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Neurociência da dor · Neurotransmissores

Serotonina: o que é, o que faz e por que ela importa no tratamento da dor

A serotonina é um neurotransmissor que participa do humor, do sono e do controle da dor. Por alimentar a via inibitória descendente, fármacos como a duloxetina tratam dor crônica, neuropática e fibromialgia, mesmo em pessoas sem depressão.

Resposta direta
  • A serotonina (5-hidroxitriptamina, ou 5-HT) é um neurotransmissor e hormônio local derivado do aminoácido triptofano. Ela é mais um mensageiro do corpo do que “o hormônio da felicidade”.
  • Ela age em três grandes territórios: o sistema nervoso central (humor, sono, apetite, dor), o intestino (onde está a maior parte do total do corpo, regulando o trânsito) e as plaquetas (coagulação).
  • No controle da dor, a serotonina é peça da via inibitória descendente, o sistema que freia o sinal doloroso. Por isso fármacos que aumentam a 5-HT e a noradrenalina disponíveis podem tratar dor crônica, mesmo sem depressão.
  • Aumentar a serotonina não é, por si só, sinônimo de tratar depressão nem de aliviar dor: o tema é mais sutil do que o mito da “deficiência de serotonina”.
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O que é a serotonina

Modelo molecular tridimensional da serotonina em esferas pretas, brancas, vermelha e azuis sobre fundo lilás
A serotonina e uma molécula derivada do triptofano que atua como neurotransmissor no cérebro e na medula

Serotonina é o nome popular da 5-hidroxitriptamina (5-HT), uma molécula que funciona ao mesmo tempo como neurotransmissor no sistema nervoso e como mensageiro químico em outros tecidos. À pergunta “a serotonina é um hormônio”: ela atua das duas formas, como neurotransmissor entre células nervosas e, em alguns contextos, como sinal hormonal local, o que ajuda a entender por que seus efeitos são tão variados.

O corpo fabrica a serotonina a partir de um aminoácido essencial da dieta, o triptofano, que é convertido em 5-HT por etapas enzimáticas. Uma vez liberada, ela ativa uma família grande de receptores (genericamente chamados de receptores 5-HT, com vários subtipos espalhados pelo organismo). Essa diversidade de receptores é a chave para compreender por que a mesma substância pode influenciar humor, sono, digestão, coagulação e dor: o efeito depende de onde e em qual receptor ela age.

Vale corrigir um equívoco comum de grafia e de conceito. As buscas por “cerotonina”, “ceratonina” ou “ceretonina” se referem todas à mesma molécula, a serotonina. E ela não é uma reserva de bem-estar que se “enche” ou “esvazia” como um tanque. É um sistema de sinalização dinâmico, regulado a cada momento pela produção, pela liberação, pela recaptação de volta ao neurônio e pela degradação.

5-HT
Nome químico: 5-hidroxitriptamina
Triptofano
Aminoácido que dá origem a ela
3
Territórios principais: SNC, intestino, plaquetas
Maioria
Do total do corpo fica no trato digestivo
Dr. Marcus Yu Bin Pai palestrando ao microfone em tribuna durante congresso médico
Em congressos Dr. Marcus Yu Bin Pai durante palestra em congresso médico.

Onde a serotonina age e o que faz

Embora a serotonina seja famosa pelo cérebro, a maior parte do total presente no corpo está no intestino, produzida por células especializadas da parede intestinal. Lá ela regula a motilidade (o ritmo das contrações que movem o bolo alimentar) e participa de reflexos digestivos. Esse é um dos elos do chamado eixo cérebro-intestino, e ajuda a explicar por que fármacos serotoninérgicos podem ter efeitos digestivos, como náusea no início do uso ou alteração do hábito intestinal.

No sistema nervoso central, a serotonina é produzida por um grupo restrito de neurônios concentrados no tronco encefálico, nos chamados núcleos da rafe, que projetam fibras para praticamente todo o cérebro e para a medula espinhal. Dessa posição estratégica, ela modula humor, sono, apetite, cognição e a percepção da dor. Nas plaquetas, a serotonina não é fabricada, mas captada e estocada, sendo liberada durante a coagulação para ajudar na agregação plaquetária e na constrição dos vasos. Esse detalhe tem relevância clínica: fármacos que mexem na recaptação de serotonina podem aumentar discretamente o risco de sangramento, sobretudo quando combinados com anti-inflamatórios.

