Tipos de dor: quais são eles e por que importam
Os tipos de dor se organizam por duração, mecanismo (nociceptiva, neuropática, nociplástica e mista) e origem (somática, visceral ou referida). Essa classificação não é detalhe acadêmico: é ela que define o tratamento, pois cada tipo responde de forma diferente.
- A classificação da dor mais útil é por mecanismo: nociceptiva (lesão de tecido), neuropática (lesão ou doença do nervo) e nociplástica (dor por sensibilização do sistema nervoso, sem lesão proporcional).
- Antes disso, separamos a dor pela duração (aguda, com função protetora, e crônica, que persiste além de cerca de três meses) e descrevemos sua origem (somática, visceral ou referida).
- O tipo importa porque guia o tratamento: a dor nociceptiva responde a anti-inflamatórios e reabilitação; a neuropática, a anticonvulsivantes e antidepressivos; a nociplástica, a uma abordagem centrada no sistema nervoso, com exercício, sono e neuromodulação.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Por duração: dor aguda e dor crônica
A primeira pergunta diante de uma dor é há quanto tempo ela existe. A dor aguda e a dor crônica não são a mesma coisa em estágios diferentes: são fenômenos distintos, com causas, significado biológico e tratamentos próprios.
A dor aguda é um alarme. Surge junto de uma lesão ou de uma ameaça ao tecido, dura enquanto há reparo e tende a ceder à medida que a causa se resolve. Tem função protetora clara: faz a pessoa retirar a mão do fogo, poupar um tornozelo torcido, procurar ajuda.
Uma algia aguda costuma ser proporcional ao dano e responde bem a analgésicos, ao controle da causa e ao tempo. Quando alguém pergunta o que é uma “algia aguda”, a resposta prática é justamente esta: a dor recente, de início definido, ligada a um evento.
A dor crônica é a dor que persiste além do tempo esperado de cicatrização, em geral por mais de três meses, ou que recorre de forma frequente. Aqui o alarme perdeu a utilidade: o sistema nervoso continua sinalizando dor mesmo quando o tecido já se reparou, ou quando a lesão original não justifica a intensidade do sofrimento. A dor crônica deixa de ser um sintoma de outra doença e passa a ser, ela própria, uma condição de saúde, com impacto sobre o sono, o humor, o trabalho e a vida social. Tratá-la como se fosse uma dor aguda prolongada é um dos erros mais comuns e mais custosos.
| Aspecto | Dor aguda | Dor crônica |
|---|---|---|
| Duração | Recente, ligada à lesão | Mais de três meses ou recorrente |
| Função | Protetora, é um alarme útil | Perdeu a função de alarme |
| Relação com a lesão | Proporcional ao dano | Pode persistir sem lesão proporcional |
| Alvo do tratamento | A causa e o alívio temporário | O sistema nervoso, a função e os fatores moduladores |
Essa transição da dor aguda para a crônica não é inevitável. Ela envolve a sensibilização do sistema nervoso, em que neurônios da medula e do cérebro passam a amplificar os sinais de dor, e é influenciada por sono ruim, estresse, medo do movimento e quadros de humor. Reconhecer cedo o risco de cronificação muda a conduta: em vez de repetir exames e remédios, o foco se desloca para movimento, condicionamento e manejo desses fatores. Esse é um dos motivos pelos quais classificar a dor logo no início faz diferença real no desfecho.
Na prática, a duração nunca é lida sozinha. Uma dor de três semanas que já não tem lesão visível, que migra, que vem acompanhada de sono fragmentado e cansaço, pode estar tomando características de dor crônica antes de completar três meses. O tempo é uma referência, não uma regra rígida.
Por mecanismo: a classificação que mais importa
Se há um único quadro de referência para entender os tipos de dor, é a classificação por mecanismo. Ela divide a dor em três grandes categorias, conforme o que está acontecendo no sistema que gera o sinal doloroso: dor nociceptiva, neuropática e nociplástica. Na vida real, é muito comum que mais de um mecanismo coexista, e aí falamos em dor mista. Entender em qual categoria a dor de uma pessoa se encaixa é o que orienta a escolha do tratamento.
