Terapia por ondas de choque para dor muscular e musculoesquelética: como funciona
A terapia por ondas de choque aplica pulsos acústicos sobre o tecido para reduzir a dor e estimular o reparo em tendinopatias e dor miofascial. É uma camada de um plano de tratamento, ao lado do exercício de carga.
- A terapia por ondas de choque serve para tratar dor musculoesquelética crônica, sobretudo tendinopatias e pontos-gatilho miofasciais, aplicando pulsos acústicos sobre a área doente. Esses pulsos reduzem a dor e estimulam a circulação e o reparo do tecido, sem cortes e sem anestesia geral.
- O “choque” da fisioterapia não é corrente elétrica: é energia mecânica (acústica). Ele costuma ser indicado quando o exercício e as medidas iniciais não resolveram, sempre como parte de um plano, não como tratamento isolado.
- A evidência é boa para tendinopatias (calcária do ombro, patelar, do calcâneo, epicondilite, glútea/trocantérica) e fascite plantar; é mais limitada para a dor lombar axial. A resposta costuma vir ao longo de semanas, em um ciclo de 3 a 5 sessões.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é, e o que o “choque” na fisioterapia significa
Terapia por ondas de choque, sigla terapia por ondas de choque, é a aplicação de pulsos acústicos de alta energia sobre um tecido para tratar dor e estimular reparo. A palavra “choque” confunde: não há corrente elétrica passando pelo músculo. O que o aparelho gera é uma onda mecânica, de pressão, parecida em natureza com a onda sonora, só que muito mais intensa e em pulsos curtos.
Essa distinção é prática. Quando alguém pesquisa “choque no músculo”, “choque na fisioterapia para que serve” ou “choque na fisioterapia”, costuma estar misturando duas coisas diferentes: a eletroterapia (TENS, FES e correntes, que de fato usam eletricidade para modular dor ou contrair o músculo) e as ondas de choque (energia acústica para tratar tendão, fáscia e osso). São recursos distintos, com mecanismos e indicações próprios. A estimulação elétrica é feita com a estimulação elétrica nervosa (TENS).
A tecnologia nasceu da litotripsia, o equipamento que fragmenta cálculos renais com ondas acústicas sem cirurgia. Observou-se, ao longo do tempo, que doses muito menores de energia, aplicadas sobre tendões e ossos, não destruíam o tecido: ao contrário, pareciam acordar processos de reparo num tecido que havia “estacionado” na cronicidade. Daí o uso musculoesquelético que conhecemos hoje. O termo extracorpórea apenas significa que a fonte da onda fica fora do corpo, sobre a pele, sem nenhuma incisão.
Ondas de choque não são “levar choque elétrico no músculo”. São pulsos mecânicos de pressão, aplicados sobre a pele, que estimulam o tecido doente a reparar e reduzem a dor, dentro de um plano de tratamento.
Como funciona: o mecanismo
O efeito das ondas de choque não vem de “quebrar” nada (exceto, em parte, em calcificações), e sim de uma cadeia de respostas biológicas que o estímulo mecânico dispara no tecido. Quatro mecanismos, combinados, explicam o benefício observado na clínica.
Mecanotransdução
As células do tendão (tenócitos) convertem o estímulo mecânico da onda em sinais bioquímicos, ativando vias de regeneração que estavam silenciadas no tecido cronicamente doente.
Neovascularização
O estímulo induz a formação de novos microvasos. Tendinopatias crônicas têm circulação pobre; mais vascularização traz nutrientes e células de reparo ao local.
Estímulo ao reparo
Há aumento de fatores de crescimento e da síntese de colágeno, reorganizando a matriz do tendão e, em parte dos casos, favorecendo a reabsorção de depósitos de cálcio.
Analgesia
O bombardeio de estímulos altera a transmissão da dor (hiperestimulação de fibras nociceptivas) e reduz mediadores de dor locais, com alívio que costuma se somar ao reparo ao longo das semanas.
Repare que três desses mecanismos são de reparo tecidual; só um é de alívio sintomático puro. É por isso que a terapia por ondas de choque tende a ser mais útil em problemas de tendão e osso que não cicatrizam bem sozinhos (tecidos de baixa vascularização e baixa renovação) do que em quadros puramente musculares agudos, que costumam se resolver com repouso relativo e reabilitação. O efeito também não é instantâneo: como depende de biologia, a melhora é progressiva, ao longo de semanas, e não de minutos.
