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Dor crônica · Panorama clínico

20 doenças que podem ser dolorosas: as piores dores e como tratar

Reunimos 20 condições dolorosas comuns na prática do médico da dor, da neuralgia do trigêmeo à cólica renal e à dor oncológica: o que cada uma é, por que dói e como é tratada num plano multimodal e não cirúrgico.

Resposta direta
  • Não existe um único ranking objetivo da pior dor do mundo, porque a dor é uma experiência individual; ainda assim, condições como neuralgia do trigêmeo, cólica renal, dor regional complexa, dor oncológica e cefaleia em salvas estão entre as mais intensas descritas.
  • A maioria dessas dores tem tratamento eficaz. O alvo é triplo: controlar a dor, recuperar a função e tratar a causa quando ela existe.
  • O caminho costuma ser um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico, com exercício como base e técnicas que se somam conforme a resposta.
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A pior dor do mundo existe? Como a dor é classificada

Listas de “as piores dores do mundo” circulam muito, mas a dor não se mede com uma régua única. Ela depende da intensidade do estímulo, da via que está doendo e de fatores individuais como sono, humor e experiências prévias. O que é descrito como insuportável por uma pessoa pode ser tolerável para outra.

Dito isso, certos quadros aparecem de forma recorrente quando se pergunta a quem trata dor todos os dias quais são as dores mais avassaladoras. A neuralgia do trigêmeo é classicamente descrita como uma das piores, comparada a choques elétricos no rosto. A cólica renal faz a pessoa não conseguir ficar parada.

A síndrome dolorosa regional complexa transforma um toque leve em dor lancinante. A dor oncológica mal controlada e a cefaleia em salvas (apelidada de “dor de suicídio”) completam o grupo que costuma liderar essas listas.

A pergunta clinicamente útil não é qual a pior dor do mundo, e sim de onde a dor vem e como ela é gerada. A dor pode ser nociceptiva (tecido lesionado, como uma fratura ou uma inflamação), neuropática (o próprio nervo está doente ou comprimido, com choques, queimação e formigamento) ou nociplástica (o sistema nervoso amplifica a dor sem lesão proporcional, como na fibromialgia). Esse enquadramento muda completamente o tratamento, porque um anti-inflamatório que ajuda numa dor inflamatória pode ser inútil numa dor neuropática.

20
Condições dolorosas neste panorama
3
Tipos de dor: nociceptiva, neuropática, nociplástica
0 a 10
Escala usada para medir a intensidade
Multi
Plano multimodal individualizado
Mito

“Dor forte significa lesão grave, e dor fraca significa que não é nada sério.”

Fato

A intensidade da dor nem sempre corresponde ao tamanho da lesão. Uma neuralgia pode ser excruciante sem destruição de tecido, e um tumor pode crescer com pouca dor. Por isso a avaliação importa mais do que a nota na escala.

Abaixo, percorremos 20 condições dolorosas que aparecem com frequência no consultório, agrupadas pelo mecanismo dominante. Para cada uma, há uma descrição curta do que é, por que dói e como costuma ser tratada na clínica. Onde já existe um material aprofundado, há um link para você ir mais fundo.

Reunião científica no CREMESP com Dr. Marcus Yu Bin Pai
Em congressos Reunião científica no CREMESP

Dores neuropáticas e neurálgicas

Diagrama do nervo ciático descendo da coluna lombar pela nádega e perna, com vista posterior do trajeto do nervo e dos músculos piriforme e isquiotibiais.
A dor ciática segue o trajeto do nervo, da raiz lombar até a perna, o que ajuda a localizar onde ele esta comprimido.

São dores que nascem de um nervo doente, comprimido ou hipersensível. O paciente descreve choque, queimação, agulhada ou formigamento, e muitas vezes a pele fica dolorida ao toque (alodínia). É o grupo que reúne várias das dores mais intensas que existem e que exige tratamento específico, em geral diferente dos analgésicos comuns.

