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Ossos e articulações · Doença silenciosa

Osteoporose: o que é, sintomas, riscos e tratamentos

A osteoporose costuma ser silenciosa: enfraquece o osso sem doer e aparece tarde, muitas vezes só na fratura. A dor atribuída a ela quase sempre vem de fratura por fragilidade.

Resposta direta
  • A osteoporose em si é silenciosa: o osso perde resistência sem sintoma. Ela não causa, por si só, a dor nas costas constante que muitos lhe atribuem.
  • A dor costuma vir da fratura por fragilidade: vértebra (por compressão), quadril (fêmur proximal) e punho (rádio distal) são os locais mais comuns. A fratura vertebral aguda dói e tem sinais de alerta próprios.
  • O diagnóstico é por densitometria óssea (DEXA), com o T-score (e o Z-score em jovens e homens), somada à estimativa de risco em 10 anos pelo FRAX. Imagem isolada não decide tudo, e há ainda a investigação de causas secundárias.
  • O tratamento combina exercício (resistido, de impacto e de equilíbrio), cálcio, vitamina D e proteína, parar tabagismo e álcool, e medicamentos por classe (antirreabsortivos como bifosfonatos e denosumabe; anabólicos como teriparatida e romosozumabe; o SERM raloxifeno), com a escolha, a sequência e a duração definidas pelo médico.
  • A clínica trata a dor da fratura e a parte musculoesquelética e de reabilitação, com decisão compartilhada e encaminhamento quando preciso.
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O que é osteoporose, e por que ela é silenciosa

Diagrama comparando a cabeça do fêmur de um osso normal com a de um osso com osteoporose e fratura, mostrando ampliacoes da estrutura trabecular densa e porosa.
Na osteoporose o osso trabecular fica rarefeito e poroso, o que reduz sua resistência e favorece fraturas do quadril.

Osteoporose é uma doença sistêmica do esqueleto em que o osso perde massa e qualidade da sua microarquitetura, ficando mais frágil e mais sujeito a fraturas. O ponto que confunde muita gente é justamente este: enquanto a perda de osso acontece, não há dor nem sintoma. Por isso ela é chamada de doença silenciosa.

O osso é um tecido vivo, em renovação constante por um processo chamado remodelação óssea. Em unidades microscópicas espalhadas pelo esqueleto, os osteoclastos (células que vêm da linhagem de defesa do sangue) reabsorvem osso velho, e em seguida os osteoblastos formam osso novo, num ciclo acoplado que se repete ao longo da vida. O comando desse acoplamento passa por uma via central, o eixo RANK / RANKL / osteoprotegerina: o osteoblasto produz o ligante RANKL, que ativa o osteoclasto, e produz também a osteoprotegerina, que funciona como um freio (uma “isca” que captura o RANKL e impede a reabsorção). É o equilíbrio entre esses sinais que mantém a massa óssea estável.

Na osteoporose, esse equilíbrio se inclina para a perda: reabsorve-se mais osso do que se forma. Na osteoporose pós-menopausa, a queda do estrogênio é o gatilho central, porque o estrogênio normalmente contém o RANKL e prolonga a vida dos osteoblastos; sem ele, a reabsorção dispara, sobretudo no osso trabecular (esponjoso) das vértebras. Na osteoporose senil, que avança com a idade em ambos os sexos, somam-se a formação óssea reduzida, a deficiência de vitamina D e o hiperparatireoidismo secundário leve.

O resultado, em ambos os casos, é uma estrutura interna mais “vazada”, com trabéculas mais finas, perfuradas e desconectadas, que suporta menos carga. Tudo isso ocorre por dentro, sem que a pessoa sinta nada.

É aqui que mora o mito mais comum. Como a doença tem nome assustador e atinge os ossos, muita gente atribui a ela qualquer dor nas costas. Na prática, a perda óssea não dói: não há terminações nociceptivas sendo estimuladas enquanto a trabécula afina. A dor entra em cena quando o osso enfraquecido cede e ocorre uma fratura, ou quando há outra causa de dor (muscular, facetária ou de origem postural) que coexiste e não tem relação direta com a densidade do osso.

Mito

“Minha coluna dói todo dia porque tenho osteoporose, é a doença corroendo o osso e doendo.”

Fato

A osteoporose em si é silenciosa e não causa dor contínua. A dor costuma vir de uma fratura por fragilidade (em especial vertebral) ou de outra causa musculoesquelética, que precisa ser investigada e tratada.

Silenciosa
A perda óssea não dói
Fratura
É ela que costuma doer
DEXA
Exame que mede a densidade
RANKL
Via central da reabsorção
Equipe médica da Clínica Dr. Hong Jin Pai reunida
Equipe médica Equipe médica da clínica

A dor vem da fratura, não da osteoporose

Se a osteoporose não dói, de onde vem a dor associada a ela? Da fratura por fragilidade, ou seja, uma fratura que ocorre com um trauma de baixa energia, às vezes apenas com o peso do próprio corpo (por convenção, uma queda da própria altura ou menos). Três locais concentram a maioria desses casos, e cada um tem um comportamento diferente.

A fratura vertebral por compressão é a mais ligada à confusão entre osteoporose e dor nas costas. Uma vértebra enfraquecida (em geral na transição toracolombar, entre T11 e L1, onde a carga mecânica se concentra) pode “afundar” sob a própria carga, ao se curvar para pegar um objeto ou mesmo ao tossir, configurando uma fratura em cunha, bicôncava ou por esmagamento. Às vezes a dor é aguda e localizada nas costas; em outros casos, surpreendentemente, a fratura é quase indolor e só se descobre depois, pela perda de altura ou pela curvatura crescente das costas (a chamada cifose, ou “corcunda”).

Estima-se que cerca de dois terços das fraturas vertebrais nunca cheguem a receber diagnóstico clínico no momento em que ocorrem. Uma pessoa pode perder vários centímetros de altura ao longo dos anos por fraturas vertebrais sucessivas e silenciosas.

