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Cefaleia · Covid-19 e pós-Covid

Cefaleia e Covid-19: por que a dor de cabeça aparece e por que às vezes não vai embora

A cefaleia é um dos sintomas mais frequentes da Covid-19 e, em parte das pessoas, persiste por semanas como cefaleia pós-Covid, resistindo aos analgésicos habituais.

Resposta direta
  • A cefaleia é um dos sintomas mais comuns da Covid-19. Na fase aguda, costuma ser uma dor de cabeça difusa, em pressão ou latejante, em geral dos dois lados, que pode resistir aos analgésicos simples.
  • Em parte das pessoas, a dor de cabeça persiste depois que a infecção passa, por semanas a meses. É a cefaleia pós-Covid, uma das manifestações da síndrome pós-Covid (Covid longa).
  • O mecanismo proposto envolve inflamação sistêmica e ativação do sistema trigeminovascular, a mesma via ligada à enxaqueca. Quem já tinha enxaqueca pode ter piora da frequência ou da intensidade das crises.
  • A maioria dos casos melhora com o tempo. O tratamento é sintomático e, quando a dor é frequente, inclui profilaxia e medidas não-farmacológicas, com atenção para não exagerar nos analgésicos.
  • Dor de cabeça súbita e explosiva, com déficit neurológico ou outros sinais de gravidade, é emergência e exige atendimento imediato.
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Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Cefaleia e Covid-19: o que é e por que é tão comum

Ilustração editorial de uma pessoa com a mão na testa e uma máscara sobre a mesa, com brilho em terracota na fronte.
A covid-19 pode desencadear ou agravar dores de cabeça, durante e após a infecção.

Cefaleia é simplesmente o termo técnico para dor de cabeça. Na Covid-19, ela está entre os sintomas mais frequentes: muitas pessoas relatam que a dor de cabeça foi a primeira queixa da infecção, às vezes antes mesmo da febre ou da perda de olfato.

Na fase aguda, essa cefaleia tem um padrão razoavelmente reconhecível. Costuma ser uma dor moderada a forte, sentida dos dois lados da cabeça, com sensação de pressão ou peso, por vezes latejante, e localização frequente na região da testa e ao redor dos olhos. Em muitos casos vem acompanhada de sensibilidade à luz e ao som, o que a aproxima do perfil de uma enxaqueca. Uma característica que chama a atenção do ponto de vista clínico é a tendência a resistir aos analgésicos comuns: a dor responde mal ao que a pessoa costuma tomar, e isso gera angústia e, não raro, uso repetido de remédio.

É importante diferenciar dois cenários. A maioria das pessoas tem a dor de cabeça apenas durante a fase aguda, e ela desaparece junto com os demais sintomas. Em uma parcela, porém, a cefaleia persiste depois que a infecção já passou, configurando a cefaleia pós-Covid.

Quando a dor de cabeça, a fadiga, a dificuldade de concentração (a chamada névoa mental) e outros sintomas se prolongam por mais de algumas semanas após a infecção, fala-se em síndrome pós-Covid, ou Covid longa. A cefaleia é uma das queixas neurológicas mais relatadas nesse contexto.

2 lados
Padrão bilateral, em pressão, mais típico
Aguda
Pode ser o primeiro sintoma da infecção
Pós
Pode persistir como cefaleia pós-Covid
Tempo
A maioria melhora ao longo de semanas a meses
Escada de concreto entre parede de tijolos aparentes e brises de madeira no vão da clínica
Nossa estrutura Escada de concreto e parede de tijolos aparentes

Características e fenótipo da cefaleia pós-Covid

A cefaleia que persiste após a Covid-19 não tem um carimbo único, mas alguns traços se repetem e permitem descrevê-la com precisão. Na fase aguda, a Classificação Internacional das Cefaleias (ICHD-3) a enquadra como uma cefaleia atribuída a infecção sistêmica viral: surge em relação temporal com a infecção e tende a remitir com ela. O fenótipo descrito na literatura costuma ser uma dor bilateral, de localização frontal ou holocraniana, de caráter em pressão/peso ou pulsátil, de intensidade moderada a forte, com piora ao esforço e, em boa parte, fotofobia e fonofobia. Dois sinais clínicos chamam a atenção: a dor frequentemente resiste aos analgésicos simples e tende a ser refratária ao paracetamol, respondendo mal ao que a pessoa habitualmente usa.

Quando a dor persiste após a resolução da infecção, fala-se em cefaleia pós-Covid. O padrão típico é uma dor de cabeça diária ou quase diária, contínua ou com exacerbações ao longo do dia, de caráter misto: ora lembra uma cefaleia do tipo tensional (aperto bilateral, em faixa, sem náusea importante), ora assume perfil enxaquecoso (pulsátil, unilateral em parte do tempo, com náusea, fotofobia e fonofobia e piora ao movimento). Essa sobreposição não é coincidência: reflete a ativação trigeminovascular descrita no mecanismo.

Um subgrupo desenvolve o fenótipo de nova cefaleia diária persistente. O critério que a define é marcante: a dor é contínua e diária desde o início, e a pessoa consegue recordar com precisão a data em que começou (por convenção, dor diária e não remitente que se torna contínua em até 24 horas e persiste por mais de três meses). É justamente esse tipo de cefaleia, notoriamente difícil de tratar e refratária, que a Covid tornou mais frequente na prática clínica. Em paralelo, há o risco crescente de cefaleia por uso excessivo de medicação se sobrepor, num ciclo detalhado adiante.

Vale a distinção que mais tranquiliza quem busca a causa: a cefaleia pós-Covid não é, na maioria dos casos, sinal de lesão cerebral nem de processo estrutural grave. A neuroimagem na cefaleia pós-Covid sem sinais de alerta costuma ser normal. A dor reflete uma sensibilização do sistema nociceptivo que persiste mesmo após o vírus deixar de estar ativo.

