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Tornozelo · Lesão ligamentar

Torção de tornozelo: graus, o que fazer e quando radiografar

A torção (entorse) de tornozelo é a lesão dos ligamentos que estabilizam a articulação, quase sempre por inversão do pé.

Resposta direta
  • Torção de tornozelo é a lesão dos ligamentos por um movimento brusco de inversão; o ligamento mais atingido é o talofibular anterior, na face externa do tornozelo.
  • O que fazer nas primeiras horas: proteger a carga conforme a dor, gelo, compressão e elevação, e avaliar a necessidade de radiografia pelas regras de Ottawa.
  • O tratamento atual privilegia a carga e o movimento precoces, não o repouso prolongado, e a reabilitação proprioceptiva é o que mais reduz o risco de instabilidade crônica.
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O que fazer agora

Nas primeiras horas depois de torcer o tornozelo, estes cuidados ajudam a controlar a dor e a decidir se é preciso radiografar:

  • Proteja o tornozelo e apoie o pé conforme a dor permitir; não é preciso imobilizar por completo — carga e movimento precoces, dentro do limite da dor, ajudam o ligamento a cicatrizar.
  • Gelo, compressão e elevação, por 15 a 20 minutos algumas vezes ao dia, controlam dor e inchaço na fase aguda; manter o gelo por muitos dias não acelera a cicatrização do ligamento.
  • Teste se consegue apoiar o peso e dar alguns passos. Não conseguir, ou sentir dor forte sobre o osso do maléolo (e não sobre o ligamento), é o que indica radiografia pelas regras de Ottawa.
  • Se precisar de analgesia, um analgésico simples costuma bastar; anti-inflamatório fica melhor em ciclos curtos e não de rotina, se o médico indicar.

Procure avaliação sem demora se houver incapacidade de apoiar o peso e dar alguns passos, dor intensa localizada sobre o osso do maléolo, ou dormência, formigamento, palidez ou pé frio (ver «Sinais de alerta», abaixo).

O que é uma torção de tornozelo

Ilustração editorial de um tornozelo torcendo para fora, com a parte externa destacada em terracota.
A torção estira ou rompe os ligamentos do tornozelo, com dor e inchaço.

Torção e entorse são o mesmo quadro: o estiramento ou a ruptura dos ligamentos que mantêm o tornozelo no lugar quando ele é forçado além da sua amplitude normal. Não é um “osso fora do lugar”, e sim uma lesão de tecido ligamentar, o que muda completamente a forma de tratar.

A grande maioria das torções de tornozelo acontece por inversão: o pé roda para dentro e a sola se volta para o lado de dentro, em geral ao pisar em falso, descer um degrau, saltar e cair mal ou correr em terreno irregular. Esse movimento estica de forma abrupta o complexo ligamentar lateral, na parte de fora do tornozelo. O ligamento que sofre primeiro, e em quase toda torção, é o talofibular anterior (LTFA); em lesões mais intensas, somam-se o ligamento calcaneofibular e, por último, o talofibular posterior.

Existem ainda dois cenários menos comuns, mas importantes de reconhecer. A torção por eversão (o pé roda para fora) lesa o ligamento deltoide, na face interna, e costuma ser mais grave porque se associa com mais frequência a fratura. E a chamada entorse alta, ou lesão da sindesmose, atinge os ligamentos que unem a tíbia à fíbula logo acima do tornozelo, dói na frente e acima da articulação e tem recuperação mais lenta. Saber qual estrutura foi atingida orienta tanto a investigação quanto o tempo esperado de reabilitação.

LTFA
Ligamento mais lesado na torção
~85%
São por inversão (face externa)
3
Graus de gravidade
Carga
Precoce, não repouso prolongado
Por que a reabilitação, e não o repouso, define o desfecho

O texto comum trata a entorse como um episódio que se resolve sozinho com repouso e gelo, e é exatamente esse “é só uma torção” que faz o tornozelo continuar torcendo. Imobilizar e pular a reabilitação deixa cerca de um em cada três com instabilidade crônica e entorses de repetição, porque os sensores de posição do ligamento (a propriocepção) e o freio ativo dos fibulares não voltam sozinhos. O tratamento que muda o desfecho não é o medicamento: é movimento e carga precoces, depois treino de equilíbrio e propriocepção e fortalecimento dos fibulares. Antes disso, alguns padrões pedem uma radiografia primeiro: dor sobre o osso do maléolo, base do quinto metatarso ou navicular (Ottawa positivo), uma entorse alta da sindesmose ou, em crianças, dor sobre a placa de crescimento.

