A depressão está ligada a dores nas costas?
Sim, a relação entre depressão, ansiedade e dor nas costas é real e bidirecional: o sofrimento intensifica a dor crônica, e a dor aumenta o risco de depressão. Isso não torna a dor imaginária, e trata-se a pessoa inteira.
- Sim. Depressão e ansiedade estão ligadas à dor nas costas, e a relação funciona nos dois sentidos: o transtorno de humor aumenta o risco e a intensidade da dor, e a dor crônica aumenta o risco de depressão.
- A dor é fisicamente real. A ansiedade e a depressão amplificam o sinal de dor por mecanismos do sistema nervoso (sensibilização central), pela perda de sono, pela inatividade e por neurotransmissores que o humor e a dor compartilham.
- O tratamento mais eficaz é biopsicossocial: exercício, educação em dor, terapia e cuidado da saúde mental, e, quando indicado, medicamentos que tratam ao mesmo tempo a dor e o humor. Tratar só a coluna, ou só o humor, costuma render menos.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Depressão e ansiedade causam dor nas costas?
A pergunta que mais ouço no consultório, em alguma variação, é direta: a ansiedade dá dor nas costas? A depressão causa dor na coluna? A resposta é sim, com uma ressalva importante: esses transtornos não criam uma lesão na sua coluna. O que eles fazem é mudar a forma como o sistema nervoso processa a dor, e isso é suficiente para deflagrar, manter e intensificar uma dor que se sente no corpo, de verdade.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Entre pessoas com dor lombar crônica, a prevalência de depressão é consistentemente maior do que na população geral, e quanto mais intensa e incapacitante a dor, maior a chance de haver um transtorno de humor associado. A direção contrária também é robusta: estudos que acompanham pessoas ao longo do tempo mostram que quem tem depressão ou ansiedade tem risco aumentado de desenvolver dor nas costas no futuro, mesmo sem nenhuma lesão estrutural nova.
Não é coincidência, e não é fraqueza de caráter. É a expressão de uma via biológica compartilhada entre o humor e a dor.
Há ainda um ponto que muita gente vive e poucos explicam: a ansiedade costuma dar dor nas costas ao respirar, uma queixa frequente. O mecanismo é compreensível. Em estado de tensão sustentada, a musculatura da parede torácica e da região dorsal fica contraída, a respiração se torna mais curta e superficial, e os músculos intercostais e paravertebrais entram em sobrecarga. O resultado é uma dor que aperta ao inspirar fundo, que assusta justamente por sugerir algo no coração ou no pulmão, mas que, na ausência de sinais de alerta, costuma ter origem musculoesquelética e emocional.
“Se a minha dor nas costas tem a ver com ansiedade ou depressão, então é dor imaginária, está só na minha cabeça e eu deveria conseguir controlar sozinho.”
A dor é real e mensurável. A mente não inventa a dor; ela regula a intensidade com que o cérebro a registra. Por isso o tratamento que cuida do humor reduz a dor de verdade, e não por sugestão.
Por que o sofrimento emocional intensifica a dor
A ligação entre depressão, ansiedade e dor nas costas não é uma metáfora. Ela acontece por quatro mecanismos que se reforçam, e entendê-los muda a forma como a pessoa encara o próprio quadro, do alívio de saber que não está “ficando louca” à motivação para tratar as duas frentes ao mesmo tempo.
Sensibilização central: o volume da dor sobe
O sistema nervoso tem um controle de volume para a dor. Vias que descem do cérebro para a medula podem inibir ou amplificar o sinal doloroso antes que ele chegue à consciência. Na depressão e na ansiedade crônicas, esse controle desregula: as vias inibitórias enfraquecem e as facilitatórias dominam, num fenômeno chamado sensibilização central.
Na prática, o mesmo estímulo passa a doer mais, e estímulos que normalmente não doeriam, como o toque ou um movimento banal, podem se tornar dolorosos. É o mesmo mecanismo central que está no coração da fibromialgia e que explica por que duas pessoas com a mesma alteração na ressonância sentem dores tão diferentes.
