma e o assoalho pélvico para formar o cilindro de estabilização central, o chamado core.

É a disfunção dessa musculatura, mais do que qualquer achado de imagem isolado, que costuma perpetuar a dor, e é por isso que o reforço desse sistema é central no tratamento. O exercício de controle do tronco costuma levar de 4 a 8 semanas para mostrar efeito; o fisioterapeuta ajusta séries e carga na consulta.

Os músculos profundos também carregam pontos-gatilho miofasciais, nós de tensão que doem no local e irradiam dor à distância, base da dor miofascial.

Quando a anatomia vira dor

Conhecer a anatomia ajuda a entender a dor, mas com uma ressalva importante: um achado de imagem, como uma desidratação de disco, um abaulamento ou um pequeno desvio de curvatura, nem sempre é a causa da dor. Protrusões, desgaste do disco e artrose das facetas são frequentes mesmo em quem não sente nada, e aumentam com a idade (veja o que o raio-X da coluna mostra). Por isso a avaliação conecta a queixa, o exame físico e, só quando isso muda a conduta, a imagem.

Com esse mapa, cada estrutura aponta para uma dor típica e para o que costuma ajudar. Os procedimentos com agulha estão descritos em injeção para dor na coluna.

O que costuma ajudar em cada estrutura (o plano é definido na consulta)
EstruturaDor típicaO que costuma ajudarLeia mais
Disco e raiz nervosaDor que desce pela perna ou pelo braço, com formigamentoExercício orientado; bloqueio radicular quando a dor da raiz trava a reabilitaçãohérnia de disco · dor ciática
FacetaDor nas costas que piora ao estender e girar o troncoExercício; bloqueio facetário quando a dor persistedor facetária
SacroilíacaDor na nádega, abaixo da cintura, ao levantar da cadeiraExercício de quadril e tronco; bloqueio sacroilíaco quando a dor persistedor sacroilíaca
MúsculoDor local que irradia, com nó dolorido ao apertarAgulhamento seco, acupuntura e exercíciodor miofascial
Canal estreitoDor nas pernas ao caminhar que alivia ao sentar ou inclinar o troncoExercícios com o tronco inclinado para a frente e caminhada em trechos curtosestenose lombar
CóccixDor na ponta da coluna ao sentarAjuste do assento e almofada; os demais passos na página própriacoccidínia

Quando procurar avaliação

A regra prática é simples: dor na coluna que não melhora em 1 a 2 semanas, que desce para braço ou perna, que acorda à noite ou que vem com fraqueza, febre ou perda de peso pede avaliação médica, porque cada um desses sinais aponta para mecanismos diferentes. Marque o que você sente.

Marque o que você sente

  • Perda de controle para urinar ou evacuar, ou dormência na região do períneo, a que encosta no selim: sugere síndrome da cauda equina.
  • Fraqueza nas pernas que surge de repente ou piora em horas ou dias, com dificuldade para andar na ponta dos pés ou nos calcanhares.
  • Dor forte após queda ou trauma de alta energia, ou após pequeno esforço em quem tem osteoporose.
  • Febre, perda de peso inexplicada ou histórico de câncer junto com a dor, que levantam suspeita de infecção ou tumor.
  • Dor que piora à noite e em repouso.
  • Mãos desajeitadas, dificuldade para abotoar ou marcha insegura.
  • Dor que desce para a perna ou para o braço, com formigamento, sem perda de força.
  • Dor que não melhorou após 1 a 2 semanas de cuidados em casa.

Nada marcado? Siga os cuidados do topo por 1 a 2 semanas; sem melhora, marque consulta.

Marcou um ou dois? Marque consulta. Febre, perda de peso, câncer, dor noturna ou mãos desajeitadas: nesta semana. Dor que desce para o membro sem fraqueza: se não melhorar em 1 a 2 semanas, ou antes se a dor for forte.

Marcou item em destaque? Pronto-socorro agora ou ligue 192. Três ou mais? Consulta nesta semana.

O tratamento depende da causa e da região, e por isso está detalhado nas páginas de cada quadro: dor lombar e lombalgia para a parte baixa das costas, cervicalgia para o pescoço, dor ciática quando a dor desce pela perna e coccidínia para a dor ao sentar. Em todos eles a lógica é a mesma: identificar a estrutura responsável com exame físico dirigido e tratar com um plano individualizado, com reabilitação ativa como base.

Como avaliamos a dor na coluna aqui

Na consulta, o fisiatra conta os níveis da coluna pela palpação e testa força, sensibilidade e reflexos de cada raiz: andar na ponta dos pés e nos calcanhares, levantar o dedão, levantar a perna esticada deitado. Depois faz manobras que forçam o disco, a faceta e a sacroilíaca. Na maioria das vezes você sai com a estrutura provável e um plano, e a ressonância ou o raio-X só entram quando mudam a conduta.