Fisioterapeuta guiando paciente em exercício de equilíbrio sobre minicama elástica
Reabilitação na clínica Treino de equilíbrio e propriocepção na minicama elástica

Os graus 1 a 3 e os sintomas do tornozelo torcido

A torção é classificada em três graus conforme a extensão da lesão ligamentar. Essa graduação não é só acadêmica: ela orienta quanto tempo de proteção a articulação vai precisar e quão rápido a reabilitação pode progredir. Os sintomas do tornozelo torcido (dor, inchaço, hematoma e dificuldade para apoiar o pé) variam de intensidade conforme o grau, e a avaliação clínica nas primeiras horas, antes do edema dominar, é a mais informativa.

Graus da torção de tornozelo e o que esperar
GrauLesãoSinais típicosApoio do pé
Grau 1 (leve)Estiramento do ligamento, sem rupturaDor e inchaço discretos; pouco ou nenhum hematomaPossível, com leve desconforto
Grau 2 (moderado)Ruptura parcial das fibrasDor e edema moderados, hematoma, alguma frouxidãoDifícil e doloroso, geralmente claudicando
Grau 3 (grave)Ruptura completa do ligamentoEdema importante, hematoma extenso, instabilidade evidenteEm geral incapaz de apoiar logo após o trauma

Um detalhe prático ajuda a reduzir o alarme: a quantidade de inchaço e a cor do hematoma não definem a gravidade com precisão. Torções de grau 1 podem inchar bastante, e o sangue do hematoma costuma descer pela gravidade até os dedos e a sola, o que assusta sem necessariamente indicar lesão maior. O que pesa de fato é a combinação de dor à palpação dos ligamentos, capacidade de apoiar o peso e testes de estabilidade, reavaliados após os primeiros dias, quando o edema cede.

  • Estalo no momento. Sentir ou ouvir um “pop” no trauma sugere ruptura mais significativa, grau 2 ou 3.
  • Inchaço rápido. Edema que surge em minutos costuma indicar lesão mais intensa do que o que aparece horas depois.
  • Não consegue apoiar. Incapacidade de dar alguns passos logo após o trauma é um sinal de alerta para fratura.
  • Dor no osso. Dor à pressão sobre a ponta dos maléolos, e não sobre o ligamento, levanta a suspeita de fratura.

Quando radiografar: as regras de Ottawa

Nem toda torção de tornozelo precisa de raio-x. Para decidir quem deve ser radiografado e poupar exames desnecessários, usam-se as regras de Ottawa para tornozelo e pé, um protocolo clínico validado e de altíssima sensibilidade para fratura: na prática, quando o exame é normal por esses critérios, a chance de uma fratura relevante ter passado despercebida é muito baixa. A radiografia está indicada quando há dor na região dos maléolos ou do médio-pé associada a pelo menos um dos achados abaixo.

Regras de Ottawa · indicam radiografia
  • Dor à palpação na borda posterior ou na ponta do maléolo lateral (fíbula), nos últimos 6 cm.
  • Dor à palpação na borda posterior ou na ponta do maléolo medial (tíbia), nos últimos 6 cm.
  • Dor à palpação na base do quinto metatarso (osso na borda externa do meio do pé).
  • Dor à palpação no osso navicular (na face interna do médio-pé).
  • Incapacidade de dar quatro passos (apoiar o peso) logo após o trauma e na avaliação.

Critérios para orientação geral. A aplicação é feita pelo médico no exame; alguns grupos, como gestantes, idosos e quadros com muito edema ou alteração de sensibilidade, pedem cautela adicional.

A lógica é direta: a dor de uma torção fica sobre o trajeto dos ligamentos, à frente e abaixo do maléolo lateral, ao passo que a dor de uma fratura tende a se concentrar sobre o osso. Quando os critérios de Ottawa são negativos e a pessoa consegue apoiar o pé, o quadro é tratado como entorse, sem necessidade de imagem inicial. A ressonância e a ultrassonografia ficam reservadas para torções graves, suspeita de lesão da sindesmose, lesão de cartilagem associada ou para os casos que não evoluem como esperado.

