Cefaléia crônica diária: o que é, CID e tratamento
Cefaléia crônica diária é a dor de cabeça que ocorre em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses. Não é um diagnóstico único, e sim um padrão de várias causas.
- Cefaléia crônica diária descreve a dor de cabeça presente em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses. É um padrão de frequência, não uma doença isolada.
- As causas mais comuns são a enxaqueca crônica e a cefaleia tensional crônica. O uso excessivo de analgésicos (mais de 10 a 15 dias por mês) é um dos principais motores da cronificação.
- O tratamento é multimodal e não-cirúrgico: retirar o gatilho da medicação em excesso, prevenção de fundo e técnicas que modulam a dor, como acupuntura, agulhamento seco e, em casos selecionados, toxina botulínica.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é cefaléia crônica diária
A cefaléia crônica diária não é uma única doença, e sim um critério de frequência: dor de cabeça em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses. A pergunta clínica diante de uma cefaleia crônica não é só “que tipo de dor é”, mas “por que ela passou a ser quase todo dia”.
O termo reúne várias condições sob um mesmo guarda-chuva. A maioria dos casos começa anos antes como uma cefaleia episódica, em geral enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional, que vai aumentando de frequência até se instalar como uma dor quase diária. Esse processo se chama cronificação, e entendê-lo é o que separa um tratamento que funciona de um ciclo de analgésicos sem fim.
Na classificação internacional das cefaleias, divide-se o grupo conforme a duração de cada crise. As cefaleias crônicas de longa duração (crises de quatro horas ou mais) incluem a enxaqueca crônica, a cefaleia tensional crônica, a cefaleia diária persistente desde o início e a hemicrania contínua. As de curta duração reúnem quadros mais raros, como a cefaleia em salvas crônica. Saber em qual grupo a sua dor se encaixa muda completamente a conduta.
A boa notícia é que a maioria absoluta desses quadros é primária e benigna: a dor é a própria doença, não o sintoma de um tumor ou de uma lesão na cabeça. Apesar do sofrimento e do impacto que causa na rotina, a cefaléia crônica diária raramente sinaliza algo grave, desde que ausentes os sinais de alerta descritos mais adiante.
Os tipos de cefaleia crônica
Diferenciar os tipos é o primeiro passo do tratamento, porque cada um responde melhor a uma estratégia distinta. A enxaqueca crônica e a cefaleia tensional crônica respondem a medicações preventivas diferentes; a hemicrania contínua tem uma resposta quase específica a um anti-inflamatório; e a cefaleia por uso excessivo de medicação só melhora quando o gatilho é retirado. A tabela resume as pistas que usamos na consulta.
| Tipo | Como costuma se apresentar | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Enxaqueca crônica | Dor pulsátil, em geral de um lado, com náusea, sensibilidade à luz e ao som; piora ao esforço | História prévia de crises de enxaqueca que foram ficando mais frequentes |
| Cefaleia tensional crônica | Dor em aperto ou peso, dos dois lados, “como uma faixa apertando a cabeça”; sem náusea importante | Costuma vir com tensão na musculatura do pescoço e dos ombros |
| Cefaleia por uso excessivo de medicação | Dor diária ou quase diária que melhora pouco com o analgésico e piora se ele é interrompido | Uso de analgésico em 10 a 15 dias ou mais por mês há vários meses |
| Cefaleia diária persistente desde o início | Dor que se tornou diária de forma abrupta, em alguém que lembra o dia exato em que começou | Início súbito, sem o longo período de crises episódicas anteriores |
| Hemicrania contínua | Dor contínua de um só lado, com surtos de piora e sinais autonômicos (lacrimejamento, congestão nasal) | Resposta marcante à indometacina, característica do quadro |
Esses tipos não são caixas estanques. É comum uma pessoa ter enxaqueca crônica somada à cefaleia por uso excessivo de medicação, ou uma cefaleia tensional que convive com pontos-gatilho na musculatura cervical. Por isso o diagnóstico é construído na consulta, com base na história detalhada e no exame, e não em um exame de imagem isolado. Um diário da dor, anotando quantos dias por mês dói e quantos dias se usa analgésico, costuma valer mais do que qualquer ressonância nessa etapa.
“Dor de cabeça todos os dias quer dizer que tenho algo grave na cabeça, como um tumor.”
