CENTRO DE TRATAMENTO DE DOR: Acupuntura Médica, Ondas de Choque, Fisiatria e Fisioterapia.

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Quadril · Dor lateral

Dor no quadril e bursite trocantérica

A dor na lateral do quadril que piora ao deitar de lado era chamada de bursite trocantérica, mas hoje sabe-se que a causa principal costuma ser tendinopatia dos glúteos.

Resposta direta
  • A dor na lateral do quadril, sobre o osso saliente (o trocânter maior), costuma ser a síndrome dolorosa do trocânter maior; “bursite” é um termo antigo e parcial.
  • A causa mais comum não é a bolsa inflamada, e sim a tendinopatia dos glúteos médio e mínimo, por compressão e sobrecarga do tendão.
  • O sinal mais típico é dor ao deitar sobre o lado afetado e ao apoiar o peso em uma perna só; o tratamento é não-cirúrgico e tem o exercício como base.
4,9Google5,0Doctoralia

40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Por que “bursite” virou síndrome do trocânter maior

Diagrama anatômico em português com o título Bursite Trocantérica, mostrando a pelve e um detalhe lateral do quadril com as bolsas inflamadas em vermelho, o musculo e o fêmur identificados.
As bolsas sinoviais sobre o trocânter do fêmur inflamam e geram a dor lateral característica do quadril.

Durante anos, toda dor na parte de fora do quadril recebia o rótulo de bursite trocantérica, no pressuposto de que uma bolsa estava inflamada. A imagem e a cirurgia mostraram outra coisa: a bursa costuma ser coadjuvante, e o problema mora no tendão.

O trocânter maior é a saliência óssea que se palpa na lateral do quadril, no topo do fêmur. Nele se inserem os tendões dos músculos glúteo médio e glúteo mínimo, os principais abdutores do quadril, responsáveis por estabilizar a pelve quando apoiamos o peso em uma perna só, como acontece a cada passo. Entre esses tendões e a pele existem bolsas (bursas) que reduzem o atrito. Quando essa região dói, fala-se em síndrome dolorosa do trocânter maior, um termo guarda-chuva que descreve melhor o quadro do que a palavra “bursite”, porque não presume qual estrutura está doente.

A mudança de nome tem consequência prática. Estudos com ressonância e achados de cirurgia mostram que, na grande maioria dos casos de dor lateral persistente, o que se encontra é uma tendinopatia dos glúteos médio e mínimo, ou seja, uma falência do tendão por sobrecarga, com ou sem espessamento da bursa associado. A bursa, quando inflamada, costuma ser uma reação secundária à doença do tendão, e não a origem do problema.

Por isso o tratamento moderno mira o tendão e a forma como ele é carregado; a bolsa deixou de ser o alvo central. Esse mecanismo é detalhado na página sobre tendinite de glúteo.

  • 2tendões no centro do quadro: glúteo médio e glúteo mínimo, os abdutores do quadril
  • 4xmais comum em mulheres, sobretudo entre 40 e 60 anos
  • deitar do ladoo gesto que mais reproduz a dor, ao comprimir o tendão sobre o osso
  • apoio em 1 pernao teste e o gesto do dia a dia que mais carregam o tendão glúteo

A apresentação é reconhecível. A dor fica na parte de fora do quadril, sobre o trocânter, e pode irradiar pela face lateral da coxa, às vezes até o joelho, mas em geral não desce abaixo dele nem segue um trajeto de nervo. Piora ao deitar sobre o lado afetado, motivo de noites mal dormidas, e também ao cruzar as pernas, subir escadas, levantar de uma cadeira baixa e caminhar por períodos longos. É um quadro que costuma incomodar mais pela perda de sono e de função do que pela intensidade momentânea.

Mito

“É uma bursa inflamada, então um anti-inflamatório ou uma infiltração resolvem.”

Fato

Na maioria dos casos a origem é o tendão glúteo, não a bursa. O alívio sustentado vem da carga progressiva do tendão; a infiltração tem papel pontual, e o anti-inflamatório, papel curto e adjuvante.

