Gonartrose e tratamento com fisioterapia
Na gonartrose (artrose do joelho), a fisioterapia e o exercício são a primeira linha, com a evidência mais consistente de toda a artrose, mesmo no grau 3 de Kellgren-Lawrence. Imagem e dor nem sempre andam juntas, e a prótese entra só quando o conservador se esgota.
- Gonartrose é a osteoartrite do joelho. Não é só “desgaste”: é uma falência ativa de toda a articulação, com degradação da cartilagem por enzimas (metaloproteinases), inflamação de baixo grau na sinóvia, remodelamento do osso subcondral (esclerose e osteófitos) e fraqueza do quadríceps. Por isso fortalecer o músculo e modular a carga muda o curso da dor.
- O grau radiográfico de Kellgren-Lawrence (1 a 4) descreve o que aparece na imagem, mas não define sozinho a conduta nem a indicação de prótese. A correlação entre o grau na radiografia e a intensidade da dor é fraca: há joelhos grau 3 com pouca dor e joelhos grau 1 a 2 com dor importante.
- O tratamento é multimodal, individualizado e não-cirúrgico. O núcleo, com a evidência mais forte de toda a artrose, é o exercício terapêutico (fortalecimento de quadríceps e quadril, aeróbico, neuromuscular) somado ao controle de peso. Sobre essa base entram anti-inflamatórios tópicos ou orais em ciclos, infiltração e acupuntura quando indicadas. O ortopedista entra quando o tratamento conservador completo falha.
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Dor tem Tratamento. Foco em tratamentos não cirúrgicos para dor, reabilitação.
O que é gonartrose: a fisiopatologia além do desgaste
Gonartrose é o termo médico para a osteoartrite do joelho. “Gon” vem do grego para joelho e “artrose” remete à degeneração articular. É a forma mais comum de artrose nas articulações que sustentam o peso e uma das principais causas de dor crônica e limitação funcional a partir da meia-idade.
Por décadas a artrose foi descrita como simples “desgaste mecânico”, como se a cartilagem gastasse passivamente com o uso, igual à sola de um sapato. Essa leitura está desatualizada. A osteoartrite é hoje entendida como uma doença ativa de todo o órgão articular: cartilagem, osso subcondral, sinóvia, cápsula, ligamentos e a musculatura que move o joelho participam do processo. O remodelamento é patológico, com componentes mecânico, bioquímico e inflamatório que se retroalimentam, e isso tem consequência prática direta: explica por que intervir na carga, na força muscular e na inflamação modifica a evolução, enquanto apenas “poupar” a articulação tende a piorar o quadro.
No tecido, o evento central é o desequilíbrio do condrócito, a única célula da cartilagem. Sob sobrecarga e sinalização inflamatória, ele deixa de manter a matriz e passa a degradá-la: aumenta a produção de enzimas proteolíticas, sobretudo as metaloproteinases da matriz (MMP-13, MMP-3) e as agrecanases (ADAMTS-4 e ADAMTS-5), que clivam o colágeno tipo II e os proteoglicanos (agrecano) responsáveis por reter água e dar à cartilagem sua capacidade de amortecer. A cartilagem perde proteoglicano, fibrila, amolece (condromalácia) e adelgaça. Citocinas pró-inflamatórias, em especial a interleucina-1 beta (IL-1β) e o fator de necrose tumoral alfa (TNF-α), mantêm esse programa catabólico em marcha.
A doença não para na cartilagem. A membrana sinovial desenvolve uma sinovite de baixo grau, uma inflamação crônica de menor intensidade que a das artrites autoimunes, mas suficiente para liberar mediadores álgicos e enzimas, e que se correlaciona com a dor e com a progressão. No osso logo abaixo da cartilagem, o osso subcondral sofre remodelamento: torna-se mais denso e endurecido (a esclerose subcondral que aparece esbranquiçada na radiografia), surgem cistos subcondrais e lesões da medula óssea (BMLs) visíveis na ressonância, que são uma das fontes mais consistentes de dor.
Nas bordas da articulação, o organismo forma os osteófitos, os populares “bicos de papagaio”, numa tentativa frustrada de estabilizar a articulação. Some-se a tudo isso a fraqueza e a inibição do quadríceps: a dor e o derrame “desligam” reflexamente o músculo (inibição muscular artrogênica), o que reduz a proteção dinâmica da articulação e fecha o ciclo entre fraqueza, sobrecarga e mais dano.
