Enxaqueca causa febre? Dor de cabeça com febre, quando se preocupar
A enxaqueca não causa febre. Dor de cabeça com febre costuma ser infecção viral comum, mas pode sinalizar meningite, encefalite ou sinusite.
- A enxaqueca é uma cefaleia primária e não eleva a temperatura do corpo: ela não causa febre. A expressão “enxaqueca da febre” descreve, na verdade, uma dor de cabeça que aparece junto de um quadro febril, não uma enxaqueca que produz febre.
- Dor de cabeça com febre, na maioria das vezes, acompanha uma infecção viral comum (gripe, resfriado, dengue, COVID) e melhora em poucos dias. A própria febre dói a cabeça.
- O que muda a conduta são os sinais de alerta: rigidez de nuca, confusão mental, manchas na pele, convulsão ou “a pior dor de cabeça da vida”. Diante deles, procure o pronto-socorro sem esperar.
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Enxaqueca não dá febre: por quê
A pergunta “enxaqueca causa febre?” é uma das que mais aparece no consultório, e a resposta clínica é direta: não. A enxaqueca é uma cefaleia primária, ou seja, uma doença neurológica em que a dor é o problema em si, e não o sintoma de outra coisa. Ela não ativa os mecanismos que elevam a temperatura corporal.
A febre é uma resposta do organismo a uma agressão, quase sempre uma infecção. Substâncias inflamatórias, os pirógenos, reajustam o “termostato” do corpo no hipotálamo e a temperatura sobe. A crise de enxaqueca, por outro lado, nasce de uma onda de hiperexcitabilidade do córtex cerebral e da ativação do sistema trigeminovascular, com liberação de neuropeptídeos como o CGRP em torno dos vasos das meninges. É um mecanismo de dor, não de inflamação sistêmica, e por isso não dispara febre.
Vale esclarecer um ponto que confunde muita gente. A enxaqueca tem, sim, sintomas que acompanham a dor, como náusea, vômito, sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia), palidez e mal-estar geral. Esse cortejo de sintomas pode dar a sensação de “estar adoentado”, mas não é febre.
Quem mede a temperatura durante uma crise típica de enxaqueca encontra valores normais. Quando há febre de verdade, o termômetro confirmando 37,8 °C ou mais, a explicação está fora da enxaqueca, e é exatamente isso que precisa ser investigado.
A enxaqueca não esquenta o corpo. Se há febre medida no termômetro junto da dor de cabeça, a febre tem outra causa, e é essa causa que orienta o que fazer.
“Tive uma crise forte de enxaqueca e fiquei com febre; foi a enxaqueca da febre.”
A enxaqueca não eleva a temperatura. Se houve febre medida, havia outra condição em curso, em geral uma infecção viral. A dor de cabeça intensa naquele dia pode ter sido a própria febre causando cefaleia, e não uma crise de enxaqueca.

Por que a febre dá dor de cabeça e dor no corpo
Se a enxaqueca não causa febre, por que tanta gente sente uma dor de cabeça tão característica quando está febril? A dor de cabeça da febre, muitas vezes pesquisada junto da “enxaqueca da febre e dor no corpo”, tem explicação fisiológica e costuma ser benigna.
Durante uma infecção, as mesmas substâncias inflamatórias que sobem a temperatura, as citocinas como interleucinas e o fator de necrose tumoral, sensibilizam as vias da dor e produzem aquele conjunto de sintomas que chamamos de comportamento de doença: cefaleia, dor no corpo (mialgia), cansaço, falta de apetite e indisposição. A vasodilatação que acompanha a febre, a desidratação por suar mais e comer menos, e a própria privação de sono contribuem para a dor de cabeça. Por isso a cefaleia da virose costuma ser difusa, em peso ou aperto nos dois lados, e melhora quando a febre cede com hidratação e antitérmico.
Esse é o cenário mais comum: dor de cabeça e dor no corpo dentro de um quadro gripal, de dengue ou de outra infecção viral autolimitada, sem sinais neurológicos. Reconhecer esse padrão tranquiliza, mas não dispensa atenção: é justamente porque a maioria dos casos é banal que os poucos quadros graves precisam de critérios claros para serem identificados. É o que veremos a seguir.
