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Canabidiol (CBD) para dor e outras condições: o que se sabe até agora

O canabidiol não é cura. Tem evidência sólida em poucas indicações, como epilepsias raras e espasticidade, e papel apenas adjuvante, com evidência limitada e mista, na dor crônica.

Resposta direta
  • O canabidiol (CBD) tem uso comprovado em poucas condições: epilepsias graves e resistentes da infância (síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut) e a espasticidade na esclerose múltipla, geralmente em associação.
  • Na dor crônica e neuropática, o CBD pode ter, no máximo, papel adjuvante, com evidência ainda limitada e inconsistente. Não substitui reabilitação, acupuntura nem os fármacos de primeira linha.
  • No Brasil, o uso é sob prescrição e segue regras específicas da Anvisa e do CFM. Não é um produto de venda livre.
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Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Canabidiol: para que serve, de fato

O canabidiol, ou CBD, é uma das substâncias extraídas da planta Cannabis sativa. Diferente do que muita propaganda sugere, ele não é um remédio para tudo, e o que existe de evidência confiável se concentra em um número pequeno de indicações.

As indicações mais bem documentadas do canabidiol são neurológicas: o controle de crises em epilepsias graves e resistentes que começam na infância, sobretudo as síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut, e o alívio da espasticidade em pessoas com esclerose múltipla. Nesses cenários, o CBD costuma ser usado como terapia adicional, somado aos demais medicamentos, e não isoladamente. Fora desse núcleo, a maioria das promessas que circulam, de ansiedade a insônia, de dor a inflamação, ainda carece de evidência robusta que justifique recomendar o produto como tratamento.

Para a área da dor, que é o foco desta clínica, o canabidiol pode ter um papel adjuvante, ou seja, complementar, em casos selecionados de dor crônica e dor neuropática que não responderam bem ao tratamento convencional. Mas a magnitude do benefício é modesta e variável entre os estudos, e o CBD não entra antes das medidas de base, como exercício e reabilitação, nem antes dos fármacos com indicação consolidada. Tratá-lo como primeira escolha, ou como substituto desses recursos, não se sustenta na evidência atual.

Mito

“O CBD é natural, então é seguro e serve para qualquer dor, inflamação, ansiedade ou insônia.”

Fato

Ser de origem vegetal não significa ausência de risco. O CBD tem efeitos próprios, interage com vários medicamentos e tem evidência forte apenas em poucas condições específicas. As demais promessas seguem incertas.

Dr. Marcus Pai falando em mesa de audiencia pública na ALESP
Em congressos Dr. Marcus Pai em audiencia pública na ALESP

O sistema endocanabinoide e a diferença entre CBD e THC

Estrutura química do canabidiol em linhas brancas sobreposta a uma planta de cannabis com a sigla CBD
O canabidiol e um dos canabinoides da planta e atua nos receptores do sistema endocanabinoide.

O corpo humano tem um sistema próprio de sinalização chamado sistema endocanabinoide, formado por receptores (os principais são chamados CB1 e CB2), por moléculas que o organismo fabrica (os endocanabinoides) e pelas enzimas que as produzem e degradam. Esse sistema participa da modulação da dor, do humor, do apetite, do sono e da resposta inflamatória. Os compostos da Cannabis, chamados canabinoides, interagem com esse sistema, e é daí que vem o interesse médico em algumas de suas substâncias.

A planta tem dezenas de canabinoides, mas dois concentram a maior parte da atenção: o canabidiol (CBD) e o tetra-hidrocanabinol (THC). Entender a diferença entre eles é essencial, porque a confusão entre os dois alimenta tanto o medo quanto as promessas exageradas.

