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Síncope ou desmaio: o que pode ser?

Síncope, ou desmaio, é a perda breve de consciência por queda momentânea do fluxo de sangue ao cérebro. A maioria é benigna (reflexa), mas pode sinalizar problema cardíaco ou neurológico. Texto informativo para entender a fisiopatologia, as causas, como o desmaio é investigado e como a síncope vasovagal é tratada.

Resposta direta
  • Síncope é desmaiar: perder a consciência de forma breve porque o cérebro recebe, por alguns segundos, menos sangue do que precisa (hipoperfusão cerebral global). A pessoa cai, fica inconsciente por instantes e em geral se recupera por completo em pouco tempo.
  • A causa mais comum é a síncope reflexa (vasovagal ou neuromediada), benigna, disparada por dor, medo, calor, jejum, ficar muito tempo em pé ou ver sangue. Costuma vir com pródromos: enjoo, suor frio, visão escurecendo, palidez.
  • Alguns desmaios são sinais de alerta. Desmaiar durante esforço físico, sem nenhum pródromo, deitado, com palpitação ou dor no peito, ou em quem tem doença cardíaca estrutural, ECG anormal ou história familiar de morte súbita exige avaliação médica urgente, muitas vezes no pronto-socorro.
  • A síncope reflexa tem tratamento, e ele é, em primeira linha, não farmacológico: educação, expansão de volume e manobras de contrapressão física. Mas quem investiga e conduz o desmaio é o cardiologista (sobretudo o arritmologista) ou o neurologista, não uma clínica de dor. Não oferece tratamento para síncope.
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Quando o desmaio é uma emergência

Pessoa caída de costas no chão de uma calçada, com o celular ao lado da mão aberta, enquanto outra pessoa se ajoelha ao lado para socorrer.
A perda súbita de consciência com queda exige observador atento: o socorro imediato e a descrição do episódio orientam a investigação.

Antes de entender os tipos de desmaio, é essencial reconhecer o desmaio de alto risco. A maioria das síncopes é benigna, mas algumas características, validadas por escores de estratificação como a San Francisco Syncope Rule e o escore EGSYS, transformam um desmaio comum em motivo para buscar atendimento sem demora, porque apontam para arritmia, doença estrutural do coração ou causa neurológica.

Sinais de alerta · procure avaliação ou o pronto-socorro

Desmaio que pede avaliação urgente

  • Desmaio durante o esforço físico (correndo, na academia, subindo escada), e não logo depois de parar, ou desmaio deitado / sentado.
  • Desmaio sem nenhum pródromo (sem enjoo, suor ou visão escurecendo), que faz a pessoa cair “do nada”.
  • Desmaio precedido ou seguido de palpitação (coração disparado ou irregular) ou de dor no peito.
  • Desmaio em quem tem doença cardíaca estrutural conhecida (infarto prévio, insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida, valvopatia, cardiomiopatia) ou em pessoa idosa.
  • ECG anormal: bloqueio bifascicular, QRS largo, intervalo QT longo ou curto, padrão de Brugada, pré-excitação (Wolff-Parkinson-White), ondas T invertidas em precordiais direitas / onda épsilon.
  • História familiar de morte súbita ou de morte inexplicada antes dos 50 anos em parente de primeiro grau.
  • Demora para voltar a si, confusão prolongada, movimentos tônico-clônicos sustentados, mordedura lateral da língua ou perda de urina associadas ao episódio.
  • Falta de ar, dor no peito, fraqueza ou alteração da fala/visão que continuam após acordar.

Cada item aponta para uma hipótese diferente, e por isso muda a urgência. O desmaio durante o esforço, deitado ou sem pródromo é clássico da síncope cardíaca, em que o coração falha em manter o débito por uma arritmia (taqui ou bradiarritmia) ou por uma obstrução ao fluxo; é a forma que mais preocupa, porque se associa a aumento da mortalidade no primeiro ano. O ECG anormal e a história familiar de morte súbita levantam a suspeita de canalopatias ou cardiomiopatias hereditárias (síndrome do QT longo, Brugada, cardiomiopatia hipertrófica, displasia arritmogênica do ventrículo direito).

A presença de abalos sustentados, mordedura lateral da língua ou confusão pós-evento demorada sugere crise epiléptica, e não síncope, o que muda toda a investigação. Na dúvida, diante de qualquer um desses sinais, o caminho é o pronto-socorro ou avaliação médica imediata, não esperar para ver se acontece de novo.