Sinais de emergência: quando ir ao pronto-socorro
A combinação de dor de cabeça e febre é, na grande maioria das vezes, benigna. O ponto crítico é saber quando ela não é. Alguns sinais elevam a hipótese de uma infecção ou inflamação do sistema nervoso central, como meningite e encefalite, que são emergências de tempo. Diante de qualquer um destes, não espere e procure o pronto-socorro:
Dor de cabeça com febre mais qualquer um destes
- Rigidez de nuca: dificuldade ou dor intensa ao tentar encostar o queixo no peito.
- Confusão mental, sonolência excessiva ou dificuldade de acordar, fala desconexa ou mudança de comportamento.
- Manchas vermelhas ou roxas na pele (rash) que não desaparecem ao pressionar, sobretudo se surgem rápido.
- Convulsão (crise convulsiva), nova ou diferente do habitual.
- A pior dor de cabeça da vida, de início súbito e explosivo (em segundos a um minuto).
- Déficit neurológico: fraqueza ou dormência de um lado do corpo, perda de visão, visão dupla, dificuldade para falar ou andar.
- Vômitos em jato e persistentes, ou dor de cabeça que piora de forma progressiva e não cede a nada.
- Febre alta com dor de cabeça em gestante, pessoa imunossuprimida (quimioterapia, HIV, uso de corticoide), ou logo após neurocirurgia ou trauma de cabeça.
A lógica de cada item é direta. A tríade clássica da meningite, febre, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência, indica irritação das meninges e exige punção lombar e antibiótico ou antiviral o mais rápido possível, porque o desfecho depende de horas. As manchas que não somem à pressão sugerem meningococcemia, uma forma grave e de evolução rápida.
A pior dor da vida, súbita, levanta a hipótese de hemorragia subaracnóidea, que pode ou não ter febre associada, mas nunca deve ser ignorada. Confusão e convulsão com febre apontam para encefalite, em geral viral. Em todos esses casos, o tempo é tratamento.
O teste caseiro mais útil é simples: peça à pessoa, deitada, que tente encostar o queixo no peito. Se isso provoca dor intensa no pescoço ou se a nuca fica “travada”, e há febre junto, trate como emergência e vá ao pronto-socorro. A ausência desse sinal não exclui meningite, mas a presença dele, com febre, é um forte alerta.
O que pode ser: do banal ao grave
Quando dor de cabeça e febre andam juntas, o diagnóstico passa por um leque que vai da virose comum às causas que pedem intervenção imediata. A tabela abaixo organiza as principais hipóteses pelo padrão típico e pela pista que ajuda a diferenciar.
| Causa | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Infecção viral (gripe, resfriado, dengue, COVID) | Cefaleia difusa nos dois lados, com dor no corpo e febre | Sintomas de via aérea ou gripais; melhora quando a febre cede; sem sinais neurológicos |
| Sinusite (rinossinusite) aguda | Dor e peso na face, testa ou ao redor dos olhos, que piora ao abaixar a cabeça | Congestão e secreção nasal, gotejamento; dor sobre os seios da face; febre em geral baixa |
| Meningite | Febre alta, dor de cabeça intensa e rigidez de nuca | Não consegue encostar o queixo no peito; pode haver confusão, vômitos e fotofobia marcante. Emergência |
| Encefalite | Febre com dor de cabeça e alteração do comportamento | Confusão, sonolência, convulsão ou déficit neurológico. Emergência |
| Hemorragia subaracnóidea | Pior dor de cabeça da vida, súbita e explosiva | Início em segundos; pode ter rigidez de nuca; febre nem sempre presente. Emergência |
| Arterite de células gigantes (temporal) | Dor de cabeça nova após os 50 anos, na têmpora | Dor ao mastigar, sensibilidade no couro cabeludo, alteração visual; risco para a visão. Avaliar com urgência |
| Crise de enxaqueca coincidindo com infecção | Dor pulsátil de um lado, com náusea e fotofobia, em quem já tem enxaqueca | A febre vem de uma infecção concomitante, não da enxaqueca; a temperatura confirma a infecção |
Duas situações merecem destaque por serem frequentes e tratáveis. A sinusite aguda costuma ser confundida com enxaqueca porque a dor se concentra na face e na testa; a presença de congestão nasal, secreção e piora ao inclinar a cabeça aponta o caminho. E a arterite temporal, embora rara, é uma causa que não pode passar despercebida em quem tem mais de 50 anos e desenvolve uma dor de cabeça nova com mal-estar e alterações visuais, pelo risco de perda de visão se não tratada a tempo.
