Cefaleia em salvas: o que é? Sintomas, causas e tratamentos
A cefaleia em salvas é uma dor primária rara e considerada a mais intensa que existe: crises de 15 a 180 minutos ao redor de um olho, sempre do mesmo lado.
- A cefaleia em salvas é uma dor de cabeça primária do grupo das cefaleias trigêmino-autonômicas: crises de dor extremamente forte, sempre de um só lado, em volta do olho ou na têmpora, com olho vermelho, lágrima e nariz entupido do mesmo lado.
- As crises são curtas (15 a 180 minutos), repetem-se em “salvas” de semanas a meses, costumam acordar a pessoa de madrugada e deixam a pessoa agitada, andando de um lado para o outro, ao contrário da enxaqueca.
- O tratamento tem dois eixos: abortar a crise (oxigênio em alto fluxo e triptano são o padrão, conduzidos com o neurologista) e prevenir a salva. A clínica atua de forma adjuvante e multimodal, com bloqueio do nervo occipital e acupuntura, e encaminha a investigação neurológica.
40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual
Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é a cefaleia em salvas
Cefaleia em salvas é uma dor de cabeça primária rara, marcada por crises de dor de altíssima intensidade, estritamente de um lado da cabeça, que se agrupam em períodos chamados salvas. O nome vem desse padrão de “rajadas”: semanas a meses com várias crises por dia, separadas por longos intervalos sem dor.
Ela faz parte de um grupo chamado cefaleias trigêmino-autonômicas. O termo descreve o mecanismo: a dor nasce na via do nervo trigêmeo (que inerva a face) e vem acompanhada de sinais do sistema nervoso autônomo no mesmo lado, como lágrima, olho vermelho e nariz entupido. É uma cefaleia primária, ou seja, não é causada por outra doença na maioria das vezes, embora a investigação para afastar causas secundárias seja parte obrigatória da avaliação.
É uma condição incomum, que atinge menos de 1 em cada 1.000 pessoas, mais frequente em homens e com início típico entre os 20 e os 40 anos. Apesar de rara, é uma das dores mais incapacitantes que se conhece: a intensidade é tão alta que ganhou o apelido de “cefaleia do suicídio”, justamente pelo sofrimento extremo durante as crises. Reconhecê-la cedo importa, porque o tratamento certo muda radicalmente a qualidade de vida.
Sintomas da cefaleia em salvas
O quadro é bastante característico, e o reconhecimento do padrão é a chave do diagnóstico. A dor da cefaleia em salvas costuma ter os seguintes traços:
- Localização fixa de um lado: a dor se concentra ao redor de um olho, na órbita, ou na têmpora, sempre do mesmo lado durante a salva. Quase nunca troca de lado dentro de um mesmo período.
- Intensidade extrema: é descrita como em queimação, perfurante ou como um “ferro quente” no olho. É, em geral, a pior dor que a pessoa já sentiu.
- Crises curtas e repetidas: cada crise dura de 15 a 180 minutos sem tratamento, e podem ocorrer de uma crise em dias alternados até oito crises por dia.
- Horário previsível: as crises tendem a acontecer no mesmo horário, com frequência à noite, acordando a pessoa de uma a duas horas depois de adormecer (“relógio biológico” da dor).
- Sinais autonômicos do mesmo lado: olho vermelho e lacrimejando, pálpebra caída ou inchada, pupila menor, nariz entupido ou escorrendo, e suor na testa, tudo no lado da dor.
- Agitação: ao contrário da enxaqueca, em que a pessoa procura o escuro e o silêncio, na cefaleia em salvas a pessoa fica inquieta, anda de um lado para o outro, balança o corpo ou pressiona a cabeça, sem conseguir ficar parada.
As salvas costumam durar de algumas semanas a alguns meses e se repetem em ciclos, muitas vezes na mesma época do ano (por exemplo, na mudança de estação). Entre uma salva e outra há a fase de remissão, que pode levar meses ou anos sem nenhuma crise, na forma episódica. Em uma minoria, as crises não dão trégua por mais de um ano, configurando a forma crônica, mais difícil de controlar.
