Dor abdominal: o que pode ser?
Dor na barriga tem dezenas de causas, e o lugar onde dói é a primeira pista.
Procure um pronto-socorro imediatamente se houver
- Dor abdominal intensa e de início súbito, especialmente se a barriga fica dura, rígida, como uma tábua.
- Dor com febre, vômitos persistentes, parada de eliminação de gases e fezes ou distensão acentuada da barriga.
- Sangramento: vômito com sangue, fezes pretas ou com sangue vivo, ou sangramento vaginal anormal.
- Dor que migra de lugar (por exemplo, começa em volta do umbigo e desce para o lado direito de baixo), sugerindo apendicite.
- Dor abdominal em pessoa grávida, em idoso, em quem tem câncer, é imunossuprimido ou usa anticoagulante.
- Dor associada a desmaio, suor frio, palidez, falta de ar, dor no peito ou pressão muito baixa.
- Dor abdominal pode ser muita coisa: de um gás ou uma gastrite a uma apendicite, uma pedra no rim ou uma gravidez ectópica. Por isso o primeiro passo é triar a gravidade, não adivinhar a causa.
- A região onde dói organiza o raciocínio: epigástrio (estômago, pâncreas), hipocôndrio direito (vesícula, fígado), fossa ilíaca direita (apêndice, anexo), fossa ilíaca esquerda (divertículo), suprapúbica (bexiga, útero) e a parede em qualquer ponto. A localização orienta, mas não fecha o diagnóstico.
- Diante de qualquer bandeira vermelha (acima), o caminho é o pronto-socorro, não o consultório nem a internet. Abdome agudo é uma corrida contra o tempo.
- Quando a investigação de emergência e a causa interna são afastadas, uma parcela importante da dor vem da parede abdominal: aprisionamento de nervo (síndrome de ACNES), dor miofascial e dor referida da coluna toracolombar. Esse subgrupo, muitas vezes negligenciado, é o que a clínica de dor de fato trata.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Primeiro, separar emergência do resto
Antes de pensar em “o que pode ser”, é preciso responder a outra pergunta, mais urgente: isto é grave agora? A maioria das dores de barriga é benigna e passa, mas uma minoria representa um abdome agudo, situação em que horas fazem diferença e o lugar certo é a emergência.
O termo abdome agudo reúne quadros de dor abdominal de instalação rápida que costumam exigir avaliação cirúrgica ou intervenção urgente: apendicite, colecistite, obstrução intestinal, perfuração de víscera, pancreatite, isquemia mesentérica, gravidez ectópica rota, entre outros. Não é papel de um texto, nem de um médico da dor em consultório, fechar esse diagnóstico. O papel aqui é deixar claro quando não se deve esperar: diante das bandeiras vermelhas do quadro acima, o caminho é o pronto-socorro, não o consultório nem a internet.
Afastada a emergência, a barriga dolorida ainda comporta um leque enorme de causas, e a região onde dói é a melhor forma de organizar o raciocínio. As seções seguintes percorrem o abdome por andares e quadrantes: o andar superior (epigástrio, hipocôndrios), o andar médio e inferior (região periumbilical, fossas ilíacas, suprapúbica) e, por fim, a própria parede abdominal, origem subdiagnosticada e que é justamente o que a clínica de dor trata. A localização orienta, mas não fecha o diagnóstico: dor no lado direito de cima pode ser vesícula ou pura dor de parede sobre aquele ponto. Por isso o exame físico, e não só a queixa, decide o rumo.
Andar superior: epigástrio e hipocôndrios
A parte de cima da barriga abriga estômago, duodeno, pâncreas, fígado, vesícula e baço, além de ser o lugar onde o coração e o pulmão referem dor. Por isso a dor de epigástrio (a “boca do estômago”) e a dor sob as costelas, à direita e à esquerda, têm um diferencial que vai de uma gastrite a um infarto da parede inferior do coração.
