Vértebra de transição lombossacra: o que é e quando causa dor
A vértebra de transição lombossacra é uma variação congênita na junção L5 a S1, comum e quase sempre indolor. Quando dói, costuma ser a síndrome de Bertolotti.
- A vértebra de transição lombossacra é uma variação de formação da coluna na transição L5 a S1: a última lombar se aproxima do sacro (sacralização) ou a primeira sacra se solta como lombar (lombarização). É congênita e muito frequente.
- Na maioria das pessoas é um achado de imagem sem qualquer sintoma. Encontrá-la na ressonância ou na radiografia não significa, por si só, que ali esteja a causa da sua dor.
- Quando há mesmo dor relacionada, o quadro costuma ser a síndrome de Bertolotti, em que uma pseudoartrose dolorosa ou a sobrecarga das estruturas vizinhas gera a queixa. O tratamento é conservador, multimodal e individualizado.
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O que é a vértebra de transição
A coluna costuma ter cinco vértebras lombares (L1 a L5) e cinco sacras fundidas em um único osso, o sacro. A vértebra de transição lombossacra é uma variação dessa contagem: a vértebra do limite entre a região lombar e o sacro adquire características mistas, parte lombar e parte sacra. É uma variação de desenvolvimento, presente desde a formação da coluna, e não uma doença adquirida nem um sinal de desgaste.
Há dois sentidos possíveis para essa transição. Na sacralização, a quinta lombar (L5) se “agarra” ao sacro: seus processos transversos crescem e se aproximam ou se fundem à asa do sacro, de modo que L5 passa a se comportar, no todo ou em parte, como se fizesse parte do sacro. Na lombarização, ocorre o oposto: a primeira vértebra sacra (S1) se solta do bloco do sacro e ganha aparência de uma vértebra lombar extra, dando a impressão de existirem seis lombares. Os dois fenômenos são as duas faces da mesma variação na junção lombossacra.
A transição pode ser unilateral, quando só um lado da vértebra se modifica, ou bilateral, quando os dois lados se alteram. Pode ainda haver apenas um processo transverso aumentado que se aproxima do sacro sem tocá-lo, uma articulação falsa (pseudoartrose) entre o processo transverso e a asa do sacro, ou uma fusão óssea verdadeira. Essa gradação é descrita há décadas pela classificação de Castellvi, que organiza a variação em tipos conforme o tamanho do processo transverso e o tipo de contato com o sacro, e que ajuda o radiologista e o médico a falarem a mesma língua diante da imagem.
Vale separar dois nomes que costumam aparecer juntos no laudo e na busca. Vértebra de transição é a variação anatômica em si, o achado de imagem. Síndrome de Bertolotti é o quadro clínico de dor lombar atribuída a uma vértebra de transição, sobretudo quando existe uma pseudoartrose dolorosa entre o processo transverso alargado e o sacro. Ter a vértebra de transição não significa ter a síndrome: a imensa maioria das pessoas com a variação nunca desenvolve a síndrome de Bertolotti.

Um achado comum, quase sempre sem sintoma
A vértebra de transição lombossacra é uma das variações anatômicas mais frequentes da coluna. Estimativas da literatura situam sua presença em uma faixa ampla da população geral, com variação importante entre estudos conforme o método de imagem e o critério usado para defini-la. A leitura prática é direta: trata-se de uma variação comum, encontrada com regularidade em exames de pessoas que nunca tiveram dor nas costas.
Por ser tão prevalente, a variação aparece muitas vezes como achado incidental: a pessoa faz uma ressonância ou uma radiografia por outro motivo, e o laudo descreve a sacralização ou a lombarização sem que ela tenha qualquer sintoma na coluna. Esse cenário é a regra, não a exceção. Encontrar uma vértebra de transição na imagem, isoladamente, descreve a anatomia da sua coluna, e não a causa de uma dor.