Mesa de debate em congresso do CREMESP sobre dor e acupuntura
Em congressos Mesa de debate no congresso do CREMESP

O que mais pode causar dor lateral no quadril

Quatro vistas posteriores da coxa e glúteo marcando pontos-gatilho com X e as áreas de dor referida em vermelho ao longo do glúteo e face lateral da coxa.
Pontos-gatilho nos músculos glúteos referem dor para a lateral do quadril e imitam a bursite, exigindo exame cuidadoso.

Localizar a dor é o primeiro passo, porque o quadril dói de formas diferentes conforme a estrutura. Dor na virilha aponta para dentro da articulação, como artrose ou impacto femoroacetabular; dor na nádega sugere origem sacroilíaca, no piriforme ou referida da coluna lombar; e a dor lateral, sobre o trocânter, é o território da síndrome aqui descrita. A tabela resume as confusões mais comuns.

Diferenciando a dor lateral do trocânter de outras causas
QuadroOnde dóiPista que diferencia
Síndrome do trocânter maiorLateral do quadril, sobre o osso salientePiora ao deitar do lado e ao apoiar em uma perna; dor à palpação do trocânter
Artrose do quadril (coxartrose)Virilha, por vezes nádegaRigidez, perda de rotação interna, dor no início da marcha; ver pilar do quadril
Dor referida da coluna lombarNádega e face lateral, pode descerRelação com a postura da coluna; sinais neurológicos; piora ao sentar
Radiculopatia / dor ciáticaNádega que desce pela pernaTrajeto de nervo, formigamento e fraqueza distais, abaixo do joelho
Dor sacroilíacaNádega, perto da pelveDor sobre a articulação sacroilíaca, testes de provocação específicos

Os quadros podem coexistir. Não é raro que uma artrose inicial do quadril ou uma dor lombar crônica mudem o padrão de marcha e sobrecarreguem o tendão glúteo, somando uma síndrome do trocânter por cima. Por isso a avaliação não se contenta com um único achado: ela confirma a origem lateral e, ao mesmo tempo, rastreia a coluna e a articulação. Para o panorama de todas as dores da região, veja o guia de dor no quadril.

Como o quadro é avaliado

A avaliação parte da história: onde a dor fica, se piora ao deitar do lado e nas escadas, e há quanto tempo dura. Em seguida, o exame físico dirigido confirma a origem lateral e diferencia das outras causas. Reproduzir a dor habitual do paciente a partir do trocânter e da carga sobre os abdutores é o que sustenta o diagnóstico, mais do que qualquer imagem isolada.

Trocânter maior e tendões dos glúteos médio e mínimo
Onde mora a dor. Os tendões dos glúteos médio e mínimo se inserem no trocânter maior, a saliência óssea na lateral do quadril. A compressão do tendão sobre o osso, agravada ao deitar do lado e ao cruzar as pernas, explica o padrão da dor. Ilustração esquemática, a ser substituída por imagem da clínica.
  1. Palpação do trocânter

    A pressão diretamente sobre a saliência óssea da lateral do quadril reproduz a dor habitual. É o achado mais consistente do quadro.

  2. Teste de apoio monopodal

    Ficar em pé sobre a perna afetada por cerca de 30 segundos costuma reproduzir a dor lateral, pois exige que o tendão glúteo estabilize a pelve sob carga. Um sinal de Trendelenburg, com queda da pelve do lado oposto, indica fraqueza dos abdutores.

  3. Manobras de carga do tendão

    A abdução resistida do quadril e testes de derrotação com resistência carregam de forma seletiva os glúteos médio e mínimo. A dor reproduzida nessas manobras aponta para a tendinopatia.

  4. Triagem da coluna e da articulação

    Amplitude do quadril, sobretudo a rotação interna (reduzida na artrose), testes sacroilíacos e um exame neurológico do membro quando há dor que desce, para afastar origem lombar ou radicular.

A imagem não é obrigatória num quadro típico. Quando indicada, a ultrassonografia ou a ressonância mostram a tendinopatia dos glúteos, eventuais rupturas parciais e a bursa, e ajudam nos casos que não respondem ao tratamento inicial. Vale o mesmo cuidado de outras regiões: alterações de tendão e líquido na bursa são frequentes mesmo em pessoas sem dor, de modo que a imagem confirma e gradua, mas não substitui o exame que reproduz o sintoma.