1. Enxaqueca

A enxaqueca é uma dor de cabeça neurológica, em geral pulsátil e de um lado, acompanhada de náusea e sensibilidade à luz e ao som; algumas pessoas têm aura. Dói porque há ativação da via trigêmino-vascular e liberação de neuropeptídeos como o CGRP, que sensibilizam o sistema. Na clínica, o manejo combina identificação de gatilhos, fármacos de crise e de prevenção e, em casos crônicos, acupuntura e toxina botulínica. Veja o guia completo de enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.

2. Neuralgia do trigêmeo

Descrita entre as piores dores do mundo, é uma dor facial em choques elétricos de segundos, disparada por gestos banais como falar, mastigar ou tocar o rosto. Dói porque o nervo trigêmeo sofre descargas anormais, com frequência por compressão de um vaso sobre a raiz do nervo. O tratamento é medicamentoso (anticonvulsivantes como a carbamazepina são primeira linha), com bloqueios e neuromodulação em casos selecionados. Entenda em o que é a neuralgia do trigêmeo.

3. Neuropatia diabética dolorosa

O excesso crônico de glicose lesiona as fibras nervosas finas, sobretudo dos pés, gerando queimação, formigamento e dor que piora à noite. Dói porque os nervos periféricos passam a disparar de forma desorganizada. Além do controle metabólico, o manejo da dor usa fármacos para dor neuropática (como duloxetina, pregabalina, gabapentina e amitriptilina) e reabilitação. Aprofunde em neuropatia diabética e dor crônica.

4. Neuralgia pós-herpética

É a dor que persiste no trajeto de um nervo depois de um episódio de herpes-zóster (cobreiro). Dói porque o vírus deixa o nervo sensibilizado e lesionado, com queimação e alodínia que podem durar meses. O tratamento envolve fármacos para dor neuropática, adesivos anestésicos e bloqueios quando indicado, sempre dentro de um plano que também cuida do sono e do humor. Leia sobre a neuralgia pós-herpética.

5. Dor do membro fantasma

Após uma amputação, a pessoa continua sentindo dor em uma parte do corpo que não existe mais. Dói porque o cérebro mantém o mapa do membro e o sistema nervoso se reorganiza de forma mal-adaptativa. O manejo combina fármacos para dor neuropática, terapia do espelho, dessensibilização e reabilitação. Conheça a dor fantasma.

6. Síndrome dolorosa regional complexa (SDRC)

Costuma aparecer depois de um trauma ou cirurgia em um membro e cursa com dor desproporcional, inchaço, mudança de cor e de temperatura da pele e sensibilidade extrema ao toque. Dói por uma resposta exagerada e desregulada do sistema nervoso e autonômico. O tratamento precoce é decisivo: reabilitação intensiva, dessensibilização, fármacos para dor neuropática e bloqueios simpáticos em casos selecionados, dentro de um plano multimodal.

Pistas que sugerem dor neuropática
CaracterísticaO que o paciente costuma relatar
Qualidade da dorChoque, queimação, agulhada ou “fios elétricos”
AlodíniaDor ao toque leve, roupa ou vento na pele
DistribuiçãoSegue o trajeto de um nervo ou de uma raiz
Resposta a remédiosPouca resposta a analgésico comum; melhora com fármacos específicos

Coluna e dor musculoesquelética

Corte transversal de vértebra comparando disco normal com disco herniado que projeta material para o canal vertebral e comprime a raiz nervosa.
Na hernia de disco o material do disco projeta-se para trás e comprime a raiz nervosa, gerando dor que irradia para o membro.

São as queixas mais comuns de todas e as que mais levam à incapacidade no mundo. A boa notícia é que a maioria é benigna e responde bem ao tratamento conservador, com exercício como base. Quando há compressão de raiz nervosa, soma-se um componente neuropático que muda a abordagem.