CBD e THC: o que os diferencia
AspectoCanabidiol (CBD)THC (tetra-hidrocanabinol)
Efeito psicoativoNão causa a sensação de “barato”; não é intoxicante nas doses usuaisÉ o principal responsável pelo efeito psicoativo e euforizante
Como ageAtua de forma indireta e em vários alvos, modulando o sistemaLiga-se diretamente ao receptor CB1 no cérebro
Uso médico mais documentadoEpilepsias graves (Dravet, Lennox-Gastaut), espasticidadeNáusea da quimioterapia, apetite, espasticidade, dor (em produtos específicos)
Perfil de cautelaSonolência, alteração de exames do fígado, interaçõesEfeitos cognitivos, risco em transtornos psiquiátricos, dependência

Muitos produtos disponíveis não são CBD “puro”: contêm proporções variáveis de CBD e THC, ou são extratos de espectro amplo com outros canabinoides, como o canabigerol (CBG). Essa composição muda o efeito esperado, o perfil de segurança e o enquadramento legal do produto. Por isso a escolha do que usar, em que concentração e em que proporção, é uma decisão clínica, e não algo a se resolver pela rotulagem de marketing.

Pérola clínica

Na prática, “CBD funciona?” é a pergunta errada. A pergunta útil tem sobrenome: qual produto, com qual proporção de CBD e THC, em qual dose, para qual paciente e com qual objetivo? Produtos diferentes, com composições diferentes, não são intercambiáveis, e tratá-los como se fossem a mesma coisa é uma fonte frequente de frustração e de risco.

O que a evidência mostra

A ciência atual separa o que está bem estabelecido do que ainda é promissor mas incerto, e do que não tem suporte. A tabela abaixo organiza isso pelas principais indicações discutidas.

Canabidiol por indicação: evidência e situação
IndicaçãoNível de evidênciaSituação
Epilepsias graves da infância (Dravet, Lennox-Gastaut)Forte (ensaios controlados)Uso consolidado, como terapia associada, sob acompanhamento neurológico
Espasticidade (esclerose múltipla)ModeradaIndicação reconhecida, em geral em produtos que combinam CBD e THC
Dor neuropáticaLimitada e mistaPossível papel adjuvante em casos refratários selecionados; não é primeira linha
Dor crônica em geral / fibromialgiaLimitada e inconsistenteEstudos pequenos e heterogêneos; benefício incerto, não recomendado de rotina
Ansiedade, insônia, “inflamação”Insuficiente / preliminarResultados iniciais não justificam recomendar como tratamento
Síntese de evidências · dorEvidência limitada

Canabinoides na dor crônica não oncológica

Revisões sobre canabinoides na dor crônica não oncológica costumam encontrar efeito pequeno e inconsistente, com estudos de curta duração e populações variadas. O benefício, quando aparece, tende a ser modesto e precisa ser pesado contra efeitos adversos e interações. A leitura prudente é de papel adjuvante em casos selecionados, não de tratamento de primeira linha.

Ver referências →

Vale entender por que a evidência na dor é tão incerta. Muitos estudos misturam produtos diferentes (só CBD, CBD com THC, espectros variados), usam doses heterogêneas, têm poucos participantes e duração curta, e medem desfechos distintos. Por isso, hoje não há base para tratar o CBD como solução geral para dor: o benefício, quando aparece, é modesto e varia muito de estudo para estudo.

A consequência prática é direta. Em dor crônica e neuropática, as condutas com melhor relação entre evidência e segurança continuam sendo o exercício e a reabilitação, as técnicas de neuromodulação como a acupuntura, e fármacos de primeira linha com indicação consolidada. O canabidiol pode ser considerado depois, e em pessoas específicas, como uma camada adicional, e nunca como atalho que dispensa o resto do plano.

Regras no Brasil: Anvisa e CFM

No Brasil, o canabidiol não é um produto de prateleira. Seu uso é regulado e depende de prescrição médica. Conhecer o enquadramento ajuda a evitar tanto a compra de produtos sem garantia de qualidade quanto expectativas equivocadas sobre o que é permitido.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regula, por meio de resoluções (RDC), dois caminhos principais: a comercialização de produtos de Cannabis autorizados em farmácias, mediante prescrição e retenção de receita, e a importação de produtos por pessoa física, também com prescrição e autorização específica. Em ambos os casos há exigências de receituário, de registro do paciente e de controle, que variam conforme a composição do produto, em especial a presença e a quantidade de THC. As regras são atualizadas periodicamente, então o caminho concreto deve ser confirmado a cada situação.