Dor nociceptiva: o tecido avisa que sofreu
A dor nociceptiva nasce da ativação de receptores chamados nociceptores, espalhados na pele, nos músculos, nos tendões, nos ossos, nas articulações e nos órgãos. Eles disparam quando há lesão real ou ameaça de lesão por estímulo mecânico, térmico ou inflamatório. É a dor mais intuitiva e a mais comum: a da entorse, da artrose, da tendinite, da contusão, da dor lombar mecânica, da cólica. Costuma ser bem localizada (na variante somática) e descrita como uma dor em peso, latejante, em pontada ou em aperto, que piora ao usar a estrutura afetada e melhora com repouso relativo e controle da inflamação.
Como o problema está, em grande parte, no tecido e na inflamação, esse tipo de dor tende a responder a analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos, ao controle da causa e, principalmente, à reabilitação ativa, que recupera carga, força e mobilidade. É o terreno clássico da dor musculoesquelética que tratamos todos os dias, como a lombalgia e a dor das articulações.
Dor neuropática: o problema está no nervo
A dor neuropática é causada por lesão ou doença do próprio sistema nervoso somatossensorial, seja nos nervos periféricos, nas raízes, na medula ou no cérebro. Aqui não é o tecido que dói: é o cabo que conduz e processa o sinal que está alterado. Por isso a dor tem uma qualidade característica, descrita como queimação, choque, agulhada, formigamento ou dormência dolorosa, muitas vezes em um trajeto que segue o território de um nervo ou de uma raiz. Pode haver dor desencadeada por um toque leve, como o roçar da roupa, que normalmente não doeria.
São exemplos típicos a neuropatia diabética, a dor que desce pela perna na ciática por hérnia de disco, a neuralgia do trigêmeo, a neuralgia pós-herpética (após o herpes-zóster) e a dor após lesões nervosas. O ponto decisivo para o tratamento é que a dor neuropática não responde bem a anti-inflamatórios comuns. Ela costuma melhorar com anticonvulsivantes moduladores (gabapentinoides) e com antidepressivos em dose analgésica, que atuam sobre os circuitos da dor, e não sobre a inflamação. Identificar esse tipo evita meses de remédio sem efeito.
Dor nociplástica: dor por sensibilização central
A dor nociplástica é a categoria mais recente e a que mais costuma confundir. É a dor que surge de uma alteração no processamento nociceptivo, isto é, na forma como o sistema nervoso central amplifica e mantém a dor, sem que haja lesão de tecido ou de nervo que a explique de forma proporcional. O mecanismo central é a sensibilização central: o volume da dor fica “turbinado”. A pessoa sente dor difusa, que migra, frequentemente associada a fadiga, sono não reparador, dificuldade de concentração e maior sensibilidade a estímulos em geral.
O exemplo mais conhecido é a fibromialgia, mas o componente nociplástico aparece em muitos quadros crônicos, inclusive somado a uma dor nociceptiva ou neuropática de base. Por isso o tratamento muda de lógica: anti-inflamatórios e procedimentos isolados costumam decepcionar, e o que ajuda é uma abordagem central, com exercício gradual, regulação do sono, manejo do estresse, educação em dor e fármacos que atuam no sistema nervoso central (como certos antidepressivos e gabapentinoides). Há, para quem quer se aprofundar, uma página dedicada à dor nociplástica.
Mesma queixa, mecanismos diferentes
Duas pessoas com “dor nas costas” podem ter mecanismos distintos: uma, nociceptiva e mecânica; outra, com forte componente nociplástico. O tratamento que ajuda uma pode frustrar a outra.
é a apresentação mais comum na dor crônica, com mais de um mecanismo somado no mesmo paciente.
Dor mista: o cenário mais real
Na clínica, a dor “pura” de um único mecanismo é mais a exceção do que a regra na dor crônica. Uma hérnia de disco pode somar dor nociceptiva (do disco e das articulações), dor neuropática (da raiz comprimida) e, com o tempo, um componente nociplástico de sensibilização. Reconhecer a dor mista é importante porque o plano precisa atacar cada camada: reabilitação para a parte mecânica, fármacos neuropáticos para a raiz, e estratégia central quando há sensibilização. Tratar só um eixo costuma explicar por que a dor “não passa com nada”.