Neurotransmissores compartilhados
Humor e dor falam a mesma língua química. A serotonina e a noradrenalina, neurotransmissores centrais na regulação do humor, são também os principais mensageiros das vias que inibem a dor descendo do tronco encefálico para a medula. Quando esses sistemas estão em baixa, como ocorre na depressão, cai junto a capacidade do corpo de frear a dor.
Esse é o motivo pelo qual certos antidepressivos aliviam a dor mesmo em quem não está deprimido: eles reforçam exatamente a via que controla o sinal doloroso. Não é efeito placebo nem coincidência farmacológica; é a mesma rota neuroquímica sendo tratada.
Sono fragmentado
Dor, ansiedade e depressão sabotam o sono, e o sono ruim, por sua vez, baixa o limiar de dor no dia seguinte e piora o humor. É um círculo de três pontas. Noites mal dormidas reduzem a tolerância à dor de forma mensurável e aumentam a inflamação de baixo grau, fechando um ciclo em que cada elemento alimenta os outros. Por isso recuperar o sono não é um detalhe de conforto: é uma alavanca terapêutica que mexe ao mesmo tempo na dor e no humor.
Medo, evitação e inatividade
A ansiedade alimenta um padrão bem descrito na medicina da dor, o ciclo do medo-evitação: a pessoa interpreta a dor como sinal de dano grave, passa a temer e evitar o movimento, reduz a atividade e, com o tempo, perde força, mobilidade e condicionamento, o que torna a coluna ainda mais vulnerável e a dor mais provável. O repouso que parecia proteção vira combustível. A depressão acrescenta a essa equação a falta de energia e de motivação, tornando ainda mais difícil iniciar o exercício que justamente quebraria o ciclo.
A dor crônica não é só um problema da coluna nem só um problema da mente. Ela vive na fronteira entre os dois, e é nessa fronteira que o tratamento precisa atuar para funcionar.
A via de mão dupla
A palavra-chave para entender essa relação é bidirecional. Não se trata de descobrir qual veio primeiro, o ovo ou a galinha, mas de reconhecer que, uma vez instalado, o problema se retroalimenta. A depressão e a ansiedade preparam o terreno para a dor; a dor crônica, com a limitação, a perda de papéis sociais, o medo do futuro e as noites sem sono que traz, prepara o terreno para a depressão. Quem chega ao consultório com dor de meses, muitas vezes, já está nas duas pontas dessa via.
Esse reconhecimento tem uma consequência clínica direta e libertadora: não é preciso “resolver primeiro a cabeça para depois cuidar das costas”, nem o contrário. As duas frentes são tratadas em paralelo, porque melhorar uma facilita a outra. Reduzir a dor devolve energia e esperança; tratar o humor e o sono baixa o volume da dor e devolve a disposição para se mover. O tratamento biopsicossocial nasce exatamente dessa lógica.
| Direção | O que a evidência mostra | O que isso significa na prática |
|---|---|---|
| Humor que afeta a dor | Depressão e ansiedade aumentam o risco de desenvolver dor nas costas e elevam sua intensidade e cronicidade | Tratar o humor é parte do tratamento da dor, não um extra opcional |
| Dor que afeta o humor | A dor crônica incapacitante aumenta de forma marcante o risco de depressão e de transtornos de ansiedade | Rastrear sintomas de humor em quem tem dor crônica é cuidado de rotina, não exagero |
| O elo no prognóstico | A presença de depressão ou ansiedade prediz pior resposta ao tratamento da dor, incluindo cirurgias da coluna | Ignorar o componente emocional reduz a chance de sucesso de qualquer tratamento físico |
| O mecanismo comum | Sensibilização central, queda de serotonina e noradrenalina, sono ruim e inatividade ligam os dois quadros | Há alvos terapêuticos que beneficiam a dor e o humor ao mesmo tempo |
Vale uma ressalva técnica para não cair no erro oposto. Atribuir tudo ao emocional é tão equivocado quanto ignorá-lo. Uma dor nas costas que muda de padrão, que vem acompanhada de sinais de alerta neurológicos ou sistêmicos, ou que surge num contexto de risco, precisa ser investigada como qualquer outra, independentemente de a pessoa ter ou não depressão. O componente emocional soma-se à avaliação física cuidadosa; não a substitui.