Em uma frase

Desmaio com pródromo, em pé, depois de dor ou emoção, costuma ser reflexo e benigno. Desmaio sem pródromo, no esforço ou deitado, com palpitação, ECG alterado ou em quem tem o coração doente é, até prova em contrário, um sinal para procurar o pronto-socorro.

Alunos em pe ao redor da mesa observando demonstração de eletroacupuntura
Ensino e formação Demonstração pratica de eletroacupuntura com a equipe reunida.

O que é síncope e o que não é

Síncope é o termo médico para o desmaio, e tem uma definição precisa: perda transitória da consciência (PTC) por hipoperfusão cerebral global, de início rápido, curta duração e recuperação espontânea e completa, acompanhada de perda do tônus postural (a pessoa cai). A chave fisiopatológica está na palavra global: o que apaga a consciência é a interrupção breve do fluxo de sangue ao cérebro como um todo. O córtex tolera mal a isquemia, e bastam cerca de 6 a 8 segundos de parada do fluxo cerebral, ou uma queda da pressão arterial sistólica para a faixa de 50 a 60 mmHg ao nível do coração, para apagar a consciência. Variantes de escrita como “cincope” se referem exatamente ao mesmo evento.

Antes do apagão, muitas pessoas passam pela pré-síncope (os pródromos): tontura, visão que escurece ou “fecha” das bordas para o centro, zumbido, suor frio, enjoo, fraqueza nas pernas, bocejos e palidez. Esses sinais refletem a hipoperfusão que se instala antes da perda total da consciência, e reconhecê-los é valioso, porque é nessa janela que dá para agir e abortar o desmaio. Nem toda pré-síncope evolui para síncope, e nem toda tontura é pré-síncope; a sensação de o ambiente rodar (vertigem) tem origem vestibular e é abordada no texto sobre muita tontura, o que pode ser.

É igualmente importante saber o que não é síncope, porque o mecanismo, a urgência e a conduta são outros. Quedas mecânicas sem perda de consciência (um tropeço, um drop attack) não são síncope. A crise epiléptica também causa perda de consciência, mas o mecanismo é uma descarga elétrica cortical anômala, não a hipoperfusão; costuma trazer abalos tônico-clônicos sustentados, mordedura lateral da língua, cianose e um período pós-ictal de confusão que dura minutos.

Entram ainda no diagnóstico diferencial a hipoglicemia, a intoxicação, a hipóxia e a crise não epiléptica psicogênica (perda de consciência aparente, mas funcional). Por isso o relato de quem presenciou o episódio (quanto tempo durou, se houve abalos, cor da pele, como a pessoa estava ao acordar) vale ouro: a duração breve dos abalos e a recuperação imediata apontam síncope; abalos prolongados e confusão demorada apontam crise epiléptica.

6 a 8s
Parada de fluxo cerebral que basta para apagar a consciência
Reflexa
Causa mais comum e benigna
Esforço
Desmaiar correndo ou deitado é sinal de alerta
Cardio/neuro
Quem investiga conforme a causa

Os principais tipos de desmaio

As guias internacionais (ESC 2018, ACC/AHA/HRS 2017) organizam a síncope verdadeira em três grandes grupos, pelo mecanismo que derruba a pressão e o fluxo cerebral: reflexa (neuromediada), por hipotensão ortostática e cardíaca. A diferença entre eles está, sobretudo, no que dispara o evento, na posição em que ocorre, na presença ou ausência de pródromo e no risco que cada um carrega. Conhecer esse mapa explica por que algumas situações são tranquilas e outras pedem pressa.

Síncope reflexa, vasovagal e neuromediada

É a causa mais comum de desmaio e, na grande maioria das vezes, benigna. O mecanismo é um reflexo autonômico paradoxal: diante de um gatilho, o sistema nervoso autônomo, em vez de sustentar a pressão, retira abruptamente o tônus simpático e dispara um surto vagal (parassimpático). O resultado é uma combinação de bradicardia (queda da frequência cardíaca, componente cardioinibitório) e vasodilatação com queda da resistência periférica (componente vasodepressor), que derruba o débito e a perfusão cerebral. Postula-se que o reflexo de Bezold-Jarisch, disparado por mecanorreceptores de um ventrículo vigorosamente contraído sobre baixo volume, participe do gatilho.