Dor de cabeça que vem em crises curtas e violentas, sempre do mesmo lado, com olho vermelho e lacrimejando, que acorda de madrugada e deixa a pessoa sem conseguir ficar parada, tem cara de cefaleia em salvas e merece avaliação dirigida.
Causas e gatilhos
A causa exata da cefaleia em salvas ainda não é totalmente conhecida, mas a pesquisa aponta para o hipotálamo, a região do cérebro que regula o relógio biológico. Isso explica dois traços marcantes: o horário fixo das crises e a sazonalidade das salvas, que costumam aparecer em determinadas épocas do ano. A partir desse disparo central, ativa-se a via trigêmeo-autonômica, que produz a dor e os sinais no olho e no nariz.
Há predisposição em parte dos casos, com história familiar em uma fração das pessoas. Durante a salva, alguns fatores funcionam como gatilho de crises individuais e devem ser evitados naquele período:
Álcool e vasodilatadores
O álcool, mesmo em pequena quantidade, pode disparar uma crise em minutos durante a salva. Medicamentos vasodilatadores, como nitratos, também são gatilhos.
Sono, cheiros e altitude
Mudanças no padrão de sono e os cochilos, cheiros fortes (solventes, perfumes) e a grande altitude ou a baixa oxigenação também podem precipitar crises.
Fora do período de salva, na fase de remissão da forma episódica, esses mesmos fatores em geral não desencadeiam crise. É importante saber que esses gatilhos não são a causa da doença: eles apenas precipitam crises em quem já tem a condição. Por isso, o tratamento não se resume a evitá-los, e a prevenção medicamentosa da salva tem papel central.
“Cefaleia em salvas é só uma enxaqueca muito forte, ou estresse, e passa com analgésico comum.”
É uma doença distinta da enxaqueca, com mecanismo e tratamento próprios. Analgésicos comuns e anti-inflamatórios não funcionam para abortar a crise, que é curta demais; o controle exige oxigênio, triptano e prevenção específica.
Como diferenciar da enxaqueca e de outras dores de cabeça
Confundir cefaleia em salvas com enxaqueca é comum, e o erro atrasa o tratamento certo. A grafia mais antiga, com acento (cefaléia em salvas), descreve o mesmo quadro. Embora as duas sejam dores de cabeça primárias e intensas, o comportamento da crise é diferente. A tabela abaixo resume as pistas que mais ajudam a separá-las e a apontar para outros diagnósticos do mesmo grupo.
| Quadro | Padrão típico | Pista que diferencia |
|---|---|---|
| Cefaleia em salvas | Dor unilateral em volta do olho, crises de 15 a 180 minutos, em salvas | Olho vermelho e lacrimejando, nariz entupido do mesmo lado; agitação; crises noturnas no mesmo horário |
| Enxaqueca | Dor latejante, em geral de um lado, com 4 a 72 horas de duração | Náusea, sensibilidade à luz e ao som; a pessoa procura o escuro e o repouso; às vezes aura visual |
| Cefaleia tensional | Dor em aperto, em faixa, dos dois lados, de leve a moderada | Sem sinais autonômicos, sem náusea importante; ligada à tensão muscular e ao estresse |
| Hemicrania paroxística | Crises unilaterais com sinais autonômicos, parecidas com a salva, porém mais curtas | Crises de 2 a 30 minutos, muito frequentes; resposta característica à indometacina |
| Neuralgia do trigêmeo | Choques faciais ultracurtos, de segundos, disparados por toque, fala ou mastigação | Dor em ferroada de segundos, em gatilho, sem o ciclo de salva nem o olho vermelho |
Os três sinais que mais apontam para a cefaleia em salvas são: dor sempre do mesmo lado, sinais autonômicos no olho e no nariz daquele lado, e o comportamento agitado durante a crise. Quando a enxaqueca é o quadro principal, o manejo é outro, detalhado no guia de enxaqueca; e quando a dor é em faixa, dos dois lados e ligada à tensão, vale ver a página sobre cefaleia tensional. Um ponto prático: o uso repetido de analgésicos para tentar conter crises diárias pode gerar uma cefaleia por uso excessivo de medicamentos, que se soma ao quadro e precisa ser reconhecida.