Pérola clínica

Dor na lateral do quadril que piora ao deitar sobre o lado e ao apoiar o peso em uma perna só, com dor à palpação do trocânter, é síndrome do trocânter maior até prova em contrário. O detalhe que mais engana é a dor que desce pela coxa: enquanto ela não cruza o joelho e não segue trajeto de nervo, a origem segue sendo lateral, e não uma ciática.

Sinais de alerta

A grande maioria dos casos é benigna e mecânica. Ainda assim, alguns sinais indicam que a avaliação não deve esperar e que outras causas precisam ser descartadas antes de tratar a dor como uma simples sobrecarga.

Sinais de alerta · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Dor após queda ou trauma, com incapacidade de apoiar o peso, pelo risco de fratura do fêmur ou do quadril.
  • Febre, calor e vermelhidão sobre a região, ou mal-estar geral, que sugerem infecção.
  • Perda de força importante para afastar a perna ou agravamento rápido da claudicação, que podem indicar ruptura tendínea relevante.
  • História de câncer, perda de peso inexplicada ou dor noturna implacável que não alivia em nenhuma posição.
  • Dormência ou fraqueza que desce pela perna, abaixo do joelho, sugerindo origem na coluna.
  • Uso prolongado de corticoide ou imunossupressão, que mudam o leque de hipóteses.

Cada item desloca a investigação para uma causa diferente: trauma levanta fratura; febre e calor local levantam infecção; dor noturna implacável com história oncológica pede exclusão de causa secundária. Na ausência desses sinais, a síndrome do trocânter maior é tratada como um quadro mecânico, com resposta esperada ao longo de semanas a meses.

Assista: TENDINITE OU BURSITE? Qual a diferença?

Caminho de tratamento

Ilustração de uma mao com luva inserindo uma agulha sobre o quadril, com a musculatura e a bolsa trocantérica representadas em azul no ponto da aplicação.
A infiltração guiada deposita o medicamento dentro da bolsa trocantérica para reduzir a inflamação e a dor.

O tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. Como o alvo é o tendão glúteo, a base é a gestão de carga: tirar do tendão a sobrecarga de compressão que o irrita e, ao mesmo tempo, devolver a ele capacidade de suportar carga, de forma progressiva. As demais técnicas se somam a essa base conforme a apresentação e a resposta, e não a substituem. O objetivo é reduzir a dor, recuperar a função e o sono, e evitar procedimentos desnecessários.

Educação e ajuste de carga

Entender o mecanismo de compressão e ajustar o que irrita o tendão: evitar cruzar as pernas, deitar do lado afetado e ficar parado com o peso apoiado em um quadril só.

Exercício e fisioterapia

Base do plano: carga progressiva dos glúteos médio e mínimo, começando por isometria e evoluindo para fortalecimento funcional.

Técnicas em clínica

Ondas de choque, laser de alta intensidade, acupuntura e agulhamento seco como adjuvantes que apoiam a reabilitação.

Procedimentos guiados

Infiltração peritendínea ou da bursa, guiada e com cautela, reservada para a dor que não cede e atrapalha a reabilitação.

Exercício e gestão de carga: a base

É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança, e a que sustenta o resultado a longo prazo. O primeiro movimento é tirar a compressão do tendão: orienta-se a não cruzar as pernas, a usar um travesseiro entre os joelhos ao deitar, a evitar deitar sobre o lado doloroso e a corrigir a postura de “pendurar” o peso em um quadril ao ficar em pé. Em paralelo, inicia-se a carga progressiva dos abdutores, começando por exercícios isométricos de abdução, que costumam aliviar a dor, e evoluindo para fortalecimento dinâmico e funcional do glúteo médio.

Um ponto contraintuitivo, mas importante: alongamentos que cruzam a perna sobre o corpo comprimem o tendão e tendem a piorar o quadro, e por isso são evitados. O atendimento é individual, um paciente por sala, e a resposta é gradual, ao longo de semanas a meses, dependente da regularidade.

Faça

O que ajuda o tendão

Travesseiro entre os joelhos para dormir, isometria de abdução, fortalecimento progressivo do glúteo médio, distribuir o peso nas duas pernas em pé e respeitar a dor como guia da carga.