A fratura de quadril (fêmur proximal, colo ou região trocantérica) é a mais grave em termos de consequências. Costuma ocorrer após uma queda e quase sempre exige cirurgia e internação, com impacto importante na independência e na recuperação, e com mortalidade aumentada no primeiro ano. A fratura de punho (rádio distal, a clássica fratura de Colles) é tipicamente a que aparece quando a pessoa cai e apoia a mão estendida no chão para se proteger; é dolorosa, mas em geral de melhor prognóstico. Costuma ocorrer mais cedo, na faixa dos 50 aos 60 anos, e muitas vezes é o primeiro aviso de que o osso está frágil.

Fraturas por fragilidade mais comuns na osteoporose
LocalComo costuma acontecerPadrão da dor e impacto
Vértebra (compressão, T11 a L1)Esforço mínimo, ao curvar-se, tossir ou levantar peso; por vezes sem trauma claroPode ser dor aguda nas costas ou, ao contrário, silenciosa; leva a perda de altura e cifose
Quadril (fêmur proximal)Queda da própria altura, em geral em pessoa idosaDor intensa, perda da marcha; costuma exigir cirurgia e tem impacto alto na independência
Punho (rádio distal, Colles)Queda com apoio da mão estendida no chãoDor e deformidade no punho; muitas vezes é o primeiro sinal de fragilidade óssea

A leitura prática é direta: uma fratura por fragilidade, sobretudo uma fratura vertebral, é um marcador maior de osteoporose e aumenta muito o risco de uma próxima fratura, fenômeno conhecido como “cascata de fraturas”, em que o ano seguinte ao primeiro evento é o de maior risco. Por isso ela nunca deve ser encarada como um episódio isolado, e sim como o sinal que dispara a investigação e o tratamento do osso.

A consequência prática do silêncio

A primeira fratura por fragilidade é, ao mesmo tempo, o aviso mais alto que o osso consegue dar e o mais ignorado. Quebrar o punho ao apoiar a mão numa queda da própria altura, ou afundar uma vértebra ao se curvar, depois dos 50 anos, é um evento que deve disparar uma densitometria e a avaliação do osso, do mesmo modo que uma dor no peito dispara a investigação do coração.

Na realidade, a maioria dessas pessoas é tratada apenas da fratura, o gesso, a tipoia, o analgésico, a alta, e volta para casa sem que ninguém investigue ou trate a osteoporose que a causou. A doença, que naquele momento gritou pela primeira e única vez, volta ao silêncio e segue progredindo, até a fratura seguinte, em geral mais grave. Esse intervalo perdido entre a primeira fratura e o diagnóstico tem nome na literatura, é a “lacuna de cuidado” (care gap), e é o que mais se ganharia em fechar.

Em uma frase

Quem tem osteoporose raramente sente a doença; sente, isso sim, a fratura. Tratar a osteoporose é, antes de tudo, evitar a próxima fratura, e não combater uma dor que a perda óssea, por si, não produz.

Sinais de alerta de fratura vertebral aguda

Render anatômico do quadril com duas ampliacoes em círculos: osso esponjoso denso e saudável e osso rarefeito com trabeculas finas, além de linha de fratura no colo do fêmur.
A perda de massa óssea costuma ser silenciosa até que uma queda banal cause a primeira fratura de quadril.

Como a fratura vertebral pode passar despercebida, vale conhecer os sinais que sugerem uma fratura aguda e que pedem avaliação sem demora. Eles são especialmente importantes em pessoa idosa, com osteoporose conhecida ou com fatores de risco, em uso prolongado de corticoide ou com história de câncer.

Sinais de alerta · fratura vertebral · não espere

Procure avaliação sem demora se houver

  • Dor nas costas de início súbito e intenso após um esforço mínimo (curvar-se, tossir, levantar peso leve) ou após uma queda.
  • Dor que piora claramente ao ficar de pé ou andar e alivia ao deitar, em pessoa com osteoporose ou fatores de risco.
  • Perda de altura perceptível (mais de 4 cm em relação à altura de adulto jovem, ou mais de 2 cm em medições seguidas), ou aumento progressivo da curvatura das costas (cifose, “corcunda”).
  • Dor nas costas em quem usa corticoide por tempo prolongado, tem história de câncer, febre ou perda de peso sem explicação (a chamada bandeira vermelha de causa maligna ou infecciosa).
  • Qualquer fraqueza nas pernas, dormência na região da sela (entre as pernas) ou perda do controle de urina ou fezes, que sugerem compressão neurológica e são urgência.

A maioria das fraturas vertebrais por compressão é estável e tratada sem cirurgia, com controle da dor e reabilitação. O alerta vale para reconhecer a fratura cedo, confirmar o diagnóstico por imagem (radiografia, e quando preciso ressonância para datar a fratura e ver edema ósseo), descartar causas que mudam a conduta (como fratura por tumor ou infecção) e identificar o raro caso com compressão neurológica, que é uma emergência.

Diagnóstico: densitometria (DEXA), T-score, Z-score e FRAX

Duas imagens radiograficas de femures lado a lado: a esquerda com osso denso e uniforme, a direita com osso escurecido e rarefeito pela osteoporose.
A densitometria óssea mede essa perda de densidade e confirma o diagnostico antes que a fratura aconteça.

Como a doença é silenciosa, ela precisa ser procurada ativamente. O exame de referência é a densitometria óssea, feita por um aparelho de DEXA (absorciometria de raios X de dupla energia), indolor, rápido e de baixa dose de radiação, que mede a densidade mineral óssea (DMO) em sítios padronizados: a coluna lombar (L1 a L4) e o fêmur (colo femoral e fêmur total). O antebraço (rádio 33%) é medido quando os outros sítios não são confiáveis, por exemplo no hiperparatireoidismo ou quando a pessoa é muito acima do peso para a mesa do aparelho.