Sinais de alerta e quando investigar
A cefaleia em salvas é, na maioria das vezes, uma cefaleia primária. Ainda assim, quadros que imitam a salva podem ter uma causa secundária na base do crânio ou na hipófise, e por isso a primeira avaliação inclui exame de imagem (em geral, ressonância magnética do crânio) para afastar essas causas. Alguns sinais tornam essa investigação mais urgente e pedem avaliação sem demora:
Procure avaliação sem demora se houver
- A pior dor de cabeça da vida, de início súbito, que chega ao auge em segundos a poucos minutos.
- Dor de cabeça nova após os 50 anos, ou que muda de padrão de forma importante.
- Febre, rigidez de nuca, confusão mental, sonolência ou convulsão junto da dor.
- Déficit neurológico: fraqueza, dormência, dificuldade para falar, alteração visual persistente.
- Dor que piora de forma progressiva ao longo de dias a semanas, ou ao deitar, tossir e fazer força.
- História de câncer, imunossupressão ou trauma recente na cabeça.
Esses sinais não são típicos da cefaleia em salvas e levantam a hipótese de uma causa secundária, que muda completamente a conduta. Em uma dor de cabeça de início explosivo, do tipo “trovoada”, a avaliação é de emergência. Fora dessas situações de alarme, o diagnóstico da cefaleia em salvas é essencialmente clínico, baseado no reconhecimento do padrão das crises, e confirmado com a exclusão de causas secundárias pelo neurologista.
Tratamento da cefaleia em salvas
O tratamento da cefaleia em salvas tem dois eixos que andam juntos: abortar a crise que já começou e prevenir as próximas dentro da salva. Como as crises são muito curtas e intensas, o tratamento abortivo precisa ter início de ação muito rápido, e os comprimidos comuns não dão conta. É uma condição de manejo neurológico, e a definição dos medicamentos, das doses e da prevenção cabe ao médico, em geral o neurologista. O papel da clínica de dor é adjuvante e multimodal, somando recursos que ajudam a controlar o componente miofascial e cervical que costuma se associar.
Os analgésicos comuns são, na prática, inúteis para a crise de salva, e insistir neles é o principal motivo de a doença ser malconduzida por anos. Paracetamol, dipirona, anti-inflamatórios e até opioides não fazem efeito a tempo, porque a crise atinge o auge em poucos minutos e já está cedendo quando o comprimido seria absorvido. Os dois recursos que de fato encerram a crise são incomuns no imaginário do paciente: oxigênio puro em alto fluxo inalado sob máscara e triptano injetável ou em spray nasal, ambos com início em minutos.
Oxigênio em alto fluxo
Oxigênio a 100% sob máscara sem reinalação para abortar a crise em curso; sem efeito cardiovascular.
Triptano de ação rápida
Sumatriptano subcutâneo ou spray nasal para abortar a crise; o comprimido oral é lento demais.
Prevenção e transição
Verapamil como preventivo de base e corticoide em ciclo curto como ponte enquanto a prevenção sobe.
Bloqueio do nervo occipital
Anestésico local com corticoide ao redor do nervo occipital maior, como terapia de transição.
Acupuntura e eletroacupuntura
Adjuvante para a tensão cervical e suboccipital sobreposta; não aborta nem encurta a salva.
Agulhamento seco cervical
Inativa pontos-gatilho da musculatura suboccipital, do ECM e do trapézio que somam dor tensional.
Neuromodulação
Estimulação vagal não invasiva e do gânglio esfenopalatino, para casos crônicos e refratários.
Ajuste de gatilhos e sono
Evitar álcool e vasodilatadores na salva, manter sono regular e ter o abortivo sempre à mão.
Oxigênio em alto fluxo e triptano: abortar a crise
- O que é
- Inalação de oxigênio puro em alto fluxo (oxigênio medicinal a 100%) sob máscara facial sem reinalação por cerca de 15 minutos, e o triptano de ação rápida (sumatriptano subcutâneo ou spray nasal) como medicamento abortivo de referência.