Há, porém, um detalhe de relevância clínica que vai além da dor. A presença de uma vértebra de transição altera a numeração dos níveis da coluna e pode confundir a contagem das vértebras na imagem. Isso tem consequência prática quando se planeja uma infiltração, um bloqueio ou uma cirurgia: operar ou infiltrar o nível errado por causa de uma contagem equivocada é um risco real e bem descrito. Por isso, diante de uma transição, o radiologista e o médico assistente redobram o cuidado em identificar e nomear cada nível, frequentemente com uma imagem que abranja toda a coluna para contar as vértebras a partir de cima.
“Tenho uma vértebra a mais (ou a menos) na coluna, então minha estrutura é defeituosa e isso explica toda a minha dor nas costas.”
É uma variação anatômica congênita comum, presente em muita gente sem dor nenhuma. Ela só entra na explicação da dor quando o exame clínico aponta para ela; na maioria das vezes, a queixa tem outra origem ou várias origens somadas.
Quando a vértebra de transição causa dor: a síndrome de Bertolotti
Em uma parcela das pessoas, a vértebra de transição é, de fato, a fonte de uma dor lombar baixa, em geral persistente e localizada na transição com a nádega, de um lado. Esse quadro recebe o nome de síndrome de Bertolotti. A dor costuma piorar ao ficar muito tempo em pé, ao estender o tronco para trás e ao girar a coluna para o lado da transição, e pode ser reproduzida quando se pressiona a região do processo transverso alargado.
A dor da síndrome de Bertolotti tem mais de um mecanismo possível, e eles costumam coexistir. Entender qual predomina ajuda a escolher o tratamento.
Pseudoartrose dolorosa
A articulação falsa entre o processo transverso alargado de L5 e a asa do sacro carrega carga repetida e pode inflamar, tornando-se ela própria um gerador de dor, como uma articulação que não foi feita para aquele movimento.
Sobrecarga adjacente
Quando o nível de transição fica mais rígido, o disco e as articulações facetárias do segmento logo acima (em geral L4 a L5) recebem mais carga e mais movimento, e podem se tornar a verdadeira fonte da dor.
O primeiro mecanismo é a pseudoartrose dolorosa: a articulação falsa entre o processo transverso alargado e a asa do sacro, submetida a carga e a microtraumas repetidos, inflama e passa a doer. É o gerador de dor mais característico da síndrome e o alvo de uma das manobras diagnósticas e terapêuticas mais úteis, a infiltração desse ponto, descrita adiante. O segundo mecanismo é a sobrecarga das estruturas vizinhas. Como o nível de transição costuma ser mais rígido (às vezes praticamente fundido ao sacro), o segmento imediatamente acima passa a se mover e a suportar mais carga.
Com o tempo, o disco e as articulações facetárias desse nível adjacente podem degenerar antes do esperado e se tornar, eles próprios, a origem da dor. Há ainda relatos de irritação de raízes nervosas próximas quando a anatomia alterada estreita um espaço, mas esse é um cenário menos comum.
Na prática, a pista que mais sugere que a transição está envolvida é uma dor lombar baixa, de um lado só, bem localizada sobre a região do processo transverso alargado, que piora ao estender e girar o tronco e que se reproduz à palpação daquele ponto. Mesmo assim, a confirmação depende de afastar as outras fontes de dor lombar, porque elas convivem com a variação com muita frequência.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa e termina na clínica, com a imagem como apoio. A variação anatômica é vista na radiografia simples da coluna lombossacra, que mostra bem o processo transverso alargado e seu contato com o sacro, e na ressonância magnética e na tomografia, que detalham a articulação falsa, o disco e as facetas. Mas, como já dito, ver a transição na imagem não fecha o diagnóstico de que ela é a fonte da dor. O que fecha é a coerência entre o achado e o exame.
O passo decisivo, quando a transição é candidata a causar a dor, costuma ser um teste diagnóstico: injeta-se uma pequena quantidade de anestésico local (por vezes com corticoide), guiada por imagem, exatamente na pseudoartrose entre o processo transverso e o sacro. Se a dor habitual da pessoa some por algumas horas logo após o bloqueio, isso é uma evidência forte de que aquele ponto é, de fato, o gerador da dor, e ao mesmo tempo abre uma janela terapêutica. É um exemplo do princípio que guia toda a investigação: trata-se o paciente, com a imagem como apoio ao exame, e o melhor “exame” muitas vezes é a resposta a uma intervenção dirigida.
