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Terapia por ondas de choque para dor muscular e musculoesquelética: como funciona

A terapia por ondas de choque aplica pulsos acústicos sobre o tecido para reduzir a dor e estimular o reparo em tendinopatias e dor miofascial. É uma camada de um plano de tratamento, ao lado do exercício de carga.

Resposta direta
  • A terapia por ondas de choque serve para tratar dor musculoesquelética crônica, sobretudo tendinopatias e pontos-gatilho miofasciais, aplicando pulsos acústicos sobre a área doente. Esses pulsos reduzem a dor e estimulam a circulação e o reparo do tecido, sem cortes e sem anestesia geral.
  • O “choque” da fisioterapia não é corrente elétrica: é energia mecânica (acústica). Ele costuma ser indicado quando o exercício e as medidas iniciais não resolveram, sempre como parte de um plano, não como tratamento isolado.
  • A evidência é boa para tendinopatias (calcária do ombro, patelar, do calcâneo, epicondilite, glútea/trocantérica) e fascite plantar; é mais limitada para a dor lombar axial. A resposta costuma vir ao longo de semanas, em um ciclo de 3 a 5 sessões.
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Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

O que é, e o que o “choque” na fisioterapia significa

Representação grafica de frentes de onda acústicas em camadas azuis atingindo uma superfície curva quadriculada
As ondas acústicas se propagam em frentes sucessivas que atravessam o tecido até o ponto-alvo

Terapia por ondas de choque, sigla terapia por ondas de choque, é a aplicação de pulsos acústicos de alta energia sobre um tecido para tratar dor e estimular reparo. A palavra “choque” confunde: não há corrente elétrica passando pelo músculo. O que o aparelho gera é uma onda mecânica, de pressão, parecida em natureza com a onda sonora, só que muito mais intensa e em pulsos curtos.

Essa distinção é prática. Quando alguém pesquisa “choque no músculo”, “choque na fisioterapia para que serve” ou “choque na fisioterapia”, costuma estar misturando duas coisas diferentes: a eletroterapia (TENS, FES e correntes, que de fato usam eletricidade para modular dor ou contrair o músculo) e as ondas de choque (energia acústica para tratar tendão, fáscia e osso). São recursos distintos, com mecanismos e indicações próprios. A estimulação elétrica é feita com a estimulação elétrica nervosa (TENS).

A tecnologia nasceu da litotripsia, o equipamento que fragmenta cálculos renais com ondas acústicas sem cirurgia. Observou-se, ao longo do tempo, que doses muito menores de energia, aplicadas sobre tendões e ossos, não destruíam o tecido: ao contrário, pareciam acordar processos de reparo num tecido que havia “estacionado” na cronicidade. Daí o uso musculoesquelético que conhecemos hoje. O termo extracorpórea apenas significa que a fonte da onda fica fora do corpo, sobre a pele, sem nenhuma incisão.

Em uma frase

Ondas de choque não são “levar choque elétrico no músculo”. São pulsos mecânicos de pressão, aplicados sobre a pele, que estimulam o tecido doente a reparar e reduzem a dor, dentro de um plano de tratamento.

Como funciona: o mecanismo

Diagrama em três etapas do efeito das ondas de choque sobre a substância P nas terminações nervosas
O estímulo mecânico modula a sinalização da substância P e dos mediadores inflamatórios na terminação nervosa

O efeito das ondas de choque não vem de “quebrar” nada (exceto, em parte, em calcificações), e sim de uma cadeia de respostas biológicas que o estímulo mecânico dispara no tecido. Quatro mecanismos, combinados, explicam o benefício observado na clínica.

Mecanismo 1

Mecanotransdução

As células do tendão (tenócitos) convertem o estímulo mecânico da onda em sinais bioquímicos, ativando vias de regeneração que estavam silenciadas no tecido cronicamente doente.

Mecanismo 2

Neovascularização

O estímulo induz a formação de novos microvasos. Tendinopatias crônicas têm circulação pobre; mais vascularização traz nutrientes e células de reparo ao local.