A grande maioria das cefaleias crônicas diárias é primária e benigna. Tumores raramente causam dor de cabeça isolada e costumam vir acompanhados de outros sinais. A investigação por imagem é reservada a quem tem sinais de alerta.
O ciclo do uso excessivo de analgésicos
Este é o ponto mais importante e o mais contraintuitivo de toda a cefaléia crônica diária. O remédio que você toma para aliviar a dor pode, tomado com frequência demais, passar a causar dor de cabeça. Chamamos esse quadro de cefaleia por uso excessivo de medicação, antes conhecido como cefaleia rebote.
O mecanismo envolve uma adaptação do sistema de dor a doses repetidas: as vias que normalmente inibem a dor ficam menos eficientes e o cérebro entra em um estado de sensibilização, em que a dor é amplificada e disparada com mais facilidade. O resultado é um ciclo de retroalimentação: dói, toma-se o remédio, alivia por algumas horas, a dor volta um pouco pior, toma-se de novo, e a dor que era de alguns dias por mês vira quase diária.
Se você usa analgésico para dor de cabeça em mais de 10 a 15 dias por mês há alguns meses, o próprio remédio pode ter virado parte do problema. Tratar a cefaléia crônica passa, quase sempre, por organizar e reduzir esse uso, sob orientação médica.
O limite varia com o tipo de medicação. Analgésicos simples e anti-inflamatórios costumam ser problemáticos a partir de 15 dias por mês; os compostos que combinam analgésico com cafeína, os derivados de codeína e os triptanos cronificam com menos, em geral a partir de 10 dias por mês. Na cefaléia crônica, o uso prolongado de qualquer analgésico para dor de cabeça é, ele próprio, um motor da cronificação. O detalhamento de cada classe está no guia de analgésicos para dores de cabeça.
A retirada da medicação em excesso, feita de forma planejada, é frequentemente o passo isolado que mais melhora o quadro. Pode haver uma piora transitória da dor nos primeiros dias, esperada e temporária, motivo pelo qual esse processo é conduzido com o médico, que define o ritmo da redução e o que usar de apoio nessa fase.
Na cefaléia crônica diária, “qual analgésico tomar” costuma ser a pergunta errada: na cefaleia por uso excessivo de medicação, o comprimido de todo dia não é o tratamento, é o motor da cronificação. A pergunta útil deixa de ser “o que tomar quando dói” e passa a ser “em quantos dias do mês eu estou tomando algo para a cabeça”. Quem responde “quase todos” muitas vezes não precisa de um remédio novo na crise; precisa, primeiro, organizar e reduzir o que já usa, sob orientação. É contraintuitivo, e é por isso que o quadro costuma se arrastar por anos antes de alguém nomear o problema.
CID da cefaleia: como ler o código
Muita gente chega à consulta com um laudo ou atestado trazendo um CID de cefaleia (escrito também como “cid cefaleia”) e quer entender o que aquele código significa. O CID (Classificação Internacional de Doenças) é uma forma padronizada de registrar o diagnóstico em prontuários, atestados e sistemas de saúde. Ele identifica a categoria da dor.
No grupo das cefaleias, o código mais ligado à cefaléia crônica diária é o CID-10 G44, que reúne “outras síndromes de cefaleia”. Dentro dele, a subdivisão G44.2 corresponde à cefaleia do tipo tensional, e a cefaleia tensional crônica costuma ser registrada como G44.2 (CID 10 G442). A enxaqueca tem código próprio, o G43, com a enxaqueca crônica em suas subdivisões. A tabela resume os códigos que mais aparecem.
| CID-10 | A que se refere |
|---|---|
| G44 | Outras síndromes de cefaleia (categoria que abrange a cefaléia crônica diária em geral) |
| G44.2 | Cefaleia do tipo tensional, incluindo a forma crônica (registrada como CID 10 G442) |
| G43 | Enxaqueca, com subdivisões para a forma crônica |
| R51 | Cefaleia como sintoma, código genérico usado quando o tipo ainda não foi definido |
O CID serve para registro, não para definir conduta. Duas pessoas com o mesmo código podem ter quadros e respostas muito diferentes. O que orienta o tratamento é o diagnóstico clínico completo, o padrão da dor e os gatilhos identificados, não a sigla do atestado.