Na prática, o tratamento funciona melhor quando o problema é um tendão “parado” na fase crônica e degenerativa, sem inflamação aguda dominante. A onda não anti-inflama: ela reinicia um processo de reparo que emperrou. Por isso o termo correto na maioria dos casos é tendinopatia, e não “tendinite”.
Radial x focal: não são a mesma coisa
Existem duas grandes famílias de aparelhos, e a escolha entre elas faz diferença no resultado. Confundi-las é uma das razões pelas quais o tratamento “não funciona” em algumas mãos: aplicar uma onda superficial em um alvo profundo, ou vice-versa, desperdiça o procedimento.
As ondas radiais (a rigor, ondas de pressão balísticas) são geradas por um projétil que bate em um aplicador na pele. A energia é máxima na superfície e se dispersa em profundidade. São excelentes para alvos rasos e amplos, como pontos-gatilho miofasciais, fáscia plantar e a entese de tendões superficiais. As ondas focais são geradas por princípios eletromagnéticos, piezoelétricos ou eletro-hidráulicos e podem ser concentradas em um ponto a profundidade definida, atingindo estruturas mais fundas (como uma calcificação no manguito rotador) com mais precisão.
| Aspecto | Radial (balística) | Focal |
|---|---|---|
| Onde a energia é maior | Na superfície, dispersa em profundidade | Concentrada num ponto, em profundidade ajustável |
| Alvo típico | Pontos-gatilho, fáscia plantar, tendões superficiais, áreas amplas | Calcificações, enteses profundas, pseudoartrose |
| Profundidade de ação | Mais superficial | Mais profunda e localizada |
| Desconforto | Mais difuso na pele | Mais pontual, no foco |
Na clínica, as duas têm lugar, e a indicação depende do alvo e da profundidade. Para uma calcificação do ombro, costuma-se preferir a onda focal, capaz de concentrar energia sobre o depósito. Para a fáscia plantar e os pontos-gatilho da musculatura, a radial costuma resolver. O ponto importante para o paciente é que a terapia por ondas de choque não é um botão único: é uma técnica que o médico calibra (tipo de onda, energia, número de pulsos e localização) para cada problema.
Para que serve: indicações com evidência
O tratamento tem indicações bem estabelecidas e outras mais discutíveis. Vale separar o que tem boa evidência do que é uso adjuvante ou de exceção. O melhor terreno são as tendinopatias crônicas que já passaram pelo tratamento inicial sem boa resposta, e a fascite plantar.
Tendinopatias: o melhor terreno
É onde a terapia por ondas de choque mais brilha. A tendinopatia calcária do ombro (depósito de cálcio no manguito rotador) responde bem, sobretudo com onda focal, que pode fragmentar e favorecer a reabsorção do depósito; é um dos cenários com melhor evidência. A epicondilite lateral (“cotovelo de tenista”) e a medial são indicações clássicas para quadros que persistem. A tendinopatia patelar (“joelho do saltador”) e a tendinopatia do calcâneo (aquileu), tanto a porção do corpo do tendão quanto a inserção, costumam se beneficiar quando combinadas com exercício de carga.
A tendinopatia glútea / trocantérica (dor na lateral do quadril, antes chamada de bursite trocantérica) é outro alvo frequente. Cada uma tem página própria com detalhes: ver ondas de choque para o tendão de Aquiles, tendinite calcária do ombro, epicondilite lateral e tendinopatia patelar.
Fascite plantar e esporão de calcâneo
A fascite plantar crônica é uma das indicações mais respaldadas por estudos, em geral com onda radial sobre a fáscia e o ponto de maior dor no calcâneo. Vale desfazer um mal-entendido comum: o esporão de calcâneo visto no raio X costuma ser uma consequência, não a causa da dor, e o tratamento age sobre a fáscia inflamada e degenerada, não sobre o “espinho” ósseo. Por isso o esporão não precisa “sumir” para a dor melhorar. O tema está detalhado em ondas de choque para esporão de calcâneo e na página sobre fascite plantar.