Onde a serotonina age e qual função desempenha
TerritórioO que a serotonina faz aliRelevância prática
Sistema nervoso central (núcleos da rafe)Modula humor, sono, apetite, cognição e o controle da dorAlvo dos antidepressivos e dos fármacos usados na dor crônica
Medula espinhal (vias descendentes)Freia o sinal doloroso antes que ele suba ao cérebroBase do efeito analgésico dos fármacos duais e tricíclicos
Intestino (células enterocromafins)Regula a motilidade e reflexos digestivos; concentra a maior parte do total do corpoExplica náusea e alteração intestinal no início de alguns fármacos
PlaquetasEstocada e liberada na coagulação; favorece agregação e vasoconstriçãoPode elevar risco de sangramento com certos fármacos
Vasos e trigêmeo (relevante na enxaqueca)Participa da regulação vascular e da sinalização da dor de cabeçaConecta a 5-HT ao tratamento da enxaqueca
Pérola clínica

Quando um paciente estranha que um “remédio de depressão” tenha sido indicado para a dor, costumo explicar que estamos usando a serotonina pelo lado dela que controla a dor, na medula, e não pelo lado do humor. É a mesma molécula cumprindo papéis diferentes em territórios diferentes.

A serotonina e o “freio” da dor: a via inibitória descendente

Render anatômico do tronco humano com a coluna realcada em vermelho e os órgãos digestivos em azul vistos por transparência
A maior parte da serotonina e produzida no intestino, e suas vias descendentes modulam a dor ao longo da medula

Aqui está o ponto que mais interessa a quem trata dor. O sinal doloroso que nasce num tecido sobe pela medula espinhal até o cérebro, mas esse caminho não é uma estrada de mão única. O cérebro envia, de volta, um sistema de controle que pode amplificar ou frear a dor antes mesmo que ela chegue à consciência. Esse sistema é a via inibitória descendente, e dois de seus principais mensageiros químicos são a serotonina e a noradrenalina.

A via parte de regiões do tronco encefálico, sobretudo a substância cinzenta periaquedutal e o bulbo rostral ventromedial, e desce até o corno dorsal da medula, exatamente onde o primeiro neurônio da dor faz sinapse com o segundo. Ao liberar serotonina e noradrenalina nesse ponto, a via reduz a transmissão do sinal doloroso, como um botão de volume que abaixa a intensidade da dor que chega ao cérebro. É o mesmo conjunto de circuitos que sustenta, em parte, o efeito analgésico da acupuntura e da eletroacupuntura.

Em muitas condições de dor crônica, esse freio funciona mal. Na fibromialgia e em outros estados de sensibilização central, há evidência de que o controle descendente da dor está enfraquecido, ao mesmo tempo em que as vias que amplificam a dor estão hiperativas. O resultado é um sistema nervoso que “aumenta o volume” da dor: estímulos que não deveriam doer passam a doer, e a dor se espalha e persiste.

Reforçar a serotonina e a noradrenalina disponíveis nessa via é, então, uma forma racional de devolver potência ao freio. Esse mecanismo é discutido em detalhe na página dedicada à fibromialgia: causas, sintomas e tratamento.

O mecanismo em uma frase

O cérebro tem um freio para a dor

Do tronco encefálico descem fibras que liberam serotonina e noradrenalina no corno dorsal da medula e reduzem a transmissão do sinal doloroso.

Por que isso importa
5-HT + NA

São os dois mensageiros desse freio. Fármacos que elevam ambos tendem a aliviar mais a dor do que os que mexem só na serotonina.

Por que fármacos serotoninérgicos tratam dor, enxaqueca e fibromialgia

A consequência prática do que vimos é direta: medicamentos que aumentam a serotonina e a noradrenalina disponíveis na fenda sináptica reforçam a via inibitória descendente e, com isso, tratam a dor. Importante: esse efeito analgésico não depende de a pessoa estar deprimida e costuma aparecer em doses e em prazos diferentes do efeito sobre o humor. Por isso, no contexto da dor, esses fármacos recebem o nome de analgésicos adjuvantes ou moduladores: tratam pela via da dor, não pelo humor. O tema é tratado de forma ampla na página sobre antidepressivos: o que são.

Inibidores duais (IRSN): duloxetina e venlafaxina

Os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), como a duloxetina e a venlafaxina, agem exatamente sobre os dois mensageiros da via descendente. Por isso estão entre os fármacos com melhor evidência em dor neuropática e em fibromialgia. A duloxetina, em particular, tem indicação consolidada na dor neuropática (por exemplo, a neuropatia diabética dolorosa), na fibromialgia e na dor musculoesquelética crônica.