O resultado mais usado é o T-score, que compara a densidade óssea da pessoa com a de um adulto jovem saudável de referência, em número de desvios-padrão. Por critério da Organização Mundial da Saúde, em mulheres na pós-menopausa e homens a partir de 50 anos: T-score até -1,0 é normal; entre -1,0 e -2,5 indica osteopenia (massa óssea baixa, um estágio anterior); e -2,5 ou menor define osteoporose. Em mulheres na pré-menopausa, em homens com menos de 50 anos e em crianças, não se usa o T-score, e sim o Z-score, que compara a pessoa com pares da mesma idade e sexo: um Z-score de -2,0 ou menor é descrito como “abaixo do esperado para a idade” e deve, sobretudo, levantar a suspeita de uma causa secundária. Quando já houve uma fratura por fragilidade de quadril ou de vértebra, o diagnóstico clínico de osteoporose pode ser feito independentemente do número, pois a fratura já demonstrou a fragilidade do osso.

Interpretação do T-score na densitometria (DEXA), em pós-menopausa e homens a partir de 50 anos
T-scoreClassificaçãoLeitura prática
Até -1,0NormalDensidade óssea dentro do esperado
Entre -1,0 e -2,5OsteopeniaMassa óssea baixa; decisão pelo FRAX e fatores de risco
-2,5 ou menorOsteoporoseFragilidade que costuma indicar tratamento, conforme o risco
Qualquer valor + fratura de quadril ou vértebraOsteoporose estabelecidaA fratura já confirma a fragilidade do osso

A densidade óssea, porém, não conta a história toda, e a leitura do laudo tem armadilhas. Na coluna lombar, a artrose das facetas, os osteófitos e a calcificação da aorta elevam falsamente a densidade medida, mascarando a perda óssea, motivo pelo qual o fêmur costuma ser o sítio mais confiável em idosos. Por isso há recursos adicionais: o TBS (trabecular bone score), um índice de textura extraído da própria imagem da coluna que estima a qualidade da microarquitetura além da densidade, e a análise morfométrica de vértebras (VFA) no mesmo aparelho, que detecta fraturas vertebrais silenciosas. Além disso, muitas fraturas acontecem em pessoas com osteopenia, não só com osteoporose pelo número.

Para resolver isso, o médico complementa a avaliação com o FRAX, uma ferramenta calibrada para o Brasil que estima a probabilidade, nos próximos 10 anos, de uma fratura maior por osteoporose e de uma fratura de quadril, combinando idade, sexo, índice de massa corporal, história de fratura prévia, fratura de quadril nos pais, tabagismo atual, uso de glicocorticoide, artrite reumatoide, osteoporose secundária, consumo de álcool e o T-score do colo femoral. O FRAX traduz o conjunto em um número que orienta a decisão de tratar (limiares de intervenção que variam por país e diretriz, em geral em torno de 20% para fratura maior e 3% para fratura de quadril), e não um único valor isolado. É a soma do T-score com o FRAX, o quadro clínico e a presença de fratura prévia que define a conduta.

Antes de iniciar tratamento, é boa prática investigar causas secundárias de osteoporose, sobretudo em homens, em mulheres jovens e quando a perda é desproporcional. Os exames habituais incluem cálcio e fósforo séricos, 25-hidroxivitamina D, função renal e hepática, PTH, TSH (para hipertireoidismo e excesso de levotiroxina), cálcio urinário de 24 horas, eletroforese de proteínas (rastreio de mieloma), anticorpos para doença celíaca e, em homens, testosterona. Identificar e corrigir uma causa secundária (deficiência de vitamina D, hipertireoidismo, hipogonadismo, má absorção, uso de corticoide) muda completamente o tratamento.

A osteopenia é justamente o estágio em que vale agir cedo, com medidas de estilo de vida e correção de fatores de risco, e tratar com medicamento apenas os casos que o FRAX aponta como de risco alto. Os detalhes desse estágio estão na página sobre osteopenia: causas, sintomas e tratamento.

Fatores de risco e causas secundárias

Três silhuetas em perfil mostrando perda progressiva de altura e curvatura da coluna por fraturas vertebrais, com radiografia destacando vértebras fraturadas.
Fraturas vertebrais por compressão encurtam a estatura e curvam a coluna, sinal tardio de osteoporose avançada.

Alguns fatores não se mudam, mas ajudam a identificar quem deve investigar mais cedo; outros são modificáveis e fazem parte do próprio tratamento. Conhecê-los ajuda a entender por que a osteoporose vai além da idade e por que duas pessoas com a mesma idade podem ter riscos bem diferentes.

  • Idade e menopausa. A perda óssea acelera nos primeiros anos após a menopausa, pela queda do estrogênio que solta o freio sobre o RANKL, e o risco cresce com a idade em ambos os sexos.
  • Sexo e genética. Mulheres têm risco maior e pico de massa óssea mais baixo; história de fratura de quadril nos pais e baixo peso (IMC baixo) também pesam.
  • Hábitos. Tabagismo, consumo excessivo de álcool, sedentarismo e baixa ingestão de cálcio e vitamina D enfraquecem o osso.
  • Glicocorticoides. O uso prolongado de corticoide (a partir de cerca de 5 mg de prednisona ao dia por 3 meses ou mais) é a causa mais comum de osteoporose induzida por medicamento, porque reduz a formação óssea e a absorção de cálcio; o risco de fratura sobe cedo, antes mesmo de a densidade cair muito.
  • Outras doenças e fármacos. Artrite reumatoide, hipertireoidismo, hiperparatireoidismo, diabetes, doença celíaca e outras causas de má absorção, hipogonadismo, e medicamentos como inibidores de aromatase, bloqueio androgênico, alguns anticonvulsivantes e o uso prolongado de inibidores de bomba de prótons aumentam o risco.
  • Quedas. Não fragilizam o osso, mas são o gatilho da maioria das fraturas; equilíbrio, força e revisão de polifarmácia, visão e ambiente entram aqui como prevenção essencial.