Sinais de alerta e momentos de crise
Há dois tipos de alerta a separar aqui, e ambos têm prioridade sobre qualquer outra conduta. O primeiro é de saúde mental: a presença de pensamentos de morte, de desesperança intensa ou de ideação suicida é uma emergência e exige ajuda imediata. A dor crônica é um fator de risco reconhecido para isso, e falar abertamente sobre o assunto protege, não amplifica.
Procure ajuda imediata se houver
- Pensamentos de que não vale a pena viver, de se machucar ou de acabar com a própria vida.
- Sensação de desesperança profunda, de que nada vai melhorar, ou de ser um peso para os outros.
- Planos ou preparativos para se ferir, ou um agravamento rápido e intenso do humor.
- Ligue 188 (CVV, Centro de Valorização da Vida), 24 horas e gratuito, ou procure uma emergência. Em risco imediato, acione o SAMU 192.
O segundo tipo de alerta é físico. Mesmo quando há um forte componente emocional, alguns sinais na dor das costas indicam que a avaliação médica não deve esperar, porque apontam para causas que mudam a conduta. A coexistência com ansiedade ou depressão nunca deve servir de pretexto para deixar de investigar esses achados.
Procure avaliação médica se a dor vier com
- Perda do controle da urina ou das fezes, ou dormência na região entre as pernas (sela).
- Fraqueza progressiva nas pernas, ou que afeta os dois lados.
- Febre, perda de peso sem explicação, ou história de câncer.
- Dor após trauma importante, ou em pessoa imunossuprimida ou em uso de corticoide.
- Dor que não alivia com o repouso, que acorda à noite, ou que começa pela primeira vez após os 50 anos.
A investigação completa dessas bandeiras vermelhas, e o passo a passo da avaliação da dor lombar, estão detalhados no guia de tratamento da lombalgia.
Tratamento: a abordagem biopsicossocial
Se a dor nas costas e o sofrimento emocional caminham juntos, o tratamento precisa caminhar nas duas frentes ao mesmo tempo. É o que se chama de abordagem biopsicossocial: cuidar do corpo (bio), da forma como a pessoa pensa e sente a dor (psico) e do contexto de vida, trabalho e relações (social). Não é um arranjo alternativo nem um discurso motivacional.
É o modelo com melhor base de evidência para dor crônica, e a base ativa de tudo é o movimento. As demais medidas somam-se a ele, não o substituem.
Movimento e exercício
A base. Atividade física orientada e graduada para quebrar o ciclo do medo-evitação, melhorar humor, sono e função.
Educação em dor e psicoterapia
Entender a dor reduz o medo; a terapia cognitivo-comportamental trabalha o humor e a relação com a dor.
Saúde mental e medicação
Tratar a depressão ou a ansiedade com a equipe certa; medicamentos que aliviam dor e humor quando indicados.
Reabilitação e técnicas em clínica
Acupuntura, agulhamento seco e reabilitação ativa para o componente físico e miofascial associado.
Exercício e atividade física: a base do plano
- Mecanismo
- O exercício atua nas duas pontas do problema de uma vez só. No corpo, devolve força, mobilidade e tolerância à carga, e dessensibiliza o movimento, desfazendo o ciclo do medo-evitação. No cérebro, libera endorfinas, reativa as vias inibitórias da dor e tem efeito antidepressivo e ansiolítico bem documentado, melhorando humor e qualidade do sono.
- Evidência
- O exercício é a intervenção com melhor relação entre evidência e segurança na dor lombar crônica, e é também uma das condutas com mais respaldo para depressão leve a moderada. Duas indicações pelo preço de uma.
- O que esperar
- A regra de ouro é começar devagar e progredir aos poucos, no que se chama de exposição graduada: o objetivo não é “não doer”, mas voltar a se mover com segurança, mesmo com algum desconforto, até a confiança e a função retornarem. A resposta vem ao longo de semanas, e o programa é mantido para sustentar o resultado. Vale a pena ler também sobre o papel do exercício e as estratégias de manejo da ansiedade e do estresse.