Boa parte do trabalho diagnóstico é, na verdade, de exclusão. A dor lombar baixa tem várias origens possíveis que convivem com a vértebra de transição, e é preciso saber qual delas pesa mais no seu caso antes de atribuir tudo à variação anatômica.
| Origem | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Pseudoartrose da transição (Bertolotti) | Dor de um lado, bem localizada sobre o processo transverso alargado | Piora ao estender e girar para o lado; alivia muito com o bloqueio dirigido ao ponto |
| Facetária (artrose das facetas) | Dor lombar baixa, mais de um lado, do nível adjacente | Piora ao estender e girar o tronco para trás; alivia ao flexionar. Ver página dedicada |
| Sacroilíaca | Dor sobre a nádega e a própria transição lombossacra | Piora ao levantar de cadeira e subir escada; manobras específicas da articulação |
| Discogênica / disco do nível adjacente | Dor lombar central, axial | Piora ao sentar e inclinar para a frente; não desce pela perna em trajeto de nervo |
| Radicular (ciática) | Dor que desce para a nádega e a perna | Trajeto de raiz (L5 ou S1), com formigamento ou fraqueza |
| Miofascial | Dor difusa na musculatura paravertebral e no quadrado lombar | Bandas tensas e pontos-gatilho à palpação, que reproduzem a dor |
Essas fontes não se excluem e, na transição lombossacra, costumam andar juntas: é comum encontrar uma pseudoartrose com algum grau de dor somada a uma sobrecarga facetária no nível de cima e a pontos-gatilho na musculatura ao redor. Reconhecer essa convergência é o que sustenta a lógica de um tratamento multimodal, que ataca mais de um mecanismo ao mesmo tempo em vez de apostar tudo numa única explicação.
Algumas observações de consultório a respeito desse achado:
A cena mais comum não é dor, e sim susto. A pessoa chega com um laudo que diz “sacralização de L5” ou “vértebra de transição” e o lê como uma malformação grave, às vezes depois de pesquisar e se assustar mais ainda. Boa parte da primeira consulta é desfazer isso: explicar que é uma variação com que muita gente vive sem nunca saber, e que o exame de hoje é o que decide se ela tem ou não relação com a queixa, não a frase no relatório.
Existe a minoria oposta, em que a transição é mesmo a culpada. O padrão que me faz suspeitar é constante: dor de um lado só, apontada com um dedo bem sobre a megaapófise, que piora ao ficar em pé e ao arquear ou girar o tronco para aquele lado. Nesses casos um bloqueio-teste dirigido à pseudoartrose costuma encerrar a discussão; quando a dor habitual some por algumas horas, o gerador deixa de ser hipótese.
A cautela que mais repito a colegas é a da contagem de níveis. Numa coluna com transição, contar as vértebras só pela lombar engana, e já vi planos de infiltração e de cirurgia mirarem o segmento errado por isso. Antes de qualquer agulha que dependa do nível, vale uma imagem que conte as vértebras a partir do alto e a conferência do nível com quem vai executar o procedimento.
O que mais alivia quem chega assustado é a notícia de que, na maioria, não há nada a “consertar” na vértebra, e de que mesmo quando ela dói o caminho começa pela reabilitação, não pela cirurgia.
Sinais de alerta
A dor associada à vértebra de transição é, na imensa maioria das vezes, benigna e mecânica. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, porque apontam para causas que mudam a conduta e que nada têm a ver com a variação anatômica. Procure atendimento sem demora se notar qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dificuldade ou incapacidade de urinar, perda do controle da urina ou das fezes.
- Dormência na região da sela (entre as pernas, ao sentar), sugerindo síndrome da cauda equina.
- Fraqueza nas pernas que piora de forma progressiva ou que afeta os dois lados.
- Febre, perda de peso sem explicação ou história de câncer.