Mecanismo 3

Estímulo ao reparo

Há aumento de fatores de crescimento e da síntese de colágeno, reorganizando a matriz do tendão e, em parte dos casos, favorecendo a reabsorção de depósitos de cálcio.

Mecanismo 4

Analgesia

O bombardeio de estímulos altera a transmissão da dor (hiperestimulação de fibras nociceptivas) e reduz mediadores de dor locais, com alívio que costuma se somar ao reparo ao longo das semanas.

Repare que três desses mecanismos são de reparo tecidual; só um é de alívio sintomático puro. É por isso que a terapia por ondas de choque tende a ser mais útil em problemas de tendão e osso que não cicatrizam bem sozinhos (tecidos de baixa vascularização e baixa renovação) do que em quadros puramente musculares agudos, que costumam se resolver com repouso relativo e reabilitação. O efeito também não é instantâneo: como depende de biologia, a melhora é progressiva, ao longo de semanas, e não de minutos.

Pérola clínica

Na prática, o tratamento funciona melhor quando o problema é um tendão “parado” na fase crônica e degenerativa, sem inflamação aguda dominante. A onda não anti-inflama: ela reinicia um processo de reparo que emperrou. Por isso o termo correto na maioria dos casos é tendinopatia, e não “tendinite”.

Radial x focal: não são a mesma coisa

Existem duas grandes famílias de aparelhos, e a escolha entre elas faz diferença no resultado. Confundi-las é uma das razões pelas quais o tratamento “não funciona” em algumas mãos: aplicar uma onda superficial em um alvo profundo, ou vice-versa, desperdiça o procedimento.

As ondas radiais (a rigor, ondas de pressão balísticas) são geradas por um projétil que bate em um aplicador na pele. A energia é máxima na superfície e se dispersa em profundidade. São excelentes para alvos rasos e amplos, como pontos-gatilho miofasciais, fáscia plantar e a entese de tendões superficiais. As ondas focais são geradas por princípios eletromagnéticos, piezoelétricos ou eletro-hidráulicos e podem ser concentradas em um ponto a profundidade definida, atingindo estruturas mais fundas (como uma calcificação no manguito rotador) com mais precisão.

Ondas radiais x ondas focais
AspectoRadial (balística)Focal
Onde a energia é maiorNa superfície, dispersa em profundidadeConcentrada num ponto, em profundidade ajustável
Alvo típicoPontos-gatilho, fáscia plantar, tendões superficiais, áreas amplasCalcificações, enteses profundas, pseudoartrose
Profundidade de açãoMais superficialMais profunda e localizada
DesconfortoMais difuso na peleMais pontual, no foco

Na clínica, as duas têm lugar, e a indicação depende do alvo e da profundidade. Para uma calcificação do ombro, costuma-se preferir a onda focal, capaz de concentrar energia sobre o depósito. Para a fáscia plantar e os pontos-gatilho da musculatura, a radial costuma resolver. O ponto importante para o paciente é que a terapia por ondas de choque não é um botão único: é uma técnica que o médico calibra (tipo de onda, energia, número de pulsos e localização) para cada problema.

Aplicador radial de ondas de choque Storz Medical em uso, com o console do aparelho ao fundo, na clínica
Onda radial — Storz Medical Aplicador de pulso superficial, para alvos rasos e musculatura.
Aparelho de ondas de choque focal BTL da clínica, com console e aplicador segurado por profissional de jaleco
Onda focal — BTL Aplicador de pulso profundo e concentrado, para calcificações e enteses.

Para que serve: indicações com evidência

Mapa corporal indicando as principais articulações: ombro, cotovelo, quadril, joelho e tornozelo
As ondas de choque alcançam múltiplos pontos dolorosos do aparelho locomotor, de ombros a calcanhares

O tratamento tem indicações bem estabelecidas e outras mais discutíveis. Vale separar o que tem boa evidência do que é uso adjuvante ou de exceção. O melhor terreno são as tendinopatias crônicas que já passaram pelo tratamento inicial sem boa resposta, e a fascite plantar.