- Mecanismo
- O oxigênio promove vasoconstrição cerebral e inibe a ativação trigêmeo-autonômica. O triptano ativa receptores que reduzem a inflamação neurogênica e a transmissão da dor.
- Evidência
- Forte Ensaios controlados sustentam o uso do oxigênio para encerrar a crise; o triptano injetável é o abortivo de referência.
- O que esperar
- Alívio em boa parte das crises em até 15 a 20 minutos com o oxigênio; início em minutos com o triptano. O comprimido oral é lento demais para uma crise tão curta.
- Indicações
- Abortar a crise já instalada; o oxigênio tem a vantagem de não ter efeitos cardiovasculares, mas exige equipamento adequado em casa.
- Limitações
- Triptanos têm contraindicações cardiovasculares e limite de uso; a indicação é sempre médica. O oxigênio depende de cilindro e máscara corretos.
Bloqueio do nervo occipital maior
- O que é
- Bloqueio anestésico do nervo occipital maior, na nuca: injeção de anestésico local, em geral associado a um corticoide, ao redor do nervo, de um lado ou dos dois, como terapia de transição.
- Mecanismo
- Modula a via trigêmeo-cervical: o nervo occipital e o trigêmeo convergem no mesmo núcleo do tronco encefálico, e reduzir a entrada de estímulos diminui a excitabilidade do sistema que gera as crises.
- Evidência
- Moderada Procedimento bem estabelecido como terapia de transição, com evidência que apoia a redução da frequência das crises por algumas semanas.
- O que esperar
- Procedimento ambulatorial rápido, com benefício que pode aparecer em dias e durar semanas, funcionando como ponte enquanto a prevenção oral faz efeito.
- Indicações
- Terapia de transição no início da salva; é um dos recursos em que a clínica de dor contribui diretamente, integrada ao plano neurológico.
- Limitações
- Desconforto leve no local por um a dois dias. Não substitui a prevenção de base nem o tratamento abortivo da crise.
Acupuntura, agulhamento seco e o componente cervical
- O que é
- Acupuntura médica, eletroacupuntura e agulhamento seco aplicados à musculatura suboccipital, ao esternocleidomastóideo e ao trapézio superior, que entram em contratura nas semanas de crises noturnas.
- Mecanismo
- Modulação da dor por vias inibitórias descendentes, liberação de opioides endógenos e ação sobre a via trigêmeo-cervical; o agulhamento seco busca a resposta de contração local da banda tensa.
- Evidência
- Limitada A melhor evidência da acupuntura está na enxaqueca e na cefaleia tensional; na cefaleia em salvas a evidência específica é escassa.
- O que esperar
- Redução da dor cervical e do peso na nuca, em geral dentro de poucos dias, e menos consumo de analgésicos de resgate. A contagem de crises segue governada pela medicação de base.
- Indicações
- Entre as salvas e nas bordas do quadro, sobre a tensão cervical e suboccipital sobreposta; ato médico, indicado após a investigação neurológica estar encaminhada.
- Limitações
- Não aborta a crise nem encurta a salva, e não age sobre o gerador central. Dor leve no ponto agulhado por um a dois dias; em uso de anticoagulante, a indicação é ponderada pelo risco de equimose.
Algumas observações recorrentes no consultório ajudam a entender por que esse quadro costuma chegar tarde e mal tratado. A primeira é a demora: muita gente passa anos rotulada como sinusite de repetição ou problema dentário, justamente porque a dor fica em volta do olho e o nariz entope do mesmo lado; não é raro a pessoa ter feito tratamento de canal ou tomado antibiótico para “sinusite” várias vezes antes de alguém nomear a cefaleia em salvas. A segunda é o comportamento na crise, que por si só já orienta o diagnóstico: quem tem enxaqueca se deita no escuro, mas quem está em uma crise de salva não consegue ficar parado, anda pela casa de madrugada, aperta a têmpora, e essa agitação descrita pelo acompanhante vale mais que muitos exames. A terceira, e talvez a mais útil de divulgar, é que a maioria dos pacientes chega sem saber que o oxigênio em alto fluxo existe como tratamento da crise: é um recurso barato, sem efeito cardiovascular e com respaldo de ensaio controlado, mas que depende de prescrição e de um cilindro com a máscara certa em casa, e quase ninguém foi informado disso.