Gastrite, úlcera e dispepsia
Dor ou queimação na boca do estômago, ligada às refeições: a úlcera duodenal costuma aliviar ao comer e doer em jejum e de madrugada; a gástrica piora ao comer. Vêm com empachamento, eructação e azia. O uso de anti-inflamatórios e a infecção por H. pylori são gatilhos clássicos. Dor súbita e em punhalada, com barriga em tábua, sugere perfuração e é emergência.
Pancreatite aguda
Dor intensa e contínua no epigástrio que atravessa para o dorso, costuma piorar deitado e melhorar inclinado para a frente, com náusea e vômitos. Os gatilhos mais comuns são cálculo biliar e álcool. É um quadro grave, de avaliação hospitalar imediata, não de consultório.
Infarto de parede inferior referido
O infarto da parede inferior do coração pode se manifestar como dor ou aperto no epigástrio, com náusea, suor frio, falta de ar ou dor que sobe ao peito e ao braço, sobretudo em diabéticos, idosos e mulheres. Toda dor epigástrica de início recente com esses acompanhantes é pronto-socorro até prova em contrário.
Cólica biliar e colecistite
Dor sob as costelas à direita, que pode irradiar para a escápula e o ombro direitos, disparada por refeição gordurosa. Na cólica biliar é intermitente e cede; quando vira colecistite (vesícula inflamada), torna-se contínua, com febre e dor à palpação que trava a inspiração (sinal de Murphy). A colecistite é avaliação de emergência.
Hepatite e congestão do fígado
Dor ou peso sob as costelas à direita por distensão da cápsula do fígado, na hepatite viral, alcoólica ou medicamentosa e na congestão por insuficiência cardíaca. Acompanha cansaço, náusea, urina escura e, às vezes, icterícia (olhos e pele amarelados). É investigação clínica, com exames de função hepática.
Dor do baço
Dor sob as costelas à esquerda, por aumento do baço (mononucleose, infecções, doenças do sangue) ou, mais grave, por ruptura após trauma, quando há dor referida no ombro esquerdo (sinal de Kehr) e sinais de sangramento. Dor esplênica aguda após pancada no flanco esquerdo é emergência.
Região periumbilical, fossas ilíacas e baixo-ventre
A parte média e baixa do abdome concentra intestino delgado e grosso, apêndice, cólon, bexiga, útero, ovários e os anexos. É aqui que estão alguns dos diagnósticos mais tempo-dependentes, como a apendicite e a gravidez ectópica, e também causas comuns e benignas, como gases e infecção urinária.
Gastroenterite e cólica intestinal
Dor em cólica em volta do umbigo, que vai e volta, com diarreia, náusea, vômito e, às vezes, febre baixa, na gastroenterite viral ou alimentar. Os gases e a distensão dão dor que migra e alivia ao eliminar flatos ou evacuar. É a causa mais comum e costuma ser autolimitada, mas desidratação e febre alta pedem avaliação.
Obstrução intestinal
Dor em cólica periumbilical em ondas, com distensão da barriga, vômitos e parada da eliminação de gases e fezes. Surge por aderências de cirurgia prévia, hérnia encarcerada ou tumor. A barriga incha e os ruídos mudam. É emergência cirúrgica, não quadro de consultório.
Apendicite aguda
O padrão clássico: dor que começa difusa em volta do umbigo e, em horas, se localiza no quadrante inferior direito (ponto de McBurney), com perda de apetite, náusea, febre baixa e dor à descompressão. Piora ao tossir e ao caminhar. É a urgência cirúrgica mais comum: dor que migra para a fossa ilíaca direita é pronto-socorro.
Dor anexial e ovariana
Dor de um lado do baixo-ventre por cisto de ovário, sua torção ou ruptura, ou por doença inflamatória pélvica. A torção dá dor súbita, intensa e com vômitos; a doença inflamatória, dor com febre e corrimento. Em mulher em idade fértil, dor pélvica de um lado com atraso menstrual obriga a afastar gravidez ectópica, que é emergência.