7. Hérnia de disco

O disco entre as vértebras se desloca e pode comprimir uma raiz nervosa, gerando dor que desce pela perna ou pelo braço, com formigamento e perda de força. Dói por um misto de inflamação local e irritação do nervo. A maioria melhora sem cirurgia, com reabilitação, controle da dor e técnicas em clínica; a cirurgia fica para déficit neurológico progressivo. Veja o guia de hérnia de disco: causas, sintomas e tratamentos.

8. Lombalgia (dor lombar)

A dor na parte baixa das costas é quase universal ao longo da vida. Na maior parte dos casos é mecânica, ligada a sobrecarga, postura mantida e descondicionamento, sem uma lesão grave por trás. Dói por tensão muscular, sobrecarga articular e sensibilização quando se torna crônica. O tratamento é ativo: exercício, educação em dor e técnicas em clínica conforme a resposta. Aprofunde no tratamento da lombalgia.

9. Cervicalgia (dor cervical)

A dor no pescoço costuma ter origem muscular e postural, frequentemente associada a horas de tela e tensão. Dói por sobrecarga da musculatura da nuca e do trapézio e das articulações cervicais. O manejo combina ajuste de rotina, exercício para os flexores profundos do pescoço, agulhamento seco e acupuntura quando há componente miofascial. Leia sobre cervicalgia: causas, sintomas e tratamento.

10. Ciática (dor ciática)

É a dor que percorre o trajeto do nervo ciático, da nádega à perna, geralmente por irritação de uma raiz lombar. Dói por compressão e inflamação do nervo, com queimação e choque ao longo do membro. O tratamento prioriza reabilitação e controle da dor neuropática, com bloqueios ou procedimentos guiados em casos refratários. Entenda a dor ciática.

Por que tratar cedo

Dor que vira crônica muda de natureza

Quando a dor musculoesquelética persiste por meses, o sistema nervoso pode se sensibilizar e amplificar o sinal. Tratar bem na fase inicial reduz a chance de cronificação.

Carga global

causa de anos vividos com incapacidade no mundo é a dor lombar, segundo estimativas da literatura.

Dor articular e reumática

Esquema com cinco tipos de fratura no osso do braço: simples, exposta, em galho verde, cominutiva e impactada.
O padrão da fratura, da linha simples ao osso fragmentado, define a intensidade da dor e a conduta de tratamento.

Aqui a dor nasce das articulações, seja por desgaste, por inflamação autoimune ou por cristais. O padrão de rigidez, o número de articulações envolvidas e o horário em que dói ajudam a distinguir entre elas, o que orienta o tratamento.

11. Artrose (osteoartrite)

É o desgaste progressivo da cartilagem das articulações, comum em joelhos, quadris e mãos. Dói por sobrecarga mecânica, inflamação local de baixo grau e sensibilização. O exercício é o tratamento de base, com perda de peso quando indicado, fármacos por períodos curtos, infiltrações e viscossuplementação em casos selecionados. Veja osteoartrose: mitos e verdades.

12. Artrite reumatoide

É uma doença autoimune em que o sistema imune ataca a membrana das articulações, causando dor, inchaço e rigidez matinal prolongada, em geral de forma simétrica. Dói pela inflamação articular ativa. O tratamento de base é conduzido pelo reumatologista com medicamentos modificadores da doença; o papel da clínica de dor é complementar, com reabilitação e controle da dor. Veja como aliviar a dor da artrite reumatoide.

13. Gota

É uma artrite causada por depósito de cristais de ácido úrico na articulação, classicamente no dedão do pé, com crises de dor intensa, vermelhidão e calor que surgem de madrugada. Dói por uma reação inflamatória aguda aos cristais. O tratamento da crise e o controle do ácido úrico são conduzidos pelo médico; a clínica de dor entra no controle sintomático e na reabilitação entre crises. Para quem busca medicação, veja o guia de remédios para dor.