Isso muda o objetivo do cuidado: não se trata de caçar uma lesão na ressonância, e sim de controlar a dor e dessensibilizar o sistema ao longo do tempo. Muitos desses traços se sobrepõem aos das dores de cabeça comuns, detalhadas no guia sobre dor de cabeça na nuca e na página sobre o que é enxaqueca, causas e tratamentos.

Em uma frase

A cefaleia pós-Covid costuma ser uma dor diária, de caráter misto (tensional e enxaquecoso) e por vezes com o padrão de nova cefaleia diária persistente, que resiste aos analgésicos, mas que, na grande maioria dos casos, não traduz lesão grave, e sim um sistema de dor sensibilizado que tende a se acalmar com o tempo e com tratamento.

Por que a Covid causa dor de cabeça: o mecanismo proposto

Não há uma explicação única e fechada. Os mecanismos hoje mais discutidos convergem para uma ideia central: a infecção dispara uma resposta que ativa e sensibiliza o sistema trigeminovascular, a via final comum da dor de cabeça. Convém apresentar isso como o que de fato é, um conjunto de hipóteses fisiopatológicas plausíveis e parcialmente sobrepostas, sustentadas por dados ainda emergentes, e não uma certeza estabelecida. Quatro componentes ajudam a organizar o raciocínio.

Inflamação sistêmica e a tempestade de citocinas

A resposta imune ao SARS-CoV-2 cursa com elevação de citocinas pró-inflamatórias, em especial interleucina-6 (IL-6), interleucina-1 beta (IL-1β) e fator de necrose tumoral alfa (TNF-α). Esses mediadores circulam na corrente sanguínea e, ao mesmo tempo, sensibilizam terminações nociceptivas e baixam o limiar de disparo de neurônios da dor, um fenômeno de sensibilização periférica e central. No gânglio trigeminal, a exposição a citocinas favorece a expressão e a liberação de neuropeptídeos álgicos. Esse estado inflamatório explica por que a cefaleia aguda costuma vir acompanhada de febre, mialgia e mal-estar, e os dados disponíveis sugerem que cefaleia mais intensa na fase aguda associa-se a marcadores inflamatórios mais elevados.

Ativação trigeminovascular e o CGRP

Provavelmente o eixo mais relevante para a dor em si é a ativação do sistema trigeminovascular: o ramo oftálmico (V1) do nervo trigêmeo inerva a dura-máter e os vasos meníngeos, e sua despolarização libera o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP), a molécula no centro da fisiopatologia da enxaqueca. O CGRP é um potente vasodilatador e promove inflamação neurogênica meníngea, com extravasamento plasmático e degranulação de mastócitos, perpetuando a ativação dos nociceptores. Postula-se que tanto a cascata inflamatória quanto a estimulação viral direta possam acionar essa via.

Isso explicaria duas observações: por que a cefaleia da Covid tantas vezes assume um perfil enxaquecoso (pulsátil, fotofobia, fonofobia) e por que pode persistir, já que uma vez sensibilizado, o sistema trigeminovascular pode demorar a normalizar. É também o que dá racionalidade a tratar a cefaleia pós-Covid com ferramentas da enxaqueca.

Acometimento neural direto, hipóxia e disfunção endotelial

Há ainda a hipótese de ação direta sobre o sistema nervoso. Discute-se que o SARS-CoV-2 possa atingir terminações trigeminais e a via olfatória, ligando-se ao receptor ECA-2 (enzima conversora de angiotensina 2), amplamente expresso no endotélio vascular e em estruturas neurais perivasculares. A própria hipóxia, nos casos com comprometimento respiratório, é um gatilho conhecido de cefaleia, por vasodilatação cerebral e estresse oxidativo. Soma-se a disfunção endotelial e o estado pró-trombótico característicos da Covid, que ativam vias inflamatórias na parede vascular, com relevância direta para os sinais de alerta discutidos adiante (trombose venosa cerebral, eventos isquêmicos).

Fatores perpetuadores na recuperação

Por fim, somam-se gatilhos indiretos que ajudam a manter a dor na fase de recuperação: desidratação e febre na fase aguda, desregulação do sono, estresse e desativação física, além de tensão e pontos-gatilho na musculatura cervical (trapézio superior, elevador da escápula, suboccipitais) acumulados durante o período acamado. Há também sinais de disautonomia em parte dos casos de Covid longa, que se sobrepõe à dor de cabeça. Entender que vários desses mecanismos coexistem importa porque cada um aponta um alvo concreto do tratamento multimodal.

A via central

Trigeminovascular + CGRP

A inflamação e, possivelmente, o vírus ativam o nervo trigêmeo (V1) na dura-máter, com liberação de CGRP e inflamação neurogênica. É a mesma via da enxaqueca, daí o perfil enxaquecoso.

O combustível
IL-6 · TNF-α

Citocinas pró-inflamatórias sensibilizam nociceptores e o gânglio trigeminal. Somam-se hipóxia, ECA-2, disfunção endotelial e tensão cervical.

Quem já tinha enxaqueca: por que pode piorar

Uma observação consistente na prática é que pessoas com enxaqueca prévia tendem a ser mais vulneráveis à cefaleia ligada à Covid-19. Isso faz sentido quando se entende o mecanismo: se a infecção ativa o sistema trigeminovascular, e esse sistema já é hiperexcitável em quem tem enxaqueca, o resultado costuma ser uma piora do quadro de base.

Na prática, isso aparece de algumas formas. A pessoa pode notar aumento da frequência das crises após a infecção, com a enxaqueca que era esporádica passando a se repetir muito mais. Pode haver aumento da intensidade ou mudança no padrão das crises, que se tornam mais difíceis de controlar com o que antes funcionava.

