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Mitos e verdades sobre o tratamento da dor crônica

Apesar do fato de que a dor crônica afeta cerca de até 33% dos brasileiros, ela ainda é muito mal compreendida pela sociedade em geral e às vezes até pelos próprios pacientes. Apresentamos neste artigo alguns dos mitos mais comuns sobre a dor crônica.

 

Para se sentir melhor, você deve ficar deitado na cama o tempo todo ou se movimentar? Você deve falar com seu médico sobre usar analgésicos opióides potentes ou você deve ficar na sua? Vale a pena tentar a “cura milagrosa” que seu colega de trabalho jura que curou sua dor ciática?

A dor crônica é uma doença grave e debilitante. Muitas pessoas que sofrem com dor crônica ficam tão desesperada por ajuda que estão dispostas a acreditar em qualquer coisa – e, como resultado passam a acreditar em alguns mitos de dor crônica que podem ser imprudentes e até mesmo perigosos1.

Para ajudá-lo a separar os mitos de dor crônica dos fatos, consultamos a literatura médica.

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Mito: Para curar a dor crônica apenas trate a causa subjacente 

O tratamento da dor crônica não é assim tão simples2.

Qualquer pessoa com dor crônica deve realizar um tratamento completo coordenado por um médico especialista para verificar se o problema é tratável ou trata-se de uma doença.

Mas, em muitos casos, a intersecção de uma causa subjacente e a dor é mais complicada. Doenças com dores crônicas podem ser difíceis de controlar. Às vezes a dor persiste mesmo após a causa original ter sido resolvido. Outras vezes, a causa da dor é um mistério3.

Muitas vezes, mesmo após realizar todos os testes e exames possíveis, algumas vezes não é possível descobrir exatamente o que está causando a dor. Nem sempre se chega a um diagnóstico.

Pessoas com dor crônica, muitas vezes precisam de uma abordagem em duas vertentes: começar o tratamento para a causa subjacente (se houver) e, separadamente, tratar a dor em si. Assim, você deve sempre procurar um médico especialista em dor.

Verdade: Mesmo a dor crônica leve deve ser examinada por um médico

Especialistas em dor dizem que muitas pessoas ainda lutam pela vida com dor crônica sem motivo. As pessoas pensam que, se sua dor é suportável, não vale a pena consultar um médico para checar4.

No entanto, você precisa verificar essa dor, mesmo que seja leve. Primeiro que, essa dor poderia ser o sinal de uma doença ou problema de saúde subjacente que necessita de tratamento. Em segundo lugar, a dor tratada prontamente às vezes pode evitar que se transforme em dor crônica grave.

Além disso, é sempre importante levar a dor a sério. A dor crônica é insidiosa. Pode se esconder nas pessoas, agravando-se lentamente e imperceptivelmente5.

Sem perceber, você pode desenvolver formas saudáveis ​​de lidar com a dor. Isto pode incluir o uso de analgésicos por um longo período ou em doses elevadas, que podem ter riscos sérios. Pessoas com dor crônica também tem maior risco de desenvolver dependência de álcool ou outras substâncias para anestesiar a dor.

Ao longo do tempo, a dor crônica também pode levar a insônia, isolamento social, depressão e outros problemas que podem afetar seus relacionamentos em casa e no trabalho.

Mito: Descansar é geralmente a melhor cura para a dor

Recomendações médicas antigas para as pessoas com algum tipo de dor crônica – como dor nas costas – incluiam permanecer na cama descansando. Mas este não é mais o caso6.

Agora sabemos que para quase todos os tipos de condições de dor crônica, e não apenas a dor da coluna vertebral, repouso prolongado quase nunca é útil. Em alguns casos podem até piorar o prognóstico.

Acontece que para a maioria das causas de dor, manter a sua rotina diária – incluindo a atividade física – vai ajudá-lo a melhorar mais rápido7.

Claro, existem algumas situações onde o descanso é importante – especialmente um dia ou dois depois sofrer uma lesão aguda. Então, sempre siga o conselho do seu médico.