“Se o exame de imagem está normal, a dor não é real ou é só psicológica.”
A dor nociplástica é real e tem base neurobiológica, mesmo com exames de imagem normais. O exame não mede a dor; ele mostra estruturas. A ausência de lesão não invalida o sofrimento.
Por origem: somática, visceral e referida
Dentro da dor nociceptiva, ainda é útil descrever de onde, no corpo, o sinal parte. Essa classificação por origem ajuda a entender por que algumas dores são fáceis de apontar com o dedo e outras parecem vagas ou aparecem longe do problema.
- Somática
- Vem da pele, dos músculos, dos ossos e das articulações. Costuma ser bem localizada e descrita como peso, pontada ou latejamento. É a dor da entorse, da artrose, da contusão.
- Visceral
- Vem dos órgãos internos. Tende a ser difusa, mal localizada, em cólica ou aperto, às vezes acompanhada de náusea ou suor. É a dor da cólica renal, da apendicite, das vísceras abdominais.
- Referida
- É sentida em um local diferente de onde o estímulo realmente acontece, porque os sinais convergem para os mesmos circuitos na medula. Um exemplo clássico é a dor no braço esquerdo no infarto.
A dor referida tem grande valor prático na dor musculoesquelética. Um ponto-gatilho no trapézio pode projetar dor para a cabeça; uma articulação do quadril pode doer no joelho; uma raiz cervical irritada pode dar dor no braço. Saber reconhecer o padrão de irradiação evita tratar o lugar errado, um erro que prolonga o sofrimento e multiplica exames desnecessários.
A dor visceral merece um cuidado especial: por ser mal localizada e por vezes referida, ela pode ser confundida com dor musculoesquelética, e o contrário também ocorre. Quando uma dor “nas costas” ou “no peito” vem com sintomas de órgão (febre, alteração intestinal ou urinária, falta de ar, sudorese), a prioridade deixa de ser a coluna e passa a ser excluir uma causa visceral.
As características que descrevemos em toda dor
Além de classificar, o médico descreve a dor por um conjunto de características. Não existe um número fixo e oficial de “10 características da dor”, mas há um roteiro consagrado que organiza a história clínica e ajuda a deduzir o mecanismo. Esse roteiro é o que transforma uma queixa vaga em um diagnóstico de trabalho.
- Localização e irradiação. Onde dói e para onde a dor caminha, o que sugere a estrutura ou o nervo envolvido.
- Qualidade. Peso e latejamento apontam para nociceptiva; queimação e choque, para neuropática.
- Intensidade. Medida em escala de 0 a 10, útil para acompanhar a resposta ao tratamento.
- Duração e padrão temporal. Aguda ou crônica, constante ou em crises, com ritmo ao longo do dia.
- Fatores que pioram e que aliviam. Movimento, postura, repouso, calor, frio, estresse.
- Sintomas associados. Formigamento, fraqueza, sono ruim, fadiga, sintomas de órgão.
Esse mapa não é burocracia. A qualidade da dor, por exemplo, é uma das pistas mais fortes do mecanismo: quando alguém descreve uma dor “como um choque que desce pela perna”, já estamos pensando em componente neuropático antes de qualquer exame. Quando a pessoa sente dor difusa pelo corpo, que muda de lugar e vem com cansaço, pensamos em sensibilização central. A escuta orientada vale mais do que pedir exames às cegas.
A intensidade da dor não mede a gravidade da causa. Uma cólica renal pode estar entre as dores mais fortes que existem e não ser uma ameaça à vida, enquanto algumas doenças graves cursam com dor discreta. Por isso a dor é avaliada no conjunto, nunca pela nota isolada de 0 a 10.