Evite

O que comprime e irrita

Cruzar as pernas, deitar sobre o lado doloroso, alongar a perna cruzando sobre o corpo, ficar parado apoiando o peso em um quadril só e o repouso prolongado, que enfraquece o tendão.

Ondas de choque

As ondas de choque extracorpóreas aplicam ondas acústicas de alta energia sobre o tendão. O mecanismo proposto é a mecanotransdução, com estímulo à neovascularização e à regeneração tecidual, além de um efeito analgésico local. Essa é uma das poucas técnicas em clínica cuja lógica atua sobre a doença do tendão em si, e não sobre a bolsa. A evidência é favorável nas tendinopatias em geral, e há estudos com bom resultado na tendinopatia glútea, sobretudo quando combinada ao exercício de carga.

O ciclo costuma ter cerca de 3 a 5 sessões semanais, com melhora ao longo de semanas. Há desconforto durante a aplicação, e a indicação respeita contraindicações específicas.

Laser de alta intensidade

O laser de alta intensidade atua por fotobiomodulação, com efeito analgésico e anti-inflamatório em profundidade e estímulo ao metabolismo celular. Entra como adjuvante na reabilitação, para controlar a dor de uma fase mais irritável e permitir que o paciente avance no exercício de carga. É aplicado em séries de sessões, com alívio progressivo, sempre somado à base ativa, e não como tratamento isolado da tendinopatia.

Acupuntura médica e agulhamento seco

Acupuntura médica e eletroacupuntura

Modulam a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula, pela ativação de vias inibitórias descendentes e pela liberação de opioides endógenos, ajudando a reduzir a dor lateral e, com frequência, a necessidade de medicação enquanto o tendão glúteo é recarregado.

Moderadaadjuvante

Agulhamento seco

Trata o componente miofascial que quase sempre acompanha a síndrome do trocânter: a tendinopatia dos abdutores faz a musculatura vizinha trabalhar em sobrecarga e formam-se pontos-gatilho no glúteo médio, no tensor da fáscia lata, no glúteo máximo e no quadrado lombar, que somam dor referida à face lateral da coxa. A agulha, inserida nessas bandas tensas, busca a contração muscular involuntária característica do ponto-gatilho e, ao reduzir a tensão local, alivia a dor referida e melhora a tolerância ao exercício de carga. Ressalva específica deste quadro: o agulhamento é dirigido aos músculos abdutores e à fáscia, e não diretamente sobre o trocânter doloroso nem sobre a bursa, para não acrescentar irritação à inserção já sensibilizada.

Moderadacomponente miofascial

Na clínica, a acupuntura e o agulhamento são realizados por médicos com formação em acupuntura e em dor, integrados à avaliação clínica que define o componente predominante de cada caso.

Infiltração guiada, com cautela

A infiltração peritendínea ou da bursa, com anestésico local e, por vezes, corticoide, sob orientação clínica ou guiada por ultrassom, tem papel pontual. Ela pode trazer alívio rápido e abrir uma janela para a reabilitação quando a dor é intensa e impede o exercício. O alívio do corticoide tende a ser de curta duração, e o seu uso repetido pode ser deletério para um tendão já doente, motivo pelo qual a infiltração é usada com parcimônia, sempre dentro do plano de carga, e não como o tratamento em si. Por isso, ao contrário do que sugeria o nome “bursite”, aplicar uma injeção atrás da outra não é a estratégia, e pode atrasar a recuperação.

O nome antigo apontava para a bolsa e para a agulha; a compreensão atual aponta para o tendão e para a carga. Tratar a síndrome do trocânter é, antes de tudo, ensinar o tendão glúteo a suportar peso de novo.

Princípio de tratamento da síndrome dolorosa do trocânter maior

Medicação, papel adjuvante

Analgésicos simples e anti-inflamatórios por períodos curtos ajudam a controlar uma fase mais dolorosa e a viabilizar o exercício, sempre com indicação, dose e duração definidas pelo médico, com atenção a estômago, rins, pressão e demais comorbidades. Não existe remédio que reconstrua o tendão; a medicação alivia o sintoma enquanto a base ativa faz o trabalho de fundo.

Semana 1 a 2

Controle inicial

Reduzir a compressão do tendão (não cruzar as pernas, travesseiro entre os joelhos, não deitar do lado), iniciar isometria de abdução e aliviar a dor para dormir.