Sinais de alerta
A cefaléia crônica diária é, na imensa maioria das vezes, uma cefaleia primária e benigna. Ainda assim, alguns sinais indicam que a dor pode ter uma causa secundária e que a avaliação não deve esperar. Procure atendimento sem demora diante de qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor de cabeça súbita e explosiva, a pior da vida, que chega ao máximo em segundos a minutos.
- Cefaleia nova após os 50 anos, ou que muda de padrão de forma importante.
- Dor acompanhada de febre, rigidez de nuca, confusão ou alteração do nível de consciência.
- Déficit neurológico: fraqueza, dormência, alteração da fala, da visão ou do equilíbrio.
- Cefaleia que piora ao deitar, tossir ou fazer esforço, ou que acorda a pessoa à noite.
- Dor em pessoa com câncer, imunossupressão, HIV, ou após trauma na cabeça.
Cada item aponta para uma hipótese específica que muda a conduta: a dor explosiva levanta suspeita de hemorragia; febre com rigidez de nuca sugere infecção do sistema nervoso; déficit neurológico pede investigação por imagem imediata. Na ausência desses sinais, a investigação com ressonância ou tomografia raramente é necessária, e o foco passa a ser caracterizar bem o tipo de cefaleia e tratar. A relação entre dor de cabeça constante e suas causas é detalhada na página sobre dor de cabeça constante.
Como é o tratamento da cefaléia crônica
O tratamento da cefaléia crônica diária é multimodal, não-cirúrgico e construído por etapas. Como fisiatra e médico da dor, trabalho com a combinação de três frentes: retirar o que perpetua a dor (sobretudo o uso excessivo de analgésicos), instalar uma prevenção de fundo que reduza a frequência das crises, e somar técnicas que modulam diretamente a dor e tratam o componente muscular do pescoço, quase sempre presente. O objetivo é reduzir o número de dias com dor, devolver função e diminuir a dependência de analgésicos.
Diagnóstico e diário da dor
Identificar o tipo de cefaleia e os gatilhos; registrar os dias de dor e de medicação para guiar as decisões.
Retirar o uso excessivo
Organizar e reduzir o analgésico em excesso de forma planejada, o passo que mais melhora o quadro.
Prevenção e modulação da dor
Medicação preventiva conforme o tipo, somada a acupuntura, agulhamento seco e demais técnicas em clínica.
Casos refratários
Toxina botulínica e procedimentos guiados quando o quadro não responde ao plano de base bem conduzido.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
- O que esperar
- na cefaléia crônica o efeito é cumulativo e raramente se julga pela primeira sessão; trabalhamos com um ciclo inicial de cerca de 10 sessões, em geral 1 a 2 por semana, e a decisão de manter, espaçar ou trocar de estratégia é tomada relendo o diário da dor ao final do ciclo, não na sensação de um dia isolado.
- Limitações
- desconforto ou pequeno hematoma no ponto são possíveis e passageiros; é cautela conhecida em quem usa anticoagulante; e a acupuntura entra como uma das frentes do plano, sem substituir a retirada do uso excessivo nem a prevenção quando ela está indicada.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
Boa parte das cefaleias crônicas, sobretudo a tensional e a de origem cervical, é mantida por pontos-gatilho na musculatura do pescoço, dos ombros e da base do crânio (trapézio superior, esplênio, esternocleidomastóideo e suboccipitais). Esses nós musculares têm uma dor referida com padrão característico: o trapézio superior projeta dor que sobe pela lateral do crânio até a têmpora, e os suboccipitais geram aquela dor que parte da nuca e se espalha por trás do olho, frequentemente confundida com a própria enxaqueca. Identificar e tratar esses pontos é, em muitos pacientes, o que destrava um quadro estagnado.
No agulhamento seco, a agulha avança até a banda tensa e busca a resposta de contração local, um espasmo breve e involuntário do músculo que sinaliza o ponto certo; isso reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, baixa a concentração local de substâncias álgicas e produz analgesia local e segmentar. Quando o ponto resiste a algumas sessões, a infiltração com anestésico local relaxa a banda e quebra o ciclo dor-tensão-dor. O que esperar: na cefaleia de componente cervical o alívio costuma vir junto com a soltura da nuca, às vezes na própria sessão e às vezes ao longo de 24 a 72 horas; é comum uma dor surda no ponto agulhado por um ou dois dias, sinal esperado e não complicação.
