Cefaleia em crianças: o que é normal e o que liga o alerta
A dor de cabeça na infância é comum e, na maioria das vezes, primária e benigna: enxaqueca ou cefaleia tensional.
- A grande maioria das dores de cabeça recorrentes da infância é primária: enxaqueca (sem ou com aura) e cefaleia tensional, ambas com critérios diagnósticos definidos na classificação internacional das cefaleias e ambas tratáveis.
- Na criança, os critérios de diagnóstico admitem crise de enxaqueca a partir de 2 horas (não 4), dor frequentemente bilateral ou frontotemporal e foto e fonofobia inferidas do comportamento, o que faz a apresentação fugir do quadro adulto.
- Um grupo de sinais de alerta muda a conduta: dor que acorda à noite ou domina a manhã, vômito sem náusea prévia, déficit neurológico, piora progressiva, idade abaixo de 6 anos e exame neurológico alterado. Na ausência deles, o diagnóstico é clínico.
- Com crises bem caracterizadas, intervalos livres e exame neurológico normal, o rendimento da neuroimagem é baixo e ela não é exame de rotina; a investigação se concentra nas crianças com sinais de alerta.
- O tratamento é multimodal e individualizado: medidas comportamentais como base, analgésico de crise por peso (ibuprofeno, paracetamol) e, em casos selecionados, triptano com evidência pediátrica e profilaxia.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Por que a criança não é um adulto pequeno
A dor de cabeça da infância compartilha a fisiopatologia do adulto, mas a apresentação é diferente o suficiente para enganar quem espera o quadro clássico. Reconhecer essas diferenças, e os critérios que as descrevem, é o primeiro passo para não confundir uma cefaleia benigna com algo mais sério, nem o contrário.
A enxaqueca é a cefaleia primária recorrente mais frequente em pediatria e a que mais leva à consulta. A crise nasce da ativação do sistema trigeminovascular: neurônios do gânglio trigeminal liberam neuropeptídeos vasoativos, sobretudo o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina), que promovem inflamação neurogênica sobre os vasos meníngeos e sensibilizam as vias da dor. A aura, presente em parte das crianças, corresponde à depressão alastrante cortical, uma onda de despolarização que percorre o córtex e explica os sintomas visuais ou sensitivos que precedem a dor. Esses mecanismos são os mesmos do adulto; o que muda é a maturação do sistema nervoso, que torna o quadro mais curto, mais difuso e mais somático na criança.
Na prática, isso se traduz em particularidades que a própria classificação internacional das cefaleias reconhece. A crise costuma ser mais curta, com duração mínima de 2 horas aceita na criança (contra 4 horas no adulto); a dor é com frequência bilateral ou frontotemporal, e não estritamente de um lado; e a fotofobia e a fonofobia muitas vezes não são relatadas, mas inferidas do comportamento, pois a criança procura um quarto escuro e silencioso e quer dormir. Os sintomas digestivos, ligados à ativação autonômica, dominam o quadro: náusea, vômito, dor abdominal e palidez podem ser mais evidentes que a própria cefaleia. O sono costuma encerrar a crise, e a criança acorda recuperada.
Há um grupo de síndromes episódicas que podem se associar à enxaqueca, antes chamadas de equivalentes ou síndromes periódicas da infância. A mais conhecida é a enxaqueca abdominal: episódios recorrentes de dor abdominal na linha média, periumbilical, de intensidade moderada a forte, com náusea, anorexia e palidez, durando de 2 a 72 horas, sem dor de cabeça proeminente, em uma criança com história familiar de enxaqueca. Convivem nesse grupo a síndrome dos vômitos cíclicos (crises estereotipadas de vômitos intensos com intervalos assintomáticos) e a vertigem paroxística benigna (episódios súbitos e breves de desequilíbrio). Todas são diagnósticos de exclusão, feitos depois de afastar causas digestivas ou otológicas, mas reconhecê-las evita investigações repetidas e desnecessárias, e muitas dessas crianças desenvolvem a enxaqueca clássica anos depois.
A cefaleia tensional também é comum e tende a aumentar com a idade escolar. Pelos critérios, é uma dor em aperto ou peso (não pulsátil), bilateral, de intensidade leve a moderada, que não piora com a atividade física habitual e cursa sem náusea importante, com no máximo foto ou fonofobia (não as duas). Liga-se a cansaço, estresse escolar, sono irregular e postura prolongada diante de telas, muitas vezes com participação da musculatura pericraniana e cervical. Costuma ser menos incapacitante que a enxaqueca, mas o impacto sobre a frequência às aulas e o humor não deve ser subestimado.
Curta, pulsátil, com barriga
Crise de 2 a 72 horas, muitas vezes bilateral ou frontotemporal, pulsátil, que piora com o esforço e vem com náusea, vômito, dor abdominal e palidez. A criança busca o escuro e o sono melhora. Origem trigeminovascular, mediada por CGRP.
Aperto leve, bilateral
Sensação de faixa ou peso, leve a moderada, não pulsátil, sem náusea importante, que não piora com a atividade. Liga-se a cansaço, estresse, sono irregular, tempo de tela e tensão da musculatura pericraniana.