Semana 3 a 12

Progressão

Carga progressiva do glúteo médio e fortalecimento funcional, com ondas de choque, laser ou agulhamento como adjuvantes; a dor lateral e o sono costumam melhorar de forma gradual.

Após 3 meses

Reavaliação

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico, considera-se imagem e infiltração guiada, e investiga-se uma ruptura tendínea ou causa associada na coluna ou na articulação.

Se a dor lateral não cede e o paciente segue sem dormir sobre o lado afetado depois de algumas semanas, o passo seguinte é rever o diagnóstico e a dosagem do exercício antes de escalar para infiltração: com frequência o que falta é progredir a carga do glúteo médio ou corrigir uma compressão que passou despercebida, como cruzar as pernas ao dormir. Para reduzir recorrências, mantêm-se o fortalecimento dos abdutores e os ajustes de carga mesmo depois do alívio. A tendinopatia glútea responde bem, mas costuma exigir semanas a alguns meses de trabalho consistente, e não dias.

Da prática clínica

O que se observa no consultório

A queixa que mais identifica o quadro raramente é a caminhada: é a noite. A pessoa relata que não consegue dormir sobre o lado dolorido e que, ao virar para o lado bom, a perna de cima cai para dentro e a dor reaparece do outro lado. É um relato tão característico que um travesseiro entre os joelhos costuma render as primeiras noites de sono antes mesmo de qualquer exercício fazer efeito.

O ponto que mais reorienta a conversa é trocar a palavra “bursite” por tendão. Quando se explica que a estrutura cansada é o tendão do glúteo, e não uma bolsa inflamada, fica mais fácil entender por que o repouso e a injeção, sozinhos, costumam decepcionar, e por que o exercício, que à primeira vista parece contraindicado numa região que dói, é exatamente o que devolve capacidade ao tendão.

Surpreende muita gente que carregar o glúteo, de forma graduada, alivie mais do que poupá-lo, e que alongar a perna cruzando-a sobre o corpo, um hábito comum de quem sente a lateral do quadril, piore o quadro por aumentar a compressão sobre a inserção.

Por que o tendão, e não a bursa, é o alvo

A maior parte dos textos ainda trata o quadro como uma bolsa inflamada e termina recomendando anti-inflamatório, gelo e infiltração, como se o alvo fosse a bursa. O que costuma ficar de fora é que, na grande maioria dos casos de dor lateral persistente, a bursa não é o problema: a estrutura doente é o tendão do glúteo médio ou mínimo, e a bolsa, quando aparece espessada na imagem, em geral é uma reação secundária à sobrecarga do tendão.

A consequência prática é desconfortável para a abordagem clássica: repetir infiltrações de corticoide na vizinhança de um tendão já fragilizado pode aliviar por algumas semanas, mas tende a enfraquecer ainda mais o tecido e a atrasar a recuperação. Por isso a estratégia que melhor responde é, à primeira vista, contraintuitiva: em vez de proteger e injetar, recarregar o tendão de forma progressiva. É o oposto do que o nome antigo sugeria.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

A reabilitação ativa é o eixo do tratamento da síndrome do trocânter maior e a única medida que devolve capacidade de carga ao tendão glúteo de forma sustentada. As técnicas de mão e de aparelho aliviam o sintoma e abrem uma janela, mas o que muda o curso é recuperar a tolerância dos glúteos médio e mínimo e corrigir a compressão que irrita a inserção. Na clínica, essa etapa é conduzida individualmente, dentro de um plano multimodal com indicação médica.

Princípio 1 · carga, não repouso

Parar por completo piora a tendinopatia a médio prazoReduzir o que dói muitoReintroduzir carga de forma graduada

Princípio 2 · descomprimir o tendão

A compressão contra o trocânter é o gatilho centralNão cruzar as pernasNão deitar do lado afetadoNão pendurar o peso em um quadril só

A escolha entre as técnicas e a ordem de introdução dependem da apresentação, das comorbidades e da resposta inicial. As quatro abordagens a seguir são todas de reabilitação ativa ou adjuvante a ela.