3 a 5
sessões em um ciclo típico
1/sem
intervalo usual entre sessões
>3m
de dor crônica, alvo preferencial
0 cortes
procedimento não invasivo

Tendinopatias: o melhor terreno

É onde a terapia por ondas de choque mais brilha. A tendinopatia calcária do ombro (depósito de cálcio no manguito rotador) responde bem, sobretudo com onda focal, que pode fragmentar e favorecer a reabsorção do depósito; é um dos cenários com melhor evidência. A epicondilite lateral (“cotovelo de tenista”) e a medial são indicações clássicas para quadros que persistem. A tendinopatia patelar (“joelho do saltador”) e a tendinopatia do calcâneo (aquileu), tanto a porção do corpo do tendão quanto a inserção, costumam se beneficiar quando combinadas com exercício de carga.

A tendinopatia glútea / trocantérica (dor na lateral do quadril, antes chamada de bursite trocantérica) é outro alvo frequente. Cada uma tem página própria com detalhes: ver ondas de choque para o tendão de Aquiles, tendinite calcária do ombro, epicondilite lateral e tendinopatia patelar.

Fascite plantar e esporão de calcâneo

A fascite plantar crônica é uma das indicações mais respaldadas por estudos, em geral com onda radial sobre a fáscia e o ponto de maior dor no calcâneo. Vale desfazer um mal-entendido comum: o esporão de calcâneo visto no raio X costuma ser uma consequência, não a causa da dor, e o tratamento age sobre a fáscia inflamada e degenerada, não sobre o “espinho” ósseo. Por isso o esporão não precisa “sumir” para a dor melhorar. O tema está detalhado em ondas de choque para esporão de calcâneo e na página sobre fascite plantar.

Pseudoartrose: um uso ósseo específico

Há uma aplicação menos conhecida e bastante interessante: a pseudoartrose, ou seja, uma fratura que não consolidou no tempo esperado (retardo de consolidação ou não-união). Nesses casos, a terapia por ondas de choque focal de alta energia, sobre o foco da fratura, pode estimular a atividade osteogênica e favorecer a consolidação, sendo considerada uma alternativa não cirúrgica em casos selecionados, conduzida em conjunto com o ortopedista. Não é uso de rotina, mas ilustra bem o caráter regenerativo da técnica sobre o osso.

Dor miofascial e dor muscular

Sobre pontos-gatilho miofasciais, a onda radial é usada como adjuvante para reduzir a dor e a tensão das bandas musculares, somando-se a recursos com mais evidência para o componente miofascial, como o agulhamento seco. É um uso razoável, mas o tratamento raramente é a primeira escolha para dor muscular: aqui ela entra como uma camada a mais de tratamento, não como o eixo. Para a dor lombar axial pura (a dor de coluna sem componente miofascial claro), a evidência das ondas de choque é mais limitada, e o recurso é adjuvante ao exercício, à terapia manual e às demais abordagens da lombalgia.

Outra técnica com alvo na fáscia é a hidrodissecção miofascial, que injeta líquido no plano entre duas camadas musculares para devolver o deslizamento perdido entre elas.

Onde a evidência é mais forte e onde é adjuvante
QuadroPapel da terapia por ondas de choqueObservação
Tendinopatia calcária do ombroBoa evidênciaOnda focal sobre o depósito; favorece reabsorção
Fascite plantar crônicaBoa evidênciaOnda radial; o esporão não é o alvo
Epicondilite, patelar, calcâneoEvidência razoávelMelhor combinada com exercício de carga
Tendinopatia glútea / trocantéricaEvidência razoávelDor na lateral do quadril persistente
Pseudoartrose / retardo de consolidaçãoCasos selecionadosFocal de alta energia, com o ortopedista
Dor miofascial / pontos-gatilhoAdjuvanteSoma ao agulhamento seco e à reabilitação
Dor lombar axial puraEvidência limitadaNão substitui exercício e terapia manual
Síntese de evidênciasEvidência moderada

Ondas de choque nas tendinopatias e na fascite plantar

Revisões e diretrizes apontam benefício consistente do tratamento na tendinopatia calcária do ombro e na fascite plantar crônica, e benefício razoável em epicondilite, tendinopatia patelar e do calcâneo, sobretudo quando associada a exercício de carga progressiva. A magnitude do efeito varia entre estudos e protocolos, e o melhor resultado aparece em quadros crônicos selecionados. A escolha depende do quadro individual.