Vários desses fatores se sobrepõem e se somam. É por isso que a avaliação do risco (e do tratamento) é individual: duas pessoas com o mesmo T-score podem ter riscos de fratura bem diferentes conforme idade, fraturas prévias, uso de corticoide e hábitos, e é exatamente essa diferença que o FRAX procura capturar.

Tratamento na clínica: dor da fratura, neuromodulação e reabilitação

O tratamento completo da osteoporose tem um objetivo claro e mensurável: reduzir o risco de fratura, e ele combina frentes que se reforçam, as medidas de estilo de vida, a reabilitação, o controle da dor quando há fratura e os medicamentos específicos. Esta seção descreve a parte conduzida na clínica de dor e reabilitação, o manejo da dor da fratura vertebral por compressão e a neuromodulação do componente musculoesquelético que a acompanha. As seções seguintes detalham o tratamento não farmacológico (exercício, Reabilitação e exercício), as opções cirúrgicas e fora da clínica, e o tratamento medicamentoso do osso.

Da prática clínica

Algumas observações recorrentes no consultório com osteoporose:

A fratura vertebral que ninguém viu acontecer. Parte das fraturas de vértebra chega sem uma queda, sem um episódio de dor que a pessoa lembre. O que motiva a consulta é a roupa que parou de servir, o queixo que se aproximou do peito, a família que comenta que ela “encolheu”. Quando se mede a altura e se compara com a do documento antigo, faltam três, quatro, cinco centímetros, e a radiografia mostra vértebras já em cunha. A doença trabalhou em silêncio por anos.

Por que não doía antes. A pergunta que mais ouço é “se meu osso estava tão fraco, por que eu não sentia nada?”. A resposta costuma surpreender: o osso perde resistência sem doer, porque a trabécula que afina não tem como avisar; a dor só aparece quando a estrutura cede. É contraintuitivo conviver com uma doença séria que não dá sintoma, e essa é justamente a parte que mais precisa ser explicada.

O vão depois da primeira fratura. O que mais me chama atenção é quantas pessoas chegam meses depois de uma fratura de punho ou de uma vértebra tratada, sem que ninguém tenha pedido uma densitometria ou olhado para o osso. Cuidou-se do gesso e da dor; a osteoporose por trás seguiu sem diagnóstico e sem tratamento, justamente no período de maior risco de uma próxima fratura.

O plano que funciona na vida real raramente é só o comprimido. É o trio carga progressiva, treino de equilíbrio e medicação quando indicada, somado a tirar o tapete solto da sala e revisar o remédio que dá tontura. Quem entende que prevenir a próxima queda pesa tanto quanto o remédio do osso costuma ter o melhor resultado.

O que a clínica de dor e reabilitação faz aqui é cuidar da consequência dolorosa da osteoporose, a fratura por fragilidade e o componente musculoesquelético que a acompanha, e sustentar a reabilitação que reduz quedas. As frentes abaixo se somam, e nenhuma delas modifica a densidade óssea, que é tratada com exercício, nutrição e medicamento.

ReabilitaçãoProcedimentosApoio medicamentoso

Reabilitação da fratura vertebral

Controle da dor e da postura na fase aguda, progressão para fortalecimento paravertebral e do tronco e treino de equilíbrio, evitando o repouso prolongado.

ForteEixo do cuidado

Acupuntura e eletroacupuntura

Neuromodulação da dor da fratura e do espasmo paravertebral; não altera a densidade óssea, é adjuvante.

ModeradaAlgumas sessões

Medicamentos para a dor

Analgésico simples e, por períodos curtos, anti-inflamatório com cautela; em casos, calcitonina na fratura vertebral aguda. Apoia a reabilitação.

ModeradaFase aguda

Vertebroplastia / cifoplastia

Injeção de cimento ósseo na vértebra fraturada, só em casos selecionados de dor refratária; evidência debatida, não é rotina nem primeira linha.

LimitadaCasos selecionados
Controlar a dor da fraturafase aguda
Analgesia e posturaMobilidade seguraEvitar repouso prolongado
Reabilitação ativaconforme a fase
Fortalecimento paravertebral e do troncoTreino de equilíbrioNeuromodulação da dor
Tratar o osso de baseem paralelo e a seguir
Exercício e nutriçãoMedicamento por classePrevenção de quedas

Manejo da dor da fratura vertebral e reabilitação

O que é
A frente em que a clínica de dor e reabilitação atua mais diretamente. Quando ocorre uma fratura vertebral por compressão, controla-se a dor da fase aguda, preserva-se a mobilidade e devolve-se a função, evitando o repouso prolongado, que enfraquece músculo e osso.
Como conduz
A reabilitação é o eixo: controle inicial da dor e da postura, progressão para fortalecimento da musculatura paravertebral e dos estabilizadores do tronco, e treino de equilíbrio, sempre respeitando a fase da fratura e ajustando os movimentos de risco para a coluna (evitar a flexão brusca do tronco).
Medicamentos para a dor
Analgésicos simples e, por períodos curtos, anti-inflamatórios com cautela em pessoa idosa e conforme função renal; em alguns casos a calcitonina pode aliviar a dor da fratura vertebral aguda. Ajudam a atravessar a fase aguda.
Evidência
Forte A maioria das fraturas vertebrais por compressão é estável e tratada de forma conservadora, e a dor costuma melhorar ao longo de semanas conforme a vértebra consolida.
Limitações
Tratar a dor da fratura não substitui o tratamento da osteoporose de base, que é o que reduz o risco da próxima fratura. A vertebroplastia e a cifoplastia ficam reservadas a casos selecionados de dor intensa e incapacitante que não cede ao tratamento conservador bem conduzido; a evidência é debatida (ensaios com grupo placebo não confirmaram benefício claro em todos os contextos) e a indicação é individual, em conjunto com o especialista.