Fisioterapia e cinesioterapia: fortalecimento dos abdutores

Exercício terapêutico progressivo dos glúteos médio e mínimo e dos estabilizadores da pelve, progredido pela tolerância à carga. Começa por contrações isométricas de abdução, que costumam ter efeito analgésico já nas primeiras semanas, e evolui para fortalecimento em carga com controle da queda da pelve no apoio em uma perna; corrigir o controle motor lombopélvico e a marcha reduz a adução dinâmica que comprime o tendão. É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança e o eixo de todo o resto. Limitação: o alongamento que cruza a perna sobre o corpo aumenta a compressão e tende a piorar a fase inicial; carga mal dosada na fase irritável pode aumentar a dor transitoriamente.

ForteEixo do plano

Reeducação Postural Global (RPG)

Método que trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas. Na dor lateral atua sobre a cadeia lateral e a relação pelve–quadril–tronco por contração isométrica em posição alongada, com componente excêntrico sob tensão sustentada e controle respiratório, buscando reequilibrar tensões e o alinhamento da pelve. É complementar ao fortalecimento, não um substituto. Limitação: estudos de menor porte mostram benefício comparável a outros exercícios estruturados, sem superioridade clara; as posturas podem incomodar no início e são adaptadas para não comprimir a inserção contra o trocânter.

ModeradaSessões individuais

Pilates clínico

Exercícios de controle, estabilização e respiração adaptados ao quadro, no solo ou em aparelhos com molas que graduam a resistência. Enfatiza a estabilização lombopélvica e o controle do movimento em amplitude segura, o que melhora como a carga chega aos abdutores e reduz a adução do quadril; é uma forma estruturada de carregar o glúteo médio sob controle. Limitação: efeito semelhante ao de outras formas de exercício, sem superioridade sobre a cinesioterapia; movimentos de adução ou carga excessiva mal dosados podem agravar a dor, o que reforça a individualização.

ModeradaManutenção

Terapia manual

Mobilização de tecidos moles e da articulação do quadril, aplicada como adjuvante para reduzir dor e facilitar o exercício, não como tratamento isolado. A analgesia vem de mecanismos neurofisiológicos segmentares e descendentes e melhora transitoriamente a tolerância ao movimento, abrindo janela para a reabilitação ativa progredir. Limitação: isolada, o efeito tende a ser curto; combinada com exercício, o benefício é de magnitude variável. A abordagem é ajustada para não comprimir diretamente o tendão dolorido sobre o trocânter.

LimitadaAdjuvante
Exercício de carga dos abdutores
Forte
RPG
Moderada
Pilates clínico
Moderada
Terapia manual (isolada)
Limitada

Na clínica, a reabilitação é integrada à avaliação médica, de modo que o programa é ajustado ao componente predominante, seja a tendinopatia glútea, a contribuição miofascial da musculatura vizinha ou uma causa associada na coluna ou na articulação, e à tolerância de cada pessoa.

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

Na síndrome dolorosa do trocânter maior, a cirurgia é rara e quase nunca necessária. A imensa maioria dos casos é benigna e responde ao tratamento conservador ao longo de semanas a meses, e a decisão de operar não se baseia no achado de líquido na bursa ou de espessamento do tendão em um exame, mas no quadro clínico, na evolução e na presença de uma lesão estrutural relevante. Estas opções não são realizadas em nossa clínica.

Conservador · 1ª escolha

Recarregar o tendão glúteo

  • Educação, ajuste de carga e fortalecimento progressivo dos abdutores
  • Adjuvantes em clínica e infiltração pontual quando necessário
  • Resolve a grande maioria dos casos ao longo de semanas a meses
  • Sem riscos cirúrgicos; mantém-se o fortalecimento para prevenir recorrência
VS

Cirúrgico · exceção

Casos refratários ou com ruptura

  • Indicado só após meses de tratamento conservador bem conduzido
  • Ganha força quando a imagem mostra ruptura tendínea significativa
  • Conduzido por equipes de ortopedia especializadas em quadril
  • Riscos: infecção, cicatriz dolorosa, fraqueza residual dos abdutores, recuperação prolongada

A indicação cirúrgica fica restrita aos casos refratários, com dor incapacitante que persiste apesar de meses de tratamento conservador bem conduzido, incluindo reabilitação dos abdutores e, quando indicado, controle da dor. Mesmo nesses cenários, a conduta é individualizada e ponderada caso a caso. Os procedimentos descritos a seguir são conduzidos por equipes de ortopedia especializadas em quadril.