Por envolver o nervo vago, é popularmente chamada de choque ou reflexo vagal. Os gatilhos clássicos são dor intensa, emoção forte, susto, ver sangue, ambiente quente e abafado, jejum, desidratação e ortostase prolongada (filas, missas, shows). Tem uma assinatura reconhecível: pródromos típicos (enjoo, suor frio, palidez, visão escurecendo), pessoa de pé ou sentada, e recuperação rápida ao deitar e elevar as pernas. Uma variante é a síncope situacional, ligada a atos que disparam o reflexo: tossir, miccionar, evacuar, engolir ou rir.

Síncope por hipotensão ortostática

Ocorre quando a pressão arterial cai de forma sustentada ao assumir a posição de pé, porque o organismo não compensa a tempo o sequestro de 500 a 800 mL de sangue para os membros inferiores. O critério diagnóstico é objetivo: queda de pelo menos 20 mmHg na pressão sistólica ou de 10 mmHg na diastólica nos 3 minutos após levantar-se. É a famosa sensação de “tudo escurecer ao levantar rápido”. As causas se dividem em não neurogênicas (depleção de volume por desidratação ou hemorragia, calor, repouso prolongado e, muito comum, medicamentos) e neurogênicas (falência autonômica, como na doença de Parkinson, na atrofia de múltiplos sistemas e na neuropatia diabética ou amiloide).

Entre os fármacos que mais provocam o quadro estão diuréticos, vasodilatadores, nitratos, alfabloqueadores (usados na próstata), antidepressivos tricíclicos e antipsicóticos. Aqui vale um esclarecimento, porque buscas como “as baixa a pressão” e “as ajuda a baixar a pressão” revelam confusão entre nomes: o ácido acetilsalicílico (popularmente “AAS”) é um antiagregante e analgésico/anti-inflamatório que não foi feito para baixar pressão; quem reduz a pressão são os anti-hipertensivos, prescritos pelo médico. Não troque, suspenda ou inicie remédio de pressão por conta própria; a relação entre medicação e desmaio deve sempre ser revista por quem prescreve.

Síncope cardíaca: a que mais preocupa

É a causa potencialmente grave, em que o desmaio vem de uma queda abrupta do débito cardíaco. Tem duas grandes origens. A primeira é arrítmica: bradiarritmias (disfunção do nó sinusal, bloqueio atrioventricular avançado) ou taquiarritmias (taquicardia ventricular, taquicardias supraventriculares rápidas, torsades de pointes nas síndromes do QT longo). A segunda é estrutural / obstrutiva: estenose aórtica grave, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, mixoma, embolia pulmonar, dissecção de aorta, infarto agudo.

O perfil é oposto ao da reflexa: costuma ocorrer durante o esforço (típico da estenose aórtica e da cardiomiopatia hipertrófica) ou deitado, frequentemente sem pródromo (“cair no chão do nada”), pode vir com palpitação ou dor torácica, e é mais provável em quem já tem cardiopatia ou é idoso. É a forma que mais se associa a risco de morte súbita e a que mais justifica investigação rápida. A relação entre desmaio e sintomas torácicos é detalhada no texto sobre dor torácica, o que pode ser.

Causas neurológicas e imitadoras do desmaio

As causas estritamente neurológicas de perda de consciência são menos frequentes do que muitos imaginam, mas precisam ser separadas da síncope. A crise epiléptica, como visto, não é síncope: a perda de consciência vem de descarga cortical, com abalos tônico-clônicos sustentados, mordedura lateral da língua e confusão pós-ictal. Eventos vasculares cerebrais raramente se manifestam como desmaio isolado e costumam vir com déficit focal (fraqueza, disartria, alteração visual); a exceção é a rara síncope por roubo da subclávia ou por insuficiência vertebrobasilar. A síndrome de taquicardia postural ortostática (POTS), mais comum em mulheres jovens, cursa com taquicardia ao ficar de pé e pré-síncope, sem hipotensão clássica.

Entram ainda no diferencial a hipoglicemia e a crise não epiléptica psicogênica. A separação entre síncope verdadeira e essas imitações é feita pelo médico, com base na história, no relato de testemunhas e em exames.