Alguns padrões aparecem com tanta frequência no consultório que vale registrá-los:
O paciente que chega tomando um analgésico todo dia quase nunca se vê como “alguém que usa remédio demais”, porque cada comprimido isolado parece pequeno e justificado pela dor daquele dia. A conta só fica visível quando somamos os dias do mês, e essa soma costuma ser a virada da consulta.
O diário da dor revela mais do que qualquer relato de memória. É comum a pessoa dizer que a dor é “todo dia, igual”, e o registro de duas semanas mostrar um padrão (pior nos dias úteis, ligado ao sono curto, concentrado no fim de tarde) que aponta um gatilho tratável que ninguém tinha percebido.
Em boa parte de quem se diz “só enxaqueca”, a palpação da nuca e do trapézio reproduz a dor de cabeça habitual. Esse componente cervical costuma ser subestimado, e tratá-lo muda o ritmo de quadros que pareciam estagnados.
O que mais surpreende os pacientes é descobrir que reduzir o analgésico pode diminuir a dor, e não aumentá-la. A expectativa quase universal é a oposta, e explicar isso antes de começar evita que a piora transitória dos primeiros dias seja confundida com fracasso do plano.
Toxina botulínica para casos refratários
A toxina botulínica tipo A é uma das opções mais bem estabelecidas especificamente para a enxaqueca crônica que não respondeu às medidas iniciais. O mecanismo vai além do relaxamento muscular: aplicada em pontos definidos da cabeça e do pescoço, a toxina bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos ligados à dor (como CGRP, substância P e glutamato), diminuindo a sensibilização das terminações nervosas. A evidência para a enxaqueca crônica é robusta, com redução consistente do número de dias de dor por mês em ensaios de grande porte. O que esperar: não é primeira linha e não serve para a cefaleia por uso excessivo de medicação isolada; o efeito começa em 2 a 4 semanas e dura cerca de três meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Medicação preventiva, papel central
A prevenção de fundo é o que reduz a frequência das crises e quebra o padrão crônico, e a escolha depende do tipo de cefaleia e das comorbidades. Para a enxaqueca crônica, consideram-se classes como betabloqueadores (propranolol), antidepressivos (amitriptilina), alguns anticonvulsivantes (topiramato) e, em casos selecionados, os anticorpos anti-CGRP. Para a cefaleia tensional crônica, os antidepressivos tricíclicos em dose baixa, como a amitriptilina, são os mais usados, com benefício adicional sobre o sono e a dor miofascial.
O papel da amitriptilina no manejo da dor crônica é detalhado na página sobre amitriptilina para dor. Usado de forma contínua, qualquer analgésico para dor de cabeça cronifica ainda mais o quadro.
Organização inicial
Diagnóstico do tipo de cefaleia, início do diário da dor e planejamento da retirada do analgésico em excesso.
Prevenção e modulação
Medicação preventiva conforme o tipo, somada a acupuntura e ao tratamento dos pontos-gatilho cervicais; os dias de dor costumam começar a cair.
Reavaliação
Mede-se a queda no número de dias de dor por mês; sem a resposta esperada, revê-se o plano e consideram-se a toxina botulínica ou outros ajustes.
Medimos o número de dias com dor por mês, a intensidade numa escala de 0 a 10 e o impacto na rotina (instrumentos que medem o quanto a dor limita a vida). Na cefaléia crônica o erro mais comum é insistir por meses no mesmo esquema que não baixou os dias de dor; quando o diário não mostra queda no ritmo esperado, preferimos rever o diagnóstico, checar a adesão e a dose do preventivo e procurar um gatilho ainda ativo, em vez de prolongar o que já se mostrou insuficiente. A meta é transformar uma dor quase diária em episódica e controlável, e reduzir a dependência de analgésicos.
Tratamento não farmacológico: fisioterapia cervical, RPG e Pilates clínico
Boa parte das cefaleias crônicas diárias tem um componente cervical que sustenta a dor: a musculatura suboccipital, o trapézio superior, o elevador da escápula e o esternocleidomastóideo, quando tensos e cheios de pontos-gatilho, projetam dor para a cabeça e convergem, na medula cervical alta, sobre o mesmo núcleo (o núcleo trigeminocervical) que conduz a dor da enxaqueca. É por isso que tratar o pescoço, com reabilitação ativa, reduz a frequência das crises mesmo quando o diagnóstico de base é a enxaqueca crônica. O exercício não é um complemento opcional: é uma das frentes que mais sustentam o resultado a longo prazo, ao lado da medicação preventiva e das técnicas aplicadas em consultório.