Somadas, essas duas formas respondem pela imensa maioria das dores de cabeça recorrentes da infância, e ambas são tratáveis. Para entender a fundo a enxaqueca, seus gatilhos e o tratamento ao longo da vida, vale a leitura do nosso guia sobre o que é a enxaqueca, suas causas e tratamentos, que aprofunda a fisiopatologia comum aos dois grupos de idade.
O medo silencioso de quase toda família é o tumor cerebral, e é justamente esse o ponto que a maior parte dos textos não coloca em proporção: na criança com cefaleia recorrente, exame neurológico normal e sem sinais de alerta, a causa quase nunca é estrutural. O que sustenta a dor é, na imensa maioria das vezes, comportamental e fisiológico, sono desregulado, refeições puladas, desidratação, tela e estresse escolar, sobre um cérebro com predisposição à enxaqueca. A consequência prática é contraintuitiva: o caminho de maior rendimento raramente é o exame de imagem, e sim o diário de cefaleia e o ajuste de rotina. Pedir uma tomografia “para descartar” sem sinal de alerta costuma trazer mais radiação e achados incidentais que sustos do que respostas, e a ressonância normal não trata a dor que motivou a consulta. Reconhecer isso não é minimizar a queixa da criança; é apontar a intervenção que de fato muda a frequência das crises.
Primária ou secundária: o que mais pode ser
A pergunta central diante de uma criança com dor de cabeça é se a cefaleia é primária (a própria dor é a doença, como na enxaqueca e na tensional) ou secundária (a dor é sintoma de outra causa). A maioria das causas secundárias na infância é banal e autolimitada, sobretudo a cefaleia atribuída a infecção sistêmica, como um quadro viral febril, e a cefaleia rinossinusal aguda; a minoria preocupante é justamente a que os sinais de alerta da próxima seção ajudam a rastrear. A tabela abaixo organiza as hipóteses mais frequentes e a pista que as diferencia.
| Causa | Como costuma se apresentar | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Enxaqueca | Crises recorrentes, pulsáteis, com náusea, palidez e busca por escuro | História familiar; melhora com o sono; intervalos sem dor; preenche os critérios de diagnóstico |
| Cefaleia tensional | Aperto leve a moderado, bilateral, no fim do dia | Sem náusea importante; não piora com a atividade; ligada a cansaço e estresse |
| Infecção sistêmica (viral) ou rinossinusal | Dor junto de febre, coriza, dor de garganta ou de ouvido | Quadro agudo e autolimitado, acompanha a doença de base e regride com ela |
| Erro de refração ou esforço visual | Dor frontal no fim do dia de estudo ou de tela | Melhora com o repouso visual; avaliação oftalmológica orienta |
| Hipertensão intracraniana (tumor, hipertensão idiopática, hidrocefalia) | Dor que acorda à noite ou domina a manhã, vômito, papiledema, piora progressiva | Sinais de alerta presentes; fundo de olho e exame neurológico alterados; pede investigação sem demora |
| Cefaleia por uso excessivo de medicação | Cefaleia que se tornou frequente ou diária em quem usa analgésico com frequência | Uso de analgésico em 10 a 15 ou mais dias por mês; melhora ao reduzir o uso |
Os quadros podem se sobrepor: uma criança com predisposição à enxaqueca pode ter a crise disparada por um resfriado, por uma noite mal dormida ou por jejum prolongado, e o uso repetido de analgésico pode, com o tempo, somar um componente de cefaleia por uso excessivo de medicação. A tabela é um ponto de partida; o que define a conduta é a combinação da história, do exame neurológico e, sobretudo, da presença ou não dos sinais de alerta.
“Criança não tem enxaqueca, é só manha ou vontade de faltar à escola.”
A enxaqueca é a cefaleia recorrente mais comum da infância, tem critérios diagnósticos próprios e base neurobiológica documentada, com ativação trigeminovascular e liberação de CGRP. Tratar a dor como invenção atrasa o diagnóstico e o alívio de uma criança que está, sim, sofrendo.
Sinais de alerta na criança
A maioria das dores de cabeça da infância é benigna, mas um pequeno grupo de sinais muda a conduta e indica que a avaliação não deve esperar. Esses sinais apontam para causas secundárias que precisam ser afastadas, em especial o aumento da pressão intracraniana. Procure atendimento sem demora diante de qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor de cabeça que acorda a criança à noite ou que é pior logo ao acordar, em geral aliviando ao longo do dia.
- Vômitos, sobretudo o vômito em jato e sem náusea que o anteceda, ou que pioram ao deitar e de manhã.
- Déficit neurológico: fraqueza, alteração da fala, da visão, do equilíbrio ou da marcha, alteração da consciência ou convulsão.
- Dor que piora de forma progressiva em dias a semanas, sempre no mesmo lado, ou que muda de padrão de modo consistente.
- Mudança de comportamento, queda no rendimento escolar, irritabilidade, regressão de marcos ou sonolência fora do comum.
- Idade abaixo de 6 anos, em que a criança ainda descreve mal a dor e a causa secundária pesa mais.
- Dor de cabeça súbita e muito intensa, a pior da vida (thunderclap), ou que surge após trauma na cabeça.
