Estimulação medular para dor crônica: mecanismo, indicações, teste e evidência
A estimulação medular é uma neuromodulação implantável reservada a casos selecionados de dor neuropática refratária, quase sempre precedida de uma fase de teste. Não é primeira linha nem cura garantida; encaminhamos ao especialista quando faz sentido.
- A estimulação medular é uma neuromodulação implantável: um ou dois eletrodos no espaço epidural posterior, sobre as colunas dorsais da medula, ligados a um gerador de pulsos sob a pele, modulam a transmissão do sinal doloroso. Ela não remove hérnia, não desfaz artrose, não regenera nervo e não desliga a dor de forma garantida.
- É reservada à dor neuropática crônica refratária e a quadros selecionados como dor persistente após cirurgia de coluna (síndrome pós-laminectomia), síndrome dolorosa regional complexa e dor isquêmica sem revascularização, sempre após tratamento conservador bem conduzido e quase sempre com uma fase de teste antes do implante definitivo.
- Não é primeira linha. Na clínica priorizamos diagnóstico, educação em dor, reabilitação e uso racional de medicação; quando uma opção intervencionista parece adequada, encaminhamos para o especialista habilitado. A meta é reduzir dor e melhorar função, não curar a causa estrutural.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é a estimulação medular

A estimulação medular é uma forma de neuromodulação implantável: em vez de tratar a fonte estrutural da dor, ela atua sobre a forma como o sistema nervoso transmite e processa o sinal doloroso, usando corrente elétrica programada entregue sobre a face posterior da medula.
O sistema tem três componentes. Os eletrodos são finos e ficam no espaço epidural posterior, sobre as colunas dorsais, no nível vertebral que corresponde ao território da dor: tipicamente entre T8 e T10 para dor de membro inferior e lombar, e entre C2 e C7 para dor de membro superior ou cervical. Podem ser eletrodos percutâneos, introduzidos por agulha de Tuohy, ou eletrodos em placa, colocados por uma pequena laminotomia.
O segundo componente é o gerador de pulsos implantável, semelhante a um marca-passo, alojado num bolsão subcutâneo no flanco ou na região glútea; pode ter bateria recarregável ou não recarregável. O terceiro é o programador, que ajusta amplitude, largura de pulso, frequência e a combinação de contatos ativos sem nova cirurgia.
É essencial entender o que essa terapia se propõe e o que ela não faz. Ela não remove uma hérnia de disco, não desfaz uma artrose, não regenera um nervo lesado e não garante eliminar a dor. A proposta é reduzir a intensidade da dor e melhorar a função em pacientes cuidadosamente selecionados, sobretudo quando a dor tem um componente neuropático e continuou apesar de tratamento convencional adequado.
Por envolver um procedimento, um dispositivo, programação e seguimento de longo prazo, a estimulação medular precisa ser discutida em ambiente especializado. A indicação correta pesa mais do que o nome da tecnologia.
“O estimulador medular desliga a dor e resolve a causa do problema na coluna.”
Ele modula a transmissão da dor no corno dorsal e em vias acima da medula, podendo reduzir sintomas e melhorar função em casos selecionados. A causa estrutural original (hérnia, lesão de nervo, fibrose pós-operatória) costuma continuar existindo, e a resposta varia entre pessoas.

Anatomia do alvo e por que o nível importa
Entender onde a corrente é entregue ajuda a entender por que a técnica funciona em alguns quadros e não em outros. O eletrodo fica no espaço epidural posterior, separado da medula pela dura-máter e por uma fina camada de líquido cefalorraquidiano. Logo abaixo, na linha média da face posterior da medula, estão as colunas dorsais (fascículos grácil e cuneiforme), feixes de fibras Aβ de grande calibre que conduzem tato, vibração e propriocepção. São essas fibras, e não diretamente as fibras finas da dor, o alvo elétrico da estimulação convencional.
Como as colunas dorsais são organizadas somatotopicamente (cada segmento do corpo projeta numa posição previsível), a posição do eletrodo no canal define qual território recebe a estimulação. Um eletrodo mal posicionado cobre o dermátomo errado e o paciente não sente o efeito sobre a dor; por isso a colocação é guiada por radioscopia e, na estimulação que produz parestesia, ajustada com o paciente acordado para confirmar que o formigamento cobre a área dolorida. A profundidade do líquido cefalorraquidiano sobre a medula muda com a postura, o que explica por que a intensidade percebida nos sistemas mais antigos variava ao deitar ou ficar de pé. Esse detalhe anatômico está por trás de boa parte da evolução tecnológica descrita adiante.