Reparo / tenodese da tendinopatia glútea

Fixação ou reinserção do tendão do glúteo médio ou mínimo no trocânter, por via aberta ou endoscópica, com âncoras ósseas. Reservado a rupturas comprovadas e sintomáticas que não respondem ao conservador.

Ruptura comprovadaReabilitação de meses

Bursectomia trocantérica

Remoção da bursa inflamada, em geral por via endoscópica. É exceção e raramente isolada, reservada à dor crônica e refratária com componente inflamatório persistente da bursa. Como a origem costuma ser o tendão, retirar só a bursa nem sempre resolve.

ExceçãoRaramente isolada

Liberação / alongamento da banda iliotibial

Procedimento sobre a fáscia lata para reduzir a fricção e a compressão do tendão contra o trocânter, em casos selecionados e refratários. Pouco frequente e avaliado com critério, isolado ou associado ao reparo do tendão.

Casos selecionadosPouco frequente
Maioria
das pessoas com dor lateral do quadril melhora sem qualquer cirurgia; mesmo nos casos refratários, a indicação pesa o benefício esperado contra os riscos de operar, em decisão compartilhada.

Além da cirurgia, há opções avançadas não cirúrgicas que, por exigirem equipamento ou protocolos específicos, podem ser conduzidas por outros serviços. As ondas de choque extracorpóreas têm bom racional para a doença do tendão e são oferecidas em nossa clínica; quando não disponíveis, podem ser realizadas em serviços de reabilitação. As injeções de plasma rico em plaquetas (PRP), promovidas como reparadoras do tendão, têm evidência ainda heterogênea na tendinopatia glútea: alguns estudos sugerem benefício sobre a infiltração de corticoide no médio prazo, mas os resultados não são consistentes, e por isso o método deve ser avaliado com critério, dentro de um plano que mantém o exercício como eixo. Quando o quadro exige essas opções, o papel do cuidado de base é reconhecer o momento, explicar o que cada caminho oferece e encaminhar a quem os executa.

Tratamento medicamentoso

A medicação tem papel adjuvante e por tempo definido na síndrome do trocânter maior: ajuda a controlar a dor de uma fase mais irritável para que a reabilitação avance, mas não recupera o tendão nem corrige a carga que o comprime, e não substitui o exercício. A prescrição, a dose e a duração são definidas pelo médico, com atenção às comorbidades, às interações e ao perfil de efeitos adversos.

Classes medicamentosas na síndrome do trocânter maior
ClassePara quêEvidênciaO que esperar e cautelas
Anti-inflamatório oral (ciclo curto)Primeira escolha na fase mais dolorosa, quando não há contraindicaçãoModeradaAlívio sintomático por tempo curto; atenção aos riscos gastrointestinal, renal e cardiovascular, sobretudo em idosos e com comorbidades. Não muda o curso da tendinopatia.
Anti-inflamatório tópicoAplicado sobre a região para concentração localModeradaAlternativa razoável e bem tolerada, com menor exposição sistêmica. Útil quando o anti-inflamatório oral é mal tolerado ou contraindicado.
Paracetamol / dipironaAnalgesia de base, compõe o esquema pela tolerânciaLimitadaEfeito analgésico modesto; entram pela boa tolerância, sobretudo em quem não pode usar anti-inflamatório.
Infiltração com corticoideDor intensa que impede o exercício; abre janela para reabilitarModerada (curto prazo)Alívio rápido, mas perde vantagem para o exercício no médio e longo prazo. Recurso pontual e criterioso, dentro do plano de carga. A aplicação repetida na vizinhança de um tendão já doente pode ser deletéria e fragilizar o tecido; injeção atrás da outra não é a estratégia e pode atrasar a recuperação.
O limite da medicação

Não há classe de medicamento que reconstrua o tendão ou que trate a causa da síndrome do trocânter maior; o papel dos fármacos é o de controle sintomático enquanto a base ativa faz o trabalho de fundo. Em quem tem comorbidades que limitam o uso de anti-inflamatórios, prioriza-se o controle da dor com analgésicos simples, recursos tópicos e as técnicas em clínica. Nenhuma medicação isolada resolve o quadro: o melhor resultado vem da combinação criteriosa de controle da dor com reabilitação ativa.