O efeito analgésico costuma ser gradual, ao longo de semanas, e a dose para dor é definida individualmente pelo médico, com aumento progressivo para reduzir efeitos adversos. O papel da duloxetina na dor é detalhado em página própria, duloxetina para dor crônica.

Antidepressivos tricíclicos: amitriptilina e nortriptilina

Os tricíclicos, como a amitriptilina e a nortriptilina, foram os primeiros a revelar esse efeito analgésico. Eles também bloqueiam a recaptação de serotonina e noradrenalina, e somam outras ações (sobre canais e receptores) que contribuem para o alívio da dor neuropática e para a profilaxia da enxaqueca. Na dor, são usados em doses baixas, bem menores que as antidepressivas, tomadas geralmente à noite, o que também ajuda no sono frequentemente prejudicado de quem tem dor crônica.

Exigem cautela em idosos e em quem tem certas condições cardíacas, por isso a escolha e o ajuste são sempre médicos. Veja a página específica sobre amitriptilina para dor neuropática em adultos.

Serotonina e enxaqueca

A enxaqueca tem uma relação particular com a serotonina, tanto nos circuitos centrais da dor quanto na regulação vascular e na via trigeminal. Isso aparece de duas formas no tratamento. Na profilaxia (prevenção das crises), a amitriptilina é uma das opções com efeito reconhecido.

E no tratamento da crise, há uma classe de medicamentos que age diretamente em receptores específicos de serotonina para abortar a dor de cabeça. Os mecanismos da enxaqueca e suas opções de tratamento são aprofundados na página enxaqueca: o que é, causas e tratamentos.

Classes serotoninérgicas e seu papel no manejo da dor
Classe (exemplos)Como age na dorOnde costuma ser útil
IRSN duais: duloxetina, venlafaxinaAumentam serotonina e noradrenalina na via descendenteDor neuropática, fibromialgia, dor musculoesquelética crônica
Tricíclicos: amitriptilina, nortriptilinaRecaptação de 5-HT e noradrenalina, mais outras ações; dose baixaDor neuropática, profilaxia de enxaqueca, sono na dor crônica
Antagonistas de receptor de serotonina (crise de enxaqueca)Atuam em receptores 5-HT específicos para abortar a criseTratamento agudo da enxaqueca, com prescrição médica
ISRS (foco no humor): fluoxetina, sertralinaAumentam sobretudo a serotonina; efeito analgésico mais fracoMais para humor/ansiedade do que para dor isolada

Repare numa pista importante da tabela: os fármacos que mexem nos dois mensageiros (serotonina e noradrenalina) tendem a aliviar a dor mais do que os que mexem só na serotonina. Esse contraste reforça que a analgesia depende do conjunto da via descendente, não da serotonina sozinha.

Aumento de serotonina, depressão e o mito da “deficiência”

Muita gente busca “aumento da serotonina” ou “aumento de serotonina” achando que existe um botão simples de bem-estar. Por décadas se popularizou a ideia de que a depressão seria causada por uma “deficiência de serotonina” no cérebro, e que os antidepressivos funcionariam apenas repondo essa falta. A ciência atual considera essa explicação incompleta e simplista demais. A depressão é multifatorial e envolve circuitos, plasticidade neuronal, fatores genéticos, inflamatórios e psicossociais, não um único neurotransmissor “em falta”.

Isso não significa que os fármacos serotoninérgicos não funcionem; significa que funcionam por mecanismos mais complexos do que a simples reposição de uma molécula. A mesma lógica vale para a dor: o benefício dos duais e dos tricíclicos não é “repor serotonina que faltava”, e sim modular ativamente o sistema de controle da dor. Por isso medir serotonina no sangue não serve para diagnosticar depressão nem para guiar o tratamento da dor, e suplementos ou alimentos vendidos como forma de “elevar a serotonina” não substituem avaliação e tratamento adequados.

Mito

“Depressão e dor crônica são só falta de serotonina, então basta aumentar a serotonina para resolver.”

Fato

São quadros multifatoriais. Os fármacos serotoninérgicos ajudam por modular circuitos complexos, não por repor uma molécula em falta. Não há exame de serotonina que feche esses diagnósticos.