Como o tratamento muda conforme o tipo de dor
Aqui está a razão de toda essa classificação. O tratamento da dor é multimodal, não-cirúrgico e individualizado, e a base ativa é sempre o exercício. O que muda, do nociceptivo ao nociplástico, é o peso de cada ferramenta dentro do plano e a escolha dos fármacos. A tabela abaixo resume a lógica; em seguida, explicamos cada modalidade do arsenal, com o seu mecanismo, a evidência e o que esperar.
| Tipo de dor | Mecanismo | Abordagem preferencial |
|---|---|---|
| Nociceptiva | Lesão ou inflamação de tecido | Anti-inflamatórios e analgésicos por curto prazo, reabilitação ativa, infiltração quando localizada |
| Neuropática | Lesão ou doença do nervo | Anticonvulsivantes (gabapentinoides) e antidepressivos em dose analgésica; neuromodulação; bloqueios seletivos |
| Nociplástica | Sensibilização central, sem lesão proporcional | Abordagem central: exercício gradual, sono, manejo do estresse, educação em dor, fármacos de ação central |
| Mista | Mais de um mecanismo somado | Plano por camadas, combinando as estratégias acima conforme cada componente |
Educação em dor e movimento
Entender o tipo da própria dor reduz o medo e melhora a adesão. O retorno gradual à atividade é a base, especialmente na dor crônica e nociplástica.
Reabilitação ativa
Exercício terapêutico, cinesioterapia, RPG e Pilates clínico, com atendimento individual. É o eixo comum a todos os tipos de dor.
Técnicas em clínica
Acupuntura, eletroacupuntura, agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho quando há componente miofascial ou neuropático modulável.
Procedimentos e fármacos dirigidos
Bloqueios, neuromodulação e medicação escolhida pelo mecanismo, sempre dentro de um plano reavaliado.
Reabilitação e exercício: a base de todos os tipos
O exercício terapêutico é a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança em quase toda dor crônica. O mecanismo vai além de fortalecer: o movimento melhora o controle motor, dessensibiliza tecidos e o sistema nervoso, e ativa as vias inibitórias da dor do próprio corpo. A evidência sustenta o exercício como base do tratamento conservador da dor lombar, cervical e da fibromialgia, com magnitude variável. O que esperar: resposta gradual ao longo de semanas, dependente da regularidade, mantida depois para prevenir recorrência. Na dor nociplástica, a progressão é mais lenta e cuidadosa, para não disparar o sistema sensibilizado.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- O que é
- inserção de agulhas finas em acupontos por médico acupunturista; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas.
- Mecanismo
- modulação segmentar no corno dorsal da medula (teoria da comporta), ativação das vias inibitórias descendentes e liberação de opioides endógenos; a baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. É justamente esse perfil de ação que a torna versátil entre os tipos de dor: o mesmo recurso ajuda no componente miofascial nociceptivo e modula vias relevantes na dor neuropática e na sensibilização central.
- Evidência
- moderada para dor cervical crônica, lombalgia e cefaleia ou enxaqueca, com recomendação em diretrizes para contextos selecionados.
- O que esperar
- não tratamos “dor” em geral, e sim o tipo identificado, então o número de sessões e o intervalo são definidos pelo mecanismo predominante e pela resposta de cada pessoa, com reavaliação combinada antes de seguir.
- Limitações
- desconforto ou pequena equimose no ponto, raros; cautela em quem usa anticoagulante; é um recurso que soma à reabilitação, não a dispensa.
Agulhamento seco para dor miofascial
- O que é
- uma agulha inserida diretamente no ponto-gatilho, sem injeção de substância.
- Mecanismo
- ao tocar o nó muscular tenso, a agulha costuma desencadear uma breve contração reflexa da banda (a chamada resposta de contração local), que reduz a atividade elétrica anômala da placa motora e a concentração local de substâncias que mantêm a dor, com efeito sobre o tecido e sobre o segmento medular correspondente.
- O que esperar
- a melhora costuma vir já nos primeiros dias após a sessão, às vezes de imediato, e é comum um incômodo leve no ponto agulhado por um ou dois dias, como o de um músculo trabalhado.
- Limitações
- cautela em quem usa anticoagulante; o agulhamento sobre a parede torácica exige domínio anatômico pelo risco de pneumotórax em mãos não treinadas. É um recurso central no componente miofascial, frequente na dor cervical e lombar e, com frequência, somado a outros mecanismos.