Pseudoartrose: um uso ósseo específico
Há uma aplicação menos conhecida e bastante interessante: a pseudoartrose, ou seja, uma fratura que não consolidou no tempo esperado (retardo de consolidação ou não-união). Nesses casos, a terapia por ondas de choque focal de alta energia, sobre o foco da fratura, pode estimular a atividade osteogênica e favorecer a consolidação, sendo considerada uma alternativa não cirúrgica em casos selecionados, conduzida em conjunto com o ortopedista. Não é uso de rotina, mas ilustra bem o caráter regenerativo da técnica sobre o osso.
Dor miofascial e dor muscular
Sobre pontos-gatilho miofasciais, a onda radial é usada como adjuvante para reduzir a dor e a tensão das bandas musculares, somando-se a recursos com mais evidência para o componente miofascial, como o agulhamento seco. É um uso razoável, mas o tratamento raramente é a primeira escolha para dor muscular: aqui ela entra como uma camada a mais de tratamento, não como o eixo. Para a dor lombar axial pura (a dor de coluna sem componente miofascial claro), a evidência das ondas de choque é mais limitada, e o recurso é adjuvante ao exercício, à terapia manual e às demais abordagens da lombalgia.
Outra técnica com alvo na fáscia é a hidrodissecção miofascial, que injeta líquido no plano entre duas camadas musculares para devolver o deslizamento perdido entre elas.
| Quadro | Papel da terapia por ondas de choque | Observação |
|---|---|---|
| Tendinopatia calcária do ombro | Boa evidência | Onda focal sobre o depósito; favorece reabsorção |
| Fascite plantar crônica | Boa evidência | Onda radial; o esporão não é o alvo |
| Epicondilite, patelar, calcâneo | Evidência razoável | Melhor combinada com exercício de carga |
| Tendinopatia glútea / trocantérica | Evidência razoável | Dor na lateral do quadril persistente |
| Pseudoartrose / retardo de consolidação | Casos selecionados | Focal de alta energia, com o ortopedista |
| Dor miofascial / pontos-gatilho | Adjuvante | Soma ao agulhamento seco e à reabilitação |
| Dor lombar axial pura | Evidência limitada | Não substitui exercício e terapia manual |
Ondas de choque nas tendinopatias e na fascite plantar
Revisões e diretrizes apontam benefício consistente do tratamento na tendinopatia calcária do ombro e na fascite plantar crônica, e benefício razoável em epicondilite, tendinopatia patelar e do calcâneo, sobretudo quando associada a exercício de carga progressiva. A magnitude do efeito varia entre estudos e protocolos, e o melhor resultado aparece em quadros crônicos selecionados. A escolha depende do quadro individual.
Ver referências →A evidência consistente concentra-se em uma lista curta: tendinopatia calcária do manguito rotador, fascite plantar crônica e algumas tendinopatias de inserção (epicondilite lateral, patelar, do calcâneo, glútea/trocantérica). Fora dessa lista, a maior parte dos usos divulgados tem evidência fraca, conflitante ou ausente.
As perguntas que definem a indicação são para qual diagnóstico exato e depois do quê. Uma mesma máquina dá resultado bom numa calcificação do ombro e resultado pobre numa lombalgia axial, porque o que muda não é o aparelho: é o tecido-alvo e o momento da doença. Antes de uma série de sessões, vale checar se o quadro está na lista que responde e se o tratamento de carga já foi tentado direito.
Como são as sessões: protocolo e o que esperar
A terapia por ondas de choque é um procedimento de consultório, rápido e sem internação. Entender o passo a passo ajuda a chegar com a expectativa certa, porque a melhora não é imediata e a sensação durante a aplicação não é silenciosa.
Localização do alvo
O médico identifica o ponto de maior dor pela palpação e, quando útil, por ultrassom, definindo o tipo de onda (radial ou focal), a energia e o número de pulsos.
Aplicação
Aplica-se gel de contato e o aplicador percorre a área em pulsos. Cada sessão costuma durar poucos minutos por região tratada. Em geral não se usa anestesia.
Ciclo de sessões
O protocolo habitual é de 3 a 5 sessões, em geral 1 vez por semana. O número exato depende do alvo e da resposta, reavaliada ao longo do ciclo.
Reabilitação em paralelo
O exercício de carga e a reabilitação seguem durante e após o ciclo. O tratamento abre uma janela de menos dor; o tendão recupera capacidade com a carga progressiva.