Fisioterapia cervical e controle motor
Reabilitação ativa individualizada da coluna cervical. Treina os flexores profundos do pescoço (longo do pescoço e longo da cabeça) pela flexão craniocervical, com estabilização escapulotorácica; recupera o controle motor, reduz a sobrecarga dos extensores superficiais e diminui a aferência nociceptiva que alimenta o núcleo trigeminocervical. A terapia manual (mobilização articular cervical) interrompe a dor e abre janela para o exercício. Indicada na cefaleia tensional crônica, na enxaqueca crônica com dor cervical e na cefaleia cervicogênica. Limitação: exige adesão e regularidade; isolada, raramente resolve a enxaqueca crônica.
RPG · reeducação postural global
Trata o corpo por cadeias musculares, não por músculos isolados, com posturas de alongamento ativo mantidas. Nas cefaleias cervicais há encurtamento da cadeia posterior e da musculatura suboccipital, com anteriorização da cabeça; a RPG alonga essas cadeias com contração isométrica excêntrica em posturas globais, reequilibrando o tônus. Sessões individuais, um paciente por sala. Indicada quando há padrão postural e de encurtamento claro. Limitação: a evidência específica para cefaleia é mais limitada; é uma ferramenta da reabilitação, não tratamento isolado.
Pilates clínico e cinesioterapia
Exercício terapêutico de controle motor e estabilização, conduzido por fisioterapeuta, com progressão de carga individualizada. Trabalha a estabilização da cintura escapular e do segmento cervical, a consciência postural e a resistência da musculatura profunda, reduzindo a sobrecarga repetida que mantém os pontos-gatilho cervicais. Indicado em descondicionamento, instabilidade postural e dor cervical associada à cefaleia. Limitação: requer continuidade; os ganhos se perdem com a interrupção.
Higiene do sono e manejo do estresse
A cronificação tem motores comportamentais bem estabelecidos. O sono irregular e a insônia são fatores de risco para a transformação da enxaqueca episódica em crônica; horários regulares, restrição de telas e cafeína à noite e o tratamento de apneia do sono reduzem a frequência das crises. O estresse e seu manejo, com relaxamento, atividade física regular e, quando indicado, terapia cognitivo-comportamental, atuam sobre um dos gatilhos mais citados. Sem efeitos adversos relevantes, fazem parte do plano desde o início.
Nenhuma dessas frentes substitui a retirada do uso excessivo de analgésicos nem a prevenção medicamentosa quando ela está indicada; elas somam-se ao plano multimodal, escolhidas conforme os gatilhos identificados.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
É preciso ser direto sobre um ponto que gera muita ansiedade: para a cefaléia crônica diária primária (enxaqueca crônica, cefaleia tensional crônica, cefaleia por uso excessivo de medicação), a cirurgia não tem papel no tratamento. Não existe um procedimento que corte a dor de cabeça, e propostas de cirurgias para desativar pontos-gatilho ou descomprimir nervos periféricos do crânio permanecem experimentais e fora das recomendações das principais diretrizes. O caminho é clínico: retirar o que perpetua a dor, prevenir e modular. A cirurgia entra na conversa apenas em duas situações distintas, e nenhuma delas é realizada em nossa clínica.
Conservador · caminho da imensa maioria
Plano clínico na cefaleia primária
- Retirada planejada do uso excessivo de analgésicos.
- Prevenção de fundo conforme o tipo de cefaleia.
- Acupuntura, agulhamento seco e tratamento dos pontos-gatilho cervicais.
- Reabilitação cervical, sono e manejo do estresse.
- Toxina botulínica na enxaqueca crônica refratária.
Fora da clínica · exceção
Cirurgia e procedimentos de referência
- Cirurgia apenas quando há causa secundária estrutural tratável.
- Conduzida por neurologia e neurocirurgia, não pela clínica de dor.
- Anti-CGRP e neuromodulação reservados à enxaqueca refratária.
- Decisão de encaminhamento individualizada e compartilhada.