- Dor após trauma significativo, ou em pessoa em uso de corticoide ou imunossuprimida.
- Dor que não alivia com o repouso, acorda à noite ou começa após os 50 anos pela primeira vez.
Esses sinais não fazem parte do quadro da síndrome de Bertolotti e, quando presentes, deslocam a investigação para outras hipóteses, algumas urgentes. Na ausência deles, a dor lombar ligada à transição costuma responder bem ao tratamento conservador ao longo de algumas semanas. A abordagem ampla da dor lombar, incluindo a investigação completa dessas bandeiras, é detalhada no guia de tratamento da lombalgia.
Tratamento na clínica: o plano não-cirúrgico e multimodal
O tratamento da dor relacionada à vértebra de transição é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. Não se trata, e não se deve tratar, a variação anatômica em si: ela é parte da arquitetura da sua coluna. O objetivo é reduzir a dor, recuperar a função e distribuir melhor a carga sobre um segmento que nasceu diferente.
A base é ativa, com exercício orientado e controle de carga (detalhada na seção sobre o tratamento não farmacológico), e as técnicas conduzidas em clínica a seguir se somam a ela conforme o mecanismo que predomina no seu caso. O tratamento medicamentoso, de papel adjuvante, e as raras situações em que se discute cirurgia têm seções próprias adiante.
Educação e controle de carga
Entender que o achado é comum e benigno, ajustar a forma de carregar peso e as posturas que sobrecarregam a transição, e manter-se ativo; o repouso prolongado piora o quadro.
Reabilitação e exercício
Estabilização do tronco, fortalecimento de glúteos e cadeia posterior e controle motor, para distribuir melhor a carga sobre o segmento de transição.
Acupuntura e eletroacupuntura
Baixa o ruído de dor de fundo enquanto a reabilitação avança, com alvo segmentar coerente nos níveis L5 e S1 da junção.
Agulhamento seco / infiltração de pontos-gatilho
Para o componente miofascial da musculatura paravertebral e glútea sobrecarregada, frequente nesses quadros.
Infiltração / bloqueio da pseudoartrose
Guiado por imagem, dirigido à articulação falsa entre o processo transverso e o sacro. Valor diagnóstico e terapêutico.
Bloqueio facetário do nível adjacente
Quando a sobrecarga recai sobre as facetas de L4 a L5. Confirma o gerador e abre janela para a reabilitação.
Radiofrequência
Prolonga o resultado quando o bloqueio-teste é positivo mas o alívio é apenas temporário e se repete.
Como o quadro convive com mais de um gerador de dor, o plano ataca o mecanismo que predomina em cada pessoa. Os dois alvos mais comuns na transição sintomática orientam a escolha das técnicas.
Pseudoartrose dolorosa
Articulação falsa entre o processo transverso alargado de L5 e a asa do sacro, que inflama sob carga repetida e se torna ela própria geradora de dor.
→ infiltração/bloqueio dirigido ao pontoSobrecarga do nível adjacente
Com a transição mais rígida, o disco e as facetas do segmento logo acima (em geral L4 a L5) recebem mais carga e podem se tornar a verdadeira fonte da dor.
→ bloqueio facetário e, se positivo, radiofrequênciaComponente miofascial
A musculatura que cruza a junção (paravertebral baixa, quadrado lombar, glúteos) assume a estabilização que o segmento rígido não faz e desenvolve pontos-gatilho.
→ agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilhoA base ativa deste plano, com exercício terapêutico, controle de carga, Reeducação Postural Global e Pilates clínico, é detalhada na seção sobre o tratamento não farmacológico. As técnicas em clínica seguem por ordem de escalonamento e estão detalhadas a seguir.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- O que é
- Na transição sintomática, recurso para baixar o ruído de dor de fundo enquanto a reabilitação avança; não é o tratamento de primeira linha.
- Mecanismo
- Modula a nocicepção por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, ativação de vias inibitórias descendentes e liberação de opioides endógenos. O alvo segmentar é coerente: a inervação dolorosa da junção lombossacra entra na medula nos mesmos níveis baixos (L5 e S1) onde se agulha a musculatura paravertebral e glútea ao redor da megaapófise. Na eletroacupuntura, corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides.