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Mito: O aumento da dor é inevitável à medida que envelhecemos 

Especialistas em dor dizem que há um mito particularmente prejudicial sobre a dor crônica.

Muitas pessoas pensam que a dor é apenas um sinal de envelhecimento e que não há muito a ser feito sobre isso8.

Infelizmente, muitos ainda acreditam nisso. Eles veem um paciente idoso com dor e acreditam que não há nada a ser feito.

É sem dúvida verdade que nossas chances de desenvolver uma condição dolorosa, tais como artrite, são mais elevadas à medida que envelhecemos. Mas estas condições podem ser tratadas e podem ser controladas. Portanto, não importa qual seja sua idade, nunca se acomode e aceite a dor crônica.

Verdade: A dor crônica está relacionada com depressão

Para muitas pessoas, a dor crônica está relacionada com a depressão, bem como a ansiedade e outras condições psicológicas.

Há uma relação muito complexa entre a dor e a depressão. A dor pode ser um sintoma de depressão e a depressão certamente pode piorar o diagnóstico da dor. É uma combinação cruel. Muitas vezes, é impossível dizer onde uma causa termina e onde a outra começa.

Claro, algumas pessoas com dor crônica não gostam dessa ideia. Elas sentem que a aceitação de uma conexão psicológica com a dor implica que a dor é apenas coisa de suas cabeças. Mas isso não tem nada a ver.

Depressão e transtornos de ansiedade são condições médicas reais. Estudos também mostram uma clara ligação entre traumas e dor emocional. Estudos de imagem cerebral têm revelaram que a dor física e psicológica ativam algumas áreas idênticas no cérebro. Reconhecer que a dor crônica e depressão estão relacionadas não diminui a dor que você está sentindo.

Além disso, alguns antidepressivos vêm sendo indicados para ajudar a tratar certos tipos de dor crônica. O seu médico pode sugerir um antidepressivo para a sua dor crônica, mesmo que você não esteja deprimido.

Mito: Ingerir analgésicos opioides leva a dependência

Todas as pessoas leem histórias surpreendentes de vício. Então não é nenhuma surpresa pensar que muitas pessoas com medo da dor crônica que tomam opióides se tornarão dependentes de medicamentos. Como resultado, algumas pessoas com dor crônica aguda recusam a medicação que poderia realmente ajudá-las.

Quando são ingeridas à curto prazo e utilizada conforme as instruções, o risco de se tornar viciado em um medicamento opiáceo é muito, muito baixo.

Há casos em que os médicos precisam ter um cuidado especial com opióides. Por exemplo, as pessoas que têm um forte histórico pessoal ou familiar de dependência estão em maior risco. Mas até mesmo essas pessoas podem usar esses medicamentos de forma segura, em alguns casos, embora de preferência com a orientação de um especialista em dor.

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Mito: Tomar analgésicos opioides irá curar completamente a dor crônica

Embora opióides sejam eficazes no tratamento da dor, eles não são o Santo Graal de alívio da dor. Algumas pessoas acreditam que se conseguirem obter a prescrição desses medicamentos com o seu médico, seus problemas estariam acabados.

Há uma grande desvantagem do tratamento com opioides. Eles não são eficazes em tratar todos os tipos de dor. Eles podem causar efeitos secundários desagradáveis.

A dependência física pode se desenvolver se o tratamento da dor não for monitorada. Isso não é um vício – em vez disso, o corpo se acostuma à medicação. Com o tempo, o corpo necessita de doses maiores para obter o mesmo nível de alívio.

Os opióides parecem aumentar o risco de outros tratamentos falharem. Há ainda evidências de que o abuso de alguns opióides possam resultar em dor crônica. Uma pessoa com dores de cabeça ocasionais leves podem desenvolver dor crônica após usar altas doses de opióides.

Então, dependendo da causa da dor crônica, analgésicos opióides podem ajudar. Mas eles não o melhor tratamento universal para a dor crônica. São apenas um instrumento dentre muitos outros, de medicamentos anti-inflamatórios para terapias alternativas, como a acupuntura.

Verdade: Raramente existe um único tratamento que irá curar a dor crônica

As pessoas com dor crônica, muitas vezes têm este equívoco. Elas pensam que irão encontrar um tratamento perfeito que vai curar sua dor.