Esse processo raramente tem causa única. Pesam a idade, a carga acumulada sobre a articulação ao longo da vida, o excesso de peso (que soma sobrecarga mecânica a um estado inflamatório sistêmico de baixo grau, com adipocinas como a leptina), lesões prévias de menisco ou de ligamento cruzado anterior (que levam à chamada artrose pós-traumática), o desalinhamento do eixo da perna (varo, que sobrecarrega o compartimento medial, ou valgo, que sobrecarrega o lateral) e a predisposição genética. Por isso a gonartrose costuma vir acompanhada de dor ao subir e descer escadas, rigidez ao levantar pela manhã e ruídos articulares. A relação desses ruídos com o desgaste está detalhada na página sobre crepitações e estalidos no joelho, e o quadro geral no guia de dor no joelho.
Sintomas e o exame físico do joelho
O sintoma central é a dor mecânica: piora com a carga (caminhar distâncias longas, subir e descer escadas, agachar, levantar de cadeira baixa, permanecer de pé) e alivia com o repouso. É típica a rigidez matinal curta, de até cerca de 30 minutos, que afrouxa com o movimento, o que a distingue da rigidez prolongada (uma hora ou mais) das artrites inflamatórias. Com a evolução surgem perda de amplitude, a queixa de que “o joelho falha” (instabilidade, muitas vezes ligada à fraqueza do quadríceps), derrame articular em fases inflamatórias e, em casos avançados, deformidade do eixo. A dor ao descer escadas e a dor anterior ao levantar após ficar sentado (o “sinal do cinema”) apontam para o componente femoropatelar.
O diagnóstico é, antes de tudo, clínico: os critérios do American College of Rheumatology permitem o diagnóstico de gonartrose com base em dor no joelho mais achados clínicos (idade, rigidez breve, crepitação, dor à palpação óssea, aumento ósseo, ausência de calor importante), sem depender da imagem. Um exame físico dirigido vai muito além do genérico “exame do joelho”:
- Inspeção e marcha: alinhamento em varo (pernas “arqueadas”, sobrecarga medial) ou valgo (joelhos “para dentro”, sobrecarga lateral), atrofia visível do quadríceps e padrão antálgico de marcha.
- Derrame articular: o bulge sign (esvaziar a goteira medial e ver o líquido retornar) detecta derrames pequenos; o sinal da tecla patelar (rechaço da patela) indica derrames maiores.
- Amplitude e força: medir flexão e extensão e procurar o déficit de extensão (quadriceps lag), quando a pessoa não estende ativamente o joelho até o fim, sinal de inibição ou fraqueza do quadríceps.
- Palpação e crepitação: dor na interlinha articular medial ou lateral, dor óssea nas bordas (osteófitos) e crepitação femoropatelar à flexoextensão.
- Manobras dirigidas: testar a articulação femoropatelar e diferenciar de causas associadas, como lesão de menisco (dor focal na interlinha, testes meniscais) e dor referida do quadril, que deve ser sempre examinado, já que artrose de quadril pode se manifestar como dor no joelho.
A radiografia simples em ortostase (com carga) é o exame de imagem de escolha: feita em pé, revela a real redução do espaço articular que o exame deitado subestima. As incidências habituais são anteroposterior com carga, perfil e axial de patela (Merchant) para o compartimento femoropatelar. A ressonância magnética não é necessária de rotina e fica reservada a dúvidas específicas, como suspeita de lesão de menisco com bloqueio mecânico, osteonecrose ou quando se cogita cirurgia; pedida sem indicação, ela frequentemente mostra achados degenerativos esperados para a idade (rupturas degenerativas de menisco, condropatia) que não explicam necessariamente a dor e podem levar a tratamentos desnecessários.
A radiografia gradua o desgaste, mas quem define o tratamento é a sua dor e a sua função. Imagem avançada com pouca dor não obriga a operar; dor importante com pouco desgaste merece tratamento ativo mesmo assim.
