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Cefaleia · Guia geral

Dor de cabeça: por que dói, os tipos e quando se preocupar

A dor de cabeça é uma das queixas mais comuns e, na imensa maioria das vezes, benigna.

Resposta direta
  • A dor não vem do parênquima cerebral, que não tem nociceptores, e sim das estruturas sensíveis ao redor: dura-máter e vasos meníngeos, artérias da base, nervos cranianos (sobretudo o trigêmeo) e as raízes cervicais altas (C1 a C3), além de músculos e couro cabeludo. Toda essa aferência converge sobre o complexo trigeminocervical.
  • As cefaleias se dividem em primárias (a dor é a própria doença: enxaqueca, tensional, em salvas) e secundárias (a dor é sintoma de outra causa). Mais de 90% das que chegam à consulta são primárias e benignas.
  • O que define o tipo é o conjunto localização · duração · qualidade · sintomas associados, e não a intensidade isolada. A primeira pergunta clínica, porém, nunca é “que tipo é”, e sim “há sinal de alerta?”.
  • Um grupo pequeno de sinais de alerta é o que decide quando vale pedir exames de imagem. Na ausência deles, o diagnóstico é clínico e a tomografia ou ressonância raramente é necessária.
  • O tratamento começa pelo diagnóstico do tipo e segue um plano multimodal e não-cirúrgico: remédios para a crise e para a prevenção, cuidado para não exagerar nos analgésicos (que podem virar causa da dor) e técnicas para os componentes muscular e cervical.
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40+ anos · HC-FMUSP · USP · 30 salas · 1.500 m² · Fisioterapia e Pilates individual

Avaliação clínica

Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.

Por que a cabeça dói

Ilustração editorial de uma pessoa pressionando as têmporas com as mãos, com um brilho em terracota sugerindo a dor de cabeça.
A dor de cabeça tem muitas causas; reconhecer o padrão é o primeiro passo para tratar bem.

Pode parecer estranho, mas o cérebro em si não dói. O parênquima cerebral não possui receptores de dor (nociceptores). A dor de cabeça nasce das estruturas sensíveis dentro e ao redor do crânio, cuja aferência é transmitida sobretudo pelo nervo trigêmeo e pelas raízes cervicais altas.

As estruturas que de fato doem incluem a dura-máter e os seios venosos, as artérias meníngeas e da base do crânio, os nervos cranianos sensitivos (em primeiro lugar o trigêmeo, pelo seu ramo oftálmico V1, mais os pares glossofaríngeo e vago) e as raízes cervicais C1 a C3, além dos músculos, tendões e fáscia pericranianos e do couro cabeludo. Quando qualquer uma dessas estruturas é distendida, comprimida, inflamada ou mantida em tensão, o sinal converge para um mesmo relé, o complexo trigeminocervical no tronco encefálico e na medula cervical alta, e o cérebro o interpreta como dor referida à cabeça.

Essa convergência tem base anatômica precisa: as fibras nociceptivas do trigêmeo e as das raízes C1 a C3 fazem sinapse em neurônios de segunda ordem compartilhados no núcleo trigeminocervical. É por isso que uma dor que nasce nas facetas C2 a C3 ou na musculatura suboccipital pode ser “sentida” na fronte ou ao redor do olho, e por que a localização da dor, sozinha, raramente define a causa. Na enxaqueca, o protagonista é o sistema trigeminovascular: a ativação de terminações perivasculares libera neuropeptídeos como o CGRP (peptídeo relacionado ao gene da calcitonina) e a substância P, gerando inflamação neurogênica e dor pulsátil. Nas cefaleias trigêmino-autonômicas (como a em salvas), soma-se o reflexo trigêmino-parassimpático, que explica o olho vermelho, o lacrimejamento e o nariz entupido do lado da dor.

Outro conceito central é a sensibilização. A repetição da dor pode tornar o sistema nervoso hiperresponsivo: a sensibilização periférica baixa o limiar das terminações nociceptivas, e a sensibilização central facilita a transmissão no corno dorsal e reduz a modulação inibitória descendente (vias da substância cinzenta periaquedutal e do bulbo rostroventromedial). Clinicamente, isso aparece como alodínia cutânea (o couro cabeludo dói ao pentear, os óculos incomodam) e ajuda a entender por que uma cefaleia episódica pode se tornar quase diária. Por isso o tratamento da dor crônica olha para além do gatilho imediato, considerando sono, estresse e, sobretudo, o uso de medicação abortiva.

~50%
dos adultos têm pelo menos uma cefaleia ao longo de um ano
90%+
das dores de cabeça na consulta são primárias e benignas
1ª
a enxaqueca é a principal causa de incapacidade entre adultos jovens
0
nociceptores no parênquima cerebral: ele não dói por si só
Dr. Marcus Pai realizando acupuntura craniana em paciente deitada na maca da clínica
Atendimento na clínica Acupuntura craniana em atendimento na clínica

Duas grandes famílias: primárias e secundárias

Toda a área se organiza a partir de uma divisão simples e prática: separar as dores em que a cefaleia é a própria doença daquelas em que ela é o sintoma de outro problema, cada uma com seus critérios de diagnóstico. Entender essa divisão é o que orienta a primeira pergunta de qualquer avaliação.

Primárias · a dor é a doença

Enxaqueca, tensional, trigêmino-autonômicas, neuralgia do trigêmeo

Não há lesão estrutural por trás: o próprio sistema que processa a dor é o protagonista (ativação trigeminovascular e liberação de CGRP na enxaqueca, sensibilização miofascial e pericraniana na tensional, descarga trigêmino-autonômica nas TACs). Respondem pela imensa maioria das consultas, podem ser muito incapacitantes e são diagnosticadas pelo padrão clínico, sem necessidade de neuroimagem na ausência de sinal de alerta.

Secundárias · a dor é sintoma

Cervicogênica, por uso de medicação, sinusal, pós-traumática, vascular

A dor reflete outra causa identificável, da coluna cervical alta ao uso excessivo de analgésicos. A maior parte também é benigna e tratável pela causa, mas é neste grupo que moram os quadros que não podem esperar, e por isso a busca por sinais de alarme vem sempre primeiro.