Educação em dor: desarmar o alarme
- Mecanismo
- A educação em neurociência da dor é uma intervenção ativa, não um folheto. Ela ensina a pessoa a entender que dor não é sinônimo de dano, que a coluna é resistente e que a intensidade da dor é modulada pelo cérebro, pelo medo e pelas crenças. Compreender isso reduz a ameaça percebida e, com ela, a própria sensibilização central.
- Evidência
- Programas de educação em dor associados ao exercício reduzem a incapacidade e o catastrofismo, aquele padrão de pensamento que amplifica a dor pela antecipação do pior.
- O que esperar
- Não é uma sessão única, mas um fio condutor que atravessa todo o tratamento, mudando aos poucos a forma como a pessoa interpreta as sensações do próprio corpo e, com isso, baixando o volume da dor.
Terapia cognitivo-comportamental e tratamento da depressão
- Mecanismo
- A terapia cognitivo-comportamental (TCC) trabalha os pensamentos e comportamentos que mantêm tanto a dor quanto o transtorno de humor: o catastrofismo, a evitação, a ruminação e a inatividade. Ao reduzir o catastrofismo e reativar o comportamento, ela atua sobre um dos mais fortes preditores de cronificação da dor.
- Evidência
- A TCC tem evidência sólida tanto para depressão e ansiedade quanto, especificamente, para dor crônica, com efeito sobre dor, incapacidade e humor.
- O que esperar
- O cuidado da saúde mental é conduzido pela equipe certa. Quando há um transtorno depressivo ou ansioso estabelecido, o encaminhamento ao psiquiatra e ao psicólogo é parte integral do tratamento da dor, não um desvio dele. O médico da dor não substitui o cuidado em saúde mental; ele o articula, porque sabe que sem essa frente o resultado físico fica limitado.
Antidepressivos que tratam a dor e o humor
- Mecanismo
- Aqui está um dos elos mais elegantes entre humor e dor. Certos antidepressivos reforçam justamente as vias de serotonina e noradrenalina que inibem a dor descendo do cérebro para a medula. Por isso aliviam a dor crônica mesmo em doses e contextos diferentes daqueles usados para a depressão, e mesmo em quem não está deprimido, com o bônus de, quando há depressão associada, tratar as duas coisas. Os principais, em nomes genéricos, são a duloxetina, um inibidor da recaptação de serotonina e noradrenalina com indicação reconhecida em dor crônica musculoesquelética, e os antidepressivos tricíclicos em dose baixa, como a amitriptilina e a nortriptilina, muito usados no componente neuropático e na melhora do sono.
- O que esperar
- O efeito sobre a dor costuma aparecer em algumas semanas. O tema é aprofundado na página sobre antidepressivos: o que são e como agem.
Acupuntura e eletroacupuntura
- Mecanismo
- A acupuntura médica modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (a teoria da comporta), pela ativação das vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. Aqui o detalhe que importa para quem tem dor nas costas somada a ansiedade ou depressão: essas vias descendentes de serotonina e noradrenalina são exatamente as que o humor rebaixado enfraquece, de modo que a agulha trabalha no mesmo circuito que o transtorno de humor desregulou. É por isso que, junto com o alívio da dor lombar e dorsal, muitos pacientes relatam um efeito de desativação do estado de alerta, com sono mais profundo na noite da sessão, algo coerente com o componente autonômico desses quadros.
- Evidência
- Há evidência moderada para a lombalgia crônica, com recomendação de diretrizes em contextos selecionados, e é uma técnica útil quando se busca reduzir o uso de medicação em pessoas que já carregam antidepressivos, indutores do sono e analgésicos.
- O que esperar
- Na dor das costas de fundo emocional eu costumo fechar um bloco de 6 a 10 sessões, em geral 1 vez por semana, com uma reavaliação formal por volta da quarta sessão; nesses quadros o ganho costuma ser irregular no começo, com semanas melhores e piores que acompanham o estresse e o sono, e o que se observa ao longo do bloco é menos a dor “sumir” e mais a queda dos picos e a redução do tempo para a dor ceder após uma recaída. A técnica é aplicada por médico acupunturiatra, que integra a sessão ao restante do plano, da medicação à reabilitação, em vez de tratá-la como recurso isolado.
