Tratamento de dor crônica: o framework moderno, baseado em mecanismo
A dor crônica muitas vezes deixa de ser o sintoma de uma lesão e vira uma condição em si, sustentada por um sistema nervoso sensibilizado. Por isso funciona um programa coordenado e voltado à função: reabilitação, educação em dor, sono, humor, a medicação certa e os procedimentos miofasciais.
- Na dor crônica, dor deixa de ser sinônimo de dano em curso: o gerador migra do tecido para o modo como o sistema nervoso processa o sinal (sensibilização central). Por isso a meta é restaurar função e qualidade de vida, e não só baixar o número da dor.
- O tratamento é um programa coordenado e multimodal, com a reabilitação ativa como espinha dorsal, somada à educação em dor, ao cuidado com sono e humor, à medicação combinada ao mecanismo e a procedimentos miofasciais pontuais. As peças funcionam como equipe, não como tentativas avulsas.
- O componente miofascial e intervencionista (agulhamento, infiltração de pontos-gatilho, bloqueios) é uma engrenagem dentro desse programa, a parte que cabe a esta clínica, e não um conserto isolado.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
Dor crônica é uma condição, não só um sintoma que demora

A dor aguda é um alarme: avisa que há uma lesão e some quando o tecido cicatriza. A dor crônica é o alarme que continua tocando depois que a casa já foi consertada. Tratar uma como se fosse a outra é a origem da maior parte dos tratamentos que falham.
Por convenção, chamamos de crônica a dor que dura mais de três meses, ou que ultrapassa o tempo esperado de cicatrização do tecido. A grande virada conceitual das últimas duas décadas foi reconhecer que, passado esse tempo, a dor frequentemente se torna uma condição em si, com vida própria, em vez de continuar sendo apenas o eco de uma lesão. É por isso que a relação entre o que se vê no exame e o que a pessoa sente costuma se desfazer: a ressonância pode estar quase igual à de quem não tem dor nenhuma, e a dor segue real, intensa e limitante. Ela é real porque o problema saiu do tecido e se instalou no processamento do sinal doloroso.
Esse fenômeno tem nome: sensibilização central. Vias de transmissão da dor na medula e no cérebro ficam com o “ganho” alto, como um microfone com o volume girado ao máximo, e passam a amplificar estímulos que antes seriam inofensivos. Um toque leve pode doer (alodínia); uma pressão discreta pode arder por minutos (hiperalgesia). Em paralelo, as vias que deveriam frear a dor (a modulação descendente, que usa serotonina e noradrenalina) ficam menos eficientes.
A consequência prática é decisiva: na dor crônica, dor deixa de ser igual a dano. Sentir mais não significa que algo está se rompendo de novo, e essa é uma das ideias mais libertadoras de todo o tratamento. Para o detalhe neurofisiológico, vale a página sobre sensibilização central na dor crônica.
Costumo dividir a dor, na prática, em três grandes mecanismos, porque cada um responde a um tratamento diferente. A nociceptiva nasce de um dano real no tecido (artrose, tendinopatia, inflamação) e responde a anti-inflamatórios e ao tratamento da lesão. A neuropática vem de lesão ou doença no próprio nervo (uma raiz comprimida na cervicobraquialgia, uma neuropatia diabética) e tem queimação, choque e formigamento, respondendo melhor a neuromoduladores.
A nociplástica é a dor por alteração do processamento, sem lesão que a explique, e é o terreno da fibromialgia. A maioria das dores crônicas reais mistura mais de um desses mecanismos ao mesmo tempo, o que já antecipa por que um único recurso raramente dá conta.
“Se ainda dói, é porque a lesão continua lá, e eu preciso de outro exame ou de uma cirurgia para encontrá-la.”
Na dor crônica, a intensidade da dor reflete sobretudo o quanto o sistema nervoso está sensibilizado, e não o tamanho de um dano em curso. Por isso mais imagem costuma achar achados incidentais que não explicam a dor e geram tratamentos desnecessários. A pergunta útil é qual mecanismo predomina e o que devolve função.