Vale uma observação que evita muita confusão: ter mais de um tipo ao mesmo tempo é a regra, não a exceção. Quem tem enxaqueca pode também ter cefaleia tensional nos dias de estresse, e quem trata mal as crises pode desenvolver cefaleia por uso excessivo de medicação, sobreposta ao quadro de base. Identificar o tipo predominante, em vez de tratar isoladamente a dor do dia, é o que permite montar um tratamento que funcione.

Esse raciocínio também calibra a expectativa, e o limiar de cronificação é o mesmo nos quadros primários: a partir de 15 ou mais dias de dor por mês (na enxaqueca, 8 ou mais com características de enxaqueca), a cefaleia é considerada crônica. Nas cefaleias primárias, a meta é controlar a frequência e a intensidade das crises e devolver função, porque não há uma lesão a corrigir. Nas secundárias benignas, tratar a causa (a disfunção cervical, o uso excessivo de remédio, a rinossinusite) costuma resolver a dor. E nas raras secundárias perigosas, o objetivo muda completamente: reconhecer cedo e agir rápido, o que nos leva diretamente aos sinais de alerta.

Por que o tipo de cefaleia vem antes do remédio

“Dor de cabeça” não é uma doença, é um sintoma com mais de uma centena de causas catalogadas. A pergunta que muda o desfecho é qual tipo de cefaleia a pessoa tem, porque o mesmo analgésico que ajuda na crise rara de tensional, tomado com a frequência de uma enxaqueca mal controlada, vira a causa de uma terceira dor: a cefaleia por uso excessivo de medicação. Escolher o tratamento antes de fechar o tipo é tratar o nome da queixa, não o mecanismo. A triagem vem primeiro: separar as famílias, descartar os sinais de alerta e só então apontar a página do tipo.

A tabela: cada tipo e a sua pista

A forma mais rápida de se localizar é comparar os principais tipos lado a lado. A tabela reúne os quadros mais frequentes, a característica típica da dor e a pista que mais ajuda a reconhecê-los. Use-a como ponto de partida, e não como diagnóstico: o padrão completo e o exame é que confirmam, e o aprofundamento de cada tipo, com os critérios de diagnóstico e os subtipos, está na página dedicada.

Principais tipos de dor de cabeça por característica e pista de reconhecimento
TipoFamíliaCaracterística da dorPista que ajuda a reconhecer
EnxaquecaPrimáriaPulsátil, moderada a forte, em geral de um lado, piora com esforçoNáusea, foto e fonofobia; pode ter aura visual ou sensitiva de 5 a 60 min antes; crises de 4 a 72 horas
TensionalPrimáriaEm aperto ou peso, não pulsátil, leve a moderada, dos dois ladosSensação de faixa ou capacete; não piora com esforço e sem náusea importante
Em salvasPrimáriaExcruciante, estritamente de um lado, periorbitáriaOlho vermelho e lacrimejante, nariz entupido, ptose/miose do lado da dor; inquietação; crises de 15 a 180 min em séries
Neuralgia do trigêmeoPrimáriaChoques fulminantes na face (território V2/V3), de um ladoDisparada por tocar o rosto, mastigar, falar ou escovar os dentes; cada choque dura de uma fração de segundo a 2 min
CervicogênicaSecundáriaDor que sobe da nuca para a cabeça, de um lado fixoComeça no pescoço e é reproduzida pela postura e pelo movimento cervical; mobilidade cervical reduzida
Por uso de medicaçãoSecundáriaQuase diária, difusa, bilateral, presente ao acordarUso de abortivo em muitos dias do mês; alivia pouco e logo volta (limiares por classe na seção «Caminho de tratamento»)
Sinusal (rinossinusite)SecundáriaPeso e pressão na face, fronte ou maçãs do rostoCongestão, secreção purulenta e febre durante um quadro infeccioso; piora ao abaixar a cabeça
Pós-traumáticaSecundáriaVariável, muitas vezes parecida com tensional ou enxaquecaSurge dentro de 7 dias após trauma na cabeça ou no pescoço

Repare em três detalhes que costumam decidir a classificação: a náusea e a fotofobia apontam para enxaqueca; a sensação de aperto bilateral sem piora ao esforço sugere tensional; e a dor que nasce no pescoço e é reproduzida pelo movimento cervical leva à hipótese cervicogênica. Para ver os tipos um a um, com os critérios e os subtipos, o guia dos tipos de dor de cabeça aprofunda cada quadro.

Pérola clínica

Muita gente chama de “dor sinusal” o que, na prática, é enxaqueca com sintomas autonômicos faciais: lacrimejamento e congestão são mediados pelo mesmo reflexo trigêmino-parassimpático que opera nas crises. Fora de um quadro infeccioso claro, com febre e secreção purulenta, a dor de cabeça recorrente “na testa e nas maçãs do rosto” costuma ser enxaqueca, e tratá-la repetidamente como sinusite atrasa o diagnóstico correto e favorece o uso excessivo de medicação.

Quando a dor de cabeça é sinal de alerta

A imensa maioria das cefaleias é benigna, mas um pequeno grupo de sinais indica que a avaliação não pode esperar. Esses sinais formam uma lista de verificação aplicada em toda primeira consulta de cefaleia. Cada um aponta para uma categoria de causa e, sobretudo, muda a conduta: é o que define quando a neuroimagem, a punção lombar ou os exames de laboratório deixam de ser dispensáveis e passam a alterar o desfecho. A tabela reúne os principais.