Acupuntura e eletroacupuntura no manejo da dor da fratura

O que é
Inserção de agulhas finas em pontos selecionados por médico acupunturiatra; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa intensidade conecta as agulhas. Entra como camada de neuromodulação da dor da fratura vertebral por compressão e do componente musculoesquelético que a acompanha, não como tratamento da densidade óssea, que ela não modifica.
Mecanismo
Modula o estímulo doloroso por mecanismos segmentares no corno dorsal da medula (a teoria da comporta), pela ativação de vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial) e pela liberação de opioides endógenos; na eletroacupuntura, a corrente de baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas opioides.
O que esperar
O alvo não é a vértebra fraturada em si, e sim a musculatura paravertebral que reage à fratura: após a fratura, os eretores da coluna e o quadrado lombar entram em espasmo de proteção e desenvolvem pontos de dor miofascial que prolongam o desconforto mesmo depois de a vértebra consolidar. É útil para baixar a dor a um nível que permita iniciar a reabilitação mais cedo e reduzir a dose de analgésico em pessoa idosa. O efeito é progressivo ao longo de algumas sessões e é reavaliado pela capacidade de mover-se e de dormir, não por um número.
Evidência
Moderada Recurso de neuromodulação da dor, sempre adjuvante ao manejo da fratura e à reabilitação.
Limitações
Não altera a densidade óssea nem trata a osteoporose, por isso é sempre adjuvante. Na população osteoporótica há dois cuidados próprios: o uso frequente de anticoagulante ou antiagregante, que pede técnica cuidadosa, e a agulha mantida superficial e a distância do segmento recém-fraturado. Desconforto passageiro ou pequena equimose são possíveis.
Semana 1 a 2

Controle da dor

Na fratura vertebral aguda, controlar a dor, ajustar postura e iniciar mobilidade segura, evitando o repouso prolongado.

Semana 3 a 6

Reabilitação e progressão

Fortalecimento progressivo, treino de equilíbrio e técnicas de modulação da dor; a dor da fratura costuma ceder à medida que a vértebra consolida.

Em paralelo e a seguir

Tratar o osso

Confirmar e tratar a osteoporose de base (exercício, nutrição, medicamento por classe quando indicado) para reduzir o risco da próxima fratura.

A meta é dupla: controlar a dor e recuperar a função após uma fratura, e, ao mesmo tempo, fortalecer o osso e reduzir quedas para que a história não se repita. A osteoporose não tem uma “cura” no sentido de desaparecer, mas é uma condição que se controla bem, com risco de fratura que pode cair de forma expressiva quando o plano é seguido e mantido. Para o componente de dor lombar que muitas vezes coexiste, vale conhecer também o guia de tratamento da lombalgia.

Tratamento não farmacológico: reabilitação e exercício

O exercício não é um acessório do tratamento da osteoporose: é, ao lado do medicamento, uma das duas frentes que de fato reduzem o risco de fratura, e a única que age sobre o osso e sobre a queda ao mesmo tempo. Atua por dois caminhos distintos. O primeiro é sobre o próprio osso, que é um tecido vivo e responde à carga mecânica (mecanotransdução pelos osteócitos, as células-sensor embutidas na matriz), formando e preservando massa nos sítios solicitados. O segundo, igualmente decisivo, é a prevenção de quedas, já que a maioria das fraturas de quadril e punho ocorre numa queda, e ganhar força, equilíbrio e confiança para se mover reduz diretamente a chance de fraturar. As abordagens a seguir são conduzidas na clínica, individualizadas, um paciente por sala, dentro de um plano com indicação médica.

O ganho de densidade óssea pelo exercício é real, porém modesto, e leva meses; o que muda a vida no curto prazo é a melhora de força, equilíbrio e função, que aparece em poucas semanas e é o que mais protege contra a fratura no dia a dia. Há ainda um cuidado específico da osteoporose, sobretudo quando já houve fratura vertebral: a flexão acentuada do tronco (abdominais em flexão, curvar-se bruscamente para a frente com carga) aumenta a pressão sobre a parte anterior do corpo vertebral e pode favorecer novas fraturas em cunha, por isso é ajustada ou evitada. É um motivo central para que o programa seja prescrito e supervisionado, e não improvisado.

Primeiras semanas

Força e equilíbrio

A melhora de força, equilíbrio e confiança para se mover aparece cedo; é ela que mais protege contra a queda e a fratura no dia a dia.

Ao longo de meses

Ganho ósseo discreto

O ganho de densidade óssea pelo exercício é real, porém modesto e gradual, e soma-se ao tratamento do osso, sem substituí-lo.

Mantido

Manutenção

O efeito se preserva enquanto o programa é mantido e individualizado, com supervisão profissional ciente do diagnóstico.

Exercício resistido e de impacto para o osso

Treino de força com carga progressiva somado a impacto tolerado (caminhada vigorosa, subir escadas, saltos leves quando seguros). O osso responde à deformação da carga e à tração muscular sobre o periósteo; os osteócitos traduzem o estímulo em sinal para preservar e, em alguma medida, formar osso em coluna e quadril. Cuidado: carga dosada e progressiva; o impacto é adaptado ou evitado em fratura recente, dor importante ou risco muito alto, e a flexão acentuada do tronco com carga é evitada quando há fratura vertebral.

ModeradaOsso + força

Treino de equilíbrio e prevenção de quedas

Treino específico de equilíbrio, de força de membros inferiores e de marcha, em programas multicomponentes, voltado a reduzir a frequência e a gravidade das quedas, que são o gatilho da maioria das fraturas. O efeito é maior quando associado à revisão de medicamentos sedativos, da visão e do ambiente da casa. Cuidado: programa progressivo e adaptado ao risco de queda; não dispensa as demais medidas nem a correção dos fatores ambientais e de polifarmácia.