Abortar
Oxigênio em alto fluxo e triptano de ação rápida ao primeiro sinal da crise, conforme prescrição, para encurtar a dor.
Cortar e prevenir
Iniciar a prevenção de base e a terapia de transição (corticoide em ciclo curto e/ou bloqueio occipital) para reduzir a frequência das crises.
Ajustar e apoiar
Reavaliar a resposta pelo diário de crises, ajustar a dose da prevenção e somar adjuvantes; manter até o fim do período de salva.
Não há, hoje, tratamento que elimine de forma definitiva a tendência às salvas, mas o controle das crises com o tratamento correto costuma ser muito bom e devolve qualidade de vida. Por isso, o diagnóstico precoce e o encaminhamento ao neurologista, com o apoio multimodal da clínica de dor, fazem grande diferença.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
A cefaleia em salvas não é uma condição postural nem musculoesquelética. A dor nasce de um disparo central na via hipotálamo-trigêmeo-autonômica, e não de uma má postura, de um encurtamento muscular ou de uma disfunção da coluna cervical. Por isso, ao contrário da cefaleia tensional ou da dor cervical, a reeducação postural global (RPG), o Pilates clínico e a fisioterapia não são o tratamento principal e, sozinhos, não abortam a crise nem encurtam a salva. As medidas não farmacológicas têm um papel adjuvante real, em três frentes:
Ajuste de gatilhos e do ritmo biológico
Durante a salva, evitar o álcool e os vasodilatadores (como nitratos), manter um horário de sono regular e evitar os cochilos diurnos, que com frequência disparam crises noturnas. Como o relógio biológico, regulado pelo hipotálamo, está no centro do mecanismo, a regularidade de sono e de rotina é coerente com a fisiopatologia, não um conselho genérico.
Manejo do impacto e enfrentamento
A cefaleia em salvas é uma das dores mais intensas que existem, com forte associação a sofrimento psíquico durante os ciclos. Orientação, suporte e estratégias de enfrentamento, somados ao tratamento de base, ajudam a atravessar a salva.
Componente cervical e tensional associado
Muitas pessoas com crises frequentes desenvolvem tensão e pontos-gatilho na musculatura suboccipital, no trapézio superior e no esternocleidomastóideo, que somam dor cervical e dor de cabeça tensional. A cinesioterapia cervical (ativação dos flexores profundos pela flexão craniocervical, estabilização escapulotorácica e fortalecimento progressivo), a terapia manual como adjuvante e o trabalho postural reduzem essa carga miofascial sobreposta.
O efeito da reabilitação é sobre o componente cervical, não sobre o gerador central da cefaleia em salvas. A evidência específica para a salva é limitada: a reabilitação melhora o que está associado, sem substituir o oxigênio, o triptano nem a prevenção medicamentosa. É uma reabilitação individualizada, conduzida um paciente por sala, integrada ao plano neurológico.
Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica
A cefaleia em salvas não tem um tratamento cirúrgico de rotina: a imensa maioria dos casos se controla com o tratamento medicamentoso bem conduzido, e a cirurgia clássica não faz parte do manejo padrão. O que existe, para uma minoria de casos refratários, é um conjunto de técnicas de neuromodulação e de procedimentos avançados, indicados e conduzidos em centros especializados em cefaleia, em geral por neurologistas com essa subespecialidade.
Conservador · 1ª escolha
Tratamento medicamentoso bem conduzido
- Abortivo: oxigênio em alto fluxo e triptano de ação rápida.
- Transição: corticoide em ciclo curto e bloqueio do nervo occipital.
- Prevenção de base: verapamil, com lítio ou topiramato em casos selecionados.
- Controla a imensa maioria dos casos.