Talvez seja um novo medicamento ou uma nova técnica cirúrgica que leu em um jornal. Ou talvez seja um dispositivo ou um suplemento que foi anunciado em um comercial. Mas elas sempre esperam uma resposta, de que a sua dor irá desaparecer completamente.

Lidar com a dor crônica raramente é tão simples. A luta contra a dor crônica, muitas vezes requer uma equipe de especialistas que utilizam uma combinação de tratamentos – diferentes medicamentos, fisioterapia, aconselhamento psicológico, técnicas de relaxamento, e outros – para obter controle da dor.

Adote expectativas realistas. Você vai melhorar, mas vai demorar algum tempo e deverá adotar diferentes tratamentos.

Verdade: Mesmo com um bom tratamento, a dor crônica pode não desaparecer

É lamentável, mas é verdade. Alguém que tenha desenvolvido dor nas costas há décadas não deve esperar que, depois de algumas visitas a um médico a dor seja completamente curada. O tratamento de dor crônica é geralmente um processo longo.

Mas não desanime. Mesmo que os especialistas não possam fazer a sua dor crônica desaparecer completamente, o tratamento ainda pode fazer uma grande diferença.

A dor não é tudo, afinal de contas – é como a dor afeta sua qualidade de vida o que mais importa.

Talvez você ainda apresente um pouco de dor após o tratamento. Mas se o tratamento restaura a sua capacidade de fazer coisas que a sua dor crônica antes impedia – como realizar longas caminhadas,  voltar ao trabalho ou realizar atividades prazerosas – então o tratamento pode ter valido a pena.

Referências Bibliográficas

  1. Ospina M, Harstall C. Prevalence of chronic pain: an overview. Edmonton, Alberta, Canada: Alberta Heritage Foundation for Medical Research; 2002 Dec. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/pdf/10.1034/j.1399-6576.1999.430903.x
  2. Hylands-White N, Duarte RV, Raphael JH. An overview of treatment approaches for chronic pain management. Rheumatology international. 2017 Jan 1;37(1):29-42. Disponível em: http://www.open-access.bcu.ac.uk/492/1/492.pdf
  3. Raffaeli W, Arnaudo E. Pain as a disease: an overview. Journal of pain research. 2017;10:2003. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5573040/
  4. Beal BR, Wallace MS. An overview of pharmacologic management of chronic pain. Medical Clinics. 2016 Jan 1;100(1):65-79
  5. Williams LJ, Jacka FN, Pasco JA, Dodd S, Berk M. Depression and pain: an overview. Acta Neuropsychiatrica. 2006 Apr;18(2):79-87
  6. Rosenquist EW, Ellen WK. Overview of the treatment of chronic non-cancer pain. UpToDate. Waltham, MA Accessed September. 2019;26
  7. Bettini L, Moore K. Central sensitization in functional chronic pain syndromes: overview and clinical application. Pain Management Nursing. 2016 Oct 1;17(5):333-8.
  8. Gatchel RJ, McGeary DD, McGeary CA, Lippe B. Interdisciplinary chronic pain management: past, present, and future. American psychologist. 2014 Feb;69(2):119.

Dr. Marcus Yu Bin Pai

CRM-SP: 158074 / RQE: 65523 - 65524 | Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura. Área de Atuação em Dor pela AMB. Doutorando em Ciências pela USP. Pesquisador e Colaborador do Grupo de Dor do Departamento de Neurologia do HC-FMUSP. Diretor de Marketing do Colégio Médico de Acupuntura do Estado de São Paulo (CMAeSP). Integrante da Câmara Técnica de Acupuntura do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP). Secretário do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira para Estudo da Dor (SBED). Presidente do Comitê de Acupuntura da Sociedade Brasileira de Regeneração Tecidual (SBRET). Professor convidado do Curso de Pós-Graduação em Dor da Universidade de São Paulo (USP). Membro do Conselho Revisor - Medicina Física e Reabilitação da Journal of the Brazilian Medical Association (AMB).  

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