Síndrome do túnel do tarso: o que é, causas, sintomas e tratamentos
A síndrome do túnel do tarso é a compressão do nervo tibial posterior no lado interno do tornozelo, com queimação e dormência na planta do pé. Em geral é tratada de forma conservadora; a cirurgia fica para os casos refratários.
- A síndrome do túnel do tarso é uma neuropatia compressiva: o nervo tibial posterior fica preso sob o retináculo dos flexores, no lado interno do tornozelo, e gera dor, queimação e formigamento na planta do pé e nos dedos.
- A dor costuma piorar ao caminhar, correr e ficar em pé, e em parte das pessoas incomoda à noite; o repouso e a elevação do pé aliviam.
- O diagnóstico é clínico, apoiado pelo sinal de Tinel sobre o túnel e confirmado, quando preciso, pela eletroneuromiografia; o tratamento é conservador na maioria dos casos, com cirurgia de descompressão reservada ao quadro refratário.
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O que é o túnel do tarso
O túnel do tarso é um corredor estreito no lado interno do tornozelo, logo atrás e abaixo do osso saliente do maléolo medial. O teto desse canal é um ligamento espesso, o retináculo dos flexores. Por dentro dele passam tendões, vasos e, principalmente, o nervo tibial posterior, o nervo que dá sensibilidade e comando à planta do pé.
A síndrome do túnel do tarso acontece quando esse nervo é comprimido dentro do canal. É, em essência, o equivalente no pé daquilo que a síndrome do túnel do carpo representa no punho: um nervo periférico que perde espaço dentro de um túnel rígido e passa a sofrer. Quando comprimido, o tibial posterior fica isquêmico e irritado, e começa a disparar sinais anômalos, sentidos como queimação, choque, formigamento e dormência no território que ele inerva.
Logo dentro ou após o túnel, o nervo tibial posterior se ramifica em três ramos principais: o nervo plantar medial, o nervo plantar lateral e o ramo calcâneo. Por isso os sintomas podem ocupar toda a planta do pé ou se concentrar em uma região, dependendo de qual ramo está mais comprometido. Essa divisão anatômica explica por que duas pessoas com a mesma síndrome podem descrever a dor em locais um pouco diferentes do pé.
Na prática, é o nervo do pé que sofre quando uma queimação na planta não tem causa na pele nem na própria sola. Pensar em compressão do tibial posterior, e não só em fascite ou calo, muda completamente o caminho do tratamento.
Sintomas: como a dor se manifesta
O sintoma central é uma dor de caráter neuropático na planta do pé e nos dedos. Não é a dor “mecânica” típica de uma sola cansada, mas uma sensação de queimação, formigamento, agulhadas ou choques, às vezes acompanhada de dormência. Muitas pessoas descrevem a sensação de “pisar em brasa” ou de ter o pé “adormecido por dentro”, e parte delas relata uma piora à noite, na cama, que atrapalha o sono.
A topografia ajuda a reconhecer o quadro. A queixa costuma ocupar a planta do pé, o calcanhar e a face plantar dos dedos, ou seja, o território do nervo tibial posterior e de seus ramos. Em geral, a dor piora ao caminhar, correr ou ficar muito tempo em pé, situações em que o nervo é tracionado e o canal é mais solicitado, e tende a aliviar com o repouso e com a elevação do pé. Quem fica horas em pé no trabalho costuma sentir o agravamento ao longo do dia.
Esse formigamento e essa dormência são, na verdade, formas de parestesia, um sintoma neurológico que merece interpretação cuidadosa. Entender o que é a parestesia e o que ela pode significar ajuda a diferenciar uma compressão local de nervo, como a do túnel do tarso, de causas mais difusas. Em casos de compressão arrastada, pode surgir leve fraqueza da musculatura intrínseca do pé e, com o tempo, atrofia, embora isso seja menos frequente do que a queixa sensitiva.
- Queimação na planta. Dor em queimação ou agulhada na sola e nos dedos, sinal de origem no nervo.
- Piora em pé e ao caminhar. Ficar de pé, andar ou correr intensifica os sintomas; o repouso alivia.
- Formigamento e dormência. Parestesia no território plantar, às vezes em choque, irradiando para os dedos.