Tipos de síncope: pista clínica e a quem encaminhar
Tipo de síncopePista que diferenciaConduta / a quem procurar
Reflexa / vasovagalPródromos (enjoo, suor, palidez), em pé, após dor, emoção, calor ou jejumGeralmente benigna; educação, contrapressão e avaliação eletiva (clínico/cardiologista)
SituacionalSurge ao tossir, miccionar, evacuar ou engolirEm geral benigna; avaliar gatilhos com o clínico
Hipotensão ortostáticaAo levantar; queda de 20/10 mmHg em 3 min; ligada a desidratação, fármacos ou falência autonômicaRever volume e medicamentos com o médico que prescreve; clínico/cardiologista
Cardíaca (arrítmica ou estrutural)No esforço ou deitado, sem aviso, com palpitação/dor torácica, ECG anormal, em cardiopata/idosoAvaliação urgente; pronto-socorro e cardiologista/arritmologista
Neurológica / crise epilépticaAbalos sustentados, mordedura lateral da língua, confusão pós-ictal, déficit focal persistenteAvaliação urgente; neurologista (não é síncope)

Essa tabela é um guia de leitura, não um substituto da consulta. Um mesmo episódio pode ter características de mais de um grupo, e só a avaliação médica, com a história completa e os exames adequados, define a causa e o risco de cada caso.

Como o desmaio é investigado e quem cuida

A investigação da síncope começa pela parte mais importante e que não custa nada: a história clínica detalhada, complementada pelo relato de testemunhas. O médico vai querer caracterizar três momentos: o que antecedeu (posição, gatilho, esforço, pródromos), o evento em si (duração, palidez, abalos, mordedura de língua) e a recuperação (imediata na síncope, demorada e confusa na crise epiléptica). Esse relato orienta o diagnóstico mais do que qualquer exame isolado, porque é o que separa o reflexo vagal benigno da síncope de esforço que preocupa.

A seguir vêm os pilares do exame inicial, recomendados a todo paciente que desmaiou. A medida da pressão deitado e em pé (em 1 e 3 minutos) flagra a hipotensão ortostática pelo critério de 20/10 mmHg. O eletrocardiograma de 12 derivações (ECG) é praticamente obrigatório, porque é rápido, barato e pode revelar as pistas de alto risco: bloqueio atrioventricular, QRS largo, QT longo ou curto, padrão de Brugada, pré-excitação (onda delta do Wolff-Parkinson-White) ou ondas T invertidas e onda épsilon da displasia arritmogênica. A partir daí, a investigação é dirigida pela suspeita, e cada exame só muda a conduta em um cenário definido:

Ecocardiograma
Quando se suspeita de doença estrutural. Avalia estenose aórtica, cardiomiopatia hipertrófica e fração de ejeção, que estratifica o risco de morte súbita.
Monitorização do ritmo (Holter 24 a 72 h)
Útil só quando os episódios são frequentes. Tenta correlacionar sintoma e arritmia; uma monitorização normal num período sem sintomas não exclui causa arrítmica.
Monitor de eventos / looper implantável
Para síncope recorrente, inexplicada e de provável origem arrítmica, com episódios raros. O dispositivo subcutâneo registra o ritmo por até 3 anos e é o padrão para flagrar a arritmia no momento do desmaio.
Teste de esforço
Indicado quando a síncope ocorre durante ou logo após o exercício, para investigar isquemia e arritmias induzidas pelo esforço.
Tilt test (teste de inclinação)
Reproduz, sob monitorização, o reflexo vasovagal. Não confirma a causa sozinho, mas ajuda quando o diagnóstico é incerto e pode revelar o subtipo (cardioinibitório, vasodepressor ou misto).
Investigação neurológica (EEG, imagem)
Reservada a quando há suspeita real de crise epiléptica ou déficit focal. Pedir eletroencefalograma e tomografia/ressonância em desmaio reflexo típico só gera achados irrelevantes e atraso.

Quem conduz essa investigação não é a clínica de dor. A síncope é avaliada, em primeiro lugar, pelo clínico geral ou no pronto-socorro, com estratificação de risco que decide quem fica em observação e quem pode investigar ambulatorialmente. O especialista de referência costuma ser o cardiologista, em especial o arritmologista quando há suspeita de causa cardíaca, ou o neurologista, quando o quadro aponta para crise epiléptica ou outra causa do sistema nervoso. Ser honesto sobre isso é parte do cuidado: encaminhar para o lugar certo, em vez de tentar tratar o que não é da nossa área, é o que protege você.