ForteReduz quedas

Fisioterapia, cinesioterapia e terapia manual

Reabilitação ativa individualizada com exercício terapêutico (cinesioterapia) como base e terapia manual (mobilização de tecidos moles e articular) como adjuvante para reduzir a dor e facilitar o movimento. A cinesioterapia é o veículo pelo qual o trabalho de carga, equilíbrio e postura é prescrito e progredido. Cuidado: a manipulação de alta velocidade da coluna é evitada pelo risco em osso frágil; a terapia manual é complemento, não substituto, e a prioridade é o trabalho ativo.

ForteBase conservadora

Educação postural e proteção da coluna

Orientação prática de como mover o tronco com segurança no dia a dia (dobrar pelos quadris e joelhos com a coluna neutra, girar o corpo todo em vez de torcer, não pegar peso longe do corpo) somada ao fortalecimento dos extensores das costas, que sustentam uma postura mais ereta e contêm a hipercifose. Cuidado: não substitui o tratamento do osso nem corrige deformidade estabelecida; os exercícios de extensão são dosados e individualizados, evitando a hiperextensão forçada.

ModeradaCamada educativa

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

A osteoporose em si não é uma doença cirúrgica. Não existe operação que trate a perda de massa óssea, e o que reduz o risco de fratura é o conjunto de exercício, nutrição e medicamento. A cirurgia entra no percurso por causa das fraturas por fragilidade, ou seja, como tratamento da consequência, não da causa. Estas opções não são realizadas em nossa clínica; apresentamos o quadro completo e quando procurá-las.

Conservador · 1ª escolha

Maioria das fraturas vertebrais

  • A maioria das fraturas vertebrais por compressão é estável e tratada sem cirurgia.
  • Controle da dor, ajuste de postura e reabilitação ativa, como na seção do tratamento na clínica.
  • A dor costuma ceder ao longo de semanas conforme a vértebra consolida.
  • Tratar a fratura não substitui tratar o osso de base, que reduz o risco da próxima.
VS

Cirúrgico · por causa da fratura

Situações específicas

  • Vértebra: vertebroplastia ou cifoplastia só em dor refratária e incapacitante; evidência debatida, não é rotina nem 1ª linha.
  • Quadril (fêmur proximal): quase sempre cirúrgico, idealmente em 24 a 48 h, com fixação interna ou prótese; reabilitação de meses.
  • Punho (rádio distal): fraturas desviadas ou instáveis podem exigir fixação com placa; muitas são tratadas sem cirurgia.
  • Fêmur atípico: dor na coxa em uso prolongado de antirreabsortivo, com traço na imagem; avaliação ortopédica e suspensão do fármaco com o especialista.

A vertebroplastia e a cifoplastia foram muito usadas, mas ensaios com grupo placebo (em que o procedimento é simulado) não confirmaram benefício claro em todos os contextos, de modo que a indicação ficou mais criteriosa e reservada à dor refratária e incapacitante. Já a cirurgia da fratura de quadril é a regra, não a exceção: o objetivo é estabilizar a fratura e permitir que a pessoa volte a se mover cedo, porque o repouso prolongado, nessa faixa, traz complicações graves. Vale, aqui, a regra de ouro da osteoporose: tratar a fratura não substitui tratar o osso de base, e é justamente após a primeira fratura que o risco da próxima é mais alto, o que torna o início do tratamento do osso uma prioridade. O detalhamento da técnica, dos riscos e da recuperação cabe ao cirurgião que conduzirá o caso, em geral o ortopedista de coluna ou de quadril.

Além da cirurgia, há uma parte importante do cuidado que também acontece fora da clínica de dor. O tratamento medicamentoso do osso (a escolha da classe, a sequência e a duração) e a investigação de causas secundárias são conduzidos por outros especialistas, em conjunto com o clínico ou geriatra. As classes desse tratamento são descritas na seção a seguir.

Nossa clínica

Dor e reabilitação

Cuida da dor da fratura e da reabilitação, reconhece o momento de tratar o osso e de prevenir quedas, e mantém a reabilitação como eixo antes e depois de qualquer procedimento.

Tratamento do osso

Endócrino · Reumato · Gineco

Conduzem a escolha da classe, a sequência e a duração do medicamento e a investigação de causas secundárias, conforme o perfil, em conjunto com o clínico ou geriatra.

Quando há cirurgia

Ortopedia de coluna / quadril

Conduz a indicação cirúrgica da fratura, a técnica, os riscos e a recuperação; nosso papel é encaminhar e retomar a reabilitação.

Tratamento medicamentoso

O tratamento medicamentoso da osteoporose tem um objetivo mensurável: reduzir o risco de fratura, com uma lógica de tratar para uma meta de densidade óssea e de ausência de novas fraturas. Ele se apoia sobre uma base nutricional (cálcio, vitamina D e proteína) e, quando o risco indica, acrescenta um fármaco específico por classe. A escolha da classe, a sequência e a duração são decisão médica, em geral conduzida por endocrinologista, reumatologista ou ginecologista, conforme função renal, comorbidades, via de administração e tolerância.

Cálcio, vitamina D e proteína (a base)

O cálcio é o principal mineral da hidroxiapatita; a vitamina D é necessária para absorvê-lo no intestino e para a função muscular (o que ajuda no equilíbrio). Sem cálcio e vitamina D suficientes instala-se um hiperparatireoidismo secundário que rouba cálcio do osso, e qualquer antirreabsortivo ou anabólico rende menos. A prioridade é obter cálcio pela alimentação; a suplementação entra quando a ingestão é insuficiente ou há deficiência de vitamina D documentada, com dose pelo médico e sem excessos (mais cálcio não é melhor, e doses isoladas muito altas têm benefício duvidoso). A proteína adequada sustenta a matriz óssea e a massa muscular. Limitação: são suporte indispensável, mas sozinhos não tratam a osteoporose estabelecida nem substituem o medicamento quando indicado; servem de alicerce sobre o qual as demais classes atuam.