Em alguns casos, a Covid funciona como um gatilho que precipita a transição de uma enxaqueca episódica para uma enxaqueca crônica, definida pela presença de dor de cabeça em quinze ou mais dias por mês. Reconhecer essa virada é decisivo, porque muda completamente a estratégia de tratamento, deslocando o foco do alívio da crise para a prevenção.

Por isso, quem já convivia com enxaqueca e percebe que ela mudou de comportamento após a Covid merece reavaliação. Não se trata de uma doença nova e misteriosa, mas de um quadro conhecido que descompensou, e que tem caminhos de tratamento bem estabelecidos, discutidos em profundidade na página sobre enxaqueca.

Mito

“Minha enxaqueca piorou depois da Covid, então o vírus deve ter causado uma lesão no meu cérebro.”

Fato

Na maioria das vezes, a Covid funciona como um gatilho que descompensa uma enxaqueca já existente, ativando uma via que já era sensível. Não significa lesão cerebral, e o quadro tem tratamento, inclusive preventivo.

Sinais de alerta e diagnóstico diferencial

A grande maioria das cefaleias associadas à Covid-19 é benigna, ainda que incômoda. Mas a dor de cabeça é também a porta de entrada de condições graves, e a Covid-19 tem uma particularidade que torna a vigilância obrigatória: o estado pró-trombótico que ela induz, com disfunção endotelial e ativação da coagulação, aumenta o risco de eventos vasculares cerebrais. Por isso, alguns sinais de alerta (sistematizados pela mnemônica SNNOOP10) não admitem espera. Procure atendimento de urgência diante de qualquer um deles:

Sinais de alerta · procure atendimento de urgência

Não espere se a dor de cabeça vier com

  • Cefaleia em trovoada: dor súbita e explosiva que atinge intensidade máxima em segundos a poucos minutos, descrita como a pior dor da vida.
  • Déficit neurológico focal: fraqueza ou dormência de um lado do corpo, dificuldade para falar, alteração visual, desequilíbrio ou queda.
  • Febre alta com rigidez de nuca, confusão mental ou sonolência excessiva.
  • Crise convulsiva, perda de consciência ou confusão de início recente.
  • Padrão progressivo/postural: dor que piora ao longo de dias, ou que piora ao deitar, tossir, fazer força ou pela manhã ao acordar.
  • Contexto de risco: dor nova e intensa após os 50 anos, em pessoa com câncer, imunossupressão, gestação/puerpério ou em uso de anticoagulante.

Cada item aponta para uma hipótese diagnóstica concreta que muda a conduta e a investigação:

  • Cefaleia em trovoada obriga a afastar hemorragia subaracnóidea (em geral por aneurisma roto) e a trombose venosa cerebral (TVC), complicação reconhecidamente associada ao estado pró-trombótico da Covid. A investigação típica combina tomografia de crânio sem contraste e, conforme o tempo de evolução e a suspeita, punção lombar e angiografia venosa (angio-TC ou angio-RM) para a TVC.
  • Febre com rigidez de nuca, fotofobia e confusão levanta meningite ou encefalite; a abordagem envolve neuroimagem e punção lombar com análise do líquor, sem postergar antibiótico/antiviral empírico quando indicado.
  • Déficit neurológico focal pede investigação imediata de acidente vascular cerebral isquêmico ou hemorrágico, lembrando o risco trombótico elevado na Covid.
  • Cefaleia progressiva, pior ao deitar ou que desperta sugere hipertensão intracraniana (incluindo lesão expansiva ou a própria TVC com edema), exigindo neuroimagem.

Na ausência desses sinais, e com exame neurológico normal, a cefaleia pós-Covid costuma ser um quadro de dor primária sensibilizada que se maneja de forma ambulatorial e com segurança, sem necessidade de neuroimagem rotineira. É a presença de um sinal de alerta, não a Covid em si, que define quando a imagem muda a conduta.

Assista: Enxaqueca dá tontura? Enxaqueca dá náuseas? Quando me preocupar?

Tratamento na clínica: o arsenal não-cirúrgico para a dor

A maioria das cefaleias associadas à Covid-19 melhora com o tempo, à medida que a inflamação cede e o sistema da dor se acalma. A evidência específica para a cefaleia pós-Covid ainda é emergente e limitada, e boa parte da conduta é uma extrapolação fundamentada do tratamento da enxaqueca e da cefaleia tensional, condições com as quais ela compartilha mecanismo (a via trigeminovascular). O papel do tratamento é aliviar a dor nesse intervalo, evitar a cronificação e devolver função.

A abordagem é multimodal e individualizada; nenhuma modalidade isolada costuma bastar, e o alvo é sempre o mecanismo: acalmar o sistema trigeminovascular e a sensibilização que o sustenta. Esta seção concentra o que é feito dentro da clínica por médicos da dor; a reabilitação física, o tratamento medicamentoso e o papel (limitado) da cirurgia e da neurologia vêm nas seções seguintes.

ReabilitaçãoProcedimentosMedicamentos

Medidas gerais e estilo de vida

Hidratação, regularidade do sono, controle do estresse e retorno gradual à atividade física. A base que dá ao sistema da dor condições de se reequilibrar.

ModeradaBase de tudo

Acupuntura e eletroacupuntura

Modula a via trigeminovascular sensibilizada e oferece alívio sem mais um comprimido, valiosa em quem já medica quase todo dia.

ModeradaBlocos de semanas

Agulhamento seco de pontos-gatilho

Desativa pontos-gatilho do trapézio superior e suboccipitais que referem dor para a cabeça pela convergência trigeminocervical.

ModeradaPoucas sessões

Bloqueio do nervo occipital maior

Anestésico ao redor do occipital maior (C2) reduz a excitabilidade da via que sustenta a dor, abrindo janela para a reabilitação.

LimitadaDias a semanas

Toxina botulínica em casos selecionados

Apenas quando a cefaleia evoluiu para enxaqueca crônica refratária (protocolo PREEMPT). Não é primeira linha nem trata dor ocasional.