- Incômodo noturno. Em parte das pessoas, a dor aparece ou piora à noite e prejudica o sono.
Causas: por que o nervo é comprimido
Em boa parte dos casos, não se encontra uma causa única, e fala-se em síndrome idiopática. Quando há um fator identificável, ele costuma reduzir o espaço dentro do túnel ou aumentar a tração sobre o nervo. Reconhecer essa causa é decisivo, porque tratar apenas o sintoma sem corrigir o que comprime o nervo tende a não dar resultado duradouro.
Um dos fatores mecânicos mais comuns é o pé plano com queda do arco e desvio do retropé para fora (valgo). Esse alinhamento estira e angula o nervo tibial posterior ao redor do maléolo medial a cada passo, mantendo-o sob tração crônica. Por isso a correção do apoio do pé, com palmilhas e órteses, ocupa lugar central no tratamento. Massas que ocupam espaço dentro do canal, como um cisto sinovial (gânglio), um lipoma, um nervo varicoso ou veias dilatadas (varizes), comprimem o nervo de fora para dentro.
O trauma é outra via importante: entorses de tornozelo, fraturas próximas ao maléolo e cicatrizes ou fibrose pós-cirúrgicas podem estreitar o túnel ou prender o nervo. Há ainda causas sistêmicas que tornam o nervo mais vulnerável à compressão, sobretudo o diabetes, em que a polineuropatia diabética sensibiliza o nervo e se soma à compressão local; o hipotireoidismo e a artrite reumatoide também entram nesse grupo. Esportes de impacto e o aumento súbito de carga de corrida podem precipitar o quadro em um pé já predisposto.
| Causa | Como comprime o nervo | Conduta que costuma somar |
|---|---|---|
| Pé plano / valgo do retropé | Estira e angula o nervo a cada passo, por mau alinhamento do arco | Palmilha e órtese para corrigir o apoio |
| Cisto sinovial, lipoma, nervo varicoso | Massa ocupa espaço dentro do canal e pressiona o nervo | Imagem (ultrassom ou ressonância); por vezes remoção |
| Varizes / veias dilatadas | Aumento do volume venoso reduz o espaço do túnel | Avaliação vascular; medidas de redução de edema |
| Trauma (entorse, fratura, fibrose) | Estreitamento ou aderência do nervo após a lesão | Reabilitação; investigar cicatriz que prende o nervo |
| Diabetes e doenças sistêmicas | Nervo já fragilizado fica mais sensível à compressão | Controle metabólico e da doença de base |
A apresentação genérica trata o túnel do tarso como um gêmeo do túnel do carpo: comprima o nervo, libere o nervo. A diferença que muda o tratamento é que, no punho, a compressão costuma ser idiopática, enquanto no pé há, com frequência, uma causa concreta a ser caçada e tratada: um cisto sinovial, uma veia varicosa, um esporão ósseo, uma sequela de fratura ou, o mais comum de todos, um arco que desaba e joga o calcanhar para fora, estirando o tibial posterior a cada passo. Por isso a imagem (ultrassom, ressonância) e a eletroneuromiografia rendem mais aqui do que no carpo, e por isso o erro clássico é carimbar toda queimação na sola como “fascite plantar” ou “neuropatia do diabetes” e perder a massa ou o desabamento do arco que, corrigidos, resolvem o quadro. Achar a causa é o tratamento; tratar só o sintoma é remendar.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico começa pela história e pelo exame físico, e em muitos casos a clínica já é bastante sugestiva. A manobra mais característica é o sinal de Tinel: ao percutir levemente com o dedo sobre o trajeto do nervo, atrás do maléolo medial, o paciente sente um choque ou formigamento que se irradia para a planta do pé. Um Tinel positivo nesse ponto aponta com força para a compressão do tibial posterior.
O exame avalia ainda o alinhamento do pé em apoio (à procura de pé plano e valgo), a sensibilidade da planta, a presença de massas palpáveis no canal e o teste de dorsiflexão e eversão sustentadas, que aumenta a tensão sobre o nervo e pode reproduzir os sintomas. É importante diferenciar o quadro de outras causas de dor plantar, sobretudo a fascite plantar, mais frequente e muitas vezes confundida com ele, tema detalhado na página sobre a fascite plantar.