- Febre com rigidez de nuca, prostração ou petéquias, que sugerem infecção do sistema nervoso central.
- Aumento rápido do perímetro cefálico no lactente, ou dor em criança imunossuprimida ou com derivação ventricular.
- Dor que piora ao deitar, tossir ou fazer esforço (manobra de Valsalva), padrão que acompanha a hipertensão intracraniana.
Cada sinal tem uma lógica fisiopatológica. A dor que acorda à noite ou domina a manhã, o vômito que piora ao deitar e a piora com a Valsalva são clássicos do aumento da pressão intracraniana, porque a posição deitada e o esforço elevam ainda mais essa pressão. O déficit neurológico focal, o papiledema ao fundo de olho e a piora progressiva exigem afastar uma lesão que ocupa espaço.
A mudança de comportamento em uma criança costuma ser percebida antes pelos pais que por qualquer exame. Na ausência desses sinais, com crises bem definidas, intervalos livres de dor e exame neurológico normal, a cefaleia primária é de longe a explicação mais provável.
Cefaleia recorrente, pulsátil, que melhora entre as crises, com exame neurológico normal e história familiar de enxaqueca fala a favor de quadro benigno. Cefaleia que progride, acorda à noite, vem com vômito matinal, papiledema ou déficit focal, ou aparece numa criança muito pequena, fala a favor de investigar. É esse contraste, e não um exame isolado, que orienta a decisão.
Como o quadro é avaliado
A avaliação da criança com dor de cabeça é, antes de tudo, clínica, e raramente depende de exames. A maior parte do diagnóstico nasce de uma anamnese estruturada com a família e de um exame neurológico cuidadoso. O objetivo é duplo: classificar a cefaleia primária pelos critérios de diagnóstico e, ao mesmo tempo, rastrear ativamente os sinais de alerta.
Quando pedir neuroimagem?
Há sinal de alerta, exame neurológico alterado, dor progressiva, cefaleia occipital persistente ou criança muito pequena?
A imagem fica reservada para esses casos. Prefere-se a ressonância, que evita radiação ionizante e tem melhor resolução de fossa posterior. A neuroimagem muda a conduta sobretudo quando o exame já aponta para isso; a decisão de pedi-la e a escolha da modalidade são sempre médicas.
Em criança com cefaleia recorrente, exame neurológico normal e sem sinais de alerta, o rendimento da neuroimagem é baixo e os achados costumam ser incidentais, sem relação com a dor. A neuroimagem não é exame de rotina da dor de cabeça na infância: a ausência de sinais de alerta, com exame normal e crises bem caracterizadas, é o cenário em que a investigação se encerra e o foco passa a ser o tratamento.
Quando o padrão deixa de ser tranquilizador
- Exame neurológico alterado, déficit focal ou alteração no fundo de olho (papiledema).
- Dor progressiva, que piora ao longo das semanas em vez de manter intervalos livres.
- Cefaleia que acorda a criança de madrugada ou vômito ao acordar.
- Mudança de comportamento ou de personalidade associada à dor.
- Cefaleia occipital persistente.
- Criança muito pequena, em que a queixa é mais difícil de caracterizar.
Quem chega ao consultório quase sempre é um pai ou uma mãe assustado, com a palavra “tumor” rondando, e boa parte da consulta é devolver proporção: o exame neurológico normal e o padrão de crises com intervalos livres pesam mais do que qualquer exame de imagem para tranquilizar. Quando peço para a família reconstruir os dias de dor, a tríade que aparece com regularidade é a mesma, tela até tarde com sono encurtado, café da manhã pulado na correria de sair para a escola e garrafa de água que volta cheia da mochila; nomear esses três gatilhos costuma fazer mais pela criança nas primeiras semanas do que qualquer prescrição.
O que separa o tranquilizador do preocupante raramente é a intensidade da dor, e sim o padrão: a dor que melhora dormindo e some nos intervalos fala a favor de quadro benigno; a que acorda a criança de madrugada, vem com vômito ao acordar ou muda de comportamento é a que faz eu não esperar. O que mais surpreende as famílias é a inversão de expectativa: muitas vêm decididas a fazer ressonância e saem com um diário de cefaleia e um plano de sono, e voltam relatando menos crises sem ter tomado mais remédio. A imagem fica guardada para quando o exame ou a história a pedem, não para acalmar a ansiedade, que se acalma melhor com explicação e seguimento.
Tratamento: o que fazer e por quê
O tratamento da cefaleia primária na criança é multimodal, individualizado e, na base, não medicamentoso, e se organiza em três frentes: medidas comportamentais (a base), tratamento da crise (agudo) e, quando indicado, profilaxia. Na infância, as medidas comportamentais costumam ter sobre a frequência das crises um efeito que a farmacoterapia preventiva não supera, com a vantagem de não exporem a criança a efeitos adversos. A medicação entra de forma criteriosa, com a regra inegociável de que a dose, na criança, é calculada pelo peso e definida pelo médico. O objetivo é reduzir a frequência e a intensidade da dor, devolver a frequência às aulas e o sono, e dar à família ferramentas para manejar as crises.