Em uma frase

Torção que dói sobre o ligamento e permite apoiar o pé raramente precisa de raio-x; dor sobre o osso do maléolo ou no médio-pé, ou impossibilidade de andar, é o que aciona a radiografia.

Diferencial: torção ou fratura?

Distinguir uma entorse de uma fratura é a tarefa central da avaliação inicial, porque o tratamento e o prognóstico mudam. As pistas se sobrepõem, e por isso as regras de Ottawa existem, mas alguns padrões ajudam a orientar a suspeita antes mesmo da imagem.

Pistas que diferenciam torção de fratura
AspectoTorção (entorse)Sugere fratura
Onde dóiSobre o ligamento, à frente e abaixo do maléoloSobre o osso do maléolo ou no médio-pé
Apoiar o pesoPossível, ainda que com dorEm geral impossível dar quatro passos
Dor à palpação ósseaAusente ou leveDor localizada e intensa no osso
DeformidadeAusentePode haver desvio ou crepitação
CondutaTratamento conservador por faseRaio-x e avaliação ortopédica

Vale lembrar que torção e fratura podem coexistir, sobretudo nas lesões por eversão e nas entorses altas (sindesmose). Em crianças, a placa de crescimento ainda aberta é mais frágil que o ligamento, de modo que o que parece uma torção pode ser uma lesão fisária, o que reforça o limiar mais baixo para radiografar nessa faixa. Diante de qualquer dúvida clínica, a imagem esclarece.

Assista: Bursite no Calcâneo – Dor no Tornozelo e Calcanhar

Tratamento por fase e reabilitação

O tratamento da torção de tornozelo é conservador, por fases e individualizado, e mudou de filosofia nos últimos anos. O antigo modelo de imobilizar e repousar por semanas deu lugar a uma abordagem de carga e movimento precoces dentro do limite da dor: o ligamento cicatriza melhor sob estímulo mecânico controlado, e a imobilização prolongada favorece rigidez, atrofia muscular e perda de propriocepção. Imobilização rígida e descarga total ficam reservadas aos primeiros dias das lesões graves ou às fraturas. A base de toda a recuperação é a reabilitação ativa; as demais técnicas se somam a ela como adjuvantes, sem nunca substituir o exercício.

Da prática clínica

Quem volta a apoiar o pé cedo, dentro do limite da dor, costuma destravar a dorsiflexão e sair do edema mais rápido do que quem ficou semanas de muleta e bota; o tornozelo que descansa demais enrijece e perde força. O erro que mais custa caro não é a entorse em si, é tratá-la como “simples”: a pessoa some quando a dor passa, pula o treino de equilíbrio e dos fibulares, e meses depois volta com o tornozelo que “falseia” e já torceu duas ou três vezes. A propriocepção é mantida até o fim, mesmo sem dor. Aplico as regras de Ottawa em todo mundo na primeira consulta, e o que mais escapa por aí é o que não dói no maléolo: a base do quinto metatarso (avulsão ou fratura de Jones), a entorse alta da sindesmose, que dói acima do tornozelo e demora muito mais, e a dor sobre a placa de crescimento na criança, que merece imagem mesmo parecendo “só uma torção”. O que mais surpreende o paciente é descobrir que ficar parado piora, que gelo eterno e anti-inflamatório de rotina não aceleram a cicatrização do ligamento, e que o trabalho de verdade é o equilíbrio, não o repouso.

A reabilitação avança em fases: protege-se e controla-se o edema nos primeiros dias, recupera-se mobilidade e força em seguida e, por fim, treina-se a propriocepção e o retorno à atividade. As técnicas de consultório (acupuntura, laser, agulhamento) entram como adjuvantes para controlar a dor e poupar analgésico, abrindo espaço para o paciente apoiar o pé e progredir mais cedo na carga e no equilíbrio.

ReabilitaçãoProcedimentos

PRICE / repouso relativo

Proteção, gelo, compressão e elevação na fase aguda, com apoio parcial assim que tolerado.

ForteDias 1–5

Mobilidade e fortalecimento dos fibulares

Carga até o apoio total e fortalecimento dos fibulares, que freiam a inversão que causou a lesão.