Quando há dúvida, ou quando se planeja uma intervenção, dois exames complementam a avaliação. A eletroneuromiografia (ENMG, que combina a eletroneurografia com a eletromiografia) estuda a condução do nervo tibial e a atividade da musculatura do pé, e ajuda a confirmar e a localizar a compressão, além de diferenciar a síndrome de uma polineuropatia, como a do diabetes. A ultrassonografia e a ressonância magnética são úteis para procurar uma causa que ocupa espaço, como cisto, lipoma ou varizes, e para planejar a cirurgia quando ela é cogitada. Vale lembrar que uma ENMG normal não exclui o diagnóstico em quadros iniciais ou puramente sensitivos.
Sinal de Tinel positivo
Percutir o nervo atrás do maléolo medial dispara choque e formigamento na planta, a pista clínica central.
Eletroneuromiografia
Mede a condução do nervo tibial e a musculatura do pé; localiza a compressão e afasta polineuropatia.
O que mais separa o túnel do tarso da fascite plantar no exame é o caráter da dor e o ponto que dói: a fascite arde mecanicamente no calcanhar nos primeiros passos da manhã e melhora ao aquecer, enquanto a queimação do nervo ocupa a sola e os dedos, piora ao longo do dia em pé e pode incomodar à noite na cama. Quando eu percuto atrás do maléolo medial e o paciente leva um choque que desce para a planta (o sinal de Tinel), a conversa muda de fascite para nervo. A parte que mais ensina é não parar no diagnóstico do nervo e sim procurar o porquê: peço o paciente em pé e olho o arco, porque um retropé em valgo que desaba é a causa silenciosa mais comum, e apalpo o canal atrás do tornozelo atrás de um caroço, porque um cisto ou uma veia varicosa que ocupa espaço muda a conduta inteira. O que costuma surpreender é a ordem do tratamento: a primeira “receita” não é remédio nem cirurgia, é uma palmilha que sustenta o arco e o ajuste de quanto tempo se fica em pé, porque enquanto o nervo é tracionado a cada passo nenhuma medicação segura o resultado.
Sinais de alerta
A maior parte dos casos de dor e formigamento no pé tem causa benigna e segue um curso favorável. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar, porque mudam a urgência ou a conduta. Procure atendimento sem demora diante de qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Fraqueza que piora de forma rápida, ou perda visível de musculatura (atrofia) do pé.
- Dormência ou formigamento que sobe pela perna, ou que afeta os dois pés ao mesmo tempo, sugerindo uma causa mais central ou sistêmica.
- Pé frio, pálido, sem pulso ou com dor desproporcional, que levanta suspeita de problema circulatório.
- Febre, vermelhidão e calor sobre o tornozelo, ou ferida que não cicatriza, sobretudo em quem tem diabetes.
- Dor de início súbito e intenso após trauma, com deformidade ou incapacidade de apoiar o pé.
Esses sinais não são típicos da síndrome do túnel do tarso isolada e apontam para outras hipóteses, de uma compressão mais proximal a uma neuropatia sistêmica, um problema vascular ou uma infecção. Em quem tem diabetes, qualquer ferida ou alteração de cor no pé merece atenção especial e avaliação rápida.
Tratamento na clínica: o caminho não-cirúrgico
O tratamento da síndrome do túnel do tarso é, na maioria dos casos, conservador, multimodal e individualizado. O objetivo é duplo: aliviar a dor neuropática e, sobretudo, retirar a causa que comprime ou traciona o nervo tibial posterior. A base combina a correção mecânica do apoio do pé com a reabilitação do nervo e, conforme o quadro, neuromodulação e procedimentos guiados. A reabilitação ativa (RPG, Pilates e fisioterapia), o tratamento medicamentoso e a cirurgia de descompressão têm seções próprias adiante; as técnicas abaixo somam à base ativa, não a substituem.
Órtese, palmilha e ajuste de carga
Suporte de arco medial e controle do valgo do calcâneo retiram a tração do nervo a cada passo; reduzir tempo em pé e impacto.