Medidas comportamentais, sono e gatilhos
A base ativa: sono regular, hidratação, refeições, atividade física e diário de cefaleia para modular gatilhos.
Técnicas comportamentais e biofeedback
Terapia cognitivo-comportamental, relaxamento e biofeedback sobre a sensibilização central e o estresse.
Crise por peso: ibuprofeno e paracetamol
Analgésico de resgate no início da crise, com dose calculada pelo peso e definida pelo médico.
Triptanos com evidência pediátrica
Agonistas 5-HT1B/1D específicos da enxaqueca, em adolescentes, quando o analgésico simples não controla.
Profilaxia quando indicada
Uso contínuo (flunarizina, riboflavina, propranolol, amitriptilina, topiramato, ciproeptadina) em quadros frequentes.
Acupuntura e eletroacupuntura pediátricas
Agulhas finas (ou laseracupuntura sem agulha) na profilaxia da enxaqueca e da tensional, poupando medicação.
Componente miofascial e cervical
Terapia manual e correção postural; agulhamento seco só em adolescentes selecionados, com consentimento.
Cefaleia por uso excessivo de medicação
Reconhecer e reduzir o uso repetido de analgésico que transforma a dor episódica em frequente ou diária.
A sequência clínica vai do que tem mais base e menos risco para o que é mais restrito e reservado:
Medidas comportamentais, sono e gatilhos
- O que é
- A base ativa do plano: regularização de sono, hidratação, refeições e atividade física, manejo do estresse escolar e uso de um diário de cefaleia para identificar e modular gatilhos. Inclui intervenções biocomportamentais estruturadas, como terapia cognitivo-comportamental, relaxamento e biofeedback.
- Mecanismo
- Reduz a carga de fatores que disparam a despolarização cortical e a ativação trigeminovascular (privação ou excesso de sono, jejum, desidratação, estresse) e atua sobre a sensibilização central pelas vias de modulação descendente.
- Evidência
- Forte As intervenções biocomportamentais têm a melhor base entre as medidas preventivas na enxaqueca pediátrica; ensaios mostram que a terapia cognitivo-comportamental somada a profilaxia reduz a frequência de cefaleia e a incapacidade mais que a profilaxia isolada.
- O que esperar
- Efeito ao longo de semanas a meses, cumulativo, sustentado enquanto os hábitos se mantêm; o sono regular é, isolado, provavelmente a medida mais poderosa, já que tanto a falta quanto o excesso disparam crise.
- Indicações
- Todas as crianças com enxaqueca ou cefaleia tensional, qualquer que seja a frequência.
- Limitações
- Exige adesão da família e tempo; pular o café da manhã, dormir mal e o uso desregulado de telas são gatilhos clássicos que precisam de mudança real de rotina, não de orientação genérica.
Tratamento da crise por peso: analgésicos e anti-inflamatórios
- O que é
- A medicação de resgate tomada no início da crise, com base em analgésico simples e anti-inflamatório não esteroidal. As opções com melhor sustentação na criança são o ibuprofeno e o paracetamol.
- Mecanismo
- O ibuprofeno inibe a cicloxigenase (COX-1 e COX-2) e reduz a síntese de prostaglandinas envolvidas na inflamação neurogênica e na sensibilização periférica; o paracetamol tem ação predominantemente central, ainda não totalmente esclarecida.
- Evidência e dose
- Forte O ibuprofeno, na dose habitual de cerca de 10 mg/kg, é o agudo com melhor evidência de eficácia na enxaqueca pediátrica; o paracetamol, em torno de 15 mg/kg, é alternativa, em geral com efeito um pouco menor. As doses são referência de faixa, calculada pelo peso, e a prescrição é sempre médica.
- O que esperar
- Maior chance de alívio quando o remédio é tomado cedo, somado a repouso em ambiente calmo e, muitas vezes, ao sono.
- Indicações
- Crise de enxaqueca ou de cefaleia tensional de intensidade que justifique resgate.
- Limitações
- O uso frequente é o principal risco, pois pode evoluir para cefaleia por uso excessivo de medicação; por isso se limita o número de dias de uso por mês. O ácido acetilsalicílico é evitado em crianças por sua associação com a síndrome de Reye em quadros virais.
Acupuntura médica e eletroacupuntura pediátricas
- O que é
- Inserção de agulhas finas em acupontos por médico com formação específica; na eletroacupuntura, corrente de baixa intensidade conecta as agulhas. Na criança, a técnica é adaptada (agulhas mais finas, menos pontos, sessões mais curtas), além de opções sem agulha, como a auriculoterapia e a laseracupuntura.
- Mecanismo
- Modulação segmentar no corno dorsal da medula (teoria da comporta), ativação de vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial) e liberação de opioides endógenos; a baixa frequência tende a recrutar mais os sistemas opioides.
- Evidência
- Moderada Há evidência de benefício na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, com revisões dedicadas à população pediátrica; um ensaio duplo-cego com laseracupuntura em crianças mostrou redução do número de dias de dor. A vantagem prática, valiosa na infância, é poupar medicação.