Ver referências →
Onde a evidência concentra o benefício

A evidência consistente concentra-se em uma lista curta: tendinopatia calcária do manguito rotador, fascite plantar crônica e algumas tendinopatias de inserção (epicondilite lateral, patelar, do calcâneo, glútea/trocantérica). Fora dessa lista, a maior parte dos usos divulgados tem evidência fraca, conflitante ou ausente.

As perguntas que definem a indicação são para qual diagnóstico exato e depois do quê. Uma mesma máquina dá resultado bom numa calcificação do ombro e resultado pobre numa lombalgia axial, porque o que muda não é o aparelho: é o tecido-alvo e o momento da doença. Antes de uma série de sessões, vale checar se o quadro está na lista que responde e se o tratamento de carga já foi tentado direito.

Assista: Tratamento por Ondas de Choque – Epicondilite, Fascite Plantar, Tendinopatias e Dores miofasciai

Como são as sessões: protocolo e o que esperar

A terapia por ondas de choque é um procedimento de consultório, rápido e sem internação. Entender o passo a passo ajuda a chegar com a expectativa certa, porque a melhora não é imediata e a sensação durante a aplicação não é silenciosa.

Localização do alvo

O médico identifica o ponto de maior dor pela palpação e, quando útil, por ultrassom, definindo o tipo de onda (radial ou focal), a energia e o número de pulsos.

Aplicação

Aplica-se gel de contato e o aplicador percorre a área em pulsos. Cada sessão costuma durar poucos minutos por região tratada. Em geral não se usa anestesia.

Ciclo de sessões

O protocolo habitual é de 3 a 5 sessões, em geral 1 vez por semana. O número exato depende do alvo e da resposta, reavaliada ao longo do ciclo.

Reabilitação em paralelo

O exercício de carga e a reabilitação seguem durante e após o ciclo. O tratamento abre uma janela de menos dor; o tendão recupera capacidade com a carga progressiva.

Sobre o desconforto: a aplicação costuma ser sentida como pancadas rápidas e localizadas, que podem ser incômodas, sobretudo sobre áreas muito sensíveis ou sobre osso superficial. A intensidade da energia é ajustável e, em geral, regula-se até um limiar tolerável. Pode haver vermelhidão, leve inchaço ou dor pós-aplicação por 1 a 2 dias, o que é esperado e costuma ceder sozinho.

Há um cuidado farmacológico que merece destaque, porque é contraintuitivo. Como o mecanismo de ação depende de uma resposta inflamatória controlada de reparo, recomenda-se evitar anti-inflamatórios não esteroides (AINE) próximo às sessões, já que eles podem atenuar justamente a cascata biológica que se quer estimular. Para a dor, costuma-se preferir analgésicos simples (como paracetamol/dipirona) ou medidas físicas no período do tratamento.

Semana 1 a 2

Primeiras sessões

Pode haver dor pós-aplicação leve. Mantém-se a reabilitação; a resposta ainda não se mede nesta fase.

Semana 3 a 6

Resposta progressiva

A dor costuma começar a ceder e a função a melhorar, à medida que o reparo tecidual avança e a carga é progredida.

Após 8 a 12 semanas

Reavaliação

Mede-se o ganho real de dor e de função (não só a sensação do dia da consulta). Se a resposta foi pobre, a primeira pergunta é se o diagnóstico está certo e se a carga foi de fato progredida; repetir mais ondas sobre um alvo errado raramente muda o resultado.

O objetivo é abrir uma janela de menos dor para que o tendão volte a tolerar carga; a magnitude da melhora depende do diagnóstico, da cronicidade e da adesão à reabilitação. O plano de ondas de choque é definido após a consulta e revisto conforme a resposta.