Os princípios que organizam o tratamento moderno

Antes de qualquer técnica, vale entender a lógica que coordena tudo. O tratamento contemporâneo da dor crônica é biopsicossocial e baseado em mecanismo: olha o corpo, o sono, o humor, o estresse e o contexto da pessoa ao mesmo tempo, e escolhe cada recurso pelo mecanismo que pretende atingir. Três princípios sustentam o plano.
A meta é função, não o número da dor
O sucesso se mede por voltar a dormir, trabalhar, caminhar e fazer o que importa, com a dor num nível que não comande a rotina. Perseguir só a dor zero costuma levar a doses e procedimentos que pioram a vida.
Cuidado coordenado, em time
Reabilitação, educação em dor, sono e humor, medicação por mecanismo e procedimentos miofasciais não são opções concorrentes. São frentes que se reforçam quando entram juntas e na ordem certa.
O terceiro princípio é o que mais muda a conduta no dia a dia: a dor crônica funciona como um ciclo que se retroalimenta, e por isso o tratamento precisa entrar em vários pontos dele ao mesmo tempo. Quando uma região dói, o corpo a protege com tensão muscular e evita o movimento; a imobilidade enfraquece e encurta a musculatura, o que gera mais dor ao mínimo esforço; a dor atrapalha o sono e o humor; o sono ruim e o estresse, por sua vez, baixam o limiar de dor e amplificam tudo de novo. Mexer numa engrenagem só costuma fracassar porque as outras seguem girando o ciclo no sentido contrário.
Sono, humor e dor andam juntos, nos dois sentidos: a dor estraga o sono e o ânimo, e noites mal dormidas e estresse sustentado fazem a dor doer mais no dia seguinte. Tratar a relação entre dor crônica e distúrbios do sono e cuidar do estresse fazem parte do tratamento desde o início. Deixar isso para depois costuma travar o resto do plano.
Medicação na dose certa: o remédio combinado ao mecanismo
A medicação tem um papel claro e limitado dentro do programa: ela alivia o sintoma e abre uma janela mais confortável para a pessoa se mover, dormir e avançar na reabilitação. Ela não corrige a causa mecânica nem reorganiza sozinha um sistema nervoso sensibilizado. Usada de forma isolada e crônica, sem o resto do plano, a tendência é a dor voltar quando o efeito passa e a dose ir subindo. O uso inteligente segue um princípio simples: a menor dose eficaz, pelo menor tempo necessário, na classe que combina com o mecanismo predominante.
Os nomes abaixo aparecem e a título informativo; dose, escolha e duração são sempre decisão médica. Para o panorama detalhado, há o nosso guia de remédios para dor.
| Classe | Exemplos | Onde atua melhor |
|---|---|---|
| Analgésicos simples | Paracetamol, dipirona | Dor leve a moderada; primeira opção pela tolerabilidade |
| Anti-inflamatórios | Ibuprofeno, naproxeno, celecoxibe | Dor com componente inflamatório, por períodos curtos |
| Relaxantes musculares | Ciclobenzaprina, tizanidina | Espasmo agudo, curto prazo; causam sonolência |
| Antidepressivos (dor) | Amitriptilina, nortriptilina, duloxetina | Dor muscular crônica, neuropática e fibromialgia |
| Neuromoduladores (gabapentinoides) | Gabapentina, pregabalina | Dor neuropática (queimação, choque, formigamento) |
| Opioides | Codeína, tramadol, morfina | Casos selecionados; não são primeira linha na dor crônica não oncológica |
Por que um antidepressivo trata dor muscular
Essa é uma das dúvidas mais frequentes em consultório: “doutor, mas eu não estou deprimido, por que um antidepressivo?”. A resposta é que, na dor, esses remédios não estão sendo usados pelo efeito sobre o humor, e sim pelo efeito sobre as vias que controlam a dor. Os antidepressivos tricíclicos (amitriptilina, nortriptilina) e os duais (duloxetina) aumentam a disponibilidade de serotonina e noradrenalina na medula, justamente os neurotransmissores das vias inibitórias descendentes, que freiam a dor. Reforçar esse freio reduz a dor muscular crônica, a dor neuropática e a dor da fibromialgia, em doses geralmente bem menores do que as usadas para depressão, e com efeito que costuma aparecer em uma a duas semanas.