- O que esperar
- Na criança o plano costuma ser curto e tolerável, em torno de seis a oito sessões semanais, com a decisão de continuar tomada a partir do diário de cefaleia (queda de dias de dor por mês), não de uma contagem fixa; quando o objetivo é só poupar analgésico, basta um número menor de sessões.
- Indicações
- Enxaqueca e cefaleia tensional, sobretudo quando se busca reduzir o uso de medicação ou quando há componente miofascial cervical associado. Detalhes no guia sobre acupuntura e enxaqueca infantil.
- Limitações
- Desconforto ou pequena equimose no local, raros; cautela em distúrbios de coagulação; o medo da agulha é a barreira prática mais comum, contornada com a laseracupuntura e a auriculoterapia, e o método é adjuvante, não tratamento isolado.
Manejo do componente miofascial e cervical
Nas crianças com forte componente tensional ou cervical, a desativação de pontos-gatilho na musculatura suboccipital, no trapézio superior e no elevador da escápula, que referem dor para a cabeça, é parte do plano multimodal. A desativação interrompe o ciclo dor-tensão-dor na banda muscular tensa, com efeito analgésico local e segmentar; trata a camada tensional, não a enxaqueca em si. O racional miofascial é bem descrito e tem boa sustentação na dor miofascial do adulto; na criança o dado específico é mais escasso, e por isso a indicação é cautelosa e individual, com preferência pelas abordagens menos invasivas primeiro.
Terapia manual e correção postural
Na infância é o eixo do manejo, com preferência pelas abordagens menos invasivas primeiro.
Agulhamento seco
Fica reservado a adolescentes selecionados e a pontos-gatilho persistentes, sempre com consentimento da criança, cuja aceitação define se entra ou não no plano multimodal. Limitações: dor local transitória, equimose; cautela em distúrbios de coagulação.
O componente cervical da cefaleia infantil costuma andar junto com horas de tela e mochila pesada: a musculatura suboccipital e o trapézio ficam encurtados, criam pontos-gatilho que referem dor para a testa e a região atrás dos olhos, e a criança e a família atribuem tudo à “vista cansada”. Identificar e tratar esse componente, antes de mais remédio, muda a conversa. A agulha, quando entra, é a última peça e nunca a primeira.
Profilaxia e cefaleia por uso excessivo de medicação
A profilaxia é medicação de uso contínuo para reduzir a frequência das crises, reservada a quadros frequentes e incapacitantes apesar das medidas comportamentais; as classes (amitriptilina, topiramato, propranolol, flunarizina, ciproeptadina, riboflavina) e a avaliação de sua evidência estão detalhadas na seção medicamentosa adiante. Vale destacar a cefaleia por uso excessivo de medicação: o uso repetido de analgésicos transforma uma cefaleia episódica em frequente ou diária, fenômeno que também ocorre em crianças e adolescentes. Pelos critérios de diagnóstico, define-se pelo uso de analgésico simples em 15 ou mais dias por mês, ou de triptano e combinações em 10 ou mais dias por mês, por mais de três meses. A base do manejo é reconhecer o padrão e reduzir o uso, sempre com orientação médica, plano de resgate alternativo e reforço das medidas comportamentais.
Mapear e estabilizar
Iniciar o diário de cefaleia, regularizar sono, hidratação e refeições, e organizar o manejo da crise em casa com o analgésico por peso.
Tratar e ajustar
Atuar sobre os gatilhos identificados e, quando indicado, somar técnicas em clínica e intervenção biocomportamental; a frequência das crises costuma começar a ceder.
Reavaliar
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, considera-se profilaxia (ciente da evidência limitada e dos efeitos adversos) e, se algum sinal de alerta surgiu, a investigação.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
Na criança, a abordagem com melhor relação entre evidência e segurança não é o remédio: é a base não medicamentosa. Regularizar sono, hidratação e alimentação, manejar o estresse escolar, ordenar o tempo de tela, garantir atividade física e treinar técnicas comportamentais formam o eixo do tratamento, e os ensaios de profilaxia mostram que esse trabalho costuma reduzir a frequência das crises mais que a farmacoterapia preventiva, sem expor a criança a efeitos adversos. Quando há um componente tensional ou cervicogênico, somam-se as frentes da fisioterapia, tudo de forma individualizada e não cirúrgica, adaptado à idade.
O raciocínio é direto. A crise de enxaqueca e a cefaleia tensional da infância são disparadas por fatores moduláveis do dia a dia: noite mal dormida ou sono em excesso, jejum, desidratação, estresse e postura mantida diante de telas. O analgésico apaga o incêndio da crise; quem muda o terreno e espaça os episódios é o ajuste consistente desses hábitos, somado, quando indicado, ao trabalho ativo sobre a musculatura. Nenhuma frente age sozinha: o ganho vem da combinação, ajustada conforme a resposta.
Regularidade de sono, hidratação e alimentação
O que é: horário regular de dormir e acordar (inclusive nos fins de semana), refeições sem pular o café da manhã e hidratação ao longo do dia, com apoio do diário para ligar cada crise ao que a antecedeu.
Mecanismo: reduz a carga dos gatilhos que disparam a despolarização alastrante cortical e a ativação trigeminovascular; tanto a privação quanto o excesso de sono precipitam crise, e jejum e desidratação são gatilhos clássicos.