Do lado do Conselho Federal de Medicina (CFM), a prescrição de canabidiol é tratada com critérios e restrições. Historicamente, o uso reconhecido com mais respaldo está nas epilepsias graves e resistentes da infância. Isso reforça que indicação, escolha do produto e acompanhamento são atos médicos, e que não cabe ao paciente decidir sozinho iniciar ou ajustar o uso.

Interações, cautelas e regulatório · leia antes de considerar o CBD

Pontos que exigem atenção e avaliação médica

  • Uso sob prescrição. O canabidiol é de uso sob prescrição médica. A compra por conta própria, inclusive importada, sem indicação e acompanhamento, expõe a riscos e a produtos sem garantia de qualidade.
  • Interações medicamentosas. O CBD interfere em enzimas do fígado e pode alterar o efeito de vários remédios, como certos anticonvulsivantes, anticoagulantes, imunossupressores e outros. A lista de medicamentos em uso precisa ser revista pelo médico.
  • Fígado. Pode elevar enzimas hepáticas, sobretudo em doses altas ou associado a outros fármacos; pode exigir monitoramento.
  • Populações especiais. Cautela na gravidez e na amamentação, em crianças (fora das indicações específicas), em idosos e em quem tem doença hepática.
  • Produto e proporção importam. A presença de THC muda efeitos, riscos e regras legais. A escolha não deve se basear em rótulo de marketing.
  • Direção e atividades de risco. Sonolência e alteração de atenção podem ocorrer, em especial no início e em produtos com THC.

O que esperar: efeitos, segurança e interações

Quando o canabidiol é indicado e acompanhado, costuma ser razoavelmente tolerado, mas isso não equivale a “sem efeitos”. Saber o que esperar ajuda a usar com segurança e a reconhecer quando algo precisa ser reavaliado.

Os efeitos adversos mais comuns são sonolência e cansaço, alterações do apetite, diarreia e, em alguns casos, elevação de enzimas do fígado. Esses efeitos tendem a depender da dose e da composição do produto. O início costuma ser gradual e a dose, quando indicada, é ajustada aos poucos pelo médico, o que reduz a chance de efeitos indesejados e permite avaliar a resposta de forma realista.

O ponto que mais preocupa na prática são as interações. O CBD pode interferir na forma como o fígado processa outros medicamentos, aumentando ou reduzindo o efeito deles. Isso é especialmente relevante para quem usa anticoagulantes, anticonvulsivantes, imunossupressores e diversos outros fármacos de uso contínuo. Por isso, antes de considerar o canabidiol, é indispensável que o médico revise toda a medicação em uso, incluindo fitoterápicos e suplementos.

O que o CBD costuma exigir

Avaliação e acompanhamento

Indicação criteriosa, revisão de interações, ajuste gradual da dose e reavaliação da resposta com critérios objetivos.

O que o CBD não é

Solução isolada

Não substitui exercício, reabilitação, acupuntura nem os fármacos de primeira linha. É, no melhor cenário, uma camada adicional.

Outro cuidado importante é a qualidade do produto. Itens comprados sem regulação podem ter concentração diferente da informada, conter mais THC do que o declarado ou trazer contaminantes. Quando o uso é indicado, optar por produtos com procedência e controle conhecidos faz parte da segurança do tratamento. A aquisição por canais informais soma o risco do produto ao risco do uso sem acompanhamento.

Assista: Canabidiol: ajuda no tratamento da Fibromialgia?

Onde o canabidiol pode entrar no tratamento da dor

Frasco de vidro com óleo amarelo e conta-gotas pingando uma gota, com flores de cannabis ao fundo
O óleo de CBD costuma ser usado por via sublingual, com dose ajustada gota a gota sob orientação medica.