A amitriptilina e a nortriptilina ainda ajudam no sono, o que é útil quando a insônia faz parte do quadro. São medicamentos seguros quando bem indicados, mas têm efeitos adversos (boca seca, sonolência, constipação, cuidado em cardiopatas e idosos), e por isso a escolha e o ajuste cabem ao médico.
Neuromoduladores para a dor que queima e dá choque
Quando a dor desce pelo braço ou pela perna com queimação, choque e formigamento (o padrão da dor neuropática, como na cervicobraquialgia ou na radiculopatia), os gabapentinoides (gabapentina, pregabalina) costumam ser mais úteis do que qualquer anti-inflamatório. Eles se ligam à subunidade alfa-2-delta dos canais de cálcio nos neurônios, reduzindo a liberação de neurotransmissores excitatórios na transmissão da dor. O efeito é gradual e a dose é titulada aos poucos para reduzir tontura e sonolência. Não é raro combiná-los com um antidepressivo dual quando o componente neuropático é forte, sempre sob supervisão.
Na cervicobraquialgia, em que a dor parte do pescoço e irradia pelo braço por compressão de uma raiz nervosa, o remédio que costuma fazer diferença é o que atua no nervo: um neuromodulador (gabapentina ou pregabalina), às vezes somado a um antidepressivo dual e, na fase aguda inflamatória, a um anti-inflamatório curto. Mas a medicação isolada raramente resolve; ela abre espaço para a reabilitação e, em casos selecionados, para um bloqueio.
Opioides: o degrau que pede cautela
Existe uma lógica de escalonamento herdada da escada analgésica da OMS, criada para a dor do câncer: começa-se pelo mais simples e seguro, e só se sobe se a dor não for controlada. Mas na dor crônica não oncológica, sobretudo da coluna, os opioides não são primeira linha. Eles ligam-se a receptores opioides e reduzem a percepção da dor, porém trazem constipação, sedação, tolerância (a mesma dose vai fazendo menos efeito), dependência e, com o tempo, hiperalgesia, um fenômeno paradoxal em que o opioide deixa a pessoa mais sensível à dor.
Por isso são reservados a situações específicas, por tempo limitado e com acompanhamento próximo. Subir o opioide costuma ser justamente o caminho que enfraquece o resto do tratamento.
Um ponto de segurança vale para todas as classes: combinar dois anti-inflamatórios, ou um anti-inflamatório com anticoagulante, multiplica o risco de sangramento; relaxantes, opioides, alguns antidepressivos, sedativos e álcool somam a sonolência e podem deprimir a respiração. Idosos, gestantes, lactantes e quem tem doença renal, hepática, cardiovascular ou úlcera precisa de escolha cuidadosa. A escolha e a dose de cada fármaco cabem ao médico assistente, com a lista completa do que a pessoa usa, inclusive fitoterápicos e produtos “naturais”.
O programa coordenado: as frentes que tratam a dor crônica em time
Aqui está o coração do tratamento. O manejo da dor crônica é multimodal, não cirúrgico e individualizado: cada frente abaixo entra com uma razão clínica e na ordem que faz sentido para a pessoa, e o conjunto vale mais do que a soma das partes. A reabilitação ativa é a espinha dorsal; as demais somam, não substituem. O componente miofascial e intervencionista (a parte que cabe a esta clínica) é uma das engrenagens, encaixada para destravar as outras, jamais um conserto avulso.
Educação em neurociência da dor
Entender que dor não é igual a dano reduz o medo de mover, que por si só alimenta o ciclo. É a base cognitiva que faz todas as outras frentes funcionarem.
Reabilitação ativa e exercício graduado
Exercício orientado, fortalecimento progressivo e retorno gradual à atividade. É a frente com melhor relação entre evidência e segurança a longo prazo, e a que sustenta o resultado.
Sono, humor e terapia psicológica
Higiene do sono, manejo do estresse e, quando indicado, terapia cognitivo-comportamental ou ACT. Mexem no “ganho” do sistema, não na cabeça da pessoa como culpa.