Cada sinal de alerta, a causa que ele levanta e o que muda na conduta
Sinal de alertaCausa que levantaO que muda na conduta
Sintomas sistêmicos (febre, perda de peso)Infecção (meningite, encefalite), neoplasia, doença sistêmicaNeuroimagem e, conforme o quadro, punção lombar e provas inflamatórias
Antecedente de câncer (neoplasia)Metástase ou lesão expansiva do sistema nervoso centralRessonância de crânio com contraste
Déficit neurológico (incluindo alteração da consciência)Lesão estrutural, AVC, encefaliteNeuroimagem urgente; déficit agudo leva ao pronto-atendimento imediato
Início súbito ou em trovoada (auge em menos de 1 min)Hemorragia subaracnóidea, trombose venosa, dissecção arterialTomografia imediata; se normal e suspeita mantida, punção lombar ou angiografia
Início após os 50 anosArterite de células gigantes, lesão expansivaVHS e PCR; se elevadas, iniciar conduta sem aguardar a biópsia da artéria temporal
Padrão que muda ou é progressivoLesão expansiva, hipertensão intracranianaNeuroimagem; reavaliar diagnóstico e cronologia
Papiledema (inchaço no fundo do olho)Hipertensão intracraniana (lesão expansiva, hipertensão intracraniana idiopática, trombose venosa)Neuroimagem e, se normal, punção lombar com medida da pressão de abertura
Ligada à posição ou ao esforço (tosse, Valsalva)Anormalidade craniocervical, lesão de fossa posterior, hipotensão ou hipertensão liquóricaRessonância dirigida; postura/Valsalva orientam a hipótese
Gravidez ou pós-partoPré-eclâmpsia, trombose venosa cerebral, apoplexia hipofisáriaAferir pressão arterial, neuroimagem segura na gestação, avaliação obstétrica
Pós-trauma, imunossupressão (HIV) ou uso de analgésico em excessoHematoma, infecção oportunista, cefaleia por uso excessivo de medicaçãoNeuroimagem nos dois primeiros; revisão do uso de abortivos no terceiro
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Sinais que pedem atendimento imediato

  • Dor explosiva que atinge o auge em segundos, descrita como a pior da vida (cefaleia em trovoada).
  • Qualquer déficit neurológico: fraqueza, dormência, alteração da fala, da visão, da marcha ou da consciência.
  • Febre com rigidez de nuca, fotofobia e prostração.
  • Cefaleia nova após os 50 anos, sobretudo com dor temporal, dor ao mastigar ou alteração visual.
  • Padrão progressivo, que piora ao deitar, ao tossir ou ao esforço, ou que desperta do sono.
  • Cefaleia na gravidez ou no pós-parto, em especial com pressão alta ou inchaço.
  • Dor que se inicia ou piora após trauma recente na cabeça ou no pescoço.

A lógica é direta: na ausência de qualquer um desses sinais, uma cefaleia que preenche critérios de tipo primário pode ser conduzida com calma, sem imagem, identificando o tipo e montando o plano, justamente para evitar achados incidentais que geram preocupação desnecessária. A presença de um item desloca a prioridade para descartar a causa correspondente e define o exame que muda a conduta. Esses achados têm precedência sobre qualquer tentativa de encaixar a dor num tipo benigno.

Mito

“Dor de cabeça muito forte é sempre sinal de algo grave no cérebro.”

Fato

A intensidade isolada não define a gravidade. A enxaqueca e a cefaleia em salvas estão entre as dores mais fortes que existem e são benignas. O que aciona o alerta é o padrão: dor que atinge o auge em segundos, déficit neurológico, papiledema ou febre com rigidez de nuca, e não o quanto dói.

Assista: Dor de cabeça: O que pode ser? Quando me preocupar?

Caminho de tratamento

Afastados os sinais de alarme e identificado o tipo, o tratamento é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. O princípio é tratar a dor certa pelo mecanismo certo: medidas de base (sono, gatilhos, exercício), tratamento agudo (abortivo) com teto de uso para não desencadear a cefaleia por uso excessivo de medicação, profilaxia quando a frequência justifica, e técnicas que atuam no componente miofascial e cervical.

Diagnóstico do tipo e dos gatilhos

História, exame e um diário de cefaleia definem o tipo predominante, a frequência e os gatilhos. Escalas validadas medem a intensidade e o impacto na rotina.

Tratamento agudo com teto de uso

Abortivo adequado ao tipo (anti-inflamatório, triptano), tomado cedo na crise, com limite de dias por mês para não cronificar a dor.

Profilaxia quando a frequência justifica

Em quadros frequentes ou incapacitantes, medicação profilática de princípio ativo definido pelo médico, com titulação progressiva.

Técnicas em clínica e procedimentos dirigidos

Acupuntura, agulhamento seco e infiltração para os componentes miofascial e cervical; bloqueio occipital e toxina botulínica pelo protocolo PREEMPT em casos selecionados.

Princípios do tratamento agudo da crise

O tratamento agudo, ou abortivo, visa cortar a crise instalada, e quanto mais cedo e adequado, melhor o resultado.

O que é
Medicação tomada no início da crise para interrompê-la: analgésicos simples e anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) para crises leves a moderadas, e triptanos para a crise de enxaqueca de moderada a forte. Antieméticos (como a metoclopramida) ajudam na náusea e na absorção.
Mecanismo
Os anti-inflamatórios inibem a ciclo-oxigenase e reduzem a inflamação neurogênica perivascular. Os triptanos são agonistas dos receptores 5-HT1B/1D: promovem vasoconstrição craniana e, sobretudo, inibem a liberação de neuropeptídeos (CGRP) nas terminações trigeminais. Os gepants (antagonistas do receptor de CGRP) atuam na mesma via sem o efeito vasoconstritor.
O que esperar
Quando bem indicado, o abortivo costuma reduzir a dor em 1 a 2 horas. Tomar tarde, esperar a dor “passar sozinha”, reduz a eficácia e favorece a recorrência no mesmo dia.
Indicações
Toda crise; o tipo de abortivo é calibrado pela intensidade e pelo tipo de cefaleia. A cefaleia em salvas tem abordagem aguda própria (oxigênio a alto fluxo, triptano injetável ou nasal).
Limitações e cuidados
Os triptanos são contraindicados em doença coronariana, AVC prévio e hipertensão não controlada. O ponto crítico é o teto de uso: o excesso de abortivos é a porta de entrada da cefaleia por uso excessivo de medicação (ver adiante).

Profilaxia e princípios da prevenção

Quando as crises são frequentes, intensas ou pouco responsivas ao abortivo, entra a profilaxia, cujo objetivo é reduzir a frequência e a intensidade, e não abortar a crise do dia.