Suspeita cardíaca

Cardiologista / arritmologista

Desmaio no esforço, deitado, sem pródromo, com palpitação, ECG anormal ou em cardiopata. Investiga arritmia e doença estrutural (ECG, Holter, looper, ecocardiograma) e estima o risco de morte súbita.

Suspeita neurológica

Neurologista

Abalos tônico-clônicos sustentados, mordedura lateral da língua, confusão pós-ictal ou déficit focal persistente. Diferencia crise epiléptica de síncope.

Assista: 5 Causas de Tontura e Mal Estar: Causas Surpreendentes!

Como a síncope vasovagal é tratada

Quando a investigação confirma que o desmaio é da forma reflexa (vasovagal) e exclui causa cardíaca, há um plano de tratamento com lastro em diretriz, e ele é deliberadamente escalonado: começa pelo que tem melhor relação entre evidência e segurança (medidas não farmacológicas), reserva o remédio para quem mantém episódios apesar dessas medidas, e guarda os dispositivos para casos selecionados. Vale o limite desde já: estas linhas se aplicam à síncope reflexa já investigada, são individualizadas por médico, e não se aplicam a quem ainda não foi avaliado nem a quem tem sinais de alerta. A meta não é a cura, e sim reduzir a frequência e a gravidade dos episódios e prevenir trauma.

Educação e gatilhos

Base de tudo: reconhecer pródromos, evitar e tratar os gatilhos (calor, jejum, ortostase prolongada), rever medicamentos hipotensores.

Expansão de volume

Hidratação e, quando indicado, aumento da ingestão de sal para sustentar o volume circulante.

Manobras e treino físico

Manobras de contrapressão física para abortar o episódio e, em casos selecionados, tilt training.

Farmacoterapia e dispositivos

Fludrocortisona, midodrina ou ISRS quando as medidas não bastam; marca-passo apenas na forma cardioinibitória refratária.

Educação, reconhecimento de pródromos e ajuste de gatilhos

O que é
a primeira linha, e a mais eficaz no conjunto. Consiste em explicar a natureza benigna do quadro, ensinar a reconhecer os pródromos e a agir, e identificar e evitar os gatilhos individuais.
Mecanismo
reduz tanto a exposição ao reflexo (menos jejum, menos calor e ortostase prolongada) quanto a chance de queda, porque a pessoa aprende a se deitar ao primeiro aviso, antes que a perda de consciência se complete. Inclui rever, com o médico que prescreve, fármacos que favorecem a hipotensão (diuréticos, vasodilatadores, nitratos, alfabloqueadores, tricíclicos).
Evidência
é recomendação de primeira linha das diretrizes (ESC 2018, classe I) para todo paciente avaliado; sua força vem do consenso e da segurança, não de grandes ensaios.
O que esperar
em muitos casos, só a educação e o ajuste de gatilhos já reduzem de forma relevante a frequência dos episódios.
Limitações
depende da adesão e do reconhecimento precoce dos pródromos; não protege quem desmaia sem aviso (o que, aliás, deve reabrir a suspeita de causa cardíaca).

Expansão de volume: hidratação e sal

O que é
aumentar a ingestão de líquidos e, em pacientes selecionados sem hipertensão nem insuficiência cardíaca, da quantidade de sal, para sustentar o volume circulante.
Mecanismo
a expansão do volume plasmático aumenta o retorno venoso e o enchimento ventricular, atenuando a queda de pressão que dispara o reflexo.
Evidência
recomendação das diretrizes com base fisiológica e estudos de pequeno e médio porte; o nível de evidência é moderado.
O que esperar
uma meta prática frequente é em torno de 2 a 2,5 litros de líquidos ao dia, ajustada ao caso; a manobra de ingerir rapidamente um copo de água pode elevar a pressão de forma transitória em quem sente o pródromo.
Limitações / contraindicações
a sobrecarga de sal e líquido é contraindicada na hipertensão arterial, na insuficiência cardíaca e na doença renal; por isso a indicação e a quantidade são definidas pelo médico, nunca por conta própria.