ForteSem 1–3

Treino proprioceptivo e neuromuscular

Equilíbrio em apoio único e superfície instável: a chave contra a instabilidade crônica.

ForteApós 3 sem

Acupuntura e eletroacupuntura

Adjuvante analgésico peri-articular e nos fibulares, para poupar analgésico e progredir a carga.

ModeradaAdjuvante

Laser de alta intensidade

Fotobiomodulação sobre o ligamento para reduzir dor e edema e facilitar a reabilitação.

LimitadaSéries

Agulhamento seco / infiltração de pontos-gatilho

Para o overlay miofascial dos fibulares e da panturrilha que perpetua dor e trava a dorsiflexão.

ModeradaAdjuvante

Ondas de choque

Sem papel na entorse aguda; opção para sequelas tendíneas (fibulares, Aquiles) de evolução arrastada.

LimitadaSequela
Primeira linhabase do tratamento
Carga e movimento precocesFortalecimento dos fibularesTreino proprioceptivo
Adjuvantes em clínicasomados ao exercício
AcupunturaLaserAgulhamento secoTerapia manual
Casos selecionadossequelas ou refratários
Ondas de choque p/ tendinopatiaEncaminhamento cirúrgico

Treino proprioceptivo e neuromuscular

O que é
Exercícios de equilíbrio e controle do movimento, do apoio único à prancha e ao disco de equilíbrio, com progressão a saltos e mudanças de direção antes do retorno ao esporte.
Mecanismo
A lesão danifica os receptores proprioceptivos do ligamento, os sensores que informam a posição do tornozelo. Sem esse reflexo, a articulação não percebe que está virando para dentro a tempo de reagir, e o tornozelo “falseia”. O treino reconstrói esse arco sensório-motor e o freio reflexo dos fibulares.
Evidência
Forte Há boa evidência de que reduz o risco de novas entorses; é peça central na prevenção da instabilidade crônica, por isso indispensável e não opcional.
O que esperar
Conduzido com acompanhamento individual, um paciente por vez, com progressão guiada por metas de força, equilíbrio e função, ao longo de semanas.
Limitações
Progredir cedo demais para superfícies muito instáveis ou para o impacto pode provocar dor ou nova lesão; exige dosagem adequada à fase e supervisão.

Acupuntura e eletroacupuntura

O que é
Acupuntura médica localizada no tornozelo e na perna: agulhas peri-articulares na face lateral, sobre o trajeto do talofibular anterior e do calcaneofibular, e nos ventres dos fibulares e do tríceps sural, com eletroestimulação quando se quer efeito analgésico mais consistente.
Mecanismo
Modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (teoria da comporta), por vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas.
Evidência
Moderada Papel de adjuvante para controlar a dor na fase aguda e subaguda e poupar analgésico; não acelera, por si, a cicatrização do ligamento.
O que esperar
Alívio progressivo ao longo de poucas sessões, ajustadas conforme a dor cede e a reabilitação avança. Sempre somada ao exercício, nunca em substituição a ele.
Limitações
Contraindicada sobre pele lesada; exige cautela em distúrbios de coagulação. Em quem usa anticoagulante, a punção é avaliada caso a caso.

O laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação, com efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade, aplicado sobre o ligamento lesado em séries de sessões. O agulhamento seco e a infiltração de pontos-gatilho tratam o overlay miofascial nos fibulares, no gastrocnêmio e no tibial posterior que perpetua dor lateral, aperto na panturrilha e limitação da dorsiflexão mesmo com o ligamento já cicatrizando: a punção busca a resposta de contração local e, quando o ponto é resistente, a infiltração com anestésico interrompe o ciclo dor-espasmo-dor (leve dor no local por um a dois dias; contraindicada sobre pele lesada; cautela com anticoagulante). As ondas de choque não têm papel na entorse aguda, mas são opção para sequelas tendíneas dos fibulares ou do Aquiles de evolução arrastada. Todas são adjuvantes, somadas ao exercício e não no lugar dele.

Dias 1 a 5

Fase aguda

Controlar dor e edema com PRICE, proteger a carga conforme a dor e iniciar mobilidade suave.

Semana 1 a 3

Mobilidade e força

Progredir o apoio até a carga total, recuperar amplitude e fortalecer os fibulares.

Após 3 semanas

Propriocepção e retorno

Treino de equilíbrio e neuromuscular, com progressão ao esporte por critérios funcionais.