No tratamento da dor, o canabidiol, quando entra, entra tarde, em casos selecionados e como complemento, dentro de um plano multimodal, não-cirúrgico e individualizado. Antes dele, há recursos com evidência melhor e perfil de segurança mais favorável, e é por eles que o tratamento começa.

O princípio que organiza o tratamento da dor crônica é o de uma escada: começa-se pelas medidas com melhor relação entre benefício, segurança e custo, e só se avança quando a resposta não vem. O canabidiol não é o primeiro degrau, nem o segundo. Ele é uma possibilidade de etapa avançada, em pessoas específicas, depois que o essencial foi tentado de forma adequada e o quadro permanece refratário. Tratá-lo como ponto de partida ignora tanto a evidência quanto o bom senso clínico.

Base ativa: exercício e reabilitação

Exercício terapêutico e fisioterapia individualizada são a base do tratamento da dor crônica, com a melhor relação entre evidência e segurança. Melhoram o controle motor, dessensibilizam ao movimento e reduzem a incapacidade. Nenhuma outra camada substitui essa.

Neuromodulação: acupuntura e eletroacupuntura

A acupuntura médica modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula e por vias inibitórias descendentes, com participação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência reforça esse efeito. Tem evidência de benefício em dores crônicas selecionadas e ajuda a reduzir a necessidade de medicação.

Fármacos de primeira linha

Na dor neuropática e na dor crônica, os fármacos com indicação consolidada vêm antes do CBD: antidepressivos em dose adequada (amitriptilina, nortriptilina, duloxetina) e gabapentinoides (gabapentina, pregabalina), sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico.

Técnicas em clínica e procedimentos

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho no componente miofascial; bloqueios anestésicos e, em casos refratários, toxina botulínica, conforme o quadro. Recursos pontuais, sempre somados à base ativa.

Canabidiol: camada adjuvante, casos selecionados

Considerado, sob prescrição e acompanhamento, em quadros refratários que não responderam de forma satisfatória às etapas anteriores, com objetivo claro, revisão de interações e reavaliação da resposta. Nunca isolado.

Por que o exercício e a reabilitação vêm primeiro

Na dor crônica, o exercício terapêutico individualizado é a intervenção com a melhor evidência e o melhor perfil de segurança. Ele atua sobre o controle motor, a força e a mobilidade, e contribui para dessensibilizar o sistema nervoso ao movimento, um ponto central quando a dor se tornou persistente. A resposta é gradual, ao longo de semanas, e depende da regularidade. Qualquer discussão sobre canabidiol parte do princípio de que essa base já está estabelecida, e não de que ela pode ser pulada.

Acupuntura e eletroacupuntura como neuromodulação

Esta é uma camada que já tem o que o canabidiol ainda procura na dor: mecanismo descrito e evidência consistente em indicações definidas. A acupuntura médica modula a nocicepção por via segmentar no corno dorsal e por vias inibitórias descendentes que partem da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostroventral, com liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a frequência da corrente muda o perfil recrutado, com a baixa frequência mobilizando mais os sistemas opioides. Diferente do CBD, aqui não há a questão das interações hepáticas nem o problema de procedência do produto, o que torna a relação entre benefício e risco mais favorável.

Na dor crônica, costuma-se planejar uma série inicial de oito a dez sessões, uma a duas por semana, com uma reavaliação franca por volta da quarta ou quinta para decidir se o caminho está rendendo; o alívio é cumulativo, raramente vem de uma sessão isolada, e parte do valor está em permitir reduzir doses de medicação contínua. É por já entregar isso, com segurança, que ela ocupa um degrau anterior ao do canabidiol na escada.

Os fármacos de primeira linha vêm antes do CBD

Quando há indicação de medicação na dor crônica ou neuropática, os fármacos com evidência consolidada têm prioridade sobre o canabidiol. Antidepressivos em dose adequada, como a amitriptilina, a nortriptilina e a duloxetina, e os gabapentinoides, como a gabapentina e a pregabalina, têm papel estabelecido e perfis de uso bem descritos, com indicação, dose e duração sempre definidas pelo médico. O panorama desses medicamentos está reunido no nosso guia de remédios para dor. Só quando essas opções foram empregadas de forma adequada e o quadro segue refratário é que faz sentido discutir uma camada adicional.