O que é
Medicação de uso contínuo escolhida por classe e por perfil do paciente: tricíclicos como a amitriptilina (também útil na tensional crônica), o betabloqueador propranolol, o anticonvulsivante topiramato e o bloqueador do receptor de angiotensina candesartana. Os anticorpos monoclonais anti-CGRP são uma opção mais recente para casos selecionados.
Mecanismo
Atuam reduzindo a excitabilidade neuronal e a sensibilização central por vias distintas: modulação monoaminérgica (amitriptilina), redução do tônus simpático (propranolol), estabilização de membrana e modulação glutamatérgica/GABAérgica (topiramato), e bloqueio direto da via do CGRP (anti-CGRP). A escolha pondera comorbidades, pois cada classe tem efeito colateral que pode virar vantagem ou desvantagem.
Evidência
Amitriptilina, propranolol, topiramato e candesartana têm evidência consistente na profilaxia da enxaqueca; a amitriptilina é a base farmacológica da cefaleia tensional crônica. A magnitude do efeito varia entre pessoas, e o benefício é avaliado ao longo de semanas.
O que esperar
A dose é iniciada baixa e ajustada de forma progressiva, conforme tolerância e resposta; o efeito profilático costuma levar de 4 a 8 semanas para se firmar. Um teste adequado exige tempo e dose suficientes antes de concluir que não funcionou.
Limitações e cuidados
Efeitos comuns por classe: sonolência e boca seca (amitriptilina), fadiga e bradicardia (propranolol, contraindicado na asma), parestesias e perda de peso (topiramato, teratogênico). Toda escolha de princípio ativo, dose e duração cabe ao médico, com atenção a outras condições de saúde.

Cefaleia por uso excessivo de medicação

É uma armadilha tão comum que merece seção própria: o tratamento da crise, quando excessivo, vira causa de dor.

O que é
Cefaleia em 15 ou mais dias por mês, por mais de 3 meses, em quem usa abortivos com frequência. Tipicamente difusa, presente ao acordar, em paciente que já tinha enxaqueca ou tensional de base.
Mecanismo
O uso frequente de abortivos regula para baixo os sistemas de modulação da dor e mantém a sensibilização central, criando um círculo vicioso em que o próprio remédio passa a alimentar a dor.
Limiares por classe
O risco se define por dias de uso por mês, e não por dose: 10 ou mais dias/mês para triptanos, ergóticos, opioides e combinações analgésicas; 15 ou mais dias/mês para analgésicos simples e anti-inflamatórios isolados. Reconhecer o limiar é o que permite agir antes da cronificação.
O que esperar
A conduta é suspender ou reduzir o abortivo, sob orientação, e iniciar profilaxia; pode haver piora transitória da dor antes da melhora. O diário de cefaleia é a ferramenta que flagra o uso excessivo antes que ele se instale.
Limitações e cuidados
A retirada deve ser conduzida pelo médico, em especial quando há opioides ou barbitúricos envolvidos. Não se trata de “aguentar a dor”, e sim de reorganizar o tratamento.

Acupuntura médica e eletroacupuntura

O que é
Inserção de agulhas finas em acupontos e em pontos cervicocranianos (suboccipitais, trapézio, região periauricular) por médico habilitado em acupuntura; na eletroacupuntura, uma corrente de baixa frequência (2 a 10 Hz) conecta pares de agulhas para sustentar o estímulo durante a sessão.
Mecanismo
Modula a dor por mecanismos segmentares no corno dorsal (teoria da comporta), ativa vias inibitórias descendentes (substância cinzenta periaquedutal e bulbo rostroventromedial) e mobiliza opioides endógenos; a baixa frequência tende a recrutar mais esses sistemas. A correspondência entre a descrição tradicional dos meridianos e a neurofisiologia contemporânea é objeto de estudo.
Evidência
Há evidência de benefício na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, com revisões sistemáticas favoráveis (incluindo a base Cochrane) e recomendação por diretrizes em contextos selecionados, com a vantagem de reduzir a necessidade de medicação.
O que esperar
Na cefaleia, o efeito profilático aparece de forma cumulativa: costuma-se reavaliar a frequência das crises após um bloco de sessões semanais, comparando o número de dias com dor no mês anterior e no mês de tratamento pelo diário de cefaleia. O ganho não se mede pela dor de um dia, e sim pela queda na frequência mensal ao longo de semanas.
Indicações e limitações
Útil na profilaxia da enxaqueca e da cefaleia tensional, sobretudo quando se busca reduzir a polifarmácia, na gestante (em que muitos profiláticos são contraindicados) e em quem já tem cefaleia por uso excessivo de medicação e precisa de uma alternativa não medicamentosa durante a retirada do abortivo. Efeitos são leves (desconforto ou pequena equimose no local); pede cautela em pessoas anticoaguladas e não dispensa as medidas de base. Funciona como peça de um plano, não como recurso isolado.

Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho

O que é
Agulha inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial pericraniano e cervical, sem injeção de substância (agulhamento seco) ou com anestésico local (infiltração).
Mecanismo
Nos músculos cuja dor referida desenha o padrão da cefaleia, a agulha desfaz a banda tensa do ponto-gatilho e reduz a atividade elétrica espontânea da placa motora, cortando a aferência que converge sobre o complexo trigeminocervical. A topografia importa: o trapézio superior e o esternocleidomastóideo referem dor para a têmpora e a região retroorbitária, e os suboccipitais para a nuca e a fronte, justamente os territórios da tensional e da cervicogênica. Quando o ponto resiste, o anestésico local quebra o ciclo dor-espasmo-dor.
O que esperar
Quando o componente miofascial é dominante, costuma haver alívio da dor referida já na própria sessão, ao reproduzir e desfazer o ponto-gatilho, seguido de um período de sensibilidade local por um a dois dias. O alvo prático é encurtar e espaçar as crises de fundo tensional ou cervicogênico, em poucas sessões guiadas pela resposta no diário.
Indicações e limitações
Indicado no componente miofascial, sobretudo na tensional e na cervicogênica. Efeitos são dor local transitória e equimose; cautela em anticoagulados. É parte de um plano que inclui exercício.