- Evidência
- Moderada A evidência específica para a vértebra de transição é escassa; o que existe é evidência de qualidade moderada na lombalgia crônica mecânica, da qual a transição sintomática é um subtipo.
- O que esperar
- Costuma ajudar na dor persistente de um lado só que acompanha a pseudoartrose; o ganho prático mais consistente é permitir reduzir a dose de anti-inflamatório. Número de sessões e intervalo definidos caso a caso, com reavaliação objetiva.
- Limitações
- Quando a dor não cede, a conduta é rever o diagnóstico (confirmar se o gerador é mesmo a pseudoartrose ou a faceta adjacente), e não simplesmente repetir agulhamentos.
Agulhamento seco e infiltração da pseudoartrose
A transição vem quase sempre acompanhada de sobrecarga muscular: o lado da megaapófise tende a trabalhar travado, e a musculatura que cruza a junção (paravertebral lombar baixa, quadrado lombar e glúteos, sobretudo o médio e o piriforme do lado afetado) assume a estabilização que o segmento rígido não faz e desenvolve pontos-gatilho que somam dor e perpetuam o ciclo. Essa camada miofascial é parte do quadro; ignorá-la costuma explicar por que uma infiltração bem dirigida à pseudoartrose alivia menos do que se esperava.
- O que é
- No agulhamento seco (dry needling), agulha fina inserida no ponto-gatilho. Quando o ponto é refratário ao agulhamento e à terapia manual, a infiltração do ponto-gatilho com anestésico local rompe o ciclo, sempre combinada ao exercício.
- Mecanismo
- A agulha desencadeia a contração reflexa local da banda tensa e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, com efeito analgésico local e segmentar.
- Evidência
- Moderada Indicado quando o exame mostra bandas tensas reproduzindo a dor.
- O que esperar
- Parte das pessoas sente alívio na hora; em outras ele aparece ao longo dos dias seguintes, com dor leve no local por um a dois dias.
- Limitações
- Desconforto transitório e equimose; cautela em quem usa anticoagulante. Cuidado anatômico próprio: na lombar baixa a agulha é mantida superficial e direcionada para longe do trajeto das raízes que emergem na junção, e não se busca a pseudoartrose profunda com técnica de ponto-gatilho.
Quando o gerador de dor é a própria pseudoartrose, a peça-chave é a infiltração desse ponto, ou bloqueio, guiada por imagem: injeta-se anestésico local, por vezes com corticoide, exatamente na articulação falsa entre o processo transverso e o sacro. Como teste, confirma que aquele ponto é a fonte da dor quando o alívio é imediato e expressivo. Como tratamento, interrompe o ciclo de dor e abre janela para avançar a reabilitação. O alívio pode durar de dias a semanas e é combinada com o exercício para sustentar o resultado, nunca usada de forma isolada.
É indicada quando o quadro é compatível com a pseudoartrose e não cede ao plano de base; suas limitações incluem o caráter temporário do efeito, o desconforto local e a parcimônia no uso de corticoide. A orientação por imagem aumenta a precisão e a segurança e reduz o risco, bem descrito na transição, de mirar o nível errado por causa da contagem alterada das vértebras.
Bloqueio facetário e radiofrequência
- Bloqueio das facetas do nível adjacente
- Quando a sobrecarga recai sobre o segmento imediatamente acima da transição (em geral L4 a L5), a dor pode nascer das articulações facetárias desse nível, e não da pseudoartrose. O bloqueio facetário guiado por imagem, com anestésico e por vezes corticoide na articulação ou sobre os ramos mediais que a inervam, tem o mesmo valor duplo: confirma o gerador da dor quando o alívio é expressivo e abre janela para a reabilitação.
- Radiofrequência
- Quando a infiltração da pseudoartrose ou das facetas confirma um gerador mas o alívio é apenas temporário e se repete, usa calor controlado por corrente de alta frequência na ponta de uma agulha guiada por imagem para interromper a condução dos pequenos nervos que inervam a articulação dolorosa (nas facetas, os ramos mediais), prolongando o resultado por meses.