ModeradaCasos selecionados

Manejo medicamentoso criterioso

Analgésico para a crise com limite de frequência, e profilaxia quando a dor é frequente. Detalhado na seção de tratamento medicamentoso.

ModeradaCom parcimônia
Primeira linhainiciar aqui
Hidratação, sono e estresseRetorno gradual ao movimentoAnalgésico pontual
Segunda linhase a dor persiste
Acupuntura / eletroacupunturaAgulhamento seco cervicalReabilitação cervicalProfilaxia se frequente
Refratáriocasos selecionados
Bloqueio do occipital maiorToxina botulínica (enxaqueca crônica)Encaminhamento à neurologia

As técnicas abaixo partilham um alvo comum nesta dor de cabeça específica: acalmar a via trigeminovascular sensibilizada pela infecção e desfazer o componente miofascial cervical que se acumula em quem passou semanas acamado, com sono ruim e pescoço tenso. O ganho que mais importa aqui não é só o alívio momentâneo, mas a redução do consumo de analgésicos, porque a cefaleia pós-Covid resiste ao que a pessoa toma e empurra para o uso diário, abrindo a porta da cefaleia por uso excessivo de medicação descrita adiante. A intensidade e a ordem das técnicas dependem do fenótipo predominante (enxaquecoso, tensional ou cervicogênico) identificado na avaliação.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é
Inserção de agulhas finas em acupontos por médico acupunturiatra; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas para potencializar o estímulo.
Mecanismo
Modulação segmentar da dor no corno dorsal da medula (teoria da comporta), ativação de vias inibitórias descendentes a partir da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostroventromedial, com recrutamento serotoninérgico e noradrenérgico e liberação de opioides endógenos; a eletroacupuntura de baixa frequência recruta mais o sistema opioide. Há interesse específico na ação sobre a via trigeminovascular, a mesma implicada na cefaleia da Covid.
Evidência
Moderada Qualidade moderada na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, com recomendação de diretrizes (por exemplo, o NICE) em contextos selecionados; a magnitude varia entre estudos e, na cefaleia pós-Covid, o uso é uma extrapolação razoável ainda não testada de forma específica.
O que esperar
Tratar por blocos de algumas semanas com sessões semanais e cobrar uma resposta concreta no diário de dor (menos dias com dor, menos analgésico de resgate), não a sensação de uma sessão isolada; quando os números não mudam, troca-se o alvo (mais cervical, mais sistêmico) em vez de repetir o que não rendeu.
Indicações
Perfil enxaquecoso ou tensional, sobreposição cervical, e o caso típico de quem precisa sair da dependência do analgésico.
Limitações
Desconforto ou pequena equimose no local são possíveis; cautela na anticoagulação; é um pilar do plano e não dispensa o sono regular e o retorno gradual ao movimento. Na clínica, é executada por médicos com formação na técnica, integrada à avaliação, e não como serviço avulso.
Síntese de evidênciaEvidência moderada

Acupuntura na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional

Revisões sistemáticas apontam que a acupuntura pode reduzir a frequência das crises de enxaqueca e de cefaleia do tipo tensão, com efeito comparável ao de fármacos profiláticos em alguns desfechos e bom perfil de segurança. É uma opção valiosa quando se quer evitar o excesso de analgésicos. A magnitude do benefício varia entre estudos.

Ver referências →

Agulhamento seco de pontos-gatilho miofasciais

Boa parte das pessoas com cefaleia pós-Covid acumula pontos-gatilho miofasciais na musculatura cervical e do cíngulo escapular, sobretudo no trapézio superior, elevador da escápula, esternocleidomastóideo e suboccipitais. Pontos-gatilho nesses músculos referem dor para a cabeça, somando um componente cervicogênico à cefaleia.

O que é
Inserção de uma agulha fina diretamente no ponto-gatilho do músculo cervical, sem injeção de substância.
Mecanismo
Busca-se a resposta de contração local (local twitch response), o estremecimento involuntário da banda tensa que sinaliza a desativação da placa motora hiperativa; com ela caem a atividade elétrica espontânea do ponto e a concentração local de substâncias álgicas. Na cefaleia pós-Covid isso importa porque suboccipitais e trapézio superior projetam dor para a cabeça pela convergência trigeminocervical, e calar esses pontos retira um dos motores que mantêm a dor acesa.
Evidência
Moderada Consistente para dor miofascial em geral; e há um sinal direto no alvo certo, um ensaio randomizado que mostrou melhora de dor e função em diferentes tipos de cefaleia (Kandeel et al., 2024), o que ancora o uso aqui sem depender de extrapolar resultados de outras regiões.
O que esperar
Costuma render quando há ponto-gatilho palpável reproduzindo a dor; a resposta se constrói em poucas sessões somada ao trabalho cervical ativo. Quando o agulhamento isolado não sustenta o ganho, a leitura é que falta a base de reabilitação, não mais agulha.
Indicações
Componente miofascial e cervical identificável à palpação, dor que sobe da nuca.
Limitações
Dor pós-agulhamento transitória, equimose; cautela em anticoagulados; a técnica em região cervical exige domínio anatômico. Quando o ponto é especialmente refratário, recorre-se à infiltração com anestésico local, sempre combinada à reabilitação para sustentar o resultado.