Manobras de contrapressão física e tilt training (fisioterapia)

O que é
a intervenção física para abortar o episódio em curso (manobras de contrapressão) e, em casos selecionados, um treino postural progressivo (tilt training) conduzido como reabilitação. As manobras consistem em cruzar as pernas e contrair com força coxas e glúteos, entrelaçar as mãos e tracioná-las em sentidos opostos tensionando os braços, ou apertar uma bola de borracha.
Mecanismo
a contração isométrica de grandes grupos musculares aumenta a resistência vascular periférica e o retorno venoso, elevando a pressão arterial em alguns segundos e revertendo a hipoperfusão antes da perda de consciência; o tilt training busca dessensibilizar o reflexo pela exposição ortostática repetida.
Evidência
esta é a modalidade com melhor sustentação científica entre as não medicamentosas. Uma revisão sistemática com metanálise (Auton Neurosci, 2024) avaliou manobras de contrapressão física, tilt training e ioga e indicou benefício das abordagens não farmacológicas na prevenção de recorrência, com magnitude variável entre os estudos; as manobras de contrapressão têm evidência de ensaios controlados e recomendação de diretriz (ESC 2018, classe I).
O que esperar
as manobras agem em segundos e servem para abortar o episódio quando há pródromo; o efeito do tilt training é gradual e depende fortemente da adesão.
Limitações
as manobras só funcionam se houver tempo de pródromo (não servem para a síncope sem aviso); o tilt training tem resultados heterogêneos justamente porque muitos pacientes abandonam o programa.

Farmacoterapia: quando as medidas não bastam

O que é
a segunda linha, reservada a quem mantém síncope recorrente apesar das medidas anteriores. Não há um remédio “padrão-ouro”; a escolha é individualizada e o efeito, modesto.
Mecanismo geral e evidência
os fármacos atuam ou sustentando o volume e o tônus vascular, ou bloqueando parcialmente o braço do reflexo. A tabela abaixo resume as classes.
O que esperar
redução parcial da frequência em uma parte dos pacientes, com resposta que varia entre pessoas.
Limitações
cada classe tem contraindicações e efeitos próprios; nenhuma deve ser iniciada por conta própria, e a dose é titulada pelo médico.
Fármacos usados na síncope vasovagal refratária
Classe / exemploMecanismoIndicação preferencialCautelas / contraindicações
Mineralocorticoide
fludrocortisona
Retém sódio e expande o volume plasmáticoJovens, com tendência a hipovolemia; sem hipertensãoHipertensão, insuficiência cardíaca, hipopotassemia, edema
Alfa-agonista
midodrina
Vasoconstrição arterial e venosa (agonista alfa-1)Componente vasodepressor, sem hipertensão deitadoHipertensão supina, retenção urinária, doença arterial; sustenta evidência mais consistente
BetabloqueadoresReduzem o estímulo aos mecanorreceptores ventricularesBenefício possível em pacientes com mais de 40 a 42 anosSem benefício (e possível piora) em jovens; asma, bradicardia, bloqueio
Inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS)Modulam centralmente o reflexo autonômicoCasos selecionados, sobretudo com forte componente emocionalEvidência limitada; efeitos adversos próprios da classe

Entre essas opções, a midodrina é a que reúne a evidência mais consistente em ensaios controlados, e os betabloqueadores ilustram bem por que a decisão é individual: úteis em pacientes mais velhos, tendem a ser ineficazes ou contraproducentes em jovens. Toda essa farmacoterapia é off-label em boa parte dos casos, exige indicação por especialista e convive com as medidas não farmacológicas, que não são abandonadas.

Marca-passo cardíaco em casos selecionados

O que é
a terceira linha, restrita a um subgrupo pequeno e bem definido.
Mecanismo
o estimulador cardíaco artificial impede a bradicardia ou as pausas (assistolia) que derrubam o débito no componente cardioinibitório do reflexo; não age sobre o componente vasodepressor.
Indicações
pacientes com mais de 40 anos, síncope reflexa recorrente e grave, e pausas (assistolia) documentadas durante o desmaio espontâneo (pelo looper implantável) ou induzidas no tilt test, no subtipo cardioinibitório.
Evidência
ensaios como o ISSUE-3 e estudos de estimulação com algoritmo de closed-loop (BioSync CLS) mostraram redução da recorrência nesse subgrupo selecionado; a indicação é classe IIa em cenário restrito.
Limitações
não beneficia quem tem componente vasodepressor predominante, envolve um procedimento com seus riscos, e por isso é decisão do arritmologista, nunca o primeiro passo.
Primeiro passo

Não farmacológico

Educação, reconhecimento de pródromos, ajuste de gatilhos e de medicamentos, expansão de volume e manobras de contrapressão. Resolve a maioria.