Quando indicados, agulhamento seco, acupuntura, infiltração de ponto-gatilho e bloqueio facetário, radicular ou sacroilíaco podem começar no mesmo dia da consulta. A reabilitação segue com o fisioterapeuta da equipe, no mesmo endereço, e o plano é revisto em 3 a 6 semanas.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Quantas vértebras tem a coluna vertebral?

O adulto costuma ter cerca de 33 vértebras: 7 cervicais, 12 torácicas e 5 lombares (as 24 móveis), mais 5 fundidas no sacro e em geral 4 no cóccix. Como o número de vértebras do cóccix varia entre três e cinco, o total pode oscilar levemente.

Onde fica a L5 na coluna?

A L5 é a última vértebra lombar, logo acima do sacro, um pouco abaixo da linha que liga os pontos mais altos dos ossos do quadril. O disco entre ela e o sacro, o L5-S1, é com o L4-L5 o que mais hernia.

Coluna dorsal e coluna torácica são a mesma coisa?

Sim. São dois nomes para as 12 vértebras do meio das costas, T1 a T12, as que se articulam com as costelas. Os laudos usam os dois termos.

Um achado de hérnia ou desgaste na ressonância explica a dor?

Nem sempre. Protrusões discais, degeneração e artrose facetária são frequentes mesmo em pessoas sem dor, e aumentam com a idade. Por isso a imagem é interpretada junto da queixa e do exame físico, e não isoladamente. Ela é mais útil quando muda a conduta, por exemplo diante de sinais de alerta ou quando se considera um procedimento.

Por que o tratamento foca em fortalecer a musculatura?

Porque a estabilidade ativa da coluna depende dos músculos profundos, sobretudo multífidos e transverso do abdome. Por isso o exercício orientado é a base, somado, conforme o caso, a acupuntura, agulhamento seco, infiltrações e bloqueios. As causas e o caminho completo estão no guia de tratamento de lombalgia ou dor lombar.

Quando uma dor na coluna precisa de cirurgia?

Na maioria das vezes não precisa: a dor que fica só nas costas melhora sem operar. A cirurgia entra em discussão em situações definidas, como hérnia com perda de força que piora ou dor que desce pela perna e não cede ao tratamento sem cirurgia bem conduzido, estenose de canal sintomática que limita a marcha, instabilidade ou espondilolistese com deslizamento progressivo, e nas emergências e sinais de alerta (síndrome da cauda equina, fratura instável, suspeita de tumor ou infecção). A decisão depende do quadro clínico e de sua evolução, não apenas do achado de imagem. Esses procedimentos não são realizados em nossa clínica, que mantém abordagem não cirúrgica e encaminha quando indicado.

Qual o papel dos remédios na dor da coluna?

É um papel adjuvante e por tempo definido: o medicamento ajuda a baixar a dor para que a reabilitação avance, mas não trata a causa mecânica nem substitui o exercício. Quais remédios, em que dose e por quanto tempo está no guia de remédios para dor na coluna; a prescrição é definida pelo médico.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Atuação acadêmica e institucional
  • Diretor do Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura
  • Professor Colaborador da Pós-Graduação em Dor da USP
  • Ex-membro da Câmara Técnica de Acupuntura do CREMESP
Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Raj PP. Intervertebral disc: anatomy-physiology-pathophysiology-treatment. Pain practice: the official journal of World Institute of Pain. 2008. doi:10.1111/j.1533-2500.2007.00171.x. PMID:18211591.
  2. Hardy TA. Spinal Cord Anatomy and Localization. Continuum (Minneapolis, Minn.). 2021. doi:10.1212/con.0000000000000899. PMID:33522735.
Leitura 24 min

A descrição anatômica é uma simplificação didática, e a anatomia normal varia entre as pessoas.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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  • Jose de Olieira Silva

    Excelente, uma aula magnifica

  • Essa exposição detalhada sobre as estruturas que compõem nossa coluna só tem um problema: ela termina.
    Parabéns pela clareza.

  • Rosa Aparecida de Ávila

    Excelente essa leitura me ajudou a entender bem sobre a coluna no todo. E agora posso cuidar melhor de mim. Obrigada parabéns

    • Faz quase dois anos que fraturei a coluna lombar- L2 e não sabia quase nada da estrutura dessa coluna. Hoje, tive o privilégio de ler essas explicações tão claras do Dr. MARCUS, a quem eu agradeço profundamente.

  • Não posso deixar de enaltecer essa grande aula de Anatomia sobre a coluna.Prabens por tanto esclarecimento e ilustrações impecáveis.

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