Reabilitação e o componente miofascial
- Mecanismo
- A tensão emocional sustentada se traduz em tensão muscular, e isso não é figura de linguagem: ansiedade e depressão mantêm a musculatura axial em contração tônica de fundo, e o paravertebral lombar, o quadrado lombar, o trapézio inferior e a faixa toracolombar acabam desenvolvendo pontos-gatilho que somam uma camada concreta e palpável de dor à dor “central” já amplificada. É a parte do quadro que se sente com os dedos, em bandas tensas que reproduzem a queixa quando comprimidas. No agulhamento seco a agulha é levada diretamente a esse ponto-gatilho na musculatura das costas para disparar a resposta de contração local, que reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e desfaz a banda tensa, com efeito analgésico local e segmentar; na região dorsal alta, a técnica exige cuidado anatômico pela proximidade da pleura.
- Evidência
- A reabilitação ativa e individualizada é a parte que sustenta o resultado no tempo, e o agulhamento seco tem boa evidência para a dor miofascial, atuando sobre a camada muscular sem que se espere dele resolver o componente de humor ou de sensibilização central, que dependem das demais frentes do plano.
Sono: a alavanca que muitos esquecem
- Mecanismo
- Como o sono ruim baixa o limiar de dor e piora o humor, cuidar dele rende em três frentes ao mesmo tempo. Medidas de higiene do sono, o tratamento da insônia (a terapia cognitivo-comportamental para insônia tem a melhor evidência) e o manejo da dor noturna se reforçam mutuamente.
- O que esperar
- A melhora do sono costuma anteceder e facilitar a melhora da dor e do humor, e por isso é abordada desde o início, e não deixada para depois.
Mapear e iniciar
Avaliar dor e humor juntos, desarmar o alarme com educação em dor, iniciar movimento suave e cuidar do sono.
Progredir nas duas frentes
Exposição graduada ao exercício, técnicas em clínica e, quando indicado, início de medicação e psicoterapia.
Reavaliar
Medir dor, função e humor. Sem a resposta esperada, revê-se o plano e reforça-se o cuidado em saúde mental.
O que vejo no consultório, da prática clínica
Estas observações são impressões clínicas para discussão, não dados de estudo. O arquétipo mais comum nesse quadro não é a pessoa visivelmente deprimida, e sim quem chega com uma dor lombar ou dorsal “que não passa”, já com exames de imagem normais ou com achados banais, e que só ao ser perguntada sobre sono, concentração e ânimo revela o quadro de humor por trás. O emocional raramente é a queixa de entrada; ele aparece quando a procuramos.
O erro mais frequente que encontro é o paciente ter ouvido, em algum momento, que “é só ansiedade” e ter saído sem tratamento nenhum, como se nomear o componente emocional encerrasse o assunto. O efeito prático é o oposto do pretendido: a pessoa se sente desacreditada, deixa de relatar a dor e o quadro se cronifica. Nomear o fator emocional deveria abrir um plano, não fechar a porta.
O meu limiar para envolver formalmente psiquiatria e psicologia, e não só sugerir, é quando o humor ou o sono já comprometem a adesão ao movimento, ou quando há sinais de depressão que vão além da reação compreensível à dor; nesse ponto insistir só na frente física tende a render pouco. E o que mais surpreende os pacientes é descobrir que um antidepressivo em dose baixa pode ser prescrito pela dor, agindo nas vias que a controlam, sem que isso signifique que eu considere a dor deles “inventada” ou apenas psicológica.
Quase todo texto repete que “estresse causa tensão muscular”, e para por aí, no nível do músculo. O ponto que costuma faltar é que, nesses quadros, a maior parte da dor que persiste não vem mais da contração muscular e sim da sensibilização central, do ganho de volume do sistema nervoso. Isso tem uma consequência incômoda e pouco dita: relaxar o músculo, com agulha, massagem ou medicação, alivia uma camada, mas não a camada que sustenta a cronicidade. É por isso que tratamentos focados só na musculatura das costas tantas vezes “funcionam por uns dias e voltam”, e por que a frente que mexe no processamento da dor, exercício graduado, sono e, quando indicado, medicação que reforça as vias inibitórias, costuma ser a que muda o curso, ainda que seja a menos palpável e a mais lenta de mostrar resultado.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
A ansiedade causa dor nas costas?