Infiltração e bloqueios para o componente neuropático
A infiltração de pontos-gatilho injeta anestésico local (ou soro fisiológico) no ponto resistente, interrompendo o ciclo dor-espasmo-dor e abrindo uma janela para a reabilitação. Os bloqueios anestésicos, como o do nervo occipital na cefaleia cervicogênica refratária ou o supraescapular no ombro, interrompem temporariamente a condução nociceptiva e ajudam sobretudo quando há um componente neuropático ou neurálgico. O que esperar: alívio que pode durar de dias a semanas, sempre usado para destravar o tratamento ativo, e não como solução isolada.
Neuromodulação percutânea (PENS)
O PENS (estimulação elétrica nervosa percutânea) aplica estímulo por agulhas sobre trajetos nervosos, com efeito de neuromodulação periférica e segmentar útil em componentes neuropáticos e miofasciais selecionados. O que esperar: séries de sessões, com alívio progressivo e resposta reavaliada ao longo do ciclo.
Toxina botulínica para casos refratários
- Mecanismo
- a toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos, com efeito que vai além do relaxamento muscular.
- Evidência
- consolidada na enxaqueca crônica (protocolo PREEMPT) e útil na dor miofascial intensa e refratária.
- O que esperar
- início em 2 a 4 semanas, efeito por cerca de 3 a 4 meses, com benefício cumulativo em ciclos. A escolha do produto e da dose cabe ao médico.
Medicação por tipo de dor
O fármaco certo depende do mecanismo, e essa é a tradução mais direta de por que classificar a dor importa. Na dor nociceptiva, analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos para alívio, com relaxantes musculares de papel limitado (causam sonolência). Na dor neuropática e na crônica com sensibilização, o eixo são os antidepressivos em dose analgésica (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) e os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), que atuam nos circuitos da dor e não na inflamação. Todos com indicação, dose e duração definidas pelo médico, considerando efeitos adversos e comorbidades.
Para entender o papel de cada classe, veja o nosso guia de remédios para dor. O mesmo sintoma pode exigir fármacos opostos conforme o mecanismo.
O que mais muda um plano, no dia a dia, é acertar o tipo logo no início. Quando alguém chega com uma dor em queimação que desce pela perna e já passou por meses de anti-inflamatório sem efeito, a frustração costuma ser de quem foi tratado como dor nociceptiva quando o quadro era neuropático, e a virada vem ao trocar a classe do remédio, não a dose.
O caminho inverso também aparece com frequência: pessoas com dor difusa pelo corpo, sono ruim e exames normais que acumularam ressonâncias, opioides e até indicação cirúrgica. Nesse perfil nociplástico, mais imagem e mais procedimento tendem a piorar, e o que reorganiza o quadro é exercício gradual, sono, educação em dor e medicação de ação central. Tirar o foco do exame costuma ser a parte que mais surpreende quem chega.
E há o cenário mais comum de todos: a dor de mecanismo único é rara na dor crônica. A maioria chega com uma mistura, por exemplo um ombro com ponto-gatilho miofascial sobreposto a uma sensibilização já instalada. Quando só um eixo é tratado, a dor “não passa com nada”; quando cada camada recebe a estratégia certa, o quadro começa a ceder.
Nomear o tipo de dor parece detalhe de prova, mas é o que inverte o tratamento. A maior parte do material trata “dor” como uma coisa só e sugere o mesmo analgésico para tudo. Na prática, uma dor neuropática em queimação quase não responde aos anti-inflamatórios que resolvem uma dor nociceptiva, e uma dor nociplástica de origem central tende a piorar com mais exames de imagem, opioides e cirurgia. A mesma palavra, “dor”, pode pedir condutas opostas, e é por isso que a primeira pergunta útil nunca é “qual o remédio mais forte”, e sim “de que tipo é esta dor”.
Definir o tipo
História e exame para classificar a dor por mecanismo e iniciar a base de movimento e o alívio adequado.
Progressão dirigida
Reabilitação e técnicas em clínica conforme o tipo; ajuste de fármacos pelo mecanismo. A dor costuma começar a ceder.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se a classificação: pode haver um componente não tratado (mista) ou um diagnóstico a revisar.