Bloqueio do nervo occipital

O que é
Injeção de anestésico local, às vezes com corticoide, ao redor do nervo occipital maior, na nuca.
Mecanismo
Interrompe temporariamente a condução nociceptiva e, pela convergência cervicotrigeminal, reduz a aferência que alimenta o complexo trigeminocervical, quebrando o ciclo de dor.
O que esperar
Alívio que pode durar de dias a semanas, abrindo uma janela para avançar a reabilitação cervical.
Indicações e limitações
Útil na cefaleia cervicogênica e na neuralgia occipital, e às vezes como recurso em séries de enxaqueca ou em salvas. É um procedimento pontual, de efeito temporário.

Toxina botulínica na enxaqueca crônica

O que é
Injeção de toxina botulínica tipo A em pontos pericranianos e cervicais padronizados, reservada a quadros selecionados, sobretudo a enxaqueca crônica (15 ou mais dias de dor por mês).
Mecanismo
Bloqueia a liberação de acetilcolina na junção neuromuscular e reduz a liberação periférica de neuropeptídeos nociceptivos, como o CGRP e a substância P, com efeito antinociceptivo que vai além do relaxamento muscular.
Evidência
Indicação consolidada na enxaqueca crônica pelo protocolo PREEMPT. Não é primeira linha para a enxaqueca episódica nem para a cefaleia tensional comum.
O que esperar
Começa a agir em 2 a 4 semanas e dura cerca de três a quatro meses, com benefício cumulativo entre ciclos.
Limitações e cuidados
Efeitos possíveis são dor no local e fraqueza muscular transitória. É um recurso para casos refratários, integrado ao restante do plano.
Semana 1 a 2

Diagnóstico e controle inicial

Definir o tipo, iniciar o diário de cefaleia, ajustar gatilhos e organizar o uso de abortivos dentro do teto de dias por mês.

Semana 3 a 8

Profilaxia e técnicas em clínica

Profilaxia quando indicada, com titulação, e técnicas para o componente miofascial e cervical; a frequência das crises costuma começar a ceder.

Após 8 a 12 semanas

Reavaliação

Sem a resposta esperada, revê-se o diagnóstico e a estratégia, em vez de apenas repetir o que não funcionou.

Na cefaleia, o acompanhamento se mede por três números: a frequência mensal das crises, a intensidade de 0 a 10 e o impacto na rotina por escalas de impacto. Se essas medidas não cedem no prazo esperado, a conduta é voltar ao diagnóstico, conferir se o profilático teve dose e tempo suficientes, descartar uso excessivo de abortivo silencioso e só então trocar de estratégia, em vez de prolongar um tratamento que já se mostrou insuficiente. Nas cefaleias primárias, a meta é reduzir a frequência e a intensidade a um nível que não limite a vida, e nem sempre zerar a dor por completo.

Da prática clínica

Algumas observações recorrentes do consultório:

O detalhe que mais muda a conduta é o calendário, não a descrição da dor. Quando a pessoa chega com “dor de cabeça quase todo dia”, a primeira coisa que reorganiza o caso costuma ser contar os dias de analgésico no mês: é frequente descobrir uma cefaleia por uso excessivo de medicação escondida sobre uma enxaqueca de base, e nesse cenário aumentar a dose do abortivo só piora. Um diário de duas a quatro semanas vale mais que qualquer adjetivo sobre a dor.

O erro mais comum dos pacientes é tratar enxaqueca como sinusite. Anos de “rinite e sinusite” para uma dor recorrente na testa e nas maçãs do rosto, com lacrimejamento e nariz fechado do lado da dor, costumam ser, na verdade, enxaqueca com sintomas autonômicos faciais; tratar como infecção atrasa o diagnóstico e alimenta o uso excessivo de analgésico. O segundo erro é esperar a dor “passar sozinha” antes de medicar, o que reduz a eficácia do abortivo.

A intensidade impressiona, mas raramente é o que liga o alerta. As dores mais fortes que existem (enxaqueca e cefaleia em salvas) são benignas; o que de fato preocupa é o padrão, o início explosivo em segundos, a dor nova depois dos 50 anos, o quadro progressivo que piora ao deitar ou tossir, a febre com rigidez de nuca. É esse perfil, e não o “quanto dói”, que muda a página de uma triagem tranquila para um pronto-socorro.

O que mais surpreende quem chega é descobrir que o pescoço dá dor de cabeça e que tratar o componente cervical e miofascial reduz crises que pareciam puramente “de cabeça”. Para o paciente que vinha apenas trocando de comprimido, ver a frequência cair com agulhamento, reabilitação cervical e ajuste do uso de abortivo costuma ser a virada de chave do tratamento.

Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia

Boa parte das cefaleias tem um componente cervical e miofascial que responde ao movimento: a tensional e, por definição, a cervicogênica nascem ou se sustentam na musculatura suboccipital, no trapézio superior, nos escalenos e nas facetas C2 a C3, e a enxaqueca frequentemente convive com disfunção cervical que amplifica as crises. Sobre esse componente atua a reabilitação ativa, conduzida na clínica de forma individual, um paciente por sala. RPG, Pilates clínico, cinesioterapia e terapia manual somam-se ao tratamento medicamentoso e, ao reduzir a aferência nociceptiva que alimenta o complexo trigeminocervical, ajudam a diminuir a frequência das crises e a dependência de analgésicos.

A lógica é comum a todas: a dor crônica vem acompanhada de controle motor cervical deficiente, com perda de ativação dos flexores profundos do pescoço (reto anterior e longo do colo), sobrecarga dos extensores superficiais e pontos-gatilho ativos na cintura escapular. O objetivo vai além de relaxar a musculatura: busca reeducar o controle e a resistência da coluna cervical e da cintura escapular, dessensibilizar o movimento e corrigir os fatores posturais e ergonômicos que perpetuam a tensão. A base de evidência mais consistente está na cefaleia cervicogênica e na tensional; na enxaqueca, o exercício atua sobre os gatilhos e as comorbidades, não sobre o mecanismo trigeminovascular em si.

Cinesioterapia e controle motor cervical

Reabilitação ativa com exercícios individualizados centrados nos flexores profundos do pescoço (flexão craniocervical), na estabilização escapulotorácica e no fortalecimento progressivo dos extensores cervicais. Reativa o suporte segmentar da coluna cervical alta, alivia as facetas e os suboccipitais e reduz a aferência que converge sobre o núcleo trigeminocervical. Programa diário de baixa carga, para manter — não para a crise; o resultado depende da continuidade.