A serotonina e a dor, além do rótulo de “hormônio da felicidade”

A história do “baixa serotonina causa depressão” está ultrapassada: revisões recentes não sustentam essa relação simples. E a serotonina interessa à dor por um motivo diferente do humor: junto da noradrenalina, ela forma um freio descendente sobre os sinais de dor na medula. É por isso que a duloxetina e os tricíclicos aliviam dor crônica agindo sobre vias de dor, e não por elevarem o ânimo, com efeito que pode aparecer mesmo em quem não tem depressão. Trocar o rótulo de “molécula da felicidade” pelo de “molécula que regula o volume da dor” muda o que se espera, e o que se teme, de um tratamento serotoninérgico.

Síndrome serotoninérgica: o alerta de excesso

Se faltar serotonina não é uma explicação que se sustente sozinha, o excesso de atividade serotoninérgica, esse sim, é uma situação clínica real e potencialmente grave. A síndrome serotoninérgica ocorre quando há atividade serotoninérgica excessiva no sistema nervoso, em geral pela combinação de mais de um fármaco que eleva a serotonina, por doses altas, ou por interações com certos analgésicos, medicamentos para enxaqueca, antidepressivos e até produtos naturais. É o principal motivo pelo qual nunca se deve combinar esses medicamentos por conta própria.

Sinais de alerta · síndrome serotoninérgica

Procure atendimento de urgência se, após iniciar ou combinar medicamentos serotoninérgicos, surgir

  • Agitação, inquietação, confusão mental ou alucinações.
  • Tremores, abalos musculares, rigidez ou reflexos muito exaltados.
  • Febre, sudorese intensa, calafrios.
  • Coração acelerado, pressão alta, pupilas dilatadas.
  • Náusea, vômitos ou diarreia associados aos sintomas acima.

O quadro pode variar de leve a grave e tende a surgir nas primeiras horas após iniciar ou aumentar um fármaco, ou após associar dois deles. Na suspeita, a conduta é suspender o medicamento e procurar avaliação médica imediata; nos casos intensos, é uma emergência. Esse risco é exatamente o que torna a prescrição uma decisão médica: a escolha das combinações, das doses e a checagem de interações protegem o paciente, e o médico precisa conhecer todos os medicamentos e suplementos em uso.

Da prática clínica

No dia a dia da dor, o que mais reposiciona a conversa é apresentar a serotonina como parte de um freio da dor, ao lado da noradrenalina, e não como um “hormônio da felicidade”. Quando o paciente entende que a duloxetina ou a amitriptilina foram indicadas para reforçar esse freio na medula, e não porque o achamos deprimido, a adesão melhora e o estigma do “remédio de cabeça” diminui.

Costuma surpreender duas coisas. A primeira é que a maior parte da serotonina do corpo está no intestino, o que ajuda a entender por que náusea e alteração do hábito intestinal aparecem no começo do tratamento e quase sempre cedem. A segunda é que esses fármacos agem devagar na dor, ao longo de semanas, em ritmo diferente do que muita gente espera de um analgésico comum.

O ponto que reforço com mais insistência é de segurança: nunca somar por conta própria dois agentes que elevam a serotonina. A combinação silenciosa que mais vejo passar despercebida é a de um antidepressivo de uso contínuo com o tramadol receitado para uma crise, ou com um triptano da enxaqueca; por isso peço a lista completa de medicamentos e suplementos, inclusive os “naturais”.

Assista: DULOXETINA – ANTIDEPRESSIVO PARA DOR, FIBROMIALGIA, DEPRESSÃO E NEUROPATIA

Como a modulação da serotonina entra no tratamento da dor

Na medicina da dor, a serotonina não é um tratamento isolado, e sim um dos alvos de um plano multimodal, individualizado e não-cirúrgico. A lógica é reforçar a via inibitória descendente por mais de um caminho ao mesmo tempo: parte pela reabilitação ativa, que é a base; parte por técnicas que modulam a neurotransmissão, como a acupuntura; e, quando indicado, parte pela medicação serotoninérgica. Cada peça soma, nenhuma substitui as demais. A seguir, o papel de cada uma, com mecanismo, evidência e o que esperar.

Reabilitação ativa e exercício

A base do tratamento da dor crônica, com efeito sobre o controle central da dor e sobre o humor.

Acupuntura e eletroacupuntura

Modulam neurotransmissores e ativam a via inibitória descendente, recrutando 5-HT, noradrenalina e opioides endógenos.

Agulhamento seco para o componente miofascial

Trata os pontos-gatilho que somam dor ao quadro e perpetuam o ciclo dor-espasmo-dor.

Medicação serotoninérgica adjuvante

Duais e tricíclicos em dose ajustada, quando há indicação, para reforçar o freio da dor.