Medimos a intensidade na escala de 0 a 10, a função e o retorno às atividades. Se a melhora não acompanha o esperado, a conduta não é só aumentar a dose ou repetir a mesma sessão: voltamos à pergunta do mecanismo e perguntamos se o tipo de dor foi bem identificado, se há um componente mista não tratado ou se o diagnóstico precisa ser revisto.
Sinais de alerta em qualquer tipo de dor
A maioria das dores é benigna e se encaixa nos tipos acima, mas alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, independentemente da classificação.
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor após trauma importante, como queda ou acidente.
- Fraqueza progressiva, dormência em sela ou alteração para urinar ou evacuar.
- Febre, perda de peso sem explicação ou mal-estar importante junto da dor.
- Dor de cabeça súbita e a mais intensa da vida, ou dor torácica com falta de ar e sudorese.
- Dor que piora de forma contínua e não responde a nada, sobretudo à noite.
- História de câncer ou de imunossupressão com dor nova e persistente.
Esses achados mudam a prioridade: antes de classificar o tipo de dor para tratar, é preciso excluir causas que exigem conduta específica e, por vezes, urgente. Na ausência deles, a investigação segue o caminho calmo de definir o mecanismo e montar o plano.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Quais são os tipos de dor e qual a classificação mais usada?
A dor é classificada por duração (aguda e crônica), por origem (somática, visceral e referida) e, principalmente, por mecanismo (nociceptiva, neuropática e nociplástica, além da mista). A classificação por mecanismo é a mais usada na prática porque é ela que define o tratamento.
O que é uma algia aguda?
Algia é sinônimo de dor. Uma algia aguda é a dor recente, de início definido, ligada a uma lesão ou ameaça ao tecido. Tem função protetora e tende a ceder com o controle da causa. Difere da dor crônica, que persiste além do tempo de cicatrização.
Quantas características a dor tem?
Não há um número oficial de “10 características da dor”, mas a história clínica costuma descrever localização, irradiação, qualidade, intensidade, duração, padrão temporal, fatores que pioram e aliviam e sintomas associados. Esse conjunto ajuda a deduzir o mecanismo.
Quais são as dores mais fortes do mundo?
Costumam ser citadas a neuralgia do trigêmeo, a cólica renal, a dor do parto, a dor oncológica e a dor regional complexa. A intensidade, porém, não mede a gravidade da causa, e por isso toda dor forte merece avaliação no conjunto.
Por que a pessoa sente dor mesmo com exames normais?
Porque a dor pode ser nociplástica, gerada pela sensibilização do sistema nervoso, sem lesão proporcional nos exames. O exame mostra estruturas, não mede a dor. A ausência de lesão não significa que a dor não seja real.
Por que o tipo de dor muda o remédio?
Porque cada mecanismo responde a classes diferentes. A dor nociceptiva melhora com anti-inflamatórios; a neuropática, com anticonvulsivantes e antidepressivos, que não funcionam pela inflamação. Usar o fármaco errado é uma causa comum de dor que “não passa”. Veja o guia de remédios para dor.
Qual a diferença entre dor nociceptiva e neuropática?
Na nociceptiva, o problema está no tecido (lesão ou inflamação), e a dor é em peso ou latejante. Na neuropática, o problema está no nervo, e a dor é em queimação, choque ou formigamento, muitas vezes no trajeto de um nervo. O tratamento difere bastante.
Dor crônica tem cura?
O objetivo realista costuma ser reduzir a dor a um nível que não limite a rotina e recuperar a função, mais do que zerá-la. Muitas pessoas melhoram de forma significativa com um plano individualizado e dirigido ao tipo de dor. A evolução não é linear e o plano é reavaliado.
Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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- Reis FJJ, Chaves TC. Dor nociplástica: desafios e perspectivas futuras. BrJP. 2024;7:e20240052. acessar
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- van Griensven et al. Sensibilização Central na Dor Musculoesquelética: Perdido na Tradução? Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy. 2020. ver resumo
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Classificar o tipo de dor exige exame presencial: a mesma queixa pode ter mecanismos diferentes, e só a consulta permite definir um plano individualizado e o fármaco certo para cada caso.