- Evidência
- Limitada Procedimentos dirigidos, indicados depois de um bloqueio-teste positivo. Um bloqueio-teste facetário positivo é o pré-requisito para indicar a radiofrequência.
- Limitações
- Efeito temporário no caso dos bloqueios e necessidade de integrá-los ao plano ativo. Fazem parte de um plano multimodal: não substituem o exercício nem tratam a variação anatômica em si.
Controle inicial
Reduzir a sobrecarga sobre a transição, ajustar a forma de carregar peso e a postura mantida, e iniciar mobilidade e ativação do tronco, mantendo-se ativo.
Progressão
Fortalecimento progressivo, estabilização e técnicas em clínica; a dor costuma começar a ceder em intensidade e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, considera-se o bloqueio-teste da pseudoartrose ou das facetas e, conforme o resultado, a radiofrequência.
Se a melhora não vier no ritmo esperado, o passo seguinte na transição é específico: voltar à pergunta diagnóstica e, com um bloqueio-teste, decidir entre a pseudoartrose e a faceta adjacente como gerador, em vez de prolongar indefinidamente a mesma série de sessões. A meta é reduzir a dor a um nível que não limite a vida e dar à coluna condições de tolerar a carga; fazer desaparecer da imagem uma vértebra que sempre teve aquele formato nunca foi o objetivo.
Tratamento não farmacológico: reabilitação e exercício
A reabilitação ativa é o eixo do tratamento da dor relacionada à vértebra de transição e a única medida que muda o curso do quadro de forma sustentada. As técnicas em clínica e a medicação aliviam o sintoma e abrem janela, mas o que reduz a recorrência é dar à coluna força e controle para tolerar a carga sobre um segmento que nasceu mais rígido. Na clínica, essa etapa é conduzida individualmente, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal com indicação médica.
Um raciocínio específico atravessa todas as abordagens a seguir. Como o nível de transição costuma ser mais rígido, às vezes praticamente fundido ao sacro, o segmento imediatamente acima (em geral L4 a L5) e a articulação sacroilíaca recebem mais carga e mais movimento. O objetivo da reabilitação não é mobilizar a transição, e sim distribuir melhor a carga: fortalecer e dar controle ao tronco, aos glúteos e à cadeia posterior para que o nível adjacente não se torne o elo fraco, e corrigir os gestos e posturas que concentram esforço sobre a transição. Outro princípio é o manejo da carga, não o repouso: parar por completo piora a dor lombar mecânica a médio prazo, e o caminho é reduzir temporariamente o que dói muito enquanto se reintroduz movimento de forma graduada.
Cinesioterapia: controle motor e estabilização do tronco
Exercício terapêutico progressivo de estabilização e controle motor do tronco e do quadril, conduzido e progredido por fisioterapeuta com base na tolerância à carga. Começa pela ativação do transverso do abdome e dos multífidos, que dão controle segmentar ao nível adjacente sobrecarregado, e progride para o fortalecimento dos glúteos e da cadeia posterior. Soma a dessensibilização ao movimento, reintroduzindo de forma graduada a extensão e a rotação do tronco, justamente os movimentos que reproduzem a dor da síndrome de Bertolotti. É a base do plano e o eixo de todo o resto.
Terapia manual e controle de carga no dia a dia
Técnicas manuais de mobilização de tecidos moles e articular, aplicadas como adjuvante para reduzir dor e facilitar o exercício, somadas à orientação de como ajustar a carga nas atividades cotidianas. A mobilização produz analgesia por mecanismos neurofisiológicos segmentares e descendentes e melhora transitoriamente a tolerância ao movimento; o efeito sobre a dor tende a ser de curta duração quando usada isoladamente. O controle de carga ajusta a forma de levantar peso, a postura mantida em pé, o tempo em posições que estendem ou giram o tronco e os gestos esportivos que estressam a transição. Não são tratamento isolado.