Virose com cefaleia
Dor de cabeça difusa, dor no corpo e febre, sem rigidez de nuca nem confusão. Hidratação, repouso e antitérmico; melhora em poucos dias.
Suspeita de meningite
Febre com rigidez de nuca, confusão ou manchas na pele. Pronto-socorro imediato; o tratamento depende do tempo.
O que fazer em casa e quando buscar ajuda
Diante de uma dor de cabeça com febre sem nenhum sinal de alerta, e com características de quadro viral, as medidas iniciais são de suporte. O objetivo é controlar a febre, manter a hidratação e observar a evolução, sabendo de antemão o que deve fazer você reavaliar.
- Meça e registre a temperatura
Confirme se há febre de fato (37,8 °C ou mais) e anote os horários. Saber se é febre ou apenas mal-estar muda a interpretação do quadro.
- Hidrate-se e descanse
Beba líquidos com regularidade e repouse num ambiente calmo e com pouca luz. A desidratação e a privação de sono pioram a dor de cabeça.
- Antitérmico, se indicado
Medicamentos para baixar a febre e aliviar a dor, como paracetamol ou dipirona, podem ser usados conforme orientação médica; em dengue suspeita, anti-inflamatórios e ácido acetilsalicílico devem ser evitados.
- Observe os sinais de alerta
Reveja a lista da seção «Sinais de emergência» ao longo das horas. O surgimento de rigidez de nuca, confusão, manchas ou piora rápida muda tudo e indica pronto-socorro.
Procure avaliação no mesmo dia, em pronto atendimento, se a febre for alta e persistente, se a dor de cabeça for muito intensa ou diferente do habitual, ou se você não conseguir se hidratar por vômitos. Procure imediatamente o pronto-socorro, e se possível com acompanhante, diante de qualquer sinal de emergência da seção «quando ir ao pronto-socorro». Na dúvida entre esperar em casa ou buscar ajuda, o critério prático é a presença de algo neurológico, alteração da consciência, rigidez de nuca, déficit ou convulsão: havendo isso, a balança pende sempre para a avaliação imediata.
- Febre + dor de cabeça + sintomas de gripe, sem nada neurológico: provável virose, suporte em casa e observação.
- Febre + dor de cabeça + rigidez de nuca, confusão, manchas, convulsão ou a pior dor da vida: pronto-socorro agora.
- Dor de cabeça nova após os 50 anos, gestante ou pessoa imunossuprimida com febre: avaliação médica sem adiar.
Tratamento não farmacológico: relaxamento, hidratação e reabilitação cervical
O tratamento não medicamentoso ocupa dois lugares distintos neste tema, e separá-los evita confusão. No episódio febril agudo, as medidas de suporte (hidratação, repouso e ambiente calmo) reduzem a cefaleia que acompanha a infecção, enquanto a febre cede; não há, aqui, reabilitação a fazer, e sim cuidado de suporte e observação dos sinais de alerta. Já quando a investigação afasta a febre e sobra a enxaqueca como cefaleia primária, abre-se o campo da reabilitação ativa e das técnicas não farmacológicas de profilaxia, conduzidas na clínica dentro de um plano multimodal e individualizado, com indicação médica.
Vale fixar a regra que organiza tudo: febre com dor de cabeça é, antes de mais nada, uma questão a ser avaliada do ponto de vista da febre, com os sinais de alerta da seção «sinais de emergência» na frente. Nenhuma das técnicas a seguir se aplica diante de uma dor de cabeça com febre e sinais de alarme, que é sempre situação de pronto-socorro. A reabilitação e a acupuntura entram depois, no manejo da enxaqueca fora do quadro infeccioso agudo. O detalhamento completo da enxaqueca está no nosso guia sobre enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.