Os prazos são orientativos e variam com o grau: torções de grau 1 costumam recuperar em uma a três semanas, as de grau 2 em algumas semanas, e as de grau 3 podem levar de dois a três meses até o retorno pleno ao esporte. O sinal de que algo não vai bem é a persistência de dor, inchaço ou da sensação de o tornozelo “falsear” após o tempo esperado, o que pede reavaliação e investigação de lesões associadas. A meta realista do tratamento é devolver dor mínima, força, equilíbrio e confiança para a carga do dia a dia e do esporte, reduzindo o risco de novas torções.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

A reabilitação ativa é o eixo do tratamento da torção de tornozelo e a medida que mais sustenta o resultado a longo prazo. Não é um recurso acessório: é o que recupera a estabilidade funcional do tornozelo e o que mais reduz o risco de nova entorse e de instabilidade crônica, e as demais técnicas em clínica se organizam em torno dela. As abordagens a seguir são conduzidas na clínica, individualizadas, um paciente por sala, dentro de um plano multimodal com indicação médica.

O repouso prolongado foi abandonado: imobilizar e poupar a articulação por semanas favorece rigidez, atrofia da musculatura da perna e perda de propriocepção, ao passo que a carga orientada dentro do limite da dor acelera a cicatrização do ligamento, que responde melhor ao estímulo mecânico controlado. O modelo clássico do PRICE deu lugar a protocolos como o PEACE & LOVE: nas primeiras horas, protection, elevation, avoid anti-inflammatories, compression, education (proteger, elevar, evitar anti-inflamatórios de rotina, comprimir e orientar); nos dias seguintes, load, optimism, vascularisation, exercise (carga, otimismo, atividade aeróbica para irrigar o tecido e exercício). A progressão graduada de carga e de complexidade vai do apoio parcial ao equilíbrio, do equilíbrio aos saltos e mudanças de direção, para que o tornozelo readquira tolerância sem deflagrar recidiva.

Treino proprioceptivo / neuromuscular
Forte
Cinesioterapia / fortalecimento dos fibulares
Forte
Órteses, bracing e taping
Moderada
Terapia manual (com exercício)
Moderada
RPG e Pilates clínico
Moderada

Cinesioterapia e protocolo funcional progressivo

Exercício terapêutico individualizado prescrito por fisioterapeuta, base sobre a qual as demais técnicas se apoiam. Recupera, em ordem, amplitude (dorsiflexão e inversão/eversão), força e controle motor sob carga, com alvo prioritário nos fibulares (longo e curto), que freiam a inversão. É o tratamento de primeira linha nas diretrizes. Limitação: resposta gradual e dependente da adesão; carga mal dosada na fase muito aguda pode aumentar dor e edema transitoriamente.

Forte1ª linha

Treino proprioceptivo e neuromuscular

Equilíbrio e controle do movimento em superfícies de dificuldade crescente, do apoio bipodal ao único, do solo à prancha e ao disco. Reconstrói o arco sensório-motor lesado nos mecanorreceptores do ligamento e devolve o freio reflexo dos fibulares, corrigindo o falseio. Componente com a evidência mais específica na entorse e peça central contra a instabilidade crônica. Limitação: progredir cedo demais para superfícies muito instáveis ou impacto pode provocar dor ou nova lesão.

ForteIndispensável

Reeducação Postural Global (RPG)

Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas. No tornozelo, alonga a cadeia posterior retraída (panturrilha e tríceps sural), recuperando a dorsiflexão e reequilibrando a carga no apoio. Limitação: benefício comparável ao de outros programas de exercício, sem superioridade clara; não substitui o trabalho de força dos fibulares e a propriocepção, e as posturas podem ser desconfortáveis no início.

ModeradaCadeia posterior

Pilates clínico

Controle, estabilização e respiração no solo ou em aparelhos com molas. Melhora o controle lombopélvico e do quadril, o alinhamento do membro inferior e o padrão de aterrissagem; os aparelhos permitem força de panturrilha e pé em cadeia fechada com carga parcial nas fases iniciais. Limitação: efeito semelhante ao de outras formas de exercício, sem superioridade sobre a cinesioterapia; exige adaptação na fase aguda e não substitui o treino proprioceptivo específico.