Bloqueio do nervo occipital maior

O que é
injeção de anestésico local, por vezes com corticoide, ao redor do nervo occipital maior (ramo de C2), na região suboccipital.
Mecanismo
interrompe temporariamente a condução nociceptiva nessa via e, pela convergência trigeminocervical (os aferentes do trigêmeo e dos primeiros segmentos cervicais convergem no mesmo núcleo no tronco encefálico), reduz a excitabilidade do sistema que sustenta a dor de cabeça, abrindo uma janela para a reabilitação.
Evidência
há suporte para o bloqueio occipital na neuralgia occipital e na cefaleia cervicogênica, e seu uso no fenótipo refratário e cervicalizado da cefaleia pós-Covid é uma extrapolação razoável.
O que esperar
alívio que pode durar de dias a algumas semanas.
Indicações
dor de predomínio occipital, sensibilidade à palpação do nervo, componente cervicogênico.
Limitações
efeito temporário, faz parte de um plano multimodal; desconforto local e, raramente, reação ao corticoide.

Toxina botulínica em casos selecionados

O que é
injeção de toxina botulínica tipo A em pontos pré-definidos da cabeça e do pescoço.
Mecanismo
vai além do relaxamento muscular: bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (CGRP, substância P e glutamato), com efeito antinociceptivo sobre a via da enxaqueca.
Evidência
consolidada na enxaqueca crônica, com protocolo específico de aplicação (protocolo PREEMPT, com pontos e doses padronizados). Para a cefaleia pós-Covid que evoluiu para enxaqueca crônica, é uma indicação por extrapolação desse cenário.
O que esperar
o efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Indicações
enxaqueca crônica refratária (15 ou mais dias de dor por mês apesar de tratamento adequado).
Limitações
não é primeira linha nem se aplica à dor ocasional; dor no local e fraqueza transitória são possíveis; a escolha do produto e a dose são do médico.
Semana 1 a 2

Fase aguda

Hidratação, repouso relativo, sono e analgésico com moderação para aliviar a dor da fase de infecção, sem exagerar na frequência.

Semana 3 a 8

Recuperação

Se a dor persiste, entram as medidas não-farmacológicas (acupuntura, reabilitação cervical, sono) e, se frequente, a profilaxia. A dor costuma começar a ceder.

Após 2 a 3 meses

Reavaliação

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, afasta-se uso excessivo de analgésicos e ajusta-se o plano. A evolução não é linear.

Em toda essa trajetória, a tendência natural é de melhora ao longo do tempo. O tratamento oferece um caminho consistente para encurtar e amenizar esse período, evitando as armadilhas (sobretudo o uso excessivo de analgésicos) e cuidando dos componentes que mantêm a dor de cabeça ativa.

Da prática clínica

Algumas impressões recorrentes no consultório.

A queixa que mais chega é a da dor de cabeça nova que não existia antes da infecção e que teima depois que todo o resto melhorou. Costuma vir com a pergunta angustiada por uma lesão escondida, e a parte mais terapêutica da consulta muitas vezes é explicar, com o exame neurológico normal na mesa, que o quadro mais provável é um sistema de dor sensibilizado e não algo a ser caçado na ressonância.

O que de fato exige cautela é separar o benigno do sinal de alerta num contexto em que a Covid empurra o risco vascular para cima. A regra prática que oriento: a cefaleia pós-Covid típica é difusa, oscila ao longo do dia e tem semanas boas e ruins; o que muda a conduta é o padrão diferente do habitual, a dor explosiva que estoura em segundos, a que piora ao deitar ou desperta de madrugada, ou a que vem com qualquer sinal neurológico, e esse contraste merece ser revisto pelo médico, não comparado por conta própria.

Surpreende muita gente que a dor de cabeça quase nunca vem sozinha na Covid longa. Quando aparece junto fadiga, sono fragmentado e névoa mental, tratar só a cabeça rende pouco; é frequente a dor só ceder de verdade quando o sono e o ritmo de atividade entram no plano. E surpreende, no sentido inverso, descobrir que medicar todo dia estava piorando a dor por rebote, não controlando: às vezes o passo que mais alivia é tirar o analgésico diário, não somar mais um.

Tratamento não farmacológico: reabilitação cervical, RPG, Pilates e relaxamento

Se a parte medicamentosa controla a crise, é o tratamento não farmacológico que costuma mudar a trajetória da cefaleia pós-Covid, sobretudo quando há um componente cervical e miofascial, o que é a regra em quem passou semanas com sono ruim, postura mantida e tensão muscular acumulada. A premissa fisiológica é a mesma do resto da página: a dor reflete um sistema sensibilizado, e o movimento graduado e supervisionado é uma das formas mais consistentes de dessensibilizá-lo. Por isso, na cefaleia com componente tensional ou cervicogênico, a reabilitação física não é um acessório, e sim uma base ativa sobre a qual as demais medidas somam. Vale uma ressalva de calibragem: a evidência mais robusta vem do tratamento da cefaleia tensional, da cefaleia cervicogênica e da enxaqueca, e a aplicação à cefaleia pós-Covid é uma extrapolação coerente, ainda não testada de forma específica.

Reabilitação cervical e cinesioterapia
Moderada
Higiene do sono e relaxamento
Moderada
RPG (reeducação postural global)
Limitada
Pilates clínico
Limitada
Terapia manual (adjuvante)
Limitada

Reabilitação cervical e cinesioterapia

Reabilitação ativa individualizada centrada no controle dos flexores profundos do pescoço (treino de flexão craniocervical), na estabilização escapulotorácica (trapézio inferior e serrátil anterior) e na mobilidade dos segmentos cervicais altos (C1–C3), cuja disfunção alimenta a dor referida à cabeça pela convergência trigeminocervical. A exposição graduada ao movimento reduz a hipervigilância e a sensibilização. É a base do tratamento conservador da cefaleia cervicogênica e tensional. Limitações: exige adesão e continuidade; o ganho se perde se o programa for abandonado; progressão de carga muito rápida pode exacerbar a dor temporariamente. Conecta diretamente com o quadro de dor de cabeça na nuca.