Suporte no episódio febril
Hidratação, repouso em ambiente com pouca luz e relaxamento para a cefaleia da virose, enquanto a febre cede.
Reabilitação cervical
Exercício terapêutico da musculatura cervical e escapulotorácica, quando há componente do pescoço alimentando as crises de enxaqueca.
Acupuntura / eletroacupuntura
Profilaxia da enxaqueca episódica; reduz dias de dor de forma cumulativa, fora do quadro febril.
Higiene do sono e gatilhos
Regularizar sono, refeições, hidratação e cafeína; mapear gatilhos com diário de cefaleia. Base de estilo de vida da profilaxia.
Reabilitação cervical, quando há componente do pescoço
- O que é
- Reabilitação ativa individualizada da musculatura cervical e escapulotorácica, indicada para a enxaqueca (fora do quadro febril) quando há um componente cervical alimentando as crises.
- Mecanismo
- A musculatura suboccipital (reto posterior maior e menor, oblíquos), o trapézio superior e o elevador da escápula projetam dor referida para a cabeça pela convergência trigêmino-cervical no núcleo trigeminocervical, onde aferências de C1 a C3 e do trigêmeo compartilham os mesmos neurônios de segunda ordem. Tratar os pontos-gatilho reduz a aferência que alimenta esse circuito. Atua com fortalecimento dos flexores profundos do pescoço (flexão craniocervical de baixa carga), estabilização escapulotorácica (serrátil anterior, trapézio inferior) e terapia manual como adjuvante; havendo banda tensa e ponto-gatilho ativo, o agulhamento desativa a banda e a infiltração com anestésico local é alternativa nos pontos refratários.
- Evidência
- Moderada O exercício terapêutico, em especial o treino dos flexores craniocervicais profundos, é a base do tratamento conservador da cefaleia cervicogênica e da dor cervical, com benefício sustentado nas revisões; a terapia manual somada ao exercício acrescenta ganho de magnitude variável. O NICE lista manipulação e exercícios cervicais entre as opções para cefaleia tensional e cervicogênica.
- O que esperar
- Ganho de mobilidade e queda da sensibilidade dos pontos-gatilho ao longo de poucas semanas, com redução da frequência das crises mais lenta, ao longo de meses; o programa é mantido para sustentar o resultado.
- Indicações
- Enxaqueca com componente cervical demonstrado no exame, não como rotina para toda enxaqueca. Dialoga diretamente com o guia de cervicalgia.
- Limitações
- A força da indicação é menor que a da acupuntura na profilaxia da enxaqueca. Sem utilidade no episódio febril e sem qualquer papel diante de uma dor de cabeça com febre e sinais de alerta, que é situação de pronto-socorro.
Acupuntura e eletroacupuntura na profilaxia da enxaqueca
- O que é
- Inserção de agulhas finas em acupontos; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas. É ferramenta de profilaxia da enxaqueca, não tratamento do quadro febril.
- Mecanismo
- Modulação segmentar das vias de dor no corno dorsal, ativação de vias inibitórias descendentes e liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas.
- Evidência
- Moderada Revisões sistemáticas e diretrizes, como as do NICE, apoiam a acupuntura na profilaxia da enxaqueca episódica em contextos selecionados, com redução de dias de dor comparável à de alguns profiláticos.
- O que esperar
- É avaliada por algumas semanas antes de se julgar a resposta, porque o efeito sobre o número de dias de dor é cumulativo e raramente aparece nas primeiras aplicações; o desfecho que interessa é a queda mensal de crises registrada no diário de cefaleia, não o alívio de uma dor pontual.
- Indicações
- Recurso para quem quer reduzir a medicação profilática ou não a tolera bem, sempre acoplado à regularização de sono e gatilhos.