ModeradaControle

Terapia manual

Mobilização articular e de tecidos moles (tornozelo, retropé, liberação miofascial da panturrilha) como adjuvante para reduzir dor e melhorar transitoriamente a dorsiflexão, abrindo janela para o exercício. A mobilização com movimento restaura o deslize articular. Limitação: complemento do exercício, não substituto; não corrige o déficit de força e controle neuromuscular e está contraindicada diante de suspeita de fratura ou outros sinais de alerta.

ModeradaAdjuvante

Órteses, bracing e taping

Suporte mecânico externo: tornozeleira semirrígida (limita a inversão excessiva), bandagem funcional (taping) e, em lesões graves selecionadas nos primeiros dias, bota ou órtese de imobilização. Dão ainda estímulo proprioceptivo cutâneo que favorece a ativação reflexa dos fibulares. Como prevenção, a tornozeleira no esporte reduz a recidiva em quem já teve entorse. Limitação: o efeito mecânico do taping decai com o uso; não substitui o fortalecimento nem a propriocepção e, usada isolada e prolongada, pode retardar a recuperação.

ModeradaSuporte

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

A torção de tornozelo é uma das lesões em que o tratamento conservador é a regra e a cirurgia, a exceção. A grande maioria das entorses, incluindo muitas rupturas completas de grau 3, recupera bem com reabilitação funcional bem conduzida, e a evidência mostra que tratar inicialmente sem operar, mesmo lesões ligamentares graves, leva a resultados comparáveis aos da cirurgia precoce na maior parte dos casos, com menos complicações. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; o quadro abaixo descreve cada uma e o momento de encaminhar ao cirurgião de pé e tornozelo (ortopedista).

Conservador · regra

Reabilitação funcional

  • Resolve a grande maioria das entorses, incluindo muitas rupturas de grau 3
  • Carga e movimento precoces, fortalecimento dos fibulares e treino proprioceptivo
  • Resultados comparáveis à cirurgia precoce, com menos complicações
  • Eixo do tratamento mesmo quando há cirurgia depois
VS

Cirúrgico · exceção

Indicação restrita

  • Instabilidade crônica refratária após 3 a 6 meses de programa estruturado
  • Lesão instável da sindesmose (entorse alta)
  • Fraturas com desvio, lesões osteocondrais do tálus, avulsões com fragmento ósseo
  • Decisão compartilhada e raramente urgente

Há duas situações principais em que a cirurgia entra em discussão. A primeira é a instabilidade crônica refratária: o paciente que, mesmo após um programa prolongado de fortalecimento dos fibulares e treino proprioceptivo (em geral de três a seis meses), mantém entorses de repetição e a sensação de falseio que limitam a vida ou o esporte. A segunda são as lesões graves associadas reconhecidas na avaliação ou na imagem. A lista abaixo resume as principais opções fora do nosso escopo.

Reparo ligamentar anatômico (Broström-Gould)
Procedimento mais usado na instabilidade lateral crônica refratária. Reaproxima e reforça os próprios ligamentos lesados (talofibular anterior e calcaneofibular), com bons resultados de estabilidade e retorno à atividade na maioria dos casos. Reservado à falha do tratamento conservador completo, com reabilitação pós-operatória de meses.
Reconstrução ligamentar com enxerto
Indicada quando os ligamentos remanescentes são insuficientes para um reparo direto, em revisões de cirurgia prévia, frouxidão generalizada ou grande demanda. Utiliza um enxerto tendíneo para reconstruir o ligamento; é tecnicamente mais exigente e tem recuperação mais longa, definida pelo cirurgião.
Fixação da sindesmose (entorse alta instável)
Quando a lesão da sindesmose tibiofibular é instável, pode ser necessária estabilização cirúrgica (parafuso de sindesmose ou sistema de sutura com botão), seguida de proteção da carga. A entorse alta tem recuperação naturalmente mais lenta do que a entorse lateral comum.
Tratamento de lesão osteocondral do tálus
Quando a torção se associa a uma lesão da cartilagem e do osso subcondral do tálus que mantém dor e bloqueios, pode-se indicar artroscopia do tornozelo para desbridamento, microfraturas ou outras técnicas de reparo da cartilagem, conforme o tamanho e a localização da lesão.
Avaliação do cirurgião de pé e tornozelo
Encaminhamento para definir a conduta diante de instabilidade crônica refratária, suspeita de lesão da sindesmose ou osteocondral, fraturas associadas ou recidiva após cirurgia prévia, com exames complementares (radiografia com estresse, ressonância) quando indicados.