Hérnia da parede inguinal e femoral
Abaulamento e dor na virilha ou na região inguinal que aparecem ao ficar em pé, tossir ou fazer força e somem ao deitar. Quando a hérnia deixa de reduzir, fica dolorosa, endurecida e irredutível, há encarceramento ou estrangulamento, uma emergência com dor intensa, vômitos e a alça em risco.
Diverticulite
Dor persistente no quadrante inferior esquerdo, com febre, alteração do hábito intestinal e dor à palpação local, por inflamação de divertículos do cólon, mais frequente após os 50 anos. É a “apendicite do lado esquerdo” na forma de apresentar-se e exige avaliação médica, por vezes com tomografia e antibiótico.
Cólica renal e cálculo urinário
Dor em cólica forte que começa no flanco ou na região lombar e irradia para a virilha e o testículo ou grande lábio, em ondas, sem posição que alivie (a pessoa não para quieta), com náusea e sangue na urina. É a pedra no rim descendo pelo ureter. A cólica intensa, ou com febre, é avaliação urgente.
Infecção urinária e cistite
Dor ou peso logo acima do púbis, com ardência ao urinar, urgência e aumento da frequência, com urina turva. Quando sobe para o rim (pielonefrite), surgem febre alta, calafrios e dor lombar, um quadro mais grave que pede avaliação no mesmo dia.
Retenção urinária aguda
Dor e abaulamento logo acima do púbis com impossibilidade de urinar apesar da vontade intensa, por obstrução (próstata aumentada, cálculo) ou efeito de medicamentos. A bexiga distende e dói. É uma urgência que costuma exigir sondagem para alívio imediato.
Cólica menstrual e endometriose
Dor em cólica no baixo-ventre que acompanha a menstruação. Quando é muito intensa, progressiva, vem com dor à relação e fora do período menstrual, levanta a hipótese de endometriose. É dor crônica de origem ginecológica, com investigação e tratamento próprios; veja o guia de dor pélvica crônica.
A dor que vem da própria parede abdominal
Há um grupo de pacientes que passa por consultas, endoscopias, ultrassons e tomografias, recebe o rótulo de “exames normais” e segue com dor. Em boa parte deles, a dor nunca esteve dentro da barriga: estava na parede abdominal, na musculatura, na fáscia e nos nervos que cruzam o abdome. Essa dor de parede pode surgir em qualquer região, imitando a víscera daquele quadrante, e é uma causa subdiagnosticada de dor abdominal crônica, justamente a que a medicina da dor trata.
Em séries de pessoas com dor abdominal crônica e investigação interna repetidamente normal, de cerca de um quarto a até a maioria conforme o serviço tem a dor na parede, e não em órgão nenhum. Não é um diagnóstico de exclusão vago: tem ponto fixo, sinal de Carnett positivo e responde a uma injeção na parede. Repetir endoscopia e tomografia em quem já tem exames normais e dor com cara de parede raramente acrescenta algo, enquanto um exame de cinco minutos da própria parede pode fechar o diagnóstico.
Síndrome de ACNES
O aprisionamento do nervo cutâneo abdominal anterior. Os ramos cutâneos anteriores dos nervos toracolombares (de T7 a T12) atravessam a bainha do reto do abdome por um canal fibroso e ficam comprimidos. Dor localizada, em queimação ou fisgada, em geral de um lado, na borda do reto, que a pessoa aponta com a ponta de um dedo e que piora ao contrair a barriga (sentar na cama, tossir). É dor neuropática de parede, não doença de órgão.
Dor miofascial da parede
Pontos-gatilho na musculatura abdominal (retos, oblíquos, transverso): nódulos de tensão dentro de uma banda contraída que doem à palpação e referem dor para a vizinhança, imitando uma cólica ou dor de órgão. Comum após esforço, cirurgia abdominal prévia (incluindo cesárea), tosse crônica ou postura mantida, e piora com o movimento do tronco.