Reabilitação e exercício: a base que também modula a dor central

O exercício terapêutico orientado é a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança na dor crônica, e o eixo de todo o resto. Seu mecanismo vai além de fortalecer músculos: a atividade física regular melhora o controle central da dor (a chamada modulação descendente), reduz a sensibilização e tem efeito favorável sobre humor e sono, todos intimamente ligados à sinalização serotoninérgica. Na fibromialgia, em especial, o exercício aeróbico de baixo impacto é uma das condutas com melhor suporte de evidência. O que esperar: a resposta é gradual, ao longo de semanas, e o programa é progressivo e mantido para sustentar o resultado. Na clínica, a reabilitação é individualizada, com um paciente por sala.

Acupuntura e eletroacupuntura: modulação direta de neurotransmissores

O que é
de todas as técnicas deste plano, é a que mais diretamente toca o assunto deste texto. Na acupuntura médica, agulhas finas são posicionadas em acupontos selecionados; na eletroacupuntura, conecta-se a elas uma corrente elétrica de baixa intensidade, com frequência e parâmetros escolhidos conforme o objetivo.
Mecanismo
a estimulação recruta exatamente a via inibitória descendente descrita nas seções anteriores. Estudos experimentais e de neuroimagem associam o efeito analgésico à liberação de serotonina e noradrenalina nas projeções que descem dos núcleos da rafe ao corno dorsal, somada à liberação de opioides endógenos e à modulação segmentar local (a teoria da comporta); a estimulação de baixa frequência tende a mobilizar mais os sistemas opioides, e a de alta frequência outros mediadores. Ou seja, a agulha reforça por uma porta o mesmo freio que os fármacos duais reforçam por outra.
Evidência
moderada para dor cervical crônica, lombalgia e cefaleia/enxaqueca, com respaldo de diretrizes em situações selecionadas; uma das referências deste texto descreve, por neuroimagem, alterações nos circuitos serotoninérgicos da rafe após acupuntura na dor cervical.
O que esperar
o efeito é cumulativo e aparece ao longo de uma sequência de sessões, em geral semanais ou quinzenais, reavaliada por metas de dor e função; é um recurso útil quando se quer apoiar o controle da dor reduzindo a carga de medicação. A acupuntura é conduzida por médicos com formação na técnica, dentro de uma linha de ensino e pesquisa em dor desenvolvida pela equipe ao longo de décadas.

Agulhamento seco para o componente miofascial

O que é
a punção mecânica de um ponto-gatilho miofascial com uma agulha fina, sem injetar qualquer substância. Entra aqui porque, num quadro mantido por uma via descendente enfraquecida, os músculos com pontos-gatilho funcionam como geradores periféricos que somam estímulo doloroso e realimentam a sensibilização central.
Mecanismo
a agulha no ponto-gatilho costuma evocar a contração reflexa local da banda tensa, e a esse fenômeno se associa queda da atividade elétrica espontânea da placa motora e redução dos mediadores inflamatórios e álgicos no microambiente do ponto; o resultado é alívio local e segmentar, distinto do efeito sistêmico, mediado por monoaminas, que se busca com a medicação serotoninérgica.
O que esperar
a resposta varia, com parte do alívio surgindo logo após a sessão e parte ao longo dos dias seguintes; é comum dor leve no local por um ou dois dias, e a técnica é aplicada em poucas sessões guiadas pela resposta. Tratar os pontos-gatilho não corrige o freio central, mas retira uma fonte de dor que o sobrecarrega.

Medicação serotoninérgica adjuvante

O que é
o uso, quando indicado, de fármacos que reforçam a via descendente, sobretudo os duais (duloxetina, venlafaxina) e os tricíclicos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina).
Mecanismo
aumentam a serotonina e a noradrenalina disponíveis no corno dorsal da medula, potencializando o freio natural da dor, como detalhado nas seções anteriores.
O que esperar
o efeito analgésico é gradual, costuma levar de uma a poucas semanas, e a dose é titulada aos poucos para reduzir efeitos adversos; nos tricíclicos, a tomada noturna também auxilia o sono.
Limitações
não são primeira linha para toda dor, têm contraindicações e interações relevantes (lembrando a síndrome serotoninérgica), e a prescrição, a dose e a duração são sempre definidas pelo médico, com atenção a comorbidades. A medicação alivia e abre espaço para a reabilitação, mas não substitui a base ativa. Uma visão geral das opções medicamentosas para dor está no guia de remédios para dor.
Semana 1 a 2

Início e ajuste

Começam a reabilitação e, quando indicado, o fármaco em dose baixa, com aumento progressivo; efeitos digestivos iniciais costumam ceder.