Quando o CBD pode ser considerado, e como

Em pessoas com dor crônica ou neuropática refratária, que já passaram pelas etapas anteriores sem alívio satisfatório, o canabidiol pode ser considerado como adjuvante, sob prescrição e acompanhamento. Nesse cenário, a decisão envolve definir um objetivo claro (o que se pretende melhorar e como isso será medido), revisar todas as interações com a medicação em uso, escolher um produto de procedência conhecida, iniciar com dose baixa e ajustar gradualmente, e reavaliar a resposta em prazo definido. Se o benefício não aparece de forma consistente, ou se os efeitos adversos superam o ganho, o uso é revisto, e não simplesmente mantido por inércia.

É também nesse ponto que se alinham as expectativas. Mesmo quando ajuda, o canabidiol costuma oferecer um alívio parcial, somado ao restante do plano, e não a eliminação da dor. Na fibromialgia, por exemplo, em que a evidência de canabinoides é particularmente inconsistente, o eixo do tratamento permanece sendo o exercício, o sono, o manejo do estresse e os fármacos com indicação, e não o CBD. O mesmo raciocínio vale para quadros como a dor neuropática da neuropatia diabética, em que o controle da doença de base e os fármacos de primeira linha vêm antes de qualquer adjuvante.

Por fim, vale reforçar o limite de escopo. Para condições fora da dor, como as epilepsias graves, o acompanhamento é do neurologista; na espasticidade da esclerose múltipla, do neurologista que conduz a doença. O papel desta clínica é o manejo da dor crônica e da dor musculoesquelética, dentro do qual o canabidiol é, na melhor das hipóteses, uma das últimas peças a se considerar, e sempre sob avaliação individual.

Da prática clínica

Algumas observações recorrentes no consultório, que costumam ajudar a calibrar expectativas. Elas descrevem padrões clínicos gerais, não casos individuais.

Muita gente chega já tendo comprado o frasco, depois de ler sobre o canabidiol como se fosse uma chave que destranca qualquer dor. A conversa quase nunca é sobre “começar” o CBD; é sobre reorganizar a ordem, porque o exercício, o sono e os fármacos de primeira linha frequentemente ainda não foram tentados de forma adequada. Quando a expectativa é a de eliminar a dor, costumo dizer com clareza que, mesmo no melhor cenário, falamos de um alívio parcial somado ao resto do plano.

Dois pontos surpreendem quem chega. O primeiro é o preço: produtos com procedência têm custo relevante e raramente entram em qualquer cobertura, o que pesa numa terapia que é, na melhor das hipóteses, adjuvante e de benefício incerto. O segundo é a pergunta sobre as outras medicações, que muitos não esperam; quando há anticoagulante, anticonvulsivante ou imunossupressor em uso, a revisão de interações deixa de ser detalhe e passa a definir se faz sentido sequer considerar o produto.

E há a parte que poucos querem ouvir: a evidência é mais firme justamente onde esta clínica não atua, como nas epilepsias graves, e mais frágil exatamente onde o paciente mais pede ajuda, na dor crônica difusa e na fibromialgia. Reconhecer isso sustenta uma decisão mais sólida do que a empolgação inicial sugeria.

Placebo e variabilidade de produto: dois fatores que mudam a leitura

Na dor crônica não oncológica, o benefício médio nos estudos é pequeno e variável, e o alívio expressivo que muita propaganda promete raramente se confirma. Um ganho individual é possível, mas modesto e somado ao resto do plano. A qualidade dos produtos também varia enormemente: análises independentes já mostraram frascos com concentração diferente da informada no rótulo e com THC acima do declarado, de modo que dois produtos vendidos como “CBD” podem não ter quase nada em comum. Por isso a pergunta clínica não é se o canabidiol funciona em abstrato, e sim o que aquele produto específico, naquela dose e naquele paciente, é capaz de oferecer, e a que custo e risco.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

O canabidiol serve para dor?