- Espaço epidural posterior
- Onde o eletrodo é alojado, fora da dura-máter; alvo seguro que evita puncionar a medula.
- Colunas dorsais
- Feixes de fibras Aβ de grande calibre (tato, vibração, propriocepção) cuja ativação modula a comporta da dor no corno dorsal.
- Corno dorsal
- Primeira sinapse da via da dor; é ali que fibras Aβ ativadas inibem a transmissão das fibras nociceptivas Aδ e C.
- Somatotopia
- Mapa ordenado do corpo nas colunas dorsais; define o nível em que o eletrodo precisa ficar para cobrir a dor.
A estimulação medular em profundidade
A estimulação medular é uma neuromodulação avançada com indicações estreitas, mecanismos razoavelmente compreendidos, vários modos de programação, uma fase de teste que a distingue de quase tudo na dor e uma evidência que precisa ser lida por cenário.
Indicações: para quem a neuromodulação implantável é considerada
As diretrizes reservam a estimulação medular para dor neuropática crônica refratária, com um substrato neuropático identificável e após falha de tratamento conservador bem conduzido. O critério não é “dor forte”: dor intensa pode vir de inflamação, compressão, câncer, doença vascular, dor miofascial ou sensibilização central, e cada origem pede um caminho diferente. Os quadros com maior racional são bem delimitados. A dor persistente após cirurgia de coluna (antes chamada síndrome dolorosa pós-laminectomia, hoje frequentemente descrita como dor persistente após cirurgia de coluna do tipo 2, com componente radicular neuropático em membro inferior) é a indicação mais estudada.
A síndrome dolorosa regional complexa (SDRC, tipos I e II, a antiga distrofia simpático-reflexa) pode ser discutida em centros experientes, sempre acoplada à reabilitação. A neuropatia diabética dolorosa refratária dos membros inferiores ganhou suporte recente com a alta-frequência. E a dor isquêmica, na angina refratária e na isquemia crítica de membro sem opção de revascularização, é uma indicação histórica em que a estimulação parece atuar também por modulação autonômica.
Dor neuropática refratária e localizável
Dor pós-cirurgia de coluna com radiculopatia, SDRC, neuropatia diabética dolorosa e dor isquêmica sem revascularização. Componente neuropático claro, falha do tratamento conservador, paciente que entende a incerteza e aceita o seguimento.
Dor mecânica, difusa ou sem alvo
Dor lombar mecânica simples, dor difusa sem mecanismo definido, dor predominantemente nociceptiva ou ausência de tentativa conservadora adequada. Aqui o caminho é diagnóstico, reabilitação e medidas menos invasivas.
Mecanismo: a teoria da comporta e o que veio além dela
O racional histórico é a teoria do controle da comporta, proposta por Melzack e Wall em 1965. Estimular as fibras Aβ de grande calibre nas colunas dorsais ativa interneurônios inibitórios na substância gelatinosa do corno dorsal, que “fecham a comporta” sobre os neurônios de projeção que transmitem a dor conduzida pelas fibras finas Aδ e C. Em termos práticos, a corrente introduz um sinal não doloroso que compete com o sinal nociceptivo e reduz sua transmissão ascendente. Nos sistemas convencionais isso produz uma parestesia (formigamento) que precisa cobrir a área da dor.
O mecanismo, porém, vai além da comporta. A estimulação modula a excitabilidade dos neurônios de projeção do corno dorsal e reforça a inibição local mediada por GABA, com mudança no equilíbrio de neurotransmissores como GABA, glutamato e acetilcolina. Há efeitos supraespinhais, sobre vias descendentes e regiões corticais e do tronco encefálico que participam do processamento da dor, e há modulação autonômica, particularmente relevante na dor isquêmica, em que a estimulação parece reduzir o consumo de oxigênio e melhorar o fluxo regional. Esses mecanismos são plausíveis e apoiados por modelos experimentais e por dados em humanos, mas nenhum deles “conserta” a estrutura que originou a dor: o alvo é o processamento do sinal, sobretudo quando há componente neuropático e fenômenos de sensibilização central.