O que esperar: efeito cumulativo ao longo de semanas, sustentado enquanto a rotina se mantém.
Limitações: exige adesão real da família, não orientação genérica; a dieta de exclusão ampla não se justifica, e o foco é nos gatilhos individuais do diário.
Tempo de tela, atividade física e rotina escolar
O que é: ordenar o tempo de tela com pausas e a tela na altura dos olhos, incluir atividade física aeróbica regular e organizar a rotina escolar para reduzir a sobrecarga e o estresse de provas.
Mecanismo: a tela prolongada soma fadiga visual, cabeça projetada à frente e tensão pericraniana e cervical, alimentando o componente tensional; o exercício modula a frequência das crises e o humor, e reduzir o estresse atua sobre um gatilho central.
O que esperar: melhora gradual ao longo de semanas, dependente da constância.
Limitações: depende da rotina familiar e escolar; mudanças bruscas costumam falhar, e o ajuste progressivo rende mais.
Técnicas comportamentais e biofeedback
O que é: intervenções biocomportamentais estruturadas — terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento (respiração diafragmática, relaxamento muscular progressivo) e biofeedback, que ensina a criança a perceber e modular respostas fisiológicas ligadas à tensão e à dor.
Mecanismo: atuam sobre a sensibilização central e a resposta à dor pelas vias de modulação descendente, e reduzem a reatividade ao estresse.
O que esperar: ganho ao longo de algumas semanas a poucos meses, que se mantém porque a criança incorpora as estratégias.
Limitações: demanda profissional habilitado e regularidade; o acesso pode ser um obstáculo, e o resultado depende do engajamento da criança e da família.
Fisioterapia, postura, RPG e Pilates clínico
O que é: reabilitação ativa indicada quando há componente tensional ou cervicogênico — cinesioterapia e exercício terapêutico, correção postural, reeducação postural global (RPG) e Pilates clínico, conduzidos por fisioterapeuta e adaptados à idade.
Mecanismo: reduz a tensão da musculatura pericraniana e cervical (suboccipitais, trapézio superior, elevador da escápula) que refere dor para a cabeça, melhora o controle da cabeça projetada à frente e treina a tolerância da musculatura.
O que esperar: resposta ao longo de semanas, mantida enquanto o programa é mantido; é adjuvante das medidas comportamentais.
Limitações: exige constância e dosagem individual; não trata isoladamente a enxaqueca sem componente miofascial, e a manipulação cervical de alta velocidade não tem papel na criança.
Nenhuma dessas frentes age sozinha, e nenhuma é solução instantânea. O resultado consistente vem da combinação, individualizada após avaliação, entre a regularidade dos hábitos, o manejo do estresse, a atividade física, as técnicas comportamentais e, quando há componente miofascial, a fisioterapia, ajustada conforme a resposta da criança. A acupuntura médica e o manejo do componente miofascial, também não medicamentosos e conduzidos na clínica, estão detalhados na seção de tratamento acima. Na prática pediátrica, o que decide o resultado é menos a técnica escolhida e mais a constância da rotina em casa e na escola: a mesma criança responde bem quando o sono e as refeições se firmam, e recai quando as férias ou as provas desorganizam tudo.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
Não há papel para cirurgia na cefaleia primária da infância. Enxaqueca e cefaleia tensional são problemas de funcionamento das vias da dor, não de uma estrutura que precise ser operada. Não existe procedimento cirúrgico que trate enxaqueca em criança, e propor cirurgia para dor de cabeça primária expõe a criança a riscos sem resolver a dor. O lugar da cirurgia é estreito e indireto: ela só entra quando a investigação identifica uma causa secundária estrutural, como um tumor, uma hidrocefalia ou uma malformação, e nesses casos quem conduz é a neurocirurgia pediátrica, fora do escopo de uma clínica de dor não cirúrgica.
Conservador · regra na cefaleia primária
Manejo na clínica de dor
- Medidas comportamentais: sono, hidratação, refeições, telas e estresse escolar
- Analgésico de crise por peso e, no adolescente, triptano
- Acupuntura, técnicas comportamentais e fisioterapia do componente cervical
- Profilaxia individualizada em quadros frequentes
Cirúrgico · só para causa secundária
Neurocirurgia pediátrica
- Sem papel na enxaqueca ou na cefaleia tensional
- Reservado a tumor, hidrocefalia ou malformação identificados na investigação
- Conduzido por neurocirurgião e neuropediatra, fora da clínica de dor
- Acionado a partir dos sinais de alerta, não da intensidade da dor
Por isso, o ponto verdadeiramente útil desta seção, o que de fato fica “fora da clínica” de dor, não é a cirurgia, e sim reconhecer os sinais de alerta que pedem a neuropediatria e a neuroimagem. A grande maioria das crianças com dor de cabeça nunca precisará de um neurocirurgião, mas a família precisa saber o que dispara o encaminhamento. São os mesmos sinais detalhados na seção de alerta, e eles merecem ser repetidos aqui porque é diante deles que se sai do manejo da dor primária e se busca avaliação especializada sem demora.