Sobre o desconforto: a aplicação costuma ser sentida como pancadas rápidas e localizadas, que podem ser incômodas, sobretudo sobre áreas muito sensíveis ou sobre osso superficial. A intensidade da energia é ajustável e, em geral, regula-se até um limiar tolerável. Pode haver vermelhidão, leve inchaço ou dor pós-aplicação por 1 a 2 dias, o que é esperado e costuma ceder sozinho.
Há um cuidado farmacológico que merece destaque, porque é contraintuitivo. Como o mecanismo de ação depende de uma resposta inflamatória controlada de reparo, recomenda-se evitar anti-inflamatórios não esteroides (AINE) próximo às sessões, já que eles podem atenuar justamente a cascata biológica que se quer estimular. Para a dor, costuma-se preferir analgésicos simples (como paracetamol/dipirona) ou medidas físicas no período do tratamento.
Primeiras sessões
Pode haver dor pós-aplicação leve. Mantém-se a reabilitação; a resposta ainda não se mede nesta fase.
Resposta progressiva
A dor costuma começar a ceder e a função a melhorar, à medida que o reparo tecidual avança e a carga é progredida.
Reavaliação
Mede-se o ganho real de dor e de função (não só a sensação do dia da consulta). Se a resposta foi pobre, a primeira pergunta é se o diagnóstico está certo e se a carga foi de fato progredida; repetir mais ondas sobre um alvo errado raramente muda o resultado.
O objetivo é abrir uma janela de menos dor para que o tendão volte a tolerar carga; a magnitude da melhora depende do diagnóstico, da cronicidade e da adesão à reabilitação. O plano de ondas de choque é definido após a consulta e revisto conforme a resposta.
Quando não fazer: contraindicações e cuidados
A terapia por ondas de choque é segura quando bem indicada, mas tem contraindicações que precisam ser respeitadas. Algumas se relacionam ao local de aplicação (não se aplica a onda sobre certas estruturas), outras à condição do paciente. A avaliação médica antes do procedimento existe justamente para checar esses pontos.
O tratamento deve ser evitada quando há
- Gestação (em geral contraindicada, sobretudo sobre o tronco e a pelve).
- Aplicação sobre o tórax/pulmão, sobre grandes vasos ou sobre áreas com trombo.
- Distúrbios de coagulação ou uso de anticoagulantes em situação de risco (avaliar individualmente).
- Infecção ativa, ferida aberta ou tumor na área a ser tratada.
- Aplicação sobre placas de crescimento em crianças e adolescentes (cartilagem de crescimento).
- Marca-passo ou outros dispositivos quando o equipamento contraindicar a proximidade.
Os efeitos colaterais, quando ocorrem, costumam ser leves e passageiros: dor durante e após a aplicação, vermelhidão, pequenos hematomas e, raramente, inchaço local. São esperados e transitórios. Por isso a terapia por ondas de choque é um procedimento médico: a indicação, a escolha do tipo de onda, a dose de energia e a checagem das contraindicações fazem parte de uma avaliação clínica.
Ondas de choque dentro de um plano
O erro mais comum é tratar a terapia por ondas de choque como um tratamento isolado, um “aparelho que resolve”. Na medicina da dor e da reabilitação, ela é uma das camadas de um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico, cuja base é sempre ativa. A onda de choque ajuda o tecido a reparar e reduz a dor, mas é o exercício de carga progressiva que devolve ao tendão a capacidade de tolerar o esforço do dia a dia e que sustenta o resultado ao longo do tempo.
Por isso, as ondas de choque costumam entrar ao lado de outros recursos, escolhidos conforme o quadro. Entender o que cada um faz ajuda a ver onde a terapia por ondas de choque se encaixa.
Exercício e reabilitação: a base
É a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança nas tendinopatias e a peça central de todo o resto. O foco é a carga progressiva sobre o tendão (exercícios com resistência crescente, conduzidos por fisioterapeuta), que estimula a remodelação do colágeno e a tolerância ao esforço, além da correção de fatores que sobrecarregam a estrutura. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrências. O tratamento potencializa essa base ao abrir uma janela de menos dor que permite progredir a carga.
Agulhamento seco e dry needling
Vale contrastar com a outra técnica baseada em “estímulo mecânico” que a clínica usa, porque pacientes costumam confundir as duas. A onda de choque trata sobretudo a doença do tendão e da entese de fora da pele; o agulhamento seco trata o componente muscular miofascial de dentro, com uma agulha fina inserida na banda tensa. Quando uma tendinopatia vem acompanhada de pontos-gatilho na musculatura ao redor (comum no manguito do ombro, no glúteo lateral e nos extensores do antebraço), os dois recursos podem somar em vez de competir: a onda mira o tendão degenerado, a agulha solta o músculo que o sobrecarrega. São alvos diferentes na mesma região dolorosa, e a escolha depende de onde está o gerador da dor.