ModeradaBase ativa

Reeducação postural global (RPG)

Método que trata o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas. Trabalha a cadeia muscular posterior e a musculatura tônica encurtada por contração isométrica em alongamento (excêntrica), corrigindo a anteriorização da cabeça e a sobrecarga da transição cervicotorácica que perpetuam a tensão suboccipital e a dor referida. A respiração dirigida integra o trabalho. Limitações: as posturas exigem tolerância e participação ativa; é parte de um plano, não tratamento isolado.

LimitadaComponente postural

Pilates clínico

Exercício terapêutico de controle motor e estabilização, adaptado ao quadro e conduzido com supervisão (um paciente por sala). Desenvolve a estabilização da coluna a partir da musculatura profunda do tronco e da cintura escapular, melhora a resistência postural e reduz a sobrecarga estática sobre a coluna cervical que mantém a tensão muscular. Limitações: precisa de adaptação individual e progressão criteriosa; não substitui o tratamento do componente miofascial agudo.

LimitadaEstabilização

Terapia manual como adjuvante

Mobilização articular dos segmentos cervicais, mobilização de tecidos moles e liberação miofascial aplicadas pelo fisioterapeuta. Reduz a tensão local e a rigidez segmentar, dessensibiliza a área e cria uma janela de conforto para avançar a reabilitação ativa. Benefício de curto prazo e magnitude modesta, maior quando combinada com exercício. Limitações: efeito passageiro se não vier acompanhada de exercício ativo; a manipulação de alta velocidade exige triagem prévia de bandeiras vermelhas e não se aplica diante de sinais de alerta.

LimitadaAdjuvante

Na clínica, a reabilitação é integrada à avaliação médica e ajustada ao componente predominante (tensional, cervicogênico ou de descondicionamento) e à tolerância de cada pessoa. A escolha entre cinesioterapia, RPG e Pilates depende do perfil e da preferência da pessoa, e com frequência se combinam.

Higiene do sono, relaxamento e manejo do estresse

O sono e o estado emocional são engrenagens centrais da dor de cabeça, e a Covid costuma desorganizar os dois. A privação e a irregularidade do sono baixam o limiar para a dor de cabeça, e o estresse e a ansiedade, comuns na recuperação, ampliam a percepção da dor e a tensão muscular. A higiene do sono, com horários regulares para deitar e levantar, redução de telas à noite, ambiente escuro e silencioso e cuidado com cafeína e álcool, é uma intervenção de baixo risco e bom retorno. As técnicas de relaxamento (respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo, atenção plena) e a retomada gradual da atividade física aeróbica atuam sobre as mesmas vias da dor, reduzindo o tônus simpático e a tensão muscular.

Há ainda evidência de benefício de abordagens comportamentais (como a terapia cognitivo-comportamental) na cefaleia crônica e na sua sobreposição com ansiedade e sono ruim. São medidas que parecem simples, mas que, somadas, têm efeito real sobre a frequência das crises e fazem parte do plano, e não à margem dele.

Tratamento cirúrgico e o papel da neurologia fora da clínica

A cefaleia pós-Covid não tem tratamento cirúrgico. Como dor primária sensibilizada, sem lesão estrutural que a sustente, ela não se beneficia de qualquer procedimento operatório, e não existe cirurgia indicada para enxaqueca, cefaleia tensional ou nova cefaleia diária persistente nesse contexto. O caminho é o tratamento clínico multimodal. Estas opções e encaminhamentos, quando necessários, não são realizados em nossa clínica; descrevemos o quadro completo e quando procurá-los.

Conservador · 1ª escolha

Tratamento clínico multimodal

  • Indicado na imensa maioria dos casos: cefaleia pós-Covid benigna, sem lesão estrutural.
  • Acupuntura, reabilitação cervical, sono e profilaxia medicamentosa quando frequente.
  • Não exige cirurgia nem internação; resolve-se de forma ambulatorial.
  • Conduzido com paciência, pela tendência natural à melhora com o tempo.
VS

Fora da clínica · exceção

Neurologia, neurocirurgia ou pronto atendimento

  • Cefaleia secundária a complicação vascular: trombose venosa cerebral, hemorragia, AVC, favorecidas pelo estado pró-trombótico da Covid.
  • Aqui o procedimento trata a doença grave por trás da dor, não a dor de cabeça em si.
  • Cefaleia primária refratária, incapacitante apesar de tratamento bem conduzido: neurologista com foco em cefaleias.
  • Amplia o arsenal com neuromodulação e anticorpos monoclonais anti-CGRP.

Há, portanto, dois cenários distintos em que a abordagem ultrapassa o cuidado ambulatorial da dor. O primeiro é o da cefaleia secundária a uma complicação vascular, a face mais perigosa da Covid: o estado pró-trombótico aumenta o risco de trombose venosa cerebral (TVC), de hemorragia e de eventos isquêmicos, que podem demandar tratamento neurointervencionista ou neurocirúrgico de urgência. O segundo é o da cefaleia primária refratária, em que o encaminhamento a um neurologista com foco em cefaleias amplia o arsenal. A tabela abaixo organiza quando a abordagem deixa de ser apenas clínica e qual é a conduta correspondente:

Quando a cefaleia ligada à Covid exige cuidado fora do tratamento clínico da dor
CenárioQuando considerarConduta e onde é feita
Trombose venosa cerebralCefaleia progressiva ou em trovoada, pior ao deitar, com déficit focal, convulsão ou edema de papila, no contexto pró-trombótico da CovidEmergência: neuroimagem com angiografia venosa, anticoagulação; neurocirurgia/neurointervenção em casos selecionados (hospital)
Hemorragia subaracnóidea / AVCCefaleia em trovoada (a pior da vida) ou déficit neurológico súbitoEmergência: tomografia, eventual punção lombar e angiografia; tratamento neurocirúrgico/endovascular do aneurisma quando confirmado (hospital)
Hipertensão intracraniana / lesão expansivaCefaleia que desperta, piora ao deitar/fazer força, com vômitos ou alterações visuaisNeuroimagem e avaliação neurológica/neurocirúrgica conforme o achado (hospital)
Cefaleia primária refratáriaDor incapacitante apesar de tratamento clínico e profilaxia bem conduzidosEncaminhamento a neurologista com foco em cefaleias: neuromodulação, anticorpos anti-CGRP, protocolos especializados (serviço de neurologia)

A leitura prática é tranquilizadora e ao mesmo tempo vigilante: na imensa maioria dos casos, a cefaleia pós-Covid é benigna e não exige cirurgia nem internação, e se resolve com o tratamento clínico descrito nas demais seções. O papel desta seção é demarcar as exceções, as situações em que a dor de cabeça é a ponta de um problema mais sério ou em que a refratariedade pede um especialista. Reconhecer esses limites faz parte de um cuidado completo, tanto quanto saber tratar a dor comum.