Quando não fazer: contraindicações e cuidados

A terapia por ondas de choque é segura quando bem indicada, mas tem contraindicações que precisam ser respeitadas. Algumas se relacionam ao local de aplicação (não se aplica a onda sobre certas estruturas), outras à condição do paciente. A avaliação médica antes do procedimento existe justamente para checar esses pontos.

Contraindicações · não aplicar

O tratamento deve ser evitada quando há

  • Gestação (em geral contraindicada, sobretudo sobre o tronco e a pelve).
  • Aplicação sobre o tórax/pulmão, sobre grandes vasos ou sobre áreas com trombo.
  • Distúrbios de coagulação ou uso de anticoagulantes em situação de risco (avaliar individualmente).
  • Infecção ativa, ferida aberta ou tumor na área a ser tratada.
  • Aplicação sobre placas de crescimento em crianças e adolescentes (cartilagem de crescimento).
  • Marca-passo ou outros dispositivos quando o equipamento contraindicar a proximidade.

Os efeitos colaterais, quando ocorrem, costumam ser leves e passageiros: dor durante e após a aplicação, vermelhidão, pequenos hematomas e, raramente, inchaço local. São esperados e transitórios. Por isso a terapia por ondas de choque é um procedimento médico: a indicação, a escolha do tipo de onda, a dose de energia e a checagem das contraindicações fazem parte de uma avaliação clínica.

Ondas de choque dentro de um plano

Médico de jaleco aplicando aparelho de ondas de choque radial na região lombar de paciente deitado em maca, com console e modelos anatômicos ao fundo
A aplicação percorre a musculatura dolorida com o transdutor, dentro de um plano de sessões definido em consulta

O erro mais comum é tratar a terapia por ondas de choque como um tratamento isolado, um “aparelho que resolve”. Na medicina da dor e da reabilitação, ela é uma das camadas de um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico, cuja base é sempre ativa. A onda de choque ajuda o tecido a reparar e reduz a dor, mas é o exercício de carga progressiva que devolve ao tendão a capacidade de tolerar o esforço do dia a dia e que sustenta o resultado ao longo do tempo.

Por isso, as ondas de choque costumam entrar ao lado de outros recursos, escolhidos conforme o quadro. Entender o que cada um faz ajuda a ver onde a terapia por ondas de choque se encaixa.

Exercício e reabilitação: a base

É a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança nas tendinopatias e a peça central de todo o resto. O foco é a carga progressiva sobre o tendão (exercícios com resistência crescente, conduzidos por fisioterapeuta), que estimula a remodelação do colágeno e a tolerância ao esforço, além da correção de fatores que sobrecarregam a estrutura. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências. O tratamento potencializa essa base ao abrir uma janela de menos dor que permite progredir a carga.

Agulhamento seco e dry needling

Vale contrastar com a outra técnica baseada em “estímulo mecânico” que a clínica usa, porque pacientes costumam confundir as duas. A onda de choque trata sobretudo a doença do tendão e da entese de fora da pele; o agulhamento seco trata o componente muscular miofascial de dentro, com uma agulha fina inserida na banda tensa. Quando uma tendinopatia vem acompanhada de pontos-gatilho na musculatura ao redor (comum no manguito do ombro, no glúteo lateral e nos extensores do antebraço), os dois recursos podem somar em vez de competir: a onda mira o tendão degenerado, a agulha solta o músculo que o sobrecarrega. São alvos diferentes na mesma região dolorosa, e a escolha depende de onde está o gerador da dor.

Ensaio clínico · nossa equipe1 em cada 2

Agulhamento seco com efeito analgésico na dor do ombro

Ensaio duplo-cego e controlado, conduzido pela equipe da clínica no Grupo de Dor do HC-FMUSP, mostrou efeito analgésico do agulhamento seco mantido por cerca de sete dias na dor do ombro, com alívio significativo em cerca de 1 a cada 2 pessoas tratadas. Citamos este estudo aqui porque o ombro é justamente onde tendinopatia e ponto-gatilho mais convivem: ele ajuda a calibrar quando o problema é tendíneo (terreno da onda de choque) e quando é miofascial (terreno da agulha). Pai MYB e cols., Pain Reports, 2021.