O reparo de Broström-Gould tem altas taxas de sucesso na devolução da estabilidade, mas é uma decisão tomada apenas depois de esgotada a reabilitação, com período de proteção da carga e retorno gradual ao esporte ao longo de meses. As reconstruções com enxerto e a fixação da sindesmose são procedimentos de maior porte, com reabilitação mais prolongada. Operar não é o fracasso do tratamento conservador, e sim uma ferramenta para a minoria que dela precisa, e mesmo após a cirurgia a reabilitação proprioceptiva continua sendo o eixo do resultado.

Além da cirurgia, há recursos conduzidos por outros serviços que podem fazer parte do percurso. As fraturas identificadas pelas regras de Ottawa são conduzidas pelo ortopedista, com imobilização ou fixação conforme o traço e o desvio. Quando há entorses de repetição, convém investigar fatores predisponentes que extrapolam o tornozelo, como alterações do alinhamento do retropé ou frouxidão ligamentar generalizada, por vezes com avaliação ortopédica específica.

Não há, na entorse de tornozelo, papel estabelecido para terapias promovidas como regeneradoras (como infiltrações de plasma rico em plaquetas) no ligamento agudo; a evidência nessa condição é insuficiente. O papel do cuidado de base é reconhecer o momento de encaminhar, explicar o que cada caminho oferece e manter a reabilitação como eixo antes e depois de qualquer procedimento.

Tratamento medicamentoso

A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na torção de tornozelo: ajuda a controlar a dor e o desconforto das fases iniciais para que a reabilitação avance, mas não acelera a cicatrização do ligamento nem substitui a carga e o exercício, que são o que de fato devolve estabilidade. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.

Classes medicamentosas na torção de tornozelo
ClassePara quêEvidênciaO que esperar e limitações
Analgésicos simples (paracetamol, dipirona)Controle da dor nas fases agudas; opção em quem tem contraindicação aos anti-inflamatóriosModeradaCostumam ser suficientes nas entorses leves; perfil de segurança favorável dentro da dose. Atenção à dose total diária e, no paracetamol, à função hepática.
Anti-inflamatórios não esteroidais (ibuprofeno, naproxeno, diclofenaco)Alívio da dor e do edema mais intensos, em ciclos curtos nos primeiros diasModeradaSobre o ibuprofeno: alivia, mas a resposta inflamatória faz parte do reparo do ligamento, por isso o uso é curto e dirigido ao sintoma, não de rotina. Cautela pelos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos.
Anti-inflamatório tópico e medidas locaisAlívio local sobre o ligamento; gelo na fase agudaModeradaDiclofenaco em gel oferece alívio local com absorção sistêmica muito menor que a do comprimido, reduzindo efeitos adversos. O gelo após a atividade é adjuvante simples, associado a compressão e elevação.
Relaxantes muscularesEspasmo muscular reativo importante na perna, por poucos diasLimitadaPapel limitado e secundário. Principal limitação é a sonolência; não modificam a evolução da lesão ligamentar e não são tratamento de base.

Nenhuma medicação isolada resolve a torção, e o uso prolongado sem reavaliação não é desejável. O melhor resultado vem da combinação criteriosa do controle da dor com a reabilitação ativa, que segue sendo a base do tratamento. Para entender melhor as classes e os cuidados, veja o nosso guia de remédios para dor.

Sinais de alerta

A maioria das torções é benigna e evolui bem com o tratamento por fase. Ainda assim, alguns achados pedem avaliação sem demora, porque mudam a conduta:

Sinais de alerta · procure avaliação

Procure atendimento sem demora se houver

  • Incapacidade de apoiar o peso e dar alguns passos logo após o trauma.
  • Dor intensa e localizada sobre o osso do maléolo, e não sobre o ligamento.
  • Deformidade visível, desvio do pé ou sensação de crepitação.
  • Dormência, formigamento, palidez ou pé frio, sugerindo comprometimento de nervo ou circulação.
  • Inchaço que não cede ou dor que piora após alguns dias de tratamento adequado.
  • Torções de repetição com sensação de que o tornozelo “falseia” no dia a dia.