Sinais que pedem neuropediatria e, quando indicado, neuroimagem
- Cefaleia que acorda a criança à noite ou é pior logo ao acordar, aliviando ao longo do dia.
- Piora progressiva da dor em dias a semanas, sempre no mesmo lado, ou mudança consistente de padrão.
- Vômitos matinais, em especial em jato e sem náusea prévia, ou que pioram ao deitar.
- Qualquer sinal neurológico: fraqueza, alteração da fala, da visão, do equilíbrio, da marcha, convulsão ou alteração da consciência.
- Mudança de comportamento, queda no rendimento escolar, regressão de marcos ou sonolência fora do comum.
- Idade abaixo de 6 anos, dor súbita e intensa (thunderclap), dor após trauma, ou febre com rigidez de nuca.
Diante de qualquer um desses sinais, a conduta é o encaminhamento à neuropediatria e, quando indicado, a neuroimagem, de preferência a ressonância, que evita radiação ionizante e tem melhor resolução da fossa posterior. Nossa clínica é dedicada ao tratamento não cirúrgico da dor; o cuidado de causas estruturais e os procedimentos cirúrgicos são conduzidos por neurocirurgião e neuropediatra. O papel da clínica, nesses casos, é integrar o cuidado: apresentar o quadro completo, reconhecer quando a dor deixa de ter cara de cefaleia primária e orientar a família a procurar o especialista certo, sem perder tempo.
Há ainda frentes de cuidado que ficam fora do escopo de uma clínica de dor e que podem participar conforme o caso. Quando um erro de refração contribui para a dor frontal de fim de dia, a avaliação oftalmológica orienta a correção. Quando há um transtorno de ansiedade ou um sofrimento emocional que alimenta a cefaleia tensional, a abordagem de saúde mental pediátrica soma ao manejo.
E o pediatra de referência permanece o coordenador do cuidado. O princípio é o mesmo: oferecer o mapa completo e indicar quando procurar cada profissional, mesmo o que não atende em nossa clínica.
Tratamento medicamentoso
O medicamento, na cefaleia primária da criança, é uma camada do tratamento, e não a primeira resposta: entra de forma criteriosa sobre a base não medicamentosa, com a regra inegociável de que a dose, na criança, é calculada pelo peso e definida pelo médico. As faixas citadas abaixo são referências gerais de dose, não prescrição. O que serve a um quadro pode ser inadequado a outro.
| Grupo | Agentes | Para quê | Evidência | O que esperar e limites |
|---|---|---|---|---|
| Analgésicos abortivos da crise | Ibuprofeno (~10 mg/kg); paracetamol (~15 mg/kg) | Resgate no início da crise; ibuprofeno inibe a COX e reduz prostaglandinas; paracetamol age centralmente | Forte (ibuprofeno é o agudo com melhor evidência) | Maior alívio se tomado cedo, com repouso e sono. Limitar dias de uso por mês para evitar cefaleia por uso excessivo. AAS evitado pela síndrome de Reye em quadros virais. |
| Triptanos (adolescentes) | Zolmitriptana nasal; sumatriptana + naproxeno; almotriptana; rizatriptana | Agonistas 5-HT1B/1D específicos da enxaqueca, quando o analgésico simples não controla; podem ser combinados a anti-inflamatório | Moderada (alta resposta ao placebo reduz a magnitude do efeito) | Aperto, formigamento, fadiga. Contraindicados em doença cardio ou cerebrovascular e na enxaqueca com aura de tronco ou hemiplégica. Uso restrito em dias por mês. |
| Profilaxia — vitamina / anti-histamínico | Riboflavina (B2); ciproeptadina | Uso contínuo para reduzir a frequência das crises; riboflavina apoia o metabolismo mitocondrial | Limitada (riboflavina: segurança alta, benefício modesto) | Efeito após semanas a poucos meses, com titulação. Reservada a quadros frequentes e incapacitantes, sempre somada aos hábitos. |
| Profilaxia — flunarizina / propranolol | Flunarizina (bloqueador de canais de cálcio); propranolol (betabloqueador) | Uso contínuo preventivo; estabilização vascular e neuronal (flunarizina) | Moderada (flunarizina é a profilaxia com evidência mais favorável nesta faixa) | Sedação e ganho de peso (flunarizina); fadiga (betabloqueador). Indicação restrita, individualizada e reavaliada. |
| Profilaxia — tricíclico / anticonvulsivante | Amitriptilina; topiramato | Uso contínuo preventivo; modulação monoaminérgica (tricíclico) e redução da excitabilidade cortical (topiramato) | Limitada (ensaio CHAMP: sem diferença vs. placebo, com mais efeitos adversos) | Sedação e ganho de peso (amitriptilina); alteração cognitiva e perda de peso (topiramato). Achado que reforça o peso das medidas comportamentais. |
Sobre o tratamento da crise: a medicação de resgate, tomada no início da crise, é a base do tratamento agudo, somada a repouso em ambiente calmo e, muitas vezes, ao sono. O cuidado central é com a frequência de uso. Sobre a profilaxia: o ensaio randomizado CHAMP, em crianças e adolescentes, comparou amitriptilina e topiramato ao placebo e não mostrou diferença na redução de dias de cefaleia, com mais efeitos adversos nos grupos com medicação, achado que reforça o peso das medidas comportamentais.