14. DTM (disfunção temporomandibular) e dor orofacial

A DTM afeta a articulação da mandíbula e os músculos da mastigação, com dor ao mastigar, estalos e dor de cabeça associada, muitas vezes ligada a bruxismo e tensão. Dói por sobrecarga muscular e articular na região, com componente miofascial frequente. O manejo combina reabilitação, agulhamento seco, infiltração de pontos-gatilho e toxina botulínica para o bruxismo em casos selecionados, dentro de um plano multimodal.

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Dor súbita e muito intensa, “a pior da vida”, ou que surge após trauma de alta energia.
  • Febre alta, perda de peso sem explicação ou suores noturnos associados à dor.
  • Déficit neurológico: fraqueza, dormência que progride, dificuldade para urinar ou evacuar.
  • Dor torácica, falta de ar, ou dor que vem com confusão ou rigidez de nuca.
  • Articulação quente, vermelha e muito dolorida de início rápido (excluir infecção e gota).

Dores viscerais, pélvicas e oncológicas

Ilustração tridimensional do coração com área de infarto na parede anterior e detalhe ampliado de artéria coronária com placa obstruindo o lúmen.
A obstrução de uma artéria coronária reduz o fluxo de sangue e provoca a dor visceral intensa do infarto do miocárdio.

São dores que vêm dos órgãos internos, da pelve ou de uma doença sistêmica. Muitas exigem o especialista da causa (urologia, ginecologia, oncologia, gastroenterologia), e o papel da clínica de dor costuma ser complementar, focado no controle da dor e na reabilitação.

15. Cólica renal

Provocada por um cálculo que obstrui a via urinária, é descrita entre as piores dores que existem, em cólicas que vêm em ondas e fazem a pessoa não conseguir ficar quieta. Dói por distensão e espasmo da via urinária a montante da pedra. O manejo agudo é feito em pronto-socorro e pela urologia (para dor e medidas para eliminar o cálculo); a clínica de dor pode entrar no manejo de quadros recorrentes. Veja dor nos rins, cólica e dor nas costas.

16. Dismenorreia e endometriose

A dismenorreia é a cólica menstrual; quando é secundária a uma doença como a endometriose, costuma ser mais intensa e progressiva. Dói por contrações uterinas mediadas por prostaglandinas e, na endometriose, por inflamação e dor pélvica crônica. A investigação da causa cabe à ginecologia; o manejo da dor inclui anti-inflamatórios, acupuntura e eletroacupuntura, que têm evidência na dismenorreia, e reabilitação do assoalho pélvico.

17. Dor pélvica crônica

É a dor na pelve que dura mais de seis meses, com causas que se sobrepõem (musculoesqueléticas, viscerais, neuropáticas e nociplásticas). Dói por uma combinação de fatores, e a sensibilização central costuma ter papel importante. O cuidado é multidisciplinar e o componente miofascial e neuropático responde a reabilitação do assoalho pélvico, agulhamento e fármacos. Aprofunde em dor pélvica crônica: causas e como tratar.

18. Dor oncológica

A dor no câncer pode vir do próprio tumor, do tratamento ou de nervos comprometidos, e pode ser intensa e mista (nociceptiva e neuropática). Dói por invasão de tecidos, compressão de estruturas e lesão de nervos. O controle segue princípios consagrados de manejo escalonado, incluindo opioides quando indicado, sempre integrado à oncologia e aos cuidados paliativos, com atenção a efeitos como a constipação induzida por opioides.

19. Fibromialgia

É o protótipo da dor nociplástica: dor difusa pelo corpo, fadiga, sono não reparador e sensibilidade aumentada, sem uma lesão que explique a intensidade. Dói porque o sistema nervoso amplifica os sinais de dor (sensibilização central). Não há cura definitiva, mas os sintomas são muito controláveis com exercício gradual, educação em dor, sono, manejo do humor e fármacos específicos (como duloxetina, amitriptilina e pregabalina). Veja fibromialgia: causas, sintomas e tratamento.