Semana 3 a 6

Resposta analgésica

O alívio da via descendente tende a aparecer de forma gradual; somam-se acupuntura e técnicas para o componente miofascial.

Após 6 semanas

Reavaliação por metas

Revê-se a dor (escala de 0 a 10), o sono e a função. Se a meta foi atingida, mantém-se e planeja-se o desmame; se a resposta foi parcial, ajustam-se dose, classe e as demais peças do plano, em vez de simplesmente repetir o que não funcionou.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

A serotonina é um hormônio?

A serotonina (5-HT) atua principalmente como neurotransmissor, o mensageiro químico entre células nervosas. Em alguns tecidos, porém, ela também age como sinal hormonal local. Por isso é correto dizer que ela cumpre os dois papéis, o que explica seus efeitos sobre humor, sono, digestão, coagulação e dor.

O que faz a serotonina no corpo?

No sistema nervoso central, participa do humor, do sono, do apetite e do controle da dor. No intestino, onde fica a maior parte do total do corpo, regula a motilidade. Nas plaquetas, ajuda na coagulação. Para quem trata dor, o papel mais relevante é alimentar a via inibitória descendente, o freio natural da dor.

Como aumentar a serotonina de forma segura?

Hábitos como atividade física regular, sono adequado e exposição à luz natural se associam a um sistema serotoninérgico mais saudável e fazem parte do cuidado com dor crônica e humor. Já elevar a serotonina com medicamentos é uma decisão médica, pelo risco de efeitos adversos e de síndrome serotoninérgica. Não existe um suplemento que substitua avaliação e tratamento adequados, e não se deve combinar fármacos por conta própria.

Por que um antidepressivo foi indicado para a minha dor, se eu não tenho depressão?

Porque alguns desses fármacos, sobretudo os duais (duloxetina, venlafaxina) e os tricíclicos em dose baixa (amitriptilina, nortriptilina), reforçam a serotonina e a noradrenalina na via que controla a dor na medula. Esse efeito analgésico independe do humor e costuma ocorrer em doses diferentes das antidepressivas. No contexto da dor, eles são analgésicos adjuvantes.

Falta de serotonina causa depressão?

A antiga ideia de que a depressão seria apenas “falta de serotonina” é hoje considerada incompleta. A depressão é multifatorial, e os medicamentos serotoninérgicos funcionam por mecanismos mais complexos do que simplesmente repor uma molécula. Não há exame de serotonina no sangue que diagnostique depressão.

O que é a síndrome serotoninérgica?

É um quadro causado por atividade serotoninérgica excessiva no sistema nervoso, em geral pela combinação de medicamentos que elevam a serotonina. Cursa com agitação, tremores, febre, sudorese, coração acelerado e, nos casos graves, é uma emergência. É o principal motivo para nunca combinar esses medicamentos sem orientação médica.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências5 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Bravo L, Llorca-Torralba M, Berrocoso E, Micó JA. Monoamines as Drug Targets in Chronic Pain: Focusing on Neuropathic Pain. Front Neurosci. 2019;13:1268. doi:10.3389/fnins.2019.01268 acessar
  2. Wang et al. Acupuntura modifica circuitos cerebrais da serotonina em pacientes com dor cervical crônica. CNS Neuroscience & Therapeutics. 2024. ver resumo
  3. Lunn MP, Hughes RA, Wiffen PJ. Duloxetine for treating painful neuropathy, chronic pain or fibromyalgia. Cochrane Database Syst Rev. 2014;2014(1):CD007115. doi:10.1002/14651858.CD007115.pub3 acessar
  4. Häuser et al. Antidepressivos no Tratamento da Fibromialgia: Meta-análise de 18 Estudos. JAMA. 2009. ver resumo
  5. Boyer EW, Shannon M. The serotonin syndrome. N Engl J Med. 2005;352(11):1112 a 1120. doi:10.1056/NEJMra041867 acessar
Atualizado em 1 jun 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A serotonina e os fármacos que atuam sobre ela aparecem aqui de forma informativa, sem promoção de qualquer produto, marca ou dose. Como o papel da serotonina na dor depende do diagnóstico, das comorbidades e dos demais medicamentos em uso, a indicação e o ajuste precisam ser individualizados caso a caso.

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