Ver referências →

Acupuntura e eletroacupuntura

Modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. No contexto da onda de choque, entram como camada de neuromodulação quando a dor não cede só com a terapia por ondas de choque e o exercício, ou quando se busca reduzir o uso de analgésicos durante o ciclo. Não agem sobre o reparo do tendão (esse papel é da carga e, em parte, da onda); somam controle de dor para que a reabilitação avance.

Laser entre as sessões de onda de choque

Na dor miofascial, a onda de choque atua por energia mecânica sobre a banda tensa e o ponto-gatilho, e o laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação, com a luz absorvida pelas mitocôndrias elevando o ATP e reduzindo prostaglandinas, substância P e edema. Como as vias são diferentes, o laser acrescenta controle de dor sem repetir o que a onda já faz.

É um recurso externo e indolor, o que o torna útil justamente onde a onda incomoda: nas semanas entre uma aplicação e outra e nas fases em que o músculo está sensível demais para tolerar bem os pulsos. Assim o paciente mantém o alongamento e o fortalecimento, que são o que evita a recidiva do ponto-gatilho. Os dois somam à base ativa; nenhum deles a substitui.

Mais sobre a tecnologia na página de laser de alta intensidade para dor.

Infiltração de pontos-gatilho e mesoterapia

Quando um ponto-gatilho é resistente, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) interrompe o ciclo dor-espasmo-dor e relaxa a banda tensa, com alívio rápido do componente miofascial. A mesoterapia (intradermoterapia) usa microinjeções intradérmicas de medicamentos diluídos sobre a área dolorosa, como adjuvante de evidência mais heterogênea. Ambas somam ao plano, não o substituem.

Abordagem inicial

Exercício e reabilitação

Carga progressiva e correção de fatores de sobrecarga resolvem boa parte das tendinopatias ao longo de semanas.

Quando escalar

Ondas de choque

Indicadas quando o quadro persiste apesar do tratamento inicial bem conduzido, somadas à reabilitação.

Da prática clínica

Os cenários em que a onda de choque mais resolve no consultório são poucos: a calcificação do manguito rotador que dói há meses, em que a onda focal sobre o depósito muda o curso; e a fascite plantar, a tendinopatia glútea e a epicondilite que já cumpriram a reabilitação e travaram. Nesses recalcitrantes, ela costuma destravar o caso.

O tratamento funciona como segunda linha, depois da carga, não no lugar dela. Quem chega com tendinopatia e nunca fez exercício de carga direito tende a melhorar com a reabilitação antes de precisar da onda. Por isso ela vem emparelhada com um programa de carga, e o ganho é do conjunto.

Dois pontos surpreendem os pacientes. A melhora não vem na sessão, e sim ao longo de semanas, porque depende de biologia de reparo, não de um efeito imediato como o de uma infiltração. E a orientação de segurar o anti-inflamatório perto das sessões, contraintuitiva para quem associa dor a “tomar algo para inflamação”. Alinhar essas duas expectativas na primeira consulta reduz o abandono precoce.

Perguntas frequentes

Choque na fisioterapia, para que serve?

Depende do que se chama de “choque”. As ondas de choque usam energia acústica, não elétrica, e servem para tratar tendinopatias crônicas, fascite plantar, pontos-gatilho miofasciais e alguns problemas ósseos, estimulando o reparo do tecido e reduzindo a dor. Já a estimulação elétrica (TENS/FES) usa corrente para modular dor ou contrair o músculo, com finalidade diferente. São recursos distintos.

Ondas de choque servem para dor muscular e “choque no músculo”?