Mobilização neural e reabilitação
Neurodinâmica do tibial, fortalecimento intrínseco do pé e controle do retropé devolvem deslizamento ao nervo.
Acupuntura e eletroacupuntura
Adjuvante para a queimação plantar de componente neuropático, sempre acoplada à correção do apoio.
Agulhamento seco
Trata pontos-gatilho da panturrilha, do tibial posterior e da sola; não descomprime o nervo no canal.
Infiltração / bloqueio do tibial
Anestésico (por vezes com corticoide) guiado por ultrassom; alivia e tem valor diagnóstico.
Órteses, palmilhas e ajuste de carga: a base mecânica
- O que é
- Palmilha com suporte de arco medial e órtese de tornozelo, somadas ao ajuste do tempo em pé, do volume de corrida e dos impactos.
- Mecanismo
- Quando a causa é o pé plano com valgo do retropé, a palmilha reposiciona o calcâneo, restaura o arco e reduz a tração e a angulação do tibial posterior a cada passo — a forma mais direta de atacar o fator mecânico que mantém a compressão.
- Evidência
- Pilar reconhecido do tratamento conservador das neuropatias compressivas do pé associadas a mau alinhamento.
- O que esperar
- Alívio progressivo ao longo de semanas, à medida que o nervo deixa de ser tracionado de forma repetida; a palmilha é revista conforme a resposta.
- Indicações
- Idealmente individualizada para o tipo de pé; calçados com bom contraforte e amortecimento ajudam a sustentar o ganho.
Acupuntura e eletroacupuntura
- Mecanismo
- A acupuntura médica modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal (teoria da comporta), pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos. Na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas, útil no componente neuropático.
- Evidência
- Evidência moderada no manejo da dor crônica com componente neuropático; entra como adjuvante da correção do apoio.
- O que esperar
- Útil sobretudo para a queimação plantar e para reduzir a necessidade de gabapentinoide ou tricíclico em quem tolera mal esses fármacos. Agulham-se pontos locais ao redor do maléolo medial e do trajeto do tibial, somados a pontos segmentares de L4 a S2; reavalia-se após três a quatro sessões.
- Limitações
- Se a queimação não cede nada, o problema raramente é “pouca acupuntura” e sim uma causa mecânica não corrigida (o arco que desaba) ou uma massa no canal que precisa ser vista na imagem. Quem indica e aplica a agulha é o médico que examinou o pé e nunca como recurso isolado.
Agulhamento seco
- Mecanismo
- A panturrilha, o tibial posterior e a musculatura intrínseca do pé desenvolvem pontos-gatilho miofasciais que somam dor e perpetuam o ciclo dor-espasmo-dor. A agulha no ponto-gatilho provoca a resposta de contração local e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, sem injetar substância.
- O que esperar
- Quando há boa dose de dor miofascial somada, o paciente sai com a sola mais leve e a panturrilha menos endurecida em um a dois dias; quando a queixa é puramente do nervo aprisionado, o agulhamento muda pouco — contraste que ajuda a medir quanto do incômodo era muscular. Poucas sessões, conforme a resposta.
- Limitações
- A agulha trata o sofrimento muscular sobreposto; não descomprime o nervo no canal. Depende da correção do apoio para durar.
Agulhamento seco
A agulha trata o sofrimento muscular sobreposto; não descomprime o nervo no canal.
Ver referências →Infiltração e bloqueio do nervo
Mecanismo. A infiltração ou o bloqueio consiste na injeção de anestésico local, por vezes com um corticoide, ao redor do nervo tibial posterior dentro ou próximo ao túnel, com frequência guiada por ultrassom. O procedimento interrompe temporariamente a condução nociceptiva e reduz a inflamação local, abrindo uma janela de alívio que permite avançar a reabilitação. O bloqueio tem ainda valor diagnóstico: o alívio expressivo após injetar o anestésico no ponto certo reforça que o tibial posterior é mesmo a origem da dor. O efeito pode durar de dias a semanas e é combinado com a órtese e o exercício; é um recurso pontual, parte de um plano, e não uma solução isolada.
A infiltração perineural com dextrose a 5% guiada por ultrassom é uma alternativa sem corticosteroide para o nervo tibial no túnel do tarso, com a agulha acompanhada na tela até circundar o nervo.