ModeradaCervicogênica · tensional

Reeducação postural global (RPG)

Trabalha o corpo por cadeias musculares, com posturas de alongamento ativo mantidas e progressivas (contração isométrica de caráter excêntrico). Reduz o encurtamento das cadeias posteriores que sobrecarregam a cervical, normaliza o tônus dos suboccipitais e do trapézio superior e devolve consciência postural. Sessões individuais semanais; posturas mantidas em excesso podem incomodar no início, o que se ajusta com a dose.

LimitadaRigidez · postura anteriorizada

Pilates clínico

Exercício terapêutico de baixo impacto centrado em controle motor e estabilização, adaptado ao quadro de dor. Recruta os músculos profundos do tronco e do pescoço, coordena respiração e movimento e estabiliza a cintura escapular e a coluna cervical, reduzindo a sobrecarga sobre as estruturas sensibilizadas. Ciclos regulares com progressão de carga; cargas avançadas cedo demais provocam piora e abandono.

LimitadaForça · mobilidade · controle

Terapia manual (adjuvante)

Mobilização articular cervical e torácica alta, liberação miofascial dos suboccipitais e do trapézio e alongamento manual. Alivia o componente miofascial e a banda tensa, ganha mobilidade temporária e modula a dor de forma segmentar, abrindo uma janela para avançar o exercício ativo. Efeito passageiro se não vier acompanhada de reabilitação; manipulações cervicais de alta velocidade exigem triagem cuidadosa de contraindicações.

LimitadaCurto prazo · com exercício

A evidência é mais forte quando o treino cervical específico é combinado com terapia manual, e não quando cada recurso é usado isolado. O quadro abaixo calibra a força de cada peça neste componente da cefaleia.

Exercício cervical + terapia manual (cervicogênica)
Moderada
Cinesioterapia e controle motor
Moderada
RPG / Pilates clínico (componente postural)
Limitada
Terapia manual isolada
Limitada

O fio condutor é claro: na cefaleia de componente cervical, o movimento supervisionado e graduado é tratamento, e a melhor reabilitação é a que o paciente consegue manter. A escolha e a combinação entre cinesioterapia, RPG e Pilates dependem do perfil, da preferência e da tolerância de cada pessoa, e costumam caminhar junto com as técnicas em clínica descritas na seção «Caminho de tratamento».

Tratamento cirúrgico e opções fora da clínica

A cirurgia não faz parte do tratamento da dor de cabeça comum; em situações específicas, é conduzida por outros especialistas fora da nossa clínica. Delimitar isso evita procedimentos desnecessários e garante que os quadros que realmente precisam de cirurgia ou de cuidado especializado cheguem rápido a quem os trata.

Conservador · 1ª escolha na imensa maioria

Cefaleias primárias (enxaqueca, tensional, em salvas)

  • A dor nasce de uma disfunção do próprio sistema que a processa (eixo trigeminovascular e sensibilização central); não há lesão estrutural a operar.
  • O caminho que muda o curso é clínico e multimodal: profilaxia, técnicas dirigidas e, na enxaqueca crônica selecionada, toxina botulínica pelo protocolo PREEMPT (a seção «Caminho de tratamento»).
  • As “cirurgias de desativação de gatilhos” da enxaqueca não têm sustentação na literatura como rotina e expõem a risco sem benefício comprovado.
VS

Cirúrgico · exceção, fora da clínica

Cefaleias secundárias a causa estrutural

  • Entra quando a cefaleia é secundária a uma causa identificada pela investigação dos sinais de alerta («sinais de alerta»).
  • Não se “opera a dor de cabeça”: opera-se a doença que a provoca, por neurocirurgia ou pela especialidade correspondente.
  • Essas opções não são realizadas aqui; são parte do mapa de cuidado, conduzidas pela especialidade correspondente.
Cuidado cirúrgico e especializado fora da clínica: quando considerar
Quando considerarConduta / especialistaO que esperar
Cefaleia em trovoada com hemorragia subaracnóidea por aneurisma rotoNeurocirurgia / neurorradiologia intervencionistaClipagem cirúrgica ou embolização endovascular do aneurisma em caráter de urgência; trata a causa, não a dor
Lesão expansiva intracraniana (tumor, abscesso) com cefaleia progressiva ou déficit (sinais N e P)Neurocirurgia / neuro-oncologiaRessecção ou biópsia conforme o caso, integradas ao tratamento oncológico; a cefaleia melhora ao tratar a lesão
Hipertensão intracraniana idiopática ou hidrocefalia com papiledema refratário (sinal P)Neurocirurgia / neurologiaPerda de peso e acetazolamida de início; derivação liquórica ou fenestração da bainha do nervo óptico se houver ameaça à visão
Arterite de células gigantes (cefaleia nova após os 50 anos, sinal O)Reumatologia / neurologiaCorticoterapia imediata para proteger a visão, sem aguardar a biópsia da artéria temporal; é urgência clínica, não cirúrgica
Neuralgia do trigêmeo refratária ao tratamento medicamentoso, por conflito neurovascularNeurocirurgiaDescompressão microvascular ou procedimentos percutâneos no gânglio de Gasser em casos selecionados, após falha dos fármacos
Cefaleia em salvas crônica e refratária a todo o arsenal clínicoNeurologia / centro de cefaleiaRecursos avançados como estimulação do nervo occipital ou do gânglio esfenopalatino, restritos a serviços especializados e à pesquisa
Enxaqueca crônica refratária à profilaxia oral e à toxina botulínicaNeurologia / centro de cefaleiaAnticorpos monoclonais anti-CGRP, manejo especializado (não cirúrgico), articulado com o tratamento de base
Depressão, ansiedade ou transtorno do sono que agravam a cefaleia crônicaPsiquiatria / psicologiaOtimização de psicofármacos e terapia cognitivo-comportamental; humor, sono e dor partilham circuitos e se influenciam

Vale uma palavra sobre o que não entra nessa lista. Fora da neuralgia do trigêmeo, em que a descompressão microvascular tem indicação consagrada em casos selecionados, não há cirurgia “para curar enxaqueca” ou “para acabar com a dor de cabeça” sustentada pela evidência. As terapias de neuromodulação invasiva (estimulação occipital, do gânglio esfenopalatino) ficam restritas a quadros refratários graves, em centros especializados, e os anticorpos anti-CGRP são um tratamento clínico conduzido pelo neurologista, não um procedimento. O caminho que controla a imensa maioria das cefaleias continua sendo o cuidado multimodal e não-cirúrgico, com o encaminhamento reservado para o que cada especialidade faz melhor.