Os três primeiros itens apontam para possível fratura ou luxação e justificam radiografia. Dormência e alteração da cor ou da temperatura do pé pedem avaliação imediata. Já as torções de repetição com falseio indicam instabilidade crônica do tornozelo, que merece um programa estruturado de reabilitação proprioceptiva e, raramente, avaliação cirúrgica quando o tratamento conservador bem conduzido não resolve.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Torci o tornozelo, o que fazer nas primeiras horas?

Aplique o princípio PRICE: proteção e repouso relativo (proteja da sobrecarga que dói, mas apoie o pé assim que tolerar), gelo por 15 a 20 minutos algumas vezes ao dia com um pano sobre a pele, compressão com faixa elástica e elevação do pé. Avalie se há indicação de radiografia: se não conseguir apoiar o peso ou houver dor forte sobre o osso do maléolo, procure atendimento.

Como saber se é torção no pé ou fratura?

A dor da torção fica sobre o ligamento, à frente e abaixo do maléolo, e em geral é possível apoiar o pé com desconforto. A fratura tende a doer sobre o osso, com dor intensa à palpação, e costuma impedir dar quatro passos. As regras de Ottawa orientam quando radiografar. Na dúvida, o raio-x esclarece.

Toda torção de tornozelo precisa de raio-x?

Não. Pelas regras de Ottawa, a radiografia só é indicada quando há dor à palpação sobre o osso do maléolo (nos últimos 6 cm), sobre a base do quinto metatarso ou o navicular, ou quando a pessoa não consegue apoiar o peso. Quando esses critérios são negativos e o apoio é possível, o quadro é tratado como entorse, sem necessidade de imagem inicial.

Posso tomar ibuprofeno para a torção no tornozelo?

Anti-inflamatórios como o ibuprofeno podem ajudar a controlar dor e inchaço nos primeiros dias, mas devem ser usados por tempo limitado e sob orientação, com atenção a contraindicações gástricas, renais e cardiovasculares. O paracetamol é uma alternativa para a dor. A medicação é adjuvante e não substitui a reabilitação.

Quanto tempo demora para curar uma torção de tornozelo?

Depende do grau. Torções leves (grau 1) costumam melhorar em uma a três semanas; as moderadas (grau 2), em algumas semanas; e as graves (grau 3) podem levar de dois a três meses até o retorno pleno ao esporte. A reabilitação proprioceptiva é o que mais reduz o risco de novas torções.

Por que meu tornozelo torce sempre?

Torções de repetição com sensação de o tornozelo “falsear” sugerem instabilidade crônica, em geral por uma reabilitação proprioceptiva incompleta após a primeira entorse. Os receptores de posição do ligamento lesado não recuperaram o reflexo de proteção. O tratamento é um programa estruturado de fortalecimento dos fibulares e treino de equilíbrio; a cirurgia é reservada a casos que não respondem.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Wagemans J; Bleakley C; Taeymans J; Schurz AP; Kuppens K; Baur H; Vissers D. Exercise-based rehabilitation reduces reinjury following acute lateral ankle sprain: A systematic review update with meta-analysis. PloS one. 2022. doi:10.1371/journal.pone.0262023. PMID:35134061.
  2. Ruiz-Sánchez FJ; Ruiz-Muñoz M; Martín-Martín J; Coheña-Jimenez M; Perez-Belloso AJ; Pilar Romero-Galisteo R; Gónzalez-Sánchez M. Management and treatment of ankle sprain according to clinical practice guidelines: A PRISMA systematic review. Medicine. 2022. doi:10.1097/md.0000000000031087. PMID:36281183.
Atualizado em 31 mai 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. O grau da entorse, o ritmo de recuperação e o risco de instabilidade variam de pessoa para pessoa, e a conduta (de quando radiografar pelas regras de Ottawa ao plano de carga precoce e reabilitação proprioceptiva) deve ser individualizada após exame.

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  • Que artigo maravilhoso, bem explicado nos mínimos detalhes me auxiliou demais tirando algumas dúvidas, já que me encontro no processo de recuperação de uma torção de 2° grau. Excelente

  • Muito esclarecedora as informações, creio que ajudara muitas pessoas. Parabéns! Estou passando por processos de entorse de grau III, me ajudou a entender bastante.

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