Controle inicial
Reduzir a carga e o tempo em pé, iniciar a órtese ou palmilha e medidas de alívio; investigar a causa.
Reabilitação e neuromodulação
Mobilização neural, fortalecimento e técnicas em clínica; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e consideram-se bloqueio guiado, ajuste de fármacos ou avaliação cirúrgica.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A reabilitação ativa é o eixo do tratamento conservador da síndrome do túnel do tarso e a contrapartida indispensável da correção mecânica do apoio. A palmilha e a órtese tiram a tração do nervo, mas é o trabalho de controle do retropé, de deslizamento do nervo e de fortalecimento que sustenta o alívio e reduz a recorrência. Nenhum exercício “descomprime” mecanicamente o túnel; o que a reabilitação faz, e faz bem, é reorganizar a mecânica de carga do pé, devolver mobilidade ao nervo tibial e reduzir a sensibilização do sistema nervoso, peça central por se tratar de uma dor neuropática por aprisionamento. Na clínica, essa etapa é conduzida individualmente, um paciente por sala, com indicação médica, ajustada ao tipo de pé, ao fator que precipitou o quadro (pé plano e valgo, sobrecarga de corrida, trauma prévio) e à tolerância de cada pessoa.
O alvo não é fortalecer a esmo, e sim controlar o retropé e a pronação e reduzir a tração sobre o nervo tibial posterior a cada passo, recuperando a função dos músculos que sustentam o arco. O segundo princípio é o manejo da carga e da órtese: a palmilha com suporte de arco medial e o controle do valgo do calcâneo são o pano de fundo permanente sobre o qual a reabilitação acontece; sem eles, o exercício rende pouco.
Fisioterapia, cinesioterapia e controle do retropé
Fortalecimento da musculatura intrínseca do pé, do tibial posterior e da panturrilha, treino de controle do valgo do retropé na fase de apoio e dessensibilização progressiva do território plantar. O exercício do “pé curto” (short foot) recruta os músculos plantares profundos; fortalecer o tibial posterior melhora o suporte ativo do arco e reduz a pronação que traciona o nervo.
Mobilização neural (neurodinâmica)
Movimentos suaves e graduados do tornozelo e do membro inferior para devolver ao tibial posterior a capacidade de deslizar no túnel. Sliders mobilizam o nervo de uma extremidade enquanto relaxam a outra; tensioners entram com mais cautela. Reduz aderência e sensibilidade mecânica; combina-se ao alongamento da panturrilha e da fáscia plantar.
Reeducação Postural Global (RPG)
Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas. Atua sobre a cadeia posterior (panturrilha, isquiotibiais, cadeia lombar) por contração isométrica em posição alongada; reduzir o encurtamento dessa cadeia diminui a sobrecarga sobre o retropé e a tração do tibial. Complemento, sobretudo em quem tem encurtamento marcado da cadeia posterior.
Pilates clínico
Controle, estabilização e respiração no solo ou em aparelhos com molas. Uma base de estabilização mais competente melhora como a carga desce pela perna até o pé e favorece uma pisada que poupa o arco medial e reduz a pronação. Recurso de condicionamento global que apoia a reabilitação específica do pé.
O que esperar e limitações. Para o túnel do tarso a evidência é sobretudo indireta, como adjuvante das medidas de descarga e correção do alinhamento, e não como técnica que “abra” o túnel; o que parece importar é a adesão e a progressão individualizada. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é mantido depois do alívio para reduzir recorrência. Não substitui a correção mecânica do apoio nem, nos refratários, a descompressão cirúrgica; exercício mal dosado na fase muito dolorosa pode irritar o quadro — daí a necessidade de supervisão e de respeitar a progressão. Técnicas de tensão neural aplicadas com excesso sobre um nervo muito irritado também podem aumentar a dor.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cirurgia da síndrome do túnel do tarso tem papel restrito e bem definido, e a maioria dos casos não chega a ela. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; apresentamos o quadro completo e o momento de encaminhar ao cirurgião de pé e tornozelo (ortopedista) ou ao neurocirurgião.