ModeradaAlicerce

Sobre essa base, quando o risco indica, entra um fármaco específico. A matriz reúne as classes, com mecanismo, via e o cuidado de segurança de cada uma; logo abaixo, duas merecem um detalhamento próprio pelos pontos que mais exigem atenção.

Classes de medicamentos para osteoporose, mecanismo e via (decisão e dose pelo médico)
ClasseMecanismoVia / ritmoEvidênciaObservação de segurança
Bifosfonatos (alendronato, risedronato, zoledrônico, ibandronato)Antirreabsortivo: inibem o osteoclasto (via do mevalonato / farnesil pirofosfato sintase)Oral semanal ou mensal, ou venoso anualForte1ª linha. Oral em jejum, com água, de pé 30 min (risco de esofagite); contraindicado em acalasia, estenose esofágica ou incapacidade de ficar ereto. Cautela quando a função renal está abaixo de 30 a 35 ml/min. Reação de fase aguda após dose venosa. Raros: osteonecrose dos maxilares e fratura atípica do fêmur. Pausa terapêutica (drug holiday) após 3 a 5 anos, reavaliada pelo médico.
DenosumabeAntirreabsortivo: anticorpo anti-RANKL (imita a osteoprotegerina)Subcutâneo a cada 6 mesesForteCorrigir cálcio e vitamina D antes (risco de hipocalcemia). Não atrasar a dose: a suspensão sem substituir provoca rebote com risco de múltiplas fraturas vertebrais; descontinuar sempre seguido de um bifosfonato. Riscos raros de ONJ e fratura atípica.
Teriparatida / abaloparatidaAnabólico: análogo do PTH em dose intermitente (janela anabólica)Subcutâneo diário, até 24 mesesForteReservado a risco muito alto. Contraindicado em alto remodelamento (Paget, irradiação óssea, hipercalcemia); alerta histórico de osteossarcoma (estudos em animais). Consolidar depois com antirreabsortivo.
RomosozumabeAnabólico duplo: anti-esclerostina (libera a via Wnt)Subcutâneo mensal, 12 mesesForteRisco muito alto; superou o alendronato na prevenção em mulheres de risco alto. Alerta cardiovascular: evitar em quem teve infarto ou AVC no último ano. Consolidar depois com antirreabsortivo.
Raloxifeno (SERM)Agonista do estrogênio no osso (reduz reabsorção via RANKL), antagonista na mamaOral diárioModeradaReduz fratura vertebral (efeito menor sobre quadril); reduz o risco de câncer de mama invasivo. Aumenta o risco de tromboembolismo venoso e pode acentuar fogachos; evitado em história de trombose ou imobilização prolongada.

A terapia hormonal da menopausa preserva osso e previne fratura, mas hoje é indicada sobretudo quando há sintomas climatéricos a tratar, e não como primeira escolha apenas para o osso, dada a sua relação de risco e benefício; a decisão é individualizada com o ginecologista.

Denosumabe: o cuidado crítico com a suspensão

O que é e mecanismo
Anticorpo monoclonal que se liga ao RANKL e o neutraliza, imitando a ação natural da osteoprotegerina. Ao bloquear o sinal que ativa e mantém os osteoclastos, suprime fortemente a reabsorção óssea.
Evidência
Forte Reduz fraturas vertebrais, não vertebrais e de quadril, com ganho de densidade que continua subindo ao longo dos anos de uso.
O que esperar
Aplicado por injeção subcutânea a cada 6 meses; ao contrário do bifosfonato, não se acumula no osso, e seu efeito é totalmente dependente de a dose seguinte estar em dia.
Limitações
Pode causar hipocalcemia (a correção prévia de cálcio e vitamina D é obrigatória) e compartilha os riscos raros de osteonecrose dos maxilares e fratura atípica. O ponto que mais exige atenção é a suspensão: interromper o denosumabe sem substituí-lo provoca um efeito rebote, com reabsorção acelerada e risco de múltiplas fraturas vertebrais em poucos meses. Por isso a dose não deve atrasar, e a descontinuação precisa ser sempre seguida de um bifosfonato para “travar” o ganho. Essa transição é uma decisão médica que não admite improviso.

Anabólicos para risco alto: teriparatida e romosozumabe

O que é
Diferente dos antirreabsortivos, que freiam a perda, os anabólicos constroem osso novo e são reservados para risco muito alto, fratura recente, múltiplas fraturas vertebrais ou T-score muito baixo.
Mecanismo
A teriparatida (e a abaloparatida) é um análogo do paratormônio (PTH) que, administrado de forma intermitente em dose diária subcutânea, estimula preferencialmente os osteoblastos, abrindo uma “janela anabólica” em que se forma mais osso do que se reabsorve (efeito oposto ao do excesso contínuo de PTH, que destrói osso). O romosozumabe é um anticorpo que bloqueia a esclerostina, um freio natural da via Wnt nos osteoblastos; ao tirar esse freio, tem efeito duplo, aumenta a formação e reduz a reabsorção, em aplicação mensal por 12 meses.
Evidência
Forte Ambos reduzem fraturas vertebrais de forma marcante, e o romosozumabe mostrou superioridade sobre o alendronato na prevenção de fraturas em mulheres de risco alto.
O que esperar
São tratamentos por tempo limitado (a teriparatida por até 24 meses; o romosozumabe por 12) e, ao final, o ganho precisa ser consolidado com um antirreabsortivo, é a lógica da sequência anabólico seguido de antirreabsortivo, que rende mais osso do que a ordem inversa.
Limitações
A teriparatida é contraindicada em situações de alto remodelamento (doença de Paget, irradiação óssea prévia, hipercalcemia) e carrega um alerta histórico de osteossarcoma derivado de estudos em animais; o romosozumabe traz um alerta de eventos cardiovasculares e não deve ser usado em quem teve infarto ou AVC no último ano.
Síntese de evidênciaEvidência consistente

Os medicamentos para o osso reduzem o risco de fratura

Em pessoas com osteoporose ou risco elevado, os antirreabsortivos (bifosfonatos, denosumabe) e os anabólicos (teriparatida, romosozumabe) têm evidência consistente de redução de fraturas vertebrais e, conforme o fármaco, também de quadril, quando associados a cálcio e vitamina D adequados e ao exercício. A magnitude do benefício depende do risco basal de cada pessoa, e a escolha da classe, a sequência e a duração são individualizadas pelo médico, conforme função renal, comorbidades e tolerância.