Modos de estimulação: tônico, burst, alta-frequência e closed-loop
A programação é parte central do tratamento técnico, porque diferentes formas de onda exploram esses circuitos de modos distintos. A estimulação tônica convencional usa frequências de cerca de 40 a 60 Hz e depende da parestesia sobreposta à dor; é o modo clássico, eficaz, mas alguns pacientes acham o formigamento incômodo e ele pode variar com a postura. A estimulação em rajadas (burst) entrega trens de pulsos de alta frequência intercalados por pausas, buscando recrutar também vias mediais (afetivas) da dor com pouca ou nenhuma parestesia. A alta-frequência a 10 kHz (HF10) entrega pulsos a dez mil ciclos por segundo em amplitude subliminar, produzindo analgesia sem parestesia e sem necessidade de mapear o formigamento com o paciente acordado.
A estimulação em alça fechada (closed-loop) mede potenciais de ação evocados nas colunas dorsais (ECAP) e ajusta a amplitude pulso a pulso, compensando as variações posturais da distância eletrodo-medula e mantendo a dose neural mais estável. A escolha do modo é individual e cabe ao especialista; nenhum deles é universalmente superior para todos os quadros.
| Modo | Faixa / princípio | Parestesia | Observação prática |
|---|---|---|---|
| Tônico convencional | Cerca de 40 a 60 Hz, amplitude perceptível | Sim, deve cobrir a dor | Modo clássico; mapeamento com paciente acordado |
| Burst | Trens de pulsos de alta frequência com pausas | Mínima ou ausente | Recruta também vias afetivas da dor |
| Alta-frequência 10 kHz (HF10) | 10 kHz, amplitude subliminar | Ausente | Sem mapeamento de parestesia; carga de bateria maior |
| Closed-loop (ECAP) | Ajuste em alça fechada por resposta neural | Variável, dose estabilizada | Compensa variação postural da distância eletrodo-medula |
Evidência: o que cada cenário sustenta, com seus limites
A evidência é mais consistente em quadros neuropáticos selecionados do que na dor crônica em geral. Na dor pós-cirurgia de coluna com componente neuropático, ensaios controlados como o de Kumar e cols. (2007) mostraram, em pacientes selecionados e com teste positivo, redução de dor e ganho funcional frente ao manejo medicamentoso isolado. Na neuropatia diabética dolorosa refratária, o ensaio de Petersen e cols. publicado no JAMA Neurology em 2021 demonstrou alívio substancial e duradouro com alta-frequência a 10 kHz em pacientes que não respondiam ao tratamento conservador.
A estimulação em alça fechada baseada em ECAP foi avaliada em ensaio controlado (programa EVOKE) com manutenção de resposta no seguimento. Diretrizes nacionais como a do NICE (TA159) recomendam considerar a terapia em adultos com dor neuropática crônica por pelo menos seis meses, refratária ao manejo convencional e somente após um teste de estimulação bem-sucedido, conduzido por equipe multidisciplinar.
Os limites precisam ser ditos com clareza. Muitos estudos enfrentam dificuldade de montar um grupo de comparação convincente (é difícil simular um estimulador, sobretudo quando há parestesia), amostras nem sempre grandes, seguimento de duração variável e desfechos que nem sempre separam redução de dor de ganho funcional. Há também o fenômeno da perda de eficácia ao longo do tempo em parte dos pacientes, por habituação ou progressão da doença, e as comparações diretas entre modos de estimulação ainda são objeto de debate. Por isso evitamos linguagem de cura: o que a literatura sustenta é a possibilidade de benefício relevante em um subgrupo, identificado em parte pelo próprio teste.
| Cenário | O que a literatura mostra | Certeza |
|---|---|---|
| Dor pós-cirurgia de coluna, componente neuropático, teste positivo | Redução de dor e ganho funcional em selecionados | Moderada |
| Neuropatia diabética dolorosa refratária (10 kHz) | Alívio substancial e mantido em ensaio controlado | Moderada |
| Síndrome dolorosa regional complexa | Benefício possível em centros experientes, com reabilitação | Baixa a moderada |
| Dor isquêmica sem revascularização | Alívio e possível ganho de qualidade de vida em selecionados | Baixa a moderada |
| Dor lombar mecânica simples ou dor difusa | Sem racional para uso de rotina; não é o alvo | Muito baixa |
Fase de teste: o filtro obrigatório antes do implante
O período de teste é o que mais distingue a estimulação medular de outros procedimentos e é, na prática, obrigatório na maioria dos fluxos. Eletrodos percutâneos temporários são posicionados no espaço epidural e conectados a um gerador externo por cerca de 3 a 7 dias, conforme o protocolo do serviço. Durante esse período o paciente vive a vida real e registra dor média, pior horário, sono, uso de medicação de resgate, distância de caminhada e tolerância ao movimento. O critério de sucesso mais usado é uma redução de pelo menos 50% da dor acompanhada de ganho funcional consistente.