- Limitações
- Desconforto leve ou pequena equimose no acuponto são possíveis e pouco frequentes, com cautela em pessoas anticoaguladas. Não se aplica ao episódio com febre: diante de dor de cabeça com febre e sinais de alerta, o caminho é o pronto-socorro, e a acupuntura não tem papel nem como alívio nem como adiamento dessa avaliação.
Suporte no episódio febril e manejo dos gatilhos
No quadro febril benigno, sem sinais de alerta, boa parte da dor de cabeça vem da desidratação (por suar mais, comer e beber menos), da privação de sono e da vasodilatação do estado febril. Reidratar com regularidade, repousar em ambiente com pouca luz e ruído e reduzir o estímulo sensorial atuam sobre esses fatores; técnicas simples de relaxamento e respiração ajudam a tolerar o desconforto e a reduzir a tensão muscular. São medidas de suporte, não um tratamento que encurta a infecção, e não substituem a vigilância dos sinais da seção «sinais de emergência». Já na profilaxia da enxaqueca, a higiene do sono e o manejo dos gatilhos são a frente de maior retorno e menor custo: o cérebro com enxaqueca tolera mal as variações, e dormir pouco ou demais, jejum prolongado, desidratação e excesso de cafeína são gatilhos frequentes.
Manter horários regulares de sono e refeições, hidratar-se, moderar cafeína e álcool e mapear gatilhos com um diário de cefaleia reduz a frequência das crises ao longo de semanas a meses. Não é medida isolada de cura, e sim a base sobre a qual o restante do plano se apoia. Para entender o curso natural da dor, veja o texto sobre quantos dias dura a enxaqueca.
Vale repetir o limite que organiza toda esta seção: estas técnicas são da profilaxia da enxaqueca, indicadas depois que a febre foi avaliada e afastada. Nenhuma delas trata a cefaleia de um quadro febril, e nenhuma adia a ida ao pronto-socorro quando há sinal de alerta.
Quem chega ao consultório com a queixa de “enxaqueca da febre” quase nunca tem enxaqueca: na grande maioria das vezes é a cefaleia difusa, em peso nos dois lados, de uma virose que já está cedendo, e o que o termômetro mostra basta para reorientar a conversa. O que costuma surpreender é descobrir que a altura da febre, por si, não decide a gravidade; uma febre de 39 graus numa gripe assusta mais do que uma febre de 38 graus acompanhada de pescoço rígido, e é a segunda que pede pressa.
O sinal que mais muda a conduta na avaliação é a rigidez de nuca, e ele costuma vir junto de fotofobia intensa e de uma pessoa que prefere ficar quieta no escuro. Já a combinação que mais preocupa é febre com qualquer alteração do comportamento ou do nível de consciência, confusão, sonolência fora do comum ou fala desconexa, porque aponta para encefalite e não espera. Manchas que não somem ao pressionar a pele entram na mesma categoria de urgência imediata.
A maior parte dos textos foca na pergunta errada, “qual a temperatura perigosa”, e cria a ideia de que existe um número mágico no termômetro a partir do qual se corre para o hospital. Não é assim. Numa cefaleia febril, não é a altura da febre que define a emergência, e sim a companhia: rigidez de nuca, confusão, manchas na pele ou a pior dor de cabeça da vida pesam mais do que qualquer grau a mais no termômetro. Uma febre alta isolada, com sintomas de gripe e exame neurológico normal, costuma ser benigna; uma febre apenas moderada com pescoço rígido pode ser meningite. Olhar só para o número atrasa o que importa, que é procurar pelos sinais que de fato decidem a urgência.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A informação mais importante desta seção é direta: a cirurgia não tem papel no tratamento da dor de cabeça com febre nem da enxaqueca. Não existe operação que “resolva” essas dores de cabeça, e qualquer proposta cirúrgica para tratar a cefaleia em si deve ser vista com muita reserva. O que de fato muda o desfecho na dor de cabeça com febre não é um procedimento eletivo, e sim o reconhecimento a tempo de uma emergência e o cuidado de especialista no pronto-socorro. Estas avaliações e tratamentos não são realizados em nossa clínica; o quadro completo e o momento de procurá-los estão descritos abaixo.