A primeira situação é quando a investigação aponta uma causa secundária tratável. Os sinais de alerta listados na seção «Sinais de alerta» (dor súbita e explosiva, cefaleia nova após os 50 anos, déficit neurológico, piora ao deitar ou tossir, febre com rigidez de nuca) levam a uma avaliação neurológica e, quando indicado, a exames de imagem. Se forem encontradas condições como tumor, hidrocefalia, malformação ou lesão estrutural, o tratamento passa a ser o da causa, conduzido por neurologia e neurocirurgia.
Nesses casos, a dor de cabeça é um sintoma, e não a doença em si. A segunda situação é a da enxaqueca crônica refratária, que não responde a um plano bem conduzido com várias classes de preventivos, retirada do uso excessivo e técnicas em consultório; aqui o manejo é conduzido por equipe especializada em cefaleia.
A imensa maioria das pessoas com cefaléia crônica diária nunca precisará de cirurgia nem de procedimentos de exceção. O ganho real vem do plano conservador bem conduzido; as opções de fora da clínica completam o quadro e indicam quando e a quem procurar.
Tratamento medicamentoso da cefaléia crônica
O tratamento com medicamentos tem dois objetivos diferentes, que não devem ser confundidos: a prevenção de fundo, tomada todos os dias para reduzir a frequência das crises, e o tratamento da crise (abortivo), usado de forma pontual quando a dor aparece. Na cefaléia crônica diária, o peso recai sobre a prevenção, porque é ela que quebra o padrão crônico. Os medicamentos abaixo são citados pelo nome do princípio ativo, nunca por marca. A escolha depende do tipo de cefaleia e das comorbidades de cada pessoa.
Profiláticos de fundo: as classes em resumo
| Princípio ativo | Classe · para quê | Evidência | O que considerar |
|---|---|---|---|
| Amitriptilina | Tricíclico em dose baixa. Primeira escolha na cefaleia tensional crônica; opção na enxaqueca | Moderada | Modula serotonina e noradrenalina; benefício adicional sobre o sono. Efeitos: sonolência, boca seca, ganho de peso. Útil quando há insônia associada |
| Topiramato | Anticonvulsivante; primeira linha na enxaqueca crônica | Forte | Evidência robusta de redução dos dias de dor. Efeitos: parestesias, perda de peso, alteração cognitiva, risco de glaucoma; contraindicado na gestação |
| Propranolol | Betabloqueador; preventivo consolidado da enxaqueca | Forte | Evitar em asma, bradicardia e bloqueios de condução. Efeitos: fadiga, hipotensão, mãos frias |
| Candesartana | Antagonista da angiotensina; alternativa preventiva bem tolerada na enxaqueca | Moderada | Atenção à pressão arterial e à função renal; contraindicada na gestação. Originalmente anti-hipertensivo |
Em geral, começa-se com dose baixa, com aumento gradual, e a resposta é avaliada após algumas semanas em dose adequada.
Anticorpos anti-CGRP
- O que é
- Anticorpos monoclonais, a classe mais recente de prevenção da enxaqueca, desenvolvida especificamente para a doença.
- Mecanismo
- Bloqueiam o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina (CGRP) ou o seu receptor, um mediador central na enxaqueca.
- Evidência
- Forte Ensaios de grande porte mostram redução do número de dias de dor por mês, inclusive em parte dos pacientes que já falharam a vários preventivos orais.
- O que esperar
- Aplicação injetável, em geral mensal; a resposta é reavaliada após alguns meses.
- Limitações
- Custo elevado e acesso limitado fazem com que sejam reservados, na prática, à enxaqueca crônica refratária, sob condução de especialista em cefaleia.
Abortivos: usar com cautela
- O que é
- Medicamentos de crise: analgésicos simples, anti-inflamatórios e, na enxaqueca, os triptanos (agem em receptores 5-HT1B/1D). Aliviam a dor pontual.
- O problema
- Na cefaléia crônica diária são uma faca de dois gumes: usados com frequência demais, são justamente o que perpetua o quadro pela cefaleia por uso excessivo de medicação descrita na seção «ciclo do uso excessivo de analgésicos».
- Limite de dias
- O uso é deliberadamente limitado: analgésicos simples e anti-inflamatórios não devem ultrapassar 15 dias por mês; triptanos, combinações com cafeína e derivados de opioide ficam abaixo de 10 dias por mês. Detalhamento no guia de analgésicos para dores de cabeça.