20. Pancreatite

A inflamação do pâncreas causa dor intensa no abdome superior que irradia para as costas, com náusea e piora após comer. Dói pela inflamação e pelo comprometimento de estruturas vizinhas. O quadro agudo é uma emergência clínica e seu tratamento é hospitalar e gastroenterológico; mencionamos aqui pela intensidade da dor, mas o manejo principal não é da clínica de dor, que pode ter papel apenas em quadros crônicos selecionados, sempre em conjunto com o especialista.

Pérola clínica

Na prática, classificar a dor entre nociceptiva, neuropática e nociplástica vale mais do que rankear “a pior dor do mundo”. É esse raciocínio que define se o paciente vai responder melhor a anti-inflamatório, a um fármaco para dor neuropática ou a uma abordagem centrada no sistema nervoso e no condicionamento.

Assista: O SEGREDO que seu Corpo Esconde: 10 Sintomas de Doenças Reumáticas Graves

Como tratamos a dor: o plano multimodal

Apesar da variedade de causas, o tratamento da dor compartilha uma lógica. Ele é multimodal, individualizado e não-cirúrgico, parte de uma avaliação que define o mecanismo da dor e tem o exercício como base ativa; as demais técnicas se somam conforme o quadro e a resposta. O objetivo costuma ser controlar a dor, recuperar a função e reduzir recorrências, evitando o uso crônico de medicação e a cirurgia desnecessária.

Educação em dor e movimento

Entender o mecanismo da dor e retomar a atividade dentro do conforto. A compreensão reduz o medo do movimento e melhora a adesão.

Reabilitação e exercício

Base do plano: cinesioterapia, fortalecimento progressivo, terapia manual como adjuvante, RPG e Pilates clínico, com atendimento individual.

Técnicas em clínica

Acupuntura, eletroacupuntura, agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho quando há componente miofascial ou neuropático.

Procedimentos guiados

Bloqueios anestésicos, toxina botulínica e neuromodulação em casos selecionados que não respondem ao plano inicial.

Reabilitação e exercício: a base

É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na maior parte das dores crônicas. O exercício terapêutico melhora o controle motor, a força e a mobilidade, dessensibiliza ao movimento e corrige fatores de sobrecarga. Inclui cinesioterapia, terapia manual como adjuvante e, conforme o caso, RPG e Pilates clínico, com atendimento individual (um paciente por sala).

A resposta é gradual, ao longo de semanas, e depende da regularidade. É a base sobre a qual as demais técnicas somam, e não substituem.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (teoria da comporta) e por vias inibitórias descendentes, com participação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Num panorama tão variado, ela não cabe em tudo: o lugar com melhor evidência neste artigo é a enxaqueca e a cervicalgia, há benefício descrito na dismenorreia e na fibromialgia como adjuvante, e ela soma pouco em dores estruturais como a artrose avançada ou as viscerais agudas (cólica renal, pancreatite), onde a causa pede outro caminho. Em dor neuropática franca, como a neuralgia do trigêmeo, ela é coadjuvante, não o eixo do tratamento.

O que esperar varia com a condição: na enxaqueca e na dismenorreia o efeito é preventivo e aparece ao longo de algumas semanas de sessões regulares; numa contratura miofascial associada à cervicalgia ou à DTM a resposta tende a ser mais rápida. A condução é por médico acupunturiatra, que define onde a técnica entra e onde apenas atrasaria a investigação certa.