Dor referida da coluna toracolombar
As raízes nervosas que saem da coluna torácica baixa e lombar alta (T7 a L1) percorrem a parede do tronco até a frente do abdome. Irritação dessas raízes, por artrose facetária ou disfunção costovertebral, é sentida como dor na parede anterior, no trajeto do nervo, sem problema visceral algum. Só aparece quando se examina o dorso de quem se queixa da frente.
Neuralgia intercostal e pós-herpética
Dor em queimação ou choque numa faixa que segue um nervo intercostal, contínua ou em crises. Após herpes-zóster (cobreiro), a dor pode persistir como neuralgia pós-herpética, sobre a área da antiga erupção. A relação entre nervo irritado, formigamento e dor é a mesma do nosso texto sobre parestesia: o que é.
Dor abdominal crônica com “todos os exames normais”, apontada com a ponta do dedo, que piora ao contrair a barriga, é dor de parede até prova em contrário. Antes de repetir endoscopia e tomografia, vale examinar a parede e a coluna toracolombar.
Como diferenciar pelo padrão
A região e o padrão da dor (o que desencadeia, como é a sensação, o que acompanha) orientam o raciocínio antes de qualquer exame. Nenhuma pista isolada fecha o diagnóstico, e a localização engana, porque a parede pode doer sobre qualquer órgão. A primeira tabela resume o diferencial por região; o quadro de contraste seguinte separa a pista que mais muda a conduta: a dor vem da parede ou de dentro.
| Região | Causas mais prováveis | O que fazer |
|---|---|---|
| Epigástrio (boca do estômago) | Gastrite, úlcera, dispepsia; pancreatite; infarto inferior referido | Investigação clínica; pronto-socorro se súbita, em punhalada ou com suor frio e falta de ar |
| Hipocôndrio direito | Cólica biliar, colecistite, hepatite | Ultrassom e função hepática; emergência se febre e dor contínua |
| Hipocôndrio esquerdo | Aumento ou ruptura do baço | Avaliação clínica; emergência após trauma ou com sinais de sangramento |
| Periumbilical e difusa | Gastroenterite, gases, cólica; obstrução; fase inicial de apendicite | Hidratação se leve; pronto-socorro se vômito com parada de gases ou se a dor migra |
| Fossa ilíaca direita | Apendicite, dor anexial e ovariana, hérnia inguinal | Pronto-socorro se a dor migrou para cá, com febre ou descompressão dolorosa |
| Fossa ilíaca esquerda | Diverticulite, dor anexial e ovariana | Avaliação médica; tomografia e antibiótico na diverticulite |
| Suprapúbica e baixo-ventre | Cistite, retenção urinária, cólica menstrual, endometriose | Exame de urina; afastar gravidez ectópica na mulher com atraso menstrual |
| Flanco e lombar | Cólica renal, pielonefrite | Avaliação urgente na cólica intensa ou com febre |
| Parede abdominal (qualquer ponto) | ACNES, dor miofascial, dor referida da coluna, neuralgia | Sinal de Carnett, exame da parede e da coluna; medicina da dor / fisiatria |
| Característica | Sugere parede / nervo | Sugere víscera (dentro) |
|---|---|---|
| Sinal de Carnett | Positivo: dor piora ao contrair a barriga | Negativo: dor alivia ao contrair a barriga |
| Localização | Aponta com a ponta do dedo, ponto fixo | Difusa, mal localizada, “no fundo” |
| Caráter | Queimação, fisgada, choque; superficial | Cólica, aperto, peso; profunda |
| Relação com movimento | Piora ao mover o tronco, tossir, fazer força | Mais ligada a comer, evacuar, ciclo menstrual |
| Exames de imagem / sangue | Normais, de forma repetida | Podem mostrar a alteração do órgão |
“Se a dor é na barriga e os exames deram normais, então é psicológico ou eu vou ter que conviver com isso.”