Componente miofascial e intervencionista
Acupuntura médica, agulhamento seco, infiltração de pontos-gatilho e bloqueios guiados quando há um gerador miofascial ou focal claro. A peça desta clínica dentro do time.
Educação em neurociência da dor
Pode parecer pouco para quem espera uma técnica, mas explicar como a dor crônica funciona é um dos passos mais eficazes do programa. Quando a pessoa entende que o sistema nervoso está sensibilizado e que dor não significa dano em curso, o medo de mover diminui, e com ele cai uma das principais engrenagens do ciclo. A educação em neurociência da dor tem evidência de reduzir a incapacidade e o catastrofismo, sobretudo quando combinada com exercício. Não é “pensar positivo”: é dar à pessoa um modelo correto do próprio problema, para que as outras frentes deixem de esbarrar no receio de que cada movimento esteja machucando.
Reabilitação ativa e exercício graduado: a espinha dorsal
É a intervenção com a melhor relação entre evidência e segurança em quase toda dor crônica musculoesquelética, e a única que muda o curso a longo prazo. O exercício orientado faz mais do que fortalecer: ele recalibra o sistema nervoso, melhora a modulação descendente da dor e desfaz o medo do movimento que mantém o ciclo girando. O plano combina cinesioterapia, fortalecimento progressivo e terapia manual como adjuvante e, conforme o caso, RPG e Pilates clínico, com atendimento individual (um paciente por sala). A lógica é de exposição graduada: começar no que o corpo tolera e subir a carga aos poucos, em vez de repouso prolongado.
A resposta é gradual, ao longo de semanas, e depende mais da regularidade do que da intensidade. É o degrau menos vistoso do tratamento e, ainda assim, o que segura o resultado depois que a dor cede.
Sono, humor e terapia psicológica (TCC e ACT)
Como o sono ruim e o estresse baixam o limiar de dor, cuidar deles é tratamento, não acessório. Entram a higiene do sono e a abordagem da insônia desde cedo, e, quando o sofrimento, o catastrofismo ou a evitação pesam, a terapia cognitivo-comportamental (TCC) e a terapia de aceitação e compromisso (ACT). A TCC ajuda a pessoa a reconhecer e mudar pensamentos e comportamentos que amplificam a dor e a inatividade; a ACT trabalha a aceitação da dor que resta e o retorno ao que tem valor na vida, mesmo na presença de algum desconforto.
Há evidência de benefício dessas terapias sobre dor, função e humor na dor crônica, com magnitude variável. Esse cuidado é coordenado com o resto do plano e não significa que a dor “está na cabeça”: significa que o sistema que processa a dor responde a sono, estresse e contexto, e que mexer nesses fatores melhora o resultado de todas as outras frentes.
Acupuntura médica e eletroacupuntura
A acupuntura médica modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula e por vias inibitórias descendentes, com participação de opioides endógenos; a correspondência entre a descrição tradicional dos meridianos e a neurofisiologia ainda é objeto de estudo. Na eletroacupuntura, uma corrente elétrica de baixa frequência aplicada às agulhas reforça esse efeito analgésico e ajuda a relaxar a musculatura tensa. A evidência é moderada para dor cervical crônica, lombalgia e cefaleia. Na dor crônica, ela costuma reduzir a dor e, com frequência, a necessidade de medicação, o que é especialmente valioso em quem já carrega vários remédios.
O número de sessões é definido caso a caso e reavaliado ao longo do ciclo, conforme a resposta de cada pessoa, e a técnica é conduzida por médicos com formação em acupuntura. Como desconforto ou pequena equimose no local, é bem tolerada; exige cautela em quem usa anticoagulante e não substitui a reabilitação ativa.
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
Boa parte da dor crônica tem um componente miofascial: pontos-gatilho, nódulos tensos dentro do músculo que doem no local e referem dor à distância. No agulhamento seco, a agulha fina chega ao ponto-gatilho e, ao desencadear a resposta de contração local, reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora e a liberação de substâncias álgicas, com efeito analgésico local e segmentar. Quando o ponto resiste, a infiltração de ponto-gatilho com anestésico local bloqueia a aferência nociceptiva e relaxa a banda tensa de forma mais direta. O alívio aparece em ritmo variável, com algum desconforto leve na região por um ou dois dias, e o ganho se sustenta quando o procedimento é encaixado num programa de exercício.