Agulhamento seco (dry needling)

Das 20 condições aqui, esta técnica tem endereço claro: as que carregam um componente miofascial, sobretudo a cervicalgia tensional e a DTM, e a dor referida de pontos-gatilho que imita irradiações de nervo sem segui-las de fato. A agulha buscando a banda tensa dispara a resposta de contração local e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, com analgesia local e segmentar; não tem papel nas dores estruturais ou viscerais desta lista. O que esperar depende de quão irritável está o músculo: numa cervicalgia de início recente uma sessão já pode soltar o trapézio na mesma consulta, enquanto pontos crônicos e múltiplos costumam pedir uma sequência curta com reavaliação a cada visita; uma dor surda no local por um ou dois dias é esperada e não é recaída.

Infiltrações e bloqueios

Infiltração de pontos-gatilho

Injeção de anestésico local (ou soro fisiológico) que interrompe o ciclo dor-espasmo-dor quando o ponto-gatilho é resistente ao agulhamento.

Moderadaponto resistente

Bloqueios anestésicos

Bloqueios occipital, supraescapular, do piriforme e simpáticos (em casos como a SDRC) interrompem temporariamente a condução nociceptiva e abrem uma janela para avançar a reabilitação.

Moderadajanela p/ reab.

Infiltrações articulares e viscossuplementação

Infiltrações articulares e viscossuplementação com ácido hialurônico que ajudam em quadros como a artrose.

Moderadaartrose

O que esperar: alívio de dias a semanas, sempre combinado com exercício para sustentar o resultado. São recursos pontuais dentro do plano multimodal, não tratamentos isolados.

Toxina botulínica para casos refratários

A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (como CGRP e substância P), com efeito que vai além do relaxamento muscular. Tem papel consolidado na enxaqueca crônica (protocolo PREEMPT) e na dor miofascial intensa ou refratária, e é usada no bruxismo associado à DTM em casos selecionados. O que esperar: início em 2 a 4 semanas, efeito por cerca de 3 a 4 meses, com benefício cumulativo em ciclos.

Manejo farmacológico (papel adjuvante)

A medicação tem papel adjuvante e é sempre prescrita pelo médico, com dose e duração definidas e atenção a efeitos adversos e comorbidades. Analgésicos e anti-inflamatórios servem para alívio por períodos curtos; relaxantes musculares têm papel limitado e causam sonolência. Na dor neuropática e na dor crônica, consideram-se antidepressivos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) e gabapentinoides (gabapentina, pregabalina); na neuralgia do trigêmeo, anticonvulsivantes como a carbamazepina.

Usamos sempre nomes genéricos, nunca marcas. Quem quer entender as classes de medicação pode ver o guia de remédios para dor.

Semana 1 a 2

Avaliação e controle inicial

Definir o mecanismo da dor, aliviar o quadro agudo e iniciar movimento dentro do conforto.

Semana 3 a 8

Progressão

Reabilitação e técnicas em clínica conforme o quadro. A dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.

Após 8 semanas

Reavaliação

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e considera-se procedimento guiado ou investigação adicional.

Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, a amplitude de movimento, um índice de incapacidade e o retorno às atividades. Se duas a três sessões da mesma técnica não moveram nenhuma dessas medidas, o diagnóstico do mecanismo precisa ser refeito antes de empilhar mais procedimentos. A meta é recuperar a função e reduzir a dor a um nível que não limite a rotina, nem sempre zerá-la por completo.

Mecanismo, não intensidade, define a conduta

As listas de “piores dores do mundo” misturam coisas que não pertencem à mesma prateleira terapêutica e dão a entender que existe um tratamento para a categoria “dor intensa”. Não existe. A nota na escala não diz nada sobre o que fazer: uma neuralgia do trigêmeo de nota 10 responde a anticonvulsivante e não a anti-inflamatório, enquanto uma cólica renal igualmente de nota 10 não tem nada a ganhar com o fármaco que ajudaria a neuralgia. O que decide a conduta é o mecanismo (nociceptivo, neuropático ou nociplástico), não a intensidade. Por isso a parte mais útil de qualquer avaliação de dor forte é a pergunta menos dramática de todas: de onde, exatamente, essa dor está vindo.