Graus de Kellgren-Lawrence e a discordância entre imagem e dor
A gradação radiográfica mais usada é a escala de Kellgren-Lawrence, de 1 a 4, baseada em quatro achados objetivos: presença de osteófitos, redução do espaço articular (que reflete a perda de cartilagem), esclerose do osso subcondral e, nos graus avançados, deformidade do contorno ósseo. O grau não decide sozinho a conduta. A artrose grau 3, por exemplo, indica desgaste moderado a avançado e ainda assim é tratada de início pelo caminho conservador na grande maioria das pessoas.
| Grau | O que a radiografia mostra | O que costuma significar na prática |
|---|---|---|
| Grau 1 (duvidoso) | Osteófito mínimo duvidoso, espaço articular preservado | Artrose incipiente; foco em prevenção, exercício e controle de peso |
| Grau 2 (leve) | Osteófito definido, espaço articular ainda preservado | Dor com o uso; costuma responder bem ao tratamento conservador |
| Grau 3 (moderado) | Múltiplos osteófitos, redução evidente do espaço, esclerose subcondral, possível deformidade do contorno ósseo | Artrose grau 3: desgaste moderado a avançado, mas ainda manejada de início sem cirurgia |
| Grau 4 (grave) | Grandes osteófitos, espaço articular muito reduzido ou ausente, esclerose acentuada, deformidade evidente | Desgaste avançado; discute-se prótese se a dor for incapacitante e o conservador falhar |
Há um ponto que precisa de ênfase técnica: a correlação entre o grau radiográfico e a intensidade da dor é fraca. Estudos de base populacional mostram que muitas pessoas com alterações radiográficas claras de artrose não têm dor, e parte das pessoas com dor típica de artrose tem radiografia pouco alterada. Essa discordância tem explicação biológica: a cartilagem é avascular e aneural, ou seja, não dói por si mesma; quem gera dor são estruturas inervadas como o osso subcondral (sobretudo nas lesões de medula óssea vistas na ressonância), a sinóvia inflamada, a cápsula, os ligamentos e a musculatura periarticular, além da sensibilização central que se instala na dor crônica e amplifica o sinal no sistema nervoso.
Por isso o tamanho do osteófito ou o estreitamento do espaço articular não predizem com fidelidade o quanto alguém sofre. A consequência prática é direta: tratamos a pessoa, com seu nível de dor e de função, e não a radiografia.
Sobre o CID da gonartrose: na CID-10, a artrose do joelho é codificada na categoria M17 (gonartrose). O código se desdobra conforme a causa e os lados acometidos: a gonartrose primária bilateral costuma ser registrada como M17.0, a primária de um único joelho como M17.1, havendo ainda os códigos para as formas pós-traumáticas e secundárias. O código serve a registro, perícia e estatística, mas não muda o princípio do tratamento, definido pelo quadro clínico, e não pelo número do CID nem pelo grau na imagem.
“Tenho artrose grau 3 no joelho, então o desgaste é grave e só a prótese resolve.”
O grau descreve a imagem, não a sua dor nem a indicação cirúrgica. A maioria das pessoas com gonartrose grau 3 controla bem o quadro com exercício, fortalecimento, controle de peso e analgesia em ciclos. A prótese entra quando há dor incapacitante apesar de tratamento conservador completo.
Sinais de alerta
A dor da gonartrose é mecânica e crônica, mas alguns sinais sugerem que algo além da artrose precisa de avaliação sem demora, porque mudam a conduta. Procure atendimento se notar qualquer um destes:
Procure avaliação sem demora se houver
- Joelho muito quente, vermelho e inchado de forma aguda, com febre ou mal-estar, sugerindo artrite séptica (infecção, uma urgência) ou crise de gota.
- Inchaço importante e súbito após trauma, ou incapacidade de apoiar o peso e dar passos logo após a lesão.
- Bloqueio do joelho (fica “travado”, sem completar a extensão), que sugere lesão de menisco com fragmento livre (“alça de balde”).
- Instabilidade acentuada, com a sensação repetida de que o joelho vai falhar e sai do lugar.
- Rigidez matinal muito além de 30 minutos e acometimento simultâneo de várias articulações, que levantam suspeita de artrite inflamatória, como a artrite reumatoide.
- Dor que não alivia com o repouso, acorda à noite, ou perda de peso inexplicada, que pedem investigação adicional.
Cada item aponta para uma hipótese distinta: o joelho quente e inchado com febre é urgência (a artrite séptica precisa ser afastada com punção e análise do líquido sinovial); o bloqueio sugere problema mecânico de menisco; o padrão poliarticular e inflamatório aponta para reumatologia. Na ausência desses sinais, a gonartrose costuma responder bem ao tratamento conservador conduzido ao longo de semanas. O diagnóstico diferencial com a artrite inflamatória é discutido em artrite de joelho.