Se recorre

Farmacoterapia

Fludrocortisona, midodrina, betabloqueador (em mais velhos) ou ISRS, individualizados, mantendo as medidas de base.

Subgrupo selecionado

Marca-passo

Apenas na forma cardioinibitória, com assistolia documentada, em paciente com mais de 40 anos e episódios graves recorrentes.

Importante

Este plano vale para a síncope reflexa já investigada e individualizada por médico; não substitui a avaliação. Se você nunca foi avaliado, ou se desmaiou no esforço, deitado, sem pródromo, com palpitação ou em cardiopata/idoso, o passo certo é procurar atendimento, não confiar em manobras.

O que fazer ao sentir que vai desmaiar

Para quem já tem o diagnóstico de síncope reflexa, saber agir no pródromo é o que mais previne quedas e trauma. Estas são orientações gerais de segurança, não um tratamento, e só se aplicam depois que um médico afastou as causas perigosas. Ao sentir os primeiros avisos (enjoo, suor frio, visão escurecendo), a prioridade é não cair de pé.

  1. Reconheça o pródromo

    Enjoo, suor frio, palidez, zumbido ou visão escurecendo das bordas para o centro são o sinal para agir antes de cair.

  2. Deite e eleve as pernas

    Ou sente-se com a cabeça baixa entre os joelhos. Elevar as pernas devolve o retorno venoso e a perfusão cerebral, e costuma abortar o desmaio.

  3. Use a contrapressão física

    Cruze e contraia pernas e glúteos, ou tensione os braços puxando as mãos entrelaçadas, para elevar a pressão em segundos.

  4. Previna no dia a dia

    Hidrate-se, evite jejum longo e calor abafado, e levante-se em etapas. Não ajuste remédios de pressão sozinho.

Levante-se devagar depois, em etapas, e procure um lugar seguro. Se o desmaio fugir desse padrão (sem aviso, no esforço, deitado, com palpitação) ou se você ainda não foi avaliado, o passo certo é a avaliação médica, não a manobra.

Onde uma clínica de dor entra e onde não entra

É justo explicar o limite do nosso papel. A síncope, em si, não é um quadro tratado por uma clínica de dor: a investigação e o manejo cabem ao clínico, ao cardiologista (em especial o arritmologista) e ao neurologista, conforme a causa. Não há, da nossa parte, tratamento a oferecer para o desmaio, e seria desonesto sugerir o contrário.

O ponto de contato é indireto e específico, e vem da fisiopatologia do reflexo. A síncope reflexa pode ser disparada por dor intensa, como uma crise aguda de enxaqueca, uma cólica forte ou a dor de um procedimento: a dor é o gatilho que dispara o surto vagal. Nesses casos, o desmaio é consequência do reflexo à dor, e não uma doença à parte; quando a dor crônica que provoca esses episódios é avaliada e controlada de forma adequada, o gatilho doloroso tende a ter menos peso.

Esse é o único elo legítimo, e mesmo ele só faz sentido depois que as causas cardíacas e neurológicas do desmaio foram afastadas por quem investiga. Para qualquer desmaio, a prioridade é a investigação correta, com o especialista certo.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

O que é síncope (cincope)?

Síncope é o nome médico do desmaio: uma perda transitória da consciência causada por hipoperfusão cerebral global (queda breve do fluxo de sangue ao cérebro), com recuperação rápida e completa. Bastam cerca de 6 a 8 segundos de interrupção do fluxo para apagar a consciência. A grafia “cincope” se refere ao mesmo evento. A causa mais comum é a síncope reflexa (vasovagal), benigna; algumas causas, porém, são cardíacas ou neurológicas e exigem avaliação.

Quais são as causas de síncope mais comuns?

As diretrizes dividem em três grupos: reflexa (vasovagal e situacional, de longe a mais frequente, disparada por dor, emoção, calor, jejum ou ortostase prolongada), por hipotensão ortostática (queda de 20/10 mmHg ao levantar, ligada a desidratação, fármacos ou falência autonômica) e cardíaca (arritmias e doença estrutural, a mais grave). As causas neurológicas, como a crise epiléptica, são imitadoras menos comuns. A história clínica é o que mais ajuda a diferenciar.