Só então se discute o implante definitivo. O teste reduz a chance de implantar um sistema caro e invasivo em quem provavelmente não se beneficiaria, e é por isso que a maioria dos fluxos não pula essa etapa. Um teste bom, porém, aumenta a probabilidade de acerto, mas não garante resultado permanente.
Avaliação e definição do mecanismo
Confirmar que a dor é predominantemente neuropática e refratária; revisar tratamentos prévios, comorbidades, anticoagulação, risco de infecção, saúde emocional e expectativa. Sem mecanismo neuropático claro, não há alvo para a terapia.
Otimização do tratamento conservador
Reabilitação, exercício, educação em dor e uso racional de medicação bem conduzidos antes de escalar. Muitas vezes a dor melhora aqui e a neuromodulação deixa de ser necessária.
Fase de teste com eletrodos temporários
Eletrodos percutâneos ligados a um gerador externo por 3 a 7 dias; o paciente registra dor, sono, resgate e função. Sucesso costuma ser ≥50% de alívio com ganho funcional.
Implante definitivo e programação
Só com teste favorável e risco aceitável. Eletrodos e gerador ficam sob a pele; seguem-se programação, ajustes finos, cuidados com a ferida e acompanhamento de longo prazo.
Implante e o que esperar
No implante definitivo, os eletrodos são fixados e tunelizados até o gerador de pulsos, alojado num bolsão subcutâneo. Segue-se a programação: definição de amplitude, largura de pulso, frequência e contatos ativos, com ajustes ao longo de semanas até encontrar o programa que melhor cobre a dor com o menor consumo de bateria. O paciente recebe orientações sobre cuidados com a ferida, restrições temporárias de movimento (para reduzir a chance de migração do eletrodo), recarga do gerador quando o modelo é recarregável e o uso do controle remoto.
O resultado não depende só da cirurgia: depende da seleção correta do paciente, da programação, da reabilitação mantida e de metas realistas. A meta é reduzir dor e devolver função, permitir mais movimento e, em alguns casos, diminuir a necessidade de certos medicamentos, e não eliminar a dor.
Quando explico a estimulação medular a um paciente, costumo dizer que o aparelho não cura a lesão: ele conversa com os circuitos que transmitem a dor, tentando reduzir o volume do sinal. O efeito pode ser real e mudar a rotina de alguns pacientes, mas é um reforço dentro de um plano, e a fase de teste existe justamente para não implantarmos um dispositivo sem benefício provável.
Limitações, riscos e contraindicações
Por ser implantável, a estimulação medular tem riscos que precisam ser discutidos em detalhe com o especialista. As complicações mais frequentes são de hardware: a migração do eletrodo, que desloca a cobertura para fora do território da dor e reduz o efeito, e a fratura do eletrodo ou do cabo, ambas podendo exigir revisão cirúrgica. A infecção do sistema, embora não seja comum, costuma exigir antibiótico e, com frequência, a retirada do dispositivo. No bolsão do gerador podem ocorrer seroma, dor local ou erosão da pele.
Há ainda falha de bateria ou de conexão, perda de eficácia ao longo do tempo e, durante a colocação, o risco de punção dural com cefaleia pós-punção e, raríssimo, hematoma epidural, que é uma emergência neurológica. A compatibilidade com ressonância magnética depende do modelo e das condições do fabricante, ponto importante para quem pode precisar de exames futuros.