Ver referências →

Duas medidas de estilo de vida fecham o tratamento e merecem o mesmo peso que as demais: cessar o tabagismo, que prejudica os osteoblastos e a vascularização óssea e acelera a perda, e moderar o álcool, que interfere na formação óssea e aumenta o risco de quedas. São intervenções sem custo e sem efeito adverso que reduzem o risco de fratura, com peso de tratamento da osteoporose, e merecem ser tratadas como tal, e não como conselho genérico de saúde.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Osteoporose causa dor nas costas?

A osteoporose em si é silenciosa e, por si só, não causa dor nas costas contínua. A dor associada costuma vir de uma fratura vertebral por compressão (que pode ser aguda ou até silenciosa) ou de outra causa musculoesquelética que coexiste. Por isso, dor nas costas em quem tem osteoporose deve ser avaliada, e não simplesmente atribuída à doença.

A osteoporose tem cura?

Não no sentido de desaparecer, mas é uma condição que se controla bem. Com exercício, nutrição adequada do osso, correção de fatores de risco e, quando indicado pelo médico, medicamentos antirreabsortivos ou anabólicos, é possível preservar massa óssea e reduzir de forma importante o risco de fratura. O objetivo do tratamento é justamente evitar a próxima fratura.

Qual a diferença entre bifosfonato, denosumabe e os anabólicos?

Os bifosfonatos e o denosumabe são antirreabsortivos: freiam a perda de osso (o bifosfonato inibindo o osteoclasto, o denosumabe bloqueando o RANKL). Os anabólicos (teriparatida, romosozumabe) constroem osso novo e são reservados para risco muito alto. Em muitos casos, usa-se primeiro o anabólico e depois um antirreabsortivo para consolidar o ganho. A escolha, a sequência e a duração são sempre decisão médica, conforme o risco, a função renal e as comorbidades.

Existe chá ou tratamento natural para osteoporose?

Não há chá que trate a osteoporose ou recupere a densidade óssea. O que tem evidência é o conjunto de exercício, cálcio, vitamina D e proteína adequados, cessação do tabagismo e do álcool, e medicamentos específicos quando indicados pelo médico. Desconfie de qualquer promessa de “cura natural”; cuidar do osso é um plano completo, não um único ingrediente.

Qual a diferença entre osteopenia e osteoporose?

São graus diferentes de perda de massa óssea, medidos pelo T-score na densitometria. A osteopenia (T-score entre -1,0 e -2,5) é uma massa óssea baixa, um estágio anterior, em que a decisão de tratar depende do FRAX e dos fatores de risco. A osteoporose (T-score de -2,5 ou menor, ou na presença de fratura por fragilidade) indica fragilidade maior e costuma exigir tratamento. Veja a página sobre osteopenia.

O cálcio sozinho é suficiente para tratar a osteoporose?

Não. Cálcio e vitamina D são suporte indispensável, mas, isolados, não tratam a osteoporose já estabelecida nem substituem o medicamento quando ele é indicado. Eles compõem a base junto com exercício, proteína adequada e os hábitos saudáveis, sobre a qual o tratamento medicamentoso (quando necessário) é construído, e sem a qual ele rende menos. As doses devem ser definidas pelo médico, sem excessos.

A clínica trata osteoporose?

A clínica atua na parte musculoesquelética e de reabilitação: o manejo da dor da fratura vertebral, o programa de exercício (resistido, de impacto e de equilíbrio) e a prevenção de quedas, dentro de uma abordagem individualizada. A condução medicamentosa da osteoporose e a investigação de causas secundárias são feitas em conjunto com o médico responsável, com encaminhamento quando indicado. O ponto de partida é uma avaliação para definir o que é prioridade no seu caso.

Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências6 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Eastell R, Rosen CJ, Black DM, Cheung AM, Murad MH, Shoback D. Pharmacological Management of Osteoporosis in Postmenopausal Women: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2019;104(5):1595 a 1622. doi:10.1210/jc.2019-00221 acessar
  2. Wells GA, Hsieh SC, Peterson J, et al. Alendronate for the primary and secondary prevention of osteoporotic fractures in postmenopausal women. Cochrane Database Syst Rev. 2025;1(1):CD001155. doi:10.1002/14651858.CD001155.pub3 acessar
  3. Cosman F, Crittenden DB, Adachi JD, et al. Romosozumab Treatment in Postmenopausal Women with Osteoporosis. N Engl J Med. 2016;375(16):1532 a 1543. doi:10.1056/NEJMoa1607948 acessar
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  5. Buchbinder R, Johnston RV, Rischin KJ, et al. Percutaneous vertebroplasty for osteoporotic vertebral compression fracture. Cochrane Database Syst Rev. 2018;4(4):CD006349. doi:10.1002/14651858.CD006349.pub3 acessar
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Atualizado em 4 jun 2026 Leitura 13 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica. A decisão de tratar a osteoporose, a escolha da classe de medicamento, a sequência e a duração dependem do T-score, do risco de fratura pelo FRAX, da função renal e das comorbidades de cada pessoa, e por isso são sempre individualizadas.

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