Conduta de base · regra
Não cirúrgico
- Enxaqueca: profilaxia e manejo da crise no campo clínico.
- Dor de cabeça com febre: suporte e observação dos sinais de alerta.
- Procedimentos minimamente invasivos (ex.: bloqueio do nervo occipital) são manejo da dor em casos selecionados, não cirurgia que cura.
Cirurgia · fora do escopo
Trata a causa, não a dor
- Drenagem de abscesso cerebral.
- Manejo de hidrocefalia ou hipertensão intracraniana.
- Abordagem de aneurisma roto na hemorragia subaracnóidea.
- Conduzidos em serviços de neurocirurgia, não em clínica de dor.
No cenário agudo, o que importa é a via de emergência. Diante de febre com dor de cabeça e qualquer sinal de alarme da seção «sinais de emergência», a conduta é o pronto-socorro sem demora, onde a investigação inclui exame neurológico, neuroimagem (tomografia ou ressonância) quando indicada e, na suspeita de meningite ou encefalite, a punção lombar para análise do líquor. O tratamento é conduzido por equipes de emergência, neurologia e infectologia, e o desfecho depende do tempo: antibiótico para a meningite bacteriana, antiviral para a encefalite herpética, suporte intensivo quando necessário. A tabela abaixo resume quando a avaliação precisa ir além do consultório e a quem se destina.
| Quando considerar | Conduta / procedimento | O que esperar |
|---|---|---|
| Febre e dor de cabeça com rigidez de nuca, confusão ou manchas na pele | Pronto-socorro imediato; punção lombar e antibiótico ou antiviral guiados pela equipe | Suspeita de meningite ou encefalite; o desfecho depende de iniciar o tratamento em horas |
| A pior dor de cabeça da vida, súbita e explosiva | Neuroimagem de urgência; avaliação neurocirúrgica se confirmada hemorragia | Suspeita de hemorragia subaracnóidea; pode haver abordagem de aneurisma em serviço especializado |
| Sinais de infecção focal do sistema nervoso (déficit, crise convulsiva) | Neuroimagem; drenagem neurocirúrgica de abscesso quando indicada | Tratamento da causa, com antibiótico prolongado e, por vezes, procedimento |
| Dor de cabeça nova após os 50 anos, na têmpora, com alteração visual | Avaliação com urgência; corticoide e biópsia da artéria temporal conduzidos pelo especialista | Suspeita de arterite de células gigantes; o objetivo é proteger a visão |
| Enxaqueca refratária, após plano multimodal bem conduzido | Encaminhamento ao neurologista para revisão diagnóstica e profilaxias de segunda linha | Reavaliação especializada, não cirurgia; o eixo permanece conservador |
Para a enxaqueca fora do quadro febril, a regra é a mesma: o tratamento permanece no campo não cirúrgico. A chamada cirurgia de descompressão de nervos pericranianos, por vezes divulgada para dor de cabeça, foi estudada apenas em casos muito selecionados de enxaqueca refratária e permanece controversa, fora das recomendações de rotina; não é um caminho que indicamos. Procedimentos minimamente invasivos, como o bloqueio do nervo occipital, são recursos de manejo da dor para casos selecionados, descritos no campo do tratamento, e não cirurgias que curam a enxaqueca. Em resumo, o papel do cuidado de base é reconhecer o momento de investigar, deixar claro que não há uma cirurgia que trate essas dores de cabeça e encaminhar com critério, com rapidez quando um sinal de alerta exige a emergência.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem alvos diferentes conforme o cenário, e confundi-los é um erro comum: tratar a febre e a cefaleia do quadro infeccioso, tratar a crise de enxaqueca, fazer a profilaxia da enxaqueca frequente e, no pronto-socorro, tratar a causa de uma emergência.