Tratamento da gonartrose na clínica: a base ativa e o arsenal multimodal
O tratamento da gonartrose é multimodal, não-cirúrgico e individualizado. As principais diretrizes internacionais (OARSI 2019, ACR 2019, NICE 2022) convergem num mesmo núcleo: exercício terapêutico, controle de peso e educação em saúde são a base e a primeira linha em qualquer grau de artrose, e as demais medidas se somam a essa base conforme a apresentação clínica e a resposta. Como não existe, hoje, técnica que comprovadamente regenere a cartilagem já desgastada, o objetivo não é apagar o achado da radiografia, mas reduzir a dor, recuperar função, devolver força e controle ao joelho e adiar ou evitar a cirurgia. A seção seguinte aprofunda a reabilitação ativa (fisioterapia, RPG e Pilates), o motor desse plano.
Exercício terapêutico
Fortalecimento de quadríceps e quadril, aeróbico de baixo impacto e treino neuromuscular. É o núcleo do plano em qualquer grau.
Controle de peso
Redução orientada no sobrepeso ou obesidade: cada quilo desonera a articulação de forma amplificada a cada passo.
Infiltração de corticoide
Injeção intra-articular para crise inflamatória com derrame; abre janela para avançar a reabilitação.
Viscossuplementação (ácido hialurônico)
Injeção intra-articular adjuvante em casos selecionados; modalidade debatida, indicação criteriosa.
Acupuntura e eletroacupuntura
Opção condicional/adjuvante para a dor, útil para reduzir o uso de anti-inflamatórios; conduzida por médicos com formação na área.
Agulhamento seco e pontos-gatilho
Trata o componente miofascial do quadríceps, adutores e panturrilha que se soma à dor articular.
Exercício terapêutico
- O que é
- Programa estruturado e progressivo de fortalecimento de quadríceps e da musculatura do quadril (glúteo médio e máximo), exercício aeróbico de baixo impacto (bicicleta, hidroginástica, caminhada tolerada) e treino neuromuscular (controle motor, equilíbrio e propriocepção), prescrito e progredido por profissional, um paciente por sala.
- Mecanismo
- O fortalecimento do quadríceps melhora a estabilidade dinâmica e distribui melhor a carga, contrapondo a inibição muscular artrogênica; o trabalho de quadril corrige o controle do valgo dinâmico que sobrecarrega o joelho; o movimento cíclico nutre a cartilagem avascular, que depende da embebição do líquido sinovial mobilizado pela carga; e o exercício reduz a sensibilização central à dor e o estado inflamatório de baixo grau.
- Evidência
- Forte É a intervenção com a evidência mais consistente de toda a artrose, recomendação forte de OARSI e ACR. Revisões sistemáticas (Cochrane) mostram efeito sobre dor e função comparável, no curto prazo, ao de anti-inflamatórios, com perfil de segurança muito superior. A magnitude é moderada e depende fortemente da adesão e da progressão da carga.
- O que esperar
- A resposta é gradual, ao longo de 6 a 12 semanas; o programa é mantido depois do alívio para preservar o ganho e reduzir recaídas. Um aumento transitório e tolerável da dor no início não contraindica continuar.
- Indicações
- Todas as pessoas com gonartrose, em qualquer grau, inclusive grau 3 e como pré-habilitação antes de eventual cirurgia.
- Limitações
- Exige adesão sustentada e progressão adequada; programas subdosados ou interrompidos cedo rendem pouco. Crises inflamatórias agudas pedem ajuste temporário da carga, não a suspensão do programa. A importância de não parar de se mexer está em a importância do exercício se você tem artrite.
Infiltração intra-articular de corticoide
- O que é
- Injeção de corticoide (associado a anestésico local) dentro da articulação do joelho, por vezes guiada por ultrassom, sobretudo quando há derrame.
- Mecanismo
- Potente efeito anti-inflamatório local, que reduz a sinovite e o derrame e, com isso, a dor.
- Evidência
- Moderada Alívio de curto prazo bem documentado, em geral por poucas semanas, útil em crises inflamatórias com derrame; o benefício a longo prazo é limitado.