Neuromodulação · exceção
Técnicas avançadas em centro de cefaleia
- Estimulação não invasiva do nervo vago (dispositivo externo no pescoço; evidência sobretudo na forma episódica).
- Estimulação do gânglio esfenopalatino (microestimulador implantado, atua na via parassimpática).
- Estimulação do nervo occipital (eletrodos implantados na nuca; casos crônicos e refratários).
- Indicação restrita, com avaliação de risco e benefício individual.
O mecanismo comum da neuromodulação é modular, por estímulo elétrico, a excitabilidade do sistema trigêmeo-autonômico e parassimpático que gera as crises. São procedimentos de indicação restrita e pertencem ao território do especialista, fora do escopo de uma clínica de dor. Vale citar ainda que os anticorpos monoclonais contra o CGRP, hoje consolidados na enxaqueca, vêm sendo estudados e usados na cefaleia em salvas (o galcanezumabe tem dados na forma episódica), também com indicação definida pelo especialista.
O ponto prático para o paciente é saber quando pedir esse encaminhamento: se as crises não cedem apesar da prevenção bem conduzida, se a forma é crônica (sem períodos de remissão por mais de um ano), ou se há contraindicação ou intolerância às medicações de primeira linha.
Tratamento medicamentoso da cefaleia em salvas
O tratamento medicamentoso é o pilar central da cefaleia em salvas, e se organiza em três níveis que andam juntos: abortar a crise que já começou, fazer uma terapia de transição (ponte) para cortar a salva rapidamente, e instituir a profilaxia que mantém as crises sob controle durante todo o período. Os medicamentos abaixo são citados pelo nome genérico; são de prescrição especializada, em geral pelo neurologista, com dose e duração individuais.
| Frente | Opções | Para quê | Evidência | Limites e cuidados |
|---|---|---|---|---|
| Abortivo | Oxigênio em alto fluxo (100%, 12–15 L/min, ~15 min); sumatriptano subcutâneo; spray nasal de sumatriptano ou zolmitriptano | Encerrar a crise em curso, com início de ação em minutos | Forte | Oxigênio depende de cilindro e máscara em casa; triptano contraindicado em doença coronariana, vascular periférica e hipertensão não controlada, com teto de doses/dia; via oral lenta demais |
| Transição (ponte) | Corticoide em ciclo curto (prednisona ou prednisolona); bloqueio do nervo occipital maior | “Cortar” a salva enquanto a profilaxia de base sobe à dose eficaz | Moderada | Corticoide por tempo limitado, com retirada gradual, pelos efeitos do uso prolongado (glicemia, pressão, sono, osso); são ponte, não prevenção definitiva |
| Profilaxia · 1ª linha | Verapamil (bloqueador de canais de cálcio) | Reduzir frequência e intensidade das crises ao longo da salva | Moderada | Titulação gradual da dose e monitoramento com eletrocardiograma pelo efeito na condução cardíaca (risco de bloqueio atrioventricular) |
| Profilaxia · 2ª linha | Lítio; topiramato; galcanezumabe (anti-CGRP) | Quando o verapamil não basta ou não é tolerado; lítio útil na forma crônica; galcanezumabe na forma episódica | Limitada | Lítio exige dosagem sérica e atenção à função renal e tireoidiana (janela estreita); topiramato com efeitos cognitivos e parestesia; escolha definida pelo especialista |
Profilaxia de base: verapamil e as opções de segunda linha
- O que é
- A profilaxia é o coração do tratamento durante a salva. O verapamil, um bloqueador de canais de cálcio, é a medicação preventiva de primeira linha; lítio, topiramato e o anti-CGRP galcanezumabe são opções de segunda linha.
- Para quê
- Reduzir a frequência e a intensidade das crises ao longo de todo o período de salva, mantendo o controle até a remissão.
- Evidência
- Moderada O verapamil é a primeira linha estabelecida; o galcanezumabe passou a ter dados de eficácia na forma episódica, ampliando o arsenal em casos selecionados.