Conservador · 1ª escolha
Resolve a maioria sem operar
- Órtese e palmilha que sustentam o arco e tiram a tração do nervo
- Reabilitação ativa, mobilização neural e fortalecimento do retropé
- Acupuntura, agulhamento e bloqueio guiado conforme o caso
- Fármaco para dor neuropática como adjuvante por tempo definido
Cirúrgico · exceção
Quando há causa ou refratariedade
- Causa compressiva identificável que ocupa espaço no canal (cisto, lipoma, nervo varicoso, fibrose)
- Tratamento conservador completo e bem conduzido sem alívio suficiente ao longo de meses
- Déficit neurológico progressivo: perda de sensibilidade, fraqueza ou atrofia da musculatura intrínseca
O procedimento de referência é a liberação (descompressão) do túnel do tarso: por uma incisão atrás do maléolo medial, secciona-se o retináculo dos flexores que forma o teto do canal, devolvendo espaço ao nervo, e libera-se também o nervo ao longo dos seus ramos plantar medial, plantar lateral e calcâneo quando há compressão distal. Quando existe uma massa, ela é ressecada no mesmo tempo cirúrgico. A decisão é compartilhada e leva em conta os achados de imagem, a confirmação pela eletroneuromiografia e a resposta às etapas anteriores.
Sobre a recuperação da liberação do túnel do tarso: costuma haver um período de proteção do tornozelo, com retorno gradual à carga e às atividades de impacto ao longo de algumas semanas, e a reabilitação e o cuidado com o alinhamento do pé (palmilha) seguem sendo importantes mesmo depois da cirurgia, para consolidar o resultado. As complicações, pouco frequentes, incluem cicatriz dolorosa, infecção, lesão de ramos nervosos e, sobretudo nos casos sem causa anatômica clara, alívio incompleto ou recidiva por fibrose perineural, de tratamento mais difícil. A expectativa realista deve ser calibrada ao perfil do caso: a chance de sucesso é maior quando existe uma compressão demonstrável a ser corrigida.
O papel do cuidado de base é reconhecer o momento de encaminhar, explicar o que cada caminho oferece e manter a reabilitação e a correção do apoio como eixo antes e depois de qualquer procedimento. Não há, no túnel do tarso, papel estabelecido para terapias promovidas como regeneradoras do nervo; a evidência nessa condição é insuficiente.
Tratamento medicamentoso
A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na síndrome do túnel do tarso: ajuda a controlar a dor para tolerar a reabilitação, mas não corrige a compressão nem a tração do nervo, que são resolvidas pela órtese, pela reabilitação, pelos procedimentos guiados e, nos refratários ou com causa anatômica, pela cirurgia. Sempre que possível, o melhor “tratamento medicamentoso” é tratar a causa de base — controlar o diabetes e o hipotireoidismo, por exemplo — porque uma neuropatia sistêmica mal controlada soma-se à compressão local e limita a resposta de qualquer fármaco. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.
| Classe | Para quê | Evidência | O que esperar |
|---|---|---|---|
| Tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina) | Dor neuropática; reforçam vias inibitórias descendentes em dose baixa | Moderada | Dose inicial baixa com ajuste progressivo; sonolência, boca seca e tontura comuns no início; retirada gradual |
| Duloxetina (IRSN) | Dor neuropática; cobre também a polineuropatia diabética, comorbidade frequente | Moderada | Ajuste progressivo conforme tolerância; útil quando há diabetes associado |
| Gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) | Modulam canais de cálcio e reduzem a hiperexcitabilidade das vias nociceptivas | Moderada | Dose inicial baixa, titulação lenta; sonolência, tontura e edema no início; retirada gradual |
| Anti-inflamatório oral | Papel limitado; algum lugar em ciclos curtos se houver componente inflamatório local (ex.: tenossinovite associada) | Limitada | Alivia só em parte e não muda o curso; uso prolongado expõe a risco gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos |
| Paracetamol e dipirona | Analgesia simples de apoio | Limitada | Efeito analgésico modesto na dor por aprisionamento |
| Relaxantes musculares | Papel restrito, quando há espasmo associado | Limitada | Uso limitado pela sonolência |
| Corticoide | Quando usado, é por via local na infiltração guiada | Limitada | Detalhado na seção de tratamento na clínica; não por via oral prolongada |
Como a queixa central é uma dor de caráter neuropático por aprisionamento, os fármacos para dor neuropática são os de melhor racional, e não os analgésicos comuns — essas classes agem modulando a transmissão da dor no sistema nervoso, e não sobre a compressão mecânica. Em todos os cenários, a medicação alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não substitui a correção mecânica do apoio nem o tratamento da causa.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
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Perguntas frequentes
O que é a síndrome do túnel do tarso?