- Alerta central
- Usado todos os dias, qualquer analgésico para dor de cabeça cronifica ainda mais o quadro: é justamente o uso contínuo que perpetua a cefaléia crônica diária.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
O que é cefaléia crônica diária?
É a dor de cabeça que ocorre em 15 ou mais dias por mês, por mais de três meses. Não é uma doença única, e sim um padrão de frequência que reúne várias causas, sendo as mais comuns a enxaqueca crônica e a cefaleia tensional crônica, muitas vezes agravadas pelo uso excessivo de analgésicos.
Qual é o CID da cefaleia crônica? E o CID 10 G442?
A categoria mais usada é o CID-10 G44 (“outras síndromes de cefaleia”). O código G44.2, registrado como CID 10 G442, corresponde à cefaleia do tipo tensional, incluindo a forma crônica. A enxaqueca tem código próprio, o G43. O CID serve para registro em prontuários e atestados; a conduta é definida pelo diagnóstico clínico.
Dor de cabeça quase todos os dias é sinal de algo grave?
Na grande maioria das vezes, não. A cefaléia crônica diária costuma ser primária e benigna, ou seja, a dor é a própria doença. A investigação por imagem é reservada a quem apresenta sinais de alerta, como dor súbita e explosiva, déficit neurológico, febre com rigidez de nuca ou cefaleia nova após os 50 anos. Veja a página sobre dor de cabeça constante.
O remédio para dor de cabeça pode estar causando minha cefaleia crônica?
Sim, é uma das causas mais comuns e mais negligenciadas. O uso de analgésicos em mais de 10 a 15 dias por mês, por vários meses, pode levar à cefaleia por uso excessivo de medicação, em que o próprio remédio passa a perpetuar a dor. A melhora costuma vir quando esse uso é organizado e reduzido sob orientação médica.
A acupuntura ajuda na cefaleia crônica diária?
A acupuntura médica e a eletroacupuntura têm evidência de revisões sistemáticas para reduzir a frequência da enxaqueca e da cefaleia tensional, com boa tolerância. Atuam ativando vias que inibem a dor e reduzindo a sensibilização central. Costuma-se iniciar com um ciclo de 8 a 10 sessões, com reavaliação pelo número de dias de dor no mês. É parte de um plano multimodal, não um tratamento isolado.
Cefaléia crônica diária tem solução?
A maioria dos casos melhora de forma significativa com tratamento adequado. A meta é transformar uma dor quase diária em episódica e controlável, reduzir o número de dias com dor e diminuir a dependência de analgésicos, combinando a retirada do uso excessivo, a prevenção de fundo e as técnicas que modulam a dor.
Existe cirurgia para cefaleia crônica?
Para a cefaléia crônica diária primária (enxaqueca crônica, cefaleia tensional crônica, cefaleia por uso excessivo de medicação), a cirurgia não tem papel no tratamento, e o caminho é clínico. A cirurgia entra em cena apenas quando a investigação encontra uma causa secundária tratável, como um tumor ou uma malformação, situação conduzida por neurologia e neurocirurgia. Procedimentos de exceção, como a neuromodulação, ficam reservados à enxaqueca crônica refratária em centros de referência.
Quais remédios são usados para prevenir a cefaleia crônica?
Depende do tipo de cefaleia. Na enxaqueca crônica, usam-se preventivos como topiramato, propranolol, amitriptilina e candesartana e, em casos refratários, os anticorpos anti-CGRP. Na cefaleia tensional crônica, a amitriptilina em dose baixa é a mais empregada. Os medicamentos de crise, como anti-inflamatórios e triptanos, são usados com cautela e limite de dias por mês, para não perpetuar a dor.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Schiller et al. Combination of acupuncture and medical training therapy on tension type headache: Results of a randomised controlled pilot study. Cephalalgia. 2021. doi:10.1177/0333102421989620.
- Do et al. Myofascial trigger points in migraine and tension-type headache. The Journal of Headache and Pain. 2018. doi:10.1186/s10194-018-0913-8.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Na cefaléia crônica diária, o número de dias de dor, o tipo predominante e o peso do uso de analgésicos diferem muito de uma pessoa para outra, e o plano de tratamento é definido em consulta.