| Risco ou cuidado | Por que importa |
|---|---|
| Migração do eletrodo | Complicação mais comum; desloca a cobertura e exige reprogramação ou revisão |
| Fratura de eletrodo ou cabo | Interrompe a estimulação; costuma demandar nova cirurgia |
| Infecção do sistema | Pode exigir antibiótico e, muitas vezes, retirada do dispositivo |
| Seroma ou dor no bolsão do gerador | Desconforto local; em alguns casos erosão da pele |
| Falha de bateria ou conexão | Pode demandar troca, manutenção ou nova cirurgia |
| Punção dural / hematoma epidural | Cefaleia pós-punção; o hematoma é raro e é emergência neurológica |
| Restrição para ressonância | A compatibilidade depende do modelo e das condições do fabricante |
| Perda de eficácia ao longo do tempo | Por habituação ou progressão da doença; pode exigir reprogramação |
Algumas situações contraindicam ou pedem adiamento: infecção ativa, ferida na pele do sítio, risco cirúrgico alto, anticoagulação sem manejo seguro, doença psiquiátrica grave sem controle, uso problemático de substâncias, incapacidade de operar o dispositivo, expectativa de cura garantida, diagnóstico incerto ou falta de adesão ao seguimento. Essas questões não servem para excluir pessoas de forma automática; servem para proteger o paciente e melhorar a chance de benefício. Quando a dor é predominantemente mecânica, inflamatória, articular, muscular ou difusa, a indicação costuma ser mais fraca: a presença de dor crônica não basta, o mecanismo importa.
A pergunta que mais separa boa de má indicação não é “o estimulador funciona?”, e sim “este paciente tem dor neuropática refratária, já otimizou o tratamento conservador e teve um teste de estimulação realmente favorável?”. Quando a resposta a todas é sim, a discussão é legítima. Quando alguma é não, o implante provavelmente entregará pouco e exporá a riscos sem contrapartida.
Procure atendimento com urgência se houver
- Perda progressiva de força, perda de sensibilidade em sela, alteração urinária ou intestinal nova.
- Febre, sinais de infecção, dor após trauma, dor torácica, falta de ar ou perda de peso inexplicada.
- Histórico de câncer, confusão, piora neurológica súbita ou dor noturna progressiva sem posição de alívio.
- Após um implante: vermelhidão progressiva, secreção, dor crescente sobre a ferida ou o gerador, ou cefaleia intensa que piora de pé.
Como medir resposta antes e depois do teste
A melhora não deve ser avaliada apenas por um número de dor. Antes de qualquer teste invasivo, vale escolher medidas simples e realistas: a dor média da semana, o pior horário do dia, quantas vezes a pessoa usou medicação de resgate, quanto tempo consegue caminhar, quanto tempo consegue ficar sentada, como dorme e qual atividade mais quer recuperar. Essas medidas devem ser anotadas antes e repetidas durante e após o teste, porque são elas que mostram se o ganho é real.
Durante a fase temporária, uma melhora relevante deve aparecer na vida diária, não apenas na impressão de novidade. Se a dor diminui, mas a pessoa continua sem caminhar, sem dormir e sem reduzir o resgate, talvez o benefício não seja suficiente para justificar o implante. Se a dor não zera, mas o paciente dorme melhor, anda mais e retoma atividades, a conversa pode ser diferente. Reduzir dor sem melhorar função frequentemente não justifica um implante definitivo, e esse é um critério que protege o paciente.
Linha de base
Registrar dor média, pior horário, distância de caminhada, tempo sentado, qualidade do sono, uso de resgate e a principal atividade perdida. Sem linha de base, não há como medir o ganho.
Janela de decisão
As mesmas medidas são acompanhadas dia a dia. Uma melhora consistente de dor e função, da ordem de pelo menos 50%, e não só uma sensação de novidade, sustenta a decisão de implantar.
Seguimento contínuo
Programação ajustada, ferida acompanhada, metas revisadas. A terapia exige seguimento e pode demandar reprogramação ou revisão; não termina no dia do implante.
Essa forma de acompanhamento protege contra duas falhas comuns: implantar cedo demais, movido pela esperança, e descartar cedo demais um ganho funcional importante só porque a dor não desapareceu completamente. A decisão por neuromodulação deve ser deliberada, não apressada por desespero.
- Função pesa tanto quanto a dor. Caminhar mais, dormir melhor e usar menos resgate são desfechos que importam, mesmo quando a dor não chega a zero.
- O teste é um filtro, não uma promessa. Ele aumenta a chance de acerto, mas não garante resultado permanente, e o seguimento segue sendo necessário.
- Mecanismo antes de tecnologia. Confirmar dor neuropática refratária vem antes de discutir qualquer aparelho; sem o mecanismo certo, a técnica entrega pouco.
Nosso papel, encaminhamento e quando procurar avaliação
No Brasil, a estimulação medular é uma terapia especializada, realizada em serviços com equipe treinada, geralmente ligada a dor intervencionista, anestesiologia, neurocirurgia funcional ou centros de referência em dor. A disponibilidade, o tipo de dispositivo, a cobertura por plano de saúde, a via pública ou privada e os custos variam bastante. Por isso, o primeiro passo não deve ser procurar um aparelho específico, mas confirmar se existe indicação clínica.