Agulhamento seco com efeito analgésico na dor do ombro
Ensaio duplo-cego e controlado, conduzido pela equipe da clínica no Grupo de Dor do HC-FMUSP, mostrou efeito analgésico do agulhamento seco mantido por cerca de sete dias na dor do ombro, com alívio significativo em cerca de 1 a cada 2 pessoas tratadas. Citamos este estudo aqui porque o ombro é justamente onde tendinopatia e ponto-gatilho mais convivem: ele ajuda a calibrar quando o problema é tendíneo (terreno da onda de choque) e quando é miofascial (terreno da agulha). Pai MYB e cols., Pain Reports, 2021.
Ver referências →Acupuntura e eletroacupuntura
Modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. No contexto da onda de choque, entram como camada de neuromodulação quando a dor não cede só com a terapia por ondas de choque e o exercício, ou quando se busca reduzir o uso de analgésicos durante o ciclo. Não agem sobre o reparo do tendão (esse papel é da carga e, em parte, da onda); somam controle de dor para que a reabilitação avance.
Laser entre as sessões de onda de choque
Na dor miofascial, a onda de choque atua por energia mecânica sobre a banda tensa e o ponto-gatilho, e o laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação, com a luz absorvida pelas mitocôndrias elevando o ATP e reduzindo prostaglandinas, substância P e edema. Como as vias são diferentes, o laser acrescenta controle de dor sem repetir o que a onda já faz.
É um recurso externo e indolor, o que o torna útil justamente onde a onda incomoda: nas semanas entre uma aplicação e outra e nas fases em que o músculo está sensível demais para tolerar bem os pulsos. Assim o paciente mantém o alongamento e o fortalecimento, que são o que evita a recidiva do ponto-gatilho. Os dois somam à base ativa; nenhum deles a substitui.
Mais sobre a tecnologia na página de laser de alta intensidade para dor.
Infiltração de pontos-gatilho e mesoterapia
Quando um ponto-gatilho é resistente, a infiltração com anestésico local (ou soro fisiológico) interrompe o ciclo dor-espasmo-dor e relaxa a banda tensa, com alívio rápido do componente miofascial. A mesoterapia (intradermoterapia) usa microinjeções intradérmicas de medicamentos diluídos sobre a área dolorosa, como adjuvante de evidência mais heterogênea. Ambas somam ao plano, não o substituem.
Exercício e reabilitação
Carga progressiva e correção de fatores de sobrecarga resolvem boa parte das tendinopatias ao longo de semanas.
Ondas de choque
Indicadas quando o quadro persiste apesar do tratamento inicial bem conduzido, somadas à reabilitação.
Os cenários em que a onda de choque mais resolve no consultório são poucos: a calcificação do manguito rotador que dói há meses, em que a onda focal sobre o depósito muda o curso; e a fascite plantar, a tendinopatia glútea e a epicondilite que já cumpriram a reabilitação e travaram. Nesses recalcitrantes, ela costuma destravar o caso.
O tratamento funciona como segunda linha, depois da carga, não no lugar dela. Quem chega com tendinopatia e nunca fez exercício de carga direito tende a melhorar com a reabilitação antes de precisar da onda. Por isso ela vem emparelhada com um programa de carga, e o ganho é do conjunto.
Dois pontos surpreendem os pacientes. A melhora não vem na sessão, e sim ao longo de semanas, porque depende de biologia de reparo, não de um efeito imediato como o de uma infiltração. E a orientação de segurar o anti-inflamatório perto das sessões, contraintuitiva para quem associa dor a “tomar algo para inflamação”. Alinhar essas duas expectativas na primeira consulta reduz o abandono precoce.
Perguntas frequentes
Choque na fisioterapia, para que serve?
Depende do que se chama de “choque”. As ondas de choque usam energia acústica, não elétrica, e servem para tratar tendinopatias crônicas, fascite plantar, pontos-gatilho miofasciais e alguns problemas ósseos, estimulando o reparo do tecido e reduzindo a dor. Já a estimulação elétrica (TENS/FES) usa corrente para modular dor ou contrair o músculo, com finalidade diferente. São recursos distintos.