É exatamente assim que o componente intervencionista se encaixa: ele abre uma janela para a reabilitação fazer o trabalho de fundo. Cautela em quem usa anticoagulante, e a técnica em regiões torácicas exige cuidado anatômico.
Bloqueios e neuromodulação (PENS)
Quando há um gerador de dor bem localizado, um bloqueio guiado (de pontos-gatilho, do nervo occipital, supraescapular, do piriforme) pode interromper a condução nociceptiva o suficiente para destravar a reabilitação. O PENS (estimulação elétrica nervosa percutânea) é uma opção de neuromodulação para componentes neuropáticos ou miofasciais selecionados, em que estímulos elétricos aplicados por agulhas finas atuam sobre a transmissão do sinal doloroso. São recursos pontuais, de efeito temporário, sempre dentro do programa, que criam a janela terapêutica para o trabalho ativo avançar.
Toxina botulínica para casos refratários
Reservada a quadros que não respondem ao tratamento inicial. A toxina botulínica tipo A bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos (como CGRP e substância P), com um efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento do músculo. Tem papel consolidado na enxaqueca crônica (protocolo PREEMPT) e na dor miofascial intensa e refratária; não é primeira linha para dor comum.
O efeito começa em algumas semanas e dura por meses, com benefício que tende a se acumular entre os ciclos. Pode causar dor no local e fraqueza transitória, e a escolha do produto e das doses é decisão médica.
Algumas observações de quem acompanha esses casos no dia a dia:
- O que mais transforma uma consulta é a pessoa entender que a meta não é o número da dor, e sim voltar a dormir, trabalhar e mexer o corpo. Quando o alvo deixa de ser “dor zero”, o tratamento inteiro fica mais fácil e as escolhas param de girar em torno de doses cada vez maiores.
- Explicar que dor não é igual a dano costuma aliviar mais do que muitos remédios. Boa parte do medo de mexer vem do receio de “piorar a lesão”; quando isso cai, a reabilitação anda e a dor tende a seguir junto.
- Quem chega depois de anos de tratamentos avulsos (um exame aqui, um anti-inflamatório ali, um procedimento isolado) costuma melhorar quando essas mesmas peças passam a conversar entre si, na ordem certa. A diferença raramente está em achar a técnica milagrosa, e sim em coordenar o conjunto.
- O agulhamento e os bloqueios funcionam melhor quando os enxergo como janela, não como solução. Eles reduzem a dor o bastante para a pessoa conseguir treinar; é o treino que segura o ganho. Surpreende muita gente descobrir que a parte “ativa” pesa mais do que a parte “passiva” que ela veio buscar.
Tratar dor crônica é montar um programa coordenado, combinado ao mecanismo e voltado à função, porque na maior parte das vezes a dor é um sistema nervoso sensibilizado, e não um dano que continua acontecendo. Essa é justamente a razão de mais exames, opioides mais fortes e novas cirurgias tenderem a piorar, e não a melhorar: eles miram um alvo (o dano) que já não é o principal, alimentam o medo e a passividade, e empurram a pessoa para longe do que muda o curso, que é o movimento e o cuidado com sono, humor e contexto.
As armadilhas que prolongam a dor crônica
Tão importante quanto saber o que fazer é reconhecer os caminhos que tendem a piorar o quadro. Eles compartilham a mesma falha de raciocínio: tratam a dor crônica como se ainda fosse aguda, atrás de um dano que conserte tudo.
- Exames de imagem em série. Depois de afastadas as causas graves, repetir ressonâncias costuma encontrar achados de desgaste que existem em pessoas sem dor nenhuma. O resultado é ansiedade, mais medo de mover e procedimentos que miram a imagem, e não a pessoa.
- Escalonar opioides. Subir a dose para perseguir a dor zero leva a tolerância, dependência e hiperalgesia, e desloca o foco do que realmente muda o curso. Na dor crônica não oncológica, eles não são primeira linha.