- O que esperar
- Alívio em dias, que abre uma janela para avançar a reabilitação; é procedimento pontual e espaçado, não repetido com frequência.
- Indicações
- Crise inflamatória com derrame, ou dor que não cede ao plano de base, como ponte para progredir o exercício.
- Limitações
- Efeito transitório; infiltrações repetidas e frequentes são desaconselhadas; contraindicada em suspeita de infecção articular; cuidado em diabéticos (eleva a glicemia por alguns dias).
Agulhamento seco e infiltração de pontos-gatilho
- O que é
- No agulhamento seco, uma agulha é inserida diretamente no ponto-gatilho miofascial, sem injeção de substância; na infiltração, injeta-se anestésico local no ponto resistente.
- Mecanismo
- No joelho artrósico, o quadríceps (sobretudo o vasto medial), os adutores e a panturrilha costumam abrigar pontos-gatilho que acrescentam uma dor muscular à dor articular e alimentam o ciclo de dor, espasmo e mais dor. A agulha no ponto-gatilho desfaz a banda muscular tensa e reduz a hiperatividade da placa motora e os mediadores álgicos locais, baixando a dor miofascial que se somava à da artrose. É um trabalho no músculo periarticular, e não na cartilagem.
- Evidência
- Moderada Boa evidência para a dor miofascial em geral. Quando o joelho artrósico tem pontos-gatilho ativos na musculatura ao redor, tratá-los ajuda a separar quanto da dor vinha do músculo e quanto vinha da articulação.
- O que esperar
- Parte das pessoas sente alívio da dor muscular já na sessão; em outras, ele aparece nos dias seguintes, com um incômodo leve no local por um a dois dias. O ganho costuma ser usado para avançar o fortalecimento do quadríceps com menos dor.
- Indicações
- Componente miofascial associado à gonartrose, com pontos-gatilho na musculatura ao redor do joelho.
- Limitações
- Dor local transitória, equimose; cautela em anticoagulados; é adjuvante da base ativa, não tratamento do desgaste em si.
As demais modalidades de base e adjuvantes completam o plano.
Controle de peso
A força de reação articular no joelho equivale a cerca de 3 a 4 vezes o peso corporal a cada passo; perdas a partir de cerca de 5% do peso melhoram dor e função, e reduções de 10% ou mais associadas a exercício trazem benefício clínico relevante. Isoladamente, sem fortalecimento, rende menos, e a perda sustentada exige acompanhamento.
Viscossuplementação com ácido hialurônico
Modalidade debatida, com diretrizes que divergem e metanálises heterogêneas: alívio de pequena magnitude, mais lento e potencialmente mais duradouro que o do corticoide, indicada de forma criteriosa em casos selecionados de artrose leve a moderada que não respondem o suficiente ao plano de base, com dor e derrame transitórios pós-injeção (detalhes em infiltração com ácido hialurônico).
Acupuntura médica e eletroacupuntura
Opção condicional/adjuvante para a dor da gonartrose, com benefício de magnitude pequena a moderada, úteis sobretudo quando se busca reduzir o uso de anti-inflamatórios ou quando há componente miofascial associado; cautela com anticoagulação, e não agem sobre o desgaste já instalado nem dispensam o fortalecimento (detalhes em acupuntura no joelho).
Controle inicial
Reduzir a sobrecarga e a inflamação aguda, ajustar a atividade e iniciar mobilidade e ativação do quadríceps, mantendo-se ativo. Anti-inflamatório tópico, se necessário.
Progressão
Fortalecimento progressivo de quadríceps e quadril, exercício aeróbico, controle de peso e técnicas em clínica; a dor costuma começar a ceder e a função a melhorar.
Reavaliação
Sem a resposta esperada, revê-se o plano: consideram-se infiltração de corticoide, viscossuplementação em casos selecionados ou encaminhamento ao ortopedista.
Medimos a intensidade da dor numa escala de 0 a 10 e índices de função específicos do joelho, que medem o quanto a dor e a rigidez limitam as atividades, além do retorno à rotina e da força do quadríceps. Se em algumas semanas a dor não cede e a força do quadríceps não sobe, a pergunta passa a ser por quê: a carga do exercício está subdosada, há um componente miofascial não tratado, uma crise inflamatória pede uma infiltração de corticoide para abrir janela, ou o caso já é de avaliação cirúrgica. O plano muda conforme essa resposta. A meta é reduzir a dor a um nível que não limite a vida e fortalecer o joelho para tolerar a carga, e não fazer desaparecer da radiografia um desgaste já instalado: a gonartrose é uma condição crônica, e o objetivo é o controle dos sintomas e a recuperação da função.