O que é choque vagal e ele é perigoso?

“Choque vagal” é a forma popular de chamar a síncope vasovagal: um reflexo autonômico que retira o tônus simpático e dispara um surto do nervo vago, reduzindo a frequência cardíaca (componente cardioinibitório) e a pressão (componente vasodepressor) até o desmaio. Na maioria das vezes é benigno, sobretudo quando há pródromos (enjoo, suor, palidez) e o gatilho é claro. Ainda assim, todo primeiro desmaio merece avaliação para confirmar essa causa e excluir algo cardíaco.

Caí no chão do nada, sem sentir nada antes. Devo me preocupar?

Desmaiar sem nenhum pródromo é justamente um dos sinais de alerta, porque é típico da síncope cardíaca. Some isso a desmaio durante esforço ou deitado, com palpitação ou dor no peito, ECG alterado, ou em quem tem doença do coração ou é idoso, e a recomendação é procurar o pronto-socorro ou avaliação médica sem demora. Não espere para ver se acontece de novo.

Síncope vasovagal tem tratamento?

Tem, e em primeira linha ele não é com remédio. As diretrizes recomendam educação, reconhecimento dos pródromos, ajuste de gatilhos e de medicamentos hipotensores, expansão de volume (hidratação e, quando indicado, sal) e manobras de contrapressão física, que têm boa evidência. Só quando os episódios recorrem apesar dessas medidas se consideram fármacos como fludrocortisona, midodrina, betabloqueador (em pessoas mais velhas) ou ISRS. O marca-passo fica reservado à forma cardioinibitória com assistolia documentada. A escolha é individualizada por médico.

O AAS baixa a pressão?

Não. O ácido acetilsalicílico (o “AAS”) é um antiagregante plaquetário e analgésico/anti-inflamatório, e não foi desenvolvido para baixar a pressão arterial. Quem reduz a pressão são os medicamentos anti-hipertensivos, prescritos e ajustados pelo médico. Vários remédios, porém, podem provocar hipotensão ortostática e desmaio (diuréticos, vasodilatadores, nitratos, alfabloqueadores, tricíclicos). Não inicie, troque nem suspenda remédio por conta própria: a relação entre medicação e desmaio deve ser revista por quem prescreve.

Qual médico procurar depois de um desmaio?

O primeiro contato costuma ser o clínico geral ou o pronto-socorro, que faz a avaliação inicial, mede a pressão deitado e em pé e realiza o eletrocardiograma. A partir da suspeita, o especialista de referência é o cardiologista (em especial o arritmologista, quando a causa pode ser do coração) ou o neurologista (quando o quadro sugere crise epiléptica ou outra causa neurológica). Uma clínica de dor não é o lugar para investigar ou tratar o desmaio.

Desmaio é a mesma coisa que convulsão?

Não. A síncope vem de uma queda breve do fluxo de sangue ao cérebro, e a recuperação costuma ser imediata; pode até haver alguns abalos breves por hipóxia (síncope convulsiva), o que confunde. A crise epiléptica tem origem na descarga elétrica cortical, em geral com abalos tônico-clônicos sustentados, mordedura lateral da língua e confusão pós-ictal demorada. Separar as duas é tarefa do médico, e por isso o relato de quem presenciou o episódio (duração dos abalos, cor da pele, recuperação) é tão importante.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências3 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Brignole M, et al. 2018 ESC Guidelines for the diagnosis and management of syncope. Eur Heart J. 2018;39(21):1883 a 1948. acessar
  2. Shen WK, et al. 2017 ACC/AHA/HRS Guideline for the Evaluation and Management of Patients With Syncope. Circulation. 2017;136(5):e60 a e122. acessar
  3. Alharbi A, et al. The efficacy of non-pharmacological and non-pacing therapies in preventing vasovagal syncope: tilt training, physical counter pressure maneuvers, and yoga. A systematic review and meta-analysis. Auton Neurosci. 2024;251:103144. acessar
Atualizado em 4 jun 2026 Leitura 11 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A síncope pode ter causas graves e deve ser investigada por médico. Diante de sinais de alerta, procure o pronto-socorro.

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