Tratamento medicamentoso

O tratamento medicamentoso da cefaleia se organiza em dois eixos: o agudo (abortivo), para cortar a crise instalada, e o profilático, de uso contínuo, para reduzir a frequência quando as crises são muitas. A regra que atravessa os dois é o teto de uso do abortivo, para não desencadear a cefaleia por uso excessivo de medicação, detalhada na seção «Caminho de tratamento».

Classes medicamentosas na cefaleia: para quê, evidência e o que esperar
ClasseEixo / para quêEvidênciaO que esperar e cuidados
Analgésicos simples e anti-inflamatórios (dipirona, paracetamol, ibuprofeno, naproxeno, cetoprofeno)Agudo · crises leves a moderadas, tomados cedo na criseModeradaAlívio em 1–2 h. Teto: 15+ dias/mês (ou combinações em 10+) levam à cefaleia por uso excessivo; atenção a risco gastrointestinal, renal e cardiovascular.
Triptanos (sumatriptano, naratriptano, zolmitriptano, rizatriptano)Agudo · abortivo específico da enxaqueca moderada a forteForteReduzem a dor em 1–2 h se tomados cedo. Contraindicados em doença coronariana, AVC/AIT prévio, hipertensão não controlada e arteriopatia. Teto: 10+ dias/mês.
Amitriptilina (tricíclico)Profilático · base da tensional crônica; opção na enxaquecaForteDose baixa à noite, efeito em 4–8 sem; ajuda no sono. Vigiar boca seca, sonolência, constipação, ganho de peso; cautela em idosos e condução cardíaca.
Propranolol (betabloqueador)Profilático · enxaqueca, útil se há hipertensão ou ansiedadeForteVigiar fadiga, bradicardia, hipotensão, broncoespasmo; contraindicado na asma, cautela no diabético. Metoprolol é alternativa da classe.
Topiramato (anticonvulsivante)Profilático · enxaqueca, inclusive crônica; útil se deseja perda de pesoForteVigiar parestesias, lentificação cognitiva, perda de peso, litíase renal; teratogênico e reduz a eficácia de contraceptivos orais.
Candesartana (bloqueador do receptor de angiotensina)Profilático · alternativa, ou quando há hipertensãoModeradaBom perfil de tolerância. Efeito profilático avaliado ao longo de semanas.
Anticorpos anti-CGRP e gepants (erenumabe, galcanezumabe, fremanezumabe)Manejo especializado · enxaqueca de difícil controle, via neurologistaModeradaAtuam na via do CGRP sem o efeito vasoconstritor dos triptanos. Reservados a quem não respondeu às profilaxias orais; não substituem as medidas de base.

Triptanos, o abortivo específico da enxaqueca

O que é
Agonistas seletivos dos receptores 5-HT1B/1D, o abortivo específico da crise de enxaqueca de moderada a forte, ou quando os analgésicos simples não bastam. Incluem o sumatriptano, o naratriptano, o zolmitriptano e o rizatriptano, em diferentes vias e tempos de ação.
Mecanismo
Promovem vasoconstrição craniana e, sobretudo, inibem a liberação de neuropeptídeos (CGRP) nas terminações trigeminais, interrompendo a cascata da crise.
O que esperar
Quando tomados cedo, costumam reduzir a dor em 1 a 2 horas; tomar tarde reduz a eficácia. A cefaleia em salvas tem abordagem aguda própria, com oxigênio a alto fluxo e triptano injetável ou nasal.
Indicações
Crise de enxaqueca de moderada a forte; recurso agudo na cefaleia em salvas pelas vias injetável e nasal.
Limitações
Contraindicados em doença coronariana, AVC ou ataque isquêmico transitório prévio, hipertensão não controlada e arteriopatia periférica, pelo efeito vasoconstritor. Também entram no teto de uso: 10 ou mais dias por mês favorecem a cronificação.

Profiláticos de base: amitriptilina, propranolol, topiramato

Quando usar
A profilaxia entra quando as crises são frequentes, intensas ou pouco responsivas ao abortivo; o objetivo é reduzir frequência e intensidade, não cortar a crise do dia. A dose começa baixa e é titulada, e o efeito leva de 4 a 8 semanas para se firmar.
Amitriptilina
Tricíclico em dose baixa, à noite. Modula vias monoaminérgicas e reduz a sensibilização central; é a base da cefaleia tensional crônica e opção consolidada na enxaqueca, com a vantagem de ajudar no sono. A nortriptilina é alternativa por vezes mais bem tolerada.
Propranolol
Betabloqueador que reduz o tônus simpático e a excitabilidade neuronal; evidência sólida na enxaqueca e boa escolha quando há hipertensão ou ansiedade associadas. O metoprolol é alternativa da mesma classe.
Topiramato
Anticonvulsivante que estabiliza a membrana neuronal e modula a transmissão glutamatérgica e GABAérgica; boa evidência na enxaqueca, inclusive crônica, e útil quando se deseja perda de peso. Há ainda a candesartana como alternativa, com bom perfil de tolerância.
Limitações
Amitriptilina: boca seca, sonolência, constipação, ganho de peso; cautela em idosos e em condução cardíaca. Propranolol: fadiga, bradicardia, hipotensão, broncoespasmo; contraindicado na asma. Topiramato: parestesias, lentificação cognitiva, perda de peso e litíase renal; é teratogênico e reduz a eficácia de contraceptivos orais. Um teste adequado exige tempo e dose suficientes antes de concluir que um profilático não funcionou.