- O que esperar
- O preventivo leva alguns dias a semanas para atingir a dose eficaz — por isso a terapia de transição cobre esse intervalo. A resposta é acompanhada pelo diário de crises.
- Indicações
- Escolha conforme a forma (episódica ou crônica), as comorbidades e a resposta registrada; o lítio é sobretudo útil na forma crônica.
- Limitações
- Verapamil exige titulação gradual e eletrocardiograma (risco de bloqueio atrioventricular); lítio requer dosagem do nível sérico e atenção à função renal e tireoidiana; topiramato tem efeitos cognitivos e parestesia. A dose e a duração são sempre definidas pelo médico assistente.
O tratamento abortivo (oxigênio em alto fluxo e sumatriptano) e a terapia de transição (corticoide em ciclo curto e bloqueio do nervo occipital maior) estão detalhados na matriz acima e na seção de tratamento. As duas estratégias de transição funcionam como ponte enquanto a profilaxia sobe, não como prevenção definitiva.
A clínica
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC. É também listada pelo CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura.
Conheça a clínica

Perguntas frequentes
O que é cefaleia em salvas e por que se chama assim?
É uma dor de cabeça primária do grupo das cefaleias trigêmino-autonômicas, com crises curtas e muito intensas, sempre de um lado da cabeça, acompanhadas de olho vermelho, lágrima e nariz entupido daquele lado. O nome vem do padrão de “salvas”: as crises se agrupam em períodos de semanas a meses, separados por intervalos sem dor.
Quais são os sintomas da cefaleia em salvas?
Dor extremamente forte ao redor de um olho ou na têmpora, sempre do mesmo lado, em crises de 15 a 180 minutos, com olho vermelho e lacrimejando, pálpebra caída, nariz entupido e suor no mesmo lado da dor. As crises costumam ocorrer no mesmo horário, acordam a pessoa de madrugada, e durante a dor a pessoa fica agitada, sem conseguir ficar parada.
Qual a diferença entre cefaleia em salvas e enxaqueca?
A enxaqueca dura horas (4 a 72), é latejante, vem com náusea e sensibilidade à luz, e a pessoa procura o escuro e o repouso. A cefaleia em salvas tem crises curtas (até 180 minutos), com sinais no olho e no nariz do mesmo lado, e deixa a pessoa agitada e inquieta. São doenças distintas, com tratamentos diferentes. Veja o guia de enxaqueca.
Qual o tratamento da cefaleia em salvas?
O tratamento tem dois eixos: abortar a crise, com oxigênio em alto fluxo e triptano de ação rápida (injetável ou nasal), e prevenir as crises da salva, com medicação preventiva e terapia de transição. O bloqueio do nervo occipital e a acupuntura ajudam de forma adjuvante. Analgésicos comuns não funcionam. A definição dos medicamentos é sempre médica.
Cefaleia em salvas tem cura?
Não há, hoje, um tratamento que elimine de forma definitiva a tendência às salvas. Porém, o controle das crises com o tratamento correto costuma ser muito bom, encurtando as salvas e reduzindo a frequência e a intensidade da dor. Na forma episódica, há longos períodos de remissão sem nenhuma crise. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado fazem grande diferença na qualidade de vida.
A acupuntura ajuda na cefaleia em salvas?
A acupuntura tem papel adjuvante. A evidência é mais robusta na enxaqueca e na cefaleia tensional; na cefaleia em salvas é mais limitada, e a técnica não substitui o oxigênio, o triptano nem a prevenção. Ela ajuda sobretudo a reduzir a tensão cervical associada e a dependência de analgésicos, somada ao tratamento neurológico de base.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
Ver a biblioteca científica completaReferências3 fontes citadas neste artigoVerOcultar
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- Cohen AS, Burns B, Goadsby PJ. High-flow oxygen for treatment of cluster headache: a randomized trial. JAMA. 2009;302(22):2451-2457.
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Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. A cefaleia em salvas exige diagnóstico e acompanhamento neurológico. A forma episódica e a crônica seguem caminhos distintos, e o plano descrito aqui é individualizado caso a caso na consulta, não uma receita fixa.