Na vértebra de transição especificamente, a literatura é de menor porte e a magnitude do efeito do exercício é modesta a moderada, sem protocolo isolado claramente superior. O que parece importar é a adesão e a progressão individualizada.
O exercício é a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na dor lombar mecânica, e a base do tratamento conservador da lombalgia. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é mantido depois do alívio para consolidar o ganho e reduzir recorrências; exercício mal dosado na fase muito aguda pode aumentar a dor de forma transitória, o que reforça a necessidade de supervisão e de progressão respeitada. Na clínica, a reabilitação é integrada à avaliação médica, de modo que o programa é ajustado ao componente predominante (pseudoartrose dolorosa, sobrecarga facetária do nível adjacente ou contribuição miofascial da musculatura paravertebral e glútea) e à tolerância de cada pessoa.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Na vértebra de transição, a cirurgia é rara e quase nunca necessária. A imensa maioria das pessoas com a variação nunca sente dor por causa dela, e mesmo quando há a síndrome de Bertolotti o quadro costuma responder ao tratamento conservador bem conduzido, somado, quando necessário, à infiltração dirigida e à radiofrequência. A decisão de operar não se baseia no achado de uma transição na imagem, mas no quadro clínico, na sua evolução e na confirmação repetida de que a dor nasce naquele ponto. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; descrevemos o quadro completo e o momento de procurá-las.
Conservador · 1ª escolha
Plano multimodal não-cirúrgico
- Resolve ou controla a quase totalidade dos casos sintomáticos.
- Exercício e controle de carga como base, somados às técnicas em clínica.
- Infiltração/bloqueio dirigido e, se necessário, radiofrequência.
- Preserva a anatomia; não há nada a “consertar” na vértebra.
Cirúrgico · exceção
Reservado a casos refratários
- Apenas com dor incapacitante, bem localizada e comprovadamente originada na transição.
- Exige bloqueios-teste repetidos e positivos da pseudoartrose.
- Após tratamento conservador completo e prolongado, de muitos meses.
- Decisão compartilhada; resultados variáveis, sem garantia de fim da dor.
Mesmo nesse cenário restrito, a decisão é compartilhada entre paciente e equipe especializada em cirurgia da coluna, com expectativa calibrada. Duas abordagens são as mais citadas, com lógicas opostas, e uma terceira fica reservada a uma exceção anatômica.
A escolha entre ressecar a megaapófise ou fundir o nível depende de qual mecanismo predomina, e essa distinção é justamente o que os bloqueios-teste ajudam a esclarecer antes de qualquer incisão. Pesam contra a cirurgia os riscos próprios de operar a coluna, como infecção, lesão de estruturas vizinhas e dor residual. Por isso a indicação é individualizada e parcimoniosa.
Antes de cogitar a cirurgia, há um recurso que fica entre o tratamento de base e a operação: o bloqueio ou infiltração da pseudoartrose, guiado por imagem, com valor ao mesmo tempo diagnóstico e terapêutico. Como teste, o alívio imediato e expressivo da dor habitual confirma que aquele ponto é o gerador; como tratamento, interrompe o ciclo de dor e abre janela para a reabilitação. Quando o alívio é bom mas temporário e se repete, a radiofrequência do ramo que inerva o ponto pode prolongar o resultado.