Um lembrete que atravessa toda esta seção: na cefaleia, acertar a classe certa para o tipo certo pesa mais que a dose, e a mesma molécula que ajuda um perfil (sono com a amitriptilina, controle pressórico com o propranolol) atrapalha outro. A escolha do profilático é, na prática, guiada pelas comorbidades. Por isso a escolha, a troca e a retirada de qualquer fármaco cabem exclusivamente ao médico assistente, dentro de um plano individualizado.

A página certa para a sua dor

Este guia é o ponto de partida. Depois de reconhecer o provável tipo da sua dor de cabeça, o melhor caminho é aprofundar na página dedicada, onde mecanismo, gatilhos, exame e tratamento aparecem em detalhe. Use os atalhos abaixo conforme o padrão que mais se parece com o seu.

  • Quer ver todos os tipos lado a lado, com os critérios. O guia dos tipos de dor de cabeça compara as cefaleias primárias e secundárias, com subtipos, critérios e mais pistas.
  • Dor pulsátil, de um lado, com náusea e fotofobia. Veja o guia completo da enxaqueca: o que é, causas e tratamentos, com fases, gatilhos e tratamento agudo e profilático.
  • Aperto ou peso dos dois lados, em faixa, sem náusea. O artigo sobre cefaleia tensional explica o componente miofascial e como tratá-lo.
  • Dor que começa na nuca e sobe para a cabeça, ligada à postura. Esse padrão sugere cefaleia cervicogênica, em que o alvo do tratamento é o pescoço.

Se a sua dor não se encaixa com clareza em nenhum desses padrões, ou se ela é frequente, incapacitante ou já exige analgésico em muitos dias do mês, a avaliação com um médico da dor ou neurologista é o passo mais seguro. E diante de qualquer sinal de alerta da seção «sinais de alerta», a procura por atendimento não deve esperar.

Referência reconhecida em dor

A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).

SBED, Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor SMBTOC, Sociedade Médica Brasileira de Tratamento por Ondas de Choque CMBA, Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura

Perguntas frequentes

Toda dor de cabeça precisa de tomografia ou ressonância?

Não. Nas cefaleias primárias típicas, sem sinais de alerta, o diagnóstico é clínico e a imagem não é necessária. O exame fica reservado para quando há um sinal de alerta ou um padrão atípico, justamente para evitar achados incidentais que geram preocupação desnecessária.

Como sei se é enxaqueca ou cefaleia tensional?

A enxaqueca costuma pulsar, atingir um lado, piorar com esforço e vir com náusea e fotofobia; a tensional aperta os dois lados, é mais leve e não piora ao esforço. Veja o guia da enxaqueca e o da cefaleia tensional para confirmar o padrão.

Dor de cabeça todos os dias é normal?

Não. Dor de cabeça em 15 dias ou mais por mês merece avaliação. Uma causa frequente é o uso excessivo de analgésicos, que cronifica a dor de quem já tinha enxaqueca ou tensional, e tem tratamento próprio (suspender ou reduzir o abortivo e iniciar profilaxia).

O que significa dor de cabeça em “trovoada”?

É uma dor que surge de forma explosiva e atinge o auge em menos de um minuto, descrita como a pior da vida. Esse padrão é um sinal de alerta e exige atendimento imediato em pronto-socorro para afastar hemorragia subaracnóidea, mesmo que melhore sozinho depois.

Minha dor de cabeça começa no pescoço. O que pode ser?

Dor que sobe da nuca para a cabeça, de um lado fixo e ligada à postura, sugere cefaleia cervicogênica. O exame da coluna cervical, que reproduz o sintoma, ajuda a confirmar, e o tratamento mira o pescoço.

Sinto que é sinusite sempre que dói a cabeça. É possível?

Fora de um quadro infeccioso claro, com febre e secreção purulenta, a maior parte da “dor sinusal” recorrente é, na verdade, enxaqueca com sintomas autonômicos no rosto. Tratar como sinusite repetidamente atrasa o diagnóstico e favorece o uso excessivo de medicação.

Tomar remédio para dor de cabeça toda hora faz mal?

Pode fazer. O uso de triptanos, ergóticos ou combinações em 10 ou mais dias por mês, ou de analgésicos simples em 15 ou mais dias por mês, pode desencadear a cefaleia por uso excessivo de medicação, um círculo vicioso em que o próprio remédio passa a alimentar a dor. Por isso o número de dias de uso é monitorado.

Quando devo procurar um especialista?

Quando as crises são frequentes ou incapacitantes, não melhoram com o que você já tentou, exigem analgésico em muitos dias do mês, ou diante de qualquer sinal de alerta da seção «sinais de alerta». Um médico da dor ou neurologista define o tipo e monta o plano.

Evidência científica · resumos da nossa biblioteca

Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.

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Dr. Marcus Yu Bin Pai
Sobre o autor
Dr. Marcus Yu Bin Pai
CRM-SP 158.074RQE 65.523 / 65.524 / 655.241

Médico especialista em Fisiatria e Acupuntura pela Associação Médica Brasileira, com área de atuação em Dor. Doutor em Ciências pela USP e médico colaborador do Grupo de Dor do HC-FMUSP.

Revisão médica e editorial

Conteúdo revisado clinicamente por Prof. Dr. Hong Jin Pai. Tem finalidade educativa e cita fontes.

Referências4 fontes citadas neste artigoVerOcultar
  1. Headache Classification Committee of the International Headache Society. The International Classification of Headache Disorders, 3rd edition. Cephalalgia. 2018;38(1):1-211.
  2. Do TP, et al. Red and orange flags for secondary headaches in clinical practice: SNNOOP10 list. Neurology. 2019;92(3):134-144.
  3. Jull G, et al. A randomized controlled trial of exercise and manipulative therapy for cervicogenic headache. Spine. 2002;27(17):1835-1843.
  4. Ailani J, et al. The American Headache Society Consensus Statement: update on integrating new migraine treatments into clinical practice. Headache. 2021;61(7):1021-1039.
Atualizado em 4 jun 2026 Leitura 14 min

Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual: a mesma dor de cabeça pode ter causas diferentes em duas pessoas, e tanto o diagnóstico do tipo quanto a escolha do tratamento precisam ser individualizados em consulta. Diante de qualquer sinal de alerta da seção «sinais de alerta», procure atendimento sem esperar.

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