Sim. A ansiedade aumenta a tensão muscular na região dorsal e paravertebral, altera o padrão respiratório e, de forma mais profunda, amplifica o processamento da dor pelo sistema nervoso (sensibilização central). A dor resultante é real e física, ainda que não haja uma lesão estrutural nova. Tratar a ansiedade costuma reduzir a dor.
A ansiedade dá dor nas costas ao respirar?
Pode dar. Em tensão sustentada, os músculos da parede torácica e da região dorsal ficam contraídos e a respiração fica curta, sobrecarregando os músculos intercostais e paravertebrais. Isso gera uma dor que aperta ao inspirar fundo. Na ausência de sinais de alerta, costuma ter origem musculoesquelética e emocional, mas uma dor torácica nova sempre merece avaliação médica para afastar causas cardíacas e pulmonares.
A depressão causa dor nas costas?
Sim, e a relação é bidirecional. A depressão reduz a serotonina e a noradrenalina, neurotransmissores que ajudam a inibir a dor, piora o sono e leva à inatividade, tudo isso intensificando a dor nas costas. Ao mesmo tempo, a dor crônica aumenta o risco de depressão. Por isso o tratamento eficaz cuida das duas coisas ao mesmo tempo.
Minha dor é “psicológica” ou “real”?
É uma falsa oposição. Toda dor é processada pelo cérebro, e fatores emocionais modulam a intensidade com que ela é sentida, mas isso não a torna menos real. A dor que tem componente emocional dói de verdade e responde a tratamento de verdade. Dizer que é “só psicológico” é tão incorreto quanto ignorar o componente emocional.
Tratar a depressão melhora a dor nas costas?
Com frequência, sim. Quando há depressão ou ansiedade associadas, tratá-las costuma reduzir a intensidade da dor e melhorar a resposta ao tratamento físico. Alguns antidepressivos, como a duloxetina e os tricíclicos em dose baixa, aliviam a dor por agirem nas vias que a controlam, com o benefício de tratar também o humor quando indicado. A escolha é sempre do médico.
Devo procurar um psiquiatra ou um médico da dor?
Idealmente, os dois trabalham juntos. O médico da dor cuida do componente físico e articula o tratamento; o psiquiatra e o psicólogo cuidam do transtorno de humor. A abordagem biopsicossocial pressupõe esse cuidado conjunto. Se há pensamentos de morte ou desesperança intensa, procure ajuda imediata e ligue 188 (CVV).
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Wong JJ; Tricco AC; Côté P; Liang CY; Lewis JA; Bouck Z; Rosella LC. Association Between Depressive Symptoms or Depression and Health Outcomes for Low Back Pain: a Systematic Review and Meta-analysis. Journal of general internal medicine. 2022. doi:10.1007/s11606-021-07079-8. PMID:34383230.
- Saravanan A; Bai J; Bajaj P; Sterner E; Rajagopal M; Sanders S; Luckose A; Kushnick M; Starkweather A. Composite Biomarkers, Behavioral Symptoms, and Comorbidities in Axial Low Back Pain: A Systematic Review. Biological research for nursing. 2023. doi:10.1177/10998004231171146. PMID:37139992.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica ou psiquiátrica individual. Na dor das costas com componente de humor, o peso de cada frente, física, emocional e medicamentosa, muda de pessoa para pessoa, e o plano só é definido, e individualizado, após avaliação que olhe a coluna e o estado mental em conjunto. Em caso de sofrimento emocional intenso ou pensamentos de morte, ligue 188 (CVV), 24 horas e gratuito, ou procure uma emergência.

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Assunto muito bem explicado!
Conteúdo excelente.
Gostei muito desse artigo. Estava me sentindo só. Agora sei que pessoas se preocupam com o bem estar do próximo. Muito boa explicação. Fiquei mais tranquila. Obrigada.