Exames normais frequentemente indicam que a dor vem da parede, não das vísceras. É um diagnóstico real, com causa anatômica identificável e tratamento dirigido, não um descarte.
Sinais de alerta: quando não esperar
A maioria das dores de barriga é benigna, mas alguns achados mudam a urgência e pedem pronto-socorro sem espera. Não trate como dor comum, nem procure a clínica de dor, se houver qualquer um destes:
Procure um pronto-socorro imediatamente se houver
- Dor intensa e de início súbito, especialmente se a barriga fica dura, rígida, como uma tábua: suspeita de perfuração ou peritonite.
- Dor que migra de volta do umbigo para a fossa ilíaca direita, com febre e perda de apetite: padrão clássico da apendicite.
- Vômitos persistentes, parada de eliminação de gases e fezes e distensão acentuada: suspeita de obstrução intestinal.
- Sangramento: vômito com sangue, fezes pretas ou com sangue vivo, ou sangramento vaginal anormal.
- Dor pélvica de um lado com atraso menstrual ou sangramento, em mulher em idade fértil: afastar gravidez ectópica.
- Dor desproporcional ao exame em idoso, sobretudo com doença cardíaca: suspeita de isquemia mesentérica ou aneurisma de aorta.
- Dor com febre alta e calafrios, icterícia, ou que vem com suor frio, falta de ar, dor no peito ou pressão muito baixa.
- Dor abdominal em pessoa grávida, idosa, com câncer, imunossuprimida ou em uso de anticoagulante, mesmo com sintomas discretos.
A parede só vira o foco depois que a emergência foi descartada. Tratar a parede de quem na verdade tem um abdome agudo seria o erro mais grave possível: o exame da parede vem sempre depois da triagem de gravidade, nunca no lugar dela.
Como é avaliada
A avaliação começa pela história (onde dói, há quanto tempo, o que melhora e piora, relação com comer, evacuar e o ciclo) e pelo exame do abdome por quadrantes: inspeção, palpação superficial e profunda em busca de dor localizada, descompressão dolorosa, massas e abaulamentos, e ausculta dos ruídos. Cada sinal de cabeceira direciona para uma víscera ou para a parede.
O raciocínio do sinal de Carnett é simples e de cabeceira: a contração tensiona a musculatura e o nervo dolorido, mas protege as vísceras por baixo. Por isso a resposta à barriga contraída separa a origem da dor.
Pergunta-chave
A dor aumenta com a barriga contraída?
Teste positivo: aponta para a parede. A contração tensiona a musculatura e o nervo dolorido, mas protege as vísceras por baixo.
A dor diminui: teste negativo, que sugere origem interna, porque a parede tensionada blinda o órgão sensível.
Os exames complementares seguem a hipótese, não o contrário. Urina e sangue (hemograma, função hepática e renal, amilase, marcadores de inflamação), teste de gravidez na mulher em idade fértil, ultrassom (vesícula, rins, pelve), e tomografia quando há suspeita de quadro cirúrgico ou diverticulite. Já na dor com sinal de Carnett positivo e exames internos repetidamente normais, o que confirma a parede não é repetir imagem, e sim o bloqueio anestésico do ponto, que tem valor ao mesmo tempo diagnóstico e terapêutico.
O tratamento depende da causa
Não há um tratamento único para a dor abdominal, porque ela não é uma doença única. O princípio é tratar a causa, e ela define quem conduz. As causas viscerais (gastrite e úlcera, doença biliar, cólica renal, apendicite, diverticulite, quadros ginecológicos) têm manejo próprio, clínico ou cirúrgico, da gastroenterologia, urologia, ginecologia ou cirurgia, e os quadros de abdome agudo seguem direto para o pronto-socorro.