Na clínica, a estimulação medular não é realizada como rotina nem implantada aqui. Nosso papel é organizar a triagem: revisar se a dor é neuropática ou mista, otimizar o tratamento conservador, medir função e encaminhar quando uma avaliação intervencionista realmente faz sentido. Um bom encaminhamento descreve o diagnóstico provável, o tempo de dor, os tratamentos tentados, as medicações, as cirurgias, os exames, as limitações funcionais e o motivo da pergunta.
Isso ajuda o especialista a decidir se vale discutir um teste de estimulação ou se ainda há etapas melhores antes. Para o panorama geral, veja o nosso tratamento de dor crônica e, quando a origem é a coluna, o tratamento de lombalgia.
Procure avaliação se a dor persiste por meses apesar de um plano coerente, se há aumento frequente de remédios de resgate, se cirurgias anteriores não resolveram, se a dor impede o sono ou o trabalho, ou se você recebeu indicação de procedimento sem entender qual mecanismo seria tratado. Quando a dor for residual após uma cirurgia de hérnia de disco, esse esclarecimento é particularmente importante, porque define se o componente é neuropático e se uma terapia como a estimulação medular sequer faz sentido.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Estimulação medular é cirurgia?
Sim. O teste pode ser temporário e percutâneo, mas o tratamento definitivo envolve o implante de eletrodos no espaço epidural e de um gerador sob a pele. Por isso a indicação deve ser feita por equipe experiente e após avaliação criteriosa, com discussão de riscos e consentimento informado.
Ela cura a dor crônica?
Não deve ser apresentada como cura. O objetivo é modular a transmissão do sinal doloroso, reduzir sintomas e melhorar função em casos selecionados. A causa estrutural original pode continuar existindo, e a resposta varia entre pessoas.
Qual a diferença entre estimulação com e sem parestesia?
A estimulação tônica convencional, em torno de 40 a 60 Hz, produz um formigamento (parestesia) que precisa cobrir a área da dor. Modos mais recentes, como o burst e a alta-frequência a 10 kHz, buscam analgesia com pouca ou nenhuma parestesia, e o closed-loop ajusta a dose pela resposta neural. A escolha do modo cabe ao especialista.
Quem costuma ser candidato?
Pessoas com dor neuropática crônica refratária e incapacitante, como dor pós-cirurgia de coluna, SDRC ou neuropatia diabética dolorosa, após tratamento convencional adequado e com um teste de estimulação favorável. A decisão depende do mecanismo da dor, dos riscos e das metas funcionais.
Por que é preciso fazer um teste antes?
O teste temporário, de cerca de 3 a 7 dias, verifica se há melhora suficiente de dor e função (em geral pelo menos 50%) antes de discutir o implante definitivo. Ele reduz a chance de implantar um sistema invasivo em quem provavelmente não se beneficiaria.
Serve para dor lombar comum?
Geralmente não como primeira opção. A dor lombar mecânica comum costuma ser tratada com diagnóstico, educação, exercício, fisioterapia, fortalecimento, ajuste de carga e, quando necessário, estratégias menos invasivas. O alvo da estimulação medular é a dor neuropática refratária.
Quais são os principais riscos?
Migração ou fratura do eletrodo, infecção do sistema, seroma ou dor no bolsão do gerador, falha de bateria, perda de eficácia ao longo do tempo, restrições para ressonância e, raramente, hematoma epidural. Todos devem ser discutidos com o especialista antes do procedimento.
Posso fazer ressonância depois do implante?
Depende do modelo do dispositivo e das condições do fabricante. Essa informação deve ser discutida antes do implante, principalmente em pessoas que podem precisar de ressonâncias futuras.
A clínica implanta estimulador medular?
Não. A clínica organiza a avaliação, o diagnóstico, o tratamento conservador e o encaminhamento quando uma etapa intervencionista parece adequada. O implante deve ser feito por especialista habilitado, em serviço apropriado.
Referências1 fonte citada neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas para publicidade e conteúdo médico.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A estimulação medular é apresentada como terapia avançada de neuromodulação em casos selecionados de dor neuropática refratária, com evidência que tem limites; a resposta ao tratamento difere entre pessoas e o plano deve ser individualizado após consulta, exame físico e acompanhamento.