Da prática clínica

Observações de consultório. O paciente que mais chega a uma clínica de dor com um panorama como este já passou por vários especialistas e traz uma pilha de exames de imagem; o trabalho inicial costuma ser menos “pedir mais exame” e mais reordenar o que já existe em torno de um mecanismo. O engano mais frequente que vemos é tratar toda dor forte como inflamação e insistir em anti-inflamatório por semanas numa dor que é neuropática ou nociplástica, onde ele pouco acrescenta e o tempo perdido pesa. O limiar para parar e repensar, mais do que para trocar de técnica, é a ausência de qualquer ganho objetivo após um ciclo curto. E o que costuma surpreender quem chega é descobrir que a meta combinada não é zerar a dor, e sim devolver função: muita gente melhora a vida com a dor caindo de oito para três, sem nunca chegar a zero.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Qual é a pior dor do mundo?

Não há um ranking objetivo único, porque a dor é uma experiência individual. Mesmo assim, condições como a neuralgia do trigêmeo, a cólica renal, a síndrome dolorosa regional complexa, a dor oncológica mal controlada e a cefaleia em salvas costumam ser citadas entre as piores dores descritas por quem as vive.

Quais são as piores dores do mundo numa lista?

Listas variam, mas costumam reunir dores neuropáticas e viscerais intensas: neuralgia do trigêmeo, cólica renal, dor regional complexa, cefaleia em salvas, dor oncológica, dor do membro fantasma, gota em crise e dores do parto. O mais útil clinicamente não é o ranking, e sim identificar o mecanismo da dor para tratá-la.

Dor forte sempre significa doença grave?

Não. A intensidade da dor nem sempre corresponde ao tamanho da lesão. Uma neuralgia pode ser excruciante sem lesão de tecido proporcional, e algumas doenças graves dão pouca dor. Por isso a avaliação clínica importa mais do que a nota na escala de dor.

Essas doenças dolorosas têm cura?

Depende da condição. Algumas têm causa tratável e podem resolver; outras, como a fibromialgia, não têm cura definitiva, mas têm sintomas muito controláveis com o tratamento certo. De modo geral, o objetivo é controlar a dor e recuperar a função, dentro de um plano individualizado.

Quando devo procurar um médico da dor?

Quando a dor persiste por semanas, recorre com frequência, tem características neuropáticas (choque, queimação, formigamento) ou limita a sua rotina. Um médico fisiatra ou da dor pode definir o mecanismo da dor e montar um plano multimodal. Diante de qualquer sinal de alerta, procure avaliação sem demora.

Todas as dores intensas são tratadas na clínica de dor?

Não. Causas como cólica renal, pancreatite, gota e endometriose têm o tratamento principal conduzido por outros especialistas (urologia, gastroenterologia, reumatologia, ginecologia). A clínica de dor atua de forma complementar, no controle da dor e na reabilitação, e encaminha quando a causa exige o especialista.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Cohen et al. Dor crônica: revisão sobre impacto, melhores práticas e novos avanços. The Lancet. 2021. ver resumo
  2. Nijs et al. Como reconhecer a sensibilização central em pacientes com dor musculoesquelética. Manual Therapy. 2010. ver resumo
  3. Hylands-White et al. Visão geral das abordagens de tratamento para manejo da dor crônica. Rheumatology International. 2016. ver resumo
  4. Scholz J, Finnerup NB, Attal N, et al. The IASP classification of chronic pain for ICD-11: chronic neuropathic pain. Pain. 2019;160(1):53 a 59. doi:10.1097/j.pain.0000000000001365 acessar
  5. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Chronic pain (primary and secondary) in over 16s: assessment of all chronic pain and management of chronic primary pain. NICE guideline NG193. 2021. acessar
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 16 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Como cada uma destas 20 condições tem um mecanismo próprio, o tratamento descrito aqui só faz sentido depois de um diagnóstico individualizado, e várias delas exigem o especialista da causa.

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