Pode ter, no máximo, papel adjuvante na dor crônica e neuropática refratária, com evidência ainda limitada e inconsistente. Não é primeira linha e não substitui exercício, acupuntura nem os fármacos com indicação consolidada. O uso é sob prescrição.

Canabidiol é a mesma coisa que maconha?

Não. O canabidiol (CBD) é uma substância da planta Cannabis que, em geral, não causa o efeito psicoativo. O THC é o componente responsável pelo “barato”. Muitos produtos contêm proporções variáveis de CBD e THC, o que muda efeitos, riscos e regras legais.

Quais são os efeitos positivos comprovados do canabidiol?

Os mais bem documentados são o controle de crises em epilepsias graves da infância (síndromes de Dravet e de Lennox-Gastaut) e o alívio da espasticidade na esclerose múltipla. Para a maioria das outras promessas, incluindo grande parte das relacionadas à dor, a evidência ainda é limitada.

O CBD é considerado uma droga? É legal no Brasil?

É uma substância de uso medicinal regulado. No Brasil, o uso é permitido sob prescrição, e a Anvisa regula tanto a venda de produtos autorizados em farmácia quanto a importação por pessoa física, com exigências específicas. Não é um produto de venda livre.

O canabidiol é um medicamento? Posso comprar por conta própria?

Há produtos de Cannabis regulados que dependem de prescrição médica e de receituário específico. Não se deve comprar nem importar por conta própria: além das exigências legais, a indicação, a escolha do produto e o acompanhamento são decisões médicas.

O CBD interage com outros remédios?

Sim. O canabidiol pode interferir na forma como o fígado processa diversos medicamentos, alterando o efeito de anticoagulantes, anticonvulsivantes, imunossupressores e outros. Por isso o médico precisa revisar toda a medicação em uso antes de considerar o produto.

O que é CBG e em que difere do CBD?

O canabigerol (CBG) é outro canabinoide da planta, presente em alguns extratos de espectro amplo. A evidência clínica sobre ele é ainda mais preliminar do que a do CBD. A presença de diferentes canabinoides em um produto altera seu efeito e seu perfil, e é mais um motivo para a escolha ser feita pelo médico.

O CBD cura a dor crônica ou a fibromialgia?

Não. Não há base para falar em cura. No melhor cenário, ele pode oferecer um alívio parcial e complementar, em casos selecionados. O tratamento da dor crônica e da fibromialgia continua centrado em exercício, reabilitação, manejo do sono e do estresse e fármacos com indicação.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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  2. Mücke M, Phillips T, Radbruch L, Petzke F, Häuser W. Cannabis-based medicines for chronic neuropathic pain in adults. Cochrane Database of Systematic Reviews. 2018;(3):CD012182. doi:10.1002/14651858.CD012182.pub2 acessar
  3. Johal H, Devji T, Chang Y, Simone J, Vannabouathong C, Bhandari M. Cannabinoids in Chronic Non-Cancer Pain: A Systematic Review and Meta-Analysis. Clinical Medicine Insights: Arthritis and Musculoskeletal Disorders. 2020;13:1179544120906461. doi:10.1177/1179544120906461 acessar
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  5. Fede et al. Como os Canabinoides Estimulam a Produção de Substâncias Anti-inflamatórias na Fáscia. International Journal of Molecular Sciences. 2020. ver resumo
  6. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.324/2022 (atualiza a Resolução CFM nº 2.113/2014): prescrição do canabidiol como terapêutica médica. CFM. 2022. acessar
Atualizado em 01 jun 2026 Leitura 13 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. No caso do canabidiol, a resposta é especialmente difícil de prever sem consulta: ela depende da composição exata do produto, da dose, das outras medicações em uso e do que se pretende tratar, de modo que a decisão precisa ser individualizada caso a caso. O canabidiol é de uso sob prescrição.

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