O medicamento entra nesse plano com papel adjuvante e sintomático: alivia a dor para viabilizar o exercício, mas não substitui a base ativa nem modifica o desgaste. O anti-inflamatório tópico (como o diclofenaco em gel) é a primeira linha medicamentosa nas diretrizes, pela boa eficácia local e baixa absorção sistêmica; o anti-inflamatório oral fica para crises, em ciclos curtos e na menor dose eficaz, com atenção aos riscos gástrico, renal e cardiovascular, sobretudo no idoso; o paracetamol tem benefício pequeno isolado, e a duloxetina é opção quando há sensibilização central. A indicação, a dose e a duração são definidas pelo médico assistente.
A cirurgia ocupa o fim do caminho, não o início, e não é realizada em nossa clínica, que é de medicina física, dor e reabilitação não-cirúrgica. A artroplastia (prótese) do joelho é considerada, com encaminhamento ao ortopedista, quando há dor incapacitante e persistente apesar de um tratamento conservador completo e prolongado, com desgaste avançado coerente com os sintomas; a decisão é compartilhada e pesa sobretudo os sintomas e a função, com o grau na radiografia como dado a mais, nunca como gatilho isolado. Vale registrar que a artroscopia de lavagem e desbridamento não é indicada para a artrose em si.
A maior parte do que se lê sobre artrose de joelho trata a cartilagem como uma peça que se gasta e manda poupar o joelho, descansar e esperar a prótese. É o conselho errado. A cartilagem é avascular e aneural: ela não dói e não se nutre por conta própria, depende da carga cíclica que a embebe de líquido sinovial. Quem dói é o osso subcondral, a sinóvia inflamada e a musculatura ao redor, e o que protege a articulação não é o repouso, e sim um quadríceps forte. O carregamento bem dosado fortalece justamente os músculos que estabilizam e amortecem o joelho. Soma-se a isso um fato pouco dito: a gravidade na radiografia tem correlação fraca com a dor, de modo que um “grau 3” no laudo não condena ninguém à cirurgia.
São observações do consultório. O medo mais comum é o de que mexer “vai acabar de gastar” o joelho; é o oposto, e quando a pessoa entende que o exercício protege a articulação, em vez de consumi-la, a adesão muda. A alavanca prática quase sempre é a força do quadríceps: enquanto ele está fraco e inibido, a dor e a sensação de que o joelho falha persistem, mesmo com bom controle anti-inflamatório.
Dois pontos costumam surpreender. O primeiro é o descompasso entre a imagem e o sintoma: há quem chegue assustado com um laudo de artrose avançada e pouca dor, e quem sofra muito com uma radiografia discreta. O segundo é a dor que parece da articulação, mas vem do músculo: pontos-gatilho no quadríceps, nos adutores e na panturrilha doem de um jeito que imita a dor articular, e ao tratá-los separa-se quanto da queixa era miofascial e quanto era do próprio desgaste, o que muda o rumo do tratamento.
Tratamento não farmacológico: RPG, Pilates e fisioterapia
Se o exercício terapêutico é o motor do tratamento, a reabilitação ativa é o lugar onde esse motor é construído. As diretrizes recomendam que o exercício seja supervisionado, individualizado e progressivo, e é exatamente esse acompanhamento que diferencia um programa que muda o curso da dor de uma rotina genérica que se abandona em poucas semanas. Vale um ponto técnico que costuma frustrar quem busca atalhos: nenhuma destas abordagens regenera a cartilagem nem corrige o osteófito; o que elas fazem, e com boa evidência, é devolver força, controle motor e confiança ao joelho, reduzir a dor e a sensibilização e melhorar a função. Todas se acomodam dentro do mesmo plano multimodal e não-cirúrgico, sempre com a base de fortalecimento e controle de peso descrita acima, e são conduzidas na clínica.