É a compressão do nervo tibial posterior dentro do túnel do tarso, um canal estreito no lado interno do tornozelo. O nervo comprimido gera dor em queimação, formigamento e dormência na planta do pé e nos dedos, que pioram ao caminhar e ao ficar em pé. É o equivalente, no pé, da síndrome do túnel do carpo no punho.
Caroço no pé que dói pode ser túnel do tarso?
Pode. Um cisto sinovial (gânglio) ou outra massa dentro do túnel do tarso é uma das causas da síndrome: ele ocupa espaço no canal e comprime o nervo, podendo aparecer como um caroço dolorido no lado interno do tornozelo ou do pé. Um ultrassom ou ressonância ajuda a identificar a massa, e nem todo caroço no pé é túnel do tarso, por isso a avaliação é importante.
Como é feito o diagnóstico do túnel do tarso?
O diagnóstico é clínico, pela história e pelo exame, em que o sinal de Tinel (percutir o nervo atrás do maléolo medial e disparar choque na planta) é a pista central. Quando há dúvida ou se planeja uma intervenção, a eletroneuromiografia confirma e localiza a compressão, e a ultrassonografia ou a ressonância procuram uma causa como cisto, lipoma ou varizes.
Túnel do tarso tem que operar?
Na maioria das vezes, não. O tratamento é conservador e não-cirúrgico: órteses e palmilhas para corrigir o apoio, mobilização neural e reabilitação, acupuntura e agulhamento, bloqueio guiado e, quando indicado, medicação para dor neuropática. A cirurgia de descompressão fica reservada aos casos refratários ao tratamento bem conduzido ou quando há uma massa que comprime o nervo e precisa ser removida.
Qual a diferença entre túnel do tarso e fascite plantar?
São quadros diferentes que se confundem porque ambos doem na planta do pé. A fascite plantar causa dor mecânica no calcanhar, pior nos primeiros passos da manhã, ligada à fáscia plantar. O túnel do tarso causa dor de caráter neuropático, com queimação e formigamento, por compressão do nervo, com sinal de Tinel positivo. Veja a página sobre fascite plantar para comparar.
A queimação na planta do pé piora à noite, é normal?
A piora noturna da queimação e do formigamento é um padrão que aparece em parte das pessoas com compressão de nervo, incluindo a do túnel do tarso. Também ocorre em outras neuropatias, como a do diabetes. Por isso esse sintoma merece uma avaliação que diferencie uma compressão local de uma causa sistêmica, em vez de ser apenas tolerado.
Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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- Vij N, Kaley HN, Robinson CL, et al. Clinical Results Following Conservative Management of Tarsal Tunnel Syndrome Compared With Surgical Treatment: A Systematic Review. Orthop Rev (Pavia). 2022;14(3):37539. acessar
- Haq II, Banerjee AA, Arshad Z, et al. The management of tarsal tunnel syndrome: A scoping review. J Clin Orthop Trauma. 2024;54:102489. acessar
- Ahmad M, Tsang K, Mackenney PJ, Adedapo AO. Tarsal tunnel syndrome: A literature review. Foot Ankle Surg. 2012;18(3):149 a 152. acessar
- Thiagarajah. Acupuntura reduz dor da fascite plantar a curto prazo. Singapore Medical Journal. 2017. ver resumo
- Ma et al. Como a acupuntura pode aliviar a dor neuropática: mecanismos através do sistema sensorial. Frontiers in Neuroscience. 2022. ver resumo
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. No túnel do tarso a conduta muda conforme a causa encontrada (um arco que desaba, um cisto, uma variz ou uma sequela de trauma) e conforme o exame e a eletroneuromiografia, então o plano precisa ser individualizado em consulta e não copiado de um texto.