Esses procedimentos, descritos na seção do tratamento em clínica, costumam ser conduzidos por equipes de dor intervencionista e, em ambiente apropriado, podem ser parte do percurso fora do consultório. O papel do cuidado de base é reconhecer o momento, explicar o que cada caminho oferece e encaminhar a quem o executa, mantendo a reabilitação como eixo antes e depois de qualquer procedimento.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na dor relacionada à vértebra de transição: ajuda a controlar a dor para que a reabilitação avance, mas não corrige a distribuição de carga sobre o segmento nem trata a variação anatômica, e não substitui o exercício. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar e cautelas |
|---|---|---|---|
| Anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), via oral | Fase de dor mecânica, em ciclos curtos; primeira escolha quando não há contraindicação. | Moderada | Atenção aos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos e em quem tem comorbidades. O uso prolongado não muda o curso do quadro e expõe a efeitos adversos sem benefício adicional. |
| Analgésicos simples (paracetamol, dipirona) | Compõem o esquema pela boa tolerância e por permitirem poupar o anti-inflamatório. | Limitada | Efeito modesto. Úteis como base bem tolerada do esquema analgésico. |
| Relaxantes musculares | Quando há espasmo muscular associado, por curtos períodos. | Limitada | Papel limitado e por tempo curto, com a ressalva de causarem sonolência. |
| Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Componente radicular ou de dor crônica associado: dor em queimação, choque ou formigamento em trajeto de raiz, ou sinais de sensibilização, em situações selecionadas. | Limitada | Reduzem a liberação de neurotransmissores excitatórios em terminais hiperexcitáveis. Exigem titulação, metas claras e reavaliação, por efeitos como tontura e sonolência. |
| Antidepressivos com ação na dor (duloxetina, tricíclicos em dose baixa: amitriptilina, nortriptilina) | Componente de dor crônica ou neuropático associado, em situações selecionadas. | Limitada | Modulam vias inibitórias descendentes. Exigem titulação, metas claras e reavaliação, por efeitos como tontura, sonolência e boca seca. |
Nenhuma medicação isolada resolve o quadro: o melhor resultado vem da combinação criteriosa de controle da dor com reabilitação ativa.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
Vértebra de transição lombossacra é grave?
Na grande maioria das vezes, não. É uma variação anatômica congênita muito comum, presente em muitas pessoas que nunca sentiram dor. Não é uma doença nem um sinal de desgaste. Quando há dor associada (a síndrome de Bertolotti), o tratamento costuma ser conservador. O que define a relevância do achado é o seu exame clínico, não a imagem isolada.
Quais são os sintomas de uma vértebra de transição lombo-sacra?
A maioria das pessoas não tem sintoma nenhum. Quando a transição causa dor (síndrome de Bertolotti), o padrão típico é uma dor lombar baixa, de um lado só, sobre a região do processo transverso alargado, que piora ao ficar em pé por muito tempo, ao estender o tronco para trás e ao girar para o lado afetado. Confirmar que a dor vem dali exige avaliação clínica.
Qual a diferença entre sacralização e lombarização?
São as duas faces da mesma variação na junção L5 a S1. Na sacralização, a última lombar (L5) se aproxima ou se funde ao sacro, comportando-se como parte dele. Na lombarização, a primeira sacra (S1) se solta do sacro e parece uma vértebra lombar extra, dando a impressão de seis lombares. Em termos de dor e de tratamento, a abordagem é a mesma.
O que é a síndrome de Bertolotti?
É o quadro clínico de dor lombar atribuída a uma vértebra de transição, sobretudo quando existe uma articulação falsa dolorosa (pseudoartrose) entre o processo transverso alargado e o sacro, ou sobrecarga das estruturas vizinhas. Ter a vértebra de transição não significa ter a síndrome: a maioria das pessoas com a variação nunca desenvolve dor por causa dela.
Vértebra de transição tem cura ou tem tratamento?
A variação anatômica em si não se “corrige”, porque faz parte da formação da coluna, e nem precisa ser corrigida na maioria das pessoas. O que se trata é a dor, quando existe. O tratamento é conservador e multimodal, com exercício e controle de carga como base, somados a acupuntura, agulhamento seco, infiltração dirigida e, em casos selecionados, radiofrequência.
Posso fazer exercício e atividade física com vértebra de transição?
Sim, e o exercício é a base do tratamento. O repouso prolongado piora o quadro. O movimento deve ser progressivo e orientado, com foco em estabilização do tronco, fortalecimento e controle de carga, para distribuir melhor o esforço sobre o segmento de transição. Um profissional ajusta a carga e a técnica ao seu caso.
Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Encontrar uma vértebra de transição no laudo não diz, por si só, se ela é a causa da sua dor: só o exame clínico estabelece essa relação, e a conduta é individualizada caso a caso.