A clínica

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.

Conheça a clínica
SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor
SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque
CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Bursite trocantérica e síndrome do trocânter maior são a mesma coisa?

São o mesmo quadro, com nomes de épocas diferentes. “Bursite trocantérica” presumia que uma bolsa estava inflamada. Hoje sabe-se que, na maioria das vezes, a causa é uma tendinopatia dos glúteos, e o termo síndrome dolorosa do trocânter maior descreve melhor o problema.

Por que dói mais quando deito do lado?

Ao deitar sobre o lado afetado, o peso do corpo comprime o tendão glúteo contra o trocânter. Essa compressão é o principal gatilho da dor. Usar um travesseiro entre os joelhos e evitar deitar do lado doloroso costuma aliviar as noites.

Posso alongar para melhorar?

Os alongamentos que cruzam a perna sobre o corpo aumentam a compressão do tendão e tendem a piorar a dor. O que ajuda é o oposto: reduzir a compressão e fortalecer os glúteos de forma progressiva, começando por exercícios isométricos.

A injeção resolve a bursite trocantérica?

A infiltração pode aliviar uma fase dolorosa e ajudar a iniciar a reabilitação, mas o efeito do corticoide costuma ser curto e o uso repetido pode prejudicar o tendão. Ela é um recurso pontual, dentro de um plano que tem o exercício como base, e não o tratamento principal.

Essa dor pode ser do nervo ciático?

A dor do trocânter pode irradiar pela face lateral da coxa, mas em geral não cruza o joelho nem segue o trajeto de um nervo. Quando há dormência ou fraqueza descendo pela perna abaixo do joelho, investiga-se origem na coluna. O guia de dor no quadril ajuda a localizar a queixa.

Quanto tempo leva para melhorar?

Varia entre pessoas. Por ser uma doença de tendão, a recuperação costuma levar de algumas semanas a alguns meses de exercício consistente. A dor para dormir e a tolerância às escadas costumam ser os primeiros sinais de melhora.

Preciso de ressonância para investigar?

Nem sempre. Num quadro típico e sem sinais de alerta, a história e o exame bastam para começar o tratamento. A imagem, por ultrassom ou ressonância, fica reservada para casos que não respondem, para graduar a tendinopatia ou para investigar uma ruptura.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
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Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Mellor R, Bennell K, Grimaldi A, et al. Education plus exercise versus corticosteroid injection use versus a wait and see approach on global outcome and pain from gluteal tendinopathy: prospective, single blinded, randomised clinical trial. BMJ. 2018;361:k1662.
  2. Grimaldi A, Mellor R, Hodges P, et al. Gluteal tendinopathy: a review of mechanisms, assessment and management. Sports Medicine. 2015;45(8):1107-1119.
Atualizado em 31 mai 2026 Leitura 9 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Quanto tempo a tendinopatia glútea leva para ceder e qual a dose certa de carga para cada tendão são decisões individualizadas, tomadas em consulta a partir do exame.

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  • Bom dia, estou com o problema no Glúteo Mínimo (tendinite).
    – vocês atendem pelo plano de saúde Sul America ?
    – Valor da consulta ?

    att

    Manolo

  • Tenho 68 anos sou corredora à duas semanas apareceu dor no ombro esquerdo que desce e vai ate o tornozelo a noite quase não consigo dormir não tenho posição dor queimada a noite piora. O que devo tomar.

  • Ótima matéria e muito esclarecedora. Tenho bursite trocantérica e tendinite no glúteo, e para piorar uma hérnia lombar.
    Sinto dor ao andar,ficar por pouco tempo em pé é um tormento.

  • Excelente artigo. Estou com os mesmos sintomas apresentados. Amanhã vou pegar os resultados do exame de ressonância magnética. Preciso me recuperar e parar de usar os medicamentos para dor, que são muito fortes e podem causar dependência. Sou alérgico a maioria dos anti-inflamatórios. Grato pelas dicas.

Equipe médica · Jardim Paulista · 40+ anos

Centro de Tratamento de Dor, Fisiatria e Acupuntura Médica.

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