A medicação dessas causas trata a doença de base (por exemplo, inibidores de bomba de prótons e antibiótico na doença péptica por H. pylori, antiespasmódico na cólica) e é definida pelo especialista que a acompanha, fora do escopo de uma clínica de dor. O que a medicina da dor de fato trata é o subgrupo da dor de parede abdominal, e é nele que esta seção se concentra.
Dor de parede: bloqueio do ponto, agulhamento seco e acupuntura
Confirmada a origem na parede (ACNES, dor miofascial ou dor referida da coluna) pela história e pelo sinal de Carnett, o tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado.
Bloqueio anestésico
Alicerce na síndrome de ACNES: bloqueio do ponto onde o ramo nervoso cruza a bainha do reto, com anestésico local (por vezes com corticoide). A injeção interrompe a condução daquele nervo aprisionado e, quando abole a dor naquele ponto preciso, confirma o diagnóstico, com alívio relevante em torno de 80 por cento dos casos em séries, antes de qualquer cogitação cirúrgica.
Infiltração do ponto-gatilho
Sobre o componente miofascial, no reto e nos oblíquos, provoca a resposta de contração local na banda tensa e reduz a dor referida, sempre com a agulha tangencial à parede e profundidade limitada, pela proximidade do peritônio.
Agulhamento seco
No reto e nos oblíquos, provoca a resposta de contração local na banda tensa e reduz a dor referida, com agulha tangencial à parede e profundidade limitada pela proximidade do peritônio.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Acupuntura médica e eletroacupuntura entram como adjuvante para o componente miofascial e neuropático leve, úteis quando agulhar diretamente a barriga incomoda.
Fisioterapia
Com cinesioterapia, RPG e Pilates clínico, recupera o controle motor do tronco (sobretudo o transverso do abdome) e a mobilidade da transição toracolombar, sustentando o ganho e reduzindo recorrência.
Medicação
Adjuvante e com prazo: na dor neuropática da ACNES e das neuralgias, neuromoduladores por classe como gabapentinoides, tricíclicos em dose baixa ou duloxetina, sempre com indicação médica; anti-inflamatório em curso curto na fase miofascial, evitando mascarar uma dor visceral não esclarecida; opioides não são primeira linha. Para conhecer as classes, veja o guia de remédios para dor.
A cirurgia tem papel pontual e fora da clínica. Nas causas viscerais estruturais (cálculo biliar sintomático, hérnia, apendicite, ectópica), a indicação é do especialista; e, na ACNES, quando os bloqueios repetidos e o tratamento conservador falham, existe a neurectomia do ramo aprisionado, reservada a casos refratários e decidida pelo cirurgião. A sequência respeita a escada do menos para o mais invasivo: confirmar o diagnóstico, infiltrar o ponto, repetir o bloqueio se houver resposta parcial e só então, na falha, discutir a cirurgia.
O que fazer agora: um caminho seguro
Diante de dor abdominal, o roteiro é simples e seguro. Se há qualquer bandeira vermelha (dor forte e súbita, febre, vômitos, sangramento, barriga rígida, dor que migra, ou se você está grávida, é idoso ou usa anticoagulante), o destino é o pronto-socorro, sem espera. Se a dor é aguda mas sem esses sinais, uma avaliação com clínico geral, gastroenterologista, urologista ou ginecologista, conforme o quadro, organiza a investigação.
Se a sua dor é crônica, já foi investigada, os exames vieram normais e ela tem cara de parede (apontada com o dedo, superficial, que piora ao contrair a barriga ou ao mover o tronco), então é hora de procurar quem investiga e trata a parede abdominal e a coluna toracolombar. Uma avaliação com médico fisiatra ou da dor pode examinar a parede, aplicar o sinal de Carnett e definir, em conjunto com você, o plano de tratamento.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Dor na barriga, o que pode ser?