- Cirurgias repetidas sem indicação clara. Operar de novo sem um alvo cirúrgico bem definido raramente resolve uma dor que já se tornou nociplástica, e pode acrescentar uma nova fonte de dor.
- Repouso prolongado. Parar de se mover por medo de piorar enfraquece, encurta e sensibiliza, alimentando exatamente o ciclo que se quer quebrar.
Esta página é o panorama do tratamento. Para entender o mecanismo por trás de “dor não é igual a dano”, veja a sensibilização central. Quando o quadro exige várias especialidades atuando de forma estruturada, o caminho é o programa multidisciplinar de dor crônica. As três se complementam: framework, mecanismo e formato de cuidado.
Quadros de dor crônica que tratamos
O mesmo raciocínio coordenado se aplica a quadros muito diferentes, ajustando o peso de cada frente ao mecanismo dominante. Alguns exemplos do que mais chega ao consultório:
- Dor na coluna (cervical e lombar). Mistura componente mecânico, miofascial e, quando irradia, neuropático. Reabilitação como base, técnicas para os pontos-gatilho e neuromodulador quando há dor de raiz nervosa.
- Cervicobraquialgia e radiculopatias. Dor que desce pelo braço ou pela perna por compressão de raiz; o eixo é neuromodulador com reabilitação, e bloqueio em casos selecionados. Veja a página sobre cervicobraquialgia.
- Fibromialgia. Dor nociplástica, por amplificação do processamento. Aqui o exercício é a primeira linha, somado a sono, abordagem do estresse e, quando indicado, duloxetina, amitriptilina ou pregabalina. Detalhes no tratamento para fibromialgia.
- Dor neuropática. Neuropatia diabética, dor pós-herpética, pós-cirúrgica. Neuromoduladores e antidepressivos duais como base, com acupuntura adjuvante. Mais em dor neuropática.
- Dor miofascial e tendinopatias. Agulhamento, infiltração de pontos-gatilho e procedimentos focais, sempre dentro de um programa de reabilitação.
Procure avaliação sem demora se houver
- Dor que piora de forma progressiva, sobretudo à noite ou em repouso.
- Perda de peso, febre, suor noturno ou histórico de câncer.
- Fraqueza, dormência que avança ou alteração para urinar e evacuar.
- Dor após trauma recente ou em quem usa imunossupressores.
Esses achados não combinam com a história típica de uma dor crônica benigna e pedem investigação de uma causa secundária antes de seguir o tratamento sintomático. Quando o quadro é claramente musculoesquelético e sem essas bandeiras, o foco passa a ser quebrar o ciclo e recuperar a função.
O que esperar do tratamento
Vale alinhar a expectativa desde o início, porque dor crônica e dor aguda seguem ritmos diferentes. A meta realista nem sempre é zerar a dor; é reduzi-la a um nível que não comande a sua rotina, recuperar a função e diminuir as recaídas. Para entender por que a abordagem muda, ajuda conhecer a diferença entre dor aguda e dor crônica.
Controle inicial
Ajustar a medicação ao mecanismo, reduzir gatilhos, começar movimento, sono e a educação em dor. O objetivo é baixar a dor o bastante para destravar a reabilitação.
Progressão
Reabilitação ativa e técnicas em consultório ganham peso; a função costuma começar a melhorar e a medicação, quando possível, é reduzida.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e consideram-se procedimentos, ajuste de fármacos, terapia psicológica ou nova investigação. O plano é repensado, e não só repetido.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10, mas sobretudo a função e a capacidade de voltar às atividades, além de sono e humor. A maior parte das pessoas melhora de forma significativa em algumas semanas a poucos meses; uma parte tem episódios que vão e voltam; e uma minoria evolui para dor persistente difícil, em que a sensibilização central e fatores como sono e estresse pesam mais. Reconhecer cedo esse cenário evita exames e procedimentos desnecessários e concentra o esforço no que de fato muda o curso: movimento, condicionamento, manejo dos gatilhos, terapia psicológica quando indicada e a medicação certa na dose certa.