A flunarizina é a profilaxia com evidência mais favorável nessa faixa, e a riboflavina tem perfil de segurança alto com benefício modesto. A indicação é restrita, individualizada e reavaliada, sempre somada aos hábitos.
Na criança, a medicação alivia a crise e, quando indicada, espaça os episódios, mas não substitui o ajuste de sono, hidratação, telas e estresse que sustenta o resultado. O remédio é o apoio; a base é não medicamentosa. A dose é sempre calculada pelo peso.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
Dor de cabeça em criança é normal?
Dor de cabeça é comum na infância e, na maioria das vezes, benigna, em geral enxaqueca ou cefaleia tensional, ambas com critérios diagnósticos próprios. O que muda a conduta não é a dor em si, mas a presença de sinais de alerta, como dor que acorda à noite, vômitos, déficit neurológico, piora progressiva ou idade abaixo de 6 anos. Na ausência desses sinais, com exame neurológico normal, costuma ser um quadro primário e tratável.
Como saber se é enxaqueca ou algo grave?
A enxaqueca vem em crises recorrentes, pulsáteis, com náusea e palidez, com melhora entre os episódios e história familiar, e o exame neurológico é normal. Sinais que pedem investigação são dor que progride, acorda a criança, vem com vômito matinal, papiledema ou déficit focal, piora com tosse e esforço, ou aparece numa criança muito pequena. É o contraste entre esses dois perfis, avaliado pelo médico, que orienta a decisão.
Posso dar remédio de adulto para a dor de cabeça do meu filho?
Não. A dose em criança é calculada pelo peso e deve ser definida pelo médico; o ibuprofeno e o paracetamol têm faixas por quilo, e o ácido acetilsalicílico é evitado em crianças pela associação com a síndrome de Reye. Além disso, o uso frequente de analgésicos pode perpetuar a dor de cabeça. Por isso a medicação é uma camada do tratamento, e não a primeira resposta.
Quando a dor de cabeça do meu filho precisa de pronto-socorro?
Procure atendimento de urgência diante de dor súbita e muito intensa, dor após trauma na cabeça, febre com rigidez de nuca ou prostração, vômitos persistentes, convulsão, alteração da consciência ou qualquer fraqueza, alteração da fala, da visão ou do equilíbrio. Esses quadros precisam de avaliação imediata. A dor recorrente e estável, sem esses sinais, pode ser avaliada de forma agendada.
A criança precisa fazer tomografia ou ressonância?
Na maioria das vezes, não. Diante de crises bem definidas, exame neurológico normal e sem sinais de alerta, o rendimento da neuroimagem é baixo e a história e o exame bastam. A imagem, de preferência a ressonância para evitar radiação, fica reservada para sinais de alerta, exame alterado, dor progressiva ou criança muito pequena. A decisão é sempre médica.
Remédio para prevenir a enxaqueca funciona na criança?
A evidência é mais limitada do que no adulto. O ensaio CHAMP, com amitriptilina e topiramato, não mostrou vantagem sobre o placebo em crianças e adolescentes e teve mais efeitos adversos, o que reforça o peso das medidas comportamentais. A flunarizina é a profilaxia com evidência mais favorável nessa faixa, e a riboflavina tem bom perfil de segurança. A decisão é individualizada, sempre somada aos hábitos, e reservada a quadros frequentes e incapacitantes.
Acupuntura funciona e é segura para crianças?
A acupuntura tem evidência de benefício na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional e, na criança, é adaptada com agulhas mais finas, menos pontos, sessões curtas e mesmo opções sem agulha, como a laseracupuntura. Conduzida por médico com formação específica, ajuda a reduzir a necessidade de medicação. Veja o nosso guia sobre acupuntura e enxaqueca infantil.
O que é enxaqueca abdominal?
É uma das síndromes episódicas que podem se associar à enxaqueca, em que predominam crises de dor abdominal na linha média, periumbilical, com náusea, anorexia e palidez, durando de 2 a 72 horas, sem dor de cabeça proeminente, em criança com história familiar de enxaqueca. É um diagnóstico de exclusão, feito depois de afastar causas digestivas, e muitas dessas crianças desenvolvem a enxaqueca clássica mais tarde.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências3 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition (ICHD-3). Cephalalgia. 2018;38(1):1-211.
- Powers SW, et al. Trial of amitriptyline, topiramate, and placebo for pediatric migraine (CHAMP). N Engl J Med. 2017;376(2):115-124.
- Gottschling S, et al. Laser acupuncture in children with headache: a double-blind, randomized, bicenter, placebo-controlled trial. Pain. 2008;137(2):405-412.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual da criança. Cada quadro de cefaleia infantil exige um plano individualizado, definido após consulta com base na história, no exame neurológico e na presença ou não de sinais de alerta. Em crianças, qualquer medicação deve ser prescrita pelo médico, com dose calculada pelo peso, e a introdução ou a alteração de qualquer fármaco cabe exclusivamente ao médico assistente. Diante de sinais de alerta, procure avaliação sem demora.