Fisioterapia e cinesioterapia supervisionadas
Reabilitação ativa conduzida e progredida por profissional, com a cinesioterapia no centro: fortalecimento do quadríceps (ênfase no vasto medial), dos glúteos médio e máximo e da musculatura do quadril, treino aeróbico de baixo impacto e exercício neuromuscular de equilíbrio, propriocepção e controle do valgo dinâmico. O ganho de força contrapõe a inibição muscular artrogênica e distribui a carga; o controle do quadril reduz o colapso em valgo; a carga cíclica nutre a cartilagem avascular; e a exposição graduada ao movimento dessensibiliza o sistema nervoso.
O que esperar: resposta gradual em 6 a 12 semanas, com programa mantido depois do alívio.
Indicações: qualquer grau, inclusive grau 3, e como pré-habilitação.
Limitações: depende de adesão sustentada; programas subdosados ou interrompidos cedo rendem pouco, e crises agudas pedem ajuste da carga, não a suspensão do plano.
Reeducação postural global (RPG)
Método que trabalha o corpo em cadeias musculares por posturas de alongamento ativo global sustentado, combinadas a contração isométrica e excêntrica e ao controle da respiração. Na gonartrose, encurtamentos da cadeia posterior (isquiotibiais, panturrilha) e do reto femoral, somados a desequilíbrios do quadril e do tornozelo, alteram o alinhamento funcional e a distribuição de carga; o objetivo é melhorar a mecânica de marcha e a sobrecarga articular, não corrigir um eixo ósseo já estruturado.
O que esperar: ganhos progressivos de mobilidade e conforto ao longo de semanas.
Indicações: encurtamentos e desequilíbrios posturais relevantes, rigidez e tensão em cadeias.
Limitações: literatura de menor volume que a do fortalecimento; melhor como complemento à cinesioterapia, não isolada; posturas sustentadas podem ser desconfortáveis no início.
Pilates clínico
Exercício terapêutico baseado no método Pilates, adaptado e supervisionado por profissional de saúde, com foco em controle motor, ativação do core, estabilização e movimento controlado, no solo ou em aparelhos com molas que graduam a resistência e dão apoio. As molas permitem treinar fortalecimento e controle do valgo dinâmico em pessoas com dor ou medo de carregar a articulação, servindo de ponte para a cinesioterapia mais exigente.
O que esperar: melhora de força, controle e função ao longo de semanas, com boa adesão por ser de baixo impacto.
Indicações: artrose leve a moderada, pessoas que toleram mal o impacto ou se engajam melhor com o método.
Limitações: não substitui o fortalecimento progressivo específico; exige supervisão qualificada e adaptação ao joelho artrósico, evitando amplitudes e cargas que provoquem dor femoropatelar.
Terapia manual
Técnicas aplicadas pelas mãos do fisioterapeuta, como mobilização articular, técnicas de tecidos moles e liberação miofascial da musculatura periarticular (quadríceps, adutores, panturrilha). Efeito predominantemente analgésico e neurofisiológico de curta duração, que abre uma janela de menor dor para o paciente exercitar com mais qualidade.
O que esperar: alívio de curta duração e ganho transitório de amplitude, aproveitados para progredir o exercício.
Indicações: rigidez e dor que dificultam iniciar ou progredir o exercício, componente miofascial associado.
Limitações: efeito transitório; benefício quando combinada ao exercício, não isoladamente; deve estar acoplada a um programa ativo para não criar dependência de tratamento passivo.
Dois recursos físicos completam o quadro com expectativa calibrada. Medidas de educação e autogestão (orientação sobre carga, ritmo das atividades, calçado adequado e uso pontual de bengala no lado oposto à dor, que reduz a força sobre o joelho acometido) têm boa relação custo-benefício e sustentam a adesão. Recursos eletrotermofototerápicos (TENS, calor, laser de baixa intensidade) podem oferecer alívio sintomático adjuvante, de magnitude modesta e variável, e nunca substituem o exercício.
A palmilha lateralizada e a joelheira têm evidência fraca e papel, no máximo, acessório e individualizado. O fio condutor permanece o mesmo: recursos passivos servem para viabilizar o trabalho ativo, que é o que de fato muda o prognóstico.
Referência reconhecida em dor
A clínica é um Centro de Dor listado pela Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) e um Centro de Tratamento por Ondas de Choque listado pela SMBTOC, e é listada pelo CMBA (Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura).
Perguntas frequentes
A fisioterapia ajuda mesmo na artrose de joelho?