Ondas de choque servem para dor muscular e “choque no músculo”?
As ondas de choque agem principalmente sobre tendões, fáscia e osso. Sobre o músculo, são usadas de forma adjuvante para pontos-gatilho miofasciais, reduzindo dor e tensão das bandas musculares, mas raramente como primeira escolha para dor muscular: aqui o agulhamento seco e a reabilitação costumam ter papel central. O “choque” não é corrente elétrica no músculo, e sim um pulso mecânico de pressão.
Ondas de choque doem?
A aplicação é sentida como pancadas rápidas e localizadas, que podem ser incômodas, sobretudo sobre áreas muito sensíveis ou osso superficial. A energia é ajustável e regulada até um limiar tolerável. Costuma haver dor pós-aplicação leve por 1 a 2 dias, que cede sozinha. Em geral não se usa anestesia.
Quantas sessões são necessárias e em quanto tempo melhora?
O protocolo habitual é de 3 a 5 sessões, em geral 1 vez por semana, mas varia conforme o alvo e a resposta. A melhora é progressiva, porque depende de reparo biológico: costuma se notar ao longo de algumas semanas, com reavaliação por volta de 8 a 12 semanas. O efeito é progressivo, não imediato.
Posso tomar anti-inflamatório durante o tratamento com ondas de choque?
Em geral recomenda-se evitar anti-inflamatórios perto das sessões, porque eles podem atenuar a resposta de reparo que a técnica busca estimular. Para a dor, costuma-se preferir analgésicos simples ou medidas físicas. A decisão sobre medicação é tomada pelo médico assistente.
Ondas de choque substituem a cirurgia ou a fisioterapia?
Não substituem a reabilitação: a terapia por ondas de choque é uma camada de um plano cuja base é o exercício de carga progressiva. Em quadros como tendinopatia calcária do ombro e pseudoartrose, pode ser uma alternativa não cirúrgica em casos selecionados, evitando ou adiando a cirurgia, definida em avaliação individual e em conjunto com o especialista.
Quem realiza o tratamento por ondas de choque?
O tratamento por ondas de choque é realizado pelos médicos Dr. Marcus Yu Bin Pai (CRM-SP 158.074 · RQE 65.523) e Dr. Andrew Park (CRM-SP 157.730). Usamos apenas aparelhos importados de alta energia, das marcas BTL e Storz; não utilizamos aparelhos de baixa energia.
Preciso de internação ou anestesia?
Não. É um tratamento ambulatorial e não invasivo, feito em sessões curtas em consultório; você retorna às atividades no mesmo dia, seguindo as orientações passadas para a região tratada.
Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Majidi et al. Terapia de ondas de choque reduz significativamente a dor em diferentes tipos de tendinopatia. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation. 2024. ver resumo
- De la Corte-Rodríguez et al. Terapia por ondas de choque para o tratamento da dor musculoesquelética: revisão narrativa. Healthcare. 2023. ver resumo
- Lippi L, Folli A, Moalli S, Turco A, Ammendolia A, de Sire A, Invernizzi M. Efficacy and tolerability of extracorporeal shock wave therapy in patients with plantar fasciopathy: a systematic review with meta-analysis and meta-regression. Eur J Phys Rehabil Med. 2024;60(5):832 a 846. acessar
- Gerdesmeyer L, Wagenpfeil S, Haake M, et al. Extracorporeal shock wave therapy for the treatment of chronic calcifying tendonitis of the rotator cuff: a randomized controlled trial. JAMA. 2003;290(19):2573 a 2580. acessar
- Kertzman P, Lenza M, Pedrinelli A, Ejnisman B. Shockwave treatment for musculoskeletal diseases and bone consolidation: qualitative analysis of the literature. Rev Bras Ortop. 2015;50(1):3 a 8. acessar
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A indicação da terapia por ondas de choque depende do diagnóstico exato, da cronicidade e do que já foi tentado antes, e a resposta esperada não é a mesma em cada quadro; o plano é individualizado após a consulta. A decisão de indicar o tratamento, a escolha entre onda radial e focal, a dose de energia, a checagem de contraindicações e qualquer ajuste de medicamento (incluindo a cautela com anti-inflamatórios perto das sessões) são feitos pelo médico assistente.