| Cenário | Classes / princípios ativos | Evidência | O que esperar e cuidados |
|---|---|---|---|
| Cefaleia da febre (virose benigna) | Antitérmicos e analgésicos simples: paracetamol, dipirona | Moderada | Baixam a febre, ao reajustar o termostato hipotalâmico, e aliviam a cefaleia, em geral com boa tolerância. A melhora acompanha a queda da febre com hidratação e repouso. |
| Enxaqueca · crise (abortivo) | Analgésicos simples e anti-inflamatórios nas crises leves; triptanos (sumatriptano, naratriptano) nas moderadas a intensas | Forte | Funciona melhor quanto mais cedo iniciado. Triptanos são agonistas dos receptores de serotonina que atuam sobre o sistema trigeminovascular. |
| Enxaqueca · profilaxia | Betabloqueadores (propranolol), tricíclicos (amitriptilina), neuromoduladores (topiramato); em casos selecionados, anti-CGRP; toxina botulínica (protocolo PREEMPT) na enxaqueca crônica | Forte | Uso contínuo para reduzir o número de dias de dor; o benefício costuma aparecer ao longo de semanas. Indicada quando as crises são frequentes ou incapacitantes. |
| Emergência (causa) | Antibióticos na suspeita de meningite bacteriana; antivirais (aciclovir) na encefalite herpética; suporte conforme o quadro | Forte | Conduzida no hospital, de início imediato. Não há automedicação possível nem espera: o desfecho depende do reconhecimento dos sinais da seção «sinais de emergência» e da ida ao pronto-socorro. |
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Enxaqueca causa febre?
Não. A enxaqueca é uma cefaleia primária e não eleva a temperatura do corpo. Se há febre medida no termômetro (37,8 °C ou mais) junto da dor de cabeça, ela vem de outra causa, na maioria das vezes uma infecção viral. Essa outra causa é o que deve ser avaliado, e não a enxaqueca.
O que é a “enxaqueca da febre e dor no corpo”?
É a forma popular de descrever a dor de cabeça difusa que aparece junto de febre e dor muscular num quadro infeccioso, como uma gripe ou dengue. Não é uma enxaqueca: são as substâncias inflamatórias da infecção que causam ao mesmo tempo a febre, a dor no corpo e a cefaleia. Costuma melhorar quando a febre cede, com hidratação e repouso.
Dor de cabeça com febre é sinal de meningite?
Na maioria das vezes, não: a causa mais comum é uma infecção viral comum. A preocupação aumenta quando, além da febre e da dor de cabeça, há rigidez de nuca (dificuldade de encostar o queixo no peito), confusão mental, sonolência, manchas na pele ou vômitos persistentes. Diante desses sinais, procure o pronto-socorro imediatamente.
Como saber se é só virose ou algo grave?
O que diferencia são os sinais neurológicos. Dor de cabeça e febre com sintomas de gripe, sem rigidez de nuca, sem confusão e sem déficit, costuma ser virose e melhora em poucos dias. A presença de qualquer sinal de alerta, ou uma dor de início súbito e explosivo, muda a conduta e indica avaliação de emergência.
Sinusite pode causar dor de cabeça com febre?
Sim. A sinusite (rinossinusite) aguda dá dor e peso na face, na testa e ao redor dos olhos, que piora ao abaixar a cabeça, em geral com congestão e secreção nasal e febre baixa. É uma causa comum e tratável, muitas vezes confundida com enxaqueca pela localização da dor na face.
A acupuntura ajuda a tratar a dor de cabeça com febre?
Não nesse momento. Dor de cabeça com febre é uma situação aguda que pede avaliação médica, e diante de sinais de alerta, o pronto-socorro. A acupuntura médica tem papel na profilaxia da enxaqueca, ou seja, na redução da frequência das crises em quem já tem o diagnóstico, fora de um quadro infeccioso agudo.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências3 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Headaches in over 12s: diagnosis and management. NICE guideline CG150. London: NICE; atualizado 2021.
- van der Naald N, et al. Acupuncture for the prevention of episodic migraine. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2016;(6):CD001218.
- Sociedade Brasileira de Infectologia. Meningites: diagnóstico e tratamento. Diretrizes e orientações ao clínico.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Dor de cabeça com febre acompanhada de sinal de alerta é uma emergência: procure atendimento imediato. Diagnóstico e conduta dependem do exame de cada caso, e qualquer plano de tratamento precisa ser individualizado em consulta.