Sim. O exercício terapêutico e a fisioterapia são a primeira linha de tratamento da gonartrose, com a evidência mais consistente de toda a artrose e recomendação forte de OARSI e ACR, em qualquer grau. O fortalecimento do quadríceps e do quadril, o exercício aeróbico e o treino neuromuscular reduzem a dor e melhoram a função, com efeito comparável ao dos anti-inflamatórios no curto prazo e segurança muito maior, e costumam adiar ou evitar a cirurgia. A resposta é gradual, ao longo de 6 a 12 semanas, e o programa é mantido depois do alívio.
Qual o melhor exercício para joelho com artrose?
Não existe um único exercício mágico; o que funciona é um programa que combine fortalecimento de quadríceps e da musculatura do quadril, atividade aeróbica de baixo impacto (bicicleta, hidroginástica, caminhada tolerada) e treino neuromuscular de equilíbrio e controle. O alongamento de isquiotibiais e panturrilha é um complemento, não a base. O ideal é que o programa seja prescrito e progredido por um profissional, ajustado ao seu caso, e mantido com regularidade, porque o benefício depende da adesão e da progressão da carga.
Artrose grau 3 no joelho precisa de cirurgia?
Na maioria das vezes, não de imediato. O grau na radiografia descreve o desgaste, mas não decide sozinho a conduta, e a correlação entre o grau e a dor é fraca. Muita gente com artrose grau 3 controla bem a dor com exercício, fortalecimento, controle de peso, anti-inflamatório em ciclos e procedimentos como infiltração e acupuntura. A prótese é considerada quando a dor é incapacitante e persiste apesar de um tratamento conservador completo, e a decisão leva em conta sobretudo os sintomas e a função, com a imagem como dado complementar.
Qual é o CID da gonartrose de joelho?
No CID-10, a artrose do joelho fica na categoria M17 (gonartrose). O código se desdobra conforme a causa e os lados: a forma primária bilateral costuma ser M17.0, a primária de um joelho M17.1, havendo ainda os códigos para gonartrose pós-traumática e secundária. O CID serve para registro e perícia, mas o código não muda o tratamento, que é definido pelo quadro clínico.
Glicosamina e condroitina funcionam para artrose?
A evidência é fraca e inconsistente. Grandes ensaios clínicos e metanálises não confirmaram benefício confiável da glicosamina e da condroitina sobre a dor ou a progressão da artrose acima do placebo, e por isso diretrizes como a do American College of Rheumatology não as recomendam de rotina. Se usadas, devem ser parte acessória de um plano cujo núcleo é o exercício e o controle de peso, e nunca a sua principal estratégia. A decisão deve ser conversada com o médico.
A artrose do joelho tem cura?
A gonartrose é uma condição crônica e, hoje, não existe técnica que comprovadamente regenere a cartilagem já desgastada. Isso não significa conviver com dor sem solução: o objetivo do tratamento é controlar a dor, recuperar a função e fortalecer a articulação, o que é alcançável na grande maioria dos casos com a abordagem multimodal. O foco é o controle dos sintomas e a qualidade de vida.
Posso continuar a caminhar e fazer exercício com gonartrose?
Sim, e o exercício é justamente a base do tratamento. O repouso prolongado piora a artrose, porque enfraquece o quadríceps que protege a articulação. A escolha recai sobre atividades de menor impacto (caminhada tolerada, bicicleta, hidroginástica) e fortalecimento progressivo, ajustados ao seu caso por um profissional. Um leve aumento da dor no início, que passa, não contraindica continuar; dor aguda e crescente, sim, pede reavaliação.
Resumos em linguagem clara de estudos revisados pelo Dr. Marcus Yu Bin Pai.
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Referências2 fontes citadas neste artigoVerOcultar
- Conselho Federal de Medicina (CFM). Resoluções sobre publicidade médica e conduta ética. Brasília: CFM.
- Atalay et al. The Effect of Acupuncture and Physiotherapy on Patients with Knee Osteoarthritis: A Randomized Controlled Study. Pain Physician. 2021.
Este conteúdo tem finalidade educativa e não substitui a avaliação médica individual. Dois joelhos no mesmo grau de Kellgren-Lawrence podem doer e responder de formas muito diferentes, e o plano para a gonartrose, da dose de exercício à indicação de infiltração ou de cirurgia, precisa ser individualizado após exame presencial.