Pode ser muita coisa: causas gastrointestinais (gases, gastrite, intestino), urológicas (pedra no rim, infecção urinária), ginecológicas (cólica, cistos) ou, com frequência subestimada, dor da própria parede abdominal. O primeiro passo não é adivinhar a causa, e sim triar a gravidade. Se a dor é forte, súbita, com febre, vômitos, sangramento ou barriga rígida, procure um pronto-socorro.
Dor do lado direito da barriga, o que pode ser?
No lado direito de cima, costuma envolver vesícula ou fígado; no lado direito de baixo, a hipótese clássica é a apendicite, sobretudo se a dor começou perto do umbigo e migrou para lá. Mas dor no lado direito também pode ser pura dor de parede abdominal sobre aquele ponto. Dor intensa, com febre ou que piora rápido, especialmente se migrou, é avaliação de emergência.
Dor em volta do umbigo, o que pode ser?
A dor periumbilical pode ser uma fase inicial de apendicite (depois costuma migrar para o lado direito de baixo), um quadro intestinal, ou um aprisionamento de nervo da parede na linha do umbigo (síndrome de ACNES), quando é crônica, localizada e piora ao contrair a barriga. A diferença é feita no exame, com o sinal de Carnett, e na evolução.
Quando a dor abdominal é uma emergência?
Quando é intensa e súbita, com barriga dura, febre, vômitos persistentes, sangramento (vômito ou fezes com sangue), parada de gases e fezes, ou quando migra de lugar. Também merece urgência em grávidas, idosos, imunossuprimidos e em quem usa anticoagulante, mesmo com sintomas mais discretos. Nesses casos, vá ao pronto-socorro.
Fiz vários exames e deram normais, mas a dor continua. O que pode ser?
Exames normais de forma repetida, numa dor crônica que você aponta com a ponta do dedo e que piora ao contrair a barriga, sugerem fortemente dor da parede abdominal, e não de um órgão. É o caso da síndrome de ACNES, da dor miofascial da parede e da dor referida da coluna toracolombar. São diagnósticos reais e tratáveis, e uma avaliação com médico da dor pode confirmá-los pelo exame físico.
O que é a síndrome de ACNES?
É o aprisionamento de um ramo do nervo cutâneo abdominal anterior no ponto em que ele atravessa a musculatura da parede. Causa uma dor localizada, em queimação ou fisgada, geralmente de um lado, que piora ao contrair a barriga. O tratamento inicial costuma ser a injeção de anestésico no ponto do nervo, que tem valor diagnóstico e terapêutico, antes de qualquer abordagem cirúrgica.
Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Yew KS, George MK, Allred HB. Acute Abdominal Pain in Adults: Evaluation and Diagnosis. Am Fam Physician. 2023;107(6):585 a 596. acessar
- Scheltinga MR, Roumen RM. Anterior cutaneous nerve entrapment syndrome (ACNES). Hernia. 2018;22(3):507 a 516. doi:10.1007/s10029-017-1710-z acessar
- Shian B, Larson ST. Abdominal Wall Pain: Clinical Evaluation, Differential Diagnosis, and Treatment. Am Fam Physician. 2018;98(7):429 a 436. acessar
- Zakka TM, Teixeira MJ, Yeng LT. Dor visceral abdominal: aspectos clínicos. Rev Dor. 2013;14(4). doi:10.1590/S1806-00132013000400015 acessar
- Mitidieri AMS, et al. Ashi Acupuncture Versus Local Anesthetic Trigger Point Injections in the Treatment of Abdominal Myofascial Pain Syndrome: A Randomized Clinical Trial. Pain Physician. 2020. ver resumo
- Yang Y, et al. The efficacy and neural mechanism of acupuncture therapy in the treatment of visceral hypersensitivity in irritable bowel syndrome. Frontiers in Neuroscience. 2023. ver resumo
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Diante de dor abdominal intensa, súbita ou com sinais de alerta, procure um pronto-socorro. Distinguir dor de parede de causa interna e definir conduta dependem do exame presencial.