Dor crônica não se vence com o remédio mais forte. Ela cede quando um programa coordenado entra em várias frentes ao mesmo tempo, voltado a recuperar a função: a medicação que combina com o mecanismo, o cuidado com sono e humor, as técnicas que interrompem a dor onde ela se gera e a reabilitação que sustenta o resultado.
Centro de Dor
Listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED)
Centro de Tratamento por Ondas de Choque
Listado pela Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque (SMBTOC)
Clínica listada
Listada pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura (CMBA)
Perguntas frequentes
Dor crônica é um sintoma ou uma doença?
Quando se prolonga, a dor crônica passa a se comportar como uma condição em si, sustentada por mudanças no próprio sistema nervoso (sensibilização central), e não apenas como o sintoma de uma lesão que continua. Por isso o tratamento mira o sistema que processa a dor e a função da pessoa, e não só um dano local. Veja a sensibilização central.
Se ainda dói, é porque há uma lesão que não foi tratada?
Nem sempre. Na dor crônica, dor deixa de ser sinônimo de dano em curso: a intensidade reflete sobretudo o quanto o sistema nervoso está sensibilizado. É comum a imagem mostrar pouca coisa e a dor ser intensa, e o contrário também. Por isso repetir exames atrás de uma lesão costuma gerar mais ansiedade e procedimentos do que solução.
Por que receitam antidepressivo para dor muscular?
Porque, na dor, o antidepressivo não está sendo usado pelo humor, e sim porque aumenta serotonina e noradrenalina nas vias que freiam a dor na medula. Em dose baixa, amitriptilina, nortriptilina ou duloxetina reduzem a dor muscular crônica e neuropática, e podem ajudar no sono. A indicação e o ajuste são do médico.
O analgésico mais forte resolve a dor crônica?
Quase nunca. Potência não é o critério: uma dor neuropática pode ignorar o opioide mais potente e ceder a um neuromodulador. Na dor crônica não oncológica, os opioides não são primeira linha pelos riscos de tolerância, dependência e hiperalgesia. A pergunta certa é qual o mecanismo da dor e o que devolve função.
Qual o melhor medicamento para fibromialgia?
Não há um único “melhor”: a fibromialgia é uma dor por amplificação do processamento, e o exercício é a primeira linha. Entre os fármacos com melhor respaldo estão a duloxetina, a amitriptilina e a pregabalina, escolhidos conforme sintomas, sono e tolerância, sempre como parte de um plano multimodal. Veja o tratamento para fibromialgia.
A terapia psicológica significa que a dor está na minha cabeça?
Não. A dor é real e tem base no sistema nervoso. A TCC e a ACT entram porque sono, estresse, medo e evitação amplificam a dor e a incapacidade, e trabalhar esses fatores melhora o resultado de todas as outras frentes. É uma engrenagem do programa, e não um juízo sobre a origem da dor.
Dor crônica tem cura?
Depende da causa. Algumas dores crônicas resolvem quando o gerador é tratado; outras, como a fibromialgia, não têm cura, mas têm controle muito bom. A meta é reduzir a dor a um nível que não limite a rotina e recuperar a função.
Quando devo procurar um especialista em dor?
Quando a dor passa de três meses, não melhora com o tratamento inicial, recorre com frequência ou vem com sinais de alerta (dor noturna progressiva, perda de peso, febre, déficit neurológico). Um médico fisiatra ou da dor pode definir o mecanismo e montar o programa coordenado. Quando o caso exige várias especialidades, o caminho é o programa multidisciplinar.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Normas éticas sobre publicidade médica e vedação de promessa de resultado (Código de Ética Médica e resoluções correlatas).
- Casey MB; Smart KM; Segurado R; Doody C. Multidisciplinary-based Rehabilitation (MBR) Compared With Active Physical Interventions for Pain and Disability in Adults With Chronic Pain: A Systematic Review and Meta-analysis. The Clinical journal of pain. 2020. doi:10.1097/ajp.0000000000000871. PMID:32773436.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Cada plano de tratamento de dor crônica é individualizado após consulta, conforme o mecanismo predominante, as comorbidades e os objetivos de função de cada pessoa, e nenhum resultado pode ser garantido. Os medicamentos são e a título informativo.