As ondas de choque agem principalmente sobre tendões, fáscia e osso. Sobre o músculo, são usadas de forma adjuvante para pontos-gatilho miofasciais, reduzindo dor e tensão das bandas musculares, mas raramente como primeira escolha para dor muscular: aqui o agulhamento seco e a reabilitação costumam ter papel central. O “choque” não é corrente elétrica no músculo, e sim um pulso mecânico de pressão.

Ondas de choque doem?

A aplicação é sentida como pancadas rápidas e localizadas, que podem ser incômodas, sobretudo sobre áreas muito sensíveis ou osso superficial. A energia é ajustável e regulada até um limiar tolerável. Costuma haver dor pós-aplicação leve por 1 a 2 dias, que cede sozinha. Em geral não se usa anestesia.

Quantas sessões são necessárias e em quanto tempo melhora?

O protocolo habitual é de 3 a 5 sessões, em geral 1 vez por semana, mas varia conforme o alvo e a resposta. A melhora é progressiva, porque depende de reparo biológico: costuma se notar ao longo de algumas semanas, com reavaliação por volta de 8 a 12 semanas. O efeito é progressivo, não imediato.

Posso tomar anti-inflamatório durante o tratamento com ondas de choque?

Em geral recomenda-se evitar anti-inflamatórios perto das sessões, porque eles podem atenuar a resposta de reparo que a técnica busca estimular. Para a dor, costuma-se preferir analgésicos simples ou medidas físicas. A decisão sobre medicação é tomada pelo médico assistente.

Ondas de choque substituem a cirurgia ou a fisioterapia?

Não substituem a reabilitação: a terapia por ondas de choque é uma camada de um plano cuja base é o exercício de carga progressiva. Em quadros como tendinopatia calcária do ombro e pseudoartrose, pode ser uma alternativa não cirúrgica em casos selecionados, evitando ou adiando a cirurgia, definida em avaliação individual e em conjunto com o especialista.

Quem realiza o tratamento por ondas de choque?

O tratamento por ondas de choque é realizado pelos médicos Dr. Marcus Yu Bin Pai (CRM-SP 158.074 · RQE 65.523) e Dr. Andrew Park (CRM-SP 157.730). Usamos apenas aparelhos importados de alta energia, das marcas BTL e Storz; não utilizamos aparelhos de baixa energia.

Preciso de internação ou anestesia?

Não. É um tratamento ambulatorial e não invasivo, feito em sessões curtas em consultório; você retorna às atividades no mesmo dia, seguindo as orientações passadas para a região tratada.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Majidi et al. Terapia de ondas de choque reduz significativamente a dor em diferentes tipos de tendinopatia. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2024. ver resumo
  2. De la Corte-Rodríguez et al. Terapia por ondas de choque para o tratamento da dor musculoesquelética: revisão narrativa. Healthcare. 2023. ver resumo
  3. Lippi L, Folli A, Moalli S, Turco A, Ammendolia A, de Sire A, Invernizzi M. Efficacy and tolerability of extracorporeal shock wave therapy in patients with plantar fasciopathy: a systematic review with meta-analysis and meta-regression. Eur J Phys Rehabil Med. 2024;60(5):832 a 846. acessar
  4. Gerdesmeyer L, Wagenpfeil S, Haake M, et al. Extracorporeal shock wave therapy for the treatment of chronic calcifying tendonitis of the rotator cuff: a randomized controlled trial. JAMA. 2003;290(19):2573 a 2580. acessar
  5. Kertzman P, Lenza M, Pedrinelli A, Ejnisman B. Shockwave treatment for musculoskeletal diseases and bone consolidation: qualitative analysis of the literature. Rev Bras Ortop. 2015;50(1):3 a 8. acessar
Atualizado em 31 mai 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A indicação da terapia por ondas de choque depende do diagnóstico exato, da cronicidade e do que já foi tentado antes, e a resposta esperada não é a mesma em cada quadro; o plano é individualizado após a consulta. A decisão de indicar o tratamento, a escolha entre onda radial e focal, a dose de energia, a checagem de contraindicações e qualquer ajuste de medicamento (incluindo a cautela com anti-inflamatórios perto das sessões) são feitos pelo médico assistente.

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