Tratamento medicamentoso: alívio da crise e profilaxia

O tratamento medicamentoso da cefaleia ligada à Covid-19 tem duas frentes com lógicas opostas: tratar a crise (alívio pontual, com parcimônia) e, quando a dor é frequente, preveni-la (medicação contínua). Em ambos os casos a prescrição é decisão exclusiva do médico, ponderando comorbidades, interações e o cenário da Covid longa. Como a evidência específica é emergente, as condutas são extrapoladas do tratamento da enxaqueca e da cefaleia tensional, com as quais a cefaleia pós-Covid compartilha a via trigeminovascular.

Manejo sintomático da crise

Medicação para aliviar a crise
ClasseMecanismoPara qual perfilCautelas relevantes
Analgésicos simples (paracetamol, dipirona)Reduzem a sinalização nociceptiva centralCrise leve a moderada, primeira opçãoAtenção à frequência de uso (risco de rebote)
Anti-inflamatórios (ibuprofeno, naproxeno)Inibem a ciclo-oxigenase (COX) e as prostaglandinas, atacando o componente inflamatórioCrise com componente inflamatórioGastrointestinal, renal e cardiovascular; limite de frequência
Triptanos (agonistas 5-HT1B/1D)Vasoconstrição craniana e, sobretudo, inibição da liberação de CGRP nas terminações trigeminaisCrise de perfil claramente enxaquecosoEvitados em doença coronariana e cerebrovascular, que podem coexistir na Covid
AntieméticosControlam a náusea associada e favorecem a absorção do analgésicoCrise com náusea importanteAssociados quando há náusea; conforme decisão médica

A armadilha da cefaleia por uso excessivo de medicação

A pergunta que define a conduta

Quantos dias por mês você medica a dor de cabeça?

Uso frequente

Analgésico simples em 15+ dias/mês, ou triptanos, opioides ou combinações em 10+ dias/mês, por mais de três meses (critério ICHD-3): risco de cefaleia por uso excessivo de medicação (cefaleia de rebote). O próprio analgésico passa a perpetuar e piorar a dor. O passo é avaliar e desmedicar, não somar remédio.

Uso pontual

Dentro do limite de frequência: a medicação de crise segue sendo uma ferramenta segura para os dias de dor mais intensa, sem alimentar o ciclo de rebote.

Como a cefaleia pós-Covid tende a resistir aos analgésicos, a tentação de medicar todos os dias é concreta, e é justamente aí que mora o alerta mais importante do tópico. Quando a pessoa percebe que medica quase todos os dias, esse é o sinal de que precisa de avaliação e de estratégia preventiva, não de mais remédio. Esse padrão de uso é o que define a conduta com o médico assistente.

Profilaxia quando a dor é frequente

Quando a cefaleia é frequente, quando houve transição para enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês) ou quando o uso de analgésicos já está alto, o foco se desloca do alívio para a prevenção. A profilaxia é uma medicação de uso contínuo para reduzir a frequência e a intensidade das crises, com o benefício adicional de quebrar o ciclo de uso excessivo. As classes e definidas pelo médico, têm mecanismos e perfis distintos:

Principais classes profiláticas extrapoladas da enxaqueca,
Classe (exemplos)Mecanismo na via da dorFaixa de dose habitualEfeitos e cautelas relevantes
Tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina)Inibem recaptação de serotonina e noradrenalina, reforçando a inibição descendente da dor; ajudam o sono10 a 75 mg ao deitar, com titulação progressivaSonolência, boca seca, constipação; cautela em arritmia, glaucoma, retenção urinária e idosos
Anticonvulsantes (topiramato)Reduz a excitabilidade neuronal e a depressão alastrante cortical; modula canais e GABA25 a 100 mg/dia, titulado lentamenteParestesias, perda de peso, lentificação cognitiva; contraindicado na gestação (teratogênico)
Betabloqueadores (propranolol)Reduz a hiperexcitabilidade central e a ativação simpática40 a 160 mg/diaFadiga, bradicardia, broncoespasmo; cautela em asma e na disautonomia da Covid longa
Antagonistas do CGRP (anticorpos anti-CGRP)Bloqueiam diretamente o CGRP ou seu receptor, o alvo molecular centralConforme bula, em geral mensalClasse mais recente; opção quando há falha ou intolerância às anteriores; acesso e custo limitam

A escolha pondera o perfil da pessoa, as comorbidades e os efeitos adversos. O efeito profilático costuma se manifestar ao longo de quatro a oito semanas, não de imediato, e exige adesão, titulação e acompanhamento. A indicação e a titulação da profilaxia são conduzidas pelo médico assistente. Esses princípios valem para a dor de cabeça em geral e são detalhados na página sobre remédios para dor de cabeça.

Diferenciando os tipos de cefaleia ligados à Covid

Nem toda dor de cabeça após a Covid é igual, e identificar o padrão ajuda a direcionar o tratamento. A tabela abaixo resume os perfis mais comuns que vemos na prática.

Padrões de cefaleia associados à Covid-19
TipoPadrão típicoPista que diferencia
Cefaleia aguda da CovidDor bilateral, em pressão ou latejante, durante a infecçãoSurge com a fase aguda, acompanha febre e mal-estar, tende a passar com a doença
Cefaleia pós-Covid persistenteDor diária ou quase diária após a infecção, caráter mistoPersiste por semanas a meses, muitas vezes com início bem datado
Enxaqueca descompensadaCrises pulsáteis, um lado, com náusea e fotofobia, mais frequentesPessoa já tinha enxaqueca, que piorou em frequência ou intensidade após a Covid
Componente cervical / miofascialDor que sobe da nuca, com pescoço e ombros tensosPontos-gatilho à palpação; piora com a postura mantida
Cefaleia por uso excessivo de analgésicosDor diária que melhora pouco e logo retornaUso de analgésico em muitos dias do mês; melhora ao reduzir o remédio

Esses padrões não são excludentes e com frequência coexistem: a mesma pessoa pode ter uma cefaleia pós-Covid persistente, com componente cervical e uso excessivo de analgésicos sobreposto. É justamente por isso que o tratamento é multimodal e individualizado, atacando mais de um mecanismo ao mesmo tempo. Uma avaliação clínica cuidadosa é o que separa esses fios e define a estratégia certa para cada caso.

O rótulo “Covid” muda menos a conduta do que o perfil da dor

Quase todo material trata a “cefaleia pós-Covid” como se fosse uma doença nova e única, e essa moldura atrapalha. Na prática, o rótulo Covid quase não muda a conduta; o que muda tudo é em qual dos perfis da tabela acima a sua dor se encaixa. Uma enxaqueca antiga que descompensou se trata como enxaqueca, com profilaxia conhecida; uma dor genuinamente nova e datada se acompanha de perto pela tendência a melhorar; e o que mais engana é a cefaleia de rebote por analgésico se passando por Covid longa, em que insistir no remédio é a própria causa. Procurar tratamento específico “para Covid” pode levar a investigar imagem demais e a perder o diagnóstico que de fato define a terapia. A pergunta útil não é “isso é Covid?”, e sim “qual destes três quadros é o meu?”.

Reconhecimento

Centro de Dor

Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)

Centro de Tratamento por Ondas de Choque

Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)

Clínica listada

Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)

Perguntas frequentes

O que é cefaleia e por que a Covid causa dor de cabeça?

Cefaleia é o termo médico para dor de cabeça. Ela é um dos sintomas mais comuns da Covid-19 porque a infecção desencadeia inflamação sistêmica e ativa o sistema trigeminovascular, a mesma via ligada à enxaqueca, com liberação de neuropeptídeos como o CGRP. Somam-se febre, desidratação, perda de sono e tensão muscular, que ajudam a manter a dor de cabeça.

Quanto tempo dura a cefaleia pós-Covid?

Varia bastante. Na maioria das pessoas, a dor de cabeça passa junto com a fase aguda. Quando persiste como cefaleia pós-Covid, pode durar semanas a alguns meses, e a tendência é de melhora progressiva com o tempo e com tratamento. Quando a dor é frequente ou não cede, vale reavaliar para afastar uso excessivo de analgésicos e considerar profilaxia.

Minha enxaqueca piorou depois da Covid. Isso é esperado?

Sim, é uma observação frequente. Quem já tem enxaqueca tende a ter um sistema trigeminovascular mais sensível, e a Covid pode funcionar como gatilho que aumenta a frequência ou a intensidade das crises, às vezes precipitando a transição para enxaqueca crônica. Não significa lesão cerebral. O quadro tem tratamento, inclusive preventivo, e merece reavaliação.

Qual remédio tomar para a dor de cabeça da Covid?

O manejo sintomático usa analgésicos simples e anti-inflamatórios, e em alguns casos triptanos quando o perfil é de enxaqueca, sempre com nomes genéricos e prescrição médica. O cuidado essencial é com a frequência: usar analgésico em muitos dias do mês pode causar cefaleia por uso excessivo de medicação. Medicar quase todos os dias é o sinal de que o padrão de uso precisa ser revisto com o médico.

A acupuntura ajuda na cefaleia pós-Covid?

A acupuntura e a eletroacupuntura têm evidência de qualidade moderada na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados. Atuam modulando o sistema da dor e são especialmente úteis para reduzir o uso de analgésicos, o que ajuda a evitar a cefaleia de rebote. O caminho prático é tratar por blocos de algumas semanas e medir a resposta pelo diário de dor (menos dias com dor, menos remédio de resgate), e não pela sensação de uma sessão isolada.

Quando a dor de cabeça depois da Covid é perigosa?

Procure atendimento de urgência diante de dor de cabeça súbita e explosiva (a pior da vida), déficit neurológico (fraqueza, alteração da fala ou da visão), febre alta com rigidez de nuca e confusão, convulsão, ou dor que piora de forma progressiva. Esses sinais são raros, mas exigem avaliação imediata. Na ausência deles, a cefaleia pós-Covid costuma ser benigna.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Carlos Roberto Baba
Sobre o autor
Dr. Carlos Roberto Baba
CRM-SP 47.825RQE 12.910 / 19.925

Médico com atuação em queixas ortopédicas, articulares, tendíneas e Acupuntura Médica.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Dr. Marcus Yu Bin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências1 fonte citada neste artigoVerOcultar
  1. Kandeel M, et al. The effect of dry needling on pain and function in different types of headache: a randomized controlled trial. Complementary Therapies in Medicine. 2024.
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A cefaleia pós-Covid tem ritmo e fenótipo próprios em cada pessoa, e por isso a conduta descrita aqui só vira tratamento depois de uma avaliação que confirme o quadro e monte um plano individualizado para o seu caso. Diante de sinais de alerta, procure